Conversa
da Noite - 04/11/1978 - Sábado. .
Conversa da Noite - 04/11/1978 - Sábado.
(C O N F I D E N C I A L)
[Extraído do Relato do Jour le Jour - 5/11/78.]
[Parte inicial inaudível]
Acaba sendo que na inocência, não há apenas, o que poderíamos dizer, o homem discernir coisas à respeito de Deus, mas quando Deus deixa-se discernir, no deixar-se discernir, Ele dar. Isso é preciso bem entender. O que quer dizer dar?
Quer dizer: não é possível a gente discernir algo d’Ele sem ao mesmo tempo, como que, inalar, guardada as proporções, algo d’Ele. E, portanto, se deixar elevar, sublimar, engrandecer por ter visto a Ele. Então, há portanto uma intenção d’Ele de adquirir uma intimidade com a alma inocente - não é intimidade no sentido mau da palavra intimidade -, mas é uma proximidade, uma interpenetração com a alma inocente que é difícil descrever toda sua complexidade.
Para compreender um pouco isso nós poderíamos tomar pessoas históricas, extraordináriamente expressivas.
Por exemplo: Maria Antonieta ou Luiz XIV, ou num passado mais remoto e mais grandioso São Luiz, Carlos Magno, sobretudo os seus pares.
Eles, se deixando discernir, devam, um pouco mais do que tesouro da alma deles. Algo, como que, era a alma deles para as pessoas a quem eles se manifestavam.
Nessa concepção, um Carlos Magno sentado no seu trono em Aix-la-Chapelle, com os adornos imperiais, etc., e fazendo ver toda a sua grandeza de suas virtudes, ele comunicava algo de inefável, de dentro do espírito dele, para as pessoas que o admirassem e que quisessem aderir a Ele. Bom, a fortiori, , Deus Nosso Senhor faz nos ver mil imponderabilíssimos d’Ele e que já são dessa pessoa ou daquela, mas é a propósito dessa pessoa e daquela com um alcandourado qualquer, que eu não diria que é uma visão mas que é de algum modo um discernimento de Deus, por onde Deusf, muito mais energicamente do que Carlos Magno, fazia. Deus se dá à alma inocente.
Agora, toda relação entre seres inteligentes, ainda a relação Deus-homem, que é abismáticamente desigual, se funda numa reciprocidade. Quer dizer, a relação é por definição uma reciprocidade. E nem Deus, na Sua sabedoria infinita, e na Sua santidade [infinita], poderia querer uma relação que fosse recíproca. Isso não é relação. E, portanto, Ele, está no direito d’Ele exigir da criatura, para própria efetivação do dom que Ele fez, que Ele faça de Si um dom proporcionado. A Ele, um dom proporcionado ao bem que Ele transmitiu à pessoa.
É um pouco como um rei que toma um vassalo e diz: esse vassalo é digno de toda minha atenção etc., etc., eu o elevarei e colocarei como meu principe herdeiro. O rei não pode deixar de querer do vassalo aquilo que ele deu.
Bem, para isso, Deus tenha que querer de nós uma dessas doações que sejam tais, que triunfem até no absurdo. Não é um absurdo no fundo, mas como que absurdo.
Enquanto não tenha triunfado até no absurdo, não houve a reciprocidade em relação ao que Ele deu. Donde ser necessário que, concedido o Thau e estabelecida a relação que, por exemplo: você viu nos nossos enjolras agora à noite, Deus depois queira deles algo igual ao que você viu dar a eles lá.
Bem, e o que é prorpocionado é que eles dêem o absurdo.
(Aparte: Tem uma coisa. Uma coisinha que Deus nos desse, nós teríamos que passar a vida inteira recebendo o absurdo e no fim não pagaríamos. Há também um mistério na proporção.)
É bem verdade. O que há na proporção aí é que Ele quer de nós no fundo um certo unum que nós acabamos entregando. A que Ele nos vai preparando para darmos através de ações progressivas. E ao mesmo tempo que Ele vai exigindo, Ele vai acolchoando, mas acolchoando de um modo tal que o caminho é duro. Ele vai botando ungüento nas feridas que Ele mesmo abre.
“Deus que nos manda a doença, arruma a cama para nós deitarmos”. Essa expressão é muito bonita! Tem que mandar, porque Ele não mandaria o dom se não mandasse isso.
E há um determinado momento em que ha gente toma, em relação à Igreja, a Nossa Senhora, a seguinte posição: Eles são tais, e aquilo que os nega é, no sentido contrário, tão abjeto, que a escollha está feita contra toda espécie de verossimilhança. DEles eu não abro mão. E ainda que eu sinta que minha alma é arrancada de dentro de minhas entranhas, eu fico com Eles e não fico com os outros. E aí há uma espécie de posição que depois Ele põe à prova pelos fatos.
Agora, acaba acontecendo que a medida que a pessoa vai dando a Ele, vai recebendo no fundo da alma alguma coisa que é a confirmação da inocência. Confirmação no sentido etimológico da palavra. Quer dizer, a concessão, a autorga da firmeza à inocência. Fica marcada à ferro. E faz com que a inocência conserve todos os seus candores com a força do velho lobo do mar. Bem, e que só se faz com sofrimentos que dariam para matar, que dariam para arrasar, que dariam para espandongar. Em que a pessoa diz: eu não entendo nada mas fico porque Ele é Ele e a Igreja é a Igreja. Isso tem que ser, tem que ser.
Evidentemente Ele condiciona as coisas de tal maneira que muitas vezes [parece nos] abandonar. E Ele nos dá a impressão de que Ele mesmo nos está demolindo.
Então, Aquele, por quem nós fizemos tudo parece erguer um muro no caminho que Ele pediu que percorressemos.
“Deus, Deus meus respice in me quare…” “Oh! Deus, Deus meu, olhe para mim, por que me abandonastes?!” Como quem diz: -Eu não sinto Vosso olhar pousar em mim. Eu sinto sobre mim o abandono puro na detrésse total, por que me abandonastes?!
Essa coisa é tremenda! E a gente passa por ela.
Bem, e esses mil absurdos aceitos vão dando à alma, uma qualquer coisa por onde ela vence, de fato, o demônio. E a causa da Contra-Revolução progride.
Não sei se estou me exprimindo bem? Eu queria dar um exemplo, que creio seria muito significativo.
Vocês sabem que em volta de Templo, havia toda espécie de admiradores de Maria Antonieta, que com sinais, músicas e telescópios, etc., etc., procuravam saber o que estava acontecendo a ela etc., etc. Ela tinha em tôrno de si uma camorra de bandidos, e depois em tôrno de de si, uma alo de admiradores que procuravam salvá-la. Eu imagino um admirador que com uma coragem única conseguisse entrar no cachot dela, e começasse a servi-la. E ela pudesse aquilatar toda a admiração desse homem. E ela, com esse homem, começasse a usar de friezas e até de recuos, que dessem ao homem a impressão de que ela estava agindo mal com ele. Em certo momento, ela fizesse uma coisa qualquer, por onde o homem chegasse a ter a impressão de que ela estava confabulada com os carcereiros, contra ele, e que ela por esta forma quisesse prová-lo para saber se ele poderia -vamos dizer- não só confiar-lhe um segredo de estado iminente, mas uma missão da qual resultasse a salvação de toda a monarquia.
Bem, agora, imaginem-se entrando no cárcere. No primeiro momento, aquele encanto com Maria Antonieta, e de repente percebendo, por exemplo, afastamento, incompreensões, o demônio levando-os a verem defeitos reais ou imaginários em Maria Antonieta. Vamos dizer, por exemplo, ela dormia no mesmo quarto com a filha, e ele ouvisse durante a noite, um ronco de leitoa, e não soubesse se era da filha ou de Maria Antonieta. E se Maria Antonieta ronca como um leitoa, quanta coisa parece com uma leitoa lá dentro?
E o que ele foi fazer naquele cárcere de onde não pode mais sair? Ele se extraviou. E daí para fora, coisa… Mas se ele dissesse, eu continuo fiel à ela ainda que eu veja que ela me vendeu ao carcereiro Simon, e que para que ela tenha um bom sabonete para o banho dela no domingo. Ela contou para o Simon que eu era. Porque ela é quem ela é, eu continuo fiel a ela. Então, em determinado momento ela chegasse e dissesse: -Monsieur, eu tenho provas abundantes de sua fidelidade e de todo seu sofrimento. Eu fiz isso de propósito, eu assumo o compromisso… eu recebi de meu esposo poderes para lhe dar tal título, tal coisa quando formos restaurados, mas agora trata-se de sofrer muito mais, em tais condições. Fazer na Áustria ou fazer em Roma, qualquer coisa assim. Esse homem cairia das nuvens e diria o famoso tout claire.
Aí começava… Não sei se está claro isso?
…porque se ela transformasse a relação com ele numa pura permuta de agrados, em que ela fizesse pequenas gentilezas para ele, para estimular a fidelidade dele, ela estaria no fundo, como que -me desculpem a vulgaridade da figura- escarrando sobre a fidelidade dele. Porque a fidelidade dele merecia outro tratamento do que agradinho. Há uma hora, do agradinho, mas há uma hora em que tudo fica rompu, brisées, aneantie, e é preciso dizer: e agora você é fiel?
Depois, eu gostaria de acentuar isso. Um rei, que é rei de um país, mas rei de um país onde ele não é rei de um bom número de almas assim, esse rei perdeu a realeza.
A verdadeira realeza dele é ter almas assim. Não tem outra forma de realeza. Mas isso passa pou um vale inenarravelmente profundo das decepções, das incompreensões, das delongas, de tudo quanto não era para ser e foi, mas de vez em quando aparece um sorriso. Agora, para vocês que estão aqui -essa teoria se comunica à qualquer um- mas, eu nunca comuniquei ela assim. E foi uma graça que fosse possível comunicá-la hoje a noite.
Mas, para vocês que estão aqui, é uma graça especial, porque assistir o nascimento de uma teoria é uma coisa incomparavelmente maior, do que ouvi-la repetir por segundos ou terceiros ou mesmo ouvir repetida por mim em outra ocasião. Foi uma teoria que nasceu para vocês. Vocês viram peça por peça, ser explicitada até chegar a metáfora final que a faz sentir por inteiro. E tem isso de esplêndido, de magnífico que ela ilustra depois a compreensão do evangelho de um modo fantástico, porque a gente vai ver toda a preparação que Nosso Senhor fez com os apóstolos, foi indo até pedir à eles esse tipo de fidelidade, e eles não quiseram dar.
Quer dizer, Ele Deus, se deu na eucaristia. Instituiu a eucaristia, deu a eles hierarquia, deu tudo o que vocês sabem, acabou na eucaristia e deu-se a eles na eucaristia. Está bem. Tinha que vir depois aquela cena em que, por assim dizer -eu vou usar uma expressão sumamente imprópria-, depois de terem comungado Nosso Senhor, eles se deixassem comungar por Nosso Senhor. Era a paga. A paga da eucaristia era aquela. É o Horto, e é acompanhar toda a paixão e tudo o mais. Eles pagaram daquele jeito.
Mas, de fato, o que Ele tinha esperado era isso. Ele deu tudo e depois ainda Ele se obscureceu. E a gente vê que tudo quanto os apóstolos admiravam nEle, por exemplo, no Thabor, se tinha transformado em noite.
(Aparte: A oração após a ceia, em que Nosso Senhor diz que tudo quanto Deus havia lhe dado, Ele tinha dado aos outros. O que é esse “tudo”, para Ele?)
Acaba sendo Ele próprio. O espírito d’Ele, a alma d’Ele. Tudo o que Ele era, Ele deu. Aos poucos, a gradualidade de como Ele deu, tudo, tudo estava lá.
E, notem bem, quando uma doutrina ajuda a compreender o evangelho, de maneira que a gente tem a impressão de que está vendo o evangelho com uma lente, é uma gravíssima razão para achar que é verdadeira.
Aqui a atitude d’Ele toda. Como Ele atraia, como o pessoal ficou resplandecente de entusiasmo por Ele! Depois como Ele foi comunicando mais, mas em determinado momento começa a funcionar o outro jogo também. Quer dizer, o pessoal começa a isolar-se d’Ele. Ele deixa de ser o Jovem Mestre bem sucedido para se o homem incompreendido, depois caluniado e depois contra o qual se fez uma conspiração para liquidá-lo.
E o pessoal vai sendo convidado a romper com as respectivos torcedores de futebol, e com os respectivos ambientes, para ser fiel a Ele, porque os ambientes estavam se deslocando d’Ele. E, a medida que iam se deslocando d’Ele, eu acho que o pessoal ouvia menos e via menos os esplendores d’Ele. Aquilo ia se apagando. Mas, de outro lado, Ele ia dando uns ensinamentos fantásticos e dons enormes. Chegou um momento…
(Pergunta: Ele ia se apagando?)
No sentido seguinte: que há dois modos, vamos dizer, intelectivamente Ele não ia se apagando, ia pelo contrário brilhando cada vez mais, mas o discernimento d’Ele, o modo pelo qual os homens O discerniam, a clareza com que os outros O discerniam, ia se vendo menos. Por ambas as coisas. Ele também se fazia ver menos.
Os outros, por pecado, viam menos a Ele, meio por castigo, meio porque era a hora da prova. [Ele] se fazia ver menos. Eu acho que o evangelho fica tão claro, mas claríssimo…
(Aparte: Quando Ele falou em “comer minha carne e beber meu sangue”… a multidão se afastou d’Ele. )
E Ele se voltou para os outros e disse: -”Vocês não vão também?”
Eu vou dizer mais, aí a gente vê uma série de coisas. Eu tenho a impressão -naturalmente me sujeitando de todo em todo ao que diz a exegese- de que a atração dos apóstolos se notava no seguinte: Ele já devia ter dito que era Deus e eles não viam claramente porque o discerniam menos, em parte Ele se mostrava menos porque tinha chegado a hora da prova, e Ele provocava os apóstolos a dizerem para ver se assim salvava os apóstolos. E daí a pergunta d’Ele: -”O que dizeis, que é o Filho do homem?” Provocando, quase como quem diz: -Por favor, reconheçam pelo menos isso, que Eu sou Deus.
E vocês vêem uma alegria, à qual parece corresponder, quase a uma surpresa dentro da humanidade d’Ele quando S.Pedro declara: -”Tu és o Filho de Deus vivo”. Ele imediatamente diz: -”Tu és Pedro e sobre essa pedra edificarei minha Igreja, etc., etc. Não foia carne nem o sangue que te revelou, foi meu Pai…”
E, depois, não há expressão mais bonita do que essa: “Não foi a carne nem o sangue que revelou…” Bom, todas as expressões d’Ele, tudo d’Ele é divino, estritamente divino, mas é bonito a gente ver como já havia um certo atraso e que esse atraso não foi recuperado. Eles foram rolando de atraso em atraso.
(Pergunta: Se eles não tivessem decaído…)
Talvez Ele tivesse se apegado completamente, se eles não tivessem decaído. Ninguém sabe qual foi o apagamento pelo qual passou Nosso Senhora.
A Paixão nem sei o que dizer!
(Aparte: Nossa Senhora com as santas mulheres que vão após a flagelação recolher o sangue de Nosso Senhor. E tinha pedaços de carne…)
Vocês podem imaginar. Vocês podem imaginar Ela recolhendo essa carne e esse sangue! Quer dizer, se um verdugo de campo de concentração nazista, obrigasse a isso um prisioneiro fazer com o próprio filho, nós não quereríamos ver a fotografia desse sujeito nem no jornal. Agora, podem imaginar o que sofreu Nossa Senhora, que amava mais Nosso Senhor, sem comparação, [do que] com todas as mães do mundo juntas! Nem de longe amariam seu filho único, como Nossa Senhora amava Ele. Que sofrimento! É tremendo! E Ela colhendo aqueles pedaços de carne e sangue, talvez tenha oferecido esse sofrimento mais especialmente para as almas inocentes. É possível. Porque ao longo de todos os passos da Paixão, alguma parte mais cruel do sofrimento, tenha sido para as almas inocentes. Aliás, são coisas que não têm palavras para dizer…
Agora, pela regra que dei a pouco, que quanto mais Ele concedeu união, tanto mais Ele pede, a recíproca é: quanto mais Ele pede, tanto mais se pode medir a união que Ele concedeu. E para Ele ter pedido tudo isso de Nossa Senhora, nós podemos imaginar o que Ele tinha concedido a Ela. A inocência d’Ela, simplesmente não tem palavras!
(Pergunta: O apagamento do discernimento deles e do apagamento d’Ele, como pode se distinguir uma coisa da outra?)
Muitas vezes, só no Céu é que a gente saberá.
Em mística há uma coisa muito curiosa -eu li isso uma vez num autor-, há um momento de infidelidade ocasional da pessoa, de maneira que a pessoa fica com a impressão de que foi a infidelidade que ocasionou. [É] verdade porque os dois desígnios se somaram. De punir aquela infidelidade, e de dar muito mais, dá num apagamento. E a pessoa fica como que Nossa Senhora quando procurava o Menino Jesus. Pensava que era uma falta d’Ela.
Agora, vejam, são essas disposições de alma que a meditação dessa noite incute, que faltaram na reunião de hoje à tarde. Mas faltavam completamente. Não me levem a mal se eu digo: vergonhosamente!
Falei alí em honra, mas vi que a palavra não tinha nenhuma ressonância.
(Aparte: A pessoa para -apesar de ver que é intuitivo- uma conduta pedagógica até onde vai? Conduta pedagógica que tem ares de uma dança macabra. Ex: sombra de um objeto à luz de vela.)
É isso! Tal qual! É uma coisa linda, mas que para a ótica humana forma uma dança macabra. Perfeitamente!
(Pergunta: Até onde isso vai, em relação ao Sr., em relação à arquitetura das coisas? Eu sei que em relação a nós iria até chegarmos a integridade.)
Eu acho, que tais [coisas] têm sido as voltas do rio chinês. E tais são as coisas que a gente realmente não sabe aquilitar, que eu não ousaria dizer que é certa uma coisa que está sujeita à esse… mas eu tenho a impressão, realmente, de que nós estamos na transição da era da espera, nós estamos para a era da realização.
Quer dizer o seguinte: estamos no momento da Bagarre. O tempo anterior cessou, e que nós estamos no começo da Bagarre. Então, as grandes graças estão vindo com essa ou aquela aceitação, mas que elas estão vindo. Como por exemplo: essa conversa aqui. Essa conversa aqui de repente deu para uma conversa do melhor gênero possível. E, por vários aspectos, com mais abundantes graças do que as conversas no “Jordano”, por exemplo. Por vários sentidos sim. O que é sinal de uma prova que está terminada, e de outro tempo que vai começar.
Agora, acho que na Bagarre é possível que passemos por sofrimentos e expiação, já não é mais expiação do vai e vem, é outra coisa, é do látego que se desata sobre nós, seja [seria] um látego tremendo, tremendo!
Cessa então a tentação da espera e começa a tentação da saudade da hora da espera… porque é assim! Nada muda, e quando muda a gente tem saudade do gênero anterior.
(Aparte: É bom, porque agora a gente fica com saudade do látego. Ansiedade do látego para que acabe logo isso.)
Concordo, concordo!
(Pergunta: Haverá cegueira até o fim?)
Eu creio que talvez as haja, mas que durante a Bagarre as últimas escamas caem. É a impressão que eu tenho.
Cegueira quanto a graça, quanto a tudo a que nós vemos, porque eu tenho a imepressão de que no dia em que virmos o que ficou para trás do nós fizemos, nós veremos que ficou uma porção de coisas que nós não entendemos e que nós não soubemos admirar. Uma porção de coisas. Uma tristeza. E que nós ficaremos com isso, chacoalhados, sem saber o que dizer, etc., etc., e que se compreende melhor na pele dos outros.
É tão terrivel, que chega a tocar no seguinte: nos são dadas graçãs como a do estado eremítico, nós correspondemos à graça e adotamos e estado, e não vemos a beleza da graça que nós temos, de maneira que vivemos num êremo como numa pensão. Nos mantemos direito no êremo, mantemos o silêncio, mantemos a clausura, tá, tá, tá, tá, vivemos como numa pensão.
Agora imaginem o contrário, que algum de vocês entraram para a TFP, conhecessem um homem da idade de vocês, que fossem eremitas. Que respeito, que admiração, que desejo de serem amáveis com ele, gentis, etc.
NF contou que depois de ser eremita, a primeira vez que veio à São Paulo, ele ficou espantado com a gentileza e o prestígio, enquanto eremita. Tudo se facilitava porque ele era eremita. Então, se admirava.
Essa admiração, esse respeito, esse apreço nós deveríamos ter com nosso próprio estado. Não é geral, quer dizer, não há êremo onde os eremitas estejam, por assim dizer, ébrios de admiração pelo próprio estado. E nós às vezes atacamos […] em 1970, começar um estudo eremítico, num mundo com estava, de pessoas que renunciam à todas as liberdades e depois acabam fazendo votos -três votos-, e não sentem a grandeza dos votos que fizeram. Acabam transformando o voto de obediência, por exemplo, numa torneirinha que a gente abre um pouco mais, fecha um pouco mais, sem compreender o que é esse -dentro da quarta revolução que vai entrando- neo-eremitismo que vai surgindo como um sol.
Quanto nós temos que compreender disso?! É uma coisa simplesmente fabulosa, fabulosa!
Aquelas populações do sul de Minas, encantadas com o hábito, a facilidade com que alguns de nós deixamos esse hábito e fomos fazer outra coisa. Tudo isso é fantástico…[…]
[…] previsões constantes recebidas na soleira do teleférico e ainda com a opção feita em favor do “O Estado”, do “El Mercúrio”, e de outras coisas do gênero. É nãoa ter percebido nada! É estar cego!
Eu não pergunto a vocês -porque o mais fantástico é isso- se vocês acham que é presunção de minha parte, porque eu sei que vocês não acham.
Eu sei que vocês acham que é verdade, mas é tão terrivel a cegueira, que há certas formas de cegueira que atingem a cabeça, e o sujeito não tem pesar de ser cego.
O Paulo me contou uma vez um caso de um parente dele -homem aliás, ruim-, que resolveu suicidar-se, e meteu um tiro no ouvido. Bem, e os dois olhos saltaram fora das orbitas. Mas, fora disso, o tiro não produziu outros estragos. Quando chamaram o irmão dele, o “totó”, para ver o homem, [ele] estava com uma tolha embrulhada na cabeça, para conter o sangue ou qualquer outra coisa que saia dos olhos. Abriu os olhos e estavam separados da órbitas na toalha de banho. Esse homem depois, retomou sua vida sua vida cego. Não morreu. O que é mais fantástico, é que não pensou mais em suicidar-se. Cegueira.
Será que em alguns pontos nós não somos mais incoerentes do que ele?
Por exemplo, essa conversa aqui. Essa conversa á sumamente incoerente que nós não tiremos dela, todos os frutos que devemos tirar. É bem garantido que iremos tirar todos esses frutos? Ou o hábito de patinar sobre qualquer conversa vai jogar mais uma vez, e quando nós amanhecermos amanhã, estaremos como amanhecemos hoje?
(Pergunta: Antes de Nosso Senhor morrer, era possível voltar atrás? Com a morte d’Ele fecharam-se as portas e só restava chorar. Haveria para nós uma única saída que é um pedido de perdão ao Sr., mas desses perdões que recompõe tudo. Isso condicionaria o Reino de Maria? Porque o Reino de Maria é grande demais para depender de nós.)
Eu tenho um modo muito direto e muito prático de responder essa sua pergunta que é o seguinte:
É verdade que São Pedro, debaixo de certos pontos de vista, foi muito mais culpado do que os outros, que negou três vezes, mas não tinha sido nenhum pouco, que o pecado dos outros tenha sido uma ninharia. Os outros nem estavam lá para negar. Ele ao menos foi ver. Fugiram. Aliás, São Pedro também fugiu, ele voltou naquela ocasião para ver no fim o que se daria.
Agora, é curioso que tendo os outeos tanto tantíssimo a se recriminarem, entretanto não ficou na vida deles uma nota penitencial tão marcada quanto na vida de São Pedro. E o conjunto do Sacro Colégio, não apresenta aquele ar de penitência, mas apresenta um ar de Igreja nascente. A glória da Igreja nascente, o martírio, etc., etc. Mesmo com o caso de São Tomé, do qual falávamos hoje, o resplendor é o seguinte: a glória da Ressurreição cobre todas essas coisas e deixa a penitência em que que representa a nota necessária da penitência, São Pedro. Mas, São João que fugiu, continua a representar a inocência. Foi um fato concreto. E com suma compostura, com suma adequação, tudo muito direito, não podia estar mais direito.
O que quer dizer, também que a glória do Reino de Maria, haverá uma espécie de ressurreição da Igreja, e esta ressurreição vai ter o esplendor, que deixará um filão penitencial necessário, mas que vai se sobretudo, a reafirmação da inocência, como se pecado não tivesse havido.
(Aparte: Nosso Senhor pediu de São Pedro três afirmações do seu amor…)
Exatamente, exatamente!
(Morreu de cabeça para baixo…)
Era penitência. Lindíssimo! Lindíssimo! Com que esplendor!
Outra coisa curiosa, São Paulo. Tinha pecado muito, a tal ponto que na conversão: “Saulo, Saulo, por que Me persegues?” Isso não tem razão, pense um pouco que você verá.
Está bem, apesar de tudo, e apesar de São Paulo se recriminar a si mesmo, mais de uma vez, a nota dominante não é a nota de penitência. É a nota da pugnacidade fogosa, íntegra e vitoriosa. São Paulo é o primeiro cavaleiro. Patrono da cavalaria. E eu tenho a impressão que o esplendor do Reino de Maria, vai ser desta via.
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