Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar pág. 10 de 11) – 5/4/1980 – Sábado – p. 10 de 10

Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar pág. 1 de 11) — 5/4/1980 — Sábado

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A vocação profética da TFP consiste em uma grande vitória da inocência sobre o requinte mais asqueroso do mal * Nas primeiras luzes do “Thau” nós vislumbramos a grandeza dessa vitória, e tendo uma visão clara da vitória é que vemos realmente a TFP * Na personalidade de todo homem há letras pronunciadas e letras impronunciadas: um mundo explícito e outro imponderável * Como será a linguagem do Reino de Maria * O sobrenatural é como uma madeira odorífera que ao ser colocada ao fogo exala um perfume agradabilíssimo sobre uma sala * Através do discernimento dos espíritos a pessoa é capaz de ver no homem certas letras imponderáveis que são as mais profundas

* A beleza da ortografia francesa

(Sr. João: …no Êxodos teremos a oportunidade de ver a vocação em estatura inteira, plena, total! E o senhor na reunião passada tratou mais do problema que nos impedia de ver a vocação por inteiro do que a respeito da vocação em sua grandeza total. E…)

(…)

Digo para vocês não estranharem, porque vou penetrar por um conduto tão diferente, que vocês vão pensar que estou mudando de tema, qualquer coisa. E para evitar essa impressão que advirto.

Mas há pouco eu estava conversando lá no Auditório São Miguel sobre uma coisa e outra, de impressões da Europa e uma coisa e outra, e estávamos falando a respeito da ortografia francesa. Nós comentamos inúmeras vezes isso, como a ortografia francesa é bonita.

Eu várias vezes me perguntei qual era o problema das letras que não pronunciam nas ortografias antigas. E o português ainda tem uma outra letra que não se pronuncia numa ou outra palavra que eles não ousaram suprimir a letra, porque ainda há um pouco de senso do ser que impede isso. Por exemplo, na palavra “homem” imagine que “homem” se escrevesse “ome”. Não exprimia o que é um homem! Ou tem que ter “h” e depois tem que ter o “m” no fim ou a idéia do que é um homem não se exprime.

Isso então indica que há uma relação entre letras e significado da palavra que não é uma relação puramente auditiva. É uma relação que vai para o além do auditivo. Como é essa relação?

Aqui está apenas o status quaestionis, mas depois de dar um exemplo português eu passo para um exemplo francês. Vocês imaginem Bourdeaux. Vocês sabem, Bourdeaux quer dizer: no bordo das águas. “Bour des eaux”, provavelmente deve ser isso. Mas água, portanto, é eau. Agora, por que [é] que eau dá ó? E por que [é] que, por exemplo, eau, água, pode ser bonito em francês, mas escrito em alguma linguagem africana “ô” com acento circunflexo fica feio? E o que fazem aí as letras “e-a-u” para dar à palavra monossilábica por excelência “ô”, a beleza que ela tem no francês é evitar a feiúra que ela tem no africano? É a pergunta.

É portanto o problema do “homem”, exemplificado em português, transposto para o francês.

*O sabor que tem na língua francesa as palavras com suas letras inúteis

A resposta é a seguinte: os senhores estão vendo como o tema é variado, agora vou ter que entrar noutro aspecto. Eu estava dizendo à “enjolradinha” lá, que eu fui dos que assistiram à entrada do creme de chantilly em São Paulo. Quer dizer, morango já era uma raridade e, comer morango como se comia, até eu fazer uns dez anos, não tenho boa memória; se comia morango com clara batida e misturada com açúcar.

Então, entra o chantilly, lembro-me a primeira vez que provei o chantilly, porque me disseram na mesa: “…um creme para comer, ‘blá blá blá’!”. Eu passei:…

(…)

Ah! o que que é isto? Fenomenal!”. A fraulein: “[Schlagsahne??] ou creme de chantilly. [Schlagsahne??]! [Sahne??] é nata e [shclag??] batida. Então nata batida. Aliás, em francês se diz também creme [fouettée].

(Sr. Fernando Antúnez: Não, se diz mais “chantilly”.)

Não, ninguém diz: é de la crème ou crème fouettée. La crème é mais o creme de leite e crème fouettée é o chantilly. Mas antigamente chamava-se crème de chantilly. Bom, é a modernização e a “dedrovignização” da França.

Então, eu achei aquilo um creme fenomenal!

E um dia alguém me ensinou: “Não, o verdadeiro para você comer morango com chantilly, é você esmagar o morango com o garfo que sai um certo caldo do morango que em contacto com o chantilly liquidifica um pouco o chantilly. Mistura as duas coisas, o morango bem amassado com chantilly e come aí porque você vai ver como é melhor”.

Vocês me conhecem, esmaguei, vocês sabem como! O morango ficou reduzido à pasta! E provei, e percebi que da mistura das duas coisas esmagadas resultava um sabor que não era a soma dos sabores originários. Vocês dirão: “Mas posto na boca o que se faz na boca é esmagar!”. Não é a mesma coisa. Entrar esmagando e já tomar o primeiro contacto no paladar, esmagado é uma coisa especial.

Ora, o francês com as letras inúteis das suas palavras, ele faz uma espécie de chantilly. Ele esmaga essas letras de maneira a formarem determinado som. Então você tem a impressão que Bourdeaux outrora não sei se historicamente é verdade, mas é uma impressão que diz alguma coisa internamente ao homem se pronunciava provavelmente pelos gauleses ou por qualquer coisa assim, pronunciava-se com dois ou três vogais. Mas vamos dizer que numa língua primitiva qualquer água chama-se “eau” e que à força de ser pronunciado com elegância esse eau foi dando em “o”. Esse “o” carregado esmagados os caldos das três vogais que o compuseram.

(Sr. Mário Navarro: Não há dúvida, veio de “aqua”.)

É, é verdade. Exatamente. Aqua, primeiro aqua, l’eau

(…)

Isso nos leva à idéia de que as letras têm portanto, uma função “transauditiva”. Que é uma compreensão intelectual de compreender aquele som “o” na sua reminiscência desse esmagamento. E que se no dia em que trocarem a ortografia francesa, o francês morre. Por causa dessa função.

Também na palavra “homem” o “h” do homem é um vestíbulo nobre para a palavra que faz com que se conceitue melhor a nobreza do homem. O “m” final tornaria pesado, “omem” ficaria feio, homem se exprime melhor com “m” final do que com acento til porque dá o “h” muito leve e o “m” muito pesado, que não se pronunciam bem assim, mas concorrem para dar à palavra “homem” uma conotação especial.

(Dr. Edwaldo Marques: Homem com tio no “e” da idéia de amputação.)

Uma amputação, uma coisa horrível! Ninguém propôs até agora homem com til.

[Entrou a Sagrada Imagem.]

* Na personalidade de todo homem há letras pronunciadas e letras impronunciadas: um mundo explícito e outro imponderável

Essa idéia de uma função “transauditiva” da letra fica, portanto, bem radicada. E é uma noção que tem o seu preço, porque nos dá acesso a todo um mundo de imponderáveis que nós alcançaríamos mais dificilmente se não fosse esse meio de nós introduzirmos nesse tema.

Agora, se isso se dá com uma palavra, a fortiori pode-se dar com o mais nobre dos seres do universo visível que é o ser humano. E por assim dizer, todo homem é uma palavra que define a sua própria “luz primordial”. Em última análise nós todos somos redutíveis a uma palavra. Se não é uma palavra do nosso vocabulário, é uma espécie de palavra ideal de um vocabulário ideal e que nos define a cada um de nós. Como também cada um de nós seria exprimível em uma cor ou uma nota musical ou num acorde musical. Quer dizer, cada homem é exprimível em tudo isso. Assim se poderia tomar os outros sentidos, vamos ficar nesse para brevidade.

Aí o homem se compõem de letras pronunciadas e de letras não pronunciadas, “trans-visuais” e “transauditivas”. Quer dizer, ele tem coisas que a gente tratando com ele vê, mas tem por detrás uma porção de letras não pronunciadas da personalidade dele, do temperamento, do modo de ser, etc., que são indispensáveis para a gente compreender a letra pronunciada.

E assim, se nós quisermos tratar de um homem nós deveríamos tomar as letras pronunciadas, as letras impronunciadas. Quer dizer, o explicito e o imponderável e o implícito semi-manifesto da pessoa dele; e procurar apanhar numa visão de conjunto. E assim mesmo, ainda seria preciso tomar o vocabulário corrente e adaptá-lo para estar à altura de designar o que é um homem.

Até, eu creio, que como no Paraíso o homem era perfeito, provavelmente, ele tinha uma linguagem muito mais adequada de designar homens do que coisas. E que foi a queda, tornada catástrofe com a dispersão da Torre de Babel, que tornou a nossa linguagem muito mais própria a designar coisas do que homens. É uma hipótese. Mas também esta hipótese tem seu alcance. E ela tem algo de verdadeiro, porque ainda que a hipótese seja falsa, ela confere uma nobreza ao pensamento. Quer dizer, é uma elevação a gente imaginar uma linguagem que designe os homens e por analogia as coisas. E não como nós falamos, que dizemos as coisas e por analogia os homens.

(Sr. Guerreiro Dantas: Esse discurso que o senhor dá inicio agora, isso de si destrói a Revolução! Não há nada que resiste a força e o universo magnífico que daí depreende.)

Concordo com você.

* Como será a linguagem do Reino de Maria

(Sr. Guerreiro Dantas: …nessa linha o que existe de insondável para o homem conhecer…)

E ouça bem, eventualmente falar no Reino de Maria…

(…)

Quer dizer, eventualmente isto terá reflexos na linguagem do Reino de Maria. Não para restaurar o desastre da Torre de Babel, não vou até lá, mas tender a elevar a linguagem. Porque se você se põem a idéia de que a verdadeira clave do pensamento humano é esse, você, a partir desse momento, a sua linguagem ainda sendo atual toma uma orientação para cima como a do fogo. Você pode acender o fogo num objeto virado para baixo que o fogo toca para cima.

(Sr. João Clá: O pensamento foi endireitado, ficou de pé.)

É exatamente. Estaria largado e ébrio e de repente se põem de pé.

(Dr. Edwaldo Marques: Seria a linguagem com que Deus falava com Adão no Paraíso.)

Exatamente, é o que se pode conjecturar, de minha parte é uma mera conjectura.

Aliás, até vou dizer mais: como a hipótese é sumamente atraente, é preciso tomar cuidado em tomá-la desde logo com o verdadeira. Porque as coisas muito atraentes a pessoa tem a tendência de dizer: “É isso!” E agora não adianta… Vou dizer mais: para o nosso público feito como é, se eu agora quisesse dar uma prova de que é isso, a prova seria ouvida com sono e que era melhor lançar outra.

[Risos.]

* A necessidade que o espírito humano tem das coisas sensíveis para designar a alma humana

O público brasileiro é assim: está provado! E é preciso andar devagar porque tem a questão da exegese bíblica que é capaz de dizer outra coisa. Mas de qualquer forma, a idéia é altamente “culturalizante” a meu ver. Isso não tenho dúvida nenhuma.

O auge da linguagem perfeita seria a linguagem capaz de exprimir diretamente em termos de predicados divinos. E que fosse própria a designar os predicados divinos adequadamente. E por analogia com ele os humanos e na rabeira vinha designar bicho, capim e pedra… isso tudo vinha na rabeira. Portanto, se faria muito melhor do que fazem agora.

Mas não sei se vocês notam que houve um jeu le bascule no espírito humano, o espírito humano para designar a alma do homem se serve das coisas sensíveis. E para falar de Deus ele se serve de alguma coisa do homem. Mas o cântico dos anjos não se fará nessa linguagem? Porque é uma coisa que… para desenvolver um pouco a teoria da linguagem que dei hoje à noite, não podia desenvolver lá porque daria uma coisa sem fim, seria uma alça grande demais para o tema França, que nós tratamos lá. Mas enfim, fica dada esta idéia de que uma instituição ou um homem deveria ter um nome próprio. E para as coisas da alma deveria ter nomes próprios que dessem esses imponderáveis, não só o definido mas os imponderáveis das letras sem função na palavra, fosse expressa também dessa maneira.

Eu creio que se nós tivéssemos tempo de espichar isso, tomando a monumental lição, até aí, nós chegamos a essa humilhação as ciências naturais nos deram com os fenômenos que estão aquém e além dos sentidos e que constituem a realidade total. E que são as letras não pronunciadas da natureza; nós poderíamos fazer aqui uma ofensiva contra a Revolução sem nome! Era só ir procurando o que há e depois estabelecendo as analogias. Daria qualquer coisa de fenomenal! E como utilidade para a Bagarre, porque o homem no ponto que chegou ou se lhe fala linguagem assim ou não pega nada.

* O sobrenatural é como uma madeira odorífera que ao ser colocada ao fogo exala um perfume agradabilíssimo sobre uma sala

[Sr. Guerreiro Dantas cita o caso de um casal que ficou impressionado com a cerimônia de ontem.]

Todo cerimonial verdadeiro, como era o de ontem, tem uma porção de letras não pronunciadas, de aspectos “transvisuais”, de raios infravioletas ou ultravioletas e coisas desse gênero que fazem o charme do cerimonial. Exatamente se procura na obscuridade, de algo para encontrar, etc., faz o charme do cerimonial.

Enfim, vá pensando nisso [Guerreiro] e vamos nós tocando para frente.

A isso se acrescenta uma outra coisa. É que quando se toma uma instituição que é alimentada pela Fé como é a TFP, quer dizer, uma instituição que se baseia nos princípios da doutrina Católica, alimentada no amor de Deus porque é por amor a essa doutrina que nós fazemos o que fazemos. Alimentada pela esperança, porque é a esperança dessa vitória, a esperança do Céu e a esperança da glória de Deus na Terra que nos anima. E alimentado pelo amor, Fé, Esperança, Caridade, então há qualquer coisa de sobrenatural que se acrescenta aí.

Agora, o que é o sobrenatural, que papel o sobrenatural tem nisso?

O sobrenatural tem esse papel especial que é o seguinte: imaginem que eu tome uma madeira odorífera de um bom cheiro, por exemplo, pinheiro. Aquela resina, etc., etc., um cheiro agradável, e eu toco fogo na madeira. Como o fogo pega alguma coisa desse perfume, pode exalar-se na sala e pode tornar agradável a presença na sala. Mas eu posso fazer com a madeira uma outra coisa: é tomar uma porção de elementos estranhos à natureza dela e superiores a ela e fabricar com isso um líquido ou um pó que eu ponho na madeira, de maneira tal que quando a madeira for queimada ela queima com o fogo dela, na matéria dela, mas queima também uma outra matéria que nela está embebida de uma natureza superior. Isso dá naturalmente um aroma que é o do pinheiro, mas somado a uma coisa tão superior que já é outra questão.

Assim é também a graça conosco. Como é uma participação criada na vida divina e nosso nome se acrescenta uma forma de esplendor que é a projeção sobrenatural daquilo que somos nós. E a graça faz com nós o papel desse aroma na madeira.

Então para se definir a pessoa no seu nome sobrenatural é preciso quase aludir a um atributo divino.

Agora, vem uma coisa conjectural. É muito doutrinário, etc., mas eu baixo já. Vocês sabem que tudo quanto é bom e que existe tem um certo fundamento em Deus. Quer dizer, se Deus não tivesse aquela perfeição, aquilo seria impossível. De maneira que a graça deve ser, provavelmente, algo que é uma comunicação mais excelente do fundamento que nós temos em Deus. O que há na natureza divina que nos dá fundamento, eu acho que a graça nos comunica. De maneira que sem ver o Plinio por ser filho de Dona Lucilia e Dr. João Paulo, nascido em São Paulo, “bá bá bá”! eu recebendo a graça eu fico “Pliníssimo”! Quer dizer, uma comunicação especial daqui que em Deus é fundamento para existir um Plinio, para existir esse Plinio.

Isso não tenho certeza se é assim nem tenho tempo de estudar, mas conjecturo que seja assim. Vocês mais uma vez tomem cuidado com o raciocínio: porque é muito bonito, é verdadeiro. Precisa ver bem. Mas que é muito bonito é.

(Sr. M. F.: Explica tudo até o fundo, não é?)

Olha, cuidado. Olha a insinuação que está… ele quer dizer que está provado, é o modo de dizer que está provado. É preciso ver a teologia a exegese, etc., mas parece que explica mesmo!

(…)

(Sr. Guerreiro Dantas: Se o fundamento não está em Deus onde está?)

A questão é se há essa relação entre a graça que nos é dada e nosso fundamento em Deus. Aqui que é o ponto que seria preciso ver.

(Sr. João: A graça aperfeiçoa a natureza…)

Mas é preciso ver direito. Eu me exprimir de modo tosco, brusco, errado, grosso…

(…)

em zonas diferentes todos os sabores, de todas as frutas. Mas tem muito mais quintessenciadamente. Então, na hora de eu comer uma cereja, eu vou e esfrego a cereja na parte cereja dessa fruta total. Essa cereja adquire uma “cerezicidade” magnífica que vem dela ter se encostado naquilo que é fundamento dela, na fruta total. E a graça seria isto. Seria algo de Deus ou em Deus que me dá fundamento e que penetra em mim de modo sobrenatural. Depois de ter… [inaudível] …, depois de já me ter penetrado no lado natural.

(Sr. Fernando Antúnez: Isso é teológico…)

Se nós vamos discutir isso…

(Sr. João Clá: Se Ele é causa exemplar de tudo!…)

Bom, vocês não têm dúvida, mas eu quero ver a teologia antes.

* Através do discernimento dos espíritos a pessoa é capaz de ver no homem certas letras imponderáveis que são as mais profundas

(Sr. Guerreiro Dantas: Um argumento de caráter natural: o primeiro alimento que o homem recebe na vida é leite materno, de modo que…)

É uma linda comparação, apenas o que tem é que o leite materno é da natureza do homem e aqui seria uma coisa sobrenatural e em Deus, eterna, divina!, da qual nós participamos por um acidente criado. É muito mais do que o leite materno. Mas tem seu valor como argumento de probabilidade, não como argumento de certeza.

Então, a gente querendo dar o nome total do homem visto assim, a gente teria que dar duas coisas: pelo discernimento dos espíritos a gente discerne no homem umas certas letras não pronunciadas que são as mais coruscantes dele, porque são a parte espiritual e não material e a parte sobrenatural, não a parte natural. A gente percebe, portanto, nele, por assim dizer, se essa doutrina é certa, algo de sobrenatural que dá o fundamento dele em Deus. Quando se percebe isso, discerne a graça em alguém. E é dai que se percebe um unum contendo toda espécie de variedades dentro daquela gama, e que dá um nome àquele universinho chamado homem. Grão de areia solto nesse universo material, mas cada um valendo incomparavelmente mais do que todo o universo material. Esse é o nome.

Isso encontra no senso comum um certo apoio. Por exemplo: um homem que quer que o filho chame preciso escolher um nome que não seja de nenhum de vocês aqui Eduardo. Espera um filho diferente do que ele [esperaria] [quando ao?] [caso o] filho [tivesse] o nome de Euripedes. Isso é uma coisa certa!

(Sr. M. F.: Como é anti-igualitário isso!)

É tremendo! Aqui o igualitarismo é eliminado na preliminar.

Então, o que quer dizer que o nome Eduardo sugere um certo tipo de homem e o nome Euripedes sugere outro tipo de homem.

(…)

por mais que haja desencontros. O homem quer ter um Euripedes e tem um Eduardo ou quer ter um Eduardo e tem um Euripedes; por mais que isto aconteça o senso comum indica que há assim umas relações entre o nome e o homem, o som e o homem, etc., etc… Isso não tem por onde escapar. É uma coisa certa!

Até uma coisa curiosa, os nomes mudando de língua mudam de conotação e podem designar outras pessoas. Por exemplo: você se chama Dimitri. Dimitri, provavelmente em português, se traduz por Demétrio…

(…)

como os nomes são assim opalescentes, mudam. E há toda uma teoria bonita dos nomes que a gente poderia fazer a partir disso, se dentro do “Grupo” houvesse gosto para esse estudo. Mas há poucos, ouviu! Por exemplo: uma conferência sobre isso faria dormir três quartos, logo de cara! Não acompanhavam, etc., etc… Cotação da bolsa, sim! Ou saber se o Maluf pôs ou não pôs fora os tais dois secretários. Isso sim. Porque o César Costa brigou com aquele outro homem… isso sim. Política!

(…)

Ainda na mesma técnica de falar, há uma pedra a Sagrada Imagem tem um rosário, talvez ainda tenha [sido] feito dessa pedra. Creio que é uma pedra natural, que é uma espécie de não é brilhante, mas é a maneira do brilhante, de cor branca, ultra mutável de cor. Mas não tem a categoria do brilhante nem de longe.

(Sr. –: É cristal tcheco.)

É, mas é incomparavelmente mais barato que brilhante, não é nem sequer pedra preciosa, um grão de rosário daquilo tem o valor de um grão de rosário de mármore, uma coisa assim, não passa disso.

* A vocação profética da TFP consiste em uma grande vitória da inocência sobre o requinte mais asqueroso do mal

Mas vamos tomar aquela pedra. A gente olhando para aquela pedra, ela, conforme a posição que a gente se coloca, ela emite um raio luminoso diferente. E todo homem participa disso, que conforme o enfoque que façam dele e conforme a atmosfera que constitui em torno dele, ele brilha de um determinado modo. O desastre é quando ele faz um programa de brilhar que é sempre errado. Ele nunca brilha como quereria. O verdadeiro é ele tratar de ser como é e deixar que o brilho saia. Do contrário dá brilho falso e sai uma porcaria, uma miscelânea que não tem limites.

E, portanto, também cada um tem uma possibilidade de ver aquela pedra, ou seja um homem com um determinado jeito, com uma determinada luz. O que não exclui que todos vejam o mesmo homem e vejam o que ele tem de essencialmente ele mesmo. Mas a questão é que conforme o ângulo se percebe melhor.

E isso se liga ao que conversávamos hoje. Há um determinado ângulo por onde a TFP pode ser mais bem vista e a partir do qual todo o resto se exprime. Mas é preciso que esse ângulo esteja inteiramente nítido. E o ângulo é o lado vitorioso da TFP. Ela vai vencer!

Isso é explicável. Como a TFP no sentido da “Réfutation”, tem uma vocação profética, ela é toda voltada para sua vitória. E a luz dela é a luz da vitória que há de vir. E quando a gente deixa de ver a luz dessa vitória deixa de ver a TFP.

Então, para conhecermos bem a TFP nós deveríamos nos perguntar qual é essa vitória. Qual é a luz dessa vitória.

Qual é a luz dessa vitória?

É a pergunta que nos conduz à resposta de várias perguntas feitas, etc…

Essa vitória é a vitória da inocência sobre o requinte mais asqueroso do mal. Que é, o por onde, o homem se transforma em cavalo do demônio, em mula do demônio como descrevi hoje à tarde. É algo que pelo contrário daquilo que descrevi hoje à tarde a gente pode compreender. Quer dizer, vocês imaginando almas sensíveis a toda forma de bem e portanto, negativamente sensíveis a toda forma de mal. Sensíveis a toda verdade e sensíveis, portanto, negativamente a todo erro. O pulchrum também. A partir de uma determinada luz, que é a luz da inocência, vocês imaginando almas assim, vocês pegam a natureza da vitória. Que é a vitória do que é, o que é com todo esplendor e com toda a força, com toda a pujança, com todas energias, com um pluralidade quase inesgotável de aspectos daquilo que é! Sobre esse vazio repugnante, viscoso, purulento que descrevi hoje à tarde.

Como é essa vitória?

[Ouve-se uma música moderna num automóvel ao longe.]

Vejam o contraste da música com o que nós estamos conversando.

(Sr. –: Pior que música de índio.)

Isso a gente chama cantar, mas não sei se não é gritar! É possível que eles, se passarem aqui embaixo, sintam que nós estamos incomodando a eles lá. São as tais letras que ninguém pronuncia da ortografia não fonética. As tais realidades, etc., etc…

* Nas primeiras luzes do “Thau” nós vislumbramos a grandeza dessa vitória, e tendo uma visão clara da vitória é que vemos realmente a TFP

Tudo isso teria no Reino de Maria, uma “esplendorificação” que eu imaginaria ser, algo que fosse, ao mesmo tempo um branco como quase não se pode imaginar de tão alvo e, ouro que se perde em prata e uma prata que se perde em ouro. Quer dizer, um branco que olhado desse a impressão de prateado e fixada bem a vista, desse a impressão de dourado. Ou o ouro que a gente presta tanta, tanta atenção, que em certo momento dá a impressão de branco, de alvo. Uma coisa assim. Mas com a força de uma irradiação que já não suporta contestação nem ocaso, nem eclipse sem levar tudo pelos ares.

Como nós temos o “Thau”, as primeiras luzes do “Thau”, nós temos luzes dessa vitória. Aí começa o ataque das influências opostas para nos fazer crer que a vitória não virá. Ou que ela demorará tanto que é como não vindo, relativisar. Negar claramente o demônio não nega, ele é esperto demais para isso, mas relativisar a vitória. A partir desse momento, a luz vai se apagando porque é através dessa perspectiva de vitória que se pegam todos os imponderáveis todos os brilhos, todas as letras não pronunciadas do nome da TFP.

(…)

então, o grande problema não é obter uma explicação. É ter bem claro os óculos por onde se vê. E esse óculos é a vitória!

(Sr. –: Sem esse óculos não adianta explicar nada!)

Não adianta explicar nada. E com o óculos está tudo explicado.

(Sr. –: Esse óculos é a vitória ou ele vê a vitória?)

É ter limpo o olhar mental para ver esta vitória.

Vitória é o óculos para ver todo o resto. Vista a vitória, através dela todo o resto se vê.

E então, como aquela pedra que posto no ângulo certo emite um reflexo certo, como a gente quer. Com a luz focalizada a gente pode.

Bom, isso aqui é uma espécie de ultra trabalhão para atender o pedido de vocês…

(…)

prestava atenção em alguns aspectos que não eram os técnicos. Os outros rifava. Eu fiquei com certa impressão, e deve ser verdade [que] havia conhecedores no teatro era sempre o Municipal [de São Paulo] no meu tempo que compravam lugares na platéia, frisas, camarotes de onde se pudesse ver bem a mão do pianista. Porque vendo a mão do pianista dava para saborear melhor o alcance do som que ele estava tocando. E deve ser!

Então, também ver a gesticulação, a movimentação de uma pessoa que está expondo uma idéia, pode facilitar a compreensão da idéia. E é um bom recurso. Mas daí o que se conclui? Nada!…

(…)

vamos tomar o lado… você conhece o principio latino, filosófico: “Omnis comparatio claudicat”. Quer dizer, toda comparação é claudicante por algum lado; uma coisa comparada à outra não é idêntica à outra, ela é parecida, logo em alguns pontos não é parecida. O que faz com que toda comparação tenha qualquer coisa de cambaio.

Na comparação que fiz da madeira há um lado defeituoso que é o seguinte: em relação a pergunta que você fez não se ajusta, o defeito está nisso. Ajustasse a temática que eu quis expor, mas não se ajusta bem à temática extrínseca e sem relação natural com a madeira na comparação que eu pus, porque servia bem à minha comparação no momento. Mas você deveria propriamente, pôr uma coisa diferente.

* O que há de mais nobre no homem é aquilo que nele foi tocado pela graça

Você deveria imaginar duas árvores do mesmo tipo, mas uma com perfumes inestimavelmente nobres e, outra de uma mesma espécie dentro daquele gênero de árvores, mas com um perfume apenas aceitável, quando ambas queimadas.

Então imagine que se borrifasse a madeira não nobre, não digo mal cheirosa, [mas] com cheiro apenas agradável borrifasse essa madeira com os perfumes da madeira congênere, imensamente nobre. E alguém dissesse na sala: “Essa madeira imensamente nobre vocês não poderão tomar conhecimento dela! Vocês só poderão olfateá-la com base na combustão da madeira congênere sobre a qual esta madeira imensamente nobre arderá!” Ou será posta e aí vão arder as duas com a mesma chama. São então perfumes congêneres, análogos, embora diversos. Quem quiser olfatear a madeira inestimavelmente nobre tem que olfatear a outra junta. E se não quiser olfatear a outra junta não olfateia nada.

Assim é o lado pessoal do homem tocado pela graça.

O homem tocado pela graça, o lado pessoal dele, é a madeira mais nobre, honesta, limpa, direita, etc., no rigor com um perfume aceitável, mas que não tem nada dos perfumes indizíveis, vamos dizer divinos, da outra espécie.

Agora, como é só na combustão da madeira mais barata que nos é dado cheirar o perfume da outra, é preciso cheirar as duas juntas ou nada.

Então compreende-se que um São João Batista Vianney, o homem que viu Deus em São Batista Vianney [o Cura d’Ars], visse a graça e a pessoa de São João Batista Vianney, natural, juntas. E que vendo um visse outro e não conseguisse ver um sem ver o outro. Se ele prestasse atenção na “vianneyidade” natural de S. João B. Vianney, ele compreenderia, por algum lado, melhor a graça que estava em São João Batista Vianney. Sobretudo o contrário é verdade. Se ele prestasse atenção na graça ele compreenderia melhor a “vianneyidade”. Por quê? Porque a graça e a “vianneyidade”, de acordo com a hipótese que nós lançamos, são figuras uma da outra.

Então fica explicado o fenômeno que você falava.

(…)

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