Conversa de Sábado a Noite ─ 12/01/80 ─ p. 15 de 15

Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º Andar) ─ 12/01/1980

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Comentando a última cerimônia realizada no São Bento: continha um ano de Reunião de Recortes * Se os enjolras não houvessem realizado certas cerimônias, as gerações mais provectas não as fariam, por ilusão inibitória * Se estas cerimônias houvessem sido realizadas antes, a TFP seria outra; o mérito do Sr. João, o calor que ele consegue transmitir nestas cerimônias * O entusiasmo do Sr. Dr. Plinio pelas esquematizações bem feitas * Para as pessoas recobrarem o gosto pelo raciocínio, o Sr. Dr. Plinio costuma dar metáforas, encaixadas num todo muito raciocinado * As gerações anteriores rechaçaram as metáforas por ilusão inibitória; como morreram as conferências de europeização e ACCs * A longa convivência ─ dentro da TFP ─ produz um calejamento com o sublime, que é um verdadeiro perigo * Tentações que os membros do Grupo têm contra a paternidade do Sr. Dr. Plinio

* Comentando a pouca reação que houve na reunião, e a falta de gosto pelos esquemas

(Sr. –: Via-se a importância e elevação da reunião, mas me custava pegar o “pulchrum”.)

Uma pergunta que vem bem a propósito porque, o Luizinho comentou o fato comigo, depois o João e o Gugelmin, algum tanto o Arnolfo, no automóvel de volta, comentaram o fato. Quer dizer, estranhando a ausência de reação do pessoal durante a reunião. Foi uma reunião, completamente, sem reação do pessoal, durante a mesma. Foi uma reunião, completamente, sem reação. Houve um certo zum-zum, quando se falou da questão dos profetas, mas, um zum-zum, que poderia ter sido mais pronunciado do que foi.

Não é aplauso que digo ─ sabem que sou muito cético em matéria de aplauso ─ mas uma outra correspondência de alma.

Houve, com a reunião, o seguinte: de fato, tive uma longa conversa ─ esses são os bastidores da reunião. Lembram-se da reunião passada, na qual analisei o documento de João Paulo II? Foi uma reunião sobre uma alocução que o João Paulo II fez. Fiz comentários sobre aquilo, e achei que deveria levar este documento para o cônego, José Luiz, conhecer; porque, eu acho muito importante que o cônego, e aquela fieira de padres, que existem a partir dele, se mantenham conosco, num relacionamento excelente. E, Dom Mayer e eu, já vamos tomando idade, de maneira que já se pode pensar em Dom Mayer faltar, como, [também], em eu faltar; e, Dom Mayer faltando, precisamos ter esta fieira de padres do nosso lado.

Depois que o João Paulo I morreu, o cônego não apareceu mais em nossas reuniões, diante da idéia de que falemos horrores…

(…)

claramente que há qualquer coisa na mentalidade das gerações, que foram sucedendo à minha, que faz com que não gostem das esquematizações. Esquema, não gostam. E que, pelo contrário, gostam muito da coisa, difundida em comentários. Não sei se isso é para todos, mas, ao menos, muito generalizado.

Por causa disso, acho que se formou, na mentalidade da geração de vocês, um complexo qualquer contra esquema, por onde, acham que quem está esquematizando, não tem na cabeça senão aquilo que está dizendo, e que está falando sem nenhuma arrière pensée. E, com o espírito inteiramente seco, vocês acham que todo esquema é um método, “ploc-ploc”, de expor. O ideal, é exposição mais livre em torno de um esquema. Mas, isso leva muito tempo, em geral, chego com pouco tempo; minha vida é cheia, vocês vêem até que ponto.

Bem! Achei que esta esquematização produziu este efeito, de uma certa hirteza da parte dos ouvintes, acrescida de outra circunstância. É que, dentro do esquema, entrava algumas coisas que se prestavam a verdadeiras clarinadas, mas eu tive a impressão de que o pessoal ficava muito surpreso de sair aquelas clarinadas de dentro do esquema, e passava uma adiante. E, tudo isso, criou uma atmosfera de difícil reação, de difícil reatividade.

Eu poderia dar à conversa, agora, dois rumos: um, é expor qual é o pulchrum de todo esquema, do esquema enquanto esquema; mas, poderia dar um outro rumo, que me parece mais útil, que é o seguinte ─ qual foi a conclusão que me ocorreu a este respeito, e que vale para esquema e não-esquema. Digam, com toda franqueza, o que acham do que vou dizer.

* O que seria preciso para que os membros do Grupo acompanhassem e reagissem melhor, durante as reuniões

Vocês acham que há muitos torcedores de futebol que acompanham o jogo com o rádio ligado, com o locutor descrevendo a partida para eles, ao mesmo tempo, torcendo para eles; e eles, torcem, em sincronia, com o locutor. Se eles não tiverem o locutor torcendo, eles não estão aptos a torcer sozinhos, sem locutor. Que algo de parecido se passa com os nossos durante a reunião, que se não houver uma torcida que dê a clave de como ir apreciando, não tem feitio para apreciarem por si sós. E que, seria preciso para isso, uma coisa que não é praticável, mas, para dar idéia ─ é termos uma sala do Reino de Maria, da altura dos dois andares da rua Maranhão, construída nos fundos, onde tem aquela ermidazinha agora, com boiserie, com tudo da atual, mas completa, com logias encima, de maneira que pudesse ter arauto, pudesse ter gente que fizesse proclamação, pudesse ter, de repente, alguém que desenrole um estandarte, outros símbolos de entusiasmo, que uma pessoa, muito comedida e com muito senso de oportunidade, soubesse não impor o seu próprio sentir aos outros, mas soubesse interpretar o que os outros estão sentindo e não conseguem desenvolver.

E assim, fosse ao longo da reunião ajudando. Parece-me que isto seria… só poderia ser numa grande sala, com grande… Agora, acham que existe esta carência em muitos casos, ou não, o que parece?

(Todos falam)

Lá, debaixo de todos os pontos de vista, é ambiente heterogêneo. Mas, também, o que prejudica o ambiente ali, para formar uma espécie de sincronia propícia a concentrar a atenção ─ o ambiente é muito prejudicado pela impressão de mare-magnum ─ é um número desproporcionado com o tamanho da sala, e que parecem ondas humanas. Tudo bem sentado e instalado evita a sensação de caos que aquilo dá.

Agora, com isto, esta parte simbólica, dentro da reunião, se tornaria dispensável?

(Sr. –: Não, não. Seria excelente, “a la” dia 13.)

Mas, precisamente, haver muito tato, para não super-valorizar notícias, não repetir ritos, porque repetição de ritos, para nós brasileiros, fica banal, logo, logo. Precisamente, ser coisas ─ portanto, perigosíssimas ─ quase improvisadas na hora. Seria uma arte, superiormente, difícil. Mas, vamos dizer, isso, mais o esquema, seria um modo novo de fazer reunião, cuja eficácia poderia ser objeto de cogitação.

(Sr. –: Dependendo de certo entusiasmo, toca-se uma nota de órgão…)

Se tivéssemos dinheiro para ter uma série de gongos diferentes, de maneira que, simplesmente, uma gongada sobreviesse, já seria… acho que o gongo estaria muito adequado. Bomm! Bomm! Depois, o gongo tem muita vantagem de ser uma coisa muito impessoal, de maneira que, não é de acordo com hábitos de alguém, é um som que ecoa independente da voz de qualquer pessoa, seria muito bonito.

* Comentando a última cerimônia realizada no São Bento: continha um ano de Reunião de Recortes

(Sr. –: Cerimônia do São Bento. Magnífica!)

Aquilo, havia um perfume que a imperatriz da Rússia usava, que se dizia, que cada gota ─ se presta um pouco demais à demagogia ─ de perfume levava mil rosas dinis. Poder-se-ia dizer que aquela cerimônia, por exemplo ─ ou a cerimônia do dia 13, ou uma cerimônia que fizeram antes dessa ─ continha um ano de Reunião de Recortes: apenas as luzes e os timbres da Reuniões de Recortes de um ano. Ainda que se fizesse abstração de tudo quanto foi lido lá ─ fizeram uma cerimônia mais longa contando a década, depois fizeram uma mais curta, não sei se você assistiu a ambas, mas qualquer das duas ─ se fosse só o lado cerimonial e não houvesse o lido ─ ainda continham um ano das impressões, que as Reuniões de Recortes devem dar, condensadas ali, de tal maneira aquilo é pulchrum, é simbólico, enfim acho fantástico, simplesmente.

Você assistiu, meu caro? Acho que precisa assistir, você e o Fiuza precisam assistir, é uma coisa extraordinária, realmente. Paulo Henrique definiu perfeitamente. Eu teria querido que se fizesse antes, mas não se fez; aquilo feito, dá para todos, é das tais coisas, ligam o motor de maneira que o automóvel fica capaz de se mover.

* Se os enjolras não houvessem realizado certas cerimônias, as gerações mais provectas não as fariam por ilusão inibitória

Eu tenho certeza que, se se quisesse de um de vocês, por uma razão proporcionada, justificada, um treino para fazer aquilo, não seria possível nem propor antes do Êremo do São Bento realizar aquelas reuniões. Depois de realizar, havendo uma razão justificada, etc., etc., com treino não excessivo, seria possível propor.

(Sr. –: Ovo de Colombo.)

É, ovo de Colombo. Vamos dizer, se eu quisesse de vocês, que desfilassem pela rua com aquele hábito, cantando aquelas coisas, era preciso fazer um treino. Mas, feito o treino, havendo uma razão proporcionada ─ não por uma razão frívola, fútil ─ não tem dúvida que fariam; isso não tenho dúvida nenhuma. Agora, não fariam, de nenhum modo, se fosse para fazer sem os enjolras terem feito. A ilusão inibitória esmagaria. E o que esta ilusão tem de falso, se vê neste exemplo.

* Se estas cerimônias houvessem sido realizadas antes, a TFP seria outra; o mérito do Sr. João, o calor que ele consegue transmitir nestas cerimônias

Depois, é impossível que, quem veja aquilo, não sinta que deveria ter sido feito antes, e que a TFP seria outra coisa, mas outra coisa, se tivesse sido feito antes. É impossível que não sintam.

Você precisa ir na próxima. Olha aqui, não depende de convite, vocês todos estão convidados. Chegando na porta, dizer o seguinte: estou comparecendo por ordem do Dr. Plinio, e entrem. Porque eu pretendo ver mais uma vez, porque sou insaciável por aquilo, e gostaria que vocês estivessem presentes. Mas, gostaria de um pouco mais: quero, estou mandando que estejam presentes.

Mas, voltando ao caso, desta cerimônia se tira algo do que pudesse ser a organização de uma reatividade, uma interpretação. Porque, o mérito desta coisa que o João está fazendo no São Bento, não é o seguinte: sugerir às pessoas uma impressão que ele tem e que ele, então, desperta nos outros. Mas, é o contrário: ele tem esta impressão e, nos outros, há de um modo menos comunicativo, eventualmente, com muito menos calor do que tem ele, mas têm também. E é porque interpreta o que está nos outros, ou seja, ajuda os outros a explicitar o que tem na alma, que sai aquele calor.

Aquilo não é uma impressão sugerida, de fora para dentro, por um cerimonial, mas a gente percebe que é uma impressão que vem do mais profundo daqueles que estão participando do cerimonial, e que o cerimonial ajuda a explicitar. E, eu acho, que é o verdadeiro cerimonial.

(Sr. –: Daí a vida que [a] cerimônia tem. Assisti a cerimônia da troca da guarda, da rainha da Inglaterra. Muito bem treinados, etc., mas não tem o ideal, a vida que tem no São Bento; os soldados não vivem aquilo, não sabem para que fazem aquilo, portanto, mortiça.)

Dá, um pouco, a idéia de soldadinhos de chumbo.

Então, eu presto atenção nas caras durante a cerimônia, não vejo a cara de um que esteja no teleférico, não vejo a cara de um. Eles têm que estar prestando atenção no que estão fazendo, porque aquilo é uma técnica, uma técnica, complicadíssima, de movimentos. Você viu como são ousados os movimentos, mistura, trança, são ousadíssimos. Mas, a gente vê que estão compenetrados do papel deles, que estão marchando, por assim dizer, numa atmosfera ideal.

(Sr. –: Senão não causaria a impressão que causa.)

Não causaria, absolutamente. Então, eu julgo, que a organização de uma coisa assim, em reunião, se for muito bem reçu ─ num salão, que não [seja] o de Jasna Gora, porque aquele salão não comporta isso, a gente não tem quase onde se mexer ─ a organização de uma coisa assim, poderia ser, realmente, muito interessante.

(Sr. –: Seria uma coisa preparada.)

Mas, é todo o problema. Era preciso alguém que conhecesse o verdadeiro significado dos vários gongos; mas, sobretudo, que não quisesse tirar, que entendesse o que todos gostariam de sentir, e não se fizesse sentir nem muito mais, e, sobretudo, nem muito menos, do que eles querem sentir.

(Sr. –: Para esta sintonia, seria preciso um discípulo perfeito que entendesse o que o senhor quer dizer, porque se bate errado…)

Ou bate com decalagem, querendo pedir do pessoal algo que eles não alcançam em dar. É preciso não ter decalagem: nem para mais, nem para menos. Preciso, também, que, terminada a reunião, fosse proibido fazer apreciações a respeito do gongo, porque, do contrário, do jeito que somos, lá fora… “eu teria batido tal gongo, mais importante, em tal caso”… linchavam o homem, porque cada um quereria que o gongo batesse, não é a média de todos, mas que batesse de acordo com ele, isso é certo. Com certo individualismo, vou dizer mais, nem passava pela cabeça outra forma.

E não pode ser.

(Sr. –: Cada um com seu gongo, seria a cacofonia.)

Pode imaginar, a maior parte “zuppava” de tocar o gongo, ou na hora de tocar o gongo ficava com insegurança, de maneira que o sujeito é apenas seguro na crítica, não é seguro no fazer.

Bem, se não fosse gongo, seria trombeta, seria… sei lá o que.

(Sr. –: Uma vez que o senhor falou em luzes de cores…)

Isso, eu pensei várias vezes, e seria uma coisa muito bonita se houvesse jogos de luzes, e o salão pudesse mudar de cor.

(Sr. –: No auditório São Miguel fizeram algo disso ─ hoje ─ durante as proclamações.)

É, mas achei que podia ser melhor. Depois, o João disse que projetaram, sobre o estandarte, uma luz amarela que estava errada. Por exemplo: no último ato que houve lá, o jogo de luz estava, superiormente, bem tocado. Hoje, me pareceu menos.

Então, uma série de luzes possíveis, mas que tomasse o salão inteiro, e com pequenos comutadores, de maneira que, conforme as partes da reunião, se poderia ir iluminando, seria uma coisa possível.

(Sr. –: O senhor não poderia fazer uma reunião no São Bento para ver?)

Não posso por uma razão: não posso bater gongo para o que eu mesmo digo, fica a coisa mais censurável e mais risível que se possa imaginar.

(…)

(Sr. –: Eles têm, ontologicamente, um valor; e, posto que se descobriu aquilo, os homens têm obrigação de amar aquilo, de se prepararem e amarem aquilo.)

Há mais, se eles estancam…

(…)

* As Reuniões de Recortes têm ares de aula

Reuniões de Recortes têm ares de aula. É um que fala, e os alunos que estão assistindo: não tem exatamente aquilo, que até para uma aula daria movimento, que seria umas rápidas intercurssões de cerimonial, de coisas assim. Até para uma aula de faculdade poderia dar um certo movimento. É ou não é verdade? Uma coisa evidente!

(Sr. –: Um dia que o professor leva um slide e projeta.)

É uma respiração. Eu jogava xadrez, na aula, com meu parceiro; ou, eu [ficava] de costas para o professor ─ de tal tédio ─ porque não podia suportar. Batalha naval, ainda não se jogava naquele tempo, mas é o que houvesse. Conversa! Era quanta quisesse. Não sei se o Chile é menos “selvagem”? Ser professor do Carlos, não devia ser fácil… Meu Fernando era aluno modelar, não meu Fernando?

(…)

escolhida, quer no que diz respeito ao esquema, quer no que diz respeito a um certo cerimonial possível, eventual, etc., etc.

(Sr. –:Depois, uma maneira de haver consonância. Porque palmas, por exemplo, às vezes está fora, desdoura a reunião)

Palmas não quer dizer nada. Dá idéia da palma que se bate para o conferencista aí fora. Eu me sinto equiparado a um político. Compreendo. Não havendo outras manifestações, outra forma, eu compreendo que palmas sejam necessárias, mas, por exemplo, hoje ─ que eu me lembre ─ não houve palmas durante a reunião da noite. Mas, não perdeu nada em não ter palmas.

(Sr. –: Palmas, às vezes, não é só o “sim-sim”, mas é agradecimento.)

Sim, tem muito disso.

(…)

* O entusiasmo do Sr. Dr. Plinio pelas esquematizações bem feitas

Mas, eu queria tratar agora, um pouquinho, sobre esquema.

Eu, se ouvisse uma conferência, dada por um homem, que tomasse uma porção de impressões que estão desordenadas no meu espírito e as fosse ordenando ─ e eu [fosse] sentindo aquela luz agindo no meu espírito ─ eu acharia isso muito bonito, e ficaria muito entusiasmado. E, neste sentido, acho que uma esquematização pode ser empolgante.

Bem, mas não vejo que a esquematização empolgue, porque, para a maior parte dos que assistiram a reunião de hoje à tarde, aquilo era um esclarecimento de uma massaroca de informações que, ou não tinham, ou se tivessem, fazia o caso. Quer dizer, o leitor mediano de jornal que está aí fora, não tem a idéia clara [do] que nós formamos na reunião, a respeito dos acontecimentos. Isso acho indiscutível.

* Por que as reuniões esquematizadas do Sr. Dr. Plinio não entusiasmam aos do Grupo; um exemplo de como uma reunião entusiasmou gente de fora

Portanto, os que acompanharam, mais ou menos, o jornal durante a semana, tinham idéias confusas sobre aquilo tudo, uma bagunceira quente que de repente explode. Agora, a pessoa vê o trabalho pelo qual alguém põe um ponto claro, depois põe outro, depois põe outro, depois põe outro, e faz um conjunto: é um trabalho muito bonito e que deveria entusiasmar. Por que não entusiasma? Por que, por exemplo, hoje, não entusiasmou?

(Sr. –: Coisa curiosa, em outros tempos entusiasmava. Mesmo quando chegavam com um mês de atraso, os comentários do senhor entusiasmavam.)

Como é que se explica que há grupos do exterior que recebem [um] monte de fitas, que jogam de lado, e não ouvem?

Há grupos do exterior que são assim: nem ouvem. Quer dizer, não se entusiasmam nem um pouco. Agora, fundamentalmente, é um não estar entusiasmado pela lógica.

Como pode a lógica não entusiasmar?

Paulo Henrique me disse uma ocasião que, se aproximou da TFP, por ocasião de umas conferências, sobre a Reforma Agrária, que foram feitas em Belo Horizonte. Bom, aquelas conferências eram altamente esquemáticas, era para um público o mais variado possível e com muita gente hostil; vocês viam pelas perguntas que faziam no fim da reunião: eram perguntas agressivas, algumas depreciativas, etc., etc. Entretanto, havia um entusiasmo naquelas reuniões. Não sei se se lembram: foi preciso mudar de auditório, ir para um auditório mais amplo, etc., etc. Foram duas reuniões.

(Sr. –: O senhor fez uma, e foi solicitado ─ logo depois ─ a fazer outra, um dia depois, num auditório maior.)

Para o tamanho de Belo Horizonte, naquele tempo eram auditórios cheios, lotados, uma coisa como deve ser. Não quero dizer magnífica, mas muito boa, muito direita.

Está bem, me lembro que as respostas dadas a eles, mesmo algumas respostas ─ quer dizer, algumas eram murros ─ tenho consciência de que não fui grosseiro com ninguém, mas, que eu repelia. Está bem: absolutamente, tenho até a impressão [de] que os que levavam repulsas, às vezes gostavam da sapecada. Agora, como é que pode ser que, dentro de casa, a lógica produza este desinteresse?

(Sr. –: Parece-me que há diferença de geração. Por exemplo, de 25, 26 anos, a cabeça não funciona. Eles se interessam até certo momento, mas depois precisa entrar algo assim, meio de som, de cor, de sabor, meio inesperadamente na temática, senão perdem o interesse. Certos temas abstratos, não acham interesse. E as costuras das questões, aqui, lá, com vagar, é por onde a gente respira.

Curioso é que a rapaziada mais nova fica se mexendo para cá, para lá, mas que é isso?)

Você imitou o jeito deles se mexerem, tal e qual. E mexem.

Agora, uma coisa curiosa, Guerreiro, que há umas exceções dentro disso que são singulares. Por exemplo, fiz duas reuniões sobre M. Emery, não têm nada de cor, nada disso, eles acompanharam com faro de policiaizinhos. O salão inteiro, estavam muito entretenidos. Eles entenderam, perfeitamente, toda a jogada…

(Sr. –: O senhor explicou de maneira a entenderem.)

(…)

acompanharam com…

* “Quem não tem senso do maravilhoso, não vai nem atrás da metáfora, nem atrás da ortodoxia: nada interessa a ele”

Por exemplo, [a] reunião de hoje à noite, foi exatamente como você disse. Fernando Antunes assistiu, Carlos assistiu, Fiuza também: uma reunião muito doutrinária no fundo, mas toda cheia de cores, de sons, porque, do contrário, não acompanhariam. Eu acho até que entenderam também; mas, não teria fixado a atenção, se não fosse o mundo de figuras, quase o tempo inteiro.

Mas eu acho que para vocês não precisaria de tudo aquilo.

(Sr. –: Mas, acho que é por defeito nosso. Quem não tem o senso do maravilhoso não se entusiasma, nem por uma coisa, nem por outra.)

Isso é certo, concordo totalmente. Quer dizer, quem não tem senso do maravilhoso, não vai nem atrás da metáfora, nem atrás da ortodoxia: nada interessa a ele.

* Para as pessoas recobrarem o gosto pelo raciocínio, o Sr. Dr. Plinio costuma dar metáforas, encaixadas num todo muito raciocinado

(Sr. –: E, mesmo na série da “psy-war”, o senhor comentou que tinha pego muita coisa.)

Isso! Concordo a 100%; embora seja verdade o que você diz ─ é a ordem normal das coisas - mas que, concretamente, há muitas pessoas que têm “nós” com o raciocínio, entretanto, conservam o senso do maravilhoso para a metáfora.

Em princípio, você tem razão, mas há umas formas defeituosas de ser, onde o indivíduo já perdeu o senso do maravilhoso para o raciocínio, e ainda não perdeu para a metáfora, embora seja errada, porque está a caminho de perder para a metáfora também. Pode ser recuperado por este processo: quando lhes dão metáforas encaixadas num todo muito raciocinado.

Tentei fazer isso hoje à noite: dar metáforas dentro de um todo muito raciocinado, porque o raciocínio poder-se-ia acompanhar de ponta a ponta, estava lógico, com toda espécie de metáfora. Estava lógico.

E outra coisa: note que eles acompanham o “fio”. Não vão de bobinhos, de metáforas em metáforas. Eles acompanham o “fio”.

* As gerações anteriores rechaçaram as metáforas por ilusão inibitória; como morreram as conferências de europeização e Accs

(Sr. –: Há uma atenuante para os enjolras, é que na formação que tiveram, não tiveram raciocínio. Então, através das metáforas, estão aprendendo a raciocinar. Na geração nova tinha pedaços de raciocínio, tivemos a graça do maravilhoso, rechaçamos a metáfora e ficamos só com o raciocínio.)

Eu acho que a geração de vocês rechaçou a metáfora por ilusão inibitória. Tanto é ─ devem se lembrar ─ que, as bem antigas, reuniões do Grupo, eram reuniões muito mais metafóricas do que [as que] comecei a fazer depois. Foram cada vez menos metafóricas, foi um período em que as conferências de europeização morreram, “ambientes-costumes” morreram. Eram metáforas, tudo metáfora.

Pois é, isso foi rechaçado, e creio que o foi por ilusão inibitória. Porque você dizia que na geração de vocês ainda se fazia pedaços de raciocínio.

Você tem razão. Mas poderia acrescentar mais uma coisa: é que o homem perfeito na geração de vocês, quer dizer, um homem que minha geração ensinou a vocês que seria o homem perfeito, seria o homem puramente raciocinante, sem metáforas. A ilusão inibitória era: metáfora ─ para senhoras, para [o] povinho, de vez em quando para os demagogos, poetas e literatos, que são mais loucos, fazem coisas que até, às vezes, vale a pena ouvir; mas, músico, poeta, literato, é uma grei de loucos que a gente mantém a distância, e quando eles lançam uma coisa bem sacada, a gente utiliza. Mas entra a música na casa ─ não entra o músico ─ porque é louco, é preciso manter a distância.

Todos vocês foram formados assim. Se oferecessem: “Olhe! Vou trazer para sua casa um grande músico ─ ninguém quereria…” Agora, a composição dele, ou um disco ─ isso sim ─ muito vulgar, compravam até, mas a presença dele não: louco!

* As conferências de europeização e Accs morreram dentro do Grupo, por ilusão inibitória diante do mundo

Isso pesa muito na balança. Foi por isso que vocês não quiseram aceitar a idéia de que uma pessoa poderia ser inteiramente raciocinante, mas muito metaforizante.

Então, por exemplo, eu acho que ─ para ser bem positivo ─ ambientes-costumes e europeização afundaram, não porque as pessoas não gostavam, mas porque quando eu fazia, eu notava que as pessoas acompanhavam com muita atenção, mas as pessoas tinham um respeito humano, diante de si mesmas, de estarem gostando de uma coisa que o ambiente fora consideraria de mau quilate para a vida intelectual.

Quer dizer, diziam: “estou aqui me engajando num jogo de espírito[s] que os professores universitários que conheço nunca fazem, e os homens que conheço, tidos como inteligentes, nunca fariam. Não me estarei metendo em divagações sem consistência ─ encantadoras, mas sem consistência ─ e que viciam o funcionamento de meu espírito?”

Eu acho que isto pesou enormemente na balança. Foi muito mais respeito humano do que desinteresse; [foi mais] ilusão inibitória, respeito humano, do que qualquer outra coisa.

* Enquanto os Accs agonizavam dentro do Grupo, o entusiasmo de um comunista pela seção

Uma vez fui procurado por um jornalista comunista que vinha me fazer uma entrevista sobre uma bobagem qualquer. Terminando, ele me disse ─ me parece que o Castilho figurava como diretor do “Catolicismo”, não sei como era ─ ele me disse: “O senhor escreve no “Catolicismo”?” Eu disse: “Escrevo”. Ele disse: “Eu daria tudo para o senhor me conseguir uma apresentação com o Dr. José Carlos Castilho de Andrade”.

Eu disse… querendo proteger o Castilho contra um importuno; e não disse que o Castilho morava aqui em cima não: “Quem sabe…” Uma resposta vaga. “Por que o senhor queria tanto falar com ele?” Disse: “É que ele faz a seção ─ Ambientes, Costumes, Civilizações ─ no “Catolicismo”, e gosto enormemente desta seção. A seção isto, aquilo, aquilo outro. E eu queria conhecer este homem e ter contacto com ele”.

Ficava muito feio dizer que não era meu amigo, que era eu, não iria fazer uma coisa dessas, mas isso, um comunista achava, enquanto a seção agonizava lentamente dentro do Grupo.

Eu quase contei isso no Grupo naquela ocasião, mas achei que não ficava bem elogiar meu próprio trabalho. Deixei morrer. Depois, não resolveria nada.

(Sr. –: Século passado, na oratória tinha isso.)

Devagar. Acontece que era uma metáfora, um jogo de metáforas, tirado muito da mitologia antiga e, muito menos, da vida corrente, quase da vida cotidiana. Muito menos ainda, trabalhando com a fantasia individual que qualquer homem tem. Vamos dizer: as metáforas de hoje, são metáforas alusivas às coisas que passam pela cabeça de todo mundo; não há um menino que não tenha tido vontade de voar como um pássaro, ou de nadar como um peixe. Quer dizer, tudo quanto há de mais banal ─ ou de morar dentro de uma pedra preciosa ─ não há nenhum menino que não tenha tido idéias dessas.

(Sr. –: Aquela do peixe me tocava muito.)

Queria muito ser peixe, meu caro Carlos?

(Sr. –: Nós nunca tiramos os pensamentos que o senhor tira disso.)

Por ilusão inibitória.

Acho o seguinte: que o mero raciocínio que vocês fazem do bem estar do peixe é … [ilegível]… deixei isso claro, com clareza meridiana. É mais [do] que bem estar, é propriamente isso: como uma alma humana teria bem estar em algo, se ela levasse a vida do peixe, o modo de estar do maravilhoso.

* “Não acredito que um homem que não acredite na infabilidade papal possa ter bem estar”

(Sr. –: O senhor falava que o maior bem estar é o do homem de consciência tranqüila…)

É, e sabendo-se católico. Porque, não acredito que um homem que não acredite na infabilidade papal possa ter bem estar, não acredito.

(Sr. –: Nem todo menino vê, porque não vê com a inocência com o qual o senhor via. Então, o senhor tira princípios, que um menino sem inocência não tiraria.)

Se vê com egoísmo, mata a inocência. O que quero dizer… para responder a pergunta do Guerreiro, eu queria dizer o seguinte: que um orador do século XVII, por exemplo, nunca usaria essas pequenas impressões da vida de todos os dias como matéria para grandes metáforas, enquanto é costume nosso usar. Eu entendi século XVII.

(Sr. –: Nosso Senhor usava muito.)

não tomam em consideração o que Nosso Senhor dá de conotação, quando fala de Salomão em toda a sua glória.

Quer dizer, Salomão em toda a sua glória, o que Ele sabe tornar de vivo da glória de Salomão, quando Ele fala isso, esses democratóides que estão por aí, por espírito democratóide, “zuppam”, mas a metáfora, de fato, é feita animando o contraste entre duas perfeições opostas.

Mas, eu acho que, de fato, na reunião de hoje, o pulchrum deste lado lógico não foi sentido em nada. Isso para voltar à sua pergunta originária.

(…)

* Como Deus liquida esse mundo, deixando-o liquidar-se a si mesmo num ocaso sem beleza nenhuma

(Sr. –: Como Deus veria essa situação de modorra, em que o senhor não pode dar todo o desenvolvimento profético à reunião?)

Você pode imaginar o castigo de Sodoma e Gomorra: um fogo lindo caindo sobre a cidade maldita, exterminando-a. Olhe que são Sodoma e Gomorra.

Agora, você vai ver o modo pelo qual Deus está liquidando esse mundo, é fazendo com que este mundo se liquide a si próprio, dentro da confusão, da poluição, do non sense e da feiúra de todas as pessoas, de todos os fatos, e da irrelevância de todos os acontecimentos.

Quer dizer, está chovendo lama sobre o mundo, está chovendo pus sobre o mundo ─ e nem é pus que chove, pelo menos dramaticamente ─ mas, é um cair de uma garoa nojenta de pus que vai infectando isso, e que é a resposta d’Ele a esta gente, é a resposta merecida. Quer dizer, é um ocaso. Em geral os ocasos das grandes civilizações são lindos: incêndio de Tróia, queda de Bizâncio, queda de Roma, o que você queira, tudo isso é lindo. Até a queda da realeza, em Versailles, é bonita.

Está bem, esses acontecimentos de hoje não têm nenhuma beleza. Não tem nenhuma grandeza. Não aparece um homem, na primeira fila, de uma estatura intelectual, pelo menos comum. O maior homem que aparece hoje na Terra é o Tatcher, é o único ente, vagamente razoável, que a gente vê mover-se por aí ─ é o Tatcher; o resto que se vê mover por aí, o que são? Giscard, por exemplo, é um bailarino, um porcalhão. O que é o Giscard? O rei de isopor não é rei nem… daí para fora. Na Itália ─ nem sei quem está governando a Itália ─ ninguém governa, não é nada.

Quais são os homens da oposição? Quem é que se levanta e faz um grande discurso? Quem é que tem uma atitude que muda o curso das coisas? Nada! É uma garoa porca, indefinida, sobre homens anonimizados e multidões degradadas. Isso vai chovendo aos poucos, e para vergonha deles eles vão se intoxicando e se habituando, a um tal ponto, que a duração deles, é a vergonha deles.

Mas, não tem beleza dizer isso. É o que dizia o Guerreiro numa rodinha. Num salão, não, não desperta entusiasmo nenhum.

(Sr. –: De outro lado, nesta garoa, o profeta não é ouvido, nem pelos que têm que ouvi-lo)

(…)

(Sr. –: Algo de honra, nada.)

* A vibração ondulatória que vem de fora e que faz com que as pessoas do Grupo não reajam nas reuniões do Sr. Dr. Plinio

O meu último, ou penúltimo, [artigo] da “Folha” ─ dois artigos consecutivos, geminados ─ só soube, uns dois ou três dias depois de ter saído, porque ninguém em torno de mim comentou.

(Sr. –: Como reacionar contra isso.)

Eu estou no extremo limite de minha capacidade de reação. Mais que eu possa, não posso. Ainda, você veja, hoje, o trabalho que me deu para a reunião interessar, o trabalho! Mário viu ─ por exemplo ─ o Edwaldo viu, o Fiuza viu, estavam aqui. Trabalhei até meu último hausto, sabendo que o resultado seria esse de hoje à tarde.

(Sr. –: Movimento que age dentro de nós, contra nossas próprias convicções.)

Mas que vem de fora, de uma vibração ondulatória ─ um pleonasmo ─ uma ondulação, uma vibração que vem de fora.

(Sr. –: O senhor vê que os camaldulenses estão preservados desta ondulação que vem de fora?)

Não tenho conversado com eles, de maneira que não sei. Tenho feito reuniões para eles, e eles assistem a reunião com muita atenção, com atenção fácil, de quem não tem dispersão, não tem temas para se dispersar, passam o dia quietos.

(…)

* Apesar das misérias que carregam, a proeza em serem membros do Grupo

realmente, [há] qualquer coisa de magnífico dentro disso, com tudo o que deploramos, há magnificências. E, se você quisesse uma imagem, seria esse spray de pus sobre um palácio maravilhoso que, limpando, se verificaria que é um grande palácio; mas que, enquanto não se limpar, tem todos os aspectos ─ e algum tanto da realidade ─ de uma montoeira de pus. Porque, de dentro de tudo aquilo ─ vou dar o lado positivo da reunião de hoje à tarde ─ uma massa enorme de gente que vem de todos os lados e de todos os cantos, sacrificando repouso, etc., etc., para ouvir aquela reunião, que ouvem o bastante para que aquela reunião seja um denominador comum, em que todos pensam do mesmo modo, diante dos fatos mais complexos; com teleférico, sem teleférico. A linha geral acompanham, e seguem sem o menor problema. Apesar de todos os problemas que o Grupo cria, este problema Nossa Senhora nos preserva bem. Nós não temos.

No total renunciam a um número de coisas para os quais outros dão a vida e a alma, para ter esse número de coisas, e eles renunciam a isso. É francamente uma maravilha.

Se você imaginar, só aquele número enorme de homens castos. Só isso! Na época de hoje… é uma coisa que a gente não sabe o que dizer. Bem, de homens que enfrentam, continuamente, a crítica mais implacável da Opinião Pública ─ pelos trajes, pelo modo de ser, etc., etc. ─ e que vivem alegres e com dignidade dentro disso; homens que a gente tem que apertar o cinto e fazer passar miséria[s], [e] aceitam a miséria com uma dignidade e uma conformidade, que é de se tirar o chapéu. E, ainda, vão trabalhar na cozinha, vão limpar chão, e limpar panela, e não sei mais o que, etc., etc. Tenha paciência!!! Não se pode dizer que nada disso existe.

* “Estes homens que fazem maravilhas não são maravilhosos como as maravilhas que fazem”

Homens, sem os quais eu, sozinho, nunca teria criado o mito que criei; homens, cuja solidariedade quebrou a muralha com que queriam envolver-me. A muralha não, a sepultura, psy-sepultura, dentro da qual queriam pôr-me.

Quer dizer, são proezas! E eu tenho, essas proezas, muito em vista, e por elas dou graças a Nossa Senhora.

Mas, não devemos perder a consciência do outro lado da coisa. Estes homens que fazem maravilhas não são maravilhosos como as maravilhas que fazem. E as renúncias deles são muito superiores ao espírito de renúncia que têm. Isso é o tremendo.

Se quiser, depois da guirlanda do festejo, vem a rajada, mas vamos falar por inteiro: não têm o espírito de pureza, correspondente à pureza que guardam; não têm o desprendimento de espírito, correspondente ao desprendimento que têm; praticam uma série de virtudes excelentes, tendo a raiz quadrada da virtude dos atos que praticam. De maneira que nossa figura é muito maior que nossa alma. Mas, não se pode esquecer que quem faz isso são vocês.

Quer dizer, essas coisas, são coisas feitas por esses homens de quem estou, entretanto, apontando, longamente, os defeitos.

* “A longa convivência ─ dentro da TFP ─ produz um calejamento com o sublime, que é um verdadeiro perigo”

(Sr. –: Isso é feito graças ao senhor.)

Essa questão é cheia de aspectos, mas, um dos mil aspectos da questão. Há um provérbio francês que diz: que ninguém é grande homem para seu secretário particular ou para seu valet de chambre. E há uma palavra latina que vai mais ou menos na mesma linha: “as coisas muito costumeiras se tornam vis”.

Para a pessoa viver em contato com o que é muito alto e muito sublime, ou a pessoa tem uma “juventude que se renova todo o dia ─ como da águia”, ou a pessoa acaba vendo de um modo ensabugado aquilo que não é ensabugado. É um perigo viver próximo ao sublime. É uma salvação e é um perigo.

Portanto, a longa convivência ─ dentro da TFP ─ produz um calejamento com o sublime, que é um verdadeiro perigo, uma coisa tremenda. Um pouquinho, como essas populações do Tirol: habituadas a ver panoramas lindíssimos; e algumas emigraram, inteiras, para os Estados Unidos, no século passado, para fazer fortuna. Saindo cantando [hinos] religiosos, com o vigário à frente, porque o vigário ia também para os Estados Unidos. E, às vezes, levando a imagem da capela do lugar; e ficava a aldeia vazia. Mas, trocavam aquilo tudo por bons salários e a sordície nova-yorquina. O que é? Tinham vivido ao lado do sublime, e tinham se familiarizado e calejado com o sublime, a ponto de [se] venderem por trinta dinheiros.

É muito difícil viver ao lado do sublime.

Por exemplo. Eu acho o panorama que vocês têm no Rio, no Pão de Açúcar ─ pode ser uma heresia ─ mas… eu acho o panorama, que se vê do Pão de Açúcar, muito mais bonito do que [o que] se vê do Corcovado. Tenho encanto por aquele panorama. E, por mim que fosse, cada vez que eu fosse ao Rio, iria ver o Pão de Açúcar. Não vou, porque não tenho tempo; mas tenho loucura por aquilo.

Mas, eu observei uma funcionária, ou um funcionário, que depois que descia aquele carrinho; e, também, uns funcionários de uma espécie de bar ordinário…

(…)

inteiramente. Se aparecesse, um belo dia, o mar seco, com monstros marinhos mortos nas profundidades do mar; mas o trânsito do Pão de Açúcar não cessasse, eles iriam, inteiramente, a mesma coisa. E, conosco se dá isso.

Vivemos ao lado da sublimidade da nossa vocação, temos o risco de … [ilegível]… por culpa nossa.

A reunião aqui ─ sexta-feira à noite ─ um que venha de má vontade, com preguiça, porque, de fato, estava com vontade de ouvir um disco que ele comprou, ou que a FMR mandou; então, tem atrativos incomparabilíssimos! Bem. Mas tem reunião aqui, e que ouça, acompanha a reunião de um modo sabugoso ─ este tem o risco de, daí por diante, todas as reuniões ficarem, para ele, meio opacas, e se transformarem no tormento da semana. Daí para a frente.

* Os preconceitos de que a grandeza é egoística, e de que a justiça não é misericordiosa; no fundo, o bom é ruim

(Sr. –: Qual seria o ponto de afinidade e repulsa?)

Também não sei dizer. Mas, há alguns preconceitos que concorrem para isso, preconceito de que a grandeza não é generosa, é egoística, exclusivista. De que [a] justiça não é misericordiosa. São, por exemplo, dois preconceitos que concorrem para isso. Que a vigilância tem o prazer de encontrar [os] defeitos dos outros, e vive à procura desses defeitos, por amor próprio. Há uma série de coisas assim que têm um unum, e o unum é: o bom é ruim. Naturais discípulos de M. Emery.

Ora, vocês sabem bem, que temos…

(…)

M. Emery, hein! M. Emery, o entretom dele era esse: ceder para não perder ─ era coisa boa. Outra: o mal nunca é tão mau, quanto Dr. Plinio pinta. Outra: o homem não pode fazer coisas tão ilógicas, quanto Dr. Plinio atribui a ele; portanto, não [se] pode trabalhar contra seu próprio interesse, como muitas das construções políticas [que] Dr. Plinio supõe.

Atrás disso há um preconceito…

(…)

* Tentações que os membros do Grupo têm contra a paternidade do Sr. Dr. Plinio

fingir que não percebe defeitos, tolerar, não adianta nada. A figura do inquisidor fica por detrás. O que é um preconceito, eminentemente, liberal, revolucionário, etc., etc.

Outra: “é delicioso ser Dr. Plinio; eu, sou um pobre coitado, que não sou Dr. Plinio: e ele não me conhece bem, não entra na minha infelicidade, no meu infortúnio, e nem me ajuda; ele fica tonitroando decretos e conseqüências lógicas, em virtude das quais, eu me acachapo. Mas, ele não toma em consideração minhas atenuantes; para esta, ele não tem lógica; minhas agravantes, ele conhece. Este é o homem que se diz meu pai?!”.

Não acham que um, ou outro, do Grupo tem uma, ou outra, destas idéias?

Não adianta… por exemplo, hoje viram [o] que escaldei para fazer a reunião. Sabe qual foi o raciocínio? “Que homem invejável! Que, com esta idade, tem esta saúde! Pobre de mim, na idade dele, não terei. Dr. Plinio é mesmo um milhardário da sorte”.

Não podendo dizer que sou milhardário do dinheiro. Não há meio de dizer. Me empurra o papel de milhardário da sorte.

O sujeito ainda pensa assim: “ele é um homem muito feliz, cada vez que vou falar com ele, para expor meus problemas, ele está alegre, quer dizer, que não sofre os meus problemas; feliz é ele, infeliz sou eu. Não imagina a força que é preciso ter, muitas vezes, para entrar nos problemas dos outros. E entrar, com generosidade tal, que tenha alegria nisso. Mas, é casuística, em que tudo é virado contra mim, metodicamente, para escapar do que seria, na mente deles, a santa inquisição”.

Bem, meus caros, meu remédio está subindo.

(…)

Era dela. Ele foi à aldeia, [para] convencer a mãe de vender a casa, para fundarem um orfanato; e a mãe aquiesceu; venderam, e tiveram um último jantar histórico na casa, antes dela se mudar com ele para Turim. E ali, se o orfanato não desse certo ─ creio eu ─ o caminho seria para ela um asilo, e ele viveria como padre pobre em qualquer canto.

Aí, com este donativo inicial, então, se formou a Obra Salesiana. A graça querer dela aquela confiança…

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