Conversa de Sábado à Noite – 16/4/1977 – p. 5 de 5

Conversa de Sábado à Noite — 16/4/1977 — Sábado [Jaqueta AC – 141] (Datilografado por: Flavio Lorente)

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[Obs: A presente reunião não está enunciada no microfilme como “Conversa de Sábado à Noite”, embora tudo indique que seja, pela maneira da reunião ser exposta e a data coincidir com o sábado.]

Holanda” é uma expressão cunhada que se tornou mais expressiva do que Brasil. Holanda é Brasil na perspectiva da Reunião de Recortes, e isso nos fala especialmente.

O quadro da Reunião de Recortes de hoje mostra uma mudança maior do que a Reunião de Recortes em que falei da Bagarre. Agora temos a realização de tudo o que foi previsto. É o começo do fim que começa a acontecer. Os fatos antes previstos começam a acontecer. Foi previsto um gênero de fatos que agora começam a acontecer. A Reunião de Recortes sobre [J. Ct. ?] foi sobre a Bagarre mental. Mas hoje [se tornou] mais clara a destruição do mundo na sua materialidade. Torna-se mais palpável e de sentido mais notório com os fatos de hoje. A notoriedade marca a mudança de época.

A Bagarre em seu aspecto mais imponderável começou com o [Concílio] Vaticano II e atingiu seu auge com [J. Ct ?]. Em seu aspecto ponderável é hoje que fica clara.

A noção de suicídio é importante, particularmente para nós do Grupo. Sempre tivemos a objeção subconsciente de que as nações eram muito fortes para serem destruídas, e o fato é que agora elas se matam. Chegávamos ao aeroporto de New York, por exemplo, e víamos aquele colosso material e achávamos que ninguém derrubaria. Eis que as nações se suicidam, [em data?] e importância, a começar pelas maiores. Precisamente aquelas que julgávamos indestrutíveis levantam-se e se matam perante o universo! “Deposuit potentes de sede…”. Que imensa grandeza tem esse panorama! Como isso é belo!

O clero progressista que a “heresia branca” duvidava em considerar herege passa a ser a alavanca da Revolução que a destrói. O [JF – José Fernando?] em certos arroubos proféticos dos antigos tempos dizia que haveria freiras e padres terroristas. Arnaldo Vidigal Xavier e Paulo Ulhôa Cintra protestavam. Hoje vemos que [José Fernando?] tinha razão e Arnaldo Vidigal pode estar no caminho de se tornar um terrorista. Aquele mundo acabou. Até mesmo os que foram nossos aliados estão aniquilados.

Entendemos que atravessávamos um meridiano e que fomos além da “Trapobana”?

O manifesto da TFP norte-americana traduz o aproveitamento de uma situação segundo os objetivos tradicionais, mas salvo um milagre, a opinião pública não fará absolutamente nada. É como ter dado uma injeção no passarinho que é esmagado para que ele tenha um estertor a mais, mas salvo um milagre não lhe dará a vida. Não é cura, apenas um estimulante. É a aplicação ainda dos velhos métodos para ver se mudamos um pouco as almas que poderão servir para o Reino de Maria. Mas é tática de segunda, e não a grande tática usada anteriormente, por exemplo, para barrar o divórcio, a reforma agrária, etc. O fenômeno da cristalização não se passará. Devemos, entretanto, continuar fazendo o que fazíamos até encontrar solução melhor. E aqui aparece a questão delicada para nós: se tudo apodrece, onde nascerá o sol?

É preciso ter os olhos sempre voltados para esse possível nascente. Se nós que somos os pavios do Reino de Maria, vale a pena pôr fogo em velas molhadas? Entretanto, enquanto estivermos sem ver o que fazer: faremos isso. Dada a suma improbabilidade de atearmos fogo nessas velas molhadas, as secas só poderão estar [C Ferro?], ou aqui, após estas nações receberem uma graça que as tire do atual letargo. Mas eu acho que esse milagre parece pouco provável. De modo que eu me volto para a [C F?], ou outra região como o Pamir, por exemplo.

A série de notícias que têm saído sobre a [T - TFP?] são ainda um fenômeno ambíguo no sentido de representarem uma grande entrada dela no panorama, e da luz que começa a ser aceita pelos povos. Acontece que com as grandes civilizações que decaem, é próprio delas receberem convites assim. Trata-se de uma posição quase notarial assumida pela Providência em relação a eles. É como que a Providência dissesse: “Dou-lhe mais esta graça embora saiba que você não corresponderá a ela, mas dou-lhe pra que não digam que não dei, e que minha graça faltou a alguém… [falta um trecho].”

Nosso Senhor Jesus Cristo disse isto: “A essa geração não será dado… [falta um trecho]”. (Como é belo vê-lo, no lugar de Deus, julgando o mundo por seus últimos crimes.)

A cegueira do mundo de hoje é incrível. Eu e a [T – TFP?] já não nos manifestamos suficientemente? Podemos aplicar a nós a expressão de Nosso Senhor Jesus Cristo ao entrar em Jerusalém: “Se não reconhecerem o que fizemos, as pedras se levantarão para nos aclamar”. Tudo o que temos feito, não se sabe o que dizer…

(…)

Somos a sociedade mais contra-revolucionária da História surgida na noite mais dura que jamais existiu. Essa sociedade assim é boicotada por todos por causa de suas capas, [Estudartes??] e de seu sistema de publicidade, três características geradas por seu espírito, conhecida nas direitas francesas e na Espanha…

(…)

Na Itália estamos programando convites monumentais para a inauguração da sede, e isso só não foi feito ainda por causa de meus trabalhos em Amparo. Tudo isso não é ter-se dado a conhecer a todas as nações? É evidente que sim. Pois hoje podemos dizer que o Evangelho já foi pregado a todos os povos, e mesmo assim é possível que muito coreano não tenha ouvido falar em Nosso Senhor Jesus Cristo, mas nem por isso a expansão do Evangelho deixa de ser considerada universal. Nesse sentido a [T – TFP?] já foi pregada ao mundo inteiro.

A grandeza desse trabalho é de não se saber o que falar. É ou não verdade que, em determinado momento, as pedras vão se levantar para aclamar isso tudo?

Por exemplo, em matéria de previsões. Só o que foi previsto e se realizou, não houve político na História que tenha feito algo semelhante. O MNF contém uma civilização inteira. Fazemos a civilização de amanhã enquanto escoramos a de hoje, de tal modo, que os grandes procuram se [encostar-se a] nós…

(…)

nós com os meios mínimos de que dispomos. É ou não verdade que em determinado momento as pedras se levantarão… [trecho cortado]?

Em vista disso, o que é o progressismo? Ele morre a partir do momento em que uma parcela se levanta e lhe diz: eu te conheço e te rejeito. O progressismo é como uma parasita que necessita de um tronco para viver. O tronco no qual ele começou a viver era a Santa Igreja. Na medida em que Ela se refugia em nós, ele está morto, pois em nós ele não está. Mais ainda, nós nos unimos em nome do combate a ele. Sem estar inviscerado na verdadeira Igreja ele está morto.

Joseph de Maistre escreveu sobre a infiltração do protestantismo na I.O1. Que importância tem isto? Ora, da Igreja, ele está expulso.

A Sagrada Imagem nos aponta como a verdadeira Igreja. Esta é a verdadeira Igreja:

a) montfortiana: que leva a devoção a Nossa Senhora até onde pode levar. Estamos à espera de algo que nos permita levá-la ainda mais longe;

b) (…)

c) (…)

Para nós, quem acha que exageramos a devoção a Nossa Senhora está morto. Foi o caso de [BM? DM? Está meio ilegível] que disse julgar que São Luís Maria Grignion de Montfort considera Nossa Senhora como a quarta pessoa da Santíssima Trindade. Para nós ele está morto.

Esta é a verdadeira Igreja que expulsou de si todas as heresias como nenhum Concílio da História o fez.

Nesta noite da reunião sobre o suicídio reconhecemos que somos a vida e que eles se mataram. Que belo complemento para a Reunião de Recortes. Eles se matam como Golias faria diante de David, que tendo atirado a pedra, Golias daria um jeito de se matar com ela. Assistimos a mais impressionante seqüela de suicídios da História. Nesta linha de fatos, a reunião sobre a Bagarre nada é em comparação com a Bagarre do suicídio. Fico empolgado com isso. Vocês não ficam? Valeu a pena ter nascido para combater até agora.

Leão XIII tinha que gerar o progressismo, e este, gera o monstro que se mata a si mesmo. A Hierarquia que se mata despindo-se de seus símbolos… [não se sabe se aqui é um corte.]

Eles sentem isso, e daí o mutismo deles diante de mim. No episódio da Ação Católica fui derrotado, e me levantei como Jó se levantou. Mas meditei muito também. E no próprio momento em que me derrotavam, com minhas meditações, eles abriam os meus olhos para fabricar antídotos que usaria contra eles. E desde, então, eles não revidam nem falam. Não ousam sequer pronunciar meu nome. Meu nome é temido por eles e não conseguem pronunciá-lo. E quando o pronunciam tremem. Se no Antigo Testamento tivesse havido um profeta cujos inimigos não ousavam pronunciar seu nome, esse fato iria para a sua iconografia. “Os prevaricadores não ousavam pronunciar seu nome”. Eis o que se diria desse profeta. No entanto, isso acontece agora. E nós sabemos ver isso? Não deveria ser necessário que eu passasse pela humilhação de ter que dizer isso. No entanto é necessário nas vésperas de grandes batalhas.

Acabo de saber que na França, nas direitas, os que são verdadeiros amigos pronunciam meu nome. Outros que nos odeiam, não o pronunciam. E quem me disse isso não é pessoa de notar muito essas coisas, é até insuspeito nessa matéria por ser frio a fatos assim. Por que tenho que dizer isso? É uma humilhação para mim. Não falo mais porque não há condições de alma para isso.

A prova de que não há condições de alma para isso é que quando “O Estado de S. Paulo” não publica meu nome, esse fato é atribuído a uma fraqueza de minha parte. Quando é precisamente uma manifestação de poder. Eles não conseguem publicá-lo. É difícil publicá-lo como é difícil pronunciá-lo por aqueles que são maus.

Fábio Vidigal percorreu a América Latina antes mesmo de existirem grupos por seus países. Ele tinha essa forma de fidelidade que consistia em mencionar em suas entrevistas o meu nome, todas às vezes. E me dizia que ao falar em meu nome era rejeitado, ou publicavam tudo o que havia dito, com exceção de meu nome. E não me digam que isso era apenas uma palavra de ordem. Era o mal que o nome causava nos maus. E o Fábio Vidigal contava isso: [que] não percebia a grandeza do fato e continuava brincando. Contou em plenário, vi as caras, e todos tinham carinhas de boneca de louça. É um nome que faz saltar as montanhas como cabritos. Não é uma questão de ter trânsito ou não na imprensa. É mais do que isso. Vocês me entendem? É que ele mexe com as entranhas dos adversários contra os quais luto.

O Estado de S. Paulo” não publica e concluímos que é por fraqueza minha. Como tiramos a conclusão oposta de um fato tão claro? Uma graça nos foi dada para vermos bem, mas foi rejeitada. Pobres cabeças cegas e reviradas! São reviradas, por método, em tudo o que diz respeito a mim. É porque somos ruins e insensíveis à graça. Cegueira feita de ingratidão e de recusa ao bem. Recusa ao símbolo. Aceitem a doutrina, mas recusam o símbolo. A ferrugem para o símbolo é feita pelo interesse distorcido pela doutrina.

Hoje eu vi uma alma que dormia enquanto eu falava sobre a África. Deu-me tanta tristeza vê-la dormir, e de tal modo a considero, que não quero pronunciar seu nome aqui. Alma capaz, mas que dormia com um sorrisinho estulto nos lábios. É doutrinária. E dormia porque eu não falava de doutrina, mas se eu entrasse em doutrina despertaria.

O símbolo põe em movimento as partes da alma que a doutrina não mexe e que continuam infiéis. Com o símbolo essas partes entram em choque com ele, e por isso não queremos o símbolo. Da. Lucilia era assim: puro símbolo. Quem trocaria uma graça dela por uma aula de Filosofia? Ou pela compreensão do livro do “falecido” Arnaldo Vidigal? “Mas o livro dele contém doutrina sólida”, alguém poderia objetar. Eu responderia: “Você é que não é sólido!”

Quantas outras coisas trocadas não temos na cabeça? As pedras começarão a nos apedrejar. O resultado é a vida espiritual poca, encalhada, e que degringola.

Tomem o Auditório São Miguel: grande número ali gosta de ver D. Mayer falar, gosta de ver o modo de ver como ele senta, etc. Se ele tivesse feito a Reunião de Recortes hoje e não eu, um bom número gostaria. [Mostrar-se-iam] indignados de boca para fora. D. Mayer pode levar um bom número a se levantar [contra ele?] [a favor dele], em determinado momento. “Dr. Plinio está velho e é preciso transmitir o poder a D. Mayer”, sendo que todos sabem que D. Mayer é 5 anos mais velho do que eu. Mas D. Mayer dá doutrina. E se ele fez uma conferência sobre Teologia, muitos dirão: “Vejam só: foi coisa séria e sólida”. E seria aceito.

Vejam como há método nisso. Chateaubriand ficou paralítico numa cadeira de rodas, e se fazia entender batendo o dedo. Isso era considerado um sucesso. Assim mesmo ele continuava a dirigir os “Diários Associados”. Que colosso! No entanto, a cadeira de rodas para mim funciona de modo diverso: faz com certos espíritos cambaleiem na Fé. As mesmas regras que se aplicam a Chateaubriand não se aplicam a mim. Estou carregando muito contra os cartesianos, mas é por afeto. Esta reunião completa a mudança de clave que operamos na Reunião de Recortes desta tarde.

Não podemos aparecer aqui no próximo sábado com a mesma cara de sempre. Seria sem-vergonhice. Pior do que isso seria afrontar e desafiar a Justiça de Deus. O que fazer? Vocês notam que tratar desses problemas assim é a verdadeira intimidade? Mas o que fazer?

Quando consideramos isso durante a semana teremos um deleite. Devemos procurar degustar esse deleite. Isso é que temos a fazer. E também a jaculatória: “Domina, ut videam!”.

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1 ) I.O. = igreja “ortodoxa”. Localizada principalmente no Oriente e no Leste europeu. E é cismática, porque se separou de Roma em 1204.