Conversa
de Sábado à Noite – 15/12/1979 – p.
Conversa de Sábado à Noite — 15/12/1979 — Sábado [AC 652] (HVicente)
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O Rockfeller querendo habituar os chineses ao consumo da gasolina ou não sei de que outro combustível distribuiu milhões e milhões de lâmpadas em que o sujeito gastando um pouquinho para pôr o combustível acendia e tocava o negócio.
Bem, aquilo, na China pegou como um incêndio e eles não percebiam até que ponto a introdução desse dado novo estava alterando coisas mil, antigas, que para eles tinham virado ensebadas. Despediram-se sem nenhuma saudade, completamente ensebadas para eles.
Então, a atenção especialíssima era exatamente saber como é que nessa geração se põe o problema do ensebamento, banalização. Não quero mencionar nomes, mas o caso daquela prezadíssima pessoa é característico. Olhem que não é um sabugo. Eu acho que é o contrário do sabugo.
Vocês sentem o problema como estou dizendo?
(Sr. Mário Navarro: Nosso São Bento foi isso.)
Vou dizer na minha geração como era e vocês vão dizer no que é que isso não pega.
Havia o seguinte: quando o indivíduo estava na fase de antes de ensebar, alguma coisa ia tão profundo na alma que não ensebava nunca, era preciso uma segunda conversão.
Este lado não ensebado — não sabugado, se quiserem — esse lado apoiado pelo raciocínio levava a pessoa dizer: “Em holocausto a isso e porque entendo que esse ensebamento é uma coisa irracional, à maneira de bicho, e que se trata de vencer, eu ofereço o holocausto de agüentar isso e atravessar esse Saara. Agora monto num camelo chamado Plinio Corrêa de Oliveira e vou tocar.” Pronto. Acabou.
O que acontecia é que de tempos em tempos, fazendo isso, havia desensebamento, uma progressão de oásis cada vez mais maravilhosos, mas separados por desertos, em certa fase da caminhada, cada vez mais tenebrosos. Era quase que uma corrida ou uma porfia entre o oásis e o deserto e em que a coisa, no fundo, era baseada na ascese em estado puro e em alguma coisa que não tinha ensebado.
(Sr.–: Há aqui uma discussão GN sobre o assunto.)
Vocês admitem que o normal é que não [se] enseba de todo?
(Sr. Mário Navarro: Nisso estamos de acordo. Todos ensebam.)
De todo em todo? Fica tudo árido?
(Sr. João Clá: Que eu conheço, acho que sim.)
(Sr. Mário Navarro: Não se dá com todos ao mesmo tempo e também vão e voltam nesse processo, não é irreversível.)
Todos ensebam até o fundo?
(Sr. Mário Navarro: Alguns não chegam até o fim do caminho mais ou menos por acaso, exagerando um pouco, exagerando um pouco.)
(Sr. Fernando Antúnez: Num ponto em que não segue o método do senhor é irreversivelmente ensebado, não tem saída.)
Estamos discutindo duas coisas diferentes. A primeira pergunta é a seguinte: É verdade que para todo mundo é fatal desensebar, ou melhor, ensebar em parte?
[Chega a Sagrada Imagem. Jaculatórias: Domina Nostra Fátima peregrina in sede Regni Tui, Cor Sapientiale et Imaculatum Mariæ, Mater et décor Carmeli, Mater Dolorosa, Regina Sacratissimi Rosarii. (9x cada jaculatória)]
Quer dizer, vou esclarecer o problema:
Primeiro: se é normal que a pessoa, pelo menos, em parte, ensebe. Se, correndo as coisas como devem, a pessoa de fato enseba de um ensebamento não culposo. Ensebamento é culpa ou não é?
Segundo: Ensebamento culpado. Evidente que é anormal, mas, pode-se dizer que é uma regra geral de fato. Não deveria ser, mas é uma regra geral de fato. Então, a gente pode-se perguntar se na economia comum das infidelidades das graças está que algo nunca enseba. Que algo haja no homem que certamente não enseba, na grande maioria dos que tem vocação, uma parte da alma não enseba nunca, que isso é o comum.
(Sr. Mário Navarro: Totalmente ensebado, acaba sendo minoria.)
Aqui vem outra questão: Qual é o papel da perseverança da parte “razão” e da parte “não ensebamento”? Tomado o fato de que o sujeito persevera, qual é o papel habitual para produzir a perseverança, das cordas não ensebadas e do puro raciocínio no seco. Fernando declara que ambos fatores são indispensáveis.
(Sr. João Clá: Eu acho que razão pura, simples e fria não tem muito papel não. O homem completo deveria ter. Mas, acontece que por um quebramento da Revolução a coisa é essa. Graças a Nossa Senhora, Ela põe uma causa brilhante diante dos olhos. Se não fosse, estaria perdido.)
Você, meu Mário.
(Sr. Mário Navarro: Tive formação de D. Mayer, jesuíta. Entrava muito a questão do raciocínio. Aprendi que raciocínio era quase que exclusivo. Provavelmente eu usava as cordas não ensebadas à guisa de raciocínio. Quando entrei no Grupo ainda entrei nesse estado de espírito. Mas, fui perdendo isso pouco a pouco. Restam cordas.)
Eu me pergunto se nós estamos entendendo por ensebamento a mesma coisa.
Vamos definir vem o que é ensebamento. Há duas modalidades de ensebamento:
Primeiro. Uma coisa que não deveria produzia atonia e que produz atonia por uma série de circunstâncias não culposas, mas que o indivíduo deve vencer. Isso não é ensebamento. Isso é aridez.
Então, vamos dizer, o fato que mencionei, em tese, poderia ser uma atonia não culposa. A partir de que momento esta atonia não culposa se tornou culposa?
Na concepção de minha época, toda atonia culposa… grande número de atonias culposas começava por atonias não culposas, mal combatidas, mal tratadas, etc., etc.. Às vezes não é isso, há fenômenos de caráter sobrenatural, preternatural, pelo meio, mas naturalmente falando talvez se possa dizer isso.
Então a coisa é assim: o indivíduo em alguma medida, ainda que seja muito generoso, ele em alguma medida pode sacudir seu temperamento por meio do agere contra de Santo Inácio e combater essa sensação.
Vamos dizer que uma pessoa morasse… Estou imaginando que Lepanto seja no meio de [um] mundo de ilhas e de terra firme da Grécia… Deve ser isso: farrapos de mar no meio de farrapos de terra que se chama Grécia. Vamos imaginar que um homem tenha ido a Lepanto levado por uma graça de Nossa Senhora Auxiliadora para passar a vida como eremita ali em memória da vitória de Lepanto.
Ele, no primeiro período, tem a batalha enormemente presente; nas horas decisivas da batalha, ele vibra, etc., etc..
Num segundo período aquilo vai vibrando menos, sem culpa dele. Ele vai se preocupando com outras coisas, também sem culpa dele. Sem culpa dele de acontecer isso que é uma tentação, mas que tem que resistir à tentação.
Bem, ele resiste à tentação se pegando a si mesmo pelo gasnate fortemente e recusando-se de se interessar pelas coisas não “lepantescas” em certas horas, em certos momentos e obrigando o seu temperamento a vibrar em consonância em certas horas do dia, etc., etc., etc..
Bem, em alguma medida isto não é vencível. Ele tem que agüentar cavalgando no meio do deserto. É regra comum.
(Sr. João Clá: Até aqui, para mim, o deserto sempre foi menor. Pelo que eu vejo nos outros é [um] deserto menor do que o senhor aponta.)
Isso examinamos daqui a pouco. Agora, aqui, o que é culpa e o que não é culpa?
Se o sujeito não opõe o grau de resistência que ele pode ao ensebamento, nisso tem culpa. Não tem culpa em que o processo o tenha assaltado, mas ele tem culpa em não ter repelido o processo até o limite do possível. E tem culpa de não ter montado no camelo e atravessado o deserto no que não era possível.
Isto está bem ou não é assim?
É banal de tão verdadeiro.
Agora, o problema de minha geração: o deserto é deserto. Portanto, coisa horrorosa, provação. Mas, essa provação é acompanhada de uma alta admiração pelo indivíduo que atravessa o deserto. E o homem, montado no seu próprio raciocínio e atravessando a intempérie porque quer, não sente nenhuma forma de consolação, mas conhece uma espécie de dignidade de pulchrum disso, dentro da consolação que fá-lo sentir-se como monumento num pedestal no deserto. Quer dizer, ninguém vê, ninguém contempla, ninguém aplaude, ninguém reconhece, quand même, o sujeito se acha no alto de um monumento.
Depois, morar no monumento, no deserto, se transforma numa segunda natureza e a pessoa estranha muito menos. Está na ordem das coisas. É o beduíno que acaba se habituando ao deserto. Agora, depois vêm consolações, mas, o deserto é sempre deserto. Fica a idéia de que o suco do mérito está nisso.
(Sr. João Clá: No caso que tenho visto não é o raciocínio simples e puro que tem feito agüentar, mas é a lembrança do oásis.)
Aqui que eu acho que a coisa não está inteiramente bem posta porque a memória das coisas não ensebada. A memória, portanto, da coisa que tinha o brilho inteiro, esta memória deve continuar e de fato desenvolve no deserto o papel de uma importância muito grande. A esse respeito não há a menor dúvida possível.
Agora, a questão é que essa memória seria, por sua vez, inteiramente insuficiente sem o raciocínio. E, mais ainda, dos dois elementos o mais decisivo seria o raciocínio acompanhado do ato de vontade embora, normalmente, a memória seja indispensável.
Rosée outro dia teve uma discussão pernambucana com uma [moça] da geração muito nova. Ela não usa as mil caridades que empregamos entre nós. Até para o que se passa aí fora, ela é até muito moderada, mas digamos… uma mocinha disse para ela: “Eu não sinto isso assim.” Ela disse: “Não se trata de sentir porque quem sente é bicho. Trata-se de saber se o seu raciocínio lhe mostrou que é ou não, se você quer ou não quer. Agora, o que você sentiu, não te perguntei!”
Bom, a enjolras se… podem imaginar.
(Sr. Poli: Ela tem razão.)
A fórmula está muito da ascese católica.
Agora, aqui precisaria saber o que é raciocínio e o que é recordação.
Eu diria que a memória é para o homem, a memória da graça que ficou, é para o homem como é para o beduíno a memória da água que ele bebeu e que lhe dá esperança de encontrar o oásis. Se ele não tivesse uma recordação ultradeleitável da água que ele bebeu, ele teria dificuldade em sustentar as partes sensíveis da alma no puro raciocínio. Então faria bem ao beduíno, entre dois oásis, lembrar-se de tal água e dizer: “Bem, no oásis de Ben-al-Quibir vou encontrar tal água e ainda melhor”, e continua.
A memória da água ajuda a parte animal a se sujeitar à parte espiritual. Mas, aí é o próprio raciocínio que trata a parte animal como se trata um menor de idade. A direção “maior de idade”, no caso, é dada pela parte intelectual. Como uma mãe trata um filho: “Filhinho, cuidado… — etc. —, quando chegar tem um brinquedo…” Ajuda a carregar a parte sensível. Ela não pode sujeitar inutilmente seu filho à provação tão dura quanto a de ficar reduzido ao puro raciocínio. Se acontece de ele ficar, é preciso contar com a graça, mas ela não pode sujeitá-lo a isso. Não é o normal. Ela tem que fazer o possível para tornar aprazível e apetecível o dever. Mas, ela mesma sabe que haverá gargalos na vida dele em que ficará reduzido ao puro raciocínio.
Estou sendo um pouco unilateral no que estou dizendo, mas depois vou completar.
Vocês sabem que eu nasci anos antes do Mário e do Poli e, portanto, era aluno dos jesuítas em época inteiramente diferentes da deles — escolas diferentes, tudo diferente —, mas eu garanto que vão reconhecer a escola jesuítica pura no que vou dizer agora aqui.
Como nisso está o suco da noite escura, na esfera natural, está o mais tremendo da batalha, isto é, também o ápice da vida do combatente. E o resultado é que a maior admiração tem que se dar àquele que tendo feito todo o possível — isso que agora vou dizer os jesuítas não acentuam tanto e em Santo Inácio está enorme — para não ficar reduzido a esse estado. À distância, a alma tem que se ir preparando para quando chegar esta prova, ela agüente porque essas são as crucifixões áridas e secas da vida espiritual que a alma tem que estar pronta para agüentar. E faz parte da preparação, de vez em quando, ela passar por crucifixõezinhas até chegar até à cruxifixãozona ou às crixifixõezonas.
(Sr. Poli: No caso dos jesuítas do meu tempo, havia um certo gostinho em que fosse pura aridez.)
Aí eu não estava de acordo… Descambava um tanto no calvinismo. Você pegando os Exercícios Espirituais de Santo Inácio… Os jesuítas desdenhavam aquela recomposição de lugar que era exatamente o contrário. Desdenhavam assim: “Essa recomposição faça, você, por si mesmo. O diretor não deve ajudar a recompor porque cada um deve compor por si.” É verdade, mas numa época em que ninguém sabe compor por si… Depois não explicavam como se fazia a recomposição, partiam a cavalo no raciocínio seco, e aí não estou de acordo, puramente estou em desacordo.
(Sr. João Clá: Cada alma é tocada de uma maneira…)
Não. Essas aridezes, à maneira de Nosso Senhor, todo mundo tem que passar de vez em quando. Começa que as proporções são próprias a cada um, os momentos são distintos. E, sobretudo, o que tem é o seguinte: É que essas grandes crucifixões são os fatos extraordinários da vida espiritual e que, para os fatos extraordinários, há graças extraordinárias. Essas graças podem ser insensíveis, mas há.
E o homem pode ter a sensação de estar abandonado, mas de fato não está. Portanto, é preciso, desde já, ir pedindo graças para essas grandes horas, para nessas grandes horas a gente dizer: “Sim!”
Aquilo: “Rogai por nós pecadores, agora e na hora de nossa morte”, pode se estender às horas de nossas mortes, amém. Claro é que a hora máxima é a hora da morte, mas pode-se estender à hora das nossas mortes.
(Sr. Poli: O senhor parece que está querendo medir muito uma coisa…)
Estou sim. É que esta conversa aqui me dá a impressão de que esses princípios, para quase todos da geração de vocês… tenho a impressão de que o enjolrismo vem de não querer ver isso com a devida clareza e com a devida admiração porque isso deve ocasionar debaixo de todos pontos de vista uma admiração superlativa. Exemplo: Maria Antonieta na carroça indo para a guilhotina.
(…)
…algo que a pessoa não sente, as coisas se passam como se ela não tivesse sentindo no consciente. No urwald, está; no wald, não. E o urwald nesta hora é dormiente e átono.
Aí, para ela, o que ela sente que a sustenta à noventa e tanto por cento, é o raciocínio. Esse raciocínio é o seguinte:
Premissa maior: Toda Rainha tem que ser digna;
Premissa menos: Eu sou Rainha;
Conclusão: Logo, tenho que ser digna.
(Sr. João Clá: O que é ser rainha para ela? Ela tem uma idéia abstrativa de Rainha que não é a que o jesuíta apresenta.)
Depois, uma coisa é ser rainha no sentido pleno do termo. Outra coisa é ser rainha de [Tonga?] [Toga]. Nela não era só no sentido pleno, mas era com uma exuberância de realeza incomparável. Isso tudo são dados que continuam.
O que estou dizendo dava diretamente na Agonia do Horto das Oliveiras. Quer dizer, a Agonia foi propriamente isso.
(Sr. João Clá: Nosso Senhor tinha todas as experiências da União Hipostática. Então não era puro raciocínio.)
É que, às vezes, para provar a alma com essas recordações — [a] nós católicos — [que] são túmidas de sobrenatural, a graça, a Providência suspende até isso. É uma provação singular a que não estão sujeitos todos, mas muitos e que a Providência suspende até isso. E foi o que houve no Horto das Oliveiras. Evidentemente que a União Hipostática não cessou, mas a Humanidade deixou de sentir a União Hipostática.
(Sr. João Clá: O raciocínio mostrava que o sustento daquilo era a União Hipostática.)
Não, não era só União Hipostática, era [a] condição de mera criatura de Deus também. Necessidade de ser vítima a tal ponto que ele não sentisse nada.
Porque estou insistindo nisso? É um assunto do qual eu quis muito tratar. Estou insistindo porque eu acho que vocês já passaram por coisas à maneira disso mais ou menos conscientemente ou não; e empregaram essa conduta com uma generosidade maior ou menor, mas que o ensebamento fica culposo na medida em que a pessoa nessas ocasiões se porta mole.
(Sr. Poli: “Portar mole” aí não é: não apertar o raciocínio, ter pena de si…)
Exatamente. Bambolear e acabar não fazendo o que deve. Às vezes é o fazer interior, é isso.
Agora, vem, sobretudo da idéia de que, por causa da natureza da conversa e das circunstâncias em que a conversa está se passando, mais do que isso ainda sucederá. A conversa é prenuncio de que haverá outras provas além daquelas por onde já passaram e que não vale a pena a gente perguntar-se a si mesmo se tem agora a força necessária para a prova que virá porque a força muitas vezes é dada na hora, mas, vale a pena a gente admitir essa possibilidade e abrir a embocadura da alma para isso.
Nosso Senhor não suou sangue em todas as ocasiões da vida dEle. Quando chegou o momento, Ele suou sangue. Antes disso, Ele não estava suando sangue de tanto pensar no que iria acontecer. Aqui se aplica bem o “Sufficit diei malitia sua”1. Mas, coisas destas virão e é muito importante a gente considerar isso e ir se familiarizando com esta perspectiva como Nosso Senhor se familiarizava com a perspectiva da Cruz e com suar sangue.
Há mais um ponto.
Quanto mais a pessoa, nessas ocasiões, suportar com essa forma de heroísmo que é: dar ao puro raciocínio — puro não quer dizer mero — tudo quanto se deve dar e à vontade também, tanto mais acontece que a pessoa vai-se desapegando de coisas interiores, vai sendo capaz de atrair outras almas e de comunicar às outras almas essa postura.
Agora, note que essa postura e toda essa conversa que temos, a Revolução detesta de um modo fenomenal, transcendente e absoluto, mas absoluto! E compete a nós sermos os lobos-do-mar desses mares.
Agora vem o lado oposto porque tudo isso tem sua compensação. Se o indivíduo quiser fazer o papel de lobo-do-mar a vida inteira de medo de não ser lobo-do-mar na hora “H”, acaba fazendo concessões aonde não devia. Ela deve, com toda honestidade, viver cada momento como o momento é, mas na admiração das horas-gargalo, pedindo a Nossa Senhora que lhe dê graças para as horas-gargalo, as altas horas da vida dele. Fora disso, comprazimento, bondade, ternura, afabilidade, gosto de várias coisas, equilíbrio. E isso é quase mais difícil de manter do que uma posição inteiramente e unilateralmente ascética.
Aqui está o equilíbrio perfeito.
O que, aliás, a gente vê isso em Nosso Senhor: se regozijava com isso, se alegrava com aquilo, etc., sabendo que chegaria a hora da sua ação, mas ele vivia cada hora. Por exemplo, Sua Transfiguração.
Uma forma desse gargalo acaba sendo, inocentes e não culpadas, complicações comigo. De repente, uma impossibilidade de conviver. E há pessoas que, sem culpa, passam por uma fase por onde qualquer palavra que eu diga causa confusão, causa perturbação, causa estranheza, etc., etc., sem que eu tenha culpa, sem que ele tenha culpa.
(Sr. João Clá: O senhor falava isso na década de 50, chamava “cortina de qüiproquós”.)
Eu chamava isso é? É isso: “Cortina de qüiproquós.” Hoje em dia posso dizer, mas com o Fabinho havia coisas dessas em penca. Também, de repente, visualizações em que não pareço ser o que sou, mas um homem qualquer… De repente aflora isso. E aflora com o impetuoso da evidência debandada e irretorquível e que transforma as anteriores impressões numa noite, num sonho de noite de verão. Acabou a noite, acabou o verão, acabou o sonho. E assim outras coisas. E aí é preciso ir se preparando.
Agora diga cada um o que tem e vamos ver se o assunto está concluído.
(Sr. Poli: É uma diretriz básica para os tipos humanos.)
Exatamente.
(…)
Agora uma coisa que os jesuítas falavam também, mas que não punham tanta ênfase quanto seria necessário: Quando a vontade do sujeito, culposamente quebra e o raciocínio culposamente não funciona, qual é a saída? Desesperar nunca, rezar sempre. Aí o papel único e insubstituível da oração e, portanto, também dos sacramentos, comunhão, etc..
A vontade tem debilidades que se o auxílio da graça, não vai. Veja bem, a doutrina católica é:
Primeiro, todos os mandamentos da Lei de Deus são justificáveis pelo raciocínio como sendo conformes à ordem natural, sendo os pontos cumes da ordem natural;
Segundo, que o homem, entretanto, depois do pecado original, é incapaz de entender sempre retamente na sua totalidade; capaz de cumprir sempre retamente na sua totalidade. Aqui é a graça. Na graça é a misericórdia que nos dá o imerecido.
Com isso, meus caros, podemos ir dormir.
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1) “A cada dia basta o seu mal.” (Mt. 6,34)
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