Conversa
de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) –
5/7/1980 – Sábado [AC II ‑ 80/7.02] – p.
Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) — 5/7/1980 — Sábado [AC II ‑ 80/7.02]
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Diante da desmontagem da sociedade contemporânea, um clima para se esperar ações miraculosas da Providência * Charge de João Paulo II movendo o Terceiro Mundo desde o Brasil — Diante da desmontagem, o Brasil aflora como potência capaz de decidir * Elias estando vivo, o problema do desdobramento de sua personalidade e de sua alma em outros — Exemplo de Santo Eliseu e São João Batista* Ver e aceitar o prisma que o Fundador mostra para poder fazer a Contra-Revolução * Reaver este prisma é uma graça que pode ser comparada à de São Paulo ao cair do cavalo * A unidade entre Eliseu e Elias só podia resultar de um prisma único * Como criar condições para reaver o prisma perdido? * As conseqüências sobre o Thau de quem vê o prisma e não o ama * Um qual equilíbrio e uma qual seriedade que tornam o indivíduo eminentemente seletivo em tudo * Como é o espírito seletivo do Sr. Dr. Plinio no trato com os diferentes membros do Grupo * Apesar desta seleção no trato, a indiferença piramidal que parte dos veteranos em relação aos predicados do Sr. Dr. Plinio * Esta indiferença está ligada a uma antipatia ao prisma — A visão direta que os “enjolras” têm do prisma * Inerente ao prisma, uma convicção estável de que por detrás de todas as coisas existe uma terceira dimensão, magnífica e meio invisível * A indiferença que há dentro do Grupo em relação aos predicados do Sr. Dr. Plinio é semelhante à dos judeus diante dos milagres de Nosso Senhor “Essa indiferença atinge diretamente o primeiro Mandamento e enferruja todo o resto da vida espiritual”
Índice
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* Diante da desmontagem da sociedade contemporânea, um clima para se esperar ações miraculosas da Providência
A matéria conversada no sábado passado entrou por muito na reunião do décimo aniversário do Êremo de Elias, para os camaldulenses.
(Dr. Edwaldo Marques: E também a visita de João Paulo II como se configurou é um sinal possante.)
As duas coisas mostram muito a chegada de uma determinada situação. Vamos ver, naturalmente, por onde a coisa evolui.
(…)
…intercessão a Nossa Senhora para Ela agir de modo extraordinário junto a nós se põe também. O clima ou nível de plano da Providência em que se podem e devem esperar ações miraculosas ou “paramiraculosas” entra muito mais daqui para diante, à medida em que a desmontagem concreta da sociedade contemporânea passa para o fato.
* Charge de João Paulo II movendo o Terceiro Mundo desde o Brasil — Diante da desmontagem, o Brasil aflora como potência capaz de decidir
(Dr. Edwaldo Marques: O “Jornal do Brasil” trouxe uma “charge” de João Paulo II com uma alavanca mexendo o Terceiro Mundo, tendo como ponto de apoio o Brasil. Se tirasse o Terceiro Mundo e ficasse simplesmente o mundo estaria mais correto.)
Quem move o Terceiro Mundo, hoje em dia, move o mundo! Porque é a potência de desempate. Falando em conversa de “terceira pista”, é a potência de desempate.
Então, na hora exata em que começa a desmontagem, o [Brasil] aflora como potência capaz de decidir. Não é uma potencia inegavelmente decisiva em quaisquer circunstâncias, mas é uma potência capaz de decidir, que pode ter voz decisiva em determinadas circunstâncias. Isso já é uma coisa tão diferente do que era o panorama do qual nós falávamos há um ano atrás sobre nosso próprio papel. Nós parecíamos tão pequenos neste Brasil em face do mundo, que isto é para nós altamente estimulante.
* Diante do dinamismo da troca de panoramas, o recurso ao milagre se torna mais obrigatório
Agora, volto ao caso, aí a gente deve viver a interferência da Providência. Então entra a Providência fazendo nossos adversários contarem isso.
(…)
… faz parte do papel conservador de D. Eugênio Sales. Agora, mesmo as autoridades meramente civis portam‑se diante da Igreja, hoje em dia, como criança que está com medo de tomar pito.
Tudo isso são coisas que já vinham se preparando. Não são fatos que estão aparecendo de surpresa, de um momento para outro, vinham se preparando. Mas cresceram de vulto de repente. Agora, cresceram de vulto de repente.
Nós entramos numa fase de dinamismo diferente e em que também — eu volto a dizer — o recurso ao milagre se torna mais obrigatório, porque nós somos inteiramente desproporcionados com o que vem. Como força, somos.
Então nós temos que pedir a Nossa Senhora acontecimentos, intervenções d’Ela que estão, não digo fora da ordem natural, mas disfarçados por detrás da ordem natural, intervenções extraordinárias. Nós temos que pedir a Ela. O que é a véspera do dia em que a gente tem que pedir o milagre‑milagre! Quer dizer, de, por exemplo, nascer uma flor aqui!
* Elias estando vivo, o problema do desdobramento de sua personalidade e de sua alma em outros — Exemplo de Santo Eliseu e São João Batista
Isso no que diz respeito à intercessão de Elias Profeta, tem um aspecto curioso:
Elias estando vivo, a gente poderia levantar o problema curioso dos desdobramentos de personalidade e de alma de Elias e, com isso, entrar um pouquinho no estudo de outros temas…
(…)
… Nosso Senhor disse de São João Batista que ele era Elias. A interpretação corrente é de que ele fazia o papel análogo ao que Elias tinha feito. Uma interpretação verdadeira. Mas resta saber qual é a energia desta frase. Se não queria dizer que São João Batista tinha, tanto quanto Elias, ou talvez mais que Elias, o espírito de Elias.
Entre Elias e Eliseu houve um desdobramento de espírito que inegavelmente é um fato muito mais enérgico que o comum da relação discípulo-mestre. Não teria havido um fato assim entre Elias e São João Batista, uma vez que Nosso Senhor disse que ele era Elias?
Então nós poderíamos nos perguntar de que natureza são esses desdobramentos de espírito de que o manto é um símbolo — o escapulário, portanto, é um símbolo — e o que se passa afinal.
(…)
* “O modo pelo qual a Revolução se serve dos últimos pormenores para desenvolver a sua causa”
… a unidade, a universalidade da Revolução, continuidade através dos séculos, etc., tem.
Por exemplo, o modo pelo qual a Revolução se serve dos últimos pormenores para desenvolver a sua causa.
Por exemplo, houve um momento em que aquele vaso cor‑de‑rosa foi revolucionário. Ele hoje desempenha uma ação contra‑revolucionária, mas houve um momento em que ele foi um vaso revolucionário. Porque tudo que está aqui foi revolucionário. Tudo nessa sala é revolução congelada, atrasada. Portanto, tem uma razão de Contra‑Revolução. Não há o que não tenha, a não ser…
(…)
…e quand même! Porque não deixa de ser verdade que ela não está vestida à Idade Média, [que] era o traje contra‑revolucionário propriamente dito.
Mas a Revolução soube ver nas últimas das coisas, num vaso, num xale, num bibelot, num tapete, num aquecedor, ela soube ver com toda precisão a marca própria a ela. E nesse ponto, todos estiveram unidos com a união que descrevi há pouco. E trata‑se de achar que nós deveríamos ser unidos da mesma maneira para poder fazer eficazmente a Contra‑Revolução. O que não é real! Não estamos assim.
* Ver e aceitar o prisma que o Fundador mostra para poder fazer a Contra‑Revolução
Para que os elementos da Revolução tivessem uma união desse conteúdo, era necessário que eles tivessem, evidentemente, um prisma para onde se colocar para ver tudo. Prisma a partir do qual todos viam esta coisa do mesmo jeito, embora não tomando em consideração certas diferenças pessoais sem conotação com o problema Revolução e Contra‑Revolução. Como seria a questão do vinho de que nós falávamos há pouco.
Aí eu seria levado a dizer o seguinte:
Eu, por várias formas, tento fazer ver qual é esse prisma. Eu tenho esse prisma implícito no espírito, não sabendo embora explicitá‑lo, mas tento fazê‑lo ver. E noto uma oposição sistemática exatamente nesse ponto! As pessoas vão me acompanhando no que eu digo, etc., mas face ao prisma elas aceitam e rejeitam. [Há] alguma coisa do prisma que as entusiasma, e há outras coisas no prisma que as enxota. Ou por outra, que isso as convida, mas elas recusam o convite.
Portanto, o restabelecimento das coisas nos seus gonzos, pediria que diante desse prisma fosse tomada uma atitude que consistiria em ver e aceitar.
* Reaver este prisma é uma graça que pode ser comparada à de São Paulo ao cair do cavalo
Esse não ver e não aceitar ocorrem em função de uma incompatibilidade primeira, por onde todos ainda estão aderentes à Revolução. E naturalmente têm culpa por estar aderentes, porque isso importa em graças recusadas.
Há aqui um ponto interessante: o tendo fechado os olhos a esse prisma, poder reavê‑lo é uma graça que pode ser comparada à de São Paulo caindo do cavalo no caminho de Damasco. É uma graça extra que deve ter algo de fulminante. Não pode ser vista como puro desenvolvimento, à maneira de reconquista do território que foi perdido.
Por que é que isso é assim? Por causa da própria natureza das coisas, esse prisma é intuitivo. Não se trata de demonstrá‑lo, mas trata‑se de vê‑lo. E uma visão, ou se recupera de uma vez por todas, ou não existe visão! Uma visão deste jeito, uma intuição deste jeito.
Por causa disso, se trataria de numa conversa ver qual é o ponto impugnado, o ponto de antipatia.
* A unidade entre Eliseu e Elias só podia resultar de um prisma único
Veja, por exemplo, Elias e Eliseu. Seria uma blasfêmia admitir que Eliseu ficou um zumbi nas mãos de Elias. Seria uma blasfêmia, seria contra a dignidade humana, contra a dignidade do católico, etc., admitir uma coisa dessas. Era, portanto, com as potências de sua alma que Eliseu pensava tudo e queria tudo como Elias pensava e queria.
Agora, uma tal unidade só pode resultar de um prisma único! Portanto, era nesse prisma único que Elias conseguiu que Eliseu ficasse como que confirmado em graça.
É uma coisa tão evidente… porque se fossem vários prismas não podia haver unidade. A não ser a unidade degradante do zumbi, mas isso não é santidade. O homem deve conhecer a Deus por sua própria mente, não com a mente de um outro. Deve amá‑Lo com sua própria vontade, não com a vontade de um outro.
De maneira que o que se trata é de um certo ponto em que a alma vendo as coisas de um determinado jeito, todos os que se colocam nesse prisma vêem do mesmo jeito. Digamos isso assim.
* Como criar condições para reaver o prisma perdido?
Qual é o ponto desse prisma? No que consiste esse prisma?
Se a gente conseguisse, à força de conversar, definir no que consiste esse prisma, ainda assim não se teria readquirido o prisma. Mas poderia nascer umas saudades, poderia nascer uma contrição, um ato de humildade que criasse condições para a graça nos vir. E é disso que se trata especificamente.
Então, caber‑lhes‑ia especificar isto por meio de um bate‑bola. Caber‑nos‑ia especificar isto por meio de um bate‑bola. Sendo que há uma coisa singular dentro disso: aí a gente vê o papel da graça e da vontade nisso.
* As conseqüências sobre o Thau de quem vê o prisma e não o ama
Há almas de um Thau absolutamente extraordinário, hors série, que vêem isso e não amam. O resultado é que o Thau fica meio inútil ou mofa nelas. A tal ponto não se confunde aqui o ver com o querer.
Volto ao problema: qual é essa questão?
E eu indico uma coisa que não quero dizer que seja o cerne da questão, mas é a pista. É a coisa mil e mil vezes falada, que é a grandeza séria com ornato sério…
(…)
* Um qual equilíbrio e uma qual seriedade que tornam o indivíduo eminentemente seletivo em tudo
… é uma certa forma, um certo equilíbrio dentro da seriedade, o qual equilíbrio e a qual seriedade tornam o indivíduo assim eminentemente seletivo. Em tudo! Seletivo nas idéias, seletivo nas pessoas, seletivo no classificar ou catalogar qualquer coisa, etc. É uma alma eminentemente seletiva.
Agora, nós poderíamos nos perguntar se as manifestações desse espírito seletivo nos interessam, se elas, em primeiro lugar, são evidentes; em segundo lugar, se elas atraem nossa complacência ou não nos interessam, ou até se mostram enfadonhas.
E aqui estaria… eu não quero dizer que esteja nem não esteja tudo, mas se não estiver tudo, está um ponto que orienta muito a pesquisa. Tanto mais que é uma forma de seleção que o homem de hoje abomina, que é uma forma de seleção colocando as pessoas, ao mesmo tempo, muito longe e muito perto. De maneira que a pessoa se sente invulgarmente perto, mas sente‑se ao mesmo tempo invulgarmente longe, em virtude desse seletivo. E eu tenho a impressão que isso produz birras, não sei o que isso produz, mas que o ponto toca aqui.
Começa por aí: se notam bem o caráter seletivo.
(…)
* Como é o espírito seletivo do Sr. Dr. Plinio no trato com os diferentes membros do Grupo
… quem fala em seletivo, fala em exclusão, fala em preferência e exclusão. Mas, de outro lado, é verdade que este espírito é eminentemente aproximativo.
Por exemplo, eu tenho a impressão que não são muitos os homens de minha idade que fazem respeitar do mesmo modo que eu a própria idade. Acho que são menos numerosos ainda aqueles que tendo a minha idade, têm com muito mais moços, às vezes com “pingurras”, um relacionamento que por algum lado é de igual e igual. De maneira que as categorias de avô e de amigo quase que se fundem.
Por exemplo, uma reunião no Auditório São Miguel. Aquilo é uma reunião feita para meninos. Mas embora feita para meninos, eu não desço ao nível dos meninos. Eles é que sobem. E o tempo inteiro fica marcado que eu sei que é para meninada que estou falando e qual é a distância que há entre nós.
Por exemplo, o modo de eu tratar os mais veteranos do Grupo e os mais novos é uma seleção pronunciada em favor dos veteranos. Mais respeito, mais atenção, distinguindo mais, etc. É protuberante. Só aquele sistema de colocar os veteranos mais perto de mim no alardo, dar a mão aos veteranos mais ou menos na ordem da “veteranidade”, e depois para os outros um cumprimento genérico, só isso quanta coisa quer dizer!
Mas, de outro lado, é bem certo que dou um acesso aos “enjolras” para terem uma forma de união e de contato de alma comigo que, como os veteranos não se prestam a isso, é de minha parte muito maior com eles do que com os veteranos.
Outra coisa — meio instintivamente, porque neles tudo é instintivo — eles notam. Isso é positivo. Notam e gostam. Tanto é que vão para o alardo para isso.
* Apesar desta seleção no trato, a indiferença piramidal que parte dos veteranos em relação aos predicados do Sr. Dr. Plinio
Essa atitude dos veteranos perante isso tem como contragolpe a posição deles em relação a mim, marcada por uma outra contradição, que é, de um lado, uma semi-fidelidade que em seus elementos de fidelidade é comprovada ao longo dos anos de vida e de inegáveis serviços. Depois não são — salvo um caso ou dois — de mera recordação, são de serviços efetivos, atuais, etc.
De outro lado, é evidente que eles me colocam na lista das pessoas com quem eles se relacionam, num lugar especial. Isso é uma coisa evidente. Mas tem uma indiferença para com os predicados que eu possa mostrar que é simplesmente piramidal. Não que eles os contestem, mas não lhes dizem nada, não lhes tocam.
(…)
… as pessoas têm a maior admiração! Digo não. A admiração envolve amor, envolve serviço. Eu não vejo isso. Ou vejo pouco, vejo pouco, de modo muito fumaçado, muito incompleto.
Bom, quantas outras coisas assim poderiam ser mencionadas, diante das quais há um reconhecimento de certos atributos, mas ao pé‑da‑letra: um artigo de um tipo no O Estado de S. Paulo ou uma declaração de Nixon comportam o indivíduo em acreditar no que eu digo.
* Esta indiferença está ligada a uma antipatia ao prisma — A visão direta que os “enjolras” têm do prisma
Não sei se percebem que há um ponto qualquer nisto, um unum nesses atributos que nos deixa completamente indiferentes. O unum é exatamente o tal ponto de observação, o tal prisma. Está ligado com uma antipatia nossa ao prisma.
(…)
(Sr. George Antoniadis: Os “enjolras” vêem isso, esses dons sobrenaturais e naturais, especialmente os sobrenaturais, e admiram com sinceridade!)
A eles há melhor ainda. É que como eles são “enjolras”, eles não chegam a aquilatar bem até que ponto isso é extraordinário. É tal a “enjolrice” deles…
(Sr. George Antonidis: Nisso eles nos ensinam…)
É que eles vêem o prisma, diretamente. E nós nem com sintomas de prisma achamos extraordinário. Teoricamente extraordinário sim, mas uma coisa que não move.
Por exemplo, a reunião de hoje à noite eu senti muito isso. Foi, como você deve ter percebido, totalmente improvisada, eu ia falando e improvisando na hora. Eu percebia que eles tinham a noção vaga de que a idéia ia nascendo na minha cabeça à medida que eu falava, e que a coisa estava sendo pensada naquela ordem pela primeira vez quando eu falava. Havia uma espécie de permuta por assim dizer de alma no fato de eles verem eu elucubrar na hora e a idéia nascer na cabeça deles na hora. E ambos estávamos admirando juntos, na hora, a mesma idéia pela primeira vez.
* Para sair dessa repulsa ao prisma, é preciso conhecê‑la, definí‑la e pedir uma graça
(Dr. Edwaldo Marques: As manifestações de entusiasmo deles sugere a idéia que eles vêem um jorro de fogos de artifícios que saem do senhor e aí admiram.)
Agora, nós olhamos para o fogo de artifício mais ou menos como um velho completamente blasé da vida que olha para o fogo de artificio, muito bonito: “Bom, isso é.. . [ininteligível]… mais um”. Mas não move.
Atitude essa, da parte dos velhos, a qual eu sempre tive horror!
Depois tosse ruidosamente, com um mundo de bronquites, e comenta para o outro que também sofre de bronquites:
— Seu fulano, esse ano está duro, hein?
O outro diz:
— Ó… não queira saber o que são minhas noites. Ainda bem que tenho um cobertor de pelo de camelo.
— Não, mas olha eu tenho vicunha.
Agora, nossa posição é do velho. É inteiramente a do velho.
Eu dou um exemplo.
Nas repercussões dos Êremos Itinerantes, lá no Êremo de Amparo de Nossa Senhora, uma “fassura” dizia: “Eu leio os artigos de Dr. Plinio, detesto‑os, mas não perco um”. Era uma comunistóide ou comunista, naturalmente.
Bom, é o contrário aqui: não se lê meus artigos, mas gosta‑se muito deles… Mas de fato não se lê quase nenhum. Tive ainda uma comprovação nesse último artigo que saiu: muito poucos comentários e ninguém — ao menos que me lembre — dentro do Grupo comentou que vinha a matéria mencionada na primeira página.
Quer dizer, artigo ao qual a “Folha” deu uma importância especial, ninguém se perguntou porque é que esse artigo tinha importância especial, nem me perguntou nem me contou. Se não fosse minha irmã me dizer, eu não saberia.
A minha irmã é uma senhora, logo não está a par dessas coisas de imprensa. Senhora sabe pouco disso, de outro lado tem mentalidade oposta a nós.
Então se disserem: “O artigo de Dr. Plinio está formidável”, eles já vão concordando sem terem lido, mas não causa… não atrai. Se não atrai, repele.
O que é que em nós leva a repelir? E como sair dessa repulsa?
Conhecendo‑a, sendo capaz de defini‑la e pedindo uma graça.
* “Por que os mais velhos são sensíveis a serem meio recusados por mim e não são sensíveis a serem aceitos por mim?”
(Dr. Edwaldo Marques: Os “enjolras” se sentem fora do mundo aí fora e na parte boa deles aceitos pelo senhor e vão por aí. E os mais velhos se sentem meio aceitos fora, e repulsa do senhor pelo lado ruim deles.)
Mas ficam duas perguntas. Uma primeira é:
Por que os mais velhos são sensíveis a serem meio recusados por mim e não são sensíveis a serem aceitos por mim? No que são aceitos, como ninguém aceita ninguém!
Depois outra coisa é no que diz respeito aos “enjolras”: com os “enjolras” acontece que eles não têm a mesma noção que nós temos de que tudo desmoronou! Porque para eles o mundo natural é aquele! Vários deles têm uma porção de razões para se fazerem aceitar em outros lugares.
Por exemplo, o filho do Rodrigues. A gente vê que a presença dele e a participação dele era muito desejada, muito do agrado de uma roda de Valdevinos lá da casa do Rodrigues, e que essa rodinha fazia o possível para sugá‑lo.
Em última análise, de qualquer maneira, eles são muito mais sensíveis de que tudo desmoronou do que somos nós. Porque nós também vemos que tudo isso desmoronou! E mesmo depois de ter tudo desmoronado, como foi previsto, eles não acreditavam, eles continuam no mesmo pé.
Quer dizer, dá algo o que você diz, mas é algo limitado… Quer dizer, é preciso voltar à coisa: há uma repulsa e essa repulsa é determinada por uma antipatia.
* Inerente ao prisma, uma convicção estável de que por detrás de todas as coisas existe uma terceira dimensão, magnífica e meio invisível
(Sr. Fernando Antúnez: O senhor poderia falar um pouco do prisma, do “unum” do prisma?… O senhor disse que falando disso é que poderia mexer as águas…)
Um aspecto do prisma é, sem dúvida, esse…
(…)
Outro aspecto que é inerente também ao prisma é a convicção habitual, estável, constante, de que por detrás de todas as coisas que existem, existe uma terceira dimensão, magnífica e meio invisível, daquilo onde tudo é tratado assim…
(…)
Onde tudo é tratado como tendo uma dimensão magnífica, invisível, etc…
* Para os “sebastinistas” da “Bagarre Azul” essa visão é um dote secundário, pois não serve para fazer dinheiro
E o pessoal aí fora acharia essa visão, ao mesmo tempo um dote muito bom da alma ou uma fantasia. Em qualquer caso um dote secundário, porque não serve para fazer dinheiro.
Isso é o pessoal da Bagarre Azul. Os “sebastianistas” da Bagarre Azul.
(Sr. George Antoniadis: Por isso uma reunião como a de hoje à noite era quase impossível num auditório com os mais velhos.)
Impossível! Era preciso entrar de frente…
(…)
… vamos dizer, “Le Monde”, “Le Figaro”, “L’Aurore” cogitam da TFP.
Tirolês! Bom, vai ver o que preocupa eles! O seguinte: “Está garoando, não me lembro bem se trouxe meu cachecol”. E isso pode tomar uma reunião inteira! Entra o cachecol como uma marrote, ligada naturalmente a um fundo de egoísmo. Está na evidência das coisas.
* Vê‑se que o lado terceira dimensão do Sr. Dr. Plinio é uma graça, mas é recebida com indiferença
(Sr. Guerreiro Dantas: […] O lado terceira dimensão do senhor não vem de uma graça que Nossa Senhora deu ao senhor?)
Eu concordo que é uma graça, meu filho, mas a matéria é um pouco diferente, é: como é que sendo uma graça é recebida com tanta indiferença? Esse é o tema!
Por exemplo, quanto mais você queira provar que é uma graça, tanto mais você torna insolúvel o problema. Porque é uma coisa tão pouco comum, que só explica por meio de uma graça. De outro lado, nós vemos que é uma graça, mas somos inteiramente indiferentes.
No que é que nós estamos?
(Sr. Guerreiro Dantas: […] É hora de o senhor pedir a Nossa Senhora para que Ela destrua na alma das pessoas esse obstáculo.)
A minha preferência — não é uma convicção irretratável, mas uma preferência — conduz a que um pouquinho nós podemos fazer. Mas só! Ela pode fazer o resto. Mas Ela põe como condição, para obtermos o resto, fazermos esse pouquinho. Consiste em definir esse ponto e cair em si sobre o mal de nossa posição face a esse ponto.
Assim poderia citar coisas sem fim de mistos de preferências e birras e coisas…
(…)
* Outro aspecto do prisma: um equilíbrio entre contrários harmônicos muito vigoroso
(Sr. Fernando Antúnez: Quem sabe o senhor continuar na descrição do prisma?…)
Um outro aspecto disso é o papel… é sempre assim, um equilíbrio entre contrários harmônicos muito vigorosos. Mas é que esse equilíbrio, pelo vigor dos contrários harmônicos, é levado a um ponto extremo muito difícil de os outros quererem reconhecer.
Por exemplo, eu lhes contei aqui a reação do Embaixador Ouro Preto, tio do Mário Navarro, em face de minha carta sobre mamãe [no “O Estado de S Paulo”]?
(Sr. –: Não conhecemos o fato.)
A narração tem como pressuposto que a senhora mãe dele me detesta, é a pura verdade. E ela nos dias que saiu aquilo foi para a Europa, foi com o marido visitar uma irmã que é casada com esse Embaixador Ouro Preto, embaixador brasileiro na Suíça. Então foi para Berna, Rio-Berna.
Lá:
— Que novidades há do Brasil, etc.?
Ela contou esse caso e mostrou minha carta ao Embaixador Ouro Preto.
Bom, o homem, Ouro Preto, nos detesta também. Ele leu a carta e a mãe disse o seguinte:
— Não vou fazer comentários sobre o que ele disse, o mérito da questão, mas quero fazer comentário sobre a forma. Ele disse que ficava muito entristecido verificando que um particular, no caso Dr. Plinio, tem toda a linguagem do antigo Itamaraty, com todos os modos de fazer e manobrar do antigo Itamaraty, que o Itamaraty de hoje perdeu. E que não há o que baste para deplorar que o Itamaraty tenha perdido isto, porque a carta dele é inteiramente concebida nesse modo e é um ótimo espécime desses modos.
* A indiferença que há dentro do Grupo em relação aos predicados do Sr. Dr. Plinio é semelhante à dos judeus diante dos milagres de Nosso Senhor
Bem, se fossem dizer isso no auditório, por vício batiam uma salva de palmas. Mas é inteiramente indiferente! Inteiramente indiferente! Embora saibam que é verdade, porque eles sabem que é mais ou menos isso, não lhes ocorreu o Itamaraty, mas não seria surpresa a eles. A questão é que o extraordinário não os impressiona! O que não é tão completamente diferente dos judeus, a quem os milagres de Nosso Senhor não impressionavam…
Mais uma vez, é uma coisa que se fosse com os pais deles, eles deliravam. Porque se o Itamaraty dissesse isso da carta de um pai deles, eles simplesmente se punham a delirar! Direto!
Bom, eles comigo sabem que é, eles não contestam, mas “a questão é que não tem importância que o Itamaraty pense isso a meu respeito!”. Itamaraty…
(…)
…um homem altamente graduado no Itamaraty pense isso a meu respeito. Não tem importância. Por quê? Porque se trata de mim!
* O fator que torna inexpressivo no Sr. Dr. Plinio tudo quanto em outro seria expressivo no mais alto grau: uma seriedade solene
Quer dizer, reside, portanto, em mim um fator negativo que torna inexpressivo tudo quanto em outro seria expressivo, e expressivo no mais alto grau.
Qual é esse fator?
(Sr. Poli: O senhor sabe qual é esse fator?)
Eu acho que é seriedade solene…
(Sr. Poli: Não, o fator que está em nós?)
Ah!
(Sr. Fernando Antúnez: Deixa falar dele…)
É a posição, essa seriedade solene, ornada e complexa, que não é fácil de pegar numa vez só, dá preguiça, porque exige muita atenção, muita flexibilidade de espírito para pegar. Cansa! Exige concentração. Se é uma coisa que não… [ininteligível].
Ou seja, tudo quanto acontece comigo é irrelevante, é vulgar. Qualquer coisa que aconteça com um sujeito fora é fenomenal!
(…)
* “Essa indiferença atinge diretamente o primeiro Mandamento e enferruja todo o resto da vida espiritual”
… lembro‑me das reuniões de Opinião Pública na Rua Pará. O pessoal ia… [ininteligível]…. que nada. E quando eu saí da doença, da diabete, falei… [ininteligível]… com a graça de Nossa Senhora. Ninguém mais me pediu a continuação daquelas reuniões. Tinham tomado outros hábitos: “Sabe como é… sábado de manhã a gente gosta de ir a um barbeiro tranqüilo, cortar os cabelos, às vezes tem uma comprinha para fazer, de repente falta álcool no domingo, falta um chinelo que a gente quer comprar, e seria agradável inaugurar no domingo de manhã ao levantar‑se… então a gente vai ver isso”. É assim!
Agora, essa indiferença atinge diretamente o primeiro Mandamento e enferruja todo o resto da vida espiritual.
Bom, meus caros, o remédio está subindo violentamente…
Só queria dizer o seguinte, para ter toda a amplitude da questão: essa nossa posição é uma posição tão marcante, que não só não reconhece nada de extraordinário em mim, [mas também] na TFP! Na TFP podem acontecer coisas extraordinárias, eles não reconhecem.
(…)
… e se mencionar outros êxitos, outras coisas assim internas dentro da TFP, diante das quais a atitude é essa. Quer dizer: “Dentro da TFP não pode acontecer o maravilhoso! Nada é maravilhoso! Agora, fora pode”.
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