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(IHS) p.
EVP – sem data
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Título da reunião: Luís XIV
Local da reunião: Data da reunião: sem data (1974)
Copiador: Data da datilografia:
Extraído do microfilme pela Comissão Plinio Corrêa de Oliveira em: 22/8/96
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O minueto perfeito teria o esplendor de uma verdadeira cerimônia da corte, a graça de uma afabilidade, de um sorriso, de uma concepção amena da vida que fosse contrapeso do esplendor * A matriz do flash é algo de irreal, que a alma imagina, e que nunca existiu e nem deve existir, e que transcende até mesmo a idéia do que é o mundo dos Anjos na Criação * Quando nós vivermos constantemente em função das matrizes de flashes, teremos atingido inteiramente o ideal para o qual fomos chamados e o convívio entre nós seria perfeito
* O Sr. Dr. Plinio faz todos imaginarem como seria o Minueto de Bocherini – que não é "um minueto", mas "o minueto" – dançado em Versailles perante o Rei
Eu não chegaria a dizer que a teoria que eu dou é válida para qualquer minueto. Talvez seja, mas eu não ouvi assim com um senso crítico um número suficiente de minuetos e não tive tempo suficiente para pensar bastante sobre a questão para fazer uma afirmação genérica quanto aos minuetos.
Mas ao menos quanto ao minueto de Bocherini, que para mim é "o minueto" – nenhum é minueto como o de Bocherini, ele é "o minueto" – o minueto de Bocherini tem qualquer coisa no sentido de uma revista. Não é nem um pouco uma revista de tropa, mas é uma revista. Em que sentido uma revista?
Quer dizer, nós devemos imaginar uma sala de corte, o rei e a rainha nos seus tronos, os príncipes e as princesas da Casa Real em poltronas, os duques e pares – tão caros a Saint-Simon – em poltronas e tabourés sucessivamente, os príncipes em poltronas e os duques em tabourés; e devemos imaginar como se fazia o minueto em Versailles, com a Galeria dos Espelhos, de um lado e outro, com arquibancadas com pessoas da nobreza ou da alta burguesia de Paris postas para verem dançar o minueto.
E então entrarem os pares vindos, digamos, do fundo da sala ou de uma sala ao lado, entrarem dançando o minueto, fazendo reverências uns para os outros, fazendo a reverência diante do rei quando passavam diante do rei, e circulando de novo. Era a corte, celebrando um ato, que era um ato – se quiserem – lúdico. Quer dizer, um jogo, um ato lúdico – não é lúbrico, entendam bem – um ato lúdico no qual as pessoas eram passadas em revista no seu charme, no seu esplendor, na sua maior graça, na sua maior beleza, para a corte ter a fisionomia de si mesma, e deleitar-se com "ser" aquilo. Bem, isso era propriamente o minueto.
É preciso notar que esses minuetos, muitas vezes, eram altamente hierarquizados: em tal momento o Duque de Sagan faz tal cumprimento para Madame la Princesse La Roche Bruyon, e lá vai aquela coisa. E mais adiante Madame la Princesse La Roche Bruyon faz tal cumprimento assim para o Duque la Rochefoucauld. Isso se espalha, a reciprocidade dos cumprimentos se multiplica como uma harmonia pela sala indicando uma harmonia de relações sociais – e uma harmonia hierárquica, porque harmonia quer dizer hierarquia – juntamente com a harmonia dos gestos, harmonia das atitudes, a beleza dos trajes, o esplendor das jóias, a nobreza das expressões fisionômicas, dos sorrisos, etc., etc.
Bem, seria um pouco como um exército que precisa organizar uma grande revista para ver-se a si próprio. E o ver-se a si próprio, nesse sentido – não é como o de um homem faceiro e sobretudo uma mulher faceira que olha no espelho para ficar mega consigo – é o conhecer a sua própria face para ver que perfeição Deus pôs nessa face, e amar a Deus em si. Isso é um alto grau de tomar consciência de si, e é uma coisa que no fundo tem um sentido religioso.
* O minueto perfeito teria o esplendor de uma verdadeira cerimônia da corte, a graça de uma afabilidade, de um sorriso, de uma concepção amena da vida que fosse contrapeso do esplendor
Agora, nesse estado de espírito, na situação cultural, etc., etc., do tempo do minueto, havia uma necessidade de fazer as coisas com muita solenidade, mas uma verdadeira necessidade de compensar essa solenidade com muita graça, com muito charme. E o minueto perfeito seria o que reunisse o esplendor de uma verdadeira cerimônia de corte, com a graça de uma intimidade, de uma afabilidade – a palavra intimidade não está bem escolhida – de uma afabilidade, de um sorriso, de uma concepção amena da vida que fosse o contrapeso do grande esplendor a que a vida tinha chegado, porque a vida tinha chegado a um tal, tal esplendor que massacrava o homem se ele não tivesse esse complemento.
E Watteau era não um corretivo, mas o contrário, o oposto harmônico da majestade introduzida por Luís XIV em todas as coisas e que em muitíssimos pontos Luís XV e Luís XVI evidentemente continuaram.
Então a gente vê a coexistência de uma grande seriedade, e depois, de um sorriso, mas de um sorriso profundamente sério, porque é um sorriso de quem sabe quem é, e que do alto daquilo que é, por gentileza e bondade sorri como quem diz: "eu sou tudo isto, e é tudo isto que sorri para você". Não é, portanto, o sorriso do peralvilho que anda pela rua – eu escolho a palavra porque ela diz bem o que eu quero e, jeitosamente, somos todos jeitosos aqui, eu não preciso explicar o que é a palavra porque todos entenderam o que é o "peralvilho" – o peralvilho que anda pela rua e de repente vê um cachorrinho engraçadinho e "ahhhh"...
Não é o sorriso do peralvilho, não, mas é o sorriso de quem sabe que é tanta coisa, que sorrindo faz um ato de bondade, e que oscula aquilo a que sorri como uma espécie de comunicação de todos os esplendores que tem dentro de si. Vamos dizer, por exemplo...
(...)
... quando se entende que é o sorriso, é o sorriso do homem, nem há homens, do senhor ou da senhora, que, segundo a expressão muito interessante de Saint-Simon, se sant, quer dizer, sente-se [do verbo sentir]. Saint-Simon quando queria elogiar uma pessoa que tinha muito o senso da dignidade, ele dizia "ele se sentia muito", quer dizer, ele sentia muito em si o que ele era, e a respeitabilidade do que era. De onde o minueto, assim entendido, ser a música do respeito.
E é o meu gosto pelo minueto. O respeito está na grandeza, e depois, o respeito está no afeto, no carinho, no sorriso, do mesmo modo. Percorre de ponta a ponta a gama dos possíveis sentimentos humanos. E isto forma do minueto uma obra-prima.
Eu não sei se esta teoria do minueto está bem compreendida ou não. Bem, para que eu acabe de a tornar clara, é preciso notar bem isto: o minueto não é tanto uma dança – não é um pula-pula ignóbil de nossos dias, bem entendido – mas também não é tanto uma dança quanto falanges ou ondas vaporosas e perfumadas de gente que vai avançando ao longo de uma galeria vazia, e seguidas então de outros.
Então, para ouvir o minueto de Bocherini, os senhores têm que imaginar a Galeria dos Espelhos vazia, e no fundo os primeiros grupos se formando e avançando... eu quase diria "em cordão", mas em cordão de oito, de dez ou de quinze, fazendo piruetas uns para os outros, etc., e caminhando até o rei. Chegando diante do rei, fazendo uma profunda reverência, e depois virando e deixando lugar para outros. Quer dizer, a marcha progressiva está presente no minueto. E um pouco desta atitude do respeito feudal diante do rei, um pouco de quem diz "senhor, vede quem eu sou, eu me sinto, eu sou uma alta emanação de vós mesmo" e um pouco de súdito que faz diante do rei uma profunda reverência. As duas coisas existem juntas no minueto, e são um outro traço da graça do minueto, mais visível em Bocherini do que em todos os outros minuetos que eu conheço.
Bem, isto seria a digressão sobre os minuetos. Não sei se querem me objetar alguma coisa, perguntar...
* O Sr. Dr. Plinio faz comentários sobre duas diferentes gravações do Minueto de Bocherini
[audição do minueto de Bocherini]
Notem que está indo para a frente, não? E cada vez mais alto, porque está chegando diante do rei.
Do ponto de vista estritamente musical, essa interpretação é uma verdadeira maravilha de leveza, de graça, etc., mas não interpreta perfeitamente o espírito do minueto de Bocherini. O espírito é mais espanholado do que está aqui, isto está muito afrancesado... e era preciso talvez pensar mais em espanhóis do que em franceses dançando para compreender o que é que ele pôs na coisa. Para ilustrar um pouco a coisa, eu não tenho remédio senão tentar cantarolar com minha voz já desafinada, e o desafinamento agravado pela rouquidão com que estou. [O Senhor Doutor Plinio cantarola o minueto de Bocherini]
Quer dizer, é sempre uma nota grave e altiva que se desfaz no sorriso e não é tanto a continuidade realmente muito harmoniosa e muito bonita posta aqui. Quer dizer: para quem quer fazer música, isto é, no gênero, uma obra-prima, mas para quem quer fazer sociologia a coisa é diferente da música.
Então, me perdoem o desafinamento, mas eu vou pôr a coisa altiva [O Senhor Doutor Plinio cantarola o minueto de Bocherini] e não é tão corrido. Há sempre um intervalozinho entre cada nota. Quando chegou ao último do harmonioso, retoma o tema inicial. A gente vê a duquesa com o plumet e com o esplendor dos escudos que se reergue do sorriso mais duquesa do que nunca. Eu não sei se nessa cantarolada horrorosa eu exprimo bem o vai e vem.
Aqui estaria este minueto que daria uma interpretação da harmonia, da cultura daquele tempo, feita exatamente de alta distinção e grande suavidade. Eu considero que um minueto que fosse tocado assim interpretaria a meu ver o tempo para o qual Bocherini tocou, e o lugar. Porque então a gente precisa imaginar um nobre espanhol alumbrado com o olho preto aceso, e que vem avançando, pegando na senhora duquesa por la mano, e a toma à direita, e ela também é uma senhora das ilhas e das situações, está compreendendo... e que vêm avançando os dois na presença do rei.
O rei católico, no seu trono, olhando firme, e sorrindo enquanto a coisa se desfaz numa gentileza assim. E que tanta gentileza contenha tanta majestade, e tanta majestade contenha tanta gentileza, aqui está o equilíbrio. Mas esse é o equilíbrio que eu quisera que as coisas da nossa roda tivessem. Bem, e que eu acho que é ainda muito mais alto em São Luís.
Quer dizer: nós temos que imaginar, então, no tempo da Idade Média, uma dança desse tipo dançada por aquelas senhoras que usavam aqueles chapéus cônicos, altivos, dos quais pendiam véus vindos do oriente e levíssimos, que qualquer brisa punha em movimento. Chapéus que eram mais ou menos como a sabedoria, quer dizer, um reflexo aqui atrás da cabeça, e depois aquele véu que desce. E os nobres com armadura, quase dançando de armadura e jogando com a espada.
Aí a gente compreenderia ainda melhor quais são as raízes psicológicas, morais e culturais de um minueto, imaginando um super-minueto medieval.
(Sr. -: Essa gravação foi tocada por um quarteto italiano muito famoso chamado "Quarteto Italiano". Agora, aqui está uma outra gravação [audição da nova interpretação])
Essa interpretação tem mais, mas não tem tudo o que poderia ter. Mas é um pouco plangente, deveria ser mais afirmativo.
(Sr. -: Tem uma nota meio cigana, não é?)
É. E um pouco sentimental, chorosa. Há um pouco de lambida romântica dentro disso. Todos eles procuram dar ao minueto o ritmo de cavalinho cavalgando, e é falso, não é isso: é fidalgo andando, progredindo... assim mesmo é muito bonito, muito bonito!
(...)
... porque é quase ucranizado que nós deveríamos considerar aquele comentário que nós fizemos do lilás e do azul, não sei se lembram?
(Sr. -: Na perspectiva do Bocherini?)
Que nós devemos focalizar aquele comentário que nós fizemos outro dia a respeito do lilás e do azul.
(...)
... esta é a coisa que resta, e nós somos o resto antes de tudo e acima de tudo, porque no ponto central de nossa alma nós amamos essas coisas como elas deveriam ser. E, portanto, é uma tradição daqueles tempos que vêm até nós e que em nós vive. E nós somos o futuro.
E eu não sei se percebem que no momento em que nós falamos entra uma certa ação da graça – não sei se percebem que há uma certa ação da graça aqui na sala. Esta graça, que é uma coisa toda interior, é um fenômeno por onde Nossa Senhora nos diz "Meus filhos, sede assim! Assim é que se deve ser. Assim é a coisa", etc., etc. Essa é, vamos dizer, a hora em que os sinos adormecidos de nossa vocação tocam no fundo de nós mesmos e em que nós nos sentimos inteiramente nós mesmos.
* A pessoa que quisesse ser séria e inteiramente fiel deve ter sinos tocando dentro da alma, e começar a se desinteressar pelas coisas que não merecem interesse
Então, se uma pessoa quisesse inteiramente ser séria e inteiramente ser fiel, era ela o tempo inteiro ter dentro de si sinos desses tocando. Daí começa a se desinteressar pelas coisas que não merecem interesse. Por exemplo, encosta num posto um novo caminhão de gasolina para abastecer o posto, e perguntar se é fabricação européia ou nacional... onde é que foi fabricado, etc., ou então comentários nhonhôs sobre o mau cheiro da gasolina, que eu até comento às vezes, mas com a alma posta em outríssimo diapasão, estavelmente, fixamente. A gente tem que morar num outro lugar, aqui é que está a questão.
Então, é pena eu não ter o cartão postal que me mostraram hoje cedo do Fujiyama que é o cone mais bonito do mundo, e é o cone que não existe, e que é uma espécie de ponto etéreo e não definível no qual todas as belezas do Fujiyama e de todos os cones se concentram – é essa a tal zona de alma onde o homem deve morar, fixamente, para se aproximar de Deus.
E considerar um exílio cada vez que ele tem que descer para o concreto porque o concreto não é o auge da realidade. O auge da realidade é o tal cone. E é quando a gente mora fixamente nesse lugar é que a gente pode tratar todas as coisas que acontecem como coisinhas vistas, não é do alto do monte, mas do alto de uma mera ordem de ser.
Então, não sei... a gente tem que comprar um relógio, pensa um pouco, compra o relógio adequado e está acabado. Mas não são os longos apegos, filosofias, etc., etc., "o meu pulso, que largura tem o meu pulso, tal relógio ficará bem no meu pulso"... e outras besteiradas desse gênero, está compreendendo? Pelo contrário, a pessoa deixa, e o espírito fica nessa atmosfera Bocherini das coisas, ou nessa esfera "cones do Fujiyama" das coisas.
* A grande beleza do gótico não é o que se vê nos álbuns, mas sim uma como que qualquer coisa que paira por cima do gótico
E a grande beleza do gótico, não é no que dão os álbuns, mas é qualquer coisa que paira por cima do gótico e que é o cone Fujiyama do gótico e é diante do qual nós nos extasiamos. Por exemplo, entrando na Catedral de Notre Dame, o que ela tem de mais bonito não é a parte construída: é uma parte não construída que constitui uma espécie de complemento aéreo por cima dela e que vagamente nós intuímos, e de que aquela flecha, atrás, – que é genial, é do Violet le Duc, mas é genial – dá uma certa noção. A gente olha para aquelas duas torres: "colosso"! É o real.
Depois, por detrás, aquela flecha fina, esguia, é o irreal. O irreal, entre aspas, porque é o auge da realidade. Então, a gente vê aquelas duas torres, e delas se destila, num ponto indefinido, algo de muito gracioso e superior, firme como uma ponta de lança, mas delicada como um sonho. É ali que o melhor da catedral de Notre Dame se põe.
Agora, eu não sei se a massa das pessoas que pára diante da Catedral de Notre Dame forma para si essa idéia. Bem, essa idéia fica meio confusa no espírito delas, mas tão confusa que elas não prestam atenção e não aproveitam nada. O resultado é o seguinte: saem de lá...
(...)
... Bocherini, Fujiyama, digamos, portanto, alta contemplação, ou a vida não é nada. É o que o Rei Luís II, da Baviera, quis fazer foi construir isso. Ele terá sido mais feliz ou menos feliz, mas ele pelo menos teve o golpe de gênio de ter construído isso. E isso é uma maravilha.
(Sr. -: Aquele barco de cristal puxado por cisnes.)
(Sr. -: Trenó dourado no meio da neve.)
Trenó dourado no meio da neve, está compreendendo, no qual vai o Rei da Baviera, o descendente dos Wittelsbach, bem, tudo isto são "bocheriníadas" que, vamos dizer, o Garcia Moreno não é o Presidente da República do Equador, apenas. Ele o foi, e dignificou o cargo. Mas, sobretudo, o que ele foi, foi o "Bocherini" do Equador, o equatoriano ideal e perfeito no qual se resume e condensam todos os equatorianos que deveriam ter correspondido ou que algum dia corresponderão à vocação.
Então, toda a história tem seus homens "Bocherini", tem suas damas "Bocherini", vamos dizer, até a cabanazinha do camponês que a gente imita no doce de Natal com pão de mel e com glacé de açúcar, até isto é algo de fabuloso, de "bocheriníaco" no gênero plebeu e camponês. E é sempre com o espírito voltado para essas coisas que a gente vive.
(Sr. -: Seria a idealização, a coisa como que vista através dos olhos de Deus, no seu aspecto mais nobre.)
Isso.
(Sr. -: Aquela flecha de Notre Dame, aquilo é a alma de Notre Dame, o resto é o corpo. A gente vê naquela flecha como que uma coisa meio etérea pela qual a gente vê a alma daquela catedral.)
É uma coisa que se chamaria irreal, mas que é o auge da realidade.
(Sr. -: Desse ponto de vista, nós afirmamos que o irreal é o auge da realidade.)
E não é inteiramente homem e não se realizou aquele que não comunicou aos homens o aspecto Bocherini de uma alma, porque a gente se realizar, é ter destilado dentro de si o aspecto Bocherini da própria alma, e fazer os outros sentirem. Isso é realizar-se.
Imaginem que a Catedral de Notre Dame fosse um ente vivo, que tivesse crescido em todas as direções, mas no qual não tivesse crescido a flecha. Não estava realizado. Ora, todos nós temos uma flecha que os outros deveriam ver.
(Sr. -: É a perfeição de Deus da qual nós somos príncipes herdeiros, não é?)
Príncipe Herdeiro e si próprio. Todos nós temos essa flecha, e todos nós deveríamos fazer ver isso pelos outros, desde o mais humilde dos homens, até o efetivo príncipe herdeiro no país que o tivesse. Mas assim é que as pessoas deveriam ser.
(...)
... sabem que a mim me distrai mais tratar disto do que fazer uma viagem, por exemplo. Se me oferecessem agora "quer ir a uma cidade do interior assistir tal coisa?", eu prefiro isto. Aqui a minha alma se expande, eu tenho a esperança que a alma dos senhores se expandam também, pelo menos um tanto, assim nós vivemos.
* A matriz do flash é algo de irreal, que a alma imagina, e que nunca existiu e nem deve existir, e que transcende até mesmo a idéia do que é o mundo dos Anjos na Criação
(Sr. -: O que se convencionou chamar de matriz de flashes em outras reuniões, corresponde a essa moradia ou a esse lugar da alma?)
Não. Isso é o flash. A matriz de flash é algo de irreal, que a alma imagina, e que nunca existiu, e que nem deve existir, e que é a idéia que ela faz tão idealizada das coisas, que corresponde ao que é o mundo dos Anjos na Criação. Transcende ainda a isso. E nós somos os convidados a morar no flash e na matriz de flash. E aquele olhar de Santa Teresinha, para mim, é um olhar fabuloso porque nele se refletem flashes e matrizes de flashes indizíveis. Vou dizer mais, hein?! Matriz de flashes em estado puro do que flash propriamente dito.
[Comentário da fotografia de Santa Teresinha ajoelhada ao lado de uma cruz, com um livro na mão]
Não sei se percebem que ela, no fundo, é só olhar, porque aquilo é só olhar. E que nesse olhar ela está vendo qualquer coisa de uma elevação, de uma beleza suprema, e de uma grandeza, em que ela se perde completamente. O olhar dela tem o charme de todos os minuetos, tem a graça de todas as épocas, tem tudo que nós podemos imaginar. Mas é um olhar.
Agora, olhar do quê? Ela possivelmente diante de si tem um muro parecido com o que ela tem atrás de si. Ela não está olhando para o muro. Os senhores dirão: "mas ela tem atrás de si uma cruz de madeira e uns lírios". Mas a cruz que ela vê e os lírios sobre os quais ela pensa são outríssima coisa do que essa cruz e esses lírios.
Não acham, por exemplo, que faz bem meditar sobre isso, que eleva a alma? Outra coisa: que descansa. Vamos dizer o seguinte: que é outro mundo.
(Sr. -: O Les Très Riches Heures du Duc de Berry, em certo sentido não seria algo? A matriz de flashes para nós não seria uma espécie de "Très Riches Heures du Duc de Berry" pessoal que cada um de nós tem a respeito da realidade externa?)
É isso.
(Sr. -: Quer dizer, é uma espécie de composição que nós fazemos da criação, mas não como ela é concretamente, mas uma coisa completamente idealizada?)
Idealizada, e exatamente essa idealização feita pelos homens, quando é feita em comum sob a inspiração da Igreja, que constitui uma civilização. Nisso os homens são irmãos, nisso eles se imbricam e eles se ligam uns aos outros, etc., etc.
E eu chego até a última ponta-de-lança do negócio: ser inteligente não é raciocinar muito bem, nem é demonstrar muito bem. É ter o espírito pousando nesta atmosfera dos flashes e matrizes de flashes, e ter o espírito iluminado por essa atmosfera. Isto é que é ser muito inteligente.
Um esgrimador de raciocínios... uma inteligência minor. É como a gente chama de possante um caminhão. Bocherini é muito mais possante do que um caminhão. Mas o possante do caminhão é um possante, é possante não é? Mas é um possante tão inferior ao possante do Bocherini, que a gente teria vontade de dizer "por favor, não compare".
* O Sr. Dr. Plinio é um venerador da lógica que passou grande parte de sua vida raciocinando, mas sem ter se limitado a ser somente um raciocinador
Quem está dizendo isto é um venerador da lógica, e que tem passado grande parte de sua vida raciocinando. Mas eu me sentiria muito diminuído se eu fosse raciocínio apenas. E eu creio que os senhores não me reconheceriam em mim mesmo se eu fosse apenas um raciocinador. Não é verdade isso? Uma parte de nossas almas não se encontrava e os senhores ficariam numa espécie de orfandade se eu fosse apenas um raciocinador.
Há algo mais do que isso, que aliás é uma operação racional subconsciente por onde a pessoa chega a esse zenith. Mas este é o ponto que a gente deve entender aquela frase de São João, que aliás Santa Teresinha cita: au soir de cette vie nous serons jugés selon l'Amour. Mas é o amor do quê? Da matriz de flashes e do flash.
Quando chegar a noite desta vida, e que – se Nossa Senhora me permitir – eu na hora de morrer faça um grande e firme Nome do Padre como fez Santa Teresa, e com o nome de Maria nos lábios eu pronunciar a última palavra de minha vida, como eu gostaria que a última palavra de minha vida fosse Maria... tudo o que eu disse teria o seu fecho perfeito porque eu disse a palavra que agrada a Deus perfeitamente; a palavra imaculada em que vai todo o meu entusiasmo e minha veneração teria sido dita.
Nesse momento, meus olhos se fecham e se abre o meu julgamento. A grande pergunta é: "que tens como matriz de flashes dentro da alma?", porque esse é o amor de Deus. E isso é o viver. E eu posso dizer que mesmo no hospital, nas horas mais duras e até mais prosaicas, as matrizes de flashes, dava para notar que [elas] estavam presentes no meu espírito.
(Sr. -: A matriz de flashes não é como o flash que é uma coisa temporária. A matriz de flashes é estável e está na... é a câmara obscura, não é?)
Na câmara obscura, e esta é uma observação preciosíssima. A matriz de flashes fica... não é? Aliás, basta olhar para aquela foto de Santa Teresinha. Não sei se notam a grande estabilidade que tem ali, porque ali tem uma estabilidade do outro mundo! Mas do outro mundo! É de quem tem a alma completamente posta no que ela chamava l'autre rivage, a outra margem, ou l'autre rive. Já é a eternidade, porque tudo isso é eternidade. São representações que a mentalidade humana faz, para ter melhor idéia de uma eternidade que é muito parecida com isso, mas é muito diferente disso, e ainda é mais bela do que isso.
* Quando nós vivermos constantemente em função das matrizes de flashes, teremos atingido inteiramente o ideal para o qual fomos chamados e o convívio entre nós seria perfeito
E aqui, por exemplo, isto com esta graça, é uma reunião típica de Confraternitas Laicalis. Assim, eu imagino a Confraternitas Laicalis: almas completamente unidas no habitar estavelmente as matrizes de flashes. Aí se pode dizer quam bonum et quam jucundum est habitare fratres in unum – quanto é bom e alegre os irmãos morarem in unum. Mas o unum é esse.
Os senhores não se sentem, por exemplo, muito unidos durante essa conversa? Não é verdade que haveria uma facilidade para todos perdoarem as ofensas recíprocas de tal maneira que era como se nunca tivessem existido?
Então vem o "heresia branca" fazer digressão sobre o perdão das ofensas. Ele não entendeu o cume de onde baixa esse perdão das ofensas, não entendeu. A coisa é outra. É uma altura tal que a ofensa fica apagada, nem se fala a respeito dela, é ninharia, é bagatela. E a beleza da Igreja Católica é nós imaginando um clero pregador das matrizes de flashes. Essa é a beleza da Igreja. Sobretudo da matriz das matrizes de flashes que é Nosso Senhor Jesus Cristo. É só pensar no Santo Sudário, é uma matriz de flash...
Ele todo é super-matriz de flashes. Não se pode imaginar, não se pode conceber, etc., etc., etc. Ele todo. E depois, Ela. Aqui está.
Por mais incrível que seja, quantos "heresia branca" ficariam indignados, mas é verdade, a meditação sobre o minueto! Mas não é verdade? Creio que em muitos lugares um mundo de gente ficaria indignada, mas está bom: mas é verdade!
Agora, eu não ousaria pôr isto numa antena de rádio, embora eu soubesse que isso ia fazer bem para um canceroso...
(...)
... então, agora imaginem, quando Nossa Senhora proclamar o Reino dEla, as harmonias que se ouvirão, e as belezas... [inaudível]. Aí nós temos noções, noções, noções.
(Sr. -: Para alguns espíritos, a leitura de Maria de Ágreda e de Saint-Simon se fazem numa seqüência harmônica, porque extrai de cada coisa o melhor delas, o melhor da realidade, quando se caminha para um vértice, uma visão vertical das coisas. Então as coisas se aproximam: Maria de Ágreda fica perto de Saint-Simon e Saint-Simon fica perto de Maria de Ágreda. Foi o que se deu aqui: a propósito do minueto tirou-se toda uma visão religiosa que por sua vez reverte-se para o minueto.)
Isso. E que no fundo não é senão uma interpretação do minueto a fundo.
(Sr. -: Melhor que o minueto.)
Melhor que o minueto. Mais. Eu reputo o seguinte: que o indivíduo que ouve esse minueto e não faz essa interpretação, não ouviu. É como um analfabeto que olhasse para aquele castelo imaginário que aparece numa capa de uma publicação, e que não faz esse raciocínio que nós fizemos. É nada.
Querem ver nesse castelo a nota que equivale à agulha de Notre Dame? É esta parte. É o claro obscuro do desenho, sobretudo esta parte central ter sido pintada mais obscura. Aí é onde tudo o que o castelo tem de imponderável aparece.
(Sr. -: É uma capela, uma espécie de Sainte Chapelle.)
Vejam que maravilha! A capela flanqueada por duas torres. Somos ou não somos nós por inteiro? Nós não compreendemos a torre sem a capela, mas também não compreendemos a capela sem a torre.
Bem, é isso que querem destruir. Querem pegar o último fogacho disso que há no mundo e querem destruir, mas destruir à la eles, com todas as infâmias possíveis.
* Procura-se atualmente impedir, durante toda a vida de algumas pessoas, que elas tenham matrizes de flashes nas almas
A vida inteira, hoje, em algumas famílias, desde que a criança nasce até a hora em que ele morre há uma conspiração para que ele não seja assim, ele não tenha essas matrizes de flashes na alma. E, no fundo, a Cathédrale engloutie [ilegível] a matriz de flashes sepultada sob as águas do olvido e de mil outras coisas.
(Sr. -: É o último fogacho, mas esse último fogacho tem uma intensidade de fogo extraordinário, porque tudo se reuniu aí. Então a gente vê a beleza do elemento histórico, porque recolhe tudo isso. E aquela imagem que vimos outro dia da pessoa que visse a estrela de Versailles, ela também recolhia o melhor do que se tinha se passado. Agora, Nossa Senhora recolhe todos Versailles, etc., e nos convida a subir, porque para recolher com Ela nós devemos subir alto, porque nós só recolheremos verdadeiramente se nós pusermos nesse plano a que Ela nos convida. E nesse resto, ou se recolhe isso, ou não tem significado. A existência do resto é isso.)
(Sr. -: Numa reunião passada o senhor teria dito que para entender bem a Nossa Senhora, era preciso entender bem o ódio que os maus tem a Ela. E sem isso não se entenderia a Ela. Agora, é impossível entender esse ódio sem entender isto.)
É impossível. Esse ódio seria ininteligível. Não é sequer possível senti-lo sem entender isto. Quer dizer, ninguém entende esse ódio se não tiver entendido o que foi dito.
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