Conversa de Sábado à Noite – 25/8/1979 – Sábado [RSN 006 e AC 501] . 10 de 10

Conversa de Sábado à Noite — 25/8/1979 — Sábado [RSN 006 e AC 501]

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Provações pelas quais o Sr. Dr. Plinio passou, em que se sentia abandonado pela Providência * No estrondo de 75 o que sustentou o Sr. Dr. Plinio foi a graça de Genazzano * Aos que Nossa Senhora mais ama é pedida uma prova de amor fora de série, que é a confiança dentro do absurdo * Dentro das maiores provações, tem-se uma espécie de luz delectável que representa um estado especial de intimidade com Nosso Senhor e Nossa Senhora * A fé de que a TFP resiste ao atual estrondo é o creme da fé e se chama confiança * A ajuda enorme que recebemos da Sr. Da. Lucilia * Quando o indivíduo tem na alma o fio de ouro do thau, fica nele uma confiança de que será reerguido

* Provações pelas quais o Sr. Dr. Plinio passou, em que se sentia abandonado pela Providência

(Sr. Carlos Antúnez: …evidente que entra muito de defeito, de… eu queria que o capitão pusesse…)

Meu filho, primeiro há uma apreciação sobre a situação concreta e depois há uma consideração doutrinária. Mais lógico seria fazer a apreciação concreta e passar para o doutrinário. Mas eu acho preferível começar pelo doutrinário, aqui, para depois passar para o concreto, porque o doutrinário é mais importante.

Há situações e isto haverá durante a Bagarre, mas nós temos já, desde que nós começamos o nosso apostolado… Vamos dizer assim: isto se afigura na minha imaginação como uma espécie de porta de metal, em que a gente cada vez que se levanta ou mexe a cabeça, arranha na ponta do metal. Nós estamos nisso desde o começo. Portanto, se quiser, desde 1928 nós estamos nisso. E eu posso contar aqui, muito reservadamente, que uma das fenomenais tentações que eu tive na minha vida foi exatamente a propósito disto. É o seguinte:

Há épocas da história dos santos e da história da Igreja em que a gente tem a impressão que a Providência nos abandona e que nos acontece [tudo de] triste, que estaria fora das regras do jogo ter acontecido. Porque se tem certa noção das regras do jogo, se se puder falar em jogo a respeito de Deus. Em rigor se poderia falar, há umas regras de jogo com Deus. E há determinados momentos em que Deus — portanto, Nossa Senhora também — se oculta como que fora da regra do jogo, e nos deixa num abandono onde acontecem coisas destas uma em cima da outra. Mas é uma espécie de… em que o pior atrai o pior e em que se fica com a sensação de uma pessoa completamente abandonada.

A tal ponto que eu não saberia dizer o que é pior, se é essa sensação estável de abandono, ou se são esses pregos de abandono que chovem por cima do abandonado e que são ainda como que gratificações por cima do que a gente recebe.

O que eu poderia contar a esse respeito de minha vida é uma coisa do outro mundo. A primeira tentação eu acho que já contei a vocês, do Viaduto do Chá, não contei?

(Sr. Átila: O da mocidade católica?)

Não, aquilo foi um convite à graça..

Eu ia de minha casa para um escritório no centro. Já era noite, tarde, quando vinha da reunião da Juventude Universitária Católica. Isso foi lá por 29, 30. Eu estava novíssimo nessas coisas e tinha fundado um grupo de congregados marianos na faculdade. Eram uns cinco ou seis, mas que tinha chamado uma atenção na faculdade — você precisa imaginar São Paulo um ovinho naquele tempo — enormemente. Mas representava uma vitória que ia além de tudo que eu podia imaginar quando entrei para a faculdade.

Eu estava nessa situação quando vejo o pré-Joyeux membro do Grupo, que começa a tomar umas atitudes assim: que ele estava muito de acordo com o sentido mariano que eu dava às coisas, mas que eu era por demais aguerrido e por demais definido em minhas atitudes, e que ele sem estar em desacordo com minha doutrina, nem com minhas metas, estava em desacordo com minhas atitudes. De maneira que ele ia fundar um outro grupo católico separado do meu, e que ia fundar isso para haver um movimento católico em boa composição com a faculdade. O meu seria um movimento católico em má composição com a faculdade.

Éramos cinco ou seis, não me lembro bem, os outros três ou quatro vacilaram: “Sai ou não sai o negócio? Fico com o Plinio ou não fico”. Eu tinha passado a minha vida inteira a combater o comunismo, a Revolução às escâncaras. Nunca tinha pensado… E julgava que já dava para encher a vida de um homem a mais não poder. Agora, aparecer-me esta punhalada nas costas…

Eu me lembro que jantei e saí de casa pensando nisso. Fui de bonde — os bondes andavam muito devagar à noite, para pegar passageiro — vagarosamente. Quando chegou lá pelo Viaduto do Chá, lembro-me que começavam os primeiros anúncios luminosos vermelhos e verdes e ainda havia neblina. Aquela neblina, aqueles anúncios… veio-me à cabeça isso: “Está fora das regras do jogo, isso eu não agüento!”.

Deu-me uma depressão e uma tentação de largar tudo e de me encostar, mas uma coisa fenomenal. Eu não senti nada de preternatural, definido. Sei que era preternatural, mas não tive nenhuma revelação, nenhuma visão, nem nada. Mas tive a sensação de duzentos demônios pegando-me e correndo de um lado para o outro, comigo deitado no chão, e o Viaduto… Tal era a impressão que eu tinha.

Aí eu me lembrei de um pensamento de São Francisco de Sales, que na tentação do demônio não se deve pensar, etc., e desviei meu espírito.

Quando cheguei ao lugar da reunião, encontrei que este primeiro fumacento já estava lá e não tinha conseguido deslocar as bases. Então resolveu aderir.

(Sr. Átila: Pior ainda!)

Pior ainda. Mas nós conhecemos esse jogo, vocês conhecem a mais não poder, de entrar pelo nariz.

Pensei: “Com você sei o que faço. Eu perco estes três bobos aqui se não fizer muita festa. Vou fazer festa, mas depois vou silenciar a você. De maneira que não ataco a você para ninguém, não elogio a você para ninguém, não o incumbo de fazer nada, e cada vez que você vier falar comigo, eu vou ser perfeitamente amável como você e bloqueio você. Você vai desanimar e sai”.

Dentro de um ano mais ou menos eu saiu.

(…)

Mas depois nunca me falaram. Vieram em série, em série. Até a graça de Genazzano.

* No estrondo de 75 o que sustentou o Sr. Dr. Plinio foi a graça de Genazzano

(Sr. Carlos Antúnez: O senhor poderia contar outro?)

Meu filho, é tanta coisa…

(Sr. Átila: É quase contar o interstício, porque deve ser o “pão nosso de cada dia”.)

É quase “pão nosso de cada dia”.

Até esse estrondo I que me amargou enormemente, enormemente, atravessei com esse problema. E eu pensava de mim para comigo: “Se pelo menos eu tivesse a graça de Genazzano eu agüentava”. Fiz esse raciocínio: “Devo agir como se a graça de Genazzano fosse verdadeira, por duas razões: primeiro porque eu vi que foi; em segundo lugar porque se eu não admitir isso, eu morro agora. E eu acho que esta gente que está desencadeando este estrondo espera que eu morra”.

Eles esperaram… Eu começara a melhorar um pouquinho e começava a sair para um oculista, uma coisa qualquer, para desencadear. No dia em que fui ao oculista começaram a sair as primeiras notícias do estrondo.

E eu disse: “Tenho de agir como se essa graça fosse verdadeira. Com isto não pode haver dúvida, porque tenho certeza, é uma graça. Mas não posso ao mesmo tempo fechar os olhos para essa coisa: quem sabe se é um castigo de Nossa Senhora porque eu ia ao Êremo de Amparo de Nossa Senhora para escrever uma continuação do manifesto da Resistência, levando a resistência mais longe? Quem sabe se Nossa Senhora… Eu ia longe demais nesse ponto? Mas não é provável, porque raciocinando o que eu intencionava dizer, o espírito com que eu ia intencionado a dizer, etc., realmente não era provável. Então não entendo”.

E para meu feitio de espírito muito categórico, esta bipolaridade é uma coisa cruciante ao último ponto. Cruciante, verdadeiramente cruciante.

Afinal, em certo momento, um ou dois meses atrás, eu disse a Nossa Senhora: “Minha Mãe, estou triturando com isso e minha possibilidade de carregar isso chegou ao ponto em que eu não posso, se fieri potesti… Eu não vos pedi para se afastar uma dor de mim, mas se feri potest… Mas faça-se a vossa vontade e não a minha”.

Ainda pensei: “E se de repente quando eu menos pensar me aparece uma explicação a mais evidente que põe tudo em ordem?”. Deixei tocar com tranqüilidade, com paz.

De repente — creio que foi andando de automóvel, na Av. Pacaembu — a coisa me voltou ao espírito e se me apresentou com a naturalidade de um raciociniozinho o mais elementar possível e resolvendo essa dúvida. Nem era dúvida, essa perplexidade, porque toda ela consistia nos imponderáveis da graça. Mas não há nada de mais difícil do que resolver imponderáveis. Resolvendo para mim, para meu próprio juízo e segundo meu modo de entender, resolvendo perfeitamente. Era o seguinte: “Nossa Senhora me prometeu que eu cumpriria minha vocação. Nossa Senhora não me prometeu que não me acontecessem catástrofes, mas de cumprir a vocação”.

Foi uma confusão elementar que eu tinha feito e eu não tenho o espírito confuso assim. Eu por natureza esmiuço muito as coisas e não deixo as coisas ficarem assim no ar. Quer dizer, não é do meu feitio de espírito “zupar” esse aspecto, sou ultra-esquadrinhador. Ainda mais uma coisa que está no centro de todas as minhas cogitações como esta.

E digo: “Aqui não tenho nada que objetar, inclusive pela experiência. Eu percebo que não perdi o prestígio que preciso ter junto aos meus para levá-los, nem fora”.

Se, por exemplo, eu não pudesse andar de muletas um pouquinho, eu proibiria vocês de irem jantar comigo fora. Eu iria jantar sozinho no Cá d’Oro aos domingos à noite de cadeira de rodas com a naturalidade com que entraria de muletas. Sentir-me-ia inteiramente à vontade.

(Sr. Átila: …)

Proibiria vocês de irem comigo, iria sozinho.

(Sr. Átila: Por quê?)

Proibiria, porque podia, para um e outro, causar constrangimento, vergonha, mal-estar. Proibia. Vou sozinho. Se vocês aparecessem lá, eu receberia muito bem. Mas não iria ao Cá d!Oro e está acabado. Assim eu faria.

Portanto, o que tinha havido era um longo equívoco, evidentemente permitido por Ela, desejado por Ela, no meio de coisas lancinantes para eu carregar com refrigério, luz e paz. Mas que não deixava de ser uma tortura.

Foi, no gênero, a maior coisa que tive na vida, porque como isto podia afetar internamente uma pessoa é fenomenal.

É a razão pela qual neste estrondo, aliás, muito maior do que o outro, encontro-me — vocês vêem bem — muito mais tranqüilo do que no outro.

* Aos que Nossa Senhora mais ama é pedida uma prova de amor fora de série, que é a confiança dentro do absurdo

(Sr. Carlos Antúnez: É notável.)

Muito mais tranqüilo!

Agora eu tenho a impressão… Não me levem a mal de dizer isto. É honroso para vocês, não é desonroso, mas talvez um pouco perplexitante. É honroso para mim e por isso não devia dizer, mas sendo para formar a vocês e lhes dar o meio de carregarem a cruz, eu digo.

Tenho a impressão de que é um sinal de predileção muito assinalado. Contém uma promessa de ações muitíssimo especiais para a glória d’Ela e que é, a bem dizer, hors serie.

Por quê?

Porque Nossa Senhora faz aí como fez com São José que na ocasião da perplexidade dele foi sujeito a esse tratamento. Foi pedido a ele uma prova inconcebível, porque aquela prova é estritamente inconcebível.

Você vendo como ele tocou o casamento dele com Nossa Senhora… O propósito dele ser virgem e casar-se. Está bem, floresce o bastão. Então é ele que tem que casar quando ele estava certo de que tinha que ser virgem. Depois a esposa queria ser virgem. Então que maravilha, etc. De repente aparece o que aparece! É estritamente inconcebível.

Ora, ele era o esposo d’Ela, o predileto. Mais ainda: por causa de uma regra, aquele a quem a gente ama hors serie, a gente pede prova de amor hors serie, e o auge — é difícil formular isto — da prova de amor é a confiança, porque a gente não ama inteiramente a não ser aquele a quem a gente tem razão de confiar o auge do amor da confiança ou ao menos a esperança de poder vir a confiar, e a confiança se prova havendo razões para desconfiar e a desconfiança se mantém.

De maneira que quando vejo uma pessoa sofrer isso, eu não digo, porque essas coisas a gente só pode dizer em certa hora, não pode dizer fora desta hora. Tudo tem sua hora para dizer e eu não digo, mas eu tenho vontade de dizer: “Bem-aventurado és tu. Porque eu sei, compreendo por experiência própria”. Eu fico até com ares de… mas eu agüento e pelo favor d’Ela toco minha vida para a frente.

Uma vez um membro do Grupo, que não quero mencionar, disse-me uma coisa que eu achei muito bonito neste sentido…

(…)

a pessoa deveria pensar em Nossa Senhora dizendo: “Ecce enin beatae meae dicent omnis generationes”.

Não sei se está claro.

Então, nas ocasiões piores, aconteceu o pior! Está dentro dessa bem-aventurança cara, uma bem-aventurança cara. …

(…)

os incômodos que essa situação de… Outro dia só que eu vi o Edwaldo empregar a palavra “politraumatizado”. Não são nada em comparação com o que foi essa provação, absolutamente nada.

Por exemplo, você foi várias vezes comigo ao Nápoli, várias vemos ao Soares Dias, você nunca notou que eu estivesse nervoso com aquilo. Interessado de saber, sim. Nervoso não. Mas isso sem me deixar nervoso; preocupadíssimo, enormemente, enormemente.

A explicação me é tão clara como nem sei o que dizer.

(Sr. –: …)

Claro, porque do contrário tudo isso para mim é terreno fofo.

(Sr. –: É um aspecto da inocência, porque tem gente que…)

Ah não, para mim problema não resolvido é como um caranguejo pendurado no dedo, pelo menos!

(Sr. Átila: Quem não gosta de solução não tem problema, vive no caos)

É bem isso. Só gostam de soluções os homens sem problemas. Arranja um problema falso e fica chupando aquele problema como criança chupa uma bala.

Mas por que eu disse isso tão longamente assim? Porque acho que é a hora da graça. A gente vê que foi bom dizer, está patente. Mas também porque em função da reunião de hoje à tarde, a gente tem que saber — porque aqui está o clou do negócio — compreender que o que Nossa Senhora quer, não é que nós soframos a mais tanto. Isso entra colateralmente. Ela faz conosco como o vinhateiro faz com uma uva de boa qualidade: espreme toda para aproveitar tudo para o vinho.

Mas não é a principal coisa. A principal coisa é para receber de nós essa confiança dentro do absurdo. Prova especial de amor que nós temos que acreditar que é uma predileção de vocação e que é uma promessa de fazer grandíssimas coisas. É muito individual isso.

* Dentro das maiores provações, tem-se uma espécie de luz delectável que representa um estado especial de intimidade com Nosso Senhor e Nossa Senhora

(Sr. Átila: Tomando a coisa sob o ponto de vista da fé comum, a gente sabe que é preciso chegar a um determinado cumprimento de um determinado ideal, de uma determinada missão. A pessoa tem obstáculos pelo caminho, mas esta primeira gama de obstáculos são obstáculos que a pessoa na sua idéia primeira imaginava vencer galopando, mas são obstáculos próprios da luta: uma espadagada, é o cavalo que morre ou ele cai, são sofrimentos que uma batalha traz. Esta é uma primeira gama de sofrimentos. É o imposto de sangue dos nobres da Idade Média. Era sofrimento que se pode enfrentar com alegria, porque traz consigo alegria na participação da batalha, do chegar a alguma coisa, de ter comprido ou morrer tentando cumprir aquilo. […] Alguém perguntava para uma pessoa: “Você faz tal coisa?” — “Eu faço ou morro tentando!”.)

Não conhecia a expressão, mas é muito bonita.

(Sr. Átila: Agora, esse sofrimento é até natural, depende do ideal, pode ser até um pagão. Depois há os sofrimentos, a luta depende de um luzir, que é o homem que conhece a hora em que o sol está mais de acordo com a batalha…)

No primeiro não encerra confiança.

(Sr. Átila: não é preciso confiança. )

Não precisa confiança.

(Sr. Átila: No segundo já vem pelo menos de reflexão, não sei se confiança: “Esse imbecil… ele me entorna a batalha, então é preciso tratar bem”. Mas ainda por um cálculo que se pode agüentar. […] Aí começa um tipo de questão, que me parece que é dizer que para salvar Roland que está nos Pirineus, é preciso correr todo mundo para o sul, para o mar. É um contra-senso, não vai haver. Aí já começa a colocar-se o problema da confiança contra a evidência.

Agora, eu pergunto, o ânimo da pessoa já não encontra sustentáculo natural. Alguém poderá dizer: “Isto não enverga. De outro lado pode ser que Roland morra lá atrás, mas saio mais temperado deste negócio”. Mas não é, porque no caminho vai ter todas as coisas que o senhor dizia, do ladrão da penitenciária que fugia três vezes, a Providência… e não é só três vezes, é a vida inteira. É uma coisa por onde as possibilidades de cálculo humano ou um cálculo sobrenatural comum ficam banidas, mas anos-luz de distância.)

É, você graduou muito bem, porque é o cálculo da razão humana e o cálculo do sobrenatural comum. Pintou o sobrenatural extraordinário, sobre o qual seria preciso falar.

Mas diga então.

(Sr. Átila: Não, o que eu vejo é uma espécie de opção sublime, mas que não há nenhum contraforte, uma alegria humana ou uma alegria sobrenatural comum. Por um lado é muito bom, porque a gente fica num beco com uma saída só, não tem por onde escapar pelo lugar que Nossa Senhora quer. Por outro lado é uma coisa tão acabrunhadora, que a gente se pergunta: quem chega do outro lado?

Não é que eu queira fugir, mas acho que seria um estímulo ter um cálculo humano. Não por naturalismo, mas porque se há, é melhor haver do que não haver.)

O que você chama cálculo humano, aqui? Porque há raciocínios a fazer.

(Sr. Átila: Porque um homem que passe por isto, passa por um turbilhão. Está bem, ele passa. Mas é uma vantagem micro. Um homem que tem um descortino de um ideal, de uma missão, que vai ele ficar mais forte ou menos forte, mais flexível, menos flexível, isto é uma vantagem absolutamente despicienda. Ele pode dizer: “Eu do lado de lá saio, mais isto, mais aquilo, mas eu não vejo nada disto”. E continua fiel, do outro lado sai mais…)

Mas não é só isso, não. É uma outra coisa.

No plano humano, eu compreendo perfeitamente a sua pergunta e quebrei minha cabeça para dar a resposta que vou dar agora, porque tudo isso, exatamente como você está apresentando, se pôs para mim várias vezes, em várias oportunidades, em várias formas, etc. Exatamente como você está apresentando. Se eu tivesse que descrever esta provação, eu descreveria como você descreveu.

Mas há uma coisa que vem num determinado momento e que é muito… Estou coçando não porque seja trágica, não, mas porque estou com problema de alergia, é só isso.

Há determinado momento, há determinado período em que a pessoa — o período pode ser longo — agüenta a coisa exatamente nos termos que você está dizendo. Depois — de certo modo acho que varia para cada pessoa — começa uma espécie de bem-estar interno que não é das tais consolações que inundam, mas no mais central da alma e de algum modo — de algum modo apenas — no mais insensível da alma algo como que um discernimento que se põe, como que a gente vê como uma espécie de luz, difícil de descrever, impossível, não há termos adequados.

(Sr. Átila: Do quê?)

Por exemplo, o discernimento dos espíritos, o discernimento das vias, o discernimento das ocasiões, a gente vê de modo que dentro da maior provação é delectável. E é um delectável que não é assim lambiscado, que a gente tem num momento ou outro, mas é uma espécie de luz estável e que dá esse delectável permanente, dentro de dificuldades fenomenais. Mas ou eu me engano muito, ou representa um estado especial de intimidade com Nosso Senhora e com Nossa Senhora, no sentido de que isto é uma graça e que esta graça habita assim no fundo da alma.

(Sr. Átila: A intimidade é o discernimento, não é o sofrimento.)

Não, não, absolutamente, isto é outra questão. Pode-se até dizer aqui, mas é um outro problema, está fora do tema.

É este lúmen especial, estável, fixo, com uma força de alma correlata que transcende a todos os aborrecimentos, não os atenua, não os elimina, mas os transcende. A meu ver é o equilíbrio das virtudes cardeais, porque isso exige fortaleza, exige prudência, exige temperança, exige justiça.

Eu conheci quem tivesse. Eu creio que eu até estou descrevendo quem eu conheci.

Isso é como que uma ação tão continuada de Nossa Senhora no fundo da alma, que equivale a uma intimidade maior do que a que nós podemos ter entre nós. Na vida comum não é dado a um homem ter esta intimidade com um outro. Talvez houvesse coisas assim com Santo Inácio, com São Francisco Xavier, umas coisas assim, mas eu não conheço.

Corresponde à frase de Isaías: “Ecce in pacem amaritudo mea amarissima — Eis na paz a minha amargura muito amarga”. Corresponde a isso.

A paz é maior do que a amargura e constitui — esse é o ponto que é preciso notar — um verdadeiro eixo sapiencial e lógico, embora sobrenatural, em face do qual as coisas se explicam e não constitui um andar às apalpadelas como os períodos intermediários, mas constitui um eixo. Digo mais, uma torre.

O sol pode projetar sobre a torre as mais variadas imagens de quem passa, das árvores que estão em volta, a torre não se move.

Assim também aconteceria com uma alma assim. Mas por quê? Com uma espécie de axiologia já então proveniente de um discernir sobrenatural que é um dom preciosíssimo de Nossa Senhora e que a meu ver faz parte exatamente dessa como que bem-aventurança de que eu falava há pouco. Mas para chegar lá é preciso passar por essas etapas.

* A fé de que a TFP resiste ao atual estrondo é o creme da fé e se chama confiança

(Dr. Edwaldo: É um apogeu de Fé.)

É. E dentro desse apogeu há apogeus. Eu sei bem que o livro do Abbé de Saint-Laurent depende de ser lido, porque não é qualquer um que lê aquele livro e entende o que está lá dentro. É um livro que pode despertar — não desperta necessariamente, mas pode despertar — essa graça. Em mim não despertou, mas ajudou enormemente a definir e a degustar.

Mas ele em certo momento trata muito de raspão exatamente de um ponto que é o seguinte: a distinção que você fez entre as duas fés.

Uma coisa é a fé católica pela qual eu sei, por exemplo, que Ela subiu ao Céu. Está bem, é um dogma. Eu com o favor d’Ela morreria para defender esse dogma. Outra coisa é eu ter fé, por exemplo, de que a TFP resiste a esse furacão. É também fé, mas é esta fé que ele chama confiança. Que Ela subiu ao Céu é a fé comum que corresponde ao primeiro estágio que você falou. Quão venerável, quão respeitável, nem tem palavras para dizer. Vocês conhecem bem o meu empenho em viver na mais estrita ortodoxia. Mas o creme da fé não é esse. É, tomadas as circunstâncias concretas, ter a certeza de que Nossa senhora quer uma determinada coisa e não outra, e que aquilo Ela realizará.

(Dr. Edwaldo: Não comporta a menor dúvida.)

É. Não comporta uma certeza que exclui a dúvida e que vem de uma noção interna, vem de uma graça, semi-apoiada em vislumbres, mas que é sobretudo uma palavra d’Ela.

Como é a graça Genazzano. A graça Genazzano é isso. Foi sobretudo apoiado numa palavra d’Ela, a palavra d’Ela dizia: é assim! Uma palavra não falada, mas foi uma palavra, eu tenho certeza. Tanto é que eu, que sou tão cauto, vivo dizendo a vocês que nunca tive visões, nem revelações, nem nada. Vocês nunca me viram exprimir-me em termos dubitativos sobre a graça de Genazzano. Ali não, eu tenho certeza, aquilo foi daquele jeito.

Mas nas encostas das montanhas Nossa Senhora dá graças assim e depois dá umas certezas menores e menos positivas. São palavras que Ela fala menos alto e que se trata de querer ouvir com amor. E ouvido com amor a gente, aqui se diz muito aquela palavra da Escritura: se hoje ouvirdes a vossa voz, a voz d’Ela ou d’Ele, não queirais endurecer o vosso coração. A gente não pode ter um coração duro para isto, a gente tem que ser fiel a isto.

* A ajuda enorme que recebemos da Sr. Da. Lucilia

E para nós, na Bagarre é o bê-à-bá dos bê-à-bás. É fora de dúvida.

E eu faltaria com a gratidão, com a verdade, se não dissesse que muitas vezes, incontáveis vezes, a lembrança de mamãe me ajuda enormemente nisso. E o próprio quadrinho me ajuda. Meu gosto de ter o quadrinho é para recordar as feições físicas que ela tinha, das quais eu me lembro como se ela estivesse aqui presente. Eu estava com 60 e tantos anos quando ela morreu, como poderia esquecer-me da fisionomia dela? É mais fácil esquecer o que é a luz do dia do que esquecer a fisionomia dela. Mas é, positivamente é… não tem dúvida nenhuma.

Não, não é isso, não. É que olhando para o quadrinho, eu tenho por vezes a impressão de ação de presença dela. Curioso, como eu não sinto no cemitério, sinto com o quadrinho. Vou ao cemitério por devoção, etc., mas não sinto no cemitério, no quadrinho sinto.

Vejo que outros sentem no cemitério. Vejo na cara deles que eles estão recebendo uma graça que é do gênero que eu recebo quando olho para o quadrinho dela.

(Sr. Mário Navarro: Sinto mais na fotografia do quadrinho e no quadrinho do que no cemitério.)

É, são coisas variáveis, são vias da graça que na sabedoria de Nossa Senhora, Sedes Sapientiae, se explicam como nós não sabemos. Há um pulchrum dentro disso.

O que eu acho é que ter esta confiança dentro do mais absurdo é verdadeiramente o que… consagra essa intimidade, porque a nossa razão exige o razoável, mas esse razoável nos é proporcionado por um dado de fé, dito no interior de nossa alma. É muito especial.

* Quando o indivíduo tem na alma o fio de ouro do thau, fica nele uma confiança de que será reerguido

(…)

devem-se lembrar de que isto é uma bem-aventurança e que é uma forma de intimidade, de união, por onde a bem dizer Ela vem morar em nós, Nossa Senhora vem morar em nós, e que tem um significado extraordinário.

Agora, a minha principal pena é quando o indivíduo está na fase que o Átila descrevia como passando de A para B. É um pouco o negócio do grão que tem que morrer para depois frutificar. Porque é uma morte. Isso sei bem, tenho experiência, já vi, etc. Depois provações próprias a essa fase pela qual passei, ter a impressão de estar sendo demolido em seu senso lógico. Quer dizer: “Então como é? Tudo faz com lógica, é a graça que me levou a esse amor da lógica, e de repente é um esconde-esconde ilógico que vai demolir em mim o fruto acumulado de experiência, de reflexões e de sofrimentos de tantos anos? Ao menos esses sofrimentos eram como uma casa que se constrói, e agora não, é um turbilhão que pega folhas mortas e toca para qualquer lado, vai de qualquer jeito, não se sente a eira nem a beira da coisa. Como que é isso? Oh lá-lá!”.

Bem, esta forma de confiança eu acho que é uma bem-aventurança e que é um modo especial de Nossa Senhora nos preparar para nos dar em circunstâncias únicas. É, portanto, uma espécie de manifestação de uma predestinação.

(Dr. Edwaldo: É para nós uma prova que se dá em função do senhor, da confiança que devemos ter no senhor.)

Faz parte dessa confiança um ponto que é muito difícil de enunciar sem favorecer a moleza, mas eu sou obrigado a enunciar.

Quando o indivíduo tem ainda na alma um fio de ouro do thau, ele pode até ter cometido faltas, e sérias, mas fica nele uma confiança de que ele será reerguido, e esta confiança já é uma pré… já é a coisa, já é a coisa. Agora, quando se apaga este fio, aí a coisa é muito difícil.

Então, o característico do “sabugo” é aquele no qual o fio dourado se apagou, nos quais não há nada.

(Sr. Átila: Sabugo é o tipo que tem provações que um sacristão tem…)

Tal qual. Seria mais ou menos como um judeu observante, mas que não se interessa por Nosso Senhor.

Meu filho, a conversa inteira foi uma resposta à sua pergunta.

(Sr. Carlos Antúnez: Muito obrigado)

Também está terminado, está tardíssimo para todos nós.

Eu gostaria muito…

(…)

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