Conversa
de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) –
16/6/1979 – Sábado [Jaqueta AC – 398 e 399]
(Datilografado por: Flavio Lorente) – p.
Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) — 16/6/1979 — Sábado [Jaqueta AC — 398 e 399] (Datilografado por: Flavio Lorente)
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[Obs: o microfilme está meio apagado.]
[No início da conversa o Sr. Mário Navarro dá um longo relato de um livro que está lendo e que trata da decadência da nobreza.]
No fundo é a delícia do não ser.
(Sr. Mário Navarro: Ele usa algo da linguagem RCR. Diz, por exemplo, que a Revolução nas idéias é mais importante que nos fatos.)
Seria uma coisa muito interessante se com o tempo... porque essas coisas só se fazem com tempo, o meu camaldulense pudesse pegar uma RCR e os pontos que concordem com ele sublinhar e escrever um bilhetinho perguntando o que [é] que ele pensa do total do livro... que parece concordar com ele em tais e tais pontos. Nós temos ainda exemplares da RCR francesa não?
(Sr. [Mário Navarro]: Sim. Tem a canadense também.)
É, mas a francesa se apresenta de um modo tão mais distinto do que a canadense... é da tal [menria??] [livraria?] Michel e Dotini, etc., que eu acho que mais vale a pena mandar a própria. E quando tiver tempo, depois de ter acabado de ler, etc.
(Sr. [Mário Navarro]: Eu disse isso tudo do livro apenas para animar ao senhor a lê-lo, porque eu gostaria de lê-lo marcado pelo senhor.)
Eu confesso, meu filho, que apesar de todo o meu desejo de ser agradável eu não vou ler isso antes do Metternich. Porque eu estou absolutamente fascinado com o Metternich.
Certas coisas que o livro — de Metternich — conta D. Bertrand, por exemplo, para quem sente a História são incríveis! Na noite de Austerlitz, Napoleão mandou preparar para si, num dos castelos da zona, uma acomodação para ele dormir, que era vencedor e queria descansar. E por coincidência o castelo escolhido foi o do Metternich. E Napoleão dormiu na cama do Metternich na noite de Austerlitz... Com certeza Metternich deve ter pensado nisso na primeira noite em que dormiu nessa cama depois da batalha de Leipzig e depois da batalha de Waterloo.
Eu contei a resposta de Napoleão sobre Austerlitz? Napoleão disse para o Metternich, que entrava novato como embaixador: “Eu estou achando o senhor muito moço para o cargo”. Ele disse: “Sir, eu tenho exatamente a idade que tinha V. Majestade quando ganhou Austerlitz...”.
Magistralmente bem respondido. Quer dizer, um homem que sabia o que tinha que responder.
Depois as apreciações dele, como ele pega a “bonapartada” canalha toda, como é que era. Depois como ele previu a queda de Napoleão muito tempo antes, como Napoleão estava se isolando. É uma coisa... Toda a legenda napoleônica a qual nós estamos acostumados se esfilparra diante da impostação dele. É uma verdadeira maravilha!
Mas, depois disso [je me donnant pas mieu ?] de que ler o… [falta um trecho] …mas vá lendo!
(Sr. –: O tal livro que está lendo o Sr. Mário Navarro foi emprestado por Da. Rosée.)
Foi o que ela me disse: “Olha, é um livro muito agradável, para a gente se mover no ambiente em que ele conta os fatos”. Por onde eu percebi que ela não notou e provavelmente meio não notaria e meio não quis notar o lado mais profundo do que o livro tivesse. Porque ela pertence a um gênero que não é nem um pouco o gênero gnóstico. Seria o gênero das pessoas que não têm o gostinho de deixar de viver, mas tem uma vontade de viver fabulosa! É uma coisa completamente diferente. E seria um pouco como uma outra pessoa que, aliás, é do tempo dela, que é a Da. Eudóxia, mãe do Marcus. Tem uma vontade de viver fabulosa e acredita [que] dando certo, pode dar resultado, etc. O que não [é] esse gênero. Esse gênero [são] os que sentem o tal gostinho de desaparecer.
Para que ele escrevesse e muitos lessem, era preciso que todos que lessem entendessem, mas lhes faltasse o explicitador. Mas, se tantos assim… porque o romance é de grande tiragem. Se, portanto, tantos entenderam, mas estavam à procura de um explicitador, há um número muito maior que semi-entendem e que entenderão, não se lerem o livro, mas se os que entenderam o livro explicarem para eles em nível mais modesto. Mas, o que quer dizer que essas coisas, se o D’Ormensson não tivesse escrito, passavam sem ninguém falar e todo mundo imaginaria que ninguém percebeu. O que [se chega] à conclusão de que as pessoas percebem muito mais essas coisas… digo diferente: há muito mais pessoas percebendo isso do que parece à primeira vista. É o fundo de nossa tese.
(Sr. –: É a tese do senhor de que todo mundo tem a RCR na cabeça.)
Exatamente. Tem mesmo! Não tem conversa! Está acabado! Em última análise a TFP implicitamente explicita mil coisas de mil cabeças, donde a grande force [prenant?] dela. É que ela implicitamente explicita. Ela põe à tona mil coisas que dormem na cabeça das pessoas. O acesso da TFP à condição de mito deve-se fundamentalmente a isso. A TFP foi ajudada por Nossa Senhora também a evitar muitos erros que se poderiam cometer nessa caminhada. A dar várias estocadas acertadas, é verdade. Mas isso tudo a serviço desse processo fundamental que é o de muita coisa implicitamente na cabeça a TFP, sem dizer explicitamente, pôr a nu.
(…)
…quando chega ao ápice da vida está no estágio dele, com 22 anos. Muita gente comum no ápice da vida [E?] está no estágio dele. O que quer dizer que é de fato manipular a Revolução e a Contra-Revolução de modo mais desconcertante pelo adversário. É manipular revelando ou tornando explícitas as coisas que ele triunfou tornando-as implícitas. Eram coisas que eram notórias, [e] passaram para claras. De claras passaram para implícitas, e [de] implícitas meio mortas. Quem saiba fazer reviver isto faz o que pode fazer de melhor para a Contra-Revolução.
Por exemplo, a pessoa que nós falávamos há pouco o attachement dela pela TFP em parte vem de que é um explicitatório para ele de mil coisas que nós não conversamos entre nós. Mas que ele ao viver entre nós explicita para si.
(Sr. –: E ele sente que se desligar, murcha.)
É. E é necessário para ele como, por exemplo, um olho é necessário para ver. Aliás, um processo que eu não chamaria de utilitário é um processo legítimo. Mas é assim! E assim há milhões de pessoas desse gênero. E é esse milhão de pessoas que, por exemplo, uma caravana que passa por uma cidade, um eremita itinerante, explicita. E que cria todo o caso TFP, etc. É mais ou menos, quando menino, brincando com terra do jardim, dessas coisas. Em certos lugares a gente mete uma pazinha, qualquer coisa, e fica espantado da bicharada subterrânea que ocorre. Assim também, onde a gente mete uma explicitação no subconsciente há todo um formigamento das circunvizinhanças que se põem em movimento porque apareceu a luz. É uma comparação muito feia, eu reconheço, mas ela é muito… ela dá bem o que eu imagino da realidade. E esses livros fazem isso.
Então, pergunta-se por que se escreve isso?
A resposta é: para convencer os que lêem isso e que tinham implícito o que não há remédio mesmo. (Do livro do D’Ormesson)
A idéia que eles fazem é a seguinte: seria característico, por exemplo, se meu Mário Navarro não tivesse lido a RCR e não tivesse entrado para o Grupo e fosse um avulso conservador em cujas mãos caísse esse livro. Ficaria espantado com a força de verdade do homem, e diria: “Esse homem que tão bem descreve como é que isto vive, não pode deixar de acertar mostrando como é que isso morre e que não poderia deixar de morrer.”
(Sr. [Mário Navarro]: No fim do livro o avô que é o personagem central, acaba vendendo o castelo, depois de mil anos…)
É, mas também sem que o avô fique operário, mendigo, nem nada. Então se poderia chamar um fim festivo, mas não é um fim infeliz.
(Sr. –: Como ele que é gerente-diretor, não dono, do jornal.)
O dono é Monsieur Chose… e chama-o: “Monsieur D’Ormesson [venez ici je vous en prie…?]” na melhor das hipóteses. E M. D’Ormesson vai contente, mas não se julga uma vítima, não se julga infeliz. Está acontecendo com ele o que tinha que acontecer…
(Sr. [Mário Navarro]: Como ele começa o livro: [“Ainsi parle le Eternel: ‘c’est que je batie, je le detruirae; ce que j’ai planté, je l’arracherais; et toi! Recherche tu de grande chose?’”?] – Jeremias, 46, 4.)
Muito bem encontrada a citação. Digamos assim: infernalmente bem encontrada. Infernalmente!
(Sr. [Mário Navarro]: O título do livro: “Le plaisir de Dieu”.)
Nome muito interessante e pode ter um sentido muito bonito. Imagine, por exemplo, que nós tivéssemos uma nau chamada: “Le plaisir de la Vierge”.
(Sr. –: Quando se diz: “au plaisir de Dieu…”)
É no sentido de à la derive… Por isso que eu pus de la Vierge, porque em la Vierge é uma outra coisa, indica o estilo com [o] qual se vai olhar para o mar. Numa nau é.
Agora, isto é um livro escrito por ele mesmo, ou é um livro elaborado… elaborado numa “que torta”, torta feita para entortar.[?]
Essa é uma pergunta que se pode fazer para uma série de livros.
Por exemplo, Saint-Simon é inteligentíssimo. É muito mais interessante do que isso. Mas não tem uma visão da Revolução que tem isso. É costumes, etiquetas, etc., mas ele não percebe a jogada. Esse percebe a jogada.
(…)
(Sr. –: Por que quase sempre que o senhor trata de um tema, de uma tese, etc., logo depois aparece algum livro ou documento corroborando o que o senhor desenvolverá?)
Que tem acontecido isso uma ou outra vez eu tenho idéia.
(…)
…D. Bertrand leu o livro da Condessa de Paris?
(D. Bertrand de Orleans e Bragança: Li algumas partes e folhei-o. Aquilo é a descrição das Congregações Marianas, apenas um pouco mais católicas.)
Tenho a impressão que para D. Bertrand isso deve ser mais… eu várias vezes, quando li aquele livro, eu pensei em D. Bertrand imaginando o seguinte: “Imagine que eu lesse um livro que pegasse minha família e dissecasse todo o lado prosaico, todos os defeitos que toda família tem. Esse livro dissecasse! Esse livro para mim seria mais ou menos como uma coisa que eu só poderia olhar à distância, porque olhando perto demais me queimaria os olhos”.
Não sei se acontece algo de meio parecido com D. Bertrand?
(D. Bertrand: Inteiramente, por isso não quis ler porque eu quebraria muita coisa.)
(Sr. –: São os inconvenientes da vida pública disse o Mário Navarro.)
É, feliz de nós que não temos vida pública…
Há aqui uma coisa muito bonita. É o seguinte: o contrário! Quanto mais de perto se conhece, tanto mais é bonito. De maneira tal que, por exemplo, eu tenho a impressão de que uma rodinha como a de hoje à noite, inteiramente improvisada, e que trata de um tema improvisado numa hora improvisada e num ambiente de utilidade; se toma mais o sabor da TFP do que inclusive nas nossas rodas clássicas de sábado à noite ou de domingo à noite. Porque o improviso dá à intimidade um caráter mais saboroso do que o programado. A tal ponto, que estou com pena de D. Bertrand e vocês pela hora em que está, mas… de outro lado, não tenho pena de os ter feito esperar até essa hora e estou querendo compensar um pouquinho.
Mas eu não teria o direito de dizer assim: “Não, eles precisam dormir, ainda são muito moços, manda dormir…”. Porque essas horas improvisadas têm um sabor que o belo só tem visto de perto e quando ele [“livre”?] sua primeira impressão. E é exatamente o contrário como as coisas que são como não devem ser: quanto mais a gente chega perto, mais não pode suportar.
(…)
(Sr. –: Casar com primas tem o problema de já se conhecer os defeitos da família, e casar com pessoa de outra família, os defeitos ainda não conhecidos constituem uma dose de alívio. Mas, como fica isso ante o ditado espanhol: “Mejor malo conocido, que bueno por conocer…”.)
Essa atitude tem o seu lado razoável. Mas a solução verdadeira seria o seguinte: em matéria de casamento uma forma — mas onde encontrar isso! — de convivência conjugal [seria] em cada um reconhecesse, humildemente, o que trás e não devia trazer. E não desse a isso cidadania na convivência. De maneira que recebesse da outra parte um misto de admiração do cônjuge ou da cônjuge que recebeu e de uma espécie de arrependimento ou de recusa de uma parte que trás.
***[O começo está apagado] …[formaria?] daqueles casais dignos de outrora, que saiam da igreja… [está apagado no microfilme] …ela, se segurando assim pela mão e com festa, etc. Mas era… [está apagado no microfilme] …ascese, porque…
(…)
…isso é mais ascese do que ficar casto.
Agora, um pode ser que queira e tenha a coragem de realizar. Agora, pergunto: encontra um e uma? Ou vamos dizer que uma queira e tenha coragem de realizar. Encontre o outro? No mundo de hoje?
(Sr. –: Antigamente havia?)
Eu suponho, vendo aqueles gizantes da Idade Média, que são os mais magníficos exemplos da vida nupcial, de vida conjugal que eu conheço. Vendo aqueles gizantes a gente percebe que aquilo era uma imagem da convivência conjugal. E a gente percebe que o prosaico dos dois lados não esteve presente. Embora se note que aquelas pessoas estão profundamente fundidas uma com a outra. De maneira que dá lugar a uma suposição de que tenha sido assim.
Por exemplo: Monsieur Martin e Madame Martin! Gentinha, eu acho que tinha disso. As caras deles eram disso.
Saint-Simon também tem. Mas são casos muito, muito raros, porque o que acontece freqüentemente é diferente.
Agora, mais uma vez cabe aqui a queixa… não é uma queixa, mas é uma lamentação incontenível: porque quando eles falam a respeito de formação para casamento não explicam isso! D. Bertrand e vocês estão certíssimos de que nessas promoções de casamento que há em paróquia se fala de absolutamente tudo, menos isso. E se se fala é para dizer o contrário.
(Sr. Mário Navarro: [Mário Navarro deu o testemunho, pois foi o único que fez curso para noivo…].)
(…)
[Relato: Nos cortes que houve… ele dizia que pela razão de conhecer os defeitos da própria família, ele jamais teria casado com uma prima. Pois já bastava o que conhecia dos defeitos e queria mudar. Daí saiu uma teoria que a pessoa ao se casar deveria fazer uma análise dos próprios defeitos, dos defeitos da própria família a fim de entrar no casamento com espírito crítico; as duas partes, e saber o que cada parte vai ter que fazer suportar ao outro.
Mais [para] frente ele disse que também para nós o verdadeiro era termos feito isso quando nos entregamos ao Grupo, pois é um verdadeiro desponsório com a Igreja, com o Corpo Místico de Cristo. Para não se fazer cumplicidades — tinha-se falado das cumplicidades no matrimônio — quando não há esse tipo de relação em que cada um vê seus defeitos. Cumplicidade ou fracasso no casamento, duas erradas alternativas.
Ele comentava também que na infância, o menino quando inocente, começa a perceber os defeitos da família. É o momento da idade ingrata. Que esse momento deveria ser favorecido pela Igreja, pois a pessoa primeiro leva um susto quando começa a perceber a parte vegetativa da família. Depois, pela consonância se entrega e chega à cumplicidade.
Observou também que os cursos de noivos deveriam focalizar também esses temas: de que os noivos deveriam analisar suas próprias famílias para ver que carga de defeitos levaria para que o outro suportasse.
No final da conversa que acabou às 3:15 h. da manhã, D. Bertrand disse que havia o Sr. Aloísio C. [Aloísio César?] e outro que está em Curitiba, no 2º andar. E se [eles] podiam descer para um cumprimento. Ele disse que por ser muito tarde, hoje, deixaria. Mas ele não quer que haja essa movimentação no 1º andar. Não quer que se transforme no 2º andar.
Então, os dois vieram e falaram do apostolado em Curitiba, que havia um rapaz muito bom, primo do Sr. Pettersen. D. Bertrand disse que o rapaz tinha mostrado muita admiração pelo Andreas Meran, por isso era muito bom.
Então ele disse que quando há apego e torcida é que o rapaz não tem tanto “Thau” assim. Porque quando o rapaz é inteligente e tem “Thau” não dá apego. Disse que não é uma regra absoluta, pois às vezes é um apego por coisa própria o que dá a torcida. Mas, em princípio é bom ter em vista esse princípio.]
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