Conversa
de Sábado à Noite ─ 19/1/1980 .
Conversa de Sábado à Noite ─ 19/1/1980
Efeitos da “Bagarre azul em nós” * O espírito de competição de certas pessoas diante do apostolado do Sr. João e a negligência em usar os métodos dele; a rivalidade * O dom do Sr. João não é tanto para recrutar, mas para introduzir as pessoas nesse “Arco-íris” que há no São Bento * Para os enjolras não se aplica a via do temor e sim a do “emerveillement” porque eles não tiveram a recusa dos membros mais antigos
* O ponto de partida para se abandonar um vício é sentir vergonha dele; a “Bagarre azul” matou essa sensibilidade moral
Então, qual é a pergunta?
(Sr. –: Estamos tão viciados na “Bagarre azul” como um drogado na droga…)
A comparação corresponde bem ao meu pensamento.
(Sr. –: O drogado é um indivíduo que faz propósitos contínuos de sair de seu vício, mas sempre cai de volta no seu vício. Eu acho que conosco acontece o mesmo. Mesmo que se ponha o drogado na clínica, se está pensando lá dentro, na droga, quando sai volta novamente a ser drogado. Que é preciso para curar-se?)
Eu acho a pergunta muito boa e muito bem apresentada, porque os termos dos problemas são minuciosamente os que você deu e, na ordem prática isso é assim.
Há dois modos de uma pessoa estar persuadida de que uma coisa é má. Uma coisa é o modo puramente platônico, teórico, doutrinário, a pessoa viu que é má e está acabado. Outra coisa é uma certa forma de sensibilidade que se chama sensibilidade moral, por onde aquilo que a razão apresenta como mal se põe ao espírito como uma coisa sumamente rejeitável e que a pessoa experimenta um dissabor muito grande naquilo. Não é o dissabor sensível de uma impressão de momento, mas é um dissabor de uma outra ordem.
Vamos dizer, por exemplo: vergonha.
Vergonha de ter praticado um ato mau: não é uma disposição sensível de momento. É uma coisa muito mais profunda, é uma disposição estável da alma pela qual quando ela se lembra daquele fato, lhe vem ao lado da convicção uma repercussão daquela convicção sobre o próprio modo de ser em que a pessoa, então, sente [a] vergonha.
Eu estava lembrando hoje na hora de ir para Jasna Gora que em latim a palavra vergonha, no nosso idioma, vem do latim “verecundia”, quer dizer, a visão da verdade e o contacto da verdade. “É verdade que fiz isso, não só reconheço, mas me vem vergonha, eu tenho vergonha disso, me vem uma repulsa que está na ordem da sensibilidade moral, e que me torna muito penoso estar naquela situação”.
O ponto de partida para uma pessoa com hábito mau, com vício, abandonar o vício, é sentir vergonha do vício. Quer dizer, a convicção lógica, mas convicção lógica com esse desfecho que a convicção deve ter; se quiser, como uma espécie de golpe de machado dado numa raiz de uma árvore que não derruba a árvore, mas vai tão fundo que a árvore vai secando, apodrece e morre.
Assim também, um viciado em cuja alma a vergonha de seu estado de vício tenha entrado adequadamente, essa alma tem condições, com a colaboração… [inaudível] …essa alma tem condições de ir largando, por esse definhamento, porque o machado chegou até o cerne da árvore. Aquela árvore tem uma post-vida, mas não vive mais, está fadada a morrer.
E propriamente o que a “Bagarre Azul” matou, acabou de matar, porque no meu tempo já estava uma decadência sem nome isso, é esta forma de sensibilidade moral ante o mal que foi feito, a coisa que não deveria ser e que é. Então essa sensibilidade ficou para algumas coisas e depois acabou por desaparecer inteiramente.
Por exemplo: no meu tempo, um homem que fosse pego roubando um objeto em casa de um amigo durante uma visita ficava desmoralizado completamente, mas completamente, era uma coisa que se espalharia eletricamente por todas as rodas dos conhecidos e dos conhecidos dos conhecidos. De maneira que em todo estado onde ele morasse ou os conaturais dele morando em outro lugar, quando se falasse dele era: “Ah! aquele? Aquele que roubou o cinzeiro de prata ou de ouro da casa de fulano”. Um descrédito completo. Esse homem só tinha diante de si uma coisa: mudar de país, e, se pudesse, mudar de nome.
Isso era porque ainda havia uma certa sensibilidade ainda e uma certa [está faltando alguma palavra] para o horror do roubo. Podia ser que um homem que fosse célebre por ter dado uma tacada na “Bolsa de Café de Santos” e ter ficado desonestamente rico em vinte e quatro horas, todo mundo soubesse e cortejasse esse homem, mas o ladrão do cinzeiro, para esta forma de roubo ainda havia uma sensibilidade moral considerável e as pessoas repeliam isso.
Alguém dirá: “Mas é uma contradição?!” Eu sei. Mas é melhor a contradição do que a coerência inteira no mal. Isso era um resto do tempo em que o sujeito tinha vergonha quando [era] tachado de ladrão na “Bolsa [de Café] de Santos”, também.
Quer dizer, a vergonha do roubo é uma disposição da sensibilidade moral que foi definhando com o tempo, essa é a questão.
Agora, pelo jogo das circunstâncias, eu peguei isto muito menos do que no tempo de meus pais. Meus pais pegaram menos do que no tempo de meus avós. Vocês pegaram menos do que no meu tempo. E a “Bagarre Azul” substituiu isso, completamente, pelo mero gozo da vida, sendo que qualquer coisa que na vida representasse honra já não era tida como um bem na vida. A palavra honra, completamente vazia, completamente fofa. A única coisa na vida era o deleite. Ainda havia como resto, era o substitutivo ou substituto medonho da honra, era a megalice. O sujeito ainda procurava ser mais, ser mais forte, ser mais rico, qualquer coisa assim; não era honra, era força só, mas isso mesmo desapareceu.
Notei entre os “enjolras”, daqui e de todo lugar, eles nem procuram saber quem é o outro, qual é a família do outro, que situação ocupa ou se esse no colégio é mais bem visto que aquele. Toda esta “bolsa de valores” acabou completamente. Nome de família, nem mencionam mais. “Conhece lá o Cássio?” Pronto, acabou!
“Aqui está o Gurinerdes”, toma logo apelido: Nedinho, na melhor das hipóteses. Uma hipótese boa, porque pode ser também Guri ou Gurinerdes a vida inteira.
Agora, isso que se deu com a honra, deu-se com o pudor, deu-se com uma porção de outras coisas. E a “Bagarre Azul” foi a liquidação disso, desapareceu completamente.
Então, é uma entrega ao vício sem arrière pensée. Seria preciso, portanto, uma análise própria a dar hoje em dia. Talvez a operação seja possível, dar vergonha pelo estado que se encontram aqueles que se deixaram jogar no chão pela “Bagarre Azul”. Porque [é] que o estado é vergonhoso, entra pelos olhos! Mas não se sente essa vergonha. É preciso apresentar essa vergonha para a sensibilidade moral.
(Sr. –: É culposa.)
É culposa.
(Sr. –: O medo é chegar a “Bagarre” num estado de Pilatos, Judas…)
Pilatos, vamos devagar. Pilatos foi o que foi. Os discípulos de Nosso Senhor, que traíram a Ele, foram melhores ou piores do que Pilatos? São Pedro, por exemplo. Compreendo que São Pedro não condenou Nosso Senhor à morte, mas ele é a “Pedra” sobre a qual foi construída a Igreja, etc., e as portas do Inferno não prevaleceriam contra Ela, etc., etc., o que aconteceu com a “Pedra”? Agora, como qualificar isso? É difícil qualificar, de tão horrível que é.
Bem, de maneira que vamos deixar Pilatos assim meio de lado. O que eu acho é o seguinte…
(…)
* O temor ajuda a dar vergonha; o papel da sensibilidade moral diante do que é errado
Depois com uma agravante: todos eles tinham o procedimento esplêndido de São João Batista, uma coisa do outro mundo! É esse o risco. Então, seu medo dá para agravar muito mais!
Vou pôr mais uma coisa: nós tivemos décadas de advertência a esse respeito e nós fomos completamente indiferentes e insensíveis a essas advertências, não nos interessamos por elas. Inclusive sabíamos que a advertência era fundada, que ia chegar a esta hora. “Ah! Não! Tá, tá, tá’…”, fizemos ouvidos moucos; foi o que fizemos. Agora, compreendam bem a carga que uma coisa dessas significa!
Bem, aqui entra o nervo da coisa: se uma pessoa, pelo menos ouvisse essa nossa conversa e ficasse com um medo vivo de ser apanhado nessa situação, e a compreensão de que se desse medo lhe viesse uma vergonha viva e da vergonha viesse um propósito, já seria muito.
Não é arbitrariamente que estou falando do medo: é que o temor de Deus ajuda-nos a dar vergonha, porque humilha, e no fundo a falta de vergonha é um ato de orgulho, não é outra coisa senão um ato de orgulho.
Repito, portanto: um drogado que caia no temor das conseqüências terrenas e post-terrenas de sua droga, fica mais fácil dele tomar a vergonha de ser um drogado. Bem, a partir do momento em que ele tomou a vergonha de ser um drogado, nasce nele a resolução, [ou] pelo menos um propósito de deixar a droga. Enquanto isso fica no puro raciocínio: “Deverei ser castigado, faço mal porque destrói minha saúde, tará, tá, tá, tá’…”; não há nada feito. E aqui a gente vê bem a diferença desta forma de sensibilidade moral de que eu falava, da coisa platônica.
Você toma pessoas, por exemplo, que estão doentes e que se não fizerem regime morrem; ou pessoas que devem estudar e se não estudarem são reprovadas; ou pessoas que acumulam dívidas e sabem que, em determinado momento, se assinarem uma letra de câmbio falsa vão para a cadeia. Eu conheço o caso de um homem de uma muito boa família de São Paulo, meio “bucheiro”, muito rico, ele começou a gastar, gastar, e em certo momento teve um apuro qualquer de dinheiro, e assinou para um turco um cheque sem fundo, e [o] deu para o turco e pensava repor. O turco não encontrou o dinheiro, e não sei por que razões, ao invés de avisar o sujeito para o sujeito entrar com o dinheiro, levou à polícia e instaurou uma ação criminal.
(…)
…o turco quase foi parar na cadeia. Mas esse homem, na hora em que assinou o cheque, ele podia ver o que podia acontecer com ele, mas são pessoas que continuam a comer, a não estudar, a assinar cheques, a fazer coisas deste gênero, porque não têm o temor. Não é que platonicamente não percebam o que pode acontecer, porque qualquer um percebe, mas ─ vamos dizer no meu caso, sobre a glicemia ─ ou você tem um coma diabética ou você tem uma gangrena e tem que sofrer mais uma amputação, na qual aliás, você pode morrer. Isso é uma coisa que é preciso ser um fabuloso analfabeto para não compreender que isso é incontestável.
Agora, como é que muita gente continua a comer? Diabéticos, continuam a comer. É que tiveram a convicção sem o temor da coisa, a coisa não pegou num lado da sensibilidade deles. E eu reputo isso uma forma específica de degradação moral, é quando a pessoa vê, mas está reduzida a um estado de desordem em que vê e não sente, é insensível àquilo que todos os instintos retos do homem devem levar a ser sensível. Isso se chama em linguagem corrente um “sem-vergonha”. Quer dizer, um homem a quem falta este tipo de sensibilidade moral. Evidentemente se [alguém] chama a ele de sem-vergonha, é capaz de brigar, mas é só porque fica feio perante os outros: ele sabe no fundo que ele é um sem-vergonha, sabe que os outros também sabem que ele é um sem-vergonha, porque sabem como ele vive, sabem o que quiserem, sabem. Para ele, é isso, pronto, acabou.
Então, a partir do momento que vem o temor, nascem condições para a vergonha, porque esse temor fecundo, que move o indivíduo à prudência, esse temor já é um ressurgimento dos aspectos mais baixos, portanto, mais fáceis de ver, dessa sensibilidade moral. Depois disso vem o resto, pode vir então um propósito com certo suco.
Basta que a pessoa tome a sério o que estou dizendo aqui que já tem condições criadas para esperar graças especiais durante a Bagarre, a misericórdia de Nossa Senhora, a bondade, etc., etc… Não é que eu esteja querendo carregar na nota do temor, mas se eu vejo no temor uma porta, o que posso fazer senão abrir essa porta? Eu não tenho direito de não abrir.
O lado seríssimo começa agora, porque é a última instância, e eu encontro condições para impressionar um pouco dizendo o que estou dizendo, que você mesmo sabe que há um ano atrás não impressionaria nada, seria uma reunião assistida na dormideira, no “teleférico”, daí para fora, quando não fosse coisas piores.
* A única forma de curar as conversas fúteis que se desenrolam depois das reuniões é incutir o temor de Deus
Mas agora as circunstâncias criam condições para este temor e eu sou então obrigado a aproveitar. Tomem por exemplo, a reunião de hoje. Tanto quanto eu pude sentir, foi tomada com uma certa seriedade; em certos momentos alarmou ─ não alarmou todos ao mesmo tempo, mas ora alarmava um, ora alarmava outro ─ mas em certos momentos alarmou. Terminada a reunião, saíram os que [foram] jantar e ficaram os outros. Como de rotina, o Luizinho tratava comigo os assuntos dele e o pessoal por ali conversando.
Eu estava vendo a sala ─ porque o Luizinho fica de frente para mim e eu de frente para a sala ─ eu estava vendo o pessoal conversar. Não me lembro de ter visto nominalmente nenhum de vocês lá dentro, provavelmente algum estava, mas não me lembro, não estou portanto, fazendo alusão a ninguém, estou falando in generis. O burburinho era da conversa mais fútil, mais inconsistente, mais boba que pode haver, depois de uma reunião daquela. Quer dizer, acabou a coisa, na hora houve um pouquinho de impressão e houve um respeito humano recíproco por onde quem desejasse abordar o tema da reunião não teria coragem.
Agora, ou se cura isso pelo temor ou, possivelmente por uma graça extraordinária de amor de Deus, mas essa graça não está em mim dispensar. Se a rogos de Nossa Senhora Ela der, será a alegria de minha vida, mas se não está em mim dispensar esta graça, eu tenho que ir pela via comum e batida do temor.
No início da regra de São Bento tem essas palavras: “Vinde, filhos, e ouvi-me, [eu] vos ensinarei o temor de Deus”. É o início da sabedoria.
Mas o temor não é a persuasão platônica, embora completa do perigo; é o temor, é por onde move o sujeito e o sujeito anda. Naturalmente isso supõe uma impostação de alma completamente diferente da “Bagarre Azul”. Mas, estou dizendo, se não mudarmos de impostação eu temo por nós; o que posso dizer? É isso mesmo, virão os Afegães e os Kirguizes, acabou-se.
(…)
* O temor é a única saída para se endireitar
Alguém dirá: “Doutor Plinio, fico perturbado”. Eu digo: “Meu filho, então não me peça conselho, porque o único que eu tenho a dar é esse.
(Sr. –: Não entendi bem.)
Eu falei da vergonha primeiro e mostrei como a vergonha tem seu início no temor. O temor é o temor das conseqüências dos atos que a gente pratique, mas há um respeito por aquele que põe na punição, há uma transição fácil. E com esse respeito, a compunção, etc., etc… Por exemplo: o temor do Inferno abre o respeito a Deus. Depois do respeito, pode-se passar para o amor.
É terrível, porque há gente que não teme o Inferno. A gente vê [exemplos] nesses hospitais de cancerosos: são condenados à morte. Ali, pouquíssima gente escapa. Escapa para estar sentado a vida inteira debaixo de uma espada de Dâmocles. A gente vai ver, não ligam.
(Dr. Edwaldo Marques: Nunca vi um doente grave pedir padre. Se oferecia, aceitava, mas tomar iniciativa, não.)
Quer dizer, sabem tudo quanto estão arriscando mas,… não se incomodam. É endurecimento, quer dizer, sem-vergonha. Está acabado.
Desde que o mal seja o embotamento da vergonha, a saída mais fácil é começar pelo temor. Adão e Eva, [é sabido] que se arrependeram e são santos: começaram pelo temor e pela vergonha, está acabado.
Volto a dizer: há gente que me tem dito que eu perturbo dizendo essas coisas. Eu lamento, porque é uma porta de salvação que se fecha, eu não direi, ficarei quieto. Mais ainda, procurarei atrair a você pela via da suavidade, mas eu gostaria de atrair para as duas vias, pelo zelo que tenho pela sua alma. Lamento que você feche… Não tenho outra coisa para dizer.
* A felicidade dos membros do grupo da Venezuela é estarem despreocupados
Agora, seu papel nesse ponto na Venezuela é muito mais difícil do que é o do João aqui em São Paulo, de Dom Bertrand na França, [do] Uranga no Uruguai, do Tost na Argentina ou do Vieta no Chile, como queira, porque a Venezuela está muito mais na “Bagarre Azul” do que os outros.
Eu sei que o Chile está num período de muita prosperidade, mas a gente vê que a Venezuela recebe aqueles eflúvios dos Estados Unidos que é uma coisa infernal. Bem, e de outro lado os seus rapazes são de uma burguesia não aristocrática, mas muito bem instalada e a gente nota na cara deles a despreocupação de viver e o gosto de viver despreocupado. O “be-a-bá” da felicidade para eles é estarem despreocupados.
Até uma pessoa que faz uma certa exceção a isso é o Faoro, porque é uma pessoa a quem Nossa Senhora deu uma alma atormentada. Faoro é modo de dizer, chamam de Faoro um rapaz parecido com o Atílio, é o Luís Herrera. Mas o tormento da alma dele, o modo de ser atormentado, também não é bom, mas ao menos ele não tem tanto a “Bagarre Azul” quanto tem os outros.
* Em função do que foi exposto a respeito da “Bagarre Azul” a clave do São Bento é uma graça maternal de Nossa Senhora
Eu considero em função disso a clave do São Bento propriamente uma graça, especificamente uma graça dada por Nossa Senhora, por misericórdia materna e cujos efeitos você descreveu muito bem. Quer dizer, essa graça abre de repente os olhos para um mundo que faz estancar em nós as mil apetências vergonhosas que a “Bagarre Azul” acendeu e para a qual nós nos vendemos. E os rapazes vivem naquilo mais ou menos como quem vivesse dentro de um arco-íris.
Bom, esses rapazes antes de entrarem, até que ponto eram atingidos pela “Bagarre Azul”?
Alguém dirá: “Não eram porque são muito mais moços”. Isso é um modo muito simplificado de dizer. Os do Carlos são mais ou menos da mesma idade. O João deve ter alguns mais velhos até que os do Carlos. Alguns do João devem ter até dez anos de “Grupo”. Portanto, algo pegaram.
Depois, de outro lado, quando a pessoa no mundo de hoje não segue nossa causa, ainda tem uma apetência da vida enorme. E se a pessoa só conheceu isso, gosta disso, está acabado.
E vários deles eu conheci inertes, indolentes, seguindo a vida do “Grupo” com tanta preguiça, que a gente poderia perguntar quando é que apostatariam, quando Nossa Senhora concedeu a eles a graça do São Bento e que começou aquilo. Alguém dirá: “Bom, é o prédio”. Não vamos perder tempo. Prédio, hábito, são fatores positivos, mas que não são decisivos e [para os quais] não vamos perder tempo em analisar.
Bem, então o que é? Foi uma graça que Ela quis dar. Alguém dirá: “Não, é o João”. Eu digo: “É o João, mas não é nem o João nem é o Plinio, porque eu alcancei o João com décadas de apostolado, e o João não tinha feito nada de parecido com isso, nem ele espalhava em torno dele todo o ambiente que existe no São Bento.
Quer dizer, Nossa Senhora deu uma graça ao João para fazer isso. Dirá alguém: “Não, é Doutor Plinio”. Digo: “Também não é verdade, porque a maior parte desses rapazes, os de mais peso ali dentro, há muito tempo me conheciam e não me viam com os olhos que me vêem hoje”.
(Sr. Fernando Antúnez: Agora, lá dentro se quebrou uma ilusão inibitória a respeito disso e daí nasceu todo o resto.)
Essa é outra questão. Você diz: “se quebrou”. Que é esse “se”? Esse “se” não é evidentemente nem ele nem eu, porque nós fizemos todo o possível para fazer bem a essa gente e não fizemos. Mas é que Nossa Senhora resolveu na sua superior sabedoria ─ na sua misericórdia sem nome, etc., etc. ─ resolveu em determinado momento conferir essa graça por um determinado método. Acionou dois filhos, respectivamente o João e eu e a coisa tocou. Mas é.
Quer ver a prova incontestável disso? Esse modo…
(…)
* O espírito de competição de certas pessoas diante do apostolado do Sr. João e a negligência em usar os métodos dele; a rivalidade
Eu saberei no Céu o que expiei, se foi pelos outros ou se foi por mim, isso saberei depois, mas o fato concreto é que foi uma graça assim: que tira as pessoas de dentro desse meio e põe para viver dentro desse arco-íris; é propriamente isso.
Aí vocês vêem a morfologia, as características singulares dessa graça, como são as almas humanas. Há gente ─ infelizmente é verdade ─ que se põe a comparar com os “enjolras” do João e que morrem de espírito de competição, de rivalidade, de mal estar com os “enjolras” do João. Eles sabem qual é o método que o João emprega. Mas eles [os] empregarem, não empregam. Eles recorrem a qualquer coisa. Digo mais: veja os mistérios da alma humana. Tenho a impressão que se pedisse para um deles para sacrificar um braço, uma perna, qualquer coisa para produzir um efeito de apostolado, provavelmente faria, mas usar o método do João, não! Isso não!
Então vem aquela história: há gente com perigo de se perder, gente muito boa, perder-se por esta espécie de senso de rivalidade. Por que não empregam o método do João? Isto não! Não [o] fazem. Ou recorrem a processos homeopáticos e postiços no emprego do método do João. Ora, esse método não rende quando é [empregado] postiço e homeopático, em gotinhas. Também não. Então a gente vê que as coisas dão no que dão…
Agora, a falta do temor é tão grande que a pessoa sabe que é responsável por “x”, “y” ou “z”, e sabe todo o resto, sabe que poderia curar aplicando tal remédio… “Mas, então ele vai para o Inferno?” Isso eu não sei. Esse método, não!
Agora, não é porque não quer aplicar o método, vamos dizer a coisa bem doída como é, não é não. É não querer colocar-se a si mesmo naquele ponto de vista.
(…)
[Contam fatos do Evangelho, São Paulo, Judas Macabeu, etc…]
É uma coisa do outro mundo. A criatura humana é inimaginável.
* O dom do Sr. João não é tanto para recrutar, mas para introduzir as pessoas nesse “Arco-íris” que há no São Bento
(Sr. –: O senhor disse uma vez que o sr. João havia recebido esse carisma. Agora, o senhor acha que isso poderia espalhar-se pelo “Grupo” para que possamos cumprir nossa missão?)
Isso me dá ocasião para ampliar um pouquinho o tema, mas nós temos dentro da TFP dois modos de apostolado; se quiser, dois ritmos de apostolado. Um é o apostolado de um a um, daqueles que vão conhecendo esse, aquele, aquele outro e vão trazendo. Eu tenho a impressão de que para este apostolado, todos da TFP, talvez com alguma exceção, mas todos são chamados.
É duvidoso, muito duvidoso, que uma pessoa, porque não tenha trazido ninguém, fique demonstrado que nunca fez o apostolado devido, porque pode ter sido recusado. Mas o normal é que o grosso da TFP, abstração feita dos casos individuais, o grosso da TFP traga gente ao longo dos anos, um, dois, cinco, o grosso. Os senhores se lembram que os Apóstolos, os que não trabalharam na bacia mediterrânea tiveram um insucesso quase completo. Só o que esteve na Abissínia é que conseguiu um certo resultado: o resto não foi nada, [mas] não é culpa deles, são santos.
Agora, também me parece que está de acordo com a ordem do bom senso, tudo o mais, que alguns em determinados momentos da vida recebam uma graça para atrair muito mais e para trazer muito mais gente, etc., etc.
Isso são vários dentro do “Grupo”. Um deles, de um modo insigne, foi o Fedeli. Dizem-me hoje em dia está atraindo muito pouca gente. Seja como for, não se pode negar que ele tem uma parte enorme na expansão da TFP.
Agora, há um carisma para introduzir nesse “arco-íris” os que estão no São Bento, porque o João não é tanto um grande recrutador de pessoas de fora, ele introduz o pessoal nesse “arco-íris” e aí o João atrai muita gente, mas vocês não vêem quase o João estar tratando com gente de fora, é pouco. Ele trata com gente que levam a ele para tratar. Quando tem tempo trata, mas é o que pode.
O João não é sobretudo um grande recrutador: recrutam para ele. Agora, ele começa por fixar a pessoa, e depois, fixando, já vai introduzindo nesse “arco-íris”.
(Sr. –: Agora, quando o apostolado, mesmo o de atração, quando centrado no ponto certo já sai noviço fervoroso.)
Isso concordo. Mas que isso que é, portanto, um método de apostolado que os fatos verificam ser abençoadíssimo por Nossa Senhora, nele [o Sr. João] tem um carisma especial, tem.
Agora, a pergunta [que] cabe [é a] seguinte: há algumas pessoas dentro da TFP que têm um meio de atrair muito especial, são grandes recrutadores, fixam, dão impulso. Meu Carlos é um, o Tost é outro, poderíamos eventualmente apresentar outros. Mas com participação maior ou menor de Dom Bertrand, Uranga, Storni, não sei quem, algo de parecido está se dando. Parece que se começa a dar no Chile, analogamente. Há ali graças de recrutamento muito boas, excelentes.
Existe esse carisma?
Com afeto de pai para filho, não estou suficientemente informado, nunca perguntei nem mesmo ao Luizinho quando esteve lá, até que ponto esse carisma se manifesta na Venezuela e que possibilidades tem.
Mas uma coisa é positiva: é como grupos pujantes, vigorosos assim à la longue só dão o que quer, com uma graça desse gênero, se deve esperar, desejar, pedir e acabar recebendo alguma coisa assim.
(Sr. –: Qual a essência do apostolado do senhor João, qual é o método que podemos seguir que não se confunda com qualidades pessoais dele?)
Porque não perguntam a ele? Eu não sei. Exatamente não sei. O João é uma pessoa singular por vários lados, mas um dos lados por onde é singular é que o João, embora não pareça, é muito tímido; parece um paradoxo, uma loucura dizer isso do João, mas ele o é. Ao menos comigo muito tímido e por isso muito esquivo; ele me tem sido sempre muito leal, mas eu chegar a saber exatamente o que ele diz, o que ele faz, como é, como não é, etc., etc., eu não sei. Fernando sabe mais do que eu. Mas eu não sou muito desses métodos de pedir informação.
(…)
Acrescentar uma espécie de pequeno contraforte que é o seguinte: uma pessoa vendo que o método [do] João dá resultado, a pessoa não aplicar é pior do que aplicar sem ter o estado de espírito. Porque ao aplicar pode acabar recebendo a graça de ter o estado de espírito. De maneira que… desde que seja feito com despretensão… se põe a pretensão acabou, pode dormir, chorar, pintar o caneco, acontecer o que acontecer, não tem saída.
(Sr. –: A questão “enjolras”.)
É fundamentalmente uma questão da graça, mas é uma coisa que acontece supondo a generosidade, porque a graça sem generosidade é estéril. Mas quando eu vejo os “enjolras” eu tenho saudades de “n” pessoas que eu vi na TFP em estados de espírito parecidos com os dos “enjolras” e, muitas vezes com muito mais “Thau” do que eles, que por chamejamentos viam a TFP dessa maneira.
Aliás, você há pouco disse: “Eu não tenho mais…” Como quem teve a experiência de que já teve alguma coisa assim. É um depoimento de sua memória. Mas sou propenso, fortemente propenso, a crer que essa graça todos têm, e [a] têm permanentemente. A questão é que se viciaram em fechar os olhos.
Outra coisa: desde que queiram abrí-los, essa graça entra de novo, mas viciaram-se em fechar os olhos, não tem conversa.
(Sr. –: Não entra uma forma nova de graça?)
Não. Entra uma psicologia nova, é uma coisa diferente. Quer dizer, eles são inteiramente tomados por essa graça sem as arrières pensées, as objeções que nós carregávamos na nuca, no [accipito??] toda espécie de apegos, afinidades e infiltrações.
Neles isto é ilidido. Não se nota neles o gesto da mulher de Lot, de olhar para trás, para Sodoma, lá vai. É uma coisa diferente.
Alguém dirá: “Bom, pobre de mim, então…” Eu acho que nós tínhamos muito mais “Thau” do que eles. Eles recebem essa graça fulgurante, mas nós tínhamos muito mais “Thau”.
(Sr. –: De uma ação nova da graça o senhor não vê nada?)
Eu não vejo. Eu não afirmo que não há, mas não estou vendo.
[Vira a fita.]
(Sr. –: Existe uma condição psicológica mudada.)
Isso é fora de dúvida. A própria palavra “enjolras” indica um outro patamar, etc., etc…
(Sr. –: Sendo quebrados o fator de união com Deus, com a graça, estaria comprometido. O que se verifica é que não [é assim].)
Não canonizemos as pessoas. Já há…
(…)
* Morar num “arco-íris” não significa morar numa fortaleza…
…dessas graças todas, é terrível. Quer dizer, morar dentro de um “arco-íris” é uma coisa linda. Será sinônimo de morar dentro de uma fortaleza?
Em nenhum momento eu fiz aqui o elogio da estabilidade disso. Não entra a menor censura ao João, hein! Porque com essa gente quebrada, o que é que se pode fazer? Afinal, é o que se dizia há pouco: são quebrados. A questão “culpa” não está no tema nosso. O tema é: qual é a durabilidade disso?
(Sr. –: “Hoy” por “hoy” a gente tem que confiar que Nossa Senhora construa a fortaleza porque se não moram no “arco-íris”, vão morar onde?)
É fora de dúvida.
(Sr. –: Parece que o senhor não tem aberto muito, ou melhor, por falta de ocasião não tem falado quase nisso.)
* O “arco-íris” imanta as almas; o egoísmo e a auto-suficiência acabam com essa imantação
Não: pelo total desinteresse por esse gênero de assuntos, antes dos dedos sagrados do medo baterem em nossa porta.
Se nossa reunião de hoje não fosse feita no clima de Bagarre iminente não teria versado sobre esse tema. Tudo isso teria sido “blá, blá, blá”. Essa conversa aqui que eu estou reputando muito boa é de fato uma conversa para a qual a proximidade da Bagarre cria condições.
Agora, o que é próprio do tal “arco-íris” e que é próprio de nós em todo o problema de nossa perseverança é o seguinte: dir-se-ia que esse “arco-íris” imanta ou por outra, que ele é um ímã, e que ele prende. Que quando ele deixa de prender, o sujeito cai lá de cima, não tem saída. A questão é que nós sabemos pela Fé que nunca parte de Nossa Senhora o deixar um filho gratuitamente. Ela é a Virgo Fidelis e é tanto autenticamente Fidelis quanto é autenticamente Virgo e que, portanto, nisso podemos ter uma dessas confianças de arrebentar e que, portanto, há um fenômeno qualquer do interior de nossas almas que leva o tal “arco-íris”, não a nos soltar, mas a poder agir menos.
Mas exprimo melhor: nossa alma põe uma vedação como se fosse um papel de seda entre o “arco-íris” e nós. E se eu, entre dois metais dos quais um é imantado, eu puser um papel de seda pelo meio, a força da imantação diminui. Agora, se esse papel de seda for engrossando e virar papelão, há um certo momento em que o objeto imantado cai no chão.
Agora, o que é esta coisa?
Esta coisa é uma certa forma de egoísmo que se opõe a que nós vejamos o “arco-íris”. E é esta forma de egoísmo que é preciso renunciar. Forma de egoísmo muito propiciada pela “Bagarre Azul”.
Mas entra um outro dado dentro disso; é o delírio da auto-suficiência, está em todo homem: “o papai aqui resolve”.
Me lembro do choque que tive quando moço [e quando] li Dom Chautard, “A Alma de Todo Apostolado”, em que ele condena a seguinte posição, do apóstolo que diz: “Meu Deus, afastai de mim todos os obstáculos extraordinários ao meu apostolado que dos ordinários eu me encarrego”. Eu me senti fotografado de corpo inteiro e quando li aquilo pensei: “Como é que pode acontecer que um homem tenha uma pinça que penetra no estado de minha alma tão profundamente? Uma profundidade que eu julgava vedada aos outros, um livro de um homem que talvez já tenha morrido, pega isso aí, põe diante de mim assim”.
A reação minha foi: “Mas então, do que é que sirvo eu? Porque se até para as coisas ordinárias que estão na minha proporção eu preciso de um apoio d’Ela, então não sirvo para nada, estou reduzido a um fantoche e todos os esforços que tenho feito e todas as qualidades que imagino que tenho ficam reduzidas a nada, o que é isso? Mas aqui está uma carta de aprovação de São Pio X, calorosa. É portanto, doutrina da Igreja, portanto é verdade. Se é verdade precisa crer. Então é assim. Agora precisa incrustar isso dentro da cabeça, estudar as razões para entender bem o significado e viver [en] conséquence”.
É ou não é verdade que nós temos muito dessa auto-suficiência? Eu não acho negável, não acho negável. Quantos de nós fazemos jaculatórias quando fazemos apostolado? Quantos de nós se abstêm com todo cuidado de comprazer-se em lembrar tudo quanto fizemos para nos deleitarmos com isso? Isso tudo dá auto-suficiência, é forçoso.
Quer dizer, haveria aqui um complemento à pergunta do meu caro Carlos [Antúnez], quer dizer, como voltar àquele estado de alma. Haveria aqui um problema que é todo o policiamento interno dessas mil formas de egoísmo. É uma coisa tremenda.
Então aqui há naturalmente matéria para reflexão, e eu faço uma espécie de coordenação da noite para dar uma visão de conjunto, ordenar as coisas.
* O Sr. Dr. Plinio faz um resumo da reunião com seus principais matizes
A coordenação se faz na própria linha histórica em que as coisas se desenvolveram. [O] Carlos apresentou uma pergunta: uma vez que uma pessoa habituada à “Bagarre Azul” é um viciado, comparável a um viciado em drogas, como desvincular-se desse vício?
Como o Carlos apresentou a problemática dele desvinculada de outros aspectos colaterais do problema ─ é como a gente deve fazer ─ eu respondi desvinculado, quer dizer, tratei segundo as vias normais da graça o papel do medo para criar a vergonha, defini o que é a vergonha, e mostrei que o temor de Deus conduz à vergonha, conduz à sabedoria. Falamos da regra de São Bento, etc., etc…
Dei também um conselho que conduz à restauração disso. Restauração das graças antigas que a “Bagarre Azul” deglutiu.
Agora, um de vocês levantou a questão do apostolado do João, como é que o apostolado do João conseguia resultados muito satisfatórios contra esse vício da “Bagarre Azul”, não por meio do temor e [da] vergonha, mas fazendo o indivíduo viver numa clave que eu chamei: “viver dentro de um arco-íris e que parece definir bem a clave.
* Para os enjolras não se aplica a via do temor e sim a do “emerveillement” porque eles não tiveram a recusa dos membros mais antigos
Então no fundo havia uma pergunta assim: o método do temor é o único? Nós vemos outros caminharem nessa mesma direção de tal maneira, sem temor. O método do temor é o único?
A resposta: para os “enjolras” não vejo que tenha sido empregado o método do terror, houve esse emerveillement e eles entraram. Mas para os “enjolras” não vejo também que tenha havido recusas que houve conosco. Uns estavam melhores, outros estavam piores. Não há nenhuma evidência, pelo menos, de que tenham feito as recusas que fizemos. Bem: eles foram colhidos pelas graças e essas graças, segundo tudo indica, são da mesma natureza que o “Thau”. Esse “Thau” brilha continuamente aos nossos olhos ─ já aqui respondendo ao Guerreiro ─ essa graça brilha, e nós é que temos os olhos fechados.
Agora, como abrir os olhos a essa graça?
Pareceria que é a via do temor e a via da vergonha, seriam vias muito apropriadas para isso. Sem que eu exclua a possibilidade de, de repente, Nossa Senhora que é Rainha de suas graças, com seus modos de fazer, que Nossa Senhora dê, de repente, alguma coisa à maneira do que deu ao São Bento. Ela pode fazer isso.
Mas eu não posso prever isso, nós temos que tratar das vias normais, enquanto uma via superior à normal não se anuncia. Essa via superior ao normal nos convida a todos. Nós pusemos obstáculos: resta saber como retirar os obstáculos.
Pode vir uma via superior à normal. Se vier, Nosso Senhor seja louvado, Nossa Senhora seja agradecida. Se não vier, o caminho é nós nos colocarmos na via do temor para, de qualquer maneira sairmos.
* O Sr. Dr. Plinio continua com o resumo da reunião
Falei então dos dois caminhos, das duas portas. Eu quereria ver ambas abertas a todos.
Agora, ao lado disso, creio que por pedido do Poli, foi feito um aprofundamento de quais são as graças que o João recebeu, que relação têm essas graças com outras graças de recrutamento que florescem no Grupo. Então eu dei uma teoria das três modalidades de recrutamento. A modalidade de recrutamento que é de um por um; depois recrutamento aos maços; e depois, recrutamento à la São Bento. Mostrei que essas três modalidades de recrutamento são modalidades, cada uma a seu modo excelentes, que têm graças próprias, etc., e mostrei qual é o papel do “arco-íris”, da perspectiva de morar no “arco-íris”, como elemento do recrutamento.
Depois disso, tratou-se, o Mário interveio de que o método João não era um método, era um modo de ser, e eu mostrei que é verdade, até uma grande verdade fundamental, mas que a aplicação deste método com despretensão, a esse propósito foi realçada a despretensão do João na aplicação do método, que esse método aplicado com despretensão pode conduzir a grandes resultados na linha de caminhar rumo ao arco-íris.
E por fim, veio a questão misteriosa do “papel de seda” entre nós e o arco-íris, e as conseqüências que isto produz, quer dizer, um primeiro descolamento que pode ser progressivo e o nocivo que há nisso. Mais uma vez a necessidade do medo e da vergonha para nos pôr a caminho.
Isso seria uma espécie de teoria vista no conjunto dos problemas.
Aí entrou a questão do amor-próprio1 e da auto-suficiência como um obstáculo que nós vejamos e tenhamos enlevo.
Então são dois obstáculos: a “Bagarre Azul” com seus atrativos de prazer e o orgulho, sensualidade latus sensus, o gozo da vida outra coisa. E falou-se a respeito da necessidade de acentuar o papel da auto-suficiência para liquidar a situação.
Creio que foi esse o périplo dos assuntos tratados. Eu queria fazer o périplo para a pessoa não ter idéia de uma problemática desordenada dentro do caos e que a gente se perde.
Vocês estão vendo que é tudo muito ordenado, muito conexo. Aliás, nossa conversa que o “Judas” chamaria [de] “bâtons rompus” e que tinha aparência de bâtons rompus, é uma conversa muito metódica, quase um tratadinho.
Foi dada toda uma teoria do arco-íris, como foi dada a teoria desta vergonha como filha do medo. Se uma pessoa seriamente se mete por esta via, ainda que esteja muito no começo, Nossa Senhora não [a] abandona. Com o “arco-íris”, a quem está dentro do “arco-íris” sem ter posto o “papel de seda” maldita, Nossa Senhora não abandona. O problema é a fragilidade do “arco-íris” porque pode entrar o “papel de seda”, e citei fatos concretos… No fundo a conversa foi um tratadinho.
(Sr. –: A camáldula entra na primeira via.)
Aqui não tratei de uma coisa que estaria tarde demais para tratar, mas ao lado disso há um apostolado [de] estaqueamento do qual sempre nós falamos e que é de manter as pessoas enquanto não chega a graça. É uma espécie de purgatório dentro da qual a pessoa tem que estar para apressar a hora em que lhe volte o “Thau” e o convite para entrar no “arco-íris”, as portas de acesso ao “arco-íris”, a base do “arco-íris” se abra. Esse é o apostolado no qual reluz de um modo incomparável e com carismas próprios nosso Luizinho, mas também nosso Caio, cujo Êremo Nossa Senhora Divina Providência, em matéria de estaqueamento é fabuloso.
Não posso deixar de ficar maravilhado [de] Nossa Senhora fazer florescer na ponta das estacas o lírio da camaldulização que é uma coisa lindíssima. E a camaldulização tem seu papel dentro disso, porque a pessoa sai de dentro da “Bagarre Azul” por alguns lados, porque a martelada das horas que batem dentro da solidão faz cair o verniz da “Bagarre Azul”.
Não sei se vocês já imaginaram o que é a solidão e o que é o acordar de um camaldulense que vem trazendo cargas de imobilidades acumuladas nele na véspera, e que sabe que durante o dia sob a forma de uma chuva de chumbo fina ele vai dormir com uma carga ainda maior, de silêncios, de reflexões, de coisas não comunicadas, de orações, de ninharias nas quais ele consentiu em dar importância: é um tormento. Amenizado pelo fato de que eles ali não torcem e escapam do campo de concentração do nervosismo, é o lado amenizante. Mas é uma coisa lindíssima que Nossa Senhora tenha, dessas estacas áridas implantadas pelo bom Luizinho, fez nascer a flor magnífica da camaldulização.
E há uma coisa muito bonita para provar aí que Nossa Senhora usa dos meios humanos, mas quando quer não usa, foi um dos fatos mais bonitos do ano de 1979…
(…)
Nós vimos o “Grupo” em todos seus aspectos, em todas suas modalidades numa conversa na qual não faltou franqueza.
(Sr. –: Êremos Itinerantes.)
Continuam a fazer uma obra magnífica…
(…)
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1 São Tomás de Aquino afirma que a raíz dos sete vícios capitais é o Amor-Próprio.