Conversa
de Sábado à Noite – 8/12/1979 – p.
Conversa de Sábado à Noite — 8/12/1979 — Sábado [AC 647] (HVicente)
Nome
anterior do arquivo:
Festa do Imaculado Coração de Maria Virgem
[23:27hs]
(Sr. Átila Sinke Guimarães: Em função dos acontecimentos o que o senhor esperaria de nós, enquanto “discipulatu”, para lutarmos, etc.)
Essa reunião aqui é uma reunião feita, em parte, para aquilo que se chama pré-hipótese. Quer dizer, aquilo que não é nem sequer hipótese, mas na ponta do castelo das hipóteses, uma hipótese piloto que aparece e que em função da qual — sim ou não — a gente vai construindo os elos, não da terra firme para a torre no meio do mar, mas da torre no meio do mar para a terra firme, para ver se pega na realidade ou não pega.
De maneira que vou lançar uma pré-hipótese, de uma pré-hipótese, de uma pré-hipótese.
(…)
…coruscantemente lógico, que raciocinava, expunha em aula com uma lógica especial. E a lógica dele me deixava enivrer com gosto daquela lógica: “Pán! Pán! Se tal coisa é tal; tal coisa é tal e tal outra!” Eu: “Ohhh! Bem jogado! Argumento bem concatenado! Depois simples, claro, límpido. E depois aquela sensação belicosa porque não creio que se possa ser verdadeiramente lógico sem um certo animus belligerandi. É-se lógico contra algo! Nunca se é lógico assim no vácuo. Eu ao menos não creio.
Alguém me dirá: “Mas [e] a lógica científica!? Como vai descobrir qual é o grau de pressão necessária para o feijão na panela…”
Bem, isso são eles. Eu não entendo. A lógica como eu imagino é assim.
(…)
É uma coisa ridícula. Eu tinha 11, 12 anos… Como é que se pode dizer isso de um menino assim… Vocês já viram as caras de menino mole que eu tinha quando eu era pequeno, já viram nas fotografias. E aquela lógica estruturou, me invertebrou, me deu a paixão pela lógica que vocês conhecem até hoje.
Eu digo com cuidado “paixão”, não digo “competência”… Estou dizendo “paixão”.
Eu percebi — não sei bem dizer como; é uma coisa meio raciocinada e meio psicologizada à la brasileiro —, mas eu percebi que Santo Inácio deveria ter sido assim. E que a ser jesuíta verdadeiramente, um dos traços do espírito jesuíta era ter aquele espírito e tê-lo por completo. Não era tudo, mas era um traço sem o qual nada era nada. E podia ser que a partir desse traço se construísse toda uma mentalidade.
E, deu-se uma coisa
curiosa comigo que eu comecei, não tanto a rezar a Santo
Inácio, porque — olhe que num colégio da
Companhia não era dos santos a quem se rezava — era dos
santos a quem se admirava. A gente rezava para os Apóstolos,
para Santo Antônio de Pádua, para Santa Rita de Cássia,
para esses santos…
(Sr.–: Que conferiam vantagens pessoais.)
Exatamente. Mas rezar a um santo pela mera admiração ao santo… Eu, de repente, a uns vinte e tantos anos descobri que se podia rezar Santo Tomás de Aquino, de tal maneira ele não parecia objeto de… sabia que ele era um santo, canonizado como outro qualquer, mas me parecia que o métier dele no Céu não era… A especialização dele não era entrar em contato com o orante.
Até vou dizer mais: no meu subconsciente, o que estava é que ele tinha mais categoria do que estar entrando em contato com orantes. Ele ali estava entregue a outras concepções altíssimas e nos ajudando na ordem da Comunhão dos Santos a subirmos na linha dele. Mas estar debruçado para baixo e olhando um “Plininho” que está ali com as mãos postas e pedindo para ele um favor!? Ele tratava isso à la Grand Seigneur e eu muito amigo de todas as hierarquias,achava isso mais ou menos natural, nunca tinha feito uma análise de quanto há de errado nisso. Então era a mesma coisa com Santo Inácio de Loyola.
Não era propriamente rezar para Santo Inácio, mas em determinado momento, eu percebi assim, psicologizando a coisa, etc., que havia uma espécie de auge do espírito lógico que ele alcançou e que eu poderia instalar no meu espírito — mal comparando porque a comparação que vou fazer é muito corriqueira, mas não encontro outra melhor — mais ou menos como a pessoa pode pôr óculos.
Quer dizer, eu vejo tudo através daquilo. E a partir daquele momento para mim, o universo é como se apresenta através daquilo. É como se houvesse uma espécie de óculo central aqui (…) e eu instalasse ali (…) aquilo (…) e que era um estado de espírito, uma categoria do pensamento — não digo “categoria” como nível, [mas como] um tom de pensamento — e daí uma facilidade, um vigor no princípio de contradição: “O que é: [é]; o que não é: não [é]! Uma coisa não pode ao mesmo tempo ser e não ser!”
E uma espécie de facilidade de caminhar até os últimos promontórios da lógica que provinha de ter assestado o espírito naquele mirante. Está aí uma comparação muito melhor: a de um mirante, um farol dentro do qual eu entrasse e estando ali dentro, visse tudo como faria alguém cujo olho fosse o do farol. É uma comparação muito melhor.
E mais engraçado é o seguinte: eu acho que isso é qualquer coisa menos fantasia — o que eu estou dizendo. Eu percebi também que me era aceitar ou recusar aquilo. Possível e livre. E me veio uma tentação de recusar só para fazer experiência bambina de recusar a exercer a minha liberdade e para ver se podia ou não podia mesmo ser como eu estava dizendo; porque o que se passava dentro de mim me intrigou muito e eu queria ver como era. Mas, Nossa Senhora me ajudou e eu entendi que não podia fazer isso e que, pelo contrário, deveria aceitar de me pôr nessa posição e pondo-me nessa posição, então, para a vida inteira. E, Ela me ajudou. Ao menos até o presente aqui estou.
(…)
…fugiam das cidades e eles atraíam para os lugares para onde eles fugiam as populações — os beneditinos — que iam viver da admiração deles. E se vocês querem sentir isto vocês leiam no Huysmann, “L’Oblat”. É para quem sabe admirar, é fenomenal. E que essa admiração levava o indivíduo para a virtude: tará, tá, tá!
Depois começaram a se formar cidades que não tinham como ocasião de formação conventos, como era em torno dos mosteiros beneditinos, como é, aliás, por exemplo, no Mare du Sud, na Bélgica, foi um grande mosteiro beneditino. Hoje, tudo isso acabou, mas chegou a haver hotéis, etc., de gente que ia só para assistir os ofícios em Mare du Sud e voltar.
Mas, as cidades começaram a se formar à parte, ter vida própria e apareceram ordens religiosas para intervir nas cidades. Já não mais despertar a admiração que o fundo de quadro beneditino despertava e continua a despertar, mas em função dessa admiração despertada, intervir na vida temporal das cidades e orientar essa vida temporal de acordo com os desígnios da Igreja.
Então nasceram gêmeas — é bem conhecido — as ordens dominicana e franciscana, cada um com o seu papel próprio e modelaram a vida, uma porção de aspectos da vida medieval. Sabe que São Luís dizia que se pudesse se serrava em dois para que um lado fosse franciscano e ou outro lado fosse dominicano, de tal maneira a complementaridade dessas duas ordens estava claro aos olhos dele.
Depois arrebentou o Protestantismo, Humanismo. O texto fala mais especialmente do Humanismo e não do Protestantismo e fala bem, porque é o que vem a propósito. Arrebentou o Humanismo e começou a batalha no interior de cada homem. E começa então a espiritualidade moderna — mas moderna no bom sentido da palavra, quer dizer, “dos tempos modernos”, corresponde ao Ancien Régime — em que o campo de batalha espiritual não é mais o mosteiro admirável colocado à margem de tudo, nem é uma ordem militante atuando sobre uma coletividade; mas é uma ordem entrando no íntimo de cada indivíduo e auxiliando cada indivíduo a ter ali dentro a sua batalha individual.
(…)
… e que a preocupação principal da vida espiritual é rechaçar o adversário que entrou dentro de si mesmo para conservar-se unido àquela cidadela de primores cujo elo primeiro era a admiração beneditina.
Não sei se está muito longo ou muito prolixo o que estou dizendo, mas forma uma seqüência muito direta, muito bonita. Depois vocês sentem que é muito verdadeiro, não tenho nada que acrescentar aí.
Agora podia-se fazer uma pergunta: “Em qual dessas três coisas se insere a Congregação?”
Por exemplo, São Bento é isto! Vocês pegam aquele áudio-visual do São Bento apresenta isso. É o ballon rouge transformado em instituição.
Vocês pegam a intervenção na vida social como um todo: É RAQC, é tudo quanto vocês sabem. Como nós rejeitaríamos uma Congregação confinada aos meros problemas individuais.
Agora vocês tomam a Congregação. Ela não existiria se ela não tivesse o discernimento dos espíritos, as direções espirituais e uma porção de outras coisas assim.
De maneira que se pode dizer que nesse campo, como em tantos outros, a Congregação recolhe as bandeiras que estão sendo jogadas de todos os lados e, amorosamente, aperta ao peito e toca para a frente. E ela tem uma certa significação de síntese dentro disso. Ela foi se desenvolvendo sema preocupação de ser síntese e cumprindo a cada momento o dever que as circunstâncias pediam. Então encontrava, cada um de vocês, por exemplo, com seus problemas pessoais e só podia prestar algum concurso à perseverança ajudando a luta individual. Mas, de outro lado, pegava o país desabando nas vergastadas da Revolução e só podia ajudar coordenando essas pessoas individualmente reunidas e jogando numa luta orientando a Opinião Pública.
Mas, em determinado momento sentindo-se realizada no mais alto grau quando aparece um lugar com as graças do São Bento, donde dois Êremos sucessivos para aproveitar aquelas graças como uma espécie de líquido primoroso e de primeira ordem para colocar nas mais altas cristaleiras do Grupo. Quer dizer, isso foi aparecendo sem essa preocupação. Visto a posteriores percebe-se a síntese, mas ela não teve a intenção de ser síntese.
(…)
Eu agora, para responder à pergunta do Átila, eu tenho a impressão que existe um ponto que é ao mesmo tempo um ponto sobrenatural, uma espécie de ponto assim: há numa igreja de Roma, a de Santo Inácio, um teto com todas as figuras em desordem. A gente se pondo num certo lugar marcado pelo chão, percebe-se a ordem de todas as figuras. Pelo pouco que entendo de pintura é mais uma grande virtuosiàt do que uma pintura lindíssima, mas, como estudo de ótica, é realmente um prodígio. A gente se põe lá, é uma espécie de aço cravado no chão — podia ser mais bonita —, [e] vê tudo em ordem.
Na obra de Deus, em cada século que passa, o panorama admirativo, beneditino, tem um ponto que debaixo de certo ponto de vista é o ponto do século anterior e debaixo de certo ponto de vista já não é. Cada século acrescenta algo à admiração do século anterior. E há um ponto no nosso século, que é um ponto específico, onde a gente vendo beneditinamente Deus, a Criação, a Igreja, naturalmente Nossa Senhora, etc., vendo assim, mas vendo hoje, em nossos dias, vê de um modo especialmente próprio para nós, especialmente convidativo para nós, atraente para nós, que a mera leitura do que eles outros fizeram não esgota inteiramente. Inspira, orienta, dá rumo mas não esgota, tem um ponto novo, um canticum novum desdobramento do canticum antigum.
No estilo de ação há qualquer coisa também que no nosso século, na atual conjuntura, etc., exige um tipo de luta contra o demônio, portanto, um tipo de Contra-Revolução, e portanto também, uma forma de converter que é da mesma maneira um canticum novum. Mas, depois uma ação sobre as almas que também é uma coisa mais ou menos desse gênero e que essas coisas são concatenadas e que representam — conjugadas como que em três prismas diversos — um mesmo ponto onde se a gente se situasse, todos teríamos uma união extraordinária.
(…)
…haveria gente mais ou menos de todas as idades que curtem debaixo das aparências do bem-estar um descontentamento sem nome.
(…)
(Sr. Átila Sinke Guimarães: Enjolras é como lastro de navio ou areia, a mesma coisa. A gente tem pena dele, mas…)
Quer dizer, as almas deles podem florescer admiravelmente…
(Sr. Átila Sinke Guimarães: Mas isso é quase na mínima…)
Mas uma coisa é positiva, é que eu tenho a impressão de que há gente, por aí, que se nós soubermos dizer, verá muito mais coisa do que… do que nós, do que nós… pensamos que eles vêem.
Ontem ainda a respeito do livro I que parece que afinal está entrando na fase de uma coisa que não sei o que é, mas que eles dizem com a boca cheia como se fosse uma das palavras mais bonitas do vocabulário: diagramação! Como eu não sei o que é um diagrama… Também não sei o que é “diagramação” e não pergunto porque me vem uma resposta tão técnica e tão nebulosa que vai me aumentar as dúvidas em vez de me resolver, nenhuma. De maneira que fico modestamente como os burros na soleira da porta do lado de fora e deixo eles no “palácio da técnica”, não entro dentro disso. Mas trouxeram um livro a respeito das gaivotas que deveria dar um ponto de partida, inspiração.
Bem, o sujeito que fotografou e desenhou aquelas gaivotas, ele tem alma para ver uma porção de coisas que um homem bem encaixado nos alvéolos não vê. É extraordinário.
A gaivota foi uma coisa que eu muitas vezes usei como comparação, como metáfora, etc., porque o vôo da gaivota toda vida me encantou enormemente! Pareceu-me uma coisa inteiramente superior.
(Sr.–: A história é meio gnóstica.)
É, não quero discutir o texto, no contexto do livro ele põe as gaivotas voando em vários pontos — ora desenho, ora fotografias — de acordo com o estado de espírito do que ele vai expondo. E é um estudo de estados de espírito que interpreta tão bem o que há de elevado, de forte, de delicado, de superior e de puro no vôo da gaivota e nas variedades de modos de ser da gaivota que é uma verdadeira maravilha. Inclusive naquela gotinha de ave de rapina que a gaivota tem também, no meio de todas as suas douceurs… ela: pún! E sai com um peixe estertorando na ponta do bico, engole aquilo e vai voando. É uma coisa extraordinária. Bom, assim acho que há outros e outros.
A partir do momento em que a gente atinasse com esse ponto da igreja de Santo Inácio… Mas isso é uma hipótese de hipótese de hipótese, tão laboriosa que não sei até que ponto me tenha tornado claro.
Aqui está a resposta à sua pergunta.
(…)
A minha impressão é que a propagação do entusiasmo pelas Cruzadas deveu-se a um fenômeno dessa natureza. Quer dizer, o bem-aventurado Urbano II, pregando a Cruzada, ele soube apresentar um certo “flash” da Cruzada enquanto Cruzada, cavaleiro enquanto cavaleiro, e, neste ponto, de Igreja enquanto Igreja, em que todos que iam retamente para a Cruzada e não com intuitos comerciais ou de rapina, se punham nesse estado de espírito — Como o estado de espírito da lógica de Santo Inácio. E que esse estado de espírito até hoje se intui qual é e, seria revestível para quem fosse para uma Cruzada. Aqui está o exemplo muito bom!
Por exemplo, tenho a impressão que Dom Rodrigo, o Cid, recomeçou a luta dele é porque luziu um estado de espírito assim em que ele entrou e os cavaleiros dele entraram e aqueles tipos pardacentos de alma, visigodos trânsfugas, quase encostados no oceano à força de fugir. Afinal de contas recomeçaram a Reconquista novecentos anos porque durante novecentos anos se entrou dentro daquele espírito guerreiro como um guerreiro entra dentro da armadura. E até hoje quando se vê armaduras, têm-se a impressão de ver coruscar esse estado de espírito. Eu quero aludir a fenômenos dessa natureza.
Acho que São Francisco de Assis, numa outra linha, fez coisas dessas e que, em geral, um Fundador faz isto. E que uma ordem religiosa que se realizou é aquela em que os súditos revestem a armadura do Fundador e tocam.
(Sr. Átila Sinke Guimarães: Mas, “hoy por hoy” o que fazer? Visto que essa pré-hipótese não realizamos e a batalha avança, etc.. Parece-me que é o caso de nos prepararmos com o que temos mesmo e…)
Acho que a posição é inteiramente certa. Quer dizer, argumentando gratiae, para efeito de argumentação admitida, essa pré-hipótese, enquanto isto não se der, eu tenho que fazer o possível. Vamos dizer que de fato eu esteja atrasado, não é por estar atrasado que eu deva abandonar a causa que estou servindo. Lembra-me dum versinho…
(…)
… “de que quem não ama como deve, pelo menos deve servir como pode” é uma idéia muito bem expressa. Até fiquei com certa surpresa quando encontrei esse fragmentozinho de brilhante dentro da coruscação…
(…)
…acho inteiramente legítimo desde que o indivíduo compreenda o que você disse no fim: que não só não é uma desistência desse bom momento, mas atrai.
(Sr. Átila Sinke Guimarães: Mas é o caso de cogitar nisso?)
É, inteiramente o caso.
(Sr. Átila Sinke Guimarães: Mas são tão ridículos nossos recursos que nem vale a pena arrolar!)
Bem, isso eu diria de forma mais paterna…
(Sr. Átila Sinke Guimarães: Mas com que armas combater, posto que o principal não é possível pois somos infiéis? Mas campanha. Vão coletar cobertor velhos para pobres…)
É passar durex na boca do adversário. Devia chamar-se “Operação durex”.
(Sr. Átila Sinke Guimarães: Mas, digo “campanha” “lo que se dice”, não em termos etéreos, mas uma graça de campanha a qual não pudéssemos resistir.)
Eu noto de fato o seguinte: para que fosse possível isso, seria preciso que os espíritos tivessem a possibilidade de estar num certo denominador comum a respeito da natureza em faze do que agir e do modo de agir em face disso, por onde fosse possível pelo menos pensar coordenadamente em diretrizes comuns. Mas os espíritos estão de tal maneira divididos, dispersos e fracionados, no que diz respeito a esse prático-prático, que eu não vejo nenhuma possibilidade de coordená-los.
Por exemplo, se eu fosse falar aqui, nessa sala, de discos voadores e a atitude para tomar em face dos discos voadores, nós, que a respeito de temas muito mais árduos, somos auxiliados para termos uma união extraordinária, é provável que cada um de nós tenha alguma idéia, pelo menos vaga e primeira do que conviria fazer — mas a idéia é tão diferente da do vizinho que não consentiria em tomar a sério a idéia que faz o vizinho. O que torna a segunda pergunta de uma pré-disposição geral quase impossível, porque a primeira pergunta de é: “Qual é o perigo?” Já aqui é uma cavalgata das diversidades.
Depois: “Como reagir contra o perigo? Cada um só imagina uma reação em função do perigo como viu e com o maior desencanto em relação ao perigo como o outro vê! Desdouro, recusa, etc….
(Sr. Átila Sinke Guimarães: Mas isso é uma visão democrática.)
É, mas nós estamos nisso.
(Sr. Átila Sinke Guimarães: O senhor dizendo está acabado.)
Quando tenho falado a respeito da auto-suficiência, você encontra isso…
(…)
…Acompanhado de um certo lampejo que tem o seu quê de verdade — seu quê — que diz o seguinte: “Quando a coisa estiver muito mais próxima, isso se enquadra e anda.” O que nos é muito nocivo porque a expectativa, por assim dizer, profética fica com isso frustrada e prejudicada. E a força da oração para atrair — os que esperamos — tica também diminuída.
(…)
…acho que isso é uma graça e acho que essa graça, por assim dizer, se nota de vez em quando, roçares dessa graça aqui, lá ou acolá. As asas da graça roçam e eu tenho esperança que isso suceda, mas acho que uma das coisas que constitui obstáculo é que essa graça que “gaivoteia” em torno de nós pouse, a meu ver, é essa preguiça. Já poderia ter vindo muito antes, poderia ter feito muito mais e muito melhor se não fosse isso
* * *
(Dr. Marcos R. Dantas: Nós queríamos saver — uma pergunta nossa aqui do Rio — até que ponto a Da Lucilia…)
…acho que placidez uma espécie de grande sinfonia que se desprende do urwald brasileiro. Há uma tranqüilidade na natureza brasileira, nos panoramas marítimos, na orla do mato brasileiro, e tudo mais. Há uma tranqüilidade nas solidões do Brasil, nos luares do Brasil, há uma qualquer forma de placidez brasileira de dentro da qual saem mil sugestões, mil vozes, mil caminhos, mil incitamentos históricos, mil rumos e mil futuros. É propriamente quando essa placidez se deixa ver, que o futuro do Brasil fica visto como através de uma tampa de cristal. Não sei se vocês sentem isso como eu, mas eu sinto isso enormemente.
Depois é uma placidez, um pouco vazia, quer dizer, não cabe muita gente junto. Vejo que vocês sentem que é bem este o ponto. Não cabe! É augusta demais e séria demais para multidões. A multidão não está nessa placidez brasileira, é uma outra coisa. É um país feito para ser todo povoado, sim. Superpovoado, não. E nesse sentido, por exemplo, não tenho nenhum entusiasmo por emigrações indiscriminadas no Brasil, vindas de todos os lados. Vamos andar devagar… reservar uma das coisas que temos de melhor que é nosso vazio. Vamos dizer, para fazer um pouco de poesia, que cada brasileiro é uma corda de violão que preciso do vazio para reboar. E que se você for eliminar o vazio da corda do violão e querer guardar dentro pacotinhos, dinheiro, passagem, etc., você liquidou o violão e lhe arrebentou a corda. Não tem remédio, esse vazio…
(…)
…sem um pingo de capricho, de mania de bicho empacado sem razão. Quer dizer, se há uma atitude de alma que eu nunca vi nela é “daqui não saio, daqui ninguém me tira”. É pelo contrário: a maior afabilidade, a maior disponibilidade, a qualquer momento para mover-se em qualquer direção e uma inteira ausência de capricho.
Ela morreu com 90 anos. Ela tinha uns 30 quando eu nasci — mais ou menos, 31, 32 — portanto, em 60 anos de convívio com ela, eu nunca a vi ter um capricho. Nunca vi! Ter uma coisa que de repente deu um enguiço nela, ela quis daquele jeito e é porque ela queria: Nunca! Mas absolutamente nunca eu vi um desses pasmos nervosos, dessas contrações. Mesmo em ocasiões de muita alegria ou de muita tristeza ou de qualquer outra coisa: nunca vi isto! Aquilo era como alguns de nossos rios de bacia amazônica que não tem pedra no meio, não tem queda d’água, nem nada: vão e vão e vão… Assim era ela.
Ela tinha, portanto, em alto grau, o equilíbrio entre a placidez brasileira e disponibilidade, a… a presteza e o movimento e a solicitude e a atenção se nunca sair dessa placidez. De maneira que quem olhasse à primeira vista diria: “Que senhora bem sentada e agradavelmente instalada.”
Era acompanhar com o olhar: ela não perdia nunca o que ela era capaz de alcançar e que se passasse na periferia dela. Eu já disse que ela era apenas medianamente inteligente, não era muito inteligente; mas aquilo que ela pegava, ela pegava. Não se passava perto dela algo, que estivesse ao alcance dela, que ela não pegasse, que ela não relacionasse sem esforço e, diria, sem agitação, sem afã. Mas com aplicação contínua, serena.
E que, tenho a impressão, é o que nos falta para nos colocarmos diante dessas grandes perspectivas porque o resto, acaba aparecendo.
Ela tinha uma grande elevação de alma de maneira que se via que o espírito dela estava sempre posto no mais alto, mas essa elevação de alma não desdenhava o mais minúsculo. Eu, às vezes, mexia com ela [dizendo] que ela era meticulosa demais em certas coisas. Mas roçava nisso a tal ponto meticulosa, mas sem deixar o mais alto, fazendo o mais alto habitar em tudo, estar presente a tudo, ordenar tudo e com um seletivo à luz desse ponto de partida mental, interno, um seletivo que nunca vi errar.
Até é uma coisa curiosa. Ela podia ter — sobretudo quando mais moça e que eu tinha exercido menos influência sobre ela — lados um tanto liberais de doutrina subconsciente… que influíam no seletivo dela. Mas era um erro de doutrina que mostrado — estão vendo bem com que precisão e muitas vezes com que reverente truculência, mas mostradíssimo! — mostrado, ela acaba — ela era ligeiramente teimosa. Ligeiramente… ou firme, não sei, às vezes não era fácil fazê-la demarrar — mas mostrado, acabava acertando o passo quando ela via que era direito.
E eu creio que se posso dizer que recebi algo da lógica dos jesuítas como falei há pouco; dela, por um sistema análogo, eu recebi enormemente outras coisas. Ela era muito comunicativa disso. Ela transmitia muito, ela irradiava muito o que, aliás, vocês vêem pelo Quadrinho, é uma coisa que o Quadrinho torna evidente. A sepultura e tudo o mais torna inteiramente evidente.
Agora, como pedir?
Uma coisa que vocês vão ficar pasmos ou não vão ficar pasmos e vão achar muito natural, etc., mas havia uma atitude nela que afinava, aliás muito, com o meu modo de entender a devoção à Nossa Senhora — a prática da devoção, não o fundamento teológico da devoção —, mas, ela era, um traço saliente dela, no relacionamento com os outros, era compassiva. Eu não vi ninguém compassiva como ela. E de uma compaixão ordenante, não era compaixão de uma ópera italiana: “Pobre filho, pará, rá, tá! Pobre amada pará, tá, tá, pún, pún… Crãnnn!” Não era nada disso, mas era uma coisa como eu ainda não vi.
Eu me lembro, mais de uma vez, em relação a essa ou aquela pessoa, etc., eu “wagnerianizava”: “Tará! Etc., depois tem mais isso, mais aquilo!”, etc…. Ela não negava, mesmo porque ela via que estava apresentado ali, no corte da espada. Ela ouvia tudo depois me dizia — Mas com uma modulação de voz e um jeito de falar que me deixava sem saber o que dizer, e ela não percebia que isso era touchant desse modo, fazia com a naturalidade que se possa imaginar —, mas ela dizia: Coitado, é bem verdade. Mas olha, tem tal lado assim e tem tal outro lado e tem tal outro que, afinal de contas, se a gente atendesse a gente veria que ele tem uma atenuante e que ele tem tal outro lado assim…” E acaba sendo que o que eu percebia, ela não percebia. É que se ela tivesse tratado com aquela pessoa na ocasião “x” da pessoa e tivesse tido aquela compaixão, ela teria amolecido dentro da pessoa… não o bem, mas o mal.
Quer dizer, ela era uma amolecedora de revoltas como eu nunca vi coisa igual. Mas era pela compaixão, era pela pena. A pessoa objeto dessa compaixão se desarmava e tomava uma forma da doçura, que estou explicando de modo muito incompleto, mas há certas coisas que o vocabulário humano não chega a dizer mais, ao menos o meu não chega a dizer mais do que estou dizendo.
Como vi gente recusar isso, hein! E recusar por auto-suficiência! “Não quero que tenham compaixão de mim!” Ou outras coisas: “Eu sinto que isso vai me desarmar a revolta e estou utilizando essa revolta para conseguir tal coisa assim, portanto, não quero deixar de me revoltar…” Não diziam, mas eu percebia. Depois vocês compreendem, isso fica nos imponderáveis em torno de uma mesa de sala de jantar ou no living de uma casa, numa conversa aqui pode-se passar isso. A vida cotidiana é feita de lances desses.
Mas ela tem assim uma espécie de forma de compassividade que é uma compassividade que chega ao miúdo, que chega a entrar nos últimos meandros do sofrimento da pessoa, naquele meandrozinho mais interno aonde o caco de vidro infecciona e arranha mais a ferida e, ali, pôr uma gota de azeite, tranqüilizar e dar uma coisa que não tem nome, mas que é feito de compaixão.
Então, se alguém quiser obter alguma coisa dela, o caminho não é chegar lá e cobrar o cheque bancário: “Eu rezei vinte e cinco terços, fiz noventa e duas penitências e abstive-me de cinco mil e quatrocentas coisas más que quis fazer no dia de ontem e não fiz! Agora pagai!” Porque eu tenho a impressão que ela diria: “Mas, meu filho, você fez tudo isso! Coitado. Podia ter obtido tanto menos, eu estava aqui para te dar!”
Se não se conheceu, não se tratou com ela ou não se recebeu uma graça assim dela, todo o assunto do cemitério da Consolação é uma coisa que não se entende. O que posso fazer!? Não posso fazer entender!
Agora vejam, hein! Isso é um incentivo à moleza?
Nunca senti isso. Nunca vi na hora de ela me incentivar para o cumprimento do dever — e ela que teve que educar um filho mole — eu nunca vi que ela deixasse de incentivar.
Onde é que entrava a tal doçura então?
Era uma forma de pena de mim que eu percebi que ela tinha pena e participava do sofrimento que eu tinha que fazer para fazer, mas tinha que fazer aquilo. Ali não tinha perdão!
(…)
…quer dizer, se não fosse uma resistência irredutível, eu não admiraria. Era irredutível! Por exemplo, uma cena que não era concebível: ela nunca teve muito dinheiro — tinha para viver como vocês estão vendo aqui —, bem, chovia e ela tinha o pânico dos resfriados, o pânico! Aparecia um táxi no colégio São Luís, mandado de casa para me pegar na saída e levar porque não queria que eu tomasse chuva. Era o único menino do colégio São Luís que tinha táxi porque os outros ou a família tinha automóvel e mandava, ou não tinha e não tinha dinheiro para pagar o táxi. Era bonde e chuva. Com ela não. Ela mandava o táxi.
Bem, nunca aconteceu e nem aconteceria o seguinte: eu, na hora de levantar de manhã e dizer: “Eu estou com vontade de dormir mais meia hora. Mamãe que me pague o táxi…” Porque isto não aconteceria nunca, irredutivelmente nunca! Era hora de levantar, era preciso levantar. E táxi para ir por moleza, não imagine! Estava tão longe de minha cabeça como estava longe de minha cabeça a idéia de comer o táxi. Absolutamente tão longe, porque não aconteceria.
Mas, nessa irredutibilidade exatamente entrava a contra-partida sem a qual eu reputaria toda essa doçura [mie_alo?].
Agora como é que nessa irredutibilidade entrava essa doçura? Não sei como dizer. Mas se eu tomasse um capricho e não quisesse ir, a Fraülein avisaria, ela entraria no meu quarto…Levantar-se-ia da cama — ela se levantava tarde — ela se levantaria da cama a qualquer hora e viria de robe de chambre ao meu quarto. Sentar-se-ia aos pés de minha cama e diria: “Filhão o que há?” E era logo uma explicação do que é que estava se passando dentro de mim para pôr logo aquilo em ordem. E eu me levantaria. Não tinha conversa.
(Sr. MP: Mas é isso, nó recebemos esses auxílios sem saber disso, etc.)
Aí aparecem os tais jeitinhos dela, porque ela era jeitosa ao inimaginável.
(Dr. Marcos R. Dantas: Algo na linha ação dela para sanear essa dificuldade de mais união de alma com o senhor, para tirar certas óbices, etc.)
Agora o que é isso que é preciso ser saneado e qual é o papel dela dentro disso?’
Há uma espécie de chassé croise que precisa ser bem vista e que é o seguinte: Eu sei que posso supor o consentimento da pessoa a qual eu vou falar e, por isso, vou falar da pessoa, mas… tomem o Caio. O Caio é uma pessoa de muito bom thau e vocês vêem bem quais foram os serviços que ele prestou para o Grupo. Ele tirou o Grupo da ruína e o Êremo Nossa Senhora da Divina Providência. Ele agora está tirando o Grupo da ruína lá em Paris, etc.. Diga-se entre parênteses: louco para estar em São Paulo, se pudesse ele vinha no mesmo dia para São Paulo. Mas eu sempre notei do Caio para comigo uma timidez levada ao auge. Um auge que teria dificuldade em explicar até. E esse timidez proveniente, suponho eu do mal-estar causado junto a ela ou nele pelo modo de ser de duas coisas em mim. Primeiro…
(…)
…a expulsar de dentro dele qualquer forma de delicadeza de alma em sentido contrário. No sentido de que o tal mais que ele combate como uma fera, eu sinto morar em mim também. É a mesma coisa anterior que se reapresenta mas agora em função da combatividade: “E se ele me pega de jeito, ele fará, no total, o que ele fez com o Julio Mesquita”, por exemplo. Não sei se se lembram de como começava aquela carta: “Não quero seu jornal, não quero assinatura, não me mande o sujeito depois… vem com papeluxo pedindo assinatura porque não quero dar!”
Que dizer, um modo de começar o mais despectivo… quando comecei senti bem que era, mas eu tinha a intenção que fosse, eu fiz porque queria. Isso enregela ainda mais. A calma com que estou relembrando o ultraje feito e dizendo — depois ultraje feito do vento, porque uma assinatura não vale nada para eles, o pedido de renovação, eles fazem por maquinismos publicitários, não tem nenhum significado — eu tiro de dentro disso, amasso e transformo numa pedra e começo por jogar na cara dele. É propriamente isso.
Bem, eu compreendo que uma pessoa diga o seguinte: “Ele de repente pega em mim uma mesquitiada qualquer, pega do vento uma coisa qualquer e “bumba” em cima de mim! Agora como é que eu posso viver com esse dragão?” Se vocês quiserem é um leão, se quiserem o leão do nosso estandarte. Seja o que for, não vou morar na cova do leão. Não sou Daniel! Nem ele vai lamber os meus pés como os leões lambiam os de Daniel… E agora como é que nós vamos sair dessa história?
E por mais que tratasse o meu querido Caio com uma bondade [choisi] [choiée?], escolhida, selecionada e depois marcada, sem nunca perder uma oportunidade de manifestar-se, se quiser, uma bondade nesse ponto tão pertinaz quanto é pertinaz a minha pugnacidade; eu nunca consegui desarmar a timidez dele.
E eu percebia que faltava um ponto de referência qualquer que explicasse as coisas. Eu não sei, mas será para isso de um socorro — socorro total, não sei; mas socorro, sei que é — mas será um socorro verdadeiro o ele ter estado na França e ter notado ali a maldade da Revolução Francesa, mas no caso Judas. E um certo modo francês de ser mau que é uma coisa do outro mundo! E que se atirou em cima deles com aquela voracidade que vocês viram bem. Quer dizer, uma coisa de outro mundo. E não só da pessoa do Judas, é toda entourage, os episódios, os lances, o juiz, o advogado e a maldade com que são maus, a frieza, a indiferença e o prazer de ter sido nocivo e de calcar aos sem a menos vibração — nem por dentro — nem sequer o ódio do melodrama italiano. Nada disso, mas é seco como seria um insulto de Calvino, ao qual só se responderia com uma bofetada sonora. Já estou eu truculentizando…, mas é isso, uma bofetada sonora de deixá-lo zumbindo e dizer: “Agora, cachorro, aprende o que é dor e o que é som. E com você não tem outra discussão. Se facilitar, toma outra bofetada do outro lado. Cale-se e abaixe a cabeça! E os olhos também! E amoleça o nariz senão vai outra sova!”
E eles entendem esse português, hein! Vou dizer mais: se dissesse a ele em português, ele acabava adivinhando o que era.
Bom, lá estou dizendo as coisas que enchem o meu Caio de terror! Horror!
E ele me escreveu, mais de uma vez dizendo que ele ali, que nunca tinha entendido qual era a densidade do mal, a violência do mal, o ímpeto do mal, a inclemência do mal, o que havia de satânico na Revolução; que aqui, à distância, ele nunca tinha entendido.
Bem, estou para pegá-lo na curva — para isto espero que vocês não contem para ele porque senão ele nunca ficará na curva — com o seguinte: tomar os defeitos dele — portanto os defeitos de todos que estão na sala aqui, os meus também — e fazê-lo constatar como esse defeitos são diferentes dos defeitos da Revolução. Embora participem em algo dos defeitos da Revolução, como não os dos revolucionários. E como é diferente o nosso lado ruim do lado ruim aí fora. É só a partir daí — porque isso posso dizer, porque é real — as paciências inenarráveis… todo mundo é testemunha que eu tenho usado para um ou outro aqui dentro do Grupo…paciências inenarráveis simplesmente.
Donde é que vem?
É porque vejo toda uma faixa da alma, mas enorme, onde e vejo que a Revolução não está presente a onde a bondade e a paciência não são um ato de cumplicidade com a Revolução. Porque se fosse um ato de cumplicidade, não esperassem de mim porque não tinham! Se eu sendo paciente fosse cúmplice, não esperassem de mim essa paciência porque isso eu não faria.
(…)
…com o revolucionário ou a grandeza desafia ou é palhaçada! Ainda mais quem foi chamado a manifestar a grandeza destituído de todas as formas de grandeza minor que a Revolução admira. Eu não tenho dinheiro, não tenho uma grande situação, não tenho boa memória, eu sou desinformado, eu isso, eu aquilo, uma porção de coisas! Não sou ágil, não daria um bom corretor, não sei guiar instrumento nenhum, não entendo de mecânica, não entendo de medicina, não entendo de nada que faz o grande homem doméstico. Nem sei sequer onde é que se encontra nesse bairro aqui uma serralharia para consertar fechadura! Se amanhã quebrasse uma fechadura de minha casa e tivesse que consertar, eu teria que perguntar no posto de gasolina aonde é que tem serralheiro. E não sei se devia pedir ao homem para vir já com outra fechadura para trocar ou ele primeiro vir aqui. Nem sei qual é o costume para isso. Estou inteiramente alheio para essas coisas todas. Não sou homem prático.
Então ou eu faço valer o que tenho que fazer valer… E depois qual é grandeza, ela mesma sem a capacidade de desafiar e contestação ilegítima?
(…)
…então que faltaria para nós pedirmos à Mamãe?
É uma penetração mais profunda do mal que há na Revolução. Nós imaginamos que os revolucionários contra os quais falamos são o nosso lado mal tendo tomado conta da alma inteira. Não é isso que está dito na RCR; eu nunca disse isso. Os revolucionários, dos quais nós falamos, têm um outro mal, muito pior, que tomou conta da alma inteira. É uma diferença como poderia ir entre o tumor maligno e o tumor benigno. Ambos são tumores e ambos podem matar, mas, um é tratável e o outro é só cortando: ou opera ou não tem solução!
Então a distinção entre ambas as coisas explica que isso que também eu posso afirmar porque é bem verdade.…
(…)
(Dr. Marcos R. Dantas: Existem crises de afetividade, a pessoa acha que não está sendo correspondido, há um mistério dentro disso…)
Há um mistério. Acho que está perfeitamente bem dito. Eu gostaria de atrair o seu exame para a gratuidade. São crises propriamente de insegurança da pessoa, em que ela fica colocada diante da hipótese — por insegurança — de uma: “Não, agora, aquilo que é bom demais, vai ter um lapso porque a vida é esta: que todas as coisas boas demais tem lapso e isso não pode ser tão autêntico, nem tão contínuo, nem tão lógico e tem que, de dentro disso, me assalta uma frustração de repente, porque pancadas assim, eu recebo a vida inteira e daí tem que me vir uma também porque o ritmo da vida é esse. Ora há fundamento nele! É aquela severidade dele, aquela grandeza dele que de repente me pega.”
Mas vejam bem que essas situações de crise provêm de insegurança da pessoa. Não provém de uma atitude minha, mas provém de insegurança da pessoa, essa insegurança existe.
(Dr. Marcos R. Dantas: …mas, por exemplo, um caso miúdo, a gente telefona para falar com o senhor e o expediente despacha e diz que está ocupado, etc.… Então fica-se ressentido, etc.)
Bem, vou ajudá-lo mostrando como é que a pessoa entra na crise. Quer dizer, recebendo uma resposta dessa vem o seguinte raciocínio: “Ele não faria assim se o Dr. Plinio não desse uma ordem genérica de fazer assim. E provavelmente na hora em que estão me dizendo que ele não está, ele está perto e dizendo: Logo o Marcos quer falar comigo esta hora! Eu estou pensando numa coisa tão transcendental ou fazendo uma coisa importantíssima, e agora ele quer falar comigo!”
Logo o Marcos que eu acolho tão bem, que trato com tanto afeto, que distingo de tanta maneira, na hora da insegurança… o pequeno episódio assim cai na hora da insegurança. É Marcos, é o MP, é o Guerreiro, é esse, é aquele. Apenas não meu calejado Luizinho que entra na insegurança.
Mas é a insegurança, quase que eu diria, axiológica. O princípio axiológico: a ordem das coisas é essencialmente boa. A insegurança vem da idéia de que a ordem das coisas é essencialmente má e que de vem em quando nos cai uma pedra do bico de um passarinho e que nos fará uma que nós não podemos nem sequer imaginar.
Então quae cum ita sint1, uma vez que assim são as coisas, desconfiamos e ficamos inseguro. Agora, nessa insegurança, é claro que é um fenômeno natural, nervoso e que provém do trato com os semi-contra-revolucionários.
(…)
…e desse carinho comigo. E sendo assim, no caminho no cemitério, porque é uma coisa que chama a atenção. Chama a atenção. Bem, é uma coisa evidente que o desejo dela é ser assim com todo mundo e ser um esteio que não falha, que não erra, que sustenta, que favorece, etc., a continuidade. Quer dizer, se ela nos dá…
(…)
…que ela substitui isso que talvez nos tenha faltado.
(Sr.–: O senhor sempre disse que ela era mãe de todo mundo.)
É. A atitude dela diante de todo mundo era [de] mãe.
Então isso é preciso pedir. E aí abre o caminho para compreender melhor Nossa Senhora: Mater misericordiae, o Memorare, a Salve Rainha, etc., e se abrem a partir disso, desse horizonte que se desvenda.
(Dr. Marcos R. Dantas: Isso nos parecia um dos maiores obstáculos porque tinha assim umas paralisações, são muito asfixiantes.)
É, eu vejo isso e fico muito alegre de vocês dizerem e de se ter podido ter essa conversa. Você pega, por exemplo, para dar um exemplo entre cem outros… O interessando me permitirá que eu o tome como exemplo. O Luizinho. Se o Luizinho, eu não tivesse tratado desde o começo muito assim, sua perseverança mais de uma vez teria corrido o risco, não é meu Luizinho?
(Dr. Luiz Nazareno: Mais de uma vez ao infinito…)
Porque quantas e quantas e quantas vezes. Eu me lembro o Luizinho era novato no Grupo e nós fomos fazer adoração naquelas sacramentinas que tinham uma capela na rua Barão de Iguape, o Santíssimo em perpétua exposição. Era muito bonito, muito bonito, uma coisa fenomenal. Bem, na saída de lá, o Luizinho declarou que precisava falar comigo, estava muito preocupado, etc. e precisava me levar no automóvel e, por causa disso, alguns dos que podiam lotar o automóvel dele, tinham que ir a pé ou tomar táxi. Um deles que estava ali que não gostava nem de tomar táxi, nem de andar a pé, ficou indignadíssimo porque soube, depois, que a razão pela qual o Luizinho precisava falar comigo com tanta pressa era perguntar se o Joaquim, postas tais e tais condições de roupa do Joaquim, se era o caso de trocar de roupa naquele dia ou não. Você se lembra do fato?
(Dr. Luiz Nazareno: Não, consigo me lembrar.)
É, e tinha também um problema do botão da camisa.
Bem, eu atendi como se fosse um problema de estado. Entrei no pró, no contra, conversamos, tratamos de todos os pormenores, etc., depois tratamos de outros assuntos.
“Você! Ter a condescendência de fazer uma coisa dessas! Você não compreende que isto aí se resolve com um murro na mesa, mandando um menino desses plantar batatas! Agora está tomando o seu tempo com coisas dessas!”
O fato é que um murro na mesa podia aí ter ocasionado um início de processo de deperecimento. Não podia?
(Dr. Luiz Nazareno: Evidente. O fato é que o senhor não só atendia o caso concreto, o senhor atendia o estado de alma.)
Agora isso foi feito tanto, tanto, tanto e tanto que…
(Sr. MP: Mas não há aqui um mistério porque o senhor faz tanto e tanto, todos vêem, no entanto se se põe a coisa, dá problema.)
É, mas é a insegurança. São esses hiatos, espasmos da insegurança. A insegurança produz isso. Acavalada, muitas vezes, pelo demônio. Em gera, por uma ação preternatural, mais intensa ou menos, mas entra nalguma proporção dentro disso.
(Dr. Marcos R. Dantas: E a insegurança não tem meio termo: ou se julga banida ou excesso de importância.)
É, não tem. Não permite o intermediário, o ponto de repouso, ela não tem.
Bom, aqui entra o outro lado. É o lado importância. Por exemplo, muita gente pensa que — se se prestar atenção — que no meu modo de tratar as pessoas, eu nunca tenho a intenção de dar importância a alguém ou tirar a importância a alguém. Quer dizer, no meu modo de tratar as pessoas, eu nunca tenho a intenção de dar importância a alguém ou de tirar a importância a alguém. Exceto dar importância quando se trata de uma pessoa que eu acho que está denso injustamente espezinhada. E então eu realço a importância da pessoa, não querendo passar pito em quem está espezinhando, eu realço para de algum modo compensar. Por que? Porque nós não podemos fazer entre nós tais importâncias. É, portanto, uma consideração que eu elimino do trato nosso. Eu trato a pessoa de acordo com as regras comuns de trato proporcionadas a cada qual e as ligações de alma como se estabeleceram. Mais nada. Mas é de alma à alma, não é um trato de automóvel à automóvel; não é isso. É uma coisa completamente diferente.
…
(Sr. MP: …estabelecer com ela um vínculo, de que natureza seria? Como seria? Não sei se está clara a pergunta?)
Está, mas eu acho impossível responder.
…
* * * * *
1) Posto que assim é; já que é esta a situação.