Conversa
de Sábado a Noite (Alagoas, 1ºandar) – 8/10/1977 –
Sábado [AC 051] – p.
Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1ºandar) — 8/10/1977 — Sábado [AC 051]
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Os da Pará viam no Sr. Dr. Plinio o romano-católico; para os da Martim foi necessário escrever a “RCR”; os complicados fazem perguntas; os “enjolras” têm um tradutor incomparável: Sr. João Clá * “Choro todos os tempos que não foram católicos; sou romano para que todas as épocas futuras também o sejam” * O fundo da mentalidade do Sr. Dr. Plinio: a Sacralidade * A nova face da Igreja que sou chamado a refletir é a do Anjo Exterminador
(Sr –: Até onde devemos chegar na fidelidade ao que é dito nas Reuniões de Recortes, independente dos acertos políticos ou insucessos das jogadas políticas?)
* Os da Pará viam no Sr. Dr. Plinio o romano-católico; para os da Martim foi necessário escrever a “RCR”; os complicados fazem perguntas; os “enjolras” têm um tradutor incomparável: Sr. João Clá
Uma pergunta assim tem razão de ser. Ela equivale a me perguntar: até onde o senhor quer que cheguemos?
Não sei se dizendo o que posso tornarei visível, até o último fundamento, esta é a questão. Quero ver se encontro um modo de dizê-lo sem pôr Luiz XV no meio — Luiz XV, aqui seria a saleta — Boudoir, que é a versão feminina da saleta.
Para o grupo da Pará, tomado em seu viço primeiro, eu me definia como o romano católico. A Roma trazia para eles junto com o lado católico, um fundo de quadro que entendiam, mas que não perguntavam mais à procura de maior explicitação por preguiça e por tibieza. De tal modo pegavam este fundo de quadro, que nunca me foi necessário ler a eles a “RCR”. Só com a Martim é que apareceu a necessidade de escrever a “RCR”. Eles percebiam o cone por trás do que eu dizia. Por exemplo, o P [Paulo?] entende inteiramente como eu sou. Adquiriu esse conhecimento ouvindo-me definir-me como romano e católico, e me vendo viver.
Com o vácuo da geração seguinte, com toda a dificuldade que isto representou, veio a vingança divina: a “RCR” foi escrita. Perdoem-me por me exprimir assim, mas a pobreza e o abandono se tornaram tais que só o maná podia resolver. É à medida que a pobreza é mais completa, vai exigindo novas explicitações cada vez maiores. É como um rio que foi entrando para o fundo de um precipício e assim exigindo pontes cada vez maiores. A nossa geração é de algum modo privilegiada, pois o vazio nela não é tão grande. Ainda fazemos perguntas: os “enjolras” não fazem, e nem entendem as respostas.
Por exemplo, a cena “ultra-enjolras” do Santo do Dia de hoje, quando exemplifiquei com o canhão. Um canhão é ultraconhecido, mas quando falei nele todos os que queriam ver se debruçaram e torciam de tal modo que senti necessidade de mandar pô-lo em cima de minha mesa para que todos o vissem normalmente. Ao testar em colocar em cima de minha mesa não conseguiram, não por falta de braços, mas de cabeça. Braços ali não faltavam, pois são bem fortes. Como não conseguiram, mandei o João Carlos ajudá-los, mas em certo momento o João Clá levantou para ordenar a situação, e tal é a sua flexibilidade de sua vida, que só a simples presença e por uma ou duas ordens orientou o pessoal. Houve risos e gáudio porque viram que o João Clá ia dar o jeito. O João Clá traduziu-me de um modo incomparável. Preciso de um tradutor para me entender com eles. Sem tradutor a coisa já não vai.
Esta faixa etária –– detesto essa palavra –– está no ponto de formular a pergunta e receber a resposta. A nós cabe o modo de perguntar sobre o modo de ser romano-católico para que possa ir até o fundo. É este o método para chegar à resposta.
* “Choro todos os tempos que não foram católicos; sou romano para que todas as épocas futuras também o sejam”
Na “RCR” não encontramos esta resposta. Na “RCR” está a explicação, em grande parte em função do adversário. É a teoria do que houve, e de como agir dentro da história. Mas a pergunta em questão é anterior à resposta dada na “RCR”. Cabe a nós explicitar mais a pergunta para que ela nos dê a resposta. Sou alguém fora de todas as épocas. Choro todos os tempos que não foram católicos como se a eles tivesse pertencido, e sou romano para que todas as épocas futuras também o sejam. Ou sou visto assim ou não tem nenhuma idéia ao meu respeito. Dói-me profundamente que quase todo o rito Copta, do Egito, tenha caído na heresia, isto me dói incomparavelmente mais do que se soubesse que houve uma inundação de Birig. É bom que me façam as perguntas. Sem elas não me ocorreria encaminhar as respostas por aí.
De algum modo, na Igreja pré-conciliar, os católicos tinham uma idéia coletiva e difusa da Causa Católica. Amando a Igreja em seu país, amavam a Causa Católica total, mas de um modo difuso. Já havia nos bons uma incapacidade de ver o geral. Em mim se dá de modo diferente: vejo quase com mais clareza o que os outros vêem de um modo difuso. E assim entro melhor no pormenor das coisas que os outros vêem a partir do concreto.
* O Sr. Dr. Plinio vive os fatos históricos mais do que os personagens que neles tomaram parte
Por exemplo, a questão das titulaturas e etiquetas. Mário Navarro tem muito gosto por elas, mas o problema dele é o que fazer quando D. Bertrand entrar na sala: diremos a D. Bertrand ou trataremos de [PCPE, senhor?]? A questão é interessante, e gosto de tratar dela, mas não é por aí que vejo o problema. Gosto até muito de conversar com ele sobre o protocolo. Ali vejo o particular, mas ele vê o geral através daquele caso. E vê de um modo bom, o que é mesmo um primor, ele só é ele mesmo quando gagueja, dando aqueles solavanquinhos do gago. Mas a minha óptica difere da dele. A minha óptica é a que acabo de mostrar.
Por exemplo, se estivéssemos juntos em Genebra e fôssemos visitar os muros da fortaleza onde foram derrotados os soldados que combateram por São Francisco de Sales, ele veria tudo aquilo como uma recordação do passado, como que desengajado de sua vida. Eu não. Eu sinto aquela tragédia inteiramente, e tudo se torna presente.
É assim que falo da Áustria como se nós tivéssemos nascido nela. Sinto mais a Francisco José do que ele se sentiu a si mesmo.
Eu devo pegar para conservar e transmitir enriquecido para não ser como o servo infiel que não fez render os seus talentos. Até na hora de contar tudo isto, vivo e faço sentir. É a minha própria missão. É por aí que devemos entrar.
* O que caracteriza o Sr. Dr. Plinio enquanto “católico romano”
Mas o fundo do romano-católico é mais do que isso. Em Roma e na Igreja há algo por onde se tem a dupla impressão de uma coisa que vem do Céu e embebe a realidade até os seus últimos pormenores. [É um movimento de baixo para cima quando se contempla e pequeno. Por exemplo, se um trato se um turco se convertesse?]1, um turco como o do meu Amadeu, que investiu contra ele só porque ele trazia algumas condecorações com cruzes, e isso para ele é o máximo: condecorações, casaca feita por um grande alfaiate da Bahia –– nada de ingleses –– platino sublime, esse é o pulchrum “amadaico”.
Tomemos um turco assim que se converte e que vai para o deserto onde recompõe no enlevo da conversão todas as verdades da Fé, sem ter visto algo da Igreja. Mais tarde chega na Espanha, em um pueblito, e assiste a uma missa cantada, com filhas de Maria, órgão, sacerdote com pompa, etc.; Na hora do Glória cantado, com o padre sentado, o turco vê a glória do ensino, da ordem e da jurisdição brilhar no sacerdote.
Mais tarde presencia a mesma cerimônia oficiada pelo bispo na catedral. Vê que do padre para o bispo houve uma continuidade e uma destilação. Algo do padre se quintessenciou no bispo. Houve um requinte e uma destilação. Houve um grau mais alto que foi destilado e isto faz compreender o bonum, verum e pulchrum de um modo especial. O que existe no padre se destila superando-se a si mesmo até dar no Bispo. É uma visão única. É como que única. É como uma resina que escorre por uma árvore e na ponta traz uma gota de âmbar que é incomparavelmente mais preciosa do que a resina. É algo que supera a resina dentro do gênero pinheiro. A resina foi sublimada e amar isto é o que caracteriza a alma do romano-católico. Algo do padre que se destila no bispo. Idéia melhor ainda teria desta destilação se visse o Papa: plenitude em que a destilação chegou a um todo inimaginável. Padre-Bispo-Papa: três graus jurídicos a que corresponde na ordem da sociedade uma quintessência, que vem de baixo para cima.
Em que sentido vem de baixo para cima? O menor é o pressuposto do maior. Para haver rei é necessário haver súdito. Pode haver súdito sem rei, mas não pode haver rei sem súdito. O maior pressupõe o menor. Para as criaturas, melhor se aprecia o supremo quando se parte do menor para chegar à sua apreciação. Na relação destilante-destilado, e no gosto de alma de ser destilado está a substância do católico-romano.
Se não dissermos como é essa destilação não teremos compreendido nada e estaremos girando em torno de um vazio. Esse tipo de destilação, de relação de destilação, dá uma consideração do bonum, verum, pulchrum de uma ordem tão única que o ateu plebeu detesta. Nem passa pela minha cabeça que não se possa pegar o pulchrum disso. Entende-se, mas a questão é pegar o pulchrum.
Isso não quer dizer que do padre se desprenda por sublimação o poder do bispo.
Tomando o ser criado como é, a sua matéria-prima é sempre a do mais baixo adornado por Deus com coisas excelentes. Deus construiu os seres excelentes acrescentando graus sucessivos de perfeição.
Por exemplo, ao se fazer um elogio de um general que morreu, pode-se dizer: “Baixa à sepultura este grande soldado”. Mas do soldado não se pode dizer: “Deixa esta vida este general”. O mesmo se poderia dizer de um rei que se festeja: “Este príncipe…”. Mas de um príncipe não se pode dizer: “Este rei que fez tal coisa”. A matéria-prima é maior. Luiz XIV era o francês passado por destilações sucessivas, síntese que postula a existência de todos da espécie.
Temos em nós os três reinos: mineral, vegetal e animal. Eles vivem em nós normalmente, mas Deus começou criando o boneco de barro. Ora, Deus não é um fazedor de bonecos, mas de homens.
No ver isto é que está o suco dos sucos da mentalidade romano-católica. Se quiserem ver-me, é ver-me como um deleitador disso. O que me importa é saber disso, e não qual é o meu papel dentro dessa ordem.
Por exemplo, hoje ao chegar em Jasna Gora, quando o meu carro passava em frente de um dos vários edifícios feios que lá estão, o Meran viu-me e fez várias reverências, do um modo geração nova, mas bem bonitas. Ora, ao ver aquilo senti um deleite especial em me ver superado por ele, por uma chamazinha de vida de Olimpo. E seria capaz de esganá-lo se ele não quisesse ser ele mesmo.
Vem também disso o meu encanto ao ver D. Elias. Sei até que frita lingüiças num quartinho que tem no fundo da igreja… Mas quanta admiração pelo que ele representa!
* Pelo efeito conhecemos a causa, embora esta sempre reserve algo para si
A causa, por algum lado, se pode conhecer no efeito. É assim que só conhecemos a Deus: contemplando a criação. Quarta via. Toda causa tem algo por onde é conhecida no efeito e não em si mesma. É um princípio genealógico que está na raiz de tudo. Mas é verdade também que a causa, no entanto, esconde algo, guardando-o para si.
* Princípio da “destilação”: no menor há algo que tende a gerar a melhor imagem de si mesmo
O que é propriamente a destilação? É o menor enquanto refletindo algo de mais alto do que ele. No próprio menor há algo por onde produz a perfeição de si mesmo e gera a melhor imagem do que será em cima. O nosso universo tem como princípio ordenativo Nosso Senhor Jesus Cristo e, portanto, a natureza humana. A ordem do criar seria a ordem do conhecer, por isso Deus começou a criar de baixo para cima. É uma verdadeira marcha de proche en proche.
* O fundo da mentalidade do Sr. Dr. Plinio: a Sacralidade
Minha mentalidade: deleite da operação mental quando um ser, visto na sua interioridade, ordena-se de modo que os elementos mais altos, mais fortes e mais frágeis ocupam logo os lugares mais altos. A ordem das coisas consiste em tender para a valorização dos elementos mais altos que postulam um ser de ordem superior. Esse nascer de quintessência é que dá o relacionamento humano, é o ver isto que faz em mim o católico-romano. Essa ordem, quase se diria, esse fenômeno, só é bom à medida que os menores elaboram a imagem dos maiores e estes de Deus. Essa é a sacralidade. O nobre olha-se no plebeu para se diferenciar, e o plebeu o nobre para melhorar-se. Isso é o fundo da minha mentalidade, por onde gosto do fino até do truculentão do plebeu. O nobre que rejeita o plebeu dá náusea. O plebeu que rejeita a seda do nobre merece ser decapitado. Por causa do pecado original, os homens só entendem verdadeiramente o sublime quando vêem o infame. Por isso Deus criou o porco, os insetos, etc. É no combate às heresias que a ortodoxia ganha todo seu fogo.
* A nova face da Igreja que sou chamado a refletir é a do Anjo Exterminador
A nova face da Igreja que sou chamado a refletir é a do Anjo Exterminador. O P [Paulo?] me entende como católico-romano, mas não me entende como exterminador. Na ordem decorrente do pecado original, não haveria perfeição se não houvesse o extermínio. A Igreja militante precisa exterminar, esta terra é de exílio. A consideração do mal e sua destruição são atos de culto complementares do ato de amor direto a Deus. A Renascença ensinou a evitar a destruição e a poupar a luta. É uma mentira. Destruir é uma forma religiosa de culto. Tenho que ser o advogado do princípio do extermínio e sua personificação, levando-a ao píncaro. De onde sermos os exterminadores até a consumação dos séculos.
O extermínio deve ser para nós um ato de religião. Venero o oferecimento que é feito todos os dias de nossos próprios corpos ao nos consagrarmos a Nossa Senhora, mas por que não podemos oferecer o corpo do pecador para ser exterminado? O poder competente, quando mata por Deus, faz um ato de culto. É isso que nos separa da “heresia branca”. Por aí se vê que a “heresia branca” peca por falta de amor à virtude da justiça e à virtude da religião. Ela não reconhece que isto é um ato de culto. A “heresia branca” é, pois, uma forma de religião da utopia.
Sinto-me contente em explicitar isto e como que saindo do jacá. Deus não teria nenhuma glória se nenhum pecador fosse punido. Tanto é que exige que muitos se punam a si mesmos usando flagelo. Se todos os pecadores se convertessem e nenhum fosse para o Inferno, haveria um ultraje à glória de Deus. É verdade que com isso se porá o problema: converter o pecador ou não? Não é fácil dizê-lo e isso será resolvido de acordo com o sopro do Espírito Santo. No Grupo há punições e não faz parte da glória do Grupo haver punições? É por isso que essa foto do Fábio Vidigal está aqui.
A Revolução não se contentará em vencer sem um morticínio; o ódio do demônio pede isso, quer destruir a imagem de Deus.
* Deus odiou tanto o pecado que, para vencê-lo, destinou à morte a Obra-Prima de seu amor
A prova de que os sacrifícios são agradáveis a Deus é que Ele entregou o seu próprio Filho à morte e à destruição. É a prova da força de sua cólera. Ele tem desígnios de destruição. Odiou tanto o pecado original que destinou a Obra-Prima de seu amor à morte. Mais: quis que Ele pedisse para ser poupado e negou. Entregou Nosso Senhor Jesus Cristo àquilo tudo. Seremos canalhas se não quisermos destruir o pecador, uma vez que Deus entregou o seu próprio Filho à destruição; com Ele pedindo para não ser destruído!
* Nosso Senhor Jesus Cristo desposou os ódios de Deus contra sua própria natureza humana
Dir-se-ia que o Pai O pouparia diante de seu pedido no Horto. Mas não. Mandou um Anjo para Lhe dar força. “Faça-se a vossa vontade”, quer dizer, “se quiseres descarregar em Mim os vossos ódios, amarei esses ódios”. Ele consentiu e assim esposou os ódios de Deus contra a sua natureza.
Por que não ensinam isso os pregadores? Porque o comunismo estaria destruído e o ecumenismo acabado. Mas um dia isso será ensinado!
* Nesta conversa há um pequeno murmúrio de “Grand-Rétour”
O que foi dito sobre o ódio despolui muito. Sinto que o pus recuou. Há um pequeno murmúrio do Grand-Rétour nesta conversa. Se incorporássemos tudo isso às nossas almas de modo a só viver para isso, todos os pontos por onde a TFP não é a TFP se resumem nisso. O Beato Makluf via coisas dessas. Eis uma conversa, talvez a mais bela que a TFP já tenha feito. Sentimos isso no Thau e nos alheamos dos filhos espúreos que não são assim. Diante disso como ficam pequenas as nossas brigas, rivalidades e vontade de gozar a vida.
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1 ) Trecho a ser conferido com o microfilme.
Alagoas, 1ºandar