Santo do Dia ─ 30/12/69 ─ 3ª feira . 5 de 5

Santo do Dia ─ 30/12/69 ─ 3ª feira

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Leitura de uma ficha sobre a vida de São Sebastião Valfré * Traços de um grande sacerdote santo do Ancien Régime * Perdida a unidade e a seriedade medievais, a produção intelectual vai passando das grandes sumas doutrinárias para pequenas obras sobre assuntos específicos * A Igreja vai engendrando para cada forma nova de comunicação, formas novas de talento * Louis Veillot, grande jornalista católico do século passado * Por um castigo, não houve quem alertasse a opinião pública para a decadência das formas de comunicação

Como ficha do dia nós temos hoje uma biografia do bem-aventurado Sebastião Valfré tirada de Rohrbacher “A vida dos Santos”.

* Leitura de uma ficha sobre a vida de São Sebastião Valfré

Sebastião Valfré, nascido na Sabóia, em 1629, morreu em Turim, em 1710. Sacerdote oratoriano, grande apóstolo da caridade, virtude em que se distinguiu durante toda a sua vida. Famoso pela santidade de vida, amor à oração e ciência, teve enorme correspondência com bispos, sacerdotes e grandes personalidades da corte sobre assuntos de teologia, ou dando numerosos conselhos sobre questões várias. Apesar de ter todo o seu tempo ocupado, deixou obras realmente úteis: “Curta instrução às pessoas simples”, que obteve grande sucesso, “Exercícios cristãos” e “Meio de santificar a guerra”, destinado aos que abraçavam a carreira das armas.

Esse “Meio de santificar a guerra” seria bem interessante se a gente tivesse. Mandar vir da Europa, talvez, qualquer coisa assim. Quem sabe se alguns dos senhores aqui presente quer me fazer o obséquio de tomar nota disso. Mandar, a comissão do exterior pode mandar vir de uma biblioteca européia, qualquer coisa. Bem.

Especialmente devoto da Santíssima Virgem, quando começava a ensinar teologia, uma das primeiras verdades sobre a qual chamava a atenção dos alunos era a da Imaculada Conceição. Durante seis meses explicava a Ave-Maria, palavra por palavra. Cada uma deles lhe servia de tema para as aulas. Além disso, recomendava especialmente a devoção aos Anjos da Guarda. Dizia que em todas as suas necessidades e aflições jamais deixava de invocar seu santo anjo e por ele nunca fora abandonado. Seu terceiro zelo era voltado às almas do purgatório, pelas quais nunca deixava de rezar todos os dias.

* Traços de um grande sacerdote santo do Ancien Régime

Não é muito simples fazer essa biografia porque ela contem, vamos dizer, os grandes traços do sacerdote santo desse período. Como houve muitos santos e muitos sacerdotes, grandes santos nesse período, acontece que esses dados todos mais o menos já estão estudados. Há alguns pequenos esclarecimentos que podem ser dados. Em primeiro lugar, talvez os senhores tenham tido uma certa surpresa em ver que a correspondência ocupava na vida dele um tal papel. Mas os senhores precisam tomar em consideração que ele viveu exatamente no tempo de Luis XIV, quer dizer, no auge do Ancien Régime, em que as condições de comunicação do pensamento eram muito diferentes das de hoje, mas de algum modo já prenunciavam as de hoje. Já prenunciavam em que sentido? É uma coisa curiosa na história dos descobrimentos, das invenções, e das modificações da vida social, como com longas antecedências vem nascendo no espírito das nações apetências para as coisas que depois descobrimentos inesperados vão fazer nascer. Eu me explico melhor.

* Perdida a unidade e a seriedade medievais, a produção intelectual vai passando das grandes sumas doutrinárias para pequenas obras sobre assuntos específicos

Quando nós analisamos os livros da Idade Média, nós notamos aquelas coleções: é a era do pensamento sério, das Sumas; depois, livros escritos em pergaminho, em material grande, bibliotecas com aquelas coleções enormes, etc. Bem, quando aparece a imprensa, começam a aparecer os livros menores. O material vai se tronando mais leve, mas também simultaneamente, e por uma analogia, uma simultaneidade puramente casual, causal, simultaneamente começam a desaparecer também as grandes sumas e as grandes obras de conjunto.

O espírito humano, perdendo aquela unidade medieval, vai se tornando fragmentário e vai produzindo obras menores sobre pontos dados, e vai perdendo apetência para as grandes universalidades de pensamento, para os grandes conjuntos do pensamento. De onde as coleções de livros ainda continuarem a existir, mas com uma tendência a desaparecer e darem origem ao ensaio, ao livro especializado.

Mas já no tempo de Luis XIV, no tempo, portanto, de Madame de Sevigné, começam as cartas a tomarem um papel paralelo aos livros. As estradas se tornaram muito mais seguras, o transporte por mensageiros a cavalo e a carruagem começou também a se tornar mais fácil, mais seguro, e portanto a correspondência postal, sem ter tomado a institucionalização que ele tomou no século XIX, foi entretanto se tornando também ela mais metódica. E com isso começa a aparecer um estilo novo de comunicação de pensamento, mais delgado do que o livro, e que é a carta.

Há cartas de duas espécies: a carta tratando de um assunto doutrinário e a carta dando notícias. A carta tratando do assunto doutrinário era muitas grandes cartas que grandes personagens escreviam. Anteriormente a esse nosso santo, o infame Erasmo, por exemplo, um pouco posteriormente a ele o infamíssimo Voltaire, fizeram uma obra revolucionária através de cartas, enorme, que eram cartas muitas vezes doutrinárias, ou de análise de fatos, que eles mandavam a outros cem homens célebres do tempo, em geral. Célebres por sua cultura, por seu talento, ou célebres pela alta posição política, pela ligação que tinham com os acontecimentos do tempo, pela categoria eclesiástica ou nobiliárquica que ocupavam, etc.

E essas cartas depois eram transcritas, copiadas. O sujeito que recebia a carta, vamos dizer, por exemplo, um sujeito qualquer que recebesse uma carta de Erasmo ou Voltaire de volta, ele tomava a carta dele, mais a resposta e publicava. Aquilo era impresso então e era distribuído. Ele mesmo mandava para as relações dele, para verem que ele escreveu uma coisa tão importante que o grande Erasmo, o grande Voltaire se dignou responder. Então, as duas cartas constituíam quase que um tratadinho a respeito de alguma coisa.

E era muito apreciado, que se era, por exemplo, uma carta de controvérsia, de dois personagens sumos a respeito de um assunto. Então publicar juntas as cartas. Vamos dizer, por exemplo, uma troca de correspondência entre o Cardeal Cajetano e Lutero, por exemplo, era uma coisa, um fino alimento para os espíritos eruditos.

Os senhores estão vendo que vai nascendo de longe o artigo de revista e o artigo de jornal. Antes de haver a revista e o jornal, o espírito humano vai engendrando algo que prepara as condições para a revista e o jornal. Bem, ao mesmo tempo têm os noticiários, que circulam então largamente. E antes da imprensa atingir o desenvolvimento que ela a tingiu no século passado, antes da imprensa atingir esse desenvolvimento, havia agências de notícias manuscritas nas capitais dos países, que mandavam as noticias manuscritas para o interior mediante assinatura. E já eram, portanto, jornais escritos, antes de haver propriamente jornais. De tal maneira o espírito humano vai adiante da descoberta. Depois é que vem a descoberta, e alcança celebridade, mas é porque havia condições no espírito humano para notar aquele progresso e para aproveitar. Senão aquilo ficava desapercebido e ninguém se incomodava.

* A Igreja vai engendrando para cada forma nova de comunicação, formas novas de talento

Bem, é bonito notar que a Igreja vai engendrando para cada forma nova de comunicação, formas novas de talento. De maneira que a epistolografia, que desde os tempos dos romanos estava decaída, tomou exatamente, a partir do século XVI, um realce mais, ou melhor, um realce muito grande.

E então os senhores vêem grandes santos escreverem grandes cartas, e haver grandes santos epistológrafos. E aqui os senhores têm o nosso santo que escreveu três livros e uma multidão de cartas. Ele que era grande teólogo, grande filósofo, etc., etc., ele escreveu uma multidão de cartas. Cartas que, com certeza, circularam no tempo dele, e fizeram muito bem, porque era um estilo clássico de se comunicar. Hoje a carta decaiu enormemente porque o jornal tornou a carta sem importância. Os senhores compreendem toda a importância da carta se não houvesse o jornal. Os senhores imaginem por exemplo, não havendo jornal, nós estamos aqui. De São Paulo, mandar uma carta, por exemplo -se não houvesse nem jornal, nem rádio, nem televisão, nem telefone o que seria uma chegada de uma carta para a fazenda do Morro Alto, em Amparo, contendo as coisas que se passaram em São Paulo. Quer dizer, seria um festim. E reciprocamente. Os senhores compreendem bem a tendência, para o individuo que recebe essa carta ou melhor, para o individuo que escreve essa carta, aprimorar o estilo, sabendo que as noticias vão ser tão bem aproveitadas, em fazer um bonito estilo, para que depois se faça um comentário: Oh, mas que lindo português tem ele! É evidente, não é verdade? E depois, então, em arranjar um bonito papel, e arranjar uma bonita caligrafia. Quer dizer, tudo o que cerca a carta chegou a seu apogeu neste tempo. E então nesse tempo também nós temos um grande santo, que é então um grande epistológrafo.

* Louis Veillot, grande jornalista católico do século passado

Como no século passado nós tivemos o grande jornalismo católico. E o rei do jornalismo católico foi Louis Veuillot. Foi o jornalista católico perfeito. Realizando uma coisa que poderia parecer impossível, que é num estilo definidamente baixa de nível, fazer coisas de alto nível. A forma do jornalismo de Luois Veuillot era a seguinte: ele tinha uma visão penetrante e clara dos flashes da realidade. Ele não era nem um pouco um espírito capaz de fazer uma suma. Um ou outro livro assim de grande porte que ele quis escrever, não foi coisa nenhuma. Mas ele tinha uns flashes a respeito da realidade, uns aperçus, em que ele pegava a coisa com muita clareza. E tinha um francês ligeiro e insolente, que exprimia aquilo em três gotas de tinta. Em três gotas de tinta ele construía ou destruía uma pessoa, uma argumentação, ou uma refutação. De maneira tal que ele teve então a forma de talento para defender a causa ultramontana própria a esse estilo…

* Por um castigo, não houve quem alertasse a opinião pública para a decadência das formas de comunicação

Bem, aqui os senhores vêem também os desígnios secretos da Providência. E como são insondáveis as coisas de Deus. É bonito que Deus Nosso Senhor tenha constituído talentos que se adaptassem a essas varias formas que vierem. Nós não vemos um talento que tenha dado um brado de alarme contra as sucessivas baixas que essas formas representavam. Agora, por que? Evidentemente, castigo de Deus para a humanidade. Deus descontente, e que permitia que a casa fosse caindo em ruínas, e que ia dando engenheiros para irem pondo escoras na casa. Mas não deu engenheiros capazes de deterem a ruína e de reconstruírem a casa. Por que? Porque havia pecados no mundo que provocavam a cólera dele. Pecados em cadeia que foram provocando a cólera dele em cadeia. Por causa disso, nós chegamos no momento em que a casa está a ponto de ruir, se é que não ruiu completamente…Os senhores vêem aí a bonita seqüência dos fatos.

Alguém dirá: Mas Dr. Plinio, derrotada com isso não foi a Igreja? Ora, Deus não ama a a Igreja e não era razoável que Deus evitasse para a Igreja essa humilhação? Cada vez que a Igreja é derrotada, não é Deus que é derrotado, são os homens que são derrotados. Porque a Igreja existe para beneficio dos homens. E eu me lembro de um pensador, eu não me lembro qual, que fez uma reflexão a respeito da Armada Invencível de Felipe II. Ele disse: costuma-se dizer que a derrota da Invencível Armada foi um castigo para a Espanha. Talvez tenha sido. Mas a grande castigada não foi a Espanha. Porque se a Invencível Armada, chegando à Inglaterra, teria encontrado pronta, como estava tudo marcado, uma revolução de ingleses para destituir a rainha Isabel e para implantar o catolicismo, a grande castigada foi Inglaterra. Porque foi evidentemente a Inglaterra que não recebeu o benefício desse desembarque. Não é verdade? Assim também, sempre que Deus permite a sua invencível Igreja ser dispersada pelos ventos, ser batida, ser açoitada, o mal é sempre para a humanidade, não é para Ele. Nós devemos ver os desígnios d’Ele nos castigos que ele impõe. Nós temos com isso uma meditação a respeito do talento espistolográfico desse bem-aventurado.

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