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(IHS) p.
EVP – sem data – 1976
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Título da reunião: O pulchrum da combatividade da TFP
Local da reunião: Data da reunião: 1976
Copiador: Data da datilografia:
Extraído do microfilme pela Comissão Plinio Corrêa de Oliveira em: 13/6/95
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O "pulchrum" da combatividade da TFP que soma em si a lealdade medieval e a astúcia jesuítica * O Fundador teve de ocultar o "pulchrum" da combatividade da TFP para não ser totalmente rejeitado pelos membros do Grupo * Deveríamos imitar ao Fundador, mas nossas cogitações vão em sentido oposto a esta imitação * Realizar a arquetipia da própria luz primordial é tornar-se um representante de Deus na Terra * A contínua preocupação com nossos probleminhas pessoais e nossas vaidades fecham nossas almas para os grandes horizontes desta reunião
* O "pulchrum" da combatividade da TFP que soma em si a lealdade medieval e a astúcia jesuítica
Até uma tentativa de medievalização onde era praticada, inclusive, a teoria que me é muito grata da soma das idades.
Quer dizer, a pura medievalização não é uma coisa que corresponda bem exatamente ao nosso ideal. A Igreja foi vivendo ao longo dos séculos e elaborando belezas que são uma continuidade da beleza medieval, e que seria preciso somar a isto, dentro da linha da luta.
Por exemplo, a idéia da luta medieval não é bem a idéia da luta de Santo Inácio e dos jesuítas de grande classe. O jesuíta de grande classe é um leão nos ideais e uma raposa nos métodos. Somou algo.
Então, vamos dizer que o espírito de combatividade somou à grande lealdade de frente, à luta, etc., qualquer coisa de santamente vulpino, "raposeano", mas que também se trata de amar, de acrescentar, e que nosso espírito deveria ter. Ao leão, somar a raposa em certas ocasiões.
O medieval não era vulpino, era até anti-vulpino e se compreende. Depois, a teoria da luta era completamente diferente. O medieval era luta de um homem de honra contra outro homem de honra. O jesuíta, não: é a luta contra o revolucionário, canalha, bandido, demônio, que é preciso a gente saber pegar como ele é, e não fazer o dueto sublime de dois homens de honra combatendo com honra e que dá a luta medieval. São coisas diferentes.
(Sr. ...: O jesuíta não fazia isto e acabou "zupando" o lado medieval de honra.)
Isso é uma outra questão: saber até que ponto a teoria [da soma] das idades foi praticada por eles, é uma outra questão. Eu acho que em Santo Inácio estava muito clara. Eu não sei até que ponto os sucessores conservaram isso claro. Mas ninguém pode negar que aí há uma soma à qual se deveria somar outros valores e que deveria dar a grande combatividade da TFP de nossos dias. Mas uma combatividade da TFP que, apesar disso, entrando na luta, era antes de tudo uma força que entra como entrava um guerreiro na batalha antiga: tocando trombetas e anunciando: "Tal valor vai se apresentar; vinde, desafiai-o. Forças hiantes e opostas do Inferno, ou forças afins e nobres de dignidade rivais, apresentai-vos: a luta vai começar".
E eu gostaria... fala-se de pulchrum, pede-se às vezes para eu mostrar o pulchrum de tal coisa... o centro de minhas idéias sobre pulchritudine está, debaixo de vários aspectos, aqui. E eu gostaria de que nós procurássemos, dentro da TFP, ver nos nossos métodos, nas nossas tradições, nos nossos modos de ser, como é que nós somos ou devemos ser assim.
Outro dia me disseram que um dos membros mais antigos da TFP, indo jantar na casa de um de seus familiares, encontrou dois deles conversando sobre a TFP. Perguntou, então, a eles o que diziam da TFP. Um deles respondeu: "Comentávamos que o emblema de vocês não deveria ser um leão, mas uma raposa".
Eu fiquei encantado com a afirmação, porque a raposa, que chega em público e desfralda seus estandartes leoninamente, mas na hora em que se apresenta um adversário indigno e canalha, ela se transforma numa raposa e sabe, com toda velhacaria, passar a perna e jogar. Isso me encanta. É a nossa idéia de medievalidade, etc.
* O Fundador teve que ocultar o "pulchrum" da combatividade da TFP para não ser totalmente rejeitado pelos membros do Grupo
Se nós soubéssemos ver isso em nós mesmos, na luz primordial nossa, nos lances que nós damos, etc., a nossa vida seria muito mais... eu não sei, iluminada, qualquer outra coisa assim.
Mas eu fui obrigado a jogar tudo isso no lixo por causa da nossa inaceitação. Então, ocultar isso, disfarçar, para conseguir não ser totalmente rejeitado. Mas essa é propriamente a nossa posição. E esta reunião é uma tentativa de despertar as nossas almas para esses valores na hora da grande luta. Porque, quando as multidões estiverem desvairadas e os discos voadores aparecerem, ou entram grandes almas medievais assim e que deitam grandes mensagens, que mais do que descomposturas ressentidas, são proclamações fabulosas, ou nossa posição na Bagarre não está feita.
Nesse sentido, passou-me pela cabeça de fazer um dia em Jasna Gora para os moradores de lá que estudam a reunião milímetro por milímetro, fazer um comentário da reunião de sábado mostrando eu mesmo os vários aspectos disso que na reunião aqui foram postos para ver se eles despertam um pouco para isso. Porque aqui está o que eu quereria e o que eu espero.
Não sei se percebem que há uma espécie de vento histórico que faz tremular os nossos estandartes nessa direção.
Mas é bem certo que nós nem sempre rumamos nesse sentido, desejamos isso, nem nada.
Eu não posso me esquecer a dor pungente, aos sábados à tarde, quando ia a caravana inteira para a fazenda... todos rindo, roupinha de tênis branco, com aquela casquetesinha, e jogo e não sei o que... como mitologia mundana, enquanto tudo isto era posto de lado. Que sábados tristes... e daí para fora, daí para fora.
* Deveríamos imitar ao Fundador, mas nossas cogitações vão em sentido oposto a esta imitação
(Sr. ...: Deveríamos ser imitação do senhor.)
Não cópia, mas imitação devem ser.
(Sr. ...: ...recebi uma graça pela qual me dei conta de que eu deveria reconhecer que desde menino pairava sobre mim uma certa bênção, e...)
É muito mais do que reconhecer: "É a única alegria de minha vida". Que outras alegrias há nesta vida para dispensar esta?
Que formas de egoísmos, de bagatelas, de drogas é que podem ter substituído isto que é a única alegria? Essa é a alegria.
Cada um procure, por exemplo, fazer a lista dos temas que lhe passaram pela cabeça fora da reunião e durante a reunião: são os temas que representam o contrário do que na reunião está se tratando e que definem concretamente esse "inferninho" de egoísmos "microlóticos" que nos afastam desses grandes sopros, porque, para onde o nosso pensamento caminha, subconscientemente para ali vai. Ou nós estamos num alto grau de virtude, o que nem sempre é o caso, ou para ali é que vão os nossos defeitos, e vão as nossas microlices, etc.
Quer dizer, se você quisesse fazer um paralelo profícuo, você deveria se perguntar: quando você se entrega às suas próprias divagações, o que é que lhe vem à cabeça? O que lhe vem à cabeça é o contrário de tudo isto que eu estou dizendo.
(Sr. ...: São vacuidades.)
É, mas o homem não tem vacuidades. Quando ele tem vacuidades ele tem um profundo vácuo, mas ele é necessariamente profundo. Então, trata-se de estudar esse profundo vácuo, procurar.
Essa história de dizer que um homem é superficial, é uma bobagem. Quando ele é superficial, ele é profundamente superficial, porque ele tem um lado profundo na alma que está cheio de superficialidades, isto sim, mas que ele tem uma profundidade na alma tem. E quando ele é superficial, é profundamente superficial, quer dizer, tem princípios da vida superficial que ele adota, mas sem principio o homem não funciona.
(...)
* Realizar a arquetipia da própria luz primordial é tornar-se um representante de Deus na Terra
A reunião mostrou uma grande dificuldade em estruturar, e uma grande facilidade em fazer digressões, no sentido etimológico da palavra, sair fora, muito boas, indispensáveis, mas cujo resultado é: não fica nada para depois de amanhã. Fica um perfume, fica uma idéia de uma lembrança, mas não fica nada para depois de amanhã.
Como método de estudo, ela apresentou uma vantagem que me tornou mais fácil apresentar as lacunas concretas e, portanto, chegar mais perto das soluções a que correspondem essas lacunas. A gente vai fazer o peso desta reunião, é mais ou menos como se fosse uma reunião feita por mim, ótimas coisas elevantes e enlevantes, mas das quais não se tira aquele aprofundamento concreto que da reunião se poderia tirar.
Então, tratava-se de fixar, para a próxima reunião, o elemento principal que esteja na seqüência de que nós queremos. E é, então, essa idéia de que o ponto de honra, o ideal, a glória, de cada um é realizar, dentro da concepção católica evidentemente, a "arquetipia" da sua própria luz primordial e compreender mais que na medida em que ele realiza isso, ele é uma espécie de representante de Deus na Terra e faz uma coisa sagrada porque aquele valor vive nele, mas vive de uma vida viva. Aquele valor, afinal de contas, tem em Deus a sua realidade suprema, e vive nele de uma vida verdadeira, viva. De maneira que o caminho dele na vida, as lutas dele na vida, as idéias dele na vida, consistem em, continuamente, em realizar isto.
Então, vamos dizer, algum de nós que tivesse como vida espiritual... porque isso, a meu ver é exatamente vida espiritual na escala de santidade bem entendida. Não é uma santidade que é uma pura conformidade com um Mandamento concebido em tese para todo o mundo, mas é com um certo matiz, com uma certa coisa própria a cada um.
Então, vamos dizer, algum de nós, por exemplo, que tivesse como missão representar, vamos dizer, a grandeza, ele deveria compreender que ele não representa todas as formas de grandezas possíveis. Mas ele representa um matiz da grandeza que Deus quis que refletisse nele e que ele deve representar. Mas que na hora do grande combate, da grande luta, ele pode se voltar a Nossa Senhora e dizer: "Mãe, rezai pela vossa grandeza que agora vai entrar em combate. Tende Vós pena daquilo que eu devo representar e que não sou eu mesmo mas que Vós amáveis desde toda a eternidade, que vosso Divino Filho amava desde toda a eternidade e que Vós representais de um modo imaculado. Esse estandarte poderá existir em mim de um modo maculado, mas autêntico, mas vivo. Protegei a luz que Vós quisestes que eu trouxesse".
Aqui, não sei se percebem que há uma beleza no senso da luta, uma beleza no senso da vida, de apoio de Nossa Senhora, e uma compreensão do papel de Nossa Senhora entrando e defendendo cada um de nós para realizar um plano de ideal exemplar que Ela estabeleceu, uma coisa magnífica, que daria origem a um estilo de viver. Luta da vida interior, da vida de piedade, das dificuldades, das alegrias, de tudo.
Compreender por exemplo: "Deus te ama porque tu és criatura de Deus".
Quanto isto é verdade, não é? Mas quanto isto toma mais realidade se eu compreender que eu não sou uma criatura de Deus como é um grão de areia perdido na praia, mas que eu sou uma criatura de Deus que Deus quis que eu O refletisse de tal maneira, e que em mim Ele ama a possibilidade de refletir, ama o próprio reflexo dEle, como eu compreendo melhor a amizade dEle por mim, a bondade dEle para comigo. Aquela união, que é a vida espiritual, como eu compreendo melhor por essa forma.
Aqui haveria uma verdadeira escola, eu não sei se percebem que é uma escola imensamente medieval pela alta elevação de vistas, altíssima, que ela confere a tudo.
Bem, e então, daí nasceria, por exemplo, para a próxima reunião, em vez de eu falar, os senhores bate-bolarem entre si mais uma vez sobre como é que se sentem, como é que vêem em face disto, que lacunas têm, que perguntas têm, para compreender esse papel de ser uma luz viva de Deus que se reflete em cada um de nós e que a gente vai conduzindo a vida, que se liga ao que eu falei de Conde... [inaudível] ...por exemplo, um homem que não prestou, mas o que ele representava de arquetipia, Ricardo Coração de Leão e outras coisas no gênero.
Então, o bate-bola da próxima reunião poderia ser bem esse.
[Nota do copista: Aqui parece encerrar-se a reunião, pois há uma divisão na página do microfilme entre estes dois textos, com a jaculatória "Ad majorem gloriam Dei" interpondo os dois, mas não há nenhuma indicação concreta explicando se se trata de corte, ou de outra reunião.]
* A contínua preocupação com nossos probleminhas pessoais e nossas vaidades fecham nossas almas para os grandes horizontes desta reunião
Há uma inadequação do tema nos participantes da reunião. Os participantes dela gostam do ideal, se interessam pelo tema. Mas depois não vivem o tema. Porque é que não vivem o tema?
A questão é a seguinte: é que... para usar uma expressão que não existe em Português mas que existe na liturgia e que eu passo para o Português, "umbraticamente" existe o fato de que muitas pessoas têm pequenos problemas vivos decorrentes de um modo de ser egoístico, concreto, que são o oposto dos problemas medievais e até do próprio modo de ser do egoísmo medieval. E como a vida da pessoa é comandada por esses probleminhas e não pelos grandes problemas, a pessoa tem tudo isto que se diz medievalização como coisa do mundo da lua, porque o seu "problemóide" é outro, e a pessoa vive de fato para o "problemóide".
Por exemplo, um caso entre cem outros: uma pessoa é muito propensa a fobias e simpatias e isto porque ela é muito sensível ao agrado e desagrado em que ela é tida, ao respeito e ao desprezo em que ela é tida. Isso cria nela uma vivacidade de relacionamento com os outros, enorme: "Como é que ele me viu... como é que ele me olhou... Eu gosto tanto dele e ele me responde de tal maneira, foi pretensioso...", e lá vai aquela geena dentro da cabeça.
Bem, e isto decorre em probleminhas assim: "Amanhã eu vou ter tal reunião. Como é que eu vou ser tratado? E quando eu der a minha opinião, como é que eu vou ser considerado? Eu tenho uma bonita opinião pronta para aquela reunião, eu não tenho?"
Ou então: "Eu tenho um paletó chibante que eu inaugurei, vou ver que efeito vou produzir com o paletó".
Essas crises enchem a nossa vida de todos os dias, e os problemas que eu trato são problemas que ficam meio flutuando por cima disso, liquidam concretamente isso. O resultado é que nós nem sempre fazemos a adequação entre o problema tratado e a realidade com que nós vamos nos defrontar.
(Sr. ...: O fato de nos preocuparmos tanto com as coisinhas, no fundo não vem do fato de não termos constantemente presente os princípios RCR em tudo o que fazemos?)
É bem verdade, mas a coisa vai mais longe. É que a faceirice do medieval era de bancar... e aí aliás entrava um abuso de uma coisa boa, mas a faceirice é um abuso, por definição é um abuso. Se quiser eu falo de uma coisa que não era faceirice mas que passou a ser faceirice, mas que durante algum tempo não o foi: o ponto de honra do homem medieval. O ponto de honra do homem medieval era de na hierarquia dos tipos e arquétipos, ele tanto quanto possível, aproximar-se do arquétipo.
Então, ele vai, por exemplo, batalhar, o Conde Biancamano, o Conde das Mãos Brancas, vai duelar com o Conde Rosso numa batalha diante do Paço Municipal, digamos daquele paço de Siena que é de toute beauté, archi-beauté, ele vai batalhar. A vaidade dele não é de que notem que as mãos dele são brancas, como Pio VI, mas a vaidade dele é: "Como é, em tese, um Conde das Mãos Brancas? O que é que faz, num arquétipo, ter as mãos brancas? Que matiz de arquetipia representa o ter as mãos brancas, num conde?"
A vaidade de certa gente não consiste nisso, mas em ter, se fosse bonito ter mãos brancas, é mostrar que tem mãos brancas, e não é estar ligado com a arquetipia de um Conde Biancamano ideal, nobre e seriamente concebido, mas era que "elinho" tem mãos brancas. "Olha que bonito".
Então: "Fulaninho arranjou um paletó bonitinho. Olhe o paletó do fulaninho, eihn!"
É essa a forma de vaidade do homem contemporâneo, oposta a forma de vaidade do homem medieval, ou do ponto de honra do homem medieval porque é preciso distinguir: muitas vezes isso era ponto de honra.
Bem, acaba sendo que problemóides dessa natureza entram com freqüência, ou são tecidos da vida de uma pessoa de hoje em dia. E é o "elinho" se mostrar, com nenhuma referência a arquetipia nenhuma, e nenhum verdadeiro ponto de honra. Resultado é que os problemas aqui tratados ficam no ar, porque a vida real é outra.
(...)
O burguês não tem arquetipia. Em nenhuma época ele teve arquetipia. Ele tem é abdômen. E sem essa arquetipia o mundo fica com uma "sem-gracês" de chorar!
(...)
É ou não é verdade que toda essa problemática não é habitual à nossa vida quotidiana? E que, por exemplo, nós irmos atrás de nossa arquetipia, procuramos representar o Príncipe Herdeiro de nós mesmos etc., são cogitações que não são as nossas, nem fazem parte de nosso conceito de vida espiritual sequer. Nós ficamos sem horizontes.
(...)
A moda é uma convenção para substituir a arquetipia.
(Sr. ...: Porque é que nós, embora aceitemos em tese o princípio de que nós, para sermos completos, temos que nos conformar com o nosso arquétipo, isso, na hora de aplicar, nos move pouco?)
É porque, em última análise, toda a idéia de que alguém possa representar um princípio metafísico vivo na Terra, e que, por amor que a gente tem a esse princípio, até independente do amor que a gente tem ao Reino de França, a gente quer que ele viva, não é uma idéia que faz parte das preocupações concretas de sua vida.
O resultado é que você não tem, do homem medieval, nem sequer as vaidades.
(...)
E de que a causa exemplar está altamente presente como a idéia de uma representação. Quer dizer, "X" representa tal matiz de alma elaborada e destilada através da História pela família, que pode ser eventualmente uma família muito modesta – a família de Santa Joana d'Arc, por exemplo – "X" representa isto.
E este ideal é o modo pelo qual a pessoa concebe mais vivamente em si o absoluto. E ela compreende que pela ascensão da família, se consegue que esse ideal brilhe cada vez mais.
Então é um ato desinteressado de amor de Deus ao qual pode associar-se a vaidade, mas que não é principalmente a vaidade, que leva o zelar pela manutenção ou pela ascensão da família.
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