Conversa de Sábado à Noite – 3/11/1979 – Sábado [RSN 014] . 15 de 15

Conversa de Sábado à Noite — 3/11/1979 — Sábado [RSN 014]

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Os diversos graus de maldade do homem de hoje, levados ao delírio * A deterioração moral do ambiente da cidade torna imperiosamente pensável a idéia do Êxodus * O verdadeiro equilíbrio de alma está em ver a situação na sua seriedade, na sua gravidade, e enfrentá-la com o pensamento posto em Nossa Senhora * Um homem nunca vive inteiramente uma ação que ele faz, se ele não a vivesse com igual intensidade como expectador * Mas não basta o papel de expectador: o homem tem necessidade de usar suas potencialidades * “Vocês não têm idéia até que ponto eu seria inútil para todos os efeitos naturais se eu não tivesse a TFP” * Descrição da Alemanha wagneriana, que é o contrário da Alemanha feudal * O alemão quando é feudal, é afetivo, dedicado, obediente, mas quando não quer ser vassalo, se ajoelha diante do filho das trevas e salta ao pescoço do filho da luz * A Alemanha só seria verdadeiramente grande se soubesse entrar num encaixe feudal * Para o Reino de Maria será preciso unir a criteriologia latina com a germânica * A capacidade de observar as coisas concretas é uma riqueza que o alemão tem na alma e que se trata de saber aproveitar

* Os diversos graus de maldade do homem de hoje, levados ao delírio

Então toma o caso da bebedeira. Todo mundo sabe o que achar da bebedeira.

Pode ser que a gente — vou dar vários casos — houve falar de uma pessoa que de vez em quando se embebeda. Naturalmente é uma impressão desfavorável, fortemente desfavorável.

Houve falar de uma pessoa que habitualmente se embebeda. Já é mais desfavorável.

Uma outra que vive bêbado. É mais desfavorável ainda.

Agora, um belo dia a gente houve falar do mesmo indivíduo que foi encontrado bêbado na rua e, por exemplo, jogado. A gente sabia que ele era bêbado, mas saber que ele começou a beber de maneira a sair bêbado na rua e que caiu não a rua e foi visto jogado, é um grau a mais de cinismo dele dentro do próprio vício, de afundamento dentro do próprio vício. Porque considerado o vício enquanto estado de alma, indica uma deterioração no que tem de mais profundo, dele se mostrar assim.

Enquanto, por exemplo, numa cidade esta coisa existe como uma chaga, que o indivíduo tem vergonha, esconde embaixo da calça, põe um emplastro, etc., mas um belo dia ele mostra a chaga. É uma coisa completamente diferente, como outro grau, quase que genérico, ou quase que específico de maldade.

Agora, ali este caráter ostentatório, ostensivo, é levado ao delírio.

(Sr. Átila: […] Passando a ser motivo de propaganda.)

Uma coisa que exprime um chafurdamento. Então esse pecado de espírito.

Agora, eu ignorava o que você disse que o Der falou. Se eu soubesse que já havia várias coisas, eu não teria tido o choque que eu tive com esse fato. Mas a questão não é saber se era ou não objetivo o documentário, mas estudar a questão dos graus. Esse que é o problema.

Também pelo seguinte: eu presto uma certa atenção, na medida que eu tenho tempo e posso, no que eu vejo pela rua, às vezes até comento com vocês, mas eu nunca percebi na rua, em São Paulo…

(Sr. Átila: …)

Mas eu não olho. Fassura eu não olho, de maneira que nem percebo se é homem.

(Sr. F. Antúnez: Outro dia eu fui ao médico, no elevador tinha dois, na rua encontrei mais dois.)

(Sr. Átila: […] Duas mulheres de fato e duas mulheres de desejo… mas estavam fazendo ponto.)

Eu acho que também acontece de fato que a coisa tem mais clamor público do que eu vejo, mas o problema todo aqui é a questão dos graus. Na questão dos graus que está explicado. Mas se eu tivesse me lembrado, eu teria explicado essa questão dos graus hoje à tarde. Não por sua causa, porque você tem essa facilidade de me perguntar, mas para eles. Porque afina…

(Sr. M. Navarro: Perdi a questão dos graus, o senhor poderia…)

Com todo gosto. Eu digo o seguinte: uma coisa é nós sabermos que o indivíduo bebe particularmente. Assim também no caso da homossexualidade, é só fazer o transplante.

Agora, isso que na minha geração era muito evidente, muito notório, nem precisaria explicar, nas gerações posteriores talvez seja interessante explicar mesmo. Eu compreendo perfeitamente. É bom até, salutar explicar. Mas era a razão.

Quer dizer, eu me senti literalmente muito afrontado, e senti a religião e a Igreja sumamente afrontadas, Nossa Senhora sumamente afrontada, porque aqui já de si… Aquilo que eu contei ali, eu não deveria ter contado diante da Sagrada Imagem. Só uma necessidade da causa é que leva a contar, porque aquilo não se conversa na presença da Sagrada Imagem.

(Sr. Átila: […] As escadarias do Teatro Municipal é ponto de homossexuais.)

(Sr. Nelson Fragelli: […] Tem um salão de cabeleireiro feminino, para senhoras, que é esse tipo de gente trabalha lá.)

Podemos até mudar de assunto, porque é uma coisa tão fora de propósito. Não na sua pergunta, mas digo o tema.

Então, se houver algum outro tema…

* A deterioração moral do ambiente da cidade torna imperiosamente pensável a idéia do Êxodus

(Sr. Guerreiro: […] Atonia do público face a tudo isto que estava falando, isto não é um dos pontos que justificaria ir saindo das cidades? O senhor falava tanto antes do Êxodus. Agora assim aos poucos, o senhor acha isso uma coisa pensável?)

Eu acho pensável. Quer dizer o seguinte: é imperiosamente pensável, porque as razões se impõem por si. De um lado. De outro lado, uma forma, como, por exemplo, o próprio camaldulismo em Jasna Gora, ou no Êremo de Elias, ou no Êremo de São Bento, de fato não resolvem, porque não adianta dizer que ali isso não penetra. A cidade é um todo, é uma campânula, o sujeito está dentro daquela campânula. Essas coisas deterioram o ambiente moral, etc., de maneira que não podem ser aceitas por nenhum preço.

O que falta?

Vamos dizer, se não houvesse dificuldades estratégicas e dificuldades monetárias, financeiras consideráveis, no momento, eu acho que se poderia perguntar se a nossa saída de São Paulo agora era aconselhável, necessária ou gravemente indispensável. E eu diria que ela por alguns títulos é cada uma dessas coisas.

Debaixo do ponto de vista do contágio diretamente, ela é meramente aconselhável. Debaixo do ponto de vista de uma espécie de deterioração mental, que o conjunto do estado de alma da cidade traz em virtude desse vício estar se generalizando, ela fica entre necessária e gravemente indispensável. Mas tende a se tornar gravemente indispensável.

O problema é, primeiro, o momento adequado para fazer e, em segundo lugar, as circunstâncias, os meios para levar isso a efeito. Entre outros vem essa questão de falarem mal de nós, seita, etc.

Agora, essa questão seitas está passando por uma certa evolução. Não sei se notam que se tem falado muito menos nisso, de repente houve um silêncio sobre esse assunto. Eu não sei o que houve. De qualquer maneira o Emetério veio trazendo uma notícia muito interessante e diz que com documentação que ele ficou de me mandar.

(Sr. Átila: Eu acho que pode parecer infantil, mas quando o senhor falou aqui uma vez com essa notícia do Sr. Emetério o jogo deles estava furado, a partir daí, de lá para cá…)

A coisa esfarinhou. Mesmo a tal seita Borboleta Azul, etc., por causa da história do Emetério que eu estou vendo que todos conhecem, eu já falei a todos.

E outras circunstâncias. Uma outra coisa que antigamente muito se teria levantado contra nós, houve tempo que era um perigo, era exatamente o assunto da homossexualidade, porque quem não pode acreditar num homem casto só pensa que o homem que é casto é homossexual.

(Sr. Átila: O Judas nos limpou disso.)

O Judas nos limpou disso, porque dizendo de nós tudo quanto era possível, ele disse que temos horror à homossexualidade. Depois tem o seguinte: um caluniador como ele não ter ousado uma coisa desse gênero… Ousou o contrário. E depois, de outro lado, como não é da política deles apontarem os homossexuais à execração pública, eles jogam contra a política deles de repente apontando-nos a nós.

De maneira que exceto se houvesse um escândalo horroroso — que Deus nos livre — com alguém da TFP, aí ainda pegava algo, eles deixavam passar e está acabado.

A questão era nós reunirmos todos num mesmo lugar, concentrar todos os ódios de tal maneira num mesmo ponto, que qualquer coisa imprevista podia acabar acontecendo. E nisso nós temos que pensar.

Agora, eu tenho me perguntado se realmente para convalescer desse estado de indiferença que hoje eu verberei, se realmente a cidade das cidades não seria um fator. Eu já me tenho perguntado isso.

Então, já não é mais do lado da homossexualidade, mas é do lado de sair de dentro da indiferença como contagiosa.

(Dr. Edwaldo: […] Pelo fato dos romanos não terem querido conhecer a Deus pelas coisas criadas, eles chegaram a esse tipo de vício. Fala explicitamente da coisa, homem com homem e mulheres com mulheres. Se isto se poderia dizer que já é um castigo próprio para a negação da sabedoria.)

Perfeitamente, perfeitamente. E conosco com a agravante que nós fazemos a negação da Fé. É uma agravante muito grande… vou dizer uma banalidade, mas, enfim, para dizer. Não há mais polêmica contra a Igreja, mas, de fato, mais ninguém crê no sentido de que a Fé é uma adesão firme, é uma convicção. Quem é que crê? Ninguém mais crê. É um flou-flou qualquer que está se volatilizando. Não há mais nada.

Naturalmente traz o problema de quando é que cessará, quando é que a Providência intervirá, etc. E neste sentido — eu disse apontando hoje — o Santo Sudário tem a sua expressão, porque a gente vê que tinha montado uma porcaria grossa ali e tudo indica que Nossa Senhora tenha proibido: “Não pode!”. E isso já dá esperança de uma primeira intervenção. Não quero dizer seguida logo de outra, mas afinal um ponto onde a gente vê que Ela proibiu.

* O verdadeiro equilíbrio de alma está em ver a situação na sua seriedade, na sua gravidade, e enfrentá-la com o pensamento posto em Nossa Senhora

(Sr. Átila: […] A bomba de hidrogênio revelava um segredo.)

Eu daqui a pouco respondo à sua pergunta. Mas como a questão que você tocou há pouco era a questão da homossexualidade, eu gostaria também que me lembrassem de desenvolver numa Reunião de Recortes, qualquer coisa, isso que vou dizer agora.

Você tocou parece-me apenas de raspão, mas eu acho importante tratar, que é o seguinte — porque há situações assim não tão envolventes, quer dizer que não se dão em todos os domínios da vida, mas são parecidos com esse: por exemplo, saúdes que estão sempre para morrer e nunca se gastam, estados econômicos que estão sempre para ruir e que não rui. Há algo disso nos fatos pela vida afora.

Há uma pergunta que é a seguinte: quando uma pessoa está inserida numa situação assim, o que ela deve fazer? Ela não pode em princípio acompanhar os fatos com toda a riqueza de emoções que essas situações levantam quando é uma vez só e esporadicamente, porque a pessoa agüenta uma tensão esporádica, mas não pode agüentar a mesma tensão normalmente. Então, é o caso de ela tornar-se apática como meio de resistir? E, na apatia, então inclusive na prática da trivialidade e da banalidade, etc., não haverá um modo de resistência?

Essa é uma pergunta, e uma pergunta que eu concebo bem que me seja feita. Não é diretamente essa que você fez, mas toca nisso. De maneira que me ocorre de tratar dessa questão.

Não é verdade. Essa é uma solução imperfeita, incompleta. Evidentemente não é a pior das soluções. A solução pior seria ter um desespero, meter um tiro no ouvido ou ficar num estado emocional de desespero habitual, que é quase tão ruim quanto… não quanto um suicídio, mas, enfim, uma coisa péssima, um ceticismo. E eu compreendo que a pessoa… esse estado meio de fuga é menos mau do que isso. Não estou dizendo, portanto, que é a pior das saídas, mas não é a saída, é apenas um mal considerável se bem que menor, porque a verdade é diferente.

É que há um estado de alma por onde a gente considerando que está num perigo assim, a gente sabe que está, a permanência daquele perigo marca a vida da pessoa, mas a pessoa aumenta a sua resistência, leva aquilo no peito e com isso cresce a sua personalidade.

Um exemplo que não corresponde bem a essa situação, mas que exprime um pouco o que eu digo é o do lobo-do-mar. O lobo-do-mar clássico, o pirata antigo, ele se sabia em perigos permanentes, mas ele também sabia que esse perigo permanente podia ser levado por um certo superar permanente que não excluía que ele tivesse distensões, repousos, descansos, vamos dizer, à noite o jogo de bridge, rum, rodas de amigos no porto onde pára, etc., e o próprio gosto da situação agüentada no peito que é em si um prazer da vida.

É evidente que a solução é na linha do lobo-do-mar e não na linha nhonhô. É muito fácil a gente dizer para os outros serem lobo-do-mar, outra coisa é a gente ser lobo do mar diante dessa situação.

No nosso caso, a gravidade, o que há para suportar é por algum lado pior do que o lobo-do-mar. Porque o lobo-do-mar podia fazer algo para se opor ao perigo, ele tinha com quem lutar, e nessa luta tinha uma ação que era o correlato do estado de atenção e de sobreaviso que ele estava. Para nós não: é o contraste entre o perigo contínuo e a inutilidade ou a insignificância pelo menos da ação que a gente pode desenvolver.

Quer dizer, a gente trabalha dentro da TFP, mas a gente vê que para considerar o perigo em escala mundial, a TFP não pode resolver o perigo. Quando muito poderá resolver em escala nacional, a considerar as coisas numa primeira vista, numa primeira visão.

Então, naturalmente, o contraste entre essa inércia e a coisa cria o seguinte paralelo:

Imagine diante de um incêndio num hospital dois indivíduos ameaçados pelo fogo. Um é paralítico que está num quarto e o outro é um bombeiro que está lutando. O bombeiro tem outras condições para resistir do que o paralítico, porque o bombeiro luta contra o fogo, ele toma uma escada, ele sobe, ele mexe, pode ser que ele até, pela colocação do quarto do paralítico, corra mais risco do que o paralítico. Mas para o paralítico, a inutilidade de qualquer ação dele diante daquela situação, se ele se sabe não socorrido de um socorro inteiramente dependente de terceiros, é uma coisa completamente diferente. Como ele vai constituir ali na cama o estado de alma do paralítico.

Nós estamos mais ou menos na situação do paralítico.

(Sr. Átila: […] Se não for de bom espírito, peço desculpas, mas eu queria saber. A nossa luta é a luta do senhor, e nós somos filhos do senhor, então a luta do senhor é a nossa nesse título. Mas vamos considerar um outro aspecto…)

Como isso levanta um problema muito interessante, eu queria primeiro concluir rapidamente o outro e depois eu trato desse, porque é uma agravante dentro dessa situação. Você apresentou como uma agravante, mas essa agravante resulta de outras circunstâncias e tem uma solução autônoma. Eu tenho bem em vista que ela se insere no conjunto da questão tratada, tenho isso perfeitamente em vista, mas eu queria acabar de tratar da questão.

Imagine, portanto, o paralítico que está esperando o incêndio. O que ele deve fazer? Suponha um paralítico das pernas. Ele quer jogar jogo de paciência, baralho, etc., enquanto não vem o incêndio e manter-se numa atonia completa, ou ele deve arrancar os cabelos? O que ele deve fazer para ser inteiramente racional? Essa é a pergunta.

A resposta é:

Em profundidade ele tem que tomar em consideração que está vivendo uma hora muito séria, porque por menos que ele seja — ele é —, um homem que morre é uma coisa muito séria. Nosso Senhor Jesus Cristo derramou seu sangue por um homem, Nossa Senhora ao pé da Cruz chorou por um homem, etc. Em si é uma coisa muito séria, morrer é seríssimo.

Agora, há uma forma de equilíbrio parecida com a do lobo-do-mar, onde reconhecida a seriedade da situação, ele leva depois a vida comum em superfície, por uma espécie de resignação: “Aconteça o que acontecer, eu estou pronto, estou preparado, vejo a situação com toda a sua gravidade e vou atravessar essa situação, embora ela caia em cima de mim sem eu poder fazer nada. Eu vou atravessá-la como ela é com toda a seriedade, com o pensamento posto em Nossa Senhora, em Deus Nosso Senhor, eu vou enfrentá-la com toda a seriedade, como ela é, eu andarei!”. Mas na superfície ele faz coisinhas. E isso é o verdadeiro equilíbrio da alma.

Eu não vejo que este estado de espírito seja freqüente entre nós. Eu vejo que o estado de espírito é a fuga para a banalidade, mas sem esse fundo de seriedade e de trágico que faz com que a pessoa viva na proporção da gravidade do momento que ela está vivendo.

* Um homem nunca vive inteiramente uma ação que ele faz, se ele não a vivesse com igual intensidade como expectador

E isso se firma no seguinte princípio:

A vida de um homem não consiste só em agir. A condição de expectador, com o que ela tem de contemplativo, cria para o homem uma grave responsabilidade. Ao pé da cruz, Nossa Senhora, São João Evangelista, as Santas Mulheres, não podiam fazer nada, mas elas eram expectadoras. E a condição de expectador muitas vezes a Providência pede de um homem para que tome uma atitude de alma em conseqüência. E é uma ocasião de graça para ele, uma ocasião de formação. E essa condição de expectador tem uma espécie de autonomia própria.

O homem deveria assumir toda a gravidade de um determinado momento, ainda que ele fosse mero expectador e não apenas em função da ação. De tal maneira que se eu estivesse em condições de não poder trabalhar por nossa causa, eu me interessaria pelos temas que interessam exatamente do mesmo modo, e simplesmente pela condição de expectador.

Essa dignidade, essa logicidade e essa elevação da condição de expectador talvez seja uma posição com a qual nós não estejamos familiarizados. Mas poder-se-ia compreender um homem que nascesse para ser expectador e não fosse outra coisa senão expectador. E, depois, na ordem da comunhão dos santos, ou por outras razões, a expectação profundamente sentida produziria os seus frutos.

E eu digo um pouco mais: a ação nunca é perfeita da parte de um homem… Não estou me exprimindo bem. Um homem nunca vive inteiramente uma ação que ele faz, se ele não a vivesse com igual intensidade como expectador. Essa posição de expectador contemplativo merecia até ser mais desenvolvida do que eu estou desenvolvendo aqui.

(Sr. Átila: Por onde se testa a nobreza das intenções.)

Nobreza das intenções e o teor geral do homem, porque não tem como ponto de referência em si próprio em nada, mas a coisa aconteceu.

Parece que se atribui a Saint Denis l´Areopagite, Dionísio Areopagita, mas santo, a afirmação no dia da morte de Nosso Senhor: “Morreu um Deus ou é o fim do mundo”. A gente vê que ele como preparação da conversão se portou como expectador diante daquilo numa grande atitude.

E a contemplação no Céu vai ser isso também: quando os anjos querem ver o que Deus vai fazer, ainda que eles não vão servir a Deus, eles são expectadores.

E a expectação é um relacionamento com Deus e um entrar com profundidade na realidade que era ainda uma vaga tradição no tempo de minha geração, mas eu tenho a impressão que na geração de vocês se eclipsou de todo em todo: a expectação perdeu sua razão de ser. E sobre isso eu gostaria… [Vira a fita]

lobo-do-mar que assistisse como aposentado inválido, num navio, uma batalha naval. No sentido bom da palavra ele torceria, quer dizer, seria uma expectação com tomada de posição interna e com contemplação sobretudo, como se ele fosse um batalhador. A inserção dele no acontecimento não é o elemento preponderante para a tomada de posição.

* Mas não basta o papel de expectador: o homem tem necessidade de usar suas potencialidades

(Dr. Edwaldo: Assim também se deveria ver os fatos passados.)

Também a História. Perfeitamente. E, aliás, a própria Via Sacra, já que falamos disso.

Agora, daí a gente deduz então que há em nós uma repulsa à seriedade e à majestade dessa situação — em alguns — e uma forma de banalidade como dando o único clima em que o homem possa duravelmente viver. E há outros — e são os espíritos mais elevados — [que] como não estão habituados à idéia da expectação, eles querem muito tomar uma posição e pensam que é só agindo, quando de fato expectando já se tomou uma posição.

O que ainda não resolve o problema que você deu. É um elemento para o problema que você deu. Ainda não resolve o problema que você deu, mas é um elemento precioso para esse problema.

Eu senti isso com toda angústia no tempo em que eu não participava do movimento católico e que eu via isso, aquilo acontecer, e eu como um bobo, levando uma vida mole, comendo, bebendo, dormindo e pensando: “Meu Deus, eu de braços cruzados e isso tudo acontecendo? Para o que eu nasci? Para que eu fui levado à aflição de presenciar todas essas coisas dentro da minha inutilidade? Por que Vós me criastes, ó meu Deus?”.

Não era uma interpelação revoltada, mas era uma interrogação que encontrou um certo apaziguamento em mim quando eu me dei conta do papel de expectador, a nobreza e a importância que tinha. Isso me ajudou muito, mas muito.

Mas não basta. Porque quando a pessoa tem uma certa potencialidade, a expectação dá ou quase exaspera a vontade de usar a potencialidade.

Aqui entra o problema que você pôs, descartado disso que eu tratei.

(Sr. Átila: …)

E é outra aflição pela qual eu passei também. Eu estou conseguindo distinguir tão bem porque são etapas de meu próprio padecimento e por isso com esta facilidade eu estou destrinchando o negócio.

Portanto, não se diga que basta falar de expectação para resolver o caso, porque virtualidade ferve e o sujeito percebe que ele seria útil, que ele poderia dar um contributo, e o contributo que ele tem quase que o azeda, produz dentro da alma do homem a impressão que deve sentir o apoplético que tem demais sangue correndo nas veias e que não sabe o que vai fazer do sangue. Assim há uma espécie de apoplexia de zelo e apoplexia da vontade de agir que é um tormento em si.

(Sr. Átila: Não pode ser misturado com amor-próprio também. Isso também não vem ao caso.)

Não. Mas sabe o que tem? Entra amor-próprio, mas a questão é que quando a gente vê o lado legítimo e resolve, o amor-próprio leva uma pancada. De maneira que o problema não é tratar do amor-próprio, é resolver o tema legítimo. O lado errado seria uma tirada contra o amor-próprio.

Aliás, pela cara que você fez eu vejo… Mas realmente é.

(Sr. Átila: …)

Eu percebo perfeitamente. Não, é quase pegar o lado. É propriamente isso, saber pegar o lado nobre e bom, apontar e resolver, que depois o outro lado fica. Leva um nocaute com isso, um cheque-mate para usar uma expressão mais adequada. Não é o problema; o problema é resolver o lado bom. Ao menos foi como eu senti esses problemas todos.

Aqui eu dou uma resposta pequena, que já vou dizer que é incompleta, para depois tratar do assunto em si mesmo. Mas essa resposta eu devo dar porque é um desses temas todo feito de matizes, e quando falta alguma coisa no tema, na solução final a gente não sente aquela força, aquela solidez de solo que a alma humana pede. Então, por causa disso, eu vou dar alguma coisa.

Realmente, as pessoas por essas ou aquelas razões, mas eu creio que sobretudo por uma espécie de hábito de formação em criança de se deixar levar pelas coisas vivencialmente, uma questão de vivência, não é convicção intelectual, é pela vivência, as pessoas só sentem a vivência de uma convicção quando a convicção confere com as aparências. Quando ela não confere com as aparências, pode haver uma convicção em tese, mas não dá vivência.

* “Vocês não têm idéia até que ponto eu seria inútil para todos os efeitos naturais se eu não tivesse a TFP”

(Sr. Átila: …)

É, do que vocês fazem em… Eu preciso tirar o “nós”, porque seria uma falsa modéstia.

(Sr. Átila:…)

A esse respeito não valeria a pena, porque como a coisa é muito secundária, não vale a pena nós perdermos muito tempo no que vou dizer, mas isto precisa ser dito.

Vocês não têm idéia até que ponto eu seria inútil para todos os efeitos naturais se eu não tivesse a TFP. Inteiramente inútil.

(Sr. Átila: […] O Paganini foi fazer um concerto para o Papa e foi embora uma corda. Então ele tinha que fazer todo o resto nas três. Foi, não sei o quê, para manter a nota teve que continuar, quebrou outra. Teve que acabar o conserto numa corda só. O senhor faz o concerto do violino conosco.)

É verdade. Mas o Paganini pode fazer o concerto dele e pode até realçar a condição de músico.

Então eu acho que o assunto está liquidado por aí. Isto é mais do que parece.

(Sr. Átila: Apesar de nós.)

Não, aqui está um pouco forte. Mas apesar dos defeitos nossos é verdade. Apesar de nós é um pouco forte, mas apesar de defeitos nossos é verdade. Defeitos de vocês, vamos dizer assim. Isso é verdade.

Mas isso tem um para uma série de efeitos históricos, transesféricos, etc., da Bagarre, uma importância como teve a única corda para o Paganini. Vamos dizer isso de passagem e vamos entrar direto no caso.

* Descrição da Alemanha wagneriana, que é o contrário da Alemanha feudal

Você imagine que ao menos alguns de nós aqui tivéssemos uma formação e uma ancestralidade alemã. Podia acontecer. Eu não tive nenhuma ancestralidade alemã, mas tive uma educação alemã que influiu muito em mim porque eu hauri avidamente tudo quanto foi dado e depois aumentei um tanto por leituras, observações e conclusões, etc. De maneira que representa uma parcela dentro do meu espírito que vai muito além do que me deram. Portanto, eu conheço mais ou menos isso.

Eu descrevi há pouco… não me queiram mal, Edwaldo, você Mário que nasceu em Berlim, você Fiuza que é evidentemente um alemão… você Fernando que é um alemão da Pomerânia… não me queiram mal pelo que vou dizer, mas acaba sendo o seguinte:

Eu acabei de descrever um ambiente — eu vou usar uma linguagem meio enigmática, secundarista brasileira. O ambiente não idêntico, mas mais ou menos correspondente a isso na linha alemã, é composta de uma porção de pessoas que ao contrário de aceitarem a limitação do ambiente secundarista brasileiro, são todos, e em série, candidatos a “lohengrensinhos”.

Veja bem, você sorriu abrindo um pouco o flanco para o riso, mas eu sorrio com complacência, sem rir.

(Sr. Átila: …)

Bem, mas vou pôr. Já que entrei, tenho que sair do outro lado do túnel e eu, portanto, tenho que tratar da questão por inteiro.

Então nasce uma série de “lohengrensinhos”. E o próprio do ambiente alemão é de que não são pessoas caricatas, como, por exemplo, o garnisé não é a caricatura do galo. Ele é uma miniatura encantadora do galo e que participa da respeitabilidade do galo, mas ele não é o galo. E a Germânia, a nação, produz alguns galos e muitos garnisés.

Vocês estão vendo que estou dizendo isso com muito afeto, sem vontade de caçoar nem nada. Mas é.

Acontece que por causa disso eles formam toda uma espécie de mundo wagneriano interior, cada um segundo seu próprio senso, um mundo wagneriano interior dentro do qual eles são o único “lohengrensinho” de pé, revivem a vida toda do Lohengrin, aqueles dramas, aquilo que nós descrevemos na reunião do MNF. O drama, aquilo tudo o sujeito revive, o destino pessoal de cada um.

Isso que é a Alemanha e o povo teutônico visto na sua primeira matriz, ao contrário de dar o gosto que um brasileiro que agora falei tem pela gaiola e horror da liberdade, dá um gosto desenfreado da liberdade e o horror da gaiola. E a liberdade é o estar em determinado momento numa situação da história de si mesmo e do mundo, em que ele tenha a lança na mão e vai dardejar a lança na frente da fera.

Eu sei que é até um pouco aflitivo de tão cruel o que estou dizendo, mas me deixem acabar. Um pediu, mas eu achei consonância nos outros. Permitam-me que acabe.

Esta é a Alemanha wagneriana, o contrário da Alemanha feudal, em que o garnisé procurava, na consonância com o galo, encaixar-se num destino maior do que o dele e participar do canto do galo sabendo o que isso significa.

Agora, vocês pegam a duas Alemanhas bem no ponto, é aflitivo. Eu sei que tudo que estou dizendo é aflitivo, mas a realidade é aflitiva, o que eu posso fazer? Não depende de mim.

Vocês pegam as duas Alemanhas. Nunca a mente humana, mesmo iluminada pela graça, produziu uma construção mais grandiosa do que o Sacro Império Romano Alemão. E nunca a escala de A a Z do vínculo feudal foi arquitetada e realizada de um modo mais esplêndido do que no Sacro Império. Nunca foi tão esfarrapada, tão destroçada, tão liquidada pelo garnisesismo do que isso.

E o que é?

Aí vem a risada maldosa do francês. Por exemplo, Saint-Simon, para não ir mais longe. É um príncipe, chamava-se o Príncipe de Zweibrücken, quer dizer, o Príncipe das Duas Pontes. Você está vendo que o Fernando está complacente, maldosamente complacente. Você está vendo o que é: um homem que tinha como feudo duas pontes e que ali se julgava duas pontes, e queria pura e simplesmente liquidar com o imperador e tudo para partir de Zweibrücken resolver o destino do mundo.

Eu compreendo o riso francês sarcástico. Não me associo a esse riso, eu sou cheio de complacência… até gosto muito mais de dizer em alemão, com a explosão das consonantes de Zweibrücken, me encanta, mas tem uma medida. E aqui tem a contradição.

E para fazer a história inteira da Alemanha, a Alemanha esmurrou os outros países vizinhos, todos, e foi o flagelo dos países vizinhos, porque é desagradável ser vizinho da Alemanha.

Você, meu filho, não pode negar. A pobre Dinamarca, por exemplo, um toco de país, ali… por quê? A Polônia é o capacho da nação germânica, e daí para fora.

Bom, tem um com quem os alemães não se meteram: são os húngaros. Ali a coisa é outra. Os Cárpatos, ali a coisa… Os romanos que eram os avós dos italianos deixaram os germanos que eram os avós dos alemães atravessar o Reno e o Danúbio de medo de um senhor chamado Átila, que, comandando os hunos, vinha açoitando os alemães. Esses eram os húngaros, ficaram encastoados ali no mundo alemão e não contam farofa. Se não fossem os beijinhos a la Áustria, não se tinha resolvido o caso húngaro.

(Sr. Átila: Não, porque os alemães são os italianos dos hunos.)

É muito interessante a gente observar a História. Mas sabe qual é a verdade?

Se eles fossem feudalmente unidos e se entre garnisés e galos não houvesse a ilusão do Lohengrin, mas uma boa estruturação de tipo e arquétipo, eles poderiam perfeitamente ter dominado o mundo, pelo simples peso número, geográfico e intelectual da nação alemã. Dominando a la Sacro Império, não é dominando a la Kaiser e muito menos a la Hitler. Mas não fizeram nada disso.

* O alemão quando é feudal, é afetivo, dedicado, obediente, mas quando não quer ser vassalo, se ajoelha diante do filho das trevas e salta ao pescoço do filho da luz

Daí também na alma alemã duas formas de afetividade, são dois homens diferentes.

O alemão feudal é afetivo pelas mesmas razões pelas quais o brasileiro é afetivo, embora num estilo diferente e numa tecla diferente. Ele gosta de se dedicar, ele gosta de ser leal, ele gosta de ter contato com o maior do que ele e ser erguido pelo arquétipo até a integridade de sua própria altura e de sua própria elevação, e pode dar um vassalo de uma dedicação absolutamente exemplar, porque é a luz primordial correspondente à inocência dele. É o povo mais obediente do mundo. O povo dos garnisés é o povo mais obediente do mundo.

Mas deu no seguinte, para castigo desse povo: quando encontra um filho das trevas, eles lambem o pé; quando encontra um filho da luz, ele pode se permitir todas as arrogâncias.

Aquela história de Churchill “um alemão ou está de joelhos diante de nós ou nos salta ao pescoço” tem uma parte apenas da verdade. Ele está de joelhos diante dos filhos das trevas e salta ao pescoço do filho da luz. É a pura verdade.

Agora, quando é que ele salta ao pescoço do filho da luz?

Quando ele não quer ser vassalo, ele tem raiva de toda a escola de vassalagem, é um garnisesinho que quer resolver tudo por si e dá na ebriedade das idéias originais, das coisas giradas só por ele e mais ninguém, que ele só é que resolve e mais ninguém, e que todo mundo é um inimigo na medida que não faça o que ele quer, o que ele aconselha, o que ele manda. E dá numa espécie de inimigo universal, ele tão feito para ser o contrário, mas é!

* A Alemanha só seria verdadeiramente grande se soubesse entrar num encaixe feudal

Agora, acontece sobretudo de trágico o seguinte: está na ordem do universo, os patos geram cisnes e às vezes entre os garnisés nasce um galo grande. Isso acontece. O galo grande seria verdadeiramente grande se ele soubesse entrar num encaixe feudal, mas quando ele não entra, ele fica garnisé. Aqui está a questão.

E acaba sendo o funcionário exemplar do filho das trevas. O que nunca será é o para o que ele não foi feito: o galo hein!

O que quer dizer galo, aqui na Alemanha? Eu falo da Alemanha do Sacro Império, não falo de outra coisa.

É, por exemplo, isso:

Não é ser súdito do Kaiser, quer dizer, um galo maior que cai em cima do galo menor e arranca as penas do pescoço. Não é isso, mas é, por exemplo, ser súdito dos Habsburgos, de algum modo congenitamente mais fracos do que toda a garnisesada e sabendo defender-se mal dos garnisés. Mas eles foram feitos para viverem da fidelidade, é uma dinastia que o país merece na medida em que for fiel, sem ser garnisé.

E aqui há um binômio: ou o pavão sabe se prestigiar e o galo sabe aceitar esse prestígio e então está tudo feito, ou do lado do pavão ou do galo algo erra e aí é um desastre para o mundo. E não tem remédio. Aí alguns pecaram e o mundo tem que agüentar as conseqüências.

Agora, eu não sei se todos os filhos que eu tenho com sangue alemão sabem fazer em si mesmos a distinção dos dois lados e das duas vertentes e sabem compreender que prodigiosas possibilidades de ação uma vinculação segundo o feudalismo antigo pode trazer. Eu não sei isso.

Mas uma coisa é certa: é que na linha do garnisé, o garnisé diz para o seu mestre: “Agora que eu aprendi sua doutrina eu sei como vou ser e vou fazer o que eu quiser”. Outra coisa é o que diz na ordem feudal o garnisé para o galo ou para o pavão: “Você não é apenas doutrina, é também um símbolo. E eu de você aprenderei tudo menos ser o que você é. A não ser quando o seu ciclo tenha terminado e eventualmente comece o meu. Isso é uma outra questão. Nessa hora eu não serei galo, eu serei pavão e a la galo não dominarei. Isso é uma outra questão. Muito profunda, muito para se considerar”.

Avec ni man du respect e com afeto paterno — mais materno do que paterno — é a essência da coisa. A capacidade operativa redunda desta aceitação símbolo-doutrina.

* Para o Reino de Maria será preciso unir a criteriologia latina com a germânica

(Sr. Átila: No caso concreto eu vejo que isto resolve o problema de fundo e seria a união que devemos ter com o senhor. Mas há esbalhos de ordem operacional.)

É temperamental, meu filho. Porque o garnisesismo é um estado de temperamento em grande parte.

(Sr. Átila: Análise de coisas. Por exemplo, a reunião de hoje, a reunião da tarde, eu fiquei com a idéia seguinte: que para minha parte tudo errado…)

Está claro, a agulha de injeção entra no lugar certo. Se uma tem que ser na veia, não pode dar na orelha.

(Sr. Átila: […] Como é a consonância do garnisé com o galo?)

Ou do galo com o pavão.

(Sr. Átila: Do garnisé com o pavão.)

Não, a coisa se aplica debaixo para cima, não tem problema. Aqui seria quase preciso fazer uma conferência, mas eu quero indicar pontos. Eu acho que a conversa está muito abençoada e estou gostando, mas a questão é que a envergadura do tema é tão grande que pediria mais. Você vai ver daqui a pouco como eu pego o tema.

Há entre a criteriologia latina e a criteriologia germânica uma espécie de separação. Vamos dizer que tem o Reno pelo meio para me exprimir em linguagem poética. E acontece que para interesse do Reino de Maria é preciso transformar isto que na Idade Média está pressuposto, de criteriologia. Não existia. Havia uma diferença, não havia um choque. É preciso eliminar isto para o Reino de Maria, é preciso cerzir e não costurar, se não o Reino de Maria não se compõe bem.

E para esse trabalho de cerzimento exatamente eu tenho tomado essa questão muitíssimo a sério, e quase que tenho me especializado, na medida que eu posso, em tomar os assuntos que interessam como um germânico o vê e explicá-los aos latinos e como um latino vê e explicá-los aos germânicos, fazendo uma espécie de papel de ponte entre uns e outros.

Um exemplo concreto é, por exemplo, sua atitude em algumas reuniões em que você faz perguntas, às vezes vocês outros também, que em geral a pergunta não interessa a quem ouve, mas a resposta que eu dou interessa sobremaneira a quem ouve, porque estou fazendo uma tradução do pensamento que está em termos germânicos para termos equivalentes para latinos e germânicos.

Com o auxílio de Nossa Senhora, em geral as minhas respostas — eu assim presumo — respondem bem ao que vocês perguntam, mas interessam a eles enormemente.

E assim procuro fazer uma espécie de pervasão entre as duas coisas, porque aqui vem um princípio que interessa: a coisa é pervasível. É saber ver.

Então, isto é o primeiro ponto.

* A capacidade de observar as coisas concretas é uma riqueza que o alemão tem na alma e que se trata de saber aproveitar

Agora, o segundo ponto é o seguinte: é que há qualquer coisa no espírito germânico que é diferente o alemão convencional do alemão real. O alemão real não é pobre no captar certas realidades que o latino capta. Acha um erro. Ele não tem o hábito de tomar em consideração e analisar essas realidades e nem de exprimir essas realidades. Ele é formado por uma criteriologia “bismarkiana”, “kaiseriana”, etc. De maneira que essas realidades, ele ao construir o seu pensamento, ele não toma em linha de conta.

Mas de vez em quando ele escapa com observações às quais ele não dá importância e que são muito bem apanhadas. E são observações sobre situações concretas como às vezes um latino não faria.

É um problema de saber aproveitar riquezas que uma formação creio que desde já o curso secundário até dos pressupostos da conversa em casa empobrecem.

E aqui há uma correção a fazer.

Não é — e aí seria o caminho errado — deixando de ser alemão. Este seria o caminho: latinize-se. Olha que você é meio sangue latino, mas não é esse o problema, o problema é outro. Eu sei o papel que o latino representa, o fator latino representaria eu sei. É muito menor, às vezes muito maior do que vocês mesmos supõem. Mas eu vou tomar o alemão puro sangue. É diferente.

Saiba ver e saiba dar importância, atualidade, constitua tema de reflexão muita coisa em que você não reflete”, diria eu a um alemão puro sangue. Ele despreza riquezas interiores.

Eu sustento, por exemplo, que se um verdadeiro alemão quisesse, ele faria “proustianismo”, coisa à maneira de Proust. Mas não antes de corrigir esse defeito, porque senão ele vai fazer a tamancada mais ridícula que pode haver, querer copiar Proust antes de ele ter acabado com esse defeito anterior.

(Sr. Átila: …)

Mas muita coisa. E que daria observação de uma porção de realidades, etc.

Mas o que faz um alemão? Se ele compra Roma Sparita, ele…

(…)

era preciso chegar lá, mandar pôr ordem, com idéias “bismarkianas” completamente gagás a respeito daquilo. Completamente gagás.

Se, pelo contrário, a Alemanha pega, dá o Spitzbeuger para ele, ele fica enternecido, mas não sabe porquê. E o Proust soube dizer, mas o alemão tem o Spitzbeuger e não pensa naquilo, a respeito daquilo. E aqui está o ponto… [Troca a fita]

o alemão “lohengriniano” é o contrário disso, porque quando ele resolver ser o supremo, ele pega essas riquezas, dá uma e põe no chão como indignas dele.

(Sr. Átila: Engoliu todas as realidades.)

Todas as realidades. Fica aquela gagueira.

Nós dizemos que é uma beleza haver antes de Napoleão novecentos Estados na Alemanha, mas não dizemos o contravapor, que é uma gagueira.

(Sr. Átila: É o contrário da luz primordial de um povo.)

É o contrário. E fez do Sacro Império Romano Alemão um dinossauro paralítico. Só! Mais nada.

Agora, depois vem o filho das trevas, vem o Bismark, o Hitler, vem quem vocês quiserem. “Povo, não! Meia volta, volver! pam! pam!”. E vão matar qualquer francês ou polonês que eles encontrem na ponta da baioneta ou na alça de mira do fuzil.

O que é isso? Uma degenerescência. Desvia o povo.

Meus caros, por hoje não teria mais nada o que dizer. Eu sinto inclusive que o meu remédio está começando a agir, mas eu creio que ganhamos larguissimamente nossa noite.

(Sr. Átila: Três ganharam a noite.)

Não, mais alguns… Eu ouso esperar que ele tenha ganho algo na noite, porque para os brasileiros e para o meu chileno, eu garanto que disse umas coisas que facilitam entender o alemão. Garanto. Porque do lado brasileiro, do lado latino, eles fazem muitas vezes com a razão o que o alemão faz com a observação. E são podados dos lados errados. Se fossem verdadeiros católicos, a coisa dava num outro gênero.

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