Conversa
de Sábado à Noite – 23/4/1977 – p.
Conversa de Sábado à Noite — 23/4/1977 — Sábado [Jaquetas AC – 141 e 142] (Datilografado por: Flavio Lorente)
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Houve tempo em que era arquitetônico crer que o Grand Retour viesse antes da Bagarre. Mas agora acho que uma ponta de Bagarre é necessária para abandonarmos a mentalidade revolucionária que não queremos abandonar. E o que é arquitetônico é provável, e à medida que os acontecimentos alteram a situação anterior, desloca-se à antiga arquitetonicidade.
Mas o que falta para nos convertermos inteiramente? A resposta se prende a um ponto de repulsa à mentalidade dele [Sr. Dr. Plinio]. Não queremos a sua mentalidade pela mesma razão pela qual não queremos a mentalidade inteira da Igreja. E para todos o ponto é o mesmo.
É muito difícil detectar esse ponto. Já o explicitei antes, mas não devo ter encontrado as palavras corretas, pois a ninguém tocou. Para os sul-americanos ele se põe de um modo, e para os europeus de outro. Para os sul-americanos a dificuldade reside em termos uma visão correta e inteira do que é ser católico e romano. Na Europa se tem isso, quer dizer, encontram-se pessoas que são católicas e romanas, mas que continuam com a mentalidade revolucionária. Neles, essa posição não pega o ponto da mentalidade que pega em nós.
(…) [Trecho que não foi copiado]
Por exemplo, o primo de D. Bertrand que reside aqui tem as nossas idéias: é católico, está aqui sem a família, espera o fim do mundo, mas nada faz. Mostrou uma tal falta de interesse em continuar os contatos com D. Bertrand que até recomendei a ele que cessasse os contatos. Entretanto se os sul-americanos tivessem idéias assim, seriam tocados a fundo. Por que essa conjunção de idéias toca os sul-americanos e não os europeus? Como esse ponto misterioso de nossas almas deve ser tocado para nos convertermos? Tentarei responder isso que acho difícil através da personificação [do] problema.
Imaginem que D. Bertrand fosse incomparavelmente mais sério e piedoso. Que efeito isso produziria? É preciso imaginá-lo assim, pois hoje é um bibelozinho. Diante dele assim os sabugos da Europa não seriam indiferentes. Em termos doutrinários, ele deveria ser tudo o que o ideal católico e romano representa, posto em estado de beligerância, e em estado de ascese. D. Bertrand não é a representação de um asceta, e suas virtudes não estão em estado de beligerância, mas de gentileza. Nem saberia sustentá-las com lógica, caso fossem atacadas. Se ele soubesse explicitar isso, ao se defender arrastaria os romanos. Se ele soubesse sustentar a sua posição com lógica, afirmando seus direitos, e depois levantando a cabeça com elegância e domínio…
(…)
…ele arrastaria.
Acontece que entre nós os melhores não aceitam essas idéias postas em beligerância. Gostam da superioridade dele, mas não a tal ponto que ela se exercesse a ponto de coagir, ou seja, não aceitam a desigualdade, porque toda desigualdade deve ser coativa. Aceitam serem atraídos até lá, mas não serem coagidos. Diriam: “Ele não tem o direito de se impor a mim, contra a minha vontade”. Muita gente não faz ascese para não se sujeitar ao princípio moral de que deve ser coagida. Por exemplo, a regula tactus que havia entre os jesuítas. Era baseada na idéia de que as fisionomias devem bastar para exprimir tudo o que um jesuíta quer dizer, mas também para proteger a sua pureza. Todos a aceitamos como normal, mas se adotássemos entre nós, daria “nó” em muitos de nós. “No total, que um toque no outro, muitas vezes é inocente… poderia por mim mesmo, mas coagido, eu me revolto!”.
No fundo pesa mais admirar o princípio do que propriamente praticá-lo.
É isso que nos dificulta ter uma visão conjugada e ogival do poder temporal e espiritual numa só vista. A idéia plena de superioridade vista em conjunto. Eis o fio condutor que nos leva a entender o problema difícil de explicitar. Para admirar isso, teríamos que fazer um holocausto colossal. Se esse holocausto é difícil e se impõe, é a revolta que vem. Por exemplo: se eu peço para me levantarem, vêm com gosto. Se ordenasse por meio de um outro que dissesse: “No fim da reunião estão designados os senhores ‘x’ e ‘y’ para levantarem o Sr. Dr. Plinio”. Isso daria “nó”. Fazemos por boa vontade, mas por obrigação não queremos.
O holocausto oferecido com alma não inteira é voluntário, mas o perfeito holocausto é aceitar tudo até a coerção.
Como esse problema se pôs para mim? Compreendi que poderia ser picado pela Revolução nesse ponto. Compreendi também muito cedo que essa picada poderia ser evitada se tivesse entusiasmo pela coerção. Deixei me coarctar muito pelos da Hierarquia e pelos inferiores a mim. De tal modo que isso não me custa mais hoje. O que me custa quando vejo que inferiores me coagem é ver que a Causa católica tenha chegado tão baixo a ter que haver isso. Não me custa mais aceitar as grosas de brutalidade de D. Mayer, freqüentemente feitas no fim de dias de extremo cansaço. Desolação que essa seja a situação da Igreja. D. Mayer faz o quer.
Deve haver uma deleitação na coerção. E ela deve vir do fato de conhecermos a própria fraqueza e sabermos que ou é a coerção ou nada.
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Quem está investido de uma autoridade temporal verdadeira — política e não administrativa —, o cargo e o homem têm certa penetração por onde a dignidade do cargo o penetra a vida inteira. Tudo pode ser conspurcado nesse domínio, mas em tese no governo romano o princípio e a instituição têm um brilho que independem das pessoas.
No caso [ultramontano] o líder simboliza o princípio e a instituição, e é hipócrita quem diz amar o princípio e a instituição e não ele. Erra quem não o admira e assim não se serve dele para ir ao princípio e à [instituição]. Seria como escrever um livro sobre os romanos e dizer que não gosta de D. Bertrand, quer dizer, não adianta nada!
O livro do HR sobre a propriedade privada é assim: ele não tem o senso da propriedade privada e, portanto, mostrou-a como se fosse algo de museu. Um fazendeiro pode demonstrar mais senso da propriedade privada do que ele, do que ele naquele livro.
Eu tenho o princípio e o encarno. É o magistério com todos os seus recursos. De tal modo que, se alguém disser que concorda com tudo da [TFP], mas ao mesmo tempo afirmar que a pessoa de seu mentor é discutível. Assim não vai. Nesses termos não nos podemos pôr frente a alguém que fidedignamente representa o princípio. Seria o mesmo que alguém dissesse: “Tenho devoção Nossa Senhora, mas não gosto da Sagrada Imagem.”
São Gregório VII simbolizou a Igreja Católica, mas a Igreja estava acima dele. O que é a Igreja Católica? É um principium vitae que brilha em mil santos e que brilhou em São Gregório VII de modo paradigmático. Pelo discernimento dos espíritos uma instituição põe em evidência um princípio. A esse princípio corresponde um espírito. A instituição seria morta se não considerasse esse espírito do qual é corpo. Esse espírito se vê na instituição e nas pessoas que a amam. Pelos séculos afora a instituição é portadora do espírito. Ter união com a instituição é mais do que união com as pessoas que a representam. É preciso, pois, olhar para mim e ver a instituição e não ficar só na pessoa.
Por outro lado, imaginem a Igreja Católica composta por certo número de pessoas com Fé, mas de tal modo, que vêem dois ou três pontos de sua doutrina com calor, e o resto aceitam molemente por causa dos três pontos. Poderia a Igreja viver assim, ou seria necessário que existisse outros com Fé inteira? É evidente que seria necessário outros com Fé inteira. Do contrário Ela não teria santidade. Hoje, professando a verdade em dois ou três pontos talvez ainda existam, mas só se sente a Igreja viva nas pessoas que crêem em tudo, amam tudo, aceitam tudo. Aí há a conjunção da pessoa com a instituição. Essas pessoas enquanto correspondem são a face da Igreja. Por exemplo: tomem uma casa de família moderna, onde a mãe tem um “fassur”, o pai [tem] “fassuras” e os filhos andam cada um para um lado. A família praticamente já não existe mais, embora ainda residam juntos. Para a Igreja um estado assim não seria possível, pois Ela teria perdido a santidade.
Portanto, nas pessoas dos fiéis é nela que a Igreja vive. Hoje em dia o povo eleito morreu. E no Antigo Testamento em diversas circunstâncias, se não fossem os profetas, o povo eleito teria morrido. Aqui está a distinção entre a instituição e o homem.
Não quero aqui tratar de Nossa Senhora, pois Ela é tema muito especial e poderia de momento embaralhar as idéias. Mas entre a morte de Nosso Senhor Jesus Cristo e a Ressurreição, Ela era a imagem da Igreja.
Quanto a mim? Se eu tivesse conhecido um homem assim, diria que não é dado a um homem ser assim. Ou habita nele um princípio que o transcende ou não se explica. É algo à margem da inteligência; é algo de…
[Obs: Atenção: o texto termina abruptamente e não há seqüência com a outra página microfilmada]
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