Conversa de Sábado à Noite – 1/10/1977 – p. 4 de 4

[Tudo indica que seja uma “Conversa de Sábado à Noite”. Embora não esteja dita no microfilme, a data coincide com o sábado.]

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Conversa de Sábado à Noite — 1/10/1977 — Sábado [Jaqueta AC – 141] (Datilografado por: Flavio Lorente)

Fizeram o vazio em torno do “Escalada”, mas vê-se que foi um golpe que sangrou o inimigo: tiveram que sair com [d. S., R. Morab.?], etc. Sangrou em vários lados. Não está em meu poder fazer o “nhonhô” sair do vazio, mas quanto maior for a evidência diante da qual se fizer o vazio, maior a torção do espírito público. E pode-se dar com o público uma daquelas torções que se aplica na cabeça: torce-se tanto que quebra a espinha. E isso eles temem.

Se eu tivesse tido [dinheiro] não teriam resistido ao “Escalada”. Por exemplo, poderia publicar uma interpelação em vésperas de Itaici perguntando-lhes se as poesias do livro são verdadeiras ou não. Se não são, que nos dêem uma interpretação pela qual se vê que de fato não são. Isso em vários jornais. Se não respondessem publicaríamos outro manifesto dizendo que conosco não há diálogo, mas só com rabinos… Fariam talvez ainda o silêncio, mas não o vazio.

Assim, sem esses meios, sou um comandante que combate com pouca pólvora. Digo isto até sem recriminações, mas é a constatação que a verdade evidente dos fatos mostra. Vazio pode ser desfeito com propaganda, e propaganda se faz com dinheiro. A opinião pública não está tão morta a ponto de agüentar uma ação assim. E isso determinaria outras atitudes deles.

Após a ressurreição de Lázaro veio a morte d’Ele porque não era mais possível fazer o vazio. A prova de que existia o vazio é que no julgamento d’Ele puderam fingir que não O conheciam. Quer dizer, que em setores do povo judeu isso era aceitável porque Ele lhes tinha sido escondido. Isso em Jerusalém, tão pequena em relação às cidades de hoje… A Ressurreição é outra prova disso. Então Nosso Senhor rompeu o vazio, mas ruptura de vazio não quer dizer conversão. No Domingo de Ramos foi o povinho que aplaudiu, e os soldados para saberem onde Ele orava tiveram que pedir a ajuda a Judas. Quer dizer, não o seguiam, nem conheciam seus hábitos. Vazio. Quando o vazio foi rompido, não se converteram, a não ser os judeus que foram a matéria prima para a Igreja, mas não a nação judaica.

Até que ponto o “nhonhô” fica sem face com o livro (“Nhambiquara”) [“Tribalismo Indígena…”?]. Querem chegar até os índios? “‘Nhonhô’ como você reage? Só reage contra nós? Combata-os!”. Algo se estancará na cabeça deles. A meta é atrapalhar o processo. O grosso da opinião pública não tem ainda a prancha da IV Revolução. A não ser os mais “entrosados” — professores, juízes… —, o homem da rua não a tem e por isso ficará afetado. O próprio recrutamento deles se atrapalhará. Vai se dar uma batalha não batalha. Só mais tarde se falará das pranchas, mas não eu, e sim os membros do Grupo. Não citei Cabot-Lodge para não dar insegurança no “nhonhô”. O peso do nome dele seria demais.

Posso dizer como o livro foi recebido hoje na Reunião de Recortes? Antes de vê-lo, os aplausos foram calorosos. Os aplausos finais tiveram menos calor e foram dados fora de hora. Só [Adolphinho] estava otimista quanto aos efeitos do livro: percebeu que é um porrete, e que porá fim na era dos seus aborrecimentos.

Por parte do auditório não havia objeções, nem falta de percepção de seu alcance, mas era doutrina demais para despertar o entusiasmo. Como não despertava o “flash” e tira do mito e põe no raciocínio. A isso não estamos habituados. Os aplausos menores dão prova de que foi bem recebido, mas é prova também de que não estamos habituados a viver da razão. O próprio “flash” é susceptível de análise lógica. O ponto de atrito é: damos à razão uma aquiescência pobre. Ela nos coloca sentados e não de pé. Olhem que quem diz isso sou eu que truculentizo tanto contra o racionalismo. Mas só teremos entusiasmo verdadeiro quando a razão na sua — por assim dizer — luz parada nos arrancar tudo o que deve ser arrancado. Nosso entusiasmo pela razão não é tão grande. Não é quadrado ter entusiasmo pelo raciocínio. Quadrado é não ter entusiasmo pelo outro lado. Entusiasmar-se pelo racional, pelo simbólico… não é ser quadrado. Em nós o gênero de entusiasmo despertado pela lógica não é tão fogoso. Não senti hoje aquele calor que a lógica deve despertar.

Meus livros mexem muito com a cabeça dos outros, mas neles não me expando inteiramente. Por exemplo: Santo Agostinho refuta os outros sem a preocupação de fazer psicologia. Eu quero nelas mostrar o outro e não a mim mesmo. Por isso por trás de todas elas se sente pouco a minha alma. É porque minha missão é fazer guerra psicológica contra-revolucionária. É uma corrida atrás do pensamento do leitor e não um desenvolvimento do meu.

Algum dia sairá uma obra que me manifeste inteiramente? O MNF tem o meu pensamento inteiro, mas já em dialética com o adversário.

Há qualquer coisa para ser dito e que se dirá, mas que encontra uma parede de incompreensão por parte de todos, e que seria como um livro para não ser lido. Se fosse dizer o que tenho na cabeça só o discípulo perfeito entenderia. Hoje, causaria choque, não pela radicalidade, mas pela elevação, e ficaríamos esquartejados. Mas há um momento da Providência em que o direi por inteiro. Será para o discípulo perfeito ou no momento em que houver uma movimentação geral no mundo por onde aqui e acolá aparecem vislumbres de que isso dito poderá se compreendido. Não me é possível dizer nada antes. Não me foi simples explicar esse pouquinho…

A impressão que os livros dão é de um homem inteiramente frio, com metas e convicções, e que usa certos métodos. E maneja todas as coisas como um cirurgião o seu bisturi: é preciso sorrir, sorri; é preciso cortar, corta. Mas um homem que não tem um feitio de alma que não seja átono.

Há um fenômeno qualquer que, enquanto não vier o discípulo perfeito, o entrave não é removido: é a incapacidade de ver a Igreja; não a Igreja enquanto dogma, mas a sua alma e seu espírito. Donde a incapacidade de conhecer-me. E a esse respeito nem tenho as palavras para exprimir-me. Sou como um pintor que deve mostrar sua pintura, mas uma névoa a vela. O que fazer?

Há um halo por trás do livro que não é visto, ou se é percebido, não é preciso a nossos olhos como é o conteúdo do livro. Quando ele se tornará preciso? Por que não dar ao halo a expressão inteira? Ele é a meta última. Para nós, a técnica fica com expressão, mas a meta última da guerra permanece imprecisa. No entanto, não encontro o meio adequado de dizer isso pela falta de palavras. Espero que esse verbo surja com os discípulos perfeitos: os que possam compreender a totalidade da Igreja em mim enquanto amando-A vibrantemente, entusiasticamente, truculentamente, tudo d’Ela. O teólogo no fundo do claustro, o núncio em tal ponto de política esgrimindo-se até a agonia para obter uma concordata… Esse unum se trata de fazer compreender! Não pode ser compreendido de modo esparso. É preciso vê-la, fazer tudo o que faz… conhecer e amar esse unum com um amor no qual não se pensa muito porque desorganiza a saúde. É esse o espírito a ser derramado, de que tanto falo. Sem esse espírito não tenho a palavra para fazer conhecer o que tenho a dizer. O unum da Igreja e o dele é o mesmo. Conhecer o unum d’Ela vendo-o.

Creio que não tratei ainda da fragmentação desse unum através dos mil desastres da Igreja. Houve um desconjuntamento da visão desse unum. O medieval o tinha possantemente. Nas vésperas do Concílio Vaticano II estava vago nos melhores: alguma senhora do apostolado da oração… Mas como ele deve voltar! Deve voltar possantemente como um gêiser, e não como gotinhas de água quente no Reino de Maria. Quem o pega, pega o espírito de Nossa Senhora. Vê-lo [ao Dr.?] é ver a pessoa que tem a graça de ver esse unum intensamente a ponto de viver só para ele. “Nhonhozismo” e dejadez [são] preguiça e rejeição dele.

Quando o virmos teremos a impressão de já tê-lo visto a vida inteira. Como o Fujiyama; se um pintor pintasse o seu cume diríamos: “É isso mesmo!”. Tenho-o claro, mas faltam as palavras para o entendamos. Tudo depende de um a quem eu fale e que compreenda. É preciso uma ponte sobre o inexistente. É necessário penetrar no espírito dele conhecendo-o: no unum dele se conhecerá o unum da Igreja.

Fico sempre com uma espécie de surpresa disso não ser evidente. Como [se pode] não ver?! Muitas vezes, na preocupação de encontrar alguém que conhecesse esse unum para conversar, falei com Da. Lucilia. Ela tinha noção dele, mas tão longe de explicitá-lo, e se eu explicitasse ela não entenderia, que nem com ela pude falar. Ela o tinha, mas não compreenderia. No Quadrinho esse unum aparece. Como pode aparecer aí se não está na foto que lhe serviu de modelo? O que o Quadrinho propriamente representa é esse unum. É por causa dele que as admirações dela pela caridade, etc., não eram “heresia branca”; vinham desse unum. Por isso sua bondade não era moleza, a paciência não era cumplicidade. Tudo nela refletia esse unum.

Será um atrevimento dizer-lhes tudo isso? É intimidade, e ela é a alma da reunião. Portanto direi também isto: durante a vida dela tinha reações de alma curiosas. Falava com todos de minha idade como se fosse mãe deles. Eu não entendia bem e pensava: “Parece feita para ser mãe de incontáveis filhos”. Só depois de se comunicar tanto ao [C?] é que compreendi o que seria.

E fico impedido de mostrar como admiro essa escola que é uma espécie de contrário harmônico que [é] tudo misericórdia, condescendência, contemplação, etc., que se juntam para formar o tal unum, puro reflexo da Santa Igreja Católica Apostólica Romana. Não mostro essa admiração por essa escola por vocação. Não me é dado mostrá-la. Mas para se pegar esse unum, devem procurar vê-la [a escola].

Por exemplo: como sendo truculento posso me desfazer de afeto considerando essa doçura? [de Da. Lucilia]. Batalhador feroz que se desfaz de amor por ela. Uma das enfermeiras dela disse a Rosée: “Eu a agradava tanto, tanto, tanto, que receava que ela assim se tornasse insuportável, como que dizendo que eu com isso desenvolveria seu amor-próprio.” Eu me desfazia em afeto e veneração. A enfermeira disse nunca ter visto alguém gostar de outro assim. Foi um anjo até morrer.

Ao lado disso entusiasmava-me pela leitura do jornal diário ao mesmo tempo [em] que pelo rito oriental: D. Elias com sua cara de todos os séculos… ainda que soubesse quem ele é — um medíocre —, gostaria, entretanto, de oscular a sua coroa com a veneração com que oscularia a Igreja que engendrou todos os ritos. Cartuxos com barbas, acima de tudo, in conspectu Domini a irmãzinha que cuida dos leprosos e o Cruzado que parte para matar… Vivo em função desse unum e por isso tenho bons nervos.

Indiretamente falei um pouco disso. Até que ponto nos fala à alma? Não pensem que o que direi agora é porque estou muito “emandrixado”. Tenho pleno governo do que digo. Estamos um pouco como uma pessoa que vê algo magnífico passar diante de si, como o Meran já meio proletarizado, mas que vê a procissão do Tosão de Ouro: cavaleiros [com] gente séria. Algo sentiria de algo que está por despertar. Um pouco da Catedral Engloutie é isso.

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Um silêncio continua a falar, mais para degustar algo do fundo da alma jamais sentido no paladar.

Fico satisfeito por ter conseguido hoje dizer algo sobre esse unum, coisa que antes não me tinha sido possível.

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