Conversa
de Sábado à Noite ─ 9/2/80 – p.
Conversa de Sábado à Noite ─ 9/2/80
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Uma idéia herética muito difundida em nossos dias é a admiração pela justiça de Deus apenas ao premiar o bem e não ao castigar o mal, por isso um pânico ou revolta em face do Inferno * Nunca perfeição de Deus alguma foi tão negada quanto Sua adorável justiça ─ Haverá no Reino de Maria um equilíbrio entre justiça e misericórdia * Uma das razões mais ativas do ódio à TFP é a nossa afirmação da justiça de Deus ─ Por mais que o Sr. Dr. Plinio seja inteiramente polido com todos, quem anda mal recebe a censura dele * A negação da justiça trará um castigo em que se conhecerá a Justiça Divina e compreender-se-á o que ela tem de adorável * O papel super-saliente do culto a Nossa Senhora mostra o amor da TFP pela misericórdia, mas é preciso pedir a Ela que nos dê uma a graça de adorar a justiça divina junto com a misericórdia
* Uma idéia herética muito difundida em nossos dias é a admiração pela justiça de Deus apenas ao premiar o bem e não ao castigar o mal, por isso um pânico ou revolta em face do Inferno
A idéia é que Deus é verdadeiramente adorável em sua misericórdia e que esta é uma perfeição d’Ele que Ele deve exercer com uma amplitude na proporção da infinitude d’Ele. Mas que a justiça é uma perfeição que Deus tem, muito bela, na medida em que premia o bem. Mas inexistente como tomada de posição perante o mal. Não é perfeição como tomada de posição perante o mal.
Isto é a idéia.
Uma idéia herética que eles exprimem de outro modo que vou dizer daqui a pouco.
(…)
…as pessoas acham que a justiça de Deus só é bela ─ Deus é justo ─ mas a justiça só é bela quando Deus premia quem andou bem. Mas quando Deus castiga quem andou mal, este aspecto da justiça eles não apreciam. A tal ponto que há um silêncio como se Deus tivesse feito, senão um pecado, pelo menos uma ação de cólera muito menos bonita do que todas as outras coisas d’Ele criando o Inferno.
(Dr. Edwaldo: [Inaudível] …temperamental.)
É. Uma atitude temperamental criando o Inferno. E mesmo do Purgatório fala-se só quanto à libertação das almas, mas a beleza, a sabedoria, o Purgatório em si, as pessoas não cuidam disto, não tratam. É como se fosse uma coisa feia de Deus.
(Sr. Paulo Henrique: Quando não dá, é revolta.)
Quando não dá, é revolta, revolta. Ou certas formas de pânico que, às vezes, são explicáveis, mas às vezes são revolta. Depende da pessoa. Santa Teresinha do Menino Jesus, por exemplo, tinha um pânico a respeito do Inferno que ela não conseguia ouvir pregações sobre o Inferno. Evidentemente não era revolta, mas há pessoas em quem isto é revolta. O pânico é uma forma de revolta.
* Devido à rejeição da justiça, todas as autoridades da Terra são mal vistas ao reprimirem o mal
Todo o resto vem em cadeia. Quer dizer, se em Deus a justiça enquanto combatendo, enquanto punindo [não] é uma virtude, é uma perfeição feia ─ logo uma perfeição, porque acaba sendo heresia ─ então, tudo quanto é combate, tudo quanto é punição, tudo quanto é fazer justiça é feio. É o corolário.
Então, todas as autoridades da Terra, as autoridades religiosas, políticas, econômicas, sociais, culturais, o que quiser, quando elas usam do seu poder para reprimir o mal são mal vistas. O que equivale ao dito da Sorbonne: “É proibido proibir”. Mas os católicos têm já uma visão ─ os católicos heresia branca ─ do “é proibido proibir” que vem muito antes. A heresia branca só fala de Deus enquanto Deus fazendo uma proibição que não é proibição, porque a verdadeira proibição comporta uma pena caso a proibição for transgredida, se não há proibição, conselho.
E a gente vai ver, todo mundo… vamos dizer, numa igreja não há uma pintura representando o Inferno. Na Capela Sixtina tem o Juízo Final, está representado o Inferno também. É raríssimo o Purgatório. No meu tempo de menino espalhavam umas estampazinhas com almas fervendo dentro do fogo. Aliás, muito cândidas, muito engraçadinhas. Alminhas aparecendo assim até o busto ─ naturalmente só homens ─ e rezando assim. O resto era fogo. Atrás, uma oração para livrar as almas do Purgatório. Falavam, mas depois desapareceu completamente.
(Sr. Paulo Henrique: [Inaudível] …moeda corrente naquele tempo.)
* Nunca perfeição de Deus alguma foi tão negada quanto Sua adorável justiça ─ Haverá no Reino de Maria um equilíbrio entre justiça e misericórdia
Tudo desapareceu completamente. Agora, então foi cometido pela sociedade humana, pelos homens, na sociedade religiosa, na sociedade civil, um pecado de negação da justiça de Deus ─ como eu creio ─ que nunca perfeição alguma de Deus foi tão negada. E o resultado, aquela contra-reforma da qual eu falei a Dom Mayer, deveria ter uma afirmação monumental da justiça de Deus.
Embora, sempre em conexão com sua misericórdia, isto é outra questão, estaria o culto a Nossa Senhora como Mãe de misericórdia, mas bem postos os pingos nos “is”, como está na Oração Abrasada, na Consagração de São Luís Grignion.
Quer dizer, nós somos uns vermezinhos e os miseráveis pecadores, merecíamos o Inferno se não fosse Nossa Senhora que obtém de nós por méritos que não são nossos mas d’Ela, aquilo que sem Ela nós não obteríamos.
Mas assim mesmo não obtém para qualquer um, porque quem renegar a Ela, São Luís Grignion descreve na liça dos precitos, dos perdidos, dos homens de mau espírito, etc., de maneira que fica… Depois o falso devoto é o devoto que vive sem remorso, no estado de pecado que tem, tudo isto está bem claro na devoção a Nossa Senhora.
Então, no Reino de Maria a tal contra-reforma deveria ter uma afirmação sem precedentes da justiça, ao lado de uma difusão também sem precedentes da misericórdia. É o equilíbrio das duas perfeições de Deus, que essa gente aí perdeu completamente.
* Uma das razões mais ativas do ódio à TFP é a nossa afirmação da justiça de Deus ─ Por mais que o Sr. Dr. Plinio seja inteiramente polido com todos, quem anda mal recebe a censura dele
No fundo, eles odeiam a justiça de Deus e negam a Deus o direito, odeiam todas as justiças. Esta é a realidade.
Daí odeiam os justos. E é fora de dúvida que um dos ódios, uma das razões mais ativas de ódio contra a TFP é porque a TFP afirma a justiça de Deus e pela atitude que ela toma, ela afirma que a maneira de Deus nós também devemos reprimir, devemos increpar, devemos censurar, devemos discordar. Portanto, neste sentido, punir, de algum modo punir. Isso eles não querem aceitar.
(Dr. Edwaldo: A simples apresentação do senhor, sem dizer nada, é um estremecimento fenomenal.)
Eu tenho consciência disso e quero que seja assim, porque acho que é minha obrigação.
(Sr. Poli: Hoje de manhã, quando o senhor estava saindo, o senhor estava de pé na porta ─ não sei se o senhor reparou ─ no meio da rua passou um carro, um Volkswagen, um homem qualquer, moço, 30 anos, ele parou e ficou estatelado olhando para o senhor. Mas olhando ─ não sei se conhecia, talvez conhecesse, não importa ─ com uma antipatia, uma antipatia…)
É natural. Eles estão feitos para isto.
(Sr. Poli: O trânsito parou assim e ele ficou grudado.)
É… é natural, porque eu sou a afirmação realmente do que acabo de dizer. Eu não creio que vocês jamais tenham ouvido alguém mencionar um fato concreto que eu não tenha sido com outrem inteiramente polido. Não é polido, não; é inteiramente polido. Eu sei que eu sou de uma amabilidade como não se costuma ser, não se costuma ter, eu sei disto, mas ao lado ponhamos a justiça e portanto que o sujeito que anda mal saiba que tem a minha censura.
Dirá alguém: “Mas o senhor seria muito mais simpático”. Eu sei. Se fosse herege ─ Deus me livre ─ seria ainda mais simpático. Isto eu sei, mas a questão é saber se eu quero esta simpatia. Este que é o problema.
Agora, acho que isto tem sua repercussão dentro do Grupo e que eu estava dizendo para uma pessoa a quem dei direção espiritual, dei conselhos estes dias, eu estava dizendo alguma coisa a respeito disso (…)
… falar a respeito da atenuação até o desbotamento mais surpreendente da militância nos gestos e feitos da Estrutura. O que se fez a tal ponto que o mundo inteiro hoje praticamente nega a justiça de Deus como sendo uma perfeição d’Ele. Porque todas aquelas coisas que eu falei no começo são negações da justiça como perfeição. Negações détournées, implícitas, mas são negações. Nessa negação, praticamente o mundo inteiro faz.
(…)
* A negação da justiça trará um castigo em que se conhecerá a Justiça Divina e compreender-se-á o que ela tem de adorável
…essa negação tão monumental tem que desfechar num castigo de Deus por onde ele faça conhecer sua justiça e se compreender o que ela tem de adorável. E que isto que foi tão negado nesta era histórica, tem que ser ultra-afirmado no Reino de Maria, sob pena de nós não podermos ter uma verdadeira contra-reforma em relação ao progressismo. Porque eu não vou ter que provar a vocês que esta negação da justiça, já freqüente na era que precedeu o Concílio, o progressismo nega do modo mais debandado. Isto vocês sabem bem, não vou perder tempo em provar.
* A severidade da TFP é completada por muitos aspectos harmônicos que fazem dela um todo muito belo, mas para ter pretexto de atacar a justiça da TFP, não se elogia a pública cortesia dela
Agora, então eu relaciono isto com nossa vocação e digo que a afirmação desta justiça é um caráter muito saliente da TFP. Entretanto, organização publicamente muito polida, muito gentil, cortês nas suas polêmicas ao extremo, a TFP agüenta as polêmicas mais duras sem nunca ter uma palavra dura. Ela se defende, mas uma palavra dura, uma invectiva nunca. A TFP não falta com a cortesia com ninguém. Eles poderiam ver isto e compreender portanto que a severidade da TFP é completada por mil aspectos harmônicos que fazem dela um todo muito belo. Mas vocês nunca ouviram ninguém elogiar a moderação da TFP, a gentileza da TFP, a cortesia dos rapazes. É como se não existisse. Ao pé-da-letra, como se não existisse. Por quê?
Porque eles não querem notar isto para ter pretexto para falar mal da justiça, da severidade da TFP. Então eles não querem notar. Se eles notarem e tomarem conta, registrarem na conversa que isto existe, morre a ofensiva.
Vocês querem ver? Imagine um artigo contra nós: “Esses rapazes são insuportáveis, etc. Reconhecemos neles uma cortesia esmerada, um trato muito delicado, uma gentileza indefectível.” O artigo perdeu 50% da força de impacto.
(Dr. Edwaldo: Isso que o senhor diz é irrespondível.)
Inteiramente irrespondível.
Agora, existe o perigo naqueles dentre nós que tenham resquício de Revolução de serem eles próprios para com a TFP um pouquinho o que os de fora são com a TFP. Existe uma regra de três. E o próprio membro da TFP, exímio na gentileza, na cortesia, na distinção, na observância de todas as leis humanas e divinas, o próprio membro da TFP, que é vítima dessa injustiça, de não se reconhecer isto, ele mesmo pode fazer essa injustiça com pessoas mais caracteristicamente da TFP do que ele.
* O papel super-saliente do culto a Nossa Senhora mostra o amor da TFP pela misericórdia, mas é preciso pedir a Ela que nos dê uma a graça de adorar a justiça divina junto com a misericórdia
Isto conduz a conversa da noite a uma conseqüência: é pedir a Nossa Senhora que nos conceda uma visão harmônica da justiça de Deus, de tal maneira que a gente adore esta justiça junto com a misericórdia. Não dissocie. Não se trata nem um pouco, eu estou fazendo um resumo da conversa da noite, por isto estou insistindo em coisas que já disse, não se trata nem um pouco de negar a misericórdia. O papel super-saliente do culto a Nossa Senhora corresponde a hiperdulia da Igreja para com a Nossa Senhora, este papel super-saliente mostra o quanto a TFP ama, aprecia a misericórdia e vive da misericórdia. Mas a justiça tem o seu papel.
* Muitos pensam que a História seria mais bonita se Deus demonstrasse somente a misericórdia e nunca a justiça, por isso critica-se o Antigo Testamento e se evita comentar as Cruzadas
E eu formulei essa coisa na presença de Dom Mayer da seguinte maneira: “há muita gente que considera que a História seria mais bonita se Deus nunca tivesse mostrado sua justiça, mas só sua misericórdia. E todos os atos da História em que Deus mostrou sua justiça, eles calam e só falam da misericórdia.
Então, Nosso Senhor expulsando os vendilhões do templo não é objeto de pinturas, nem de esculturas. O Aleijadinho parece que esculpiu alguma coisa assim em madeira, mas é por exceção. Aquela cena de Elias Profeta matando quatrocentos sacerdotes de Baal, não se conta. Está na Bíblia e eles reconhecem a Bíblia um livro de inspiração divina, mas é das tais ações feias que a gente… que fazem mal às pessoas a gente contar, não deve contar.
(Sr. Fiúza: Eu ouvi críticas abertas…)
Você ouviu críticas?
(Sr. Fiúza: …[inaudível] criticando, uma maneira errada do Antigo Testamento fazer as coisas, que passou felizmente, graças a Deus…)
Isto eu ouvi também, neste sentido sim, era da dureza, agora tudo acabou, etc. Como se não houvesse mais isto no Novo Testamento. Também Cruzadas, eles não gostam de falar das Cruzadas. Quando falam, eles falam dos cruzados entrando vitoriosos em Jerusalém, mas as matanças prévias não se mencionam.
Eu comentei hoje à tarde, nós [católicos] nem idéia temos que devíamos fazer uma Cruzada. Quando os maometanos fazem, e aí eles acham natural. Quer dizer, no nosso rosto isso é sem-vergonhice.
(Dr. Edwaldo: [Inaudível] …não se pode falar contra Napoleão.)
* Pela mesma recusa da virtude da justiça, geralmente nos tratados de História, há uma aura negra em torno de Napoleão pela qual não se pode falar mal dele
Não se pode falar contra. Por exemplo, dizer: “Esses generais de Napoleão e da Revolução que quiseram achatar o povo espanhol”, nem se pode falar, aliás, nem houve aquela resistência da Espanha. Não houve. Nos tratados de História vem assim uma referenciazinha, o povo se levantou e não acolheu Napoleão.
Uma frase.
(Dr. Edwaldo: As colunas infernais na Vandéia.)
(Sr. Paulo Henrique: Nos meios tradicionalistas franceses não se pode falar mal de Napoleão.)
Ah não, é?! Por quê?
(Sr. Paulo Henrique: Há uma aura negra em torno dele por onde… pelo que eu senti em alguns lugares, a coisa arranha. Eles talvez falem, mas no rol… porque algumas coisas ele conseguiu para a França, ele ficou com uma certa aura.)
O usurpador!
(Dr. Edwaldo: Não era francês.)
Não era francês, mas aí não tem importância, não tem importância nenhuma.
* O senso da justiça não consiste somente na censura, mas também na admiração ─ O que a falta de justiça tem de abominável é não odiar o mal e não admirar o bem como deve
Mas, então fica levantada a seguinte coisa: não será um modo de recuperar a aura, destruir os obstáculos: a visão da aura ─ não vamos falar da palavra visão que é uma palavra má ─ o discernimento da aura não se pode recuperar afinando em nós o senso da justiça e censurando o que tem de censurável e admirando o que tem que ser admirado? Porque o senso da justiça não é só a censura, é também admiração. E quem é incapaz de admirar, também não tem senso de justiça.
Agora, você vai ver esse pessoal que não gosta da punição, eles não gostam de admirar. Absolutamente não gostam de admirar.
Ora, a gente não adora o que não admira. E se Deus não é admirável, nós não adoramos, não temos fundamento lógico para adorá-lo.
Então, aqui vocês têm terminado o périplo do tema, vocês têm algo que é a visão de como o discernimento dessa graça da TFP pode apagar-se, das aberrações de toda ordem a que conduz, depois um fator psicológico que entra dentro disto que é a falta de justiça. Depois o que a falta de justiça tem de abominável que é de não odiar o mal e de ser incapaz de admirar o bem como deve, o que é uma coisa gravíssima, essa incapacidade de admirar. (…)
(Sr. Guerreiro: [Inaudível] …imponderáveis que nós sentimos.)
É bem isso.
(Sr. Paulo Henrique: Justiça e “émerveillement”.)
Justiça com severidade na crítica e ênfase no émerveillement. Todas as atitudes que de algum modo se podem notar (…)
(Sr. Guerreiro: [inaudível] pessoas da nossa idade poderiam como que a passo breve retomar esse mundo? Especialmente, tem tantos…)
(…)
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