Santo do Dia (––- Segunda datilografia, sem conferição final ––-) – 26/12/69 – 6ª feira – p. 5 de 5

Santo do Dia — 26/12/69 — 6ª feira

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Leitura de um trecho de “Glórias de Maria”, de Santo Afonso Maria de Ligório * Nossa Senhora nos deu o mais perfeito exemplo da verdadeira Fé * O verdadeiro devoto de Nossa Senhora deve caracterizar-se por uma Fé intensa. “Eu acho que a virtude da Fé vai nos ser extraordinariamente necessária sob a forma de espírito de Fé” * Nossa história está cheia de sinuosidades, e é isso que dá a sua beleza. É a história das coisas sobrenaturais * A grandeza da Reconquista espanhola está no fato de terem sido necessários milagres para realizá-la * Esperando contra toda esperança, somos modelados pelo sofrimento e vencemos toda espécie de batalhas, após toda espécie de derrotas

* Leitura de um trecho de “Glórias de Maria”, de Santo Afonso Maria de Ligório

Aqui está uma nota do Solimeo de que vários rapazes do Grupo da Argentina pediram para comentar um trecho das “Glórias de Maria”, de Santo Afonso Maria de Ligório, que é o seguinte:

A Santíssima Virgem teve mais Fé do que todos os homens e Anjos juntos. Ela via seu Filho no estábulo de Belém e O cria Criador do mundo. Ela O via fugir de Herodes e não deixava de crer que era Rei dos reis. Ela O viu nascer e acreditou que era eterno. Ela O viu pobre e necessitado de comida e creu que era Senhor do universo. Reclinado sobre o feno e creu que era Onipotente. Observou que Ele não falava e acreditou que Ele era a Sabedoria Infinita. Sentiu-O chorar e acreditou que Ele era o Gáudio do Paraíso. O viu, finalmente, na morte, abatido e crucificado, mas ainda que nos demais titubeasse a Fé, Nossa Senhora esteve sempre firme em crer que Ele era Deus. “Estava junto à Cruz de Jesus sua Mãe”, sobre as quais palavras escreveu Santo Antonino: “Permanecia Maria na Fé que conservou imutável e firme na Fé da divindade de Cristo”.

* Nossa Senhora nos deu o mais perfeito exemplo da verdadeira Fé

Realmente é um trecho muito bonito de Santo Afonso de Ligório e que glorifica em Nossa Senhora uma virtude que não é tantas vezes glorificada. Fala-se muito da pureza de Nossa Senhora, de outras qualidades excelsas de Nossa Senhora. A respeito da Fé que Nossa Senhora teve pouco se fala. Pouco se fala porque em virtude do liberalismo, em virtude do ambiente de relativismo que intoxicou o Ocidente, a virtude da Fé foi cada vez [mais] mal compreendida e foi se perdendo de vista o fato de que a raiz da qual brotam todas as outras virtudes é a Fé, e que a intensidade da vida espiritual de uma pessoa está em proporção da intensidade de sua Fé. De onde decorre, reciprocamente, que Nossa Senhora, tendo tido no mais alto grau possível todas as virtudes possíveis a uma criatura humana como Ela, era natural que Ela tivesse também a Fé no mais alto grau e que a Fé que Ela tinha fosse realmente inimitável.

Santo Afonso, de um modo muito formoso, escolhe aqui uma porção de aparentes contradições, paradoxos que apareceram na vida de Maria. Ela ver, por exemplo, aquela criança muda que não dizia uma palavra, olhar para Ele, [e] dizer: “Esse é Deus, é o Rei do Universo”. Ela ver a criança no feno e dizer: “Esse é Onipotente, é o Senhor de todas as coisas.” Naturalmente poderia perguntar: “Se é Senhor de toda a sabedoria, por que não fala? Se é onipotente, porque não troca esse feno por um manto real suntuoso?” Quais são essas tremendas contradições entre as aparências nas quais Nosso Senhor se apresentou e a realidade que Ela tinha diante de si?

Eu compreendo que alguém poderia fazer essa objeção: “A Fé em Nossa Senhora era fácil de ter, porque Ela recebeu a revelação do Anjo, Ela recebeu graças interiores luminosíssimas. Não era possível a Ela, diante das evidências que tinha tido, não era possível duvidar. O que se poderia perguntar é se Ela ainda tinha Fé, porque a Fé exatamente desaparece com a evidência. No Céu, por exemplo, nós não vamos ter mais Fé. Porque no Céu, a visão de Deus face-a-face, suprime a virtude da Fé. Não há mais um ato de confiança a fazer no que Deus nos diz, porque nós vemos diretamente aquilo que nos foi anunciado. Então, nós nos poderíamos perguntar se Nossa Senhora, nessa terra, tinha Fé.”

A resposta é a seguinte: por mais que fossem enormes essas evidências, é próprio ao espírito humano, quando está colocado diante de uma aparência sensível diversa, ter uma interrogação. Porque o sensível impressiona o homem tremendamente. E era próprio a uma pessoa concebida em pecado original, ter uma interrogação tremenda. Nossa Senhora não foi concebida no pecado original, mas Nossa Senhora era criatura humana e Ela estava nessa contradição entre coisas que Ela via, de um lado, e, de outro lado, aquilo que Ela sabia pela Fé exatamente. Ela teve uma Fé enorme, Ela acreditou em tudo, Ela não duvidou de nada, e com isso Ela nos deu o exemplo mais perfeito da verdadeira Fé.

* O verdadeiro devoto de Nossa Senhora deve caracterizar-se por uma Fé intensa. “Eu acho que a virtude da Fé vai nos ser extraordinariamente necessária sob a forma de espírito de Fé”

É o que faz com que nós entendamos que o verdadeiro devoto de Maria deve caracterizar-se por uma Fé intensa e que a devoção a Nossa Senhora conduz naturalmente à devoção à Santa Igreja Católica. Porque o ponto de convergência de todas as verdades da Fé é a Igreja Católica. Quem crer na Igreja, crê em tudo; quem não crer na Igreja, não crê em nada. A Igreja é como o feixe no qual todas as verdades da Fé estão contidas.

E eu exatamente tenho a impressão de que esse assunto tão misterioso no segredo de Maria, esse assunto se desvenda um pouco, levanta-se um pouco do véu dele. Eu não sei quando chegaremos a ver esse assunto diretamente, não sei quando eu chegarei a conhecer esse assunto diretamente, mas vislumbres dele aparecem exatamente quando nós pensamos na graça da Fé extraordinária que recebe com a graça do ultramontanismo, a graça da vocação no seu primeiro albor, no seu primeiro nascer, entra uma espécie de força de alma em que a pessoa não duvida de nada, em que a pessoa tem todas as certezas e tem o júbilo dessas certezas; essas certezas se apresentam numa luz matinal, se apresentam numa claridade esplêndida. A pessoa tem uma alegria da Fé que é uma coisa monumental.

Depois, se é que se dá de vez em quando o embaçamento, com o embaçamento vem exatamente uma diminuição da virtude da Fé. E então as perplexidades e as perguntas começam a tomar vulto, começam a se fazer trevas na alma e as sombras começam a aparecer. Como num quarto, à medida que fora dele se vai fazendo o crepúsculo, os objetos dentro do quarto vão tomando um aspecto fantástico e vão aparecendo dúvidas a respeito da identidade dentro daquele vulto que estamos vendo dentro do quarto, e que é um móvel que nos é familiar entretanto.

Eu acho que essa Fé vigorosa que tem o ultramontano, essa Fé que não duvida de nada, que não tem sombras, do ultramontano fiel à sua vocação, que crê contra as aparências, eu acho que essa Fé é uma espécie de comunicação superexcelente que diante das coisas que parecem mais evidentes em sentido contrário, os mantém inteiramente na Fé. Eu acho que a virtude da Fé vai nos ser extraordinariamente necessária e vai ser necessária sob a forma de espírito de Fé. Quer dizer, aquela forma, aquela excelência da virtude da Fé, pela qual nós sabemos aplicar os dados da Fé às circunstâncias concretas na quais nós nos encontramos.

Eu acho normal que em muitas ocasiões nós nos sintamos perdidos. Nós sintamos que não existe para nós nenhum caminho e que tudo acabou. E que depois sempre o caminho se abre de novo e sempre uma dificuldade inesperada se remove e nós tocamos para a frente. E isso é exatamente um aspecto da Fé, um reflexo da Fé, é um brilho da Fé.

Eu creio mesmo que a nossa vida quotidiana é tão cheia de aspectos angulares para fortalecer em nós a virtude da Fé. Quer dizer, nós nos vemos muitas vezes postos diante de contradições que nos espantam. Nós, às vezes, olhamos para o Grupo e temos impressão de uma torre de Pisa que forma com o chão um ângulo de cinco centímetros. Entretanto, essa torre de Pisa não cai. Depois, vemos de repente a torre de Pisa que se reergue e nós, que já estávamos espantados de ela não cair, ficamos mais espantados ainda de vê-la reerguer-se.

Às vezes, ao contrário, nós temos impressão de que não se trata da torre de Pisa, mas — mal comparando — se trata de uma torre Eifell, toda de metal e com as garras postas no chão. E nós dizemos: “Mas que gente boa, que gente firme, que psicologias adamantinas”. A partir do momento em que confiamos no natural, vemos de repente a torre Eifell escorrer como um sorvete exposto ao sol do meio-dia. E aquilo vai se liquidando.

* Nossa história está cheia de sinuosidades, e é isso que dá a sua beleza. É a história das coisas sobrenaturais

Quer dizer, são todas coisas que nos colocam numa impostação de alma que exige uma fé constante. O Grupo está continuamente colocado diante dessas ou daquelas inverossimilhanças. É uma espécie de montanha russa. E nós temos de estar sempre confiantes de que as coisas se resolvem, de que as coisas tocam para a frente e de que assim o caminho de Nossa Senhora se faz. Essa preparação — é bom, meus caros, ter isso em mente — se faz para dias muito mais terríveis, mas também muito mais admiráveis. Porque não há nada mais admirável na vida de um homem do que ele crer contra todas as razões, esperar contra todas as esperanças e ver a sua Fé justificada e a sua Esperança justificada também. São os maiores lances da vida de um homem. Por exemplo, os judeus abrindo o Mar Vermelho para atravessarem: é o mais bonito lance que pode haver na história de um povo. Derrotar cem milhões de adversários é menos do que isso. O faraó vem atrás, na frente tem o mar. Está bom, entremos no Mar. O mar se abre, quando a gente acaba de passar deglute o faraó com todos os seus exércitos. Está resolvido o caso. Há uma coisa mais bonita do que isso?

Eu digo isso porque as circunstâncias modernas muito facilmente levam a pessoa a inclinar-se para o happy end, para o fim feliz, e para ter das coisas uma concepção triunfal a la puts nazista alemão. O espírito moderno leva a pessoa a achar que nosso apostolado deveria, normalmente, correr assim… [inaudível].

foi escrita a RCR, há pessoas que lêem a RCR e se entusiasmam com ela. Essas pessoas formam um movimento, esse movimento dá vários golpes, derruba a Revolução, impera e está liquidado o caso. Tudo em linha reta e bonitinho, sem nenhum transtorno nem nada. Pelo jogo natural das coisas quem pensasse isso da RCR não teria entendido a RCR e não entenderia nada da causa do Grupo e a fortiori da história do Grupo.

Pelo contrário, nossa história é cheia de sinuosidades, nossa história é cheia de sofrimentos, nossa história é cheia de inesperados e depois que tudo ficou para trás e que a gente olha, aquilo é o mais bonito de nossa história. É assim que se faz a beleza de nossa história. A história de tudo quanto é sobrenatural é assim. Nada caminha para a frente desse jeito.

* A grandeza da Reconquista espanhola está no fato de terem sido necessários milagres para realizá-la

No outro dia, conversando com os argentinos, estava falando a respeito da Reconquista espanhola. Praticamente 800 anos de luta, durante os quais aconteceu de tudo: reis católicos que ensabugavam, que brigavam entre si, que se aliavam com reis mouros, que deixavam os mouros avançar de novo porque estavam em guerra com o rei da França; homens que fizeram de tudo. Povos que não seguiram a reis bons que tinham; bispos — o dito é surpreendente — que não cumpriam o seu dever e que não estimulavam o povo para a luta. Recuos, conivências com judeus. Aconteceu de tudo.

No meio de tudo isso foi se fazendo a reconquista gradualmente e a esperança dos primeiros heróis da Reconquista se justificou. E quando Fernando e Isabel, os católicos, entraram em Granada, tinha-se a impressão de que Anjos cantavam no Céu. Mas por que isso? Não é porque tudo tinha sido direitinho, bem organizado num só ímpeto, mas é por causa de todos os percalços, por causa dos transtornos, por causa dos milagres que foram necessários para aquilo tocar para a frente. Daí a grandeza da Reconquista espanhola. Daí também o fato de que essa nação que lutou 800 anos, deu a nação guerreira por excelência e deu a nação sacrificada por excelência, a nação por excelência que tem o senso da imolação é exatamente a nação espanhola.

* Esperando contra toda esperança, somos modelados pelo sofrimento e vencemos toda espécie de batalhas, após toda espécie de derrotas

Para nós, não é natural que nossas almas sejam modeladas para serem almas muito sofredoras e a espera não é um dos piores sofrimentos? A decepção não é um dos piores sofrimentos? A perplexidade, a confusão, o caminho que não vai, não há exatamente nisso o caminho de predileção de Nosso Senhor? Evidentemente há. Nós precisamos aí praticar a Fé que Nossa Senhora teve: crer apesar de todas as aparências, esperar contra toda esperança. Dessa maneira nossa alma será modelada pelo sofrimento. E ela será modelada de tal maneira…

De maneira que é isso que eu peço a Nossa Senhora que, pela oportunidade dessas palavras de Santo Afonso Maria de Ligório, Ela nos conceda. Essa fé inquebrantável que nada pode derrubar. Que crê em tudo, que não duvida de nada, não hesita diante de nada, não recua diante de nada, investe contra tudo e acaba ganhando toda espécie de batalha, depois de toda espécie de derrota.

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