Extrato de reunião do dia 7/5/77 – Sábado. Parece ser relato de uma Conversa da Noite no salão azul * A luz primordial da Senhora Dona Lucília era um certo núcle. 4 de 4

Extrato de reunião do dia 7/5/77 — Sábado

Parece ser relato de uma Conversa da Noite no salão azul

* A luz primordial da Senhora Dona Lucilia era um certo núcleo da Contra-Revolução que é estar continuamente com os olhos postos no trasncedental

A casa dela — vir aqui é vê-la a meu propósito. Ela está presente de modo vivo em toda parte, mas é nesta sala onde eu mais a sinto. E aqui não era o seu living. Quando já era idosa, era na sala de jantar onde mais ficava. Antes, era num living que havia preparado onde hoje é o quarto do sr. Amadeu. Entretanto, eu a sinto mais aqui na sala de visitas. Talvez por aqui estejam os móveis da casa de vovó. Era o ambiente específico dela.

Há algo que costuma ser interpretado de modo errado, mas que não é. Trata-se da tendência a sublimar os mortos. Sendo que hoje em dia o mais freqüente é esquecer os mortos. Les morts vont vite.

Certas almas recebem licença da Providência para manifestar aos vivos algo que em vida não manifestaram inteiramente. Um exemplo disse é Santa Terezinha que no Carmelo era tida como uma pessoa comum, mas que depois da morte se manifestou muito. Isso se dá com ela também. Este ambiente esta marcado de modo sobrenatural pela sua luz primordial.

Era profundamente a Contra-Revolução. Entretanto, ela mal tinha a idéia da existência de uma Revolução. Até que ponto ela via o unum da degringolada do mundo contemporâneo? Por exemplo, ela era monarquista, mas até que ponto tinha noção do que eram as formas de governo?

No que ela era tão contra-revolucionária? Ela não se dava à discussões da História, ou de política. Nem se entenderia que ela o fizesse. Tinha uma noção da inautenticidade das formas de governo que ainda restavam dos antigos tempos. Não leria Point de Vue. Então qual era a sua luz primordial? Era um certo núcleo da Contra-Revolução que consiste em estar continuamente com os olhos postos no transcendental e viver na contingência desinteressadamente. Todas as suas fotos mostram isso. E isso é a medula da Contra-Revolução remontando já para uma outra ordem. Por isso tinha qualquer coisa que emanava para os outros e que ficou muito nesta casa.

* Analisando a Senhora Dona Lucilia a partir dos olhos dos seus filhos, o Senhor Doutor Plinio viu que ela foi a arqui-mãe

Anos depois que morreu, quando falavam dela, comecei a vê-la de dentro dos olhos dos outros. E o que nela era para mim coisa corrente, vi que era atributos extraordinários, como por exemplo, a ação de presença dela em mim. E ainda é assim. É olhando-nos que percebeu como seria o mundo sem ela e como era a cabeça de alguém que não tinha tido. Ela morrendo não deixei de sentir a presença dela nem uma vez. Ela era a arqui-mãe.

E sendo a arqui-mãe, eu achava que os outros meninos viviam naquela atmosfera também. Foi só depois que percebi que não era assim. Comentando-a conosco percebi como era a vida de alguém sem mãe como ela. Então comecei a imaginar como seriam as mães dos senhores. Não conhecemos o que é ter mãe, como também não conhecemos a Igreja Católica.

O desequilíbrio provocado pelo luteranismo e calvinismo nos temperamentos, ela não tinha. Pelo contrário, tinha aí um equilíbrio enorme. E eu achava que todos os meninos recebiam isso também. Comecei a ver que as coisas com os outros não eram assim quando via uma tia dizer para os filhos: “Nada de agrado, pois não gosto de agrado — dê-me só calor”. Pensei comigo: “sim senhor! essa rata aqui agora com essa!” Mesmo assim disse: “isso deve ser só com ela”. Depois vi que era generalizado.

Com auxílio especial da graça dá para caminharmos nos valores metafísicos que nos dão uma noção das coisas como deve ser. E assim chegarmos a sentir até a falta de que nunca vimos.

Nos resto de nossos círculos mundanos que admiramos havia muita contra-facção e por isso é preciso tomar cuidado. Por vezes a própria mãe ou o pai são contra-facção.

* Na Senhora Dona Lucilia se vê algo que é raro de encontrar: uma vitalidade física que não empana a vitalidade da alma

No Quadrinho, ela já idosa, nota-se a pobre vida física e a pujante vida espiritual. Nela moça, se nota pujança e afirmatividade mas com afirmação da alma tão acima das virtudes físicas. É raro ver isso: uma vitalidade física que não empana a vitalidade da alma.

Com ela, o clou da questão é certa ação que se recebe e passa-se a conhecê-la no fundo da alma. Ela desde então o adota. Resolve o impasse e a encrenca. Deita um olhar naquilo que não teria solução. E ele compreende que algo age, e que é a mentalidade dela que age. E assim, no Céu, ela realiza o viver juntos e querer-se bem”.

* A Senhora Dona Lucilia estabelece uma relação pessoal com quem ela ajuda, fazendo-nos sentir nela uma transcendência enorme

Antes de uma graça assim de comunicação com ela, é como querer ver a cor sendo cego. Ela estabelece uma relação pessoal como se estivesse junto de quem ajuda. É a graça de uma pessoa que age sobre nós conservando proporção conosco, e não como alguém que nos concede algo do alto do fastígio de sua glória. E então sentimos nela uma transcendência enorme. Na verdadeira devoção a Nossa Senhora há algo disso, somado ao quase infinito d’Ela. Quem não recebeu uma graça assim de modo a sentir Nossa Senhora, não iniciou ainda a verdadeira devoção. A graça que recebi no Sagrado Coração de Jesus foi assim. E desde então nunca mais olhei uma imagem de Nossa Senhora sem sentir isso. Nem que seja uma pontinha, mas uma pontinha que fala enormemente.

A transmissão dela é como algo que vem de fora para o fundo da alma. No discernir a ação dela há algo de fundamentalmente semelhante ao discernir a ação de Nossa Senhora. Na alma dela, ela recebia essa comunicação olhando para a imagem do Sagrado Coração de Jesus, e de Nossa Senhora que ficavam em seu quarto. Especialmente a graça de equilíbrio temperamental. Eu sentia que ela recebia isso das imagens. Olhando para as imagens hoje recebe algo do que recebia dela. Essas imagens têm tanto essa graça que quero tê-las ainda que pouco as possa olhar.

(Entra o oratório)

* Comentário das imagens do Oratório da Senhora Dona Lucilia: “O Sagrado Coração de Jesus, Nossa Senhora e mamãe formam um todo para mim

Ponham as imagens como ela as punha.

Análise da imagem do Sagrado Coração de Jesus: severidade, dignidade, fundo de tristeza e muita doçura — afabilidade. Olhando para seu Quadrinho pode-se perfeitamente dizer: é uma pessoa formada na devoção a esta imagem.

Olhem o Menino Jesus: Ele é meio manco, pois foi feito para ficar deitado no Presépio, mas ela o colocava de pé. Todos os anos ela fazia uma roupinha nova para ele.

O Coração de Jesus — vejam como até a cor de sua capa é como deve ser. O Quadrinho mostra a pessoa logo após ter rezado para essa imagem. Podemos dizer: está explicado! A imagem de Nossa Senhora tem uma doçura conexa com a imagem do Sagrado Coração de Jesus. O Sagrado Coração de Jesus, a Igreja Católica, e mamãe, formam um todo para mim. A ladainha da Sagrado Coração de Jesus recitada diante dessa imagem faz sentir a propriedade de cada invocação. A devoção a Nossa Senhora, nela não era tão eminente, e daí [eu bombá-la?] a vida toda.

A imagem do Sagrado Coração de Jesus foi comprada pelo pai, na casa G. O oratório é neo-gótico e mandado fazer no marceneiro de A. e O.

Muitas vezes entrando em seu quarto, mesmo que ela não estivesse rezando, logo sentia a afinidade dela com o Sagrado Coração de Jesus. O olhar dela para nós hoje é individual. Ela fazia para mim o papel de lente de aumento para que eu pudesse entender inteiramente o Sagrado Coração de Jesus. Não sei se eu teria compreendido a imagem se não tivesse tido mamãe.

Dela flui um mundo de misericórdia para a alma boa. Com Nossa Senhora é assim: o pecador desclassificado não se sente desanimado. A imagem de Nossa Senhora dá amparo ao pecador desclassificado. O mesmo não se passa com o Sagrado Coração de Jesus. Pois Ele é Pai mas Juiz também. Tinha então que existir Nossa Senhora que só perdoasse e não o julgasse. Há um teor enorme de santidade extraordinária que se depreende de seu olhar. Entretanto não dá coragem de rezar o Memorare para ele. O Memorare tem que ser para Ela. Ela é acessível, tem contato pessoal com o pecador… Ela estabelece a proporção entre Nosso Senhor Jesus Cristo e eu. Entretanto Dona Lucilia fala de um modo mais específico e diferente. Não dizer isso para os enjolras, para que não venham aqui e escangalhem tudo.

Nossa Senhora do Bom Sucesso é cheia de condescendência, e por isso fica bem ter diante dela uma escadaria.

* Para o Senhor Doutor Plinio, a morte da Senhora Dona Lucilia foi um acidente nas suas relações: “Sinto-a como viva ainda”

A Senhora Dona Lucilia penetra na gente e faz um conosco. O Major Poli a viu andando comigo e disse ter notado essa união entre nós. Eu me perguntei na época: como ele pode ter notado isso? A sua morte foi apenas um acidente em nossas relações. Sinto-a como viva ainda. Tudo isso que lhes digo eu sentia cada vez que passava por esse oratório e lamentava que ninguém soubesse essas maravilhas.

Deixava tudo isso entregue aos Anjos, e achava que com o grupo não chegaria a comentar. Hoje comento, mas não imaginava poder dizer isso. É natural que diga, mas por isso mesmo não esperava dizer, pois as monstruosidades hoje acontecem muito. Com ela, jamais comentei isso tudo, porque víamos que eram coisas que se sentiam mas não se diziam. Hoje só falei isso para não fechar um fluxo da Providência, e assim falei de DP também. Mas se eu a viesse para falar só de DP azedaria a conversa. Só falo quando Nossa Senhora força. Se pedirmos a Ela para forçar está bem. Fico assombrado com esta reunião. Nunca a esperei, entretanto, seria tão normal esperá-la. Mas o normal é anormal. nos dias de hoje.

* A capa para ser usada pelo Senhor Doutor Plinio “conviria ser mais bordeau, triste, solene, mais de cima e envolta nas grandezas do profeta Jó”

Não devo usar aqui a capa de Nossa Senhora do Bom Sucesso. Tentei usar capa no início do uso dela pelo Grupo, mas ela não me exprime. Tinha que ser algo mais triste para que ficasse bem em mim. Esse vermelho não me exprime bem. Se me viessem de capa ficariam desapontados. Não é essa a capa de minha posição de Profeta. Conviria para mim se fosse mais bordeau, triste, solene, mais de cima e envolta nas grandes do Profeta Jó.

Devo representar a tristeza e as mágoas da Rainha Destronada. Devo agüentar todo o fardo da tristeza e da derrota e dizer: continuo fiel. Uso a capa enlutada para que os senhores usem a capa da vitória. Não há consonância entre meu olhar e o festivo da capa. Quando anuncio a vitória, faço-o com um fundo de tristeza. Também não sou festivo.

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