Conversa
da Noite ─ 06/10/79 ─ Sábado .
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Conversa da Noite ─ 06/10/79 ─ Sábado
Há nas almas chamadas a uma grande Vocação, bolsões de inocência que as levam a ter lampejos proféticos antes mesmo de conhecerem o Grupo * Se não houvesse o respeito humano de exprimir a chama que cada um leva na alma, criar-se-ia o ambiente da TFP total * Papel da Senhora Dona Lucilia em patrocinar nossos bons lados de alma * De uma matriz de Ordem de Cavalaria existente na alma do Senhor Doutor Plinio e modelada pelos acontecimentos, nasceu a TFP * A influência da Senhora Dona Lucilia na formação da mentalidade do Senhor Doutor Plinio * “O brasileiro é muito mais um estado de espírito do que uma raça” * Se o respeito humano que confina cada um num alvéolo, se rompesse, alcançaríamos um píncaro de união sobrenatural * O exercício mais específico da misericórdia de Nossa Senhora está em aceitar de ter conosco uma perfeita afinidade, apesar da enorme diferença existente entre Ela e nós * “Apesar de minha idade e de todo passado de batalha que tenho atrás de mim, há algo em mim por onde eu sou fundamentalmente filho”
* Há nas almas chamadas a uma grande Vocação, bolsões de inocência que as levam a ter lampejos proféticos antes mesmo de conhecerem o Grupo
Eu não daria a resposta que vou dar por julgar que o campo não está suficientemente caracterizado, se eu não tivesse feito a reunião de hoje à tarde.
O Marcos não estava presente, mas valeria a pena ouvir. É um pouco ridículo uma pessoa estar recomendando a outra que ouça sua própria reunião, mas realmente viria a propósito para você compreender bem, você compreenderá, mas todo o restante que está na resposta que vou dar. Mas que tem uma referência com a reunião da tarde também.
À luz do que disse hoje à tarde, lembra-se quando falei daqueles estados de alma, impressoÊs, situações, etc., em que a pessoa está, mas que há algo do espírito para onde o melhor da alma da gente vai, mas que há um espírito moderno que comprime, acalca dentro do chão, amputa, etc.?
Ainda agora eu tive um exemplo. Eu dei algo da reunião da tarde muito ligeiramente para a “enjolrada”, naturalmente eles não podem acompanhar aquele desenvolvimento todo, mas algo eles pegaram.
E eu via a mesma coisa neles que me leva a explicar, à vista da reunião de hoje à tarde, uma área ainda não estudada da nossa vocação e que daí daria uma orientação toda da nossa vocação. E, aí, exatamente neste ponto uma explicação do papel de mamãe.
A área não estudada é a seguinte: vocês imaginando uma pessoa que se entregasse àquele gênero de cogitação de que eu falei hoje à tarde, que são cogitações numa linha que vai muito mais além do que Ambientes, Costumes. É daquilo muito para cima, mas muito, muito. A perder de vista para cima.
Toda pessoa que se entregasse a isso teria, por efeito da própria inocência, uma espécie de labaredas de alma por onde pressentiria um pouco a TFP que iria acontecer. E pressentiria também algo do mundo da Revolução que tinha que cair, e de uma trombada que ia ter. Mas é vagamente, à maneira de certo gênero de chamas que sobem muito, depois caem, depois sobem muito, depois caem de novo. Assim, desse gênero.
E, nos momentos em que pressentissem, de um pressentimento que teria qualquer coisa de profético ─ eu digo tomando a palavra com os cuidados que Dr. Marcos insiste com razão, que a palavra deve ser tomada ─ qualquer coisa de profético.
(Sr. –: Qualquer um?)
Qualquer um que tenha vocação, não é qualquer homem na rua. Mas qualquer um de nós seria levado a isso, a ter assim uns pressentimentos de que algo, algum dia, viria, aconteceria. Instantâneos, fugazes como uma chama que se levanta e abaixa de novo.
(Sr. –: Isso antes de conhecer o Grupo?)
Antes de conhecer o Grupo. Portanto, se quiserem, como fenômeno anterior desde todo o sempre. Quer dizer, desde que se lembra de si mesmo, de vez em quando uma labareda desse gênero indo de um lado para o outro e comprimido pelo mundo moderno como uma coisa sem sentido, como uma fantasia, que não contém realidade, de non sense, etc.,
E que corresponde a bolsões de inocência dentro da alma. E esse bolsões, bem grandes de vez em quando, levando a conjecturas, a hipóteses, a impressões que na luz incerta dessa labareda seriam mais ou menos como se a gente acende uma labareda assim, num ambiente onde as sombras que um obstáculo anteposto à labareda projeta, dançam como a labareda. Quando as chamas mudam, as sombras dançam.
Assim também, ora seriam sonhos enormes, anelos meio descabidos de tão grandes. Ora seria coisas muito pequenas, etc., indefinidas, mas dançariam assim, dentro da alma, aspirando a muita coisa grande que não foi dito.
Este estudo de alma é uma espécie de depósito de inocência e de recurso vital. É se quiserem um germen, um primeiro esboço vital, uma coisa assim que fica no fundo da alma e que produz essas chamas.
Quando a pessoa encontra a TFP a labareda percebe que se abriu para ela ar, e que se deu para ela combustível e que ela arde.
* Se não houvesse o respeito humano de exprimir a chama que cada um leva na alma, criar-se-ia o ambiente da TFP total
E depois, entra a tragédia seguinte: se cada um tivesse a falta de respeito humano de exprimir inteiramente como é sua chama interior e manifestá-la; chama que arde de um modo muito diferente em cada um, não é igual, mas em si todas essas chamas são irmãs e afins; criar-se-ia o ambiente da TFP total, da TFP verdadeira.
Mas há uma inibição por onde ninguém ousa dizer inteiramente como é essa chama em si. E o resultado é que cada um tem uma zona muito boa, muito sólida, de fidelidade, de adesão, durante anos, etc., e por detrás ou por debaixo dessa laje de pedra tem todo um bolsão de ideal, de anelos, de anseios, ainda daquele tempo, que ficam meio desacreditados aos olhos da própria pessoa por não poderem se expandir dentro da TFP. E meio minguado, e meio diminuído. E de vez em quando, em alguns lados da vida da TFP, aquilo sai do subsolo mental e lança uma labareda de novo.
E o verdadeiro é quebrar uma espécie de respeito humano circular por onde cada um, vendo a chama do outro com suas impressões ─ inclusive com aquilo que se poderia chamar suas maluquices ─ posta em comum e plasmada segundo seu verdadeiro tamanho. Não se trata de reduzir, mas trata-se de precisar, de dar contornos, de focalizar, não de reduzir. Aí é que todos nós nos conheceríamos, que todos nós seríamos um só. E é nessa chama que todo mundo tem verdadeiramente união comigo.
Em parte, o desejo de conversa pessoal comigo vem do fato de que quando a pessoa está sozinha comigo, embora não tratamos de temas da chama, há uma certa intercomunicação nisso. E quando estão muitos, a presença dos outros impede a cada um de pôr isto pelo menos subliminarmente em funcionamento.
E tratrar-se-ia de liberar e dar alimentos a esta chama interior. Com esse tipo de respeito de cada um para com esse modo de ser do outro, que isto no primeiro momento tem contornos e tem anelos que pedem por uma definição, uma delimitação, uma ordenação. Mas que no fundo são o melhor de nosso subconsciente, mas comprimido por esse respeito humano coletivo onde cada um sente a gargalhada de todos os outros, dada em nome do espírito do mundo, se cada um fosse mostrar inteiramente.
Eu nunca tratei desse fenômeno, mas a meu ver é uma riqueza a ser posta em evidência diariamente. Com cuidado necessário, é preciso cuidado para manusear isto. Mas vai.
Eu conheci uma pessoa dentro do Grupo assim com muita chama e esmagado pelo respeito humano diante da própria chama. E que seria o perseguidor da chama dos outros se manifestasse e que foi vítima desse próprio enredamento.
(…)
…é fora de dúvida que o princípio que ele objetou ao Átila, em si correspondente a um modo de ser revolucionário. A uma secura revolucionária que não é o modo de ser católico. Mas essas inibições que ele teve a vários títulos e outras circunstâncias pesam também sobre nós. E constitui propriamente a forma mais sutil de respeito humano entre nós e de dificuldades de comunicação. Porque é por esta forma, formas destas, não só nesse tema mas mil temas assim, são um ponto dentro de uma linha ou dentro de uma circunferência: por estas formas é que nós seríamos bem diferentes do que somos.
* Papel da Senhora Dona Lucilia em patrocinar nossos bons lados de alma
Agora, antes de debater esse tema, qual é o papel de mamãe dentro disso?
Mamãe me comunicou por educação, por graças, pela osmose do convívio, por uma série de coisas, cem coisas assim de que a alma dela era cheia. Mas também pela ponderação e pelo bom-senso que ela colocava em tudo isso e pela lógica que ela colocava em tudo isso, deu-me uma certa noção dos limites disso, das precisões, dos conformes que fazem com que todas essas coisas tenham conta, peso e medida.
E, eu creio que a intervenção dela é um patrocínio destes bons lados da alma para que vivam dentro da conta, peso e medida, mas que vivam! Não esmagados por esse iceberg.
* De uma matriz de Ordem de Cavalaria existente na alma do Senhor Doutor Plinio e modelada pelos acontecimentos, nasceu a TFP
Então vem uma aplicação disso: Ordem de Cavalaria.
Vocês sabem que quando eu era mocinho pensava muito em Ordem de Cavalaria, etc.
(Sr. –: Que idade, senhor?)
Entre os doze e dezoito. Nunca abandonei a idéia, mas meio infantilmente se colocava na idéia como ela não se realizou, de sabre na mão e uma porção de coisas assim. Colocava-se assim.
Naturalmente você esta vendo que havia qualquer coisa que era o pressentimento do que viria, mas com os altos e baixos da chama e o movediço da incerteza de um movimento primeiro que os acontecimentos iam modelar até muito inesperadamente em alguns aspectos, mas continuando fundamentalmente o mesmo.
Eu percebia que as idéias possíveis atingiam ao máximo com elevação. E com o ímpeto que vocês me conhecem, vocês podem imaginar a coisa aonde iria… É um ímpeto plácido, não é um ímpeto que tenha o charme e a vivacidade do Fábio, mas uma coisa contínua: “oooo, oooo…” vai! E portanto aí, aonde iria, vocês sabem bem. E que tinha muita coisa que eu mesmo percebia que era irrealizável. A tal ponto que eu, depois de um certo tempo, parei de apresentar pormenores ou planos a mim mesmo.
Mas por detrás desses pormenores ou planos ficou uma matriz, ficou um ideal, ficou uma deliberação e ficou uma matriz. Essa matriz os acontecimentos foram modelando. Ficou mais ou menos como um estandarte que o vento vai pôr nas mais variadas posições, o vento dos acontecimentos vai soprar sobre o estandarte dos mais variados modos, pôr nas mais variadas posições, desenhar nele as rajadas das chuvas mais inesperadas, dos tipos e dos rasgoÊs mais impressionantes e modelá-lo durante a luta. Mas o fundamental ficou.
Agora, vocês vão ver como é que ficou. Tudo executado com um bom senso, com um senso do real, com equilíbrio, com uma sanidade mental. Que a TFP como instituição é de uma sanidade mental total. Graças a Nossa Senhora a prova de bala! Seria difícil fazer uma instituição tão lógica em todas as suas articulações, em todas as suas complexidades quanto é a TFP. O que indica, exatamente, sanidade mental.
Mas, de outro lado, nascida de algum modo, de chamas assim, que tomaram conta, peso medida; mas que não diminuíram de vulto, não diminuíram nem de luz, nem de calor com o tempo.
Ora isso em grandíssima parte é devido a ela. E, numa parte complementar, é devido a duas outras influências que já tenho falado mil vezes, mas que tive no período de modelagem do meu modo de ser, a Frαulein e Santo Inácio de Loyola.
(…)
* A influência da Senhora Dona Lucilia na formação da mentalidade do Senhor Doutor Plinio
…muito, muito. A lógica de Sto. Inácio, a deliberação dentro da aridez. Ainda que dê aridez é preciso fazer, porque a lógica é essa! E o magnífico da vontade é cortar a aridez e vencê-la como quem vence um inimigo, etc., etc. Isso é inaciano total e eu não me sentiria eu mesmo se não tivesse bebido a haustos e com entusiasmo sem nome, não dessa água, mas dessa areia. Eu bebi areia.
Mas seja como for, ela representa um papel nessa tripeça, sem a qual também o resto ficaria, ficaria… Os senhores percebem sem o quê. A Frαulein e Sto. Inácio sem ela não teriam dado certo. Não só não teriam dado, mas teriam feito o ente caricato. Ela é o contrapeso do que a influência da Frαulein teria de por demais militar. O contrapeso do que em inacianismo comum, que não é o verdadeiro inacianismo de Sto. Inácio, teria por demais arenoso, é ela.
E, as três coisas juntas são graças pelas quais eu sou profundamente reconhecido a Nossa Senhora. Aliás, quando falo de qualquer desses fatores, eu falo com entusiasmo que vai desde logo à última. O fator de que falo com menos entusiasmo, por razões compreensíveis, é mamãe, porque tenho que ser discreto a respeito de minha própria mãe. Mas vocês sabem bem com que mares de carinho, afeto, respeito, compreensão e muito mais hein! É ser um! É uma outra coisa, é ser um.
Agora, acontece que nesse subsolo mental de cada um em que a alma de cada um, apesar de ser subsolo, é um espelho do Céu ─ porque aqui está a questão ─ eu nunca toquei ainda. Porque não era possível falar sem… Porque é um tema quase explosivo, hein! Sem uma aclimatação que o tempo foi fazendo, etc., e para a qual a conferência de hoje criou também um certo ambiente, um certo horizonte e tudo mais. [O Senhor Doutor Plinio se refere à Reunião de Recortes, em que falava do “Baltazar”.] E que explica então a ela e explica…
(…)
…a forma de idealismo por intuições, por labaredas sob aspectos de indefinido visando o infinito e precisando ter até o amoroso complemento das definições e das circunscrições. Mas é o amoroso, respeitoso complemento das definições, das circunscrições que a alma nacional não dá.
Esta é uma superabundância que leva pelo modo de ser a um desejo de afinidade, não a um desejo de domínio e de exclusão, mas um desejo de afinidade. E fazer dessa afinidade a alegria e a consonância da vida. E por causa disso esse outro aspecto a vida não é uma correria atrás da carreira e da situação, a vida é uma correria atrás das afinidades do bem conviver.
Estes seriam os elementos. Talvez apareça algum outro, mas são elementos a serem tomados em consideração que têm isto de próprio: se introduzem em qualquer mentalidade nacional sem desfigurá-la. Pelo contrário, dando-lhe algo que lhes falta, mas que, entretanto, é a mentalidade nacional do brasileiro, sem que o Brasil tenha nada de cosmopolita da ONU, porque isso já é outra coisa. Nem falemos nisso, Carter tudo isso não é nem sequer a caricatura disso! É melhor até nem mencionar.
(…)
* “O brasileiro é muito mais um estado de espírito do que uma raça”
[Sr. Átila conta que perguntou a um chauffeur de táxi, pretão de uns 30 anos, simpático: “O que será quando acabar o petróleo?” O pretão abriu um sorriso e disse tranqüilo: “Nós voltamos a ser o que éramos antes”.]
É isso, exatamente, a falta de sede de carreira. Magnífico! Para ele isso é muito menos importante ─ ter gasolina ─ do que o bom relacionamento dele, geral, com todas as pessoas.
Um problema a estudar, é por que é que o preto é tão afim com isso. Não vejo o índio tão afim com isso, hein… Eu queria conhecer melhor, não conheço bem, mas queria conhecer melhor. Olha que eu remotamente descendo de índio dos dois lados, paterno e materno. Mas eu queria conhecer melhor.
(…)
(Dr. Marcos R. Dantas: Quando o brasileiro se sente contrariado, a melhor maneira que encontra é negar esse convívio. Poderia dizer-se a coisa assim?)
Pode, perfeitamente, ele se fecha e nega a convivência.
(Dr. Marcos R. Dantas: É o pior castigo para infringir ao adversário.)
Exatamente, porque a vontade de matar é só em estado de delírio. E quando ele não quer esta afinidade com alguém, aquele é um morto para ele!
Agora, como acontece que isso penetra muito, todos vocês têm ─ com exceção do Fiúza provavelmente, do Mário e eu ─ todos vocês têm outros sangues. Mas isso penetra tanto ─ e depois, é feito para penetrar ─ que deve ser visto como um dom do Grupo em estágio diferente, de maneiras diferentes. Não deve ser visto assim: “Eu sou brasileiro puro e você não é”. Porque se eu fizer esse raciocínio eu já não sou brasileiro. O brasileiro é muito mais um estado de espírito do que uma raça.
(Sr. –: Daí que pessoas de outras raças se abrasileirarem rapidamente.)
Muito rapidamente, e depois, de todos os lugares. É também uma vocação.
Mas voltando agora ao ponto, era preciso acender em nós, fazer desses fragmentos de nossa alma exilados em porões e sedentos de convivência, sedentos de afinidades e meio sem respiração porque não encontra afinidade, é preciso pô-los nesta afinidade brasileira, fazê-los vir à tona nas suas peculiaridades e eu volto a dizer, mais ainda, nessas ─ digamos a palavra, não encontro outra exata ─ extravagâncias, ou… [inaudível] … de sua própria [estravagante?] e que procura exprimir-se para encontrar seus próprios limites, para encontrar em tudo isso a ordenação que deve haver nas coisas. Acho que isso é muito direito, muito bom, etc.
Aqui seria um fator para o Grand-Retour dos mais preciosos. Mas dos mais preciosos.
(…)
* Há no Outeiro da Glória uma graça, um estado de espírito que são únicos
…no lugar do Brasil onde acho que há uma espécie de presença desse estado de espírito, dessa graça de um modo simplesmente encantador é [no] Outeiro da Glória.
Não sei se vocês dois que são cariocas sentem isso como eu, mas eu acho que o Outeiro da Glória ─ o Largo do Boticário certamente ─ mas o Outeiro da Glória é uma espécie de arquétipo de tudo quanto o Rio tem de bom. Os mimos, os… Homem! O fato de que quando vou ao Rio eu só não vou ao Outeiro da Glória quando tenho obrigações tais que sou obrigado a… enfim, vocês conhecem a minha vida. Por que eu não concebo ir ao Rio de Janeiro, de mim por mim, sem ir pelo menos uma vez ao Outeiro da Glória.
Mas Outeiro, eu já conheço aquilo tudo, já estive tantas vezes lá! Não é não, é para imergir num estado de espírito! É para viver um certo estado de espírito. É único! Acho que há uma graça no Outeiro da Glória que é única.
Depois, ele tem isso de muito interessante, é a altivez encantadora do Outeiro da Glória. Ele hoje ─ porque todo aquele fundo de quadro do Rio mudou, não é mais o Outeiro antigo, aliás também com aquelas avenidas, aquilo tudo ─ ele continua com seu velho charmezinho de vovó, fazendo N-A-N-E para tudo e sorrindo para tudo como se nada tivesse mudado.
E também quando eu passo de automóvel ao pé do Outeiro da Glória, de longe que dê para ver, eu já vou olhando. E só perco de vista quando tenho que olhar para meu interlocutor ou quando o automóvel passa.
E se eu morasse no Rio, o que eu gostaria é de morar num lugar onde eu visse o Outeiro. E se eu pudesse localizar à minha guisa a Sede do Rio, seria na ladeira do Outeiro. Porque para mim o Outeiro é um encanto. Vou dizer mais, as igrejas de Ouro Preto são mais bonitas, as da Bahia são mais ricas, mas um certo charme brasileiro ficou mais impregnado no Outeiro do que em qualquer outra coisa. Eu dou isso como liquido. Sou entusiasta como eu não saberia dizer, do Outeiro da Glória.
(…)
* Se o respeito humano que confina cada um num alvéolo, se rompesse, alcançaríamos um píncaro de união sobrenatural
…talvez até os tenha desapontado, não sei, mas é uma conversa que era necessária.
(Sr. Poli: Acho que faltaria algo, que isso é o pressuposto.)
E, aqui está muito bem posto, é o pressuposto do tema. Quer dizer, pressuposta uma TFP assim…
(…)
…a graça da troca de vontades e outras coisas do gênero como é que se poriam? Aí seria a continuação da conversa. Mas é um pressuposto sem o qual a conversa não seria possível. Isso é que eu acho.
Eu acho que se fosse possível levar a cabo esta operação que falo, viriam graças de compreensão, de afinidades, de interpenetração dentro das diferenças e ressalvadas as personalidades, extraordinárias. E que aí nós compreenderíamos, a coisa como que cresceria por si, sem planejamento.
Não sei se estou me exprimindo bem ou estou desapontando vocês, mas é como penso.
(Sr. –: Se pudesse repetir…)
Vamos supor que esse respeito humano que confina cada um num alvéolo, se rompesse. Por efeito desse modo de ser brasileiro no qual todos nós estamos com essas ou aquelas peculiaridades e por efeito das intercessões que temos a nosso favor, esta procura das afinidades produziria um tipo e relacionamento que não seria apenas natural, mas sobrenatural.
Portanto produziria um relacionamento natural que é o simile de uma coisa sobrenatural que a Providência daria, as coisas se conjugariam. E que daria numa ordem de coisas em que um liame e uma interpenetração de vontades e de tudo mais, seria muito mais intensa do que na era em que esta forma de tesouro não se tinha aberto para a humanidade. E em que os píncaros da santidade, quer dizer esse relacionamento entre homens, seria a fortiori, sobretudo um relacionamento com Deus, e que a união com Deus seria num estilo do qual isso seria um espelho. União com Nossa Senhora, portanto. Esse tipo de união que falo seria o espelho do estilo de união com Ela. E aqui você entronca em Soeur Marie de Vallé e outros temas do gênero.
(…)
…o modo de ser particularmente excelente que eu julgaria extensivo a todos os povos no Reino de Maria. Quer dizer, eu estou muito preciso no que estou dizendo…
Isso tem uma certa relação com a devoção a Nossa Senhora. Vou dizer uma coisa, preciso me definir bem a esse respeito, mas olhe que quando falo da devoção a Nossa Senhora eu falo do que há de mais… enfim nem sei o que dizer!
* O exercício mais específico da misericórdia de Nossa Senhora está em aceitar de ter conosco uma perfeita afinidade, apesar da enorme diferença existente entre Ela e nós
Bom, hic et nunc, aqui e hoje, na TFP e nas condições em que a TFP vive ou se compreende que Nossa Senhora sendo o supra-sumo de todas as qualidades que uma mera criatura pode reter, tinha em Si essa riqueza de um modo inescogitavel por nós e sendo desígnio d’Ela que essa riqueza se difunda no mundo, Ela no nosso trato, nos trata assim e se mostra assim. E [ou] nós A tratamos assim, ou não há verdadeira devoção viva para Nossa Senhora.
… Mas a alma do mundo contemporâneo, na medida em que é o contrário do egoísmo contemporâneo, Ela celestialmente busca afinidade em nossa alma e pede à nossa alma que sejamos afins com Ela. O exercício mais específico da misericórdia d’Ela para nós consiste em aceitar essa afinidade apesar da… da diferença pluri-abiçal que há entre Ela e nós.
E cientes de que é assim que Ela nos quer, afins com Ela apesar de toda a nossa abjeção, é assim que nós nos levantamos, nos encorajamos e caminhamos em direção a Ela. E fora disso eu não acredito que se possa viver bem, hoje em dia, a devoção da Sagrada Escravidão a Nossa Senhora. Eu não acredito.
E isso eu fico alegre de poder dizer, porque é a primeira vez que eu encontro os termos adequados para exprimir isso. Porque a gente pode falar de misericórdia, isso, aquilo, aquilo outro, tomem a Ladainha Lauretana e entendam-na no sentido que estou dando agora. E cada invocação será para vocês uma gota de mel. A Salve Regina é melhor nem falar! E o Memorare.
Mas não haveria aí também um desejo de Nossa Senhora de ser vista assim e de tratar os homens assim no Reino d’Ela? Não haverá alguma coisa assim? Pode-se admitir…
(…)
(Sr. Guerreiro: …novo no senhor delicadezas que se diria uma criança e que pedem para o senhor ser entendido assim, [sine qua??]…
Ah, [sine qua?]…)
(Sr. –: O Grupo precisaria ter isso ou então nunca vamos entender inteiramente esse elemento do profetismo, sem o qual ele fica desfigurado.)
* “Apesar de minha idade e de todo passado de batalha que tenho atrás de mim, há algo em mim por onde eu sou fundamentalmente filho”
Desfigurado e que faz o seguinte: no fundo, apesar de minha idade e apesar de todo passado de batalha que tenho atrás de mim, ─ porque é só batalha! Depois batalha de todo jeito, de agressão sofrida de todo jeito, etc. ─ há qualquer coisa em mim por onde eu sou fundamentalmente filho! Então em relação à Igreja filho ansioso de, tanto quanto possível. corresponder à minha Mãe, que eu chamaria Mãe Celeste, e que eu devo a Ela, eu sou grato com uma superabundância escancarada!
… Pela bondade de Nossa Senhora eu tenho em ralação a Ela reflexos “ultra” de filho.
… Eu acho que todo verdadeiro varão tem isso e que a força que eu tenho é irmã dessa delicadeza. E dessa delicadeza filial! Se tirar isso arrebenta.
… Eu não sei se atendi inteiramente o que vocês queriam, mas a coisa está posta e tivemos uma das melhores conversas que temos tido num sábado, nesse salão.
Que Nossa Senhora nos abençoe e vamos dormir.
(Sr. –: Agradecemos muito ao senhor.)
Agradeçam a Ela.
(Sr. –: Excedeu as nossas expectativas.)
Fico muito contente, exatamente não queria senão isso, é deixar as expectativas transbordantes. Então vamos dormir.
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