Conversa
de Sábado à Noite – 12/11/1977 [RSN 011] –
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Conversa de Sábado à Noite1 — 12/11/1977 [RSN 011]
A Igreja Constantiniana deveria terminar num Scanderberg que condensasse todas as glórias passadas e no qual florescesse o Reino de Maria * Porque confere certo conhecimento direto dos espíritos e indireto de Deus, o flash poderá gerar um padrão de conhecimento muito superior ao da era constantiniana * Na era da inocência que é o Reino de Maria, as almas se sentirão de inocência à inocência, e terão um especial discernimento da inocência de Nossa Senhora * Por meio de um flash, o Senhor Doutor Plinio conheceu a inocência e a misericórdia de Nossa Senhora Auxiliadora * Comparação entre os olhares de São Charbel, Padre Alfonso Ratisbonne e Senhora Dona Lucilia - Como o Senhor Doutor Plinio sente o olhar de Deus através do olhar da noite e do dia
* A Igreja Constantiniana deveria terminar num Scanderberg que condensasse todas as glórias passadas e no qual florescesse o Reino de Maria
O fim da Igreja Constantiniana deveria ser como foi o fim da Albânia, isto é, o fim da Cristandade na Albânia, tendo um herói que se imola por ela como foi Scanderberg. Há fins na Igreja que morrem como morreu Scanderberg. Imagino que a Igreja Constantiniana terminaria num Scanderberg que fosse a condensação de todas as suas glórias passadas.
Com uma diferença: no Scanderberg da Igreja Constantiniana deveria florescer o Reino de Maria. Sendo difícil assinalar a passagem da Igreja Constantiniana para a era do Reino de Maria. Há passagens que são difíceis de terem assinalada a sua transição, exemplo do românico para o gótico. E nesse caso não há decadência do estágio anterior. O românico não decaiu para chegar até o gótico. Na Igreja Constantiniana uma família de almas irá subindo, subindo e dará no Reino de Maria.
Hoje há um teor de conhecimento das almas que antes não havia. Hoje se conhece as almas como não se conhecia nos tempos constantinianos. E, aí entra algo de novo dessa passagem.
* Uma reflexão a ser aceita com cautela: assim como está na natureza humana de Nosso Senhor ser um só com a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, não será possível algo assim na união de alma entre pessoas?
Quero lhes transmitir uma reflexão que fiz durante a missa e que deve ser aceita com cautela. Quando Nosso Senhor Jesus Cristo se encarnou, Deus criou a sua alma enquanto Nossa Senhora gerava seu corpo em suas entranhas puríssimas. Portanto a união hipostática se deu com o corpo e alma de Nosso Senhor. Ele teve alma humana e corpo humano ligados hipostaticamente à Segunda Pessoa da Trindade. Com isso, concluo que está na natureza da alma humana —- sem deixar de ser humana —- fundir-se na Segunda Pessoa da Santíssima Trindade e ser um só com Ela.
O velho Frei Emílio fez uma tese sobre isso que gostaria de ter traduzida do latim para estudarmos. Ele respondia à pergunta: como Nosso Senhor Jesus Cristo poderia ser inteiramente humano unido à Segunda Pessoa da Santíssima Trindade? Como pode essa alma constituir uma só pessoa com outro? Isso não sei responder. Mas o ponto que desejo atingir é: há possibilidades de união de almas que se podem escalonar e deve ser possível algo assim entre pessoas?
Quero estabelecer de não chamarmos mais Igreja Constantiniana, mas sim a Igreja até a era constantiniana, pois a Igreja é uma só, não havendo Igreja Constantiniana e outra posterior. Julguei que seria mais perfeito adotar isso.
É certo que nossos corpos e nossas almas não se fundem. Entre os anjos não é bem assim. [???] Eles se vêm face a face, se bem que o mais íntimo do conhecimento está em se verem em Deus. Procuram Deus pela visão direta que têm d’Ele e pelo conhecimento de seu arquétipo que lhes contam coisas sobre Deus que não saberiam de outro modo. Vêm no arquétipo o que ele viu em Deus. É um relacionamento diferente do nosso. Cada um é para o outro um espelho de Deus.
Pode haver comunicação de graça entre os homens desse modo. Por exemplo, Santa Teresa d’Ávila em um êxtase. Vê-se nela um reflexo de Deus, reflexo que se espelha no corpo também.
O discernimento dos espíritos é algo como que ver o espírito do outro. Por ele se pode saber se uma alma está tocada pelo bem ou pelo mau espírito, mas é como que conhecer diretamente a alma dos outros. E para isso nem é necessário ver a face, é um conhecer que passa pelos sentidos, pois todo conhecimento do homem tem que passar pelos sentidos, mas pode ser apenas um… [palavra ilegível].
(Neste ponto Dr. Eduardo diz que durante a missa, quando ele pensava tudo isso, sentiu uma grande presença dele e achou que ele observava os presentes que estavam atrás de seu genuflexório. A isso ele respondeu que enquanto pensava durante a missa essas coisas disse para si mesmo que aquilo tudo era tão bom que alguém deveria estar pensando em algo semelhante também, embora não estivesse preocupado em sentir os presentes, como foi a impressão de Dr. Eduardo)
* Porque confere certo conhecimento direto dos espíritos e indireto de Deus, o flash poderá gerar um padrão de conhecimento muito superior ao da era constantiniana
Que é o flash? É algo do conhecimento direto do espírito do outro e de Deus através daquele espírito. Tendo o flash, compreende-se que pode haver um teor habitualmente flashoso de conhecimento dos espíritos muito superior ao padrão da era constantiniana. Esse conhecimento forma uma união muito superior a uma família. O flash é como que o conhecimento direto dos espíritos. Nós temos flashs subconscientes estáveis e nos sentimos uns aos outros continuamente e assim damos adesão ao Grupo.
[ND: Os dois próximos parágrafos dão a impressão de serem relato de algum corte, pois se referem ao Senhor Doutor Plinio em terceira pessoa.]
Um exemplo frisante disso se dá com os que habitualmente participam das bênçãos. Esses percebem, sem ver todas as faces numa sala, quando há alguém que não costuma receber a bênção. É porque as bênçãos são um aumento de união com ele e portanto trás um aumento do discernimento. Esse discernimento se desenvolve em todos. Os apóstatas ficam em relação a ele como um cego que outrora viu. Daí a melancolia deles.
Os antigos tinham boa percepção das almas. Mas em geral eram ordenativas e não um discernimento que os fazia ver melhor as almas. Ver as almas de um modo habitual assim não há exemplo na história. Aqui não é uma visão, é um discernimento sobrenatural. Penetra no fundo da alma a tal ponto que muitos não percebem características pessoais antes que ele lhes diga.
* Na era da inocência que é o Reino de Maria, as almas se sentirão de inocência à inocência, e terão um especial discernimento da inocência de Nossa Senhora
É de inocência à inocência que as almas se sentem. E quando não temos a inocência global, temos algum filão muito preservado, ou temos a inocência toda obscurecida, sem nenhum filão especialmente límpido. Quer dizer, ela pode ser cinza sem filão especialmente preservado, ou preta com um filão dourado. É pela finura de percepção do próprio senso do ser que se pega a alma dos outros.
A percepção do Reino de Maria será enorme, será a era da inocência que virá. Aqui entra o importante ponto da escravidão a Nossa Senhora. Não pode deixar de ser que a inocência dos escravos d’Ela tenham um especial discernimento da inocência d’Ela. Inocência desapego total. Se se desapega, percebe a inocência d’Ela. E nessa pureza da inocência todos os outros A verão. E Ela assim dirigirá o mundo. Os que assim forem d’Ela abrirão o Reino de Maria como Jacós que dominarão o mundo com inocência.
* Como São João Batista e Carlos Magno, há homens que são meio anjos - Haveria neles algo à maneira de união hipostática
Carlos Magno foi meio anjo, meio homem, se bem que se sentia muito o homem nele.
Um dos fatos mais bonitos da criação foi a alma humana de Nosso Senhor Jesus Cristo que deu fecundidade ao corpo de Nossa Senhora [???]. Enquanto alma era inferior aos anjos, mas em tudo o mais superior a eles.
Na relação alma-anjo há no ápice a alma de Nossa Senhora. No céu os homens substituirão os anjos preenchendo os lugares dos que seguiram com Lúcifer. Será uma só hierarquia. Haverá um hífen homem-anjo [na] hierarquia. Por isso há nesta terra uma comunicação de dons angélicos.
Que mais dizer a respeito? Gostaria de dizer algo mais. Mas não me ocorre [senão] que São João Batista tinha uniões assim. Nosso Senhor Jesus Cristo disse que ele era anjo, mais do que profeta. De criatura à criatura pode haver algo como a união hipostática, mas a união hipostática como tal não pode haver. Se a natureza humana é própria a se dar à união hipostática, a graça pode estabelecer outros tipos de relações.
Como duas criaturas podem se unir à maneira de uma união hipostática? Talvez algo assim se tenha dado com o eliato [???]— povo espiritual eleito que se prolonga até mesmo dentro da Igreja Católica.
Aceitar esse estado de alma superior por onde se angeliza resolve por cima os problemas inferiores. O repelão a isso é o desejo da vulgaridade. As relações se dariam homem-homem, homem-anjo, anjo-anjo, anjo-Homem Deus, anjo-Deus. Há nisso tudo um aspecto minor que os homens da era constantiniana poderiam ter visto, e um aspecto major que é o dom do Reino de Maria. Isso forma uma família de alma que não é uma Ordem. E o bonito é que não seja Ordem. Se for, e se se transformar numa instituição, não faltará quem virá bater à porta pedindo para entrar.
A antiga doutrina da união transformante na procura do absoluto se verifica aqui. O ideal é um princípio abstrato da ordem do universo simbolizado por alguém que nos comunica esse ideal. O absoluto nos dá o conhecimento de uma perfeição de Deus, e assim uma percepção de um ideal. Nesse sentido um homem na terra pode simbolizar ideais. A Igreja é o reflexo de todos os anjos do céu. Estamos na suprema era da Igreja.
Concebo essas hipóteses e me interrogo, mas há algum tempo nem me poria tais questões. Os anjos jornaleiros têm seu significado nessa perspectiva. No conceito de inocência há uma espécie de osmose da presença angélica. É um tesouro comum da Igreja, mas o que não é comum é o requinte disso.
* Há um discernimento que é fruto do flash e que é deformado e oferecido pelos gnósticos às almas superiores
Quando me lembro de menino, sinto uma dualidade. Por um lado sentia-me fora do comum, inteligente etc. Por outro lado atribuía isso a impressões subjetivas que todos tinham. Sentia consonância primeiro da inocência. Dona Lucilia tinha algo disso de modo elementar, mas muito autêntico. Se o conjunto do grupo tivesse progredido estaria mais em condição do que eu de dizer coisas a esse respeito. Cabe sobretudo a nós ver isso. Exemplo de discernimento conosco. Cada um aqui vê perfeitamente o que os outros entendem desta conversa. Trata-se de um discernimento horizontal que um tem do outro, e não é psicológico, é um flash habitual que faz com que todos se sintam uns aos outros.
Os gnósticos têm mil deformações disso que apresentam às almas superiores que se sentem decepcionadas por não terem resposta da Igreja a tudo o que sentem. E essas decepções são exploradas pelo demônio. Muitos que não foram fiéis acatam a gnose. Isso vai tão longe que apesar de me repugnar a idéia de que DM [Dom Mayer?] seja um entrosado consciente [contra] nós, não posso deixar de considerar que deve ter tido diretores espirituais que lhe disseram coisas mais ou menos desse gênero. Não se sabe. É [misterioso?]
Não é esse o ponto de nossa vida?
Esse jesuíta que falou dos DV [discos voadores?] sabe que existo e que contrario suas coisas. A guerra dos profetas é a guerra em torno desse ponto. Do lado de há gente que conhece e pratica isso. E só assim a Revolução é Revolução. Nossos pais têm mão nessa cumbuca. É misterioso, mas noto que quando o pai tem compromisso assim, o filho nasce meio comprometido. Por outro lado, quando o pai é do Grupo, nasce com uma bênção. À qual há exceções, como o “von”, os filhos do [Celso?] e alguns do Professor.
O repelão que possamos sentir em relação à angelização é [recusa do] ato interno por onde a pessoa se desentrosa. E nas almas do grupo assim entrosadas eu penetro, mas encontro nelas um outro [gladiador?].
Essa forma de entrosagem primeira quase não tive por causa da suma bondade de mamãe e da moleza de papai, que no entanto era bucheiro. Há até senhoras que meio se entrosam com o marido, e algumas que até os ultrapassam. São uma espécie de grau 33 sem irem à loja. Exemplo, aquela senhora meio judia casada com meu tio e que o aconselhava à noite.
* Por meio de um flash, o Senhor Doutor Plinio conheceu a inocência e a misericórdia de Nossa Senhora Auxiliadora
Desconfio que a graça do Coração de Jesus, em frente da imagem de Nossa Senhora Auxiliadora — aquilo foi um flash — aquela graça foi a bondade inefável d’Ela e sua misericórdia pronta a perdoar tudo. Tive a noção de um desprendimento, sobre [ou sem?] o qual não se perdoa assim. Sem desprendimento não há perdão. Alguém sem desprendimento, ainda que diga que perdoou, não é desejável ficar perto do cutelo dele. Schadenfreude ist die beste freude, dizia, et pour cause, minha irmã. A alegria do desprendimento completo que faz com que o perdão seja tão fácil. O impuro não é assim.
Naquela ocasião Nossa Senhora me comunicou o conhecimento da inocência d’Ela por meio de um flash. Quem tem um flash d’Ela tem o preâmbulo dos melhores flashs de NSJC. A estatura humana do flash é essa, e através disso se conhece a Ele. Só é verdadeiro escravo quem sentiu a misericórdia d’Ela.
Sou entusiasta do Senhor Deus dos Exércitos, mas como gosto de todas as bondades que correm às torrentes de Nossa Senhora. A verdadeira escravidão é uma união de alma que supõe ter visto um flash assim. E quase não vejo imagem de Nossa Senhora hoje em dia sem ter um flash assim. É o flash da doçura do Imaculado e Sapiencial Coração de Maria.
Por isso via com pesar que me apunhalava o estado de abandono em que se encontrava o nicho de Nossa Senhora em Jasna Gora. Mas não quis dizer nada pensando que ou minha devoção movia as almas a arrumá-lo, ou não mandaria fazer a reforma.
* Comparação entre os olhares de São Charbel, Padre Alfonso Ratisbonne e Senhora Dona Lucilia - Como o Senhor Doutor Plinio sente o olhar de Deus através do olhar da noite e do dia
Flashs assim procuram as almas e as pessoas, mas elas fecham os olhos. E daqui vamos a um ponto misterioso: o Beato Charbel Maklouf. O olhar dele era de quem via tudo isso. Não conheci outro olhar tão carregado disso. É a imagem do olho que viu o que os escravos de Nossa Senhora deveriam ver. É olhar superior ao de Ratisbonne. Se o Beato Charbel Maklouf estivesse aqui conosco, estaria em silêncio, só nos olhando; e nós radiantes.
O olhar do Quadrinho tem isso: candura e misericórdia, doçura que vem do inteiro desapego de si, sorriso de perdão. O olhar de Beato Charbel Maklouf é diferente, tem algo de noite. Às vezes [olhando] a noite, do terraço do S., em alguns momentos em que posso ficar para ver o céu, em certa hora dou-me conta que estou sendo olhado pelo céu. [É uma] sensação intimidade: “Senhor, adoro-Vos, mas perdoai-me”. Sinto-me visto até os rins. “Senhor Deus dos Exércitos, olhando contra mim, adoro vosso ódio contra meus defeitos”. Mas ele me dá pânico. O olhar dele é o olhar da noite. A noite olha mais do que o dia. Sinto-me bem na noite, agradecido de só eu a compreender, ver, e entender porque o Verbo de Deus nasceu à meia-noite. A noite me olha em certas horas com o olhar que Deus deu a Adão e Eva após a queda. Mas em outras com o olhar do Stille Nacht.
Recomendo terem uma foto do Beato Charbel Maklouf em tamanho um pouco maior do que o natural. Quem quiser ver-me a mim e ao tema, olhe para o Beato Charbel Maklouf. Se ele me visse talvez não desse aprovação inteira, mas diria “vejo porque nasceu”. É o olhar da noite. No Reino de Maria será o olhar do dia. Com isso algo todos viram.
Nossa Senhora colocou ao nosso alcance um sorriso com nossa proporção: é Dona Lucilia. Olhem para os olhos dela. Vejo que após essa conversa estão mais tranqüilos, descansados e com um pouco de minha paz de alma. A paz que me acompanhou nos momentos dramáticos do Estrondo, na penumbra mental do Desastre. Paz havia. Tanto que, de quem menos se podia esperar veio esta afirmação ao me ver nos dias do Desastre: doente-anjo!
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1) Em várias partes dessa reunião os pensamentos são muito estanques. Para isso concorre o fato de terem sido extraídas as intervenções dos participantes, mas parece ter havido também adaptações na linguagem do Senhor Doutor Plinio. Fica-se com a impressão de que certos trechos são relatos resumidos e não transcrição ipsis verbis.