Reunião Normal (Auditório da Santa Sabedoria) – 26/12/1969 – 6ª-feira – p. 15 de 15

Reunião Normal (Auditório da Santa Sabedoria) — 26/12/1969 — 6ª-feira

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[Infelizmente esta reunião foi mal anotada, e muita coisa pequena — que consta no microfilme — é dúbia ou incompreensível.

Ex.: “...um terreno que agente vê que vai ai pro fundo infelizmente eu não vi nada disso, só vi a outra parte já examinada.”

Afim tentar deixar o texto mais inteligível, copiei da forma que parece ser mais provável.

Ex.: “...um terreno que a gente vê que vai para o fundo. Infelizmente eu não vi nada disso. Só vi a outra parte, já examinada.] [N.d. – Meira]

Sacralidade na vida de família

Eu deveria fazer uma explicação a respeito de uma projeção que vai ser apresentada aqui. Essa projeção se refere a uma conferência feita já há muito tempo, há um mês, há mais ou menos, e que constitui uma interrupção na série de conferências que temos feito ultimamente. Essa conferência versava a respeito da sacralidade na vida de família e nas relações humanas em geral. Eu mostrava no que consistia a sacralidade e definia a sacralidade como sendo um modo de ver a importância de sua própria função e de sua própria missão considerando essa missão como um reflexo da missão e da atuação de Deus Nosso Senhor e portanto tendo para a sua missão um grande respeito por menor que seja essa missão por mais insignificante que seja essa missão. Claro também que mais augusta que seja “a fortiori”.

Depois eu mostrei que esse conceito de sacralidade instituído nas relações sociais entre patrão e empregado, quer dizer nas relações econômicas de empresa que amenizaria e transfiguraria toda a vida da empresa.

E depois falei da vida de família também. E mostrei como a única forma possível de vida de família é a da família sacralizada.

De outro lado eu disse aos senhores que estas, destas [?] sacralidade só pode ter verdadeiramente idéia quem conheceu pessoas com espírito sacral, porque sem isto, conhecer a cara, o rosto, sem conhecimento destas pessoas não se tem sacralidade. Não se pode conceber a sacralidade bem. Eu fiquei então de passar os slides, apresentando os pais de Santa Teresinha do Menino Jesus e uma princesa Bonaparte Sabóia, da Casa de Sabóia que representa um tipo de sacralidade também do século XIX.

Essa princesa foi casada com um Bonaparte, um usurpador, mais era uma pessoa de grande virtude, cujo processo de canonização foi instaurado no Vaticano, e se não me engano, já é declarada Bem-aventurada. Mais é uma das fisionomias mais sacrais que eu tenha conhecido.

No slide quem é que vem primeiro é indiferente ou como é que é? Bom eu leio aqui depois vem a coisa.

Dr. Caio me deu os dados biográficos a respeito dessa princesa, ele se chamava:

Princesa Maria Tereza Clotilde de Sabóia Bonaparte e Serva de Deus.

Ela nasceu em Turim no ano de 1843, filha de Victor Emanoel II, o pai da pátria o primeiro rei de Itália reunificada.

Há uma expressão francesa: “Ou la verti va telle ce liche”: aonde é que a virtude foi se alinhar. Mas enfim floresce assim às vezes.

E de sua mulher Arquiduquesa Maria Adelaide D’Áustria.

Casou-se em 1859 com Napoleão José Paulo Bonaparte, filho de Jerônimo Bonaparte, homem sem caráter, chamado: “príncipe Plom-Plom” por ter abandonado o cenário da batalha durante a guerra de Criméia onde comandava a divisão lhe confiada por Napoleão III e a insistentes rogos seus.

Quer dizer ele pediu muito a Napoleão que desce a divisão e depois fugiu durante a batalha.

Ela era um inocente. Contava-se a respeito desse homem o seguinte diálogo de Napoleão III com o filho, disse que o filho perguntava para ele:

Meu pai que diferença há entre uma notícia comum e uma boa notícia?

Diz ele:

Notícia comum: Plom-Plom está sentado a beira de um poço. Notícia boa: Plom-Plom está dentro do poço.

Esses pais dele… Jerônimo Bonaparte era simplesmente “de lo último”. Ele era irmão de Napoleão e tinha casado com uma princesa de Württemberg obrigada ali e posto encarapitado por Napoleão no trono artificial e efêmero de Vestefália.

Quando Napoleão caiu, ele passou a viver como qualquer um e andava por Paris de ônibus de um lado para outro usando o título de Rei de Vestefália na gargalhada geral. Depois mais tarde o governo de Luis Felipe ofereceu para o título de diretor do Hospital dos inválidos. E ele Rei aceitou de servir debaixo de um outro rei — com devido respeito: nem um dos dois com direito ao trono — assim era uma usurpação cavalgando a outra.

Bom, Plom-Plom é filho desse Jerônimo, digno filho deste Jerônimo e casado com esta pessoa de uma elevação moral sublime. Pode imaginar o que ela achava do Plom-Plom.

A Princesa Clotilde seguiu o seu marido nos diversos exílios a que este foi condenado, mas a partir de 1871 deixou de viver com ele e retirou-se com seus filhos: Napoleão Vitor, Jerônimo, Frederico, Napoleão José, Maria Luis, Maria Jerônimo e Maria Letícia, para o castelo que herdara do pai em Moncaleri onde viveu santamente. Ela viuvou em 1821.

Ficou 20 anos separada com Plom-Plom, solto.

Faleceu em 1911 tendo pertencido a ordem terceira de São Domingos. Sua causa de beatificação foi logo iniciada em 1940, foi aprovado decretos sobre seus escritos.

Quer dizer, todos os escritos eram ortodoxos.

Em 1942 sua causa foi introduzida oficialmente com decreto de 10 de julho, no tempo portanto do Pontificado de Pio XII.

Nós vamos ver então essas duas figuras, essas várias figuras para uma projeção.

Quem é que vai fazer essa projeção? É o Sr. Fernando Filho? Então tenha a bondade.

Qual é a melhor posição para os senhores verem?

É possível que essas caras sejam meio raras para [a] “geração-nova”, pelo menos para a “novíssima”.

O “Catolicismo” uma vez publicou o Santo do Dia, o ambiente, e não o Santo do Dia.

Não sei se está suficiente[mente] nítido e se dá para todos verem.

A Princesa está de luto, o luto pesado das viúvas naquele tempo. O que explica o chapéu um pouco estranho para os senhores. É um chapéu de uma certa altura, provavelmente de feltro, revestido de seda.

E os senhores percebem que há um crepe que desce aqui por detrás da cabeça e no tempo dela, muitas vezes o crepe chegava até a cintura. Nas ocasiões de muito luto, missas, etc., etc., ou enterros, esse crepe se punha para frente e velava a face. Depois o vestido é todo preto e os senhores percebem como se usava — aliás no tempo que a gola chegava até a baixo do pescoço — de maneira que dela só se vê aqui um pouco do cabelo e depois a fisionomia, o rosto.

Agora, dá, entretanto para os senhores perceberem pelo porte do pescoço, a distinção do personagem. É um personagem sumamente distinto, o porte de cabeça, sem [ser] arrogante, é entretanto um porte que tem uma certa elevação, uma certa dignidade, próprio da Grand Dame.

De outro lado os senhores vêem também nela, em toda a fisionomia sobretudo no olhar algo de indefinível, que indica também a pessoa distinta e é propriamente o seguinte: uma espécie de impassibilidade de rosto que pode parecer a primeira vista uma falta de expressão, mas que de fato, não o é. É um rosto impassível, da pessoa que foi habituada por uma vida de sociedade de alto quilate e anão manifestar a não ser muito sóbria e discretamente as suas impressões.

Agora a sacralidade aonde é que se nota? Nota-se em quase tudo, mas é difícil apontar de um modo completamente característico. Nota-se mais do que tudo no olhar. Eu não sei se os senhores percebem que é um olhar de extrema suavidade, mas ao mesmo tempo um olhar muito triste. Mas é um olhar triste inteiramente resignado e com força. Não é um olhar de uma pessoa abatida, desconcertada que se entregou; é o olhar de uma pessoa que carrega a sua cruz e sente o peso da cruz que carrega e que a leva avante.

É uma pessoa firme e determinada, não é uma pessoa sem firmeza e determinação.

Mas ao meu ver, o que há de mais belo no olhar, é um desses olhares que não fixa nada definidamente. É um olhar que mais olha para dentro do que para fora. E dentro, não para se ver a si própria, mas para prestar a atenção no seu próprio pensamento, enquanto considerando todas as coisas a luz de Deus.

Os senhores notam que é um olhar que tem uma espécie de elevação, uma espécie de dignidade, uma espécie de firmeza mas também, uma espécie de penetração.

É um olhar desencantado, é um [olhar] que vê Deus, [que] conhece a Deus, não tem esperança nas criaturas e sabe [que] cada um de nós, que espécie de miséria é, e que tremenda surpresa pode receber a qualquer momento de quem menos [se] espera.

De maneira que a gente vê no meio de tudo, que é uma pessoa isolada, uma pessoa que vive sem grandes afetos humanos e sem grandes aconchegos humanos. Uma pessoa entretanto, extremamente boa. Para quem é psicólogo, percebe em algo do rosto e até aqui do peito, um não sei o quê de materno, que faz dela uma mãe de todo o mundo. A gente teria vontade de se dirigir a ela como se fosse a mãe da gente, e a gente tem a certeza de que para todas as necessidades e todas as dores da vida, ela [tem?] [teria] uma acolhida maternal.

Agora isto tudo de onde é que vem? Vem desta grande elevação de ponto de vista, elevação sobrenatural de ponto de vista em que a alma dela está posta e de onde ela considera todas as coisas. Esta elevação é a sacralidade. É uma princesa profundamente sacral.

Os senhores tomam a fotografia de Maria Antonieta como está lá no apartamento dos Xavieres, ela é uma rainha finíssima, mas propriamente sacral, ela não tem nada, a não ser o fato de ser fina, mas de uma finura toda natural.

Aqui os senhores não notam uma finura levada ao ponto extremo que Maria Antonieta levou. Ela é muito fina, mas não é a nota dominante. A nota dominante é uma sacralidade sobrenatural, uma bondade uma unção.

Resultado: uma pessoa desta pode morar sozinha num castelo, o castelo todo é sacral, basta a pessoa entrar na primeira sala, [que] sente a unção da presença com que uma pessoa dessa enche completamente a casa.

Uma pessoa dessas confere a casa um ambiente de oratório, um ambiente de capela, um ambiente de distensão e de calma para os raros espíritos que compreendem até que ponto, na terra a única [e] verdadeira alegria é esta calma entristecida, resignada e sobrenatural.

É o verdadeiro prenúncio do Céu na terra. Ao lado desta senhora, a gente compreende a vida de família. Todo o filho a toda hora tem uma palavra, tem um apoio, tem uma compreensão. O marido seja ele o miserável Plom-Plom, se se apresentar arrependido, encontra o perdão.

Ela tem uma generosidade para todo o mundo, não pensa em si; ela pensa nos outros porque pensa em Deus. [É uma imagem constante da abnegação que é o próprio vida de família, ao menos, que é piedosa a alma dela. Reze por nós.]1

Antes de eu passar aos pais de Santa Teresinha, eu queria saber se dentro dos imponderáveis — muito difíceis de enunciar — essa figura, eu consegui, entretanto, de dentro disso tirar algo de útil ou se alguém quer me fazer alguma pergunta? Talvez algum acréscimo que auxilie a interpretação que torna mais claro o meu pensamento.

(Sr. Afonso Riesco: Essa Princesa, Dr. Plinio, explicitaria a presença da RCR?)

Ah, profundamente. Porque esta é uma princesa que tem a tristeza de uma alma que sofre com a Igreja. A gente nota que ela tem um conhecimento da situação do mundo dela, no período do tempo dela e do declínio e do ocaso de todas as coisas. Dir-se-ia que esses véus e esses crepes exprimem muito mais a tristeza dela por ver o declínio de tudo e ver de longe o fim de toda ordem cristã do que a morte do Plom-Plom, que seria mais um crepe de circunstância, não é? Não sei se minha resposta, responde a sua pergunta.

(Dr. Camargo:O senhor acha uma semelhança nesse corte de cabelo e deste crepe que ela usa e o chapéu com aquele quadro de Felipe II?)

Sim, mas numa atitude de alma diferente em muitíssimos pontos. Porque Felipe II era o rei guerreiro em plena luta e no gozo ainda de uma soberania de que ele devia afirmar e ela pelo contrário era uma princesa, não deposta, mas no ramo colateral e viúva de um príncipe deposto. A gente vê nela não uma pessoa que está na luta e que enfrenta, mas uma pessoa que está retirada e na oração e na suavidade da vida de família do seu próprio isolamento.

Agora não tem dúvida que um e outro trazem um luto que tem algo de parente. E que a distinção de um é a distinção do outro. É a mesma escola vamos dizer em projeções bem diversas. Não sei se respondi bem a sua pergunta.

Há mais algum dos senhores que queria dizer mais alguma coisa?

Bem, quem sabe o Sr. Fernando Filho queria passar uma outra figura?

Nós vamos ver agora uma vida de família nos Buissonnets. A casa de Santa Teresinha e figuras ligadas a vida dela.

Era bom o Sr. Caio Xavier ir dando as explicações técnico-históricas e eu depois faço o “ambientes”2. Explica ai um pouquinho em que época ela viveu aí, o senhor poderia dizer?

(Dr.Caio: Foi mais ou menos em 1880, 1875 à 1890. Entrou aí com quatro anos e saiu com quinze.)

Ela saiu daí, portanto para ir ao Carmelo e a dilaceração dela em relação ao ambiente familiar foi esse. Mas nós não devemos aqui nos ater muito ao aspecto histórico, o que importa aqui é o seguinte: é considerar a casa como foco de vida familiar.

Eu não estou bem lembrado Dr. Caio mas eu tenho impressão que eram duas casas gemias, não é? Ao menos aqui por essas duas entradas. Agora não tive idéia lá dentro, que era casa geminada. Dentro não era, não é? Quem sabe se era uma casa que fora construída para ser geminada e que abriram dentro para fazer uma só habitação, porque o aspecto esterno dá muito a idéia de duas casas autônomas. Mas enfim vamos deixar isto de lado que é secundário.

Isso aí é uma residência confortável representando a classe média abastada de uma pequena cidade francesa do século XIX como era a cidade de Lisieux. Pequena, também não vamos exagerar, era uma cidade entre pequena e média como era Lisieux.

Os senhores encontram aqui um tipo de residência que sem ser de nenhum modo, uma residência ideal para essa categoria social é uma residência altamente favorável à vida de família. Porque? Os senhores estão vendo uma residência em primeiro lugar, sem pretensões de palácio e nem de grande elegância, mas perfeitamente composta.

Além de perfeitamente composta, de linhas muito lógicas. Os senhores notaram que o prédio considerado daqui para cá, se divide em duas partes, cada uma dessas partes tem em cima, três janelas e tem no chão uma porta ladeada por duas janelas.

Os senhores notaram que o telhado era alto, a tal chamada: “mansarda”3 e que há um quarto de cada lado das mansardas. E depois, aqui também, um quarto de mansarda, com este corpo de edifício. Esse corpo de edifício fica bem no meio do conjunto de maneira tal que esta linha de meio, daqui, coincide com esta linha de meio daqui, marcada pela ponta de junção do telhado e por este ornamento que aqui se encontra.

Em geral, em cima ficavam os quartos dos empregados, aqui os senhores notam a chaminé. E os senhores vêem na lógica, na correção, na seriedade desta construção, o aspecto de um edifício, destinado a uma vida de família virtuosa, lógica e séria.

Os senhores vêem entretanto que no conjunto do edifício há qualquer coisa que dá uma certa nota de intimidade. Passando-se pelo lado de fora, tem-se a impressão de que é difícil ver o que se passa dentro, da rua. Que mora dentro daí, uma família que tem a sua intimidade, e a resguarda como um tesouro, um valor. Não é uma família que quer viver na rua, que só acha graça na vida da rua, mas é uma família que tem o seu ambiente próprio e que aprecia de cultivar esse ambiente. Uma família, portanto, com vida própria.

Os senhores notarão que além disto, há algo de indefinido na casa, que é uma discreta nota de gracioso. A gente olha para isso, e sente uma espécie de convite para entrar, uma certa vontade de estar dentro e uma certa idéia de que deve ser gostoso estar aí, que quem está aí dentro é afagado, é acariciado, bem recebido e introduzido no seio de uma vida de família séria, honesta, recolhida, mas entretanto, sem carranca. E aonde todo o mundo se quer dentro da seriedade e há um grande sorriso e uma grande intimidade.

Os senhores notam aqui uma entrada que dá acesso ao parque: era um jardim de bem bom tamanho, que tinha atrás e aonde, no local aonde Santa Teresinha fez ao pai dela a confidencia de que ela ia para o Carmelo. Há um banco com um grupo escultural, representando os dois, imaginando esta conversa celeste, que era mais a imolação do Sr. Martin do que a dela, debaixo de muitos pontos de vista, como poderia ter passado.

Aqui com certeza ouve uma grade, uma coisa qualquer, os senhores notam, aliás, aqui, uma porta lateral que deveria ser porta de serviço da casa e deveria haver outra do outro lado.

Bem, essa grade, e há aqui uma pequena escada porque o jardim vai subindo até o fundo e essa grade foi naturalmente retirada para facilitar a passagem — eu ia dizer: “dos turistas” mas eu me empenho em dizer que é: “dos peregrinos”.

Bem, aí os senhores têm a idéia de uma casa de família, que não se pode dizer que dê de fora uma impressão diretamente sacral, mas de uma casa de família muito boa, oferecendo condições muito propícias para uma vida sacral — eu digo: não ideais, uma casa medieval seria muito melhor mas esse tipo de casa oferece condições bem adequadas para isso.

(Dr.Caio: Numa daquelas mansardas aqui, era um quarto dela; que ela tinha as famosas conversas junto à irmã dela, aqueles êxtases que ela chamava êxtases entre aspas. Que elas recebiam graças iguais [a] de Santa Mônica e Santo Agostinho, em Hóstia.)

Viram o que o Dr. Caio disse. Quer dizer, os senhores podem imaginar a dignidade disso, não é? De uma dessas mansardas, as duas conversando e ela disse que eram êxtases iguais ao de Santo Agostinho e Santa Mônica em Hóstia. Os senhores podem imaginar isso num prédio de apartamento moderno, e os senhores não têm a sensação de que se essa família fosse transferida para este prédio. Ela se sentiria uma frieza, um terror.

Por outro lado, se pudesse por a Sede aqui.

(Dr. Caio: Dessa mansarda elas enxergavam, tinham a vista para o Jardim de Etoille aí de Lisieux, que tinha sido desenhado pelo Le Notre.)

Ah, é o jardineiro de Luis XIV.

Aqui é o fundo da casa, e aqui está o tal banco de que eu falei aos senhores. Esta escultura me deu a impressão, mas eu não perguntei, mas quando eu vi me deu a impressão de ser uma escultura do começo desse século, uma coisa assim; e eu acho o banco um pouco o estilo da casa, de madeira, que provavelmente isto foi imaginado depois, a forma do banco. Em vez de porem um banco, como se usava naquele tempo, aqueles bancos de madeira, meio recurvado, puseram esse banco aí. Talvez por que ficaria esquisito: sobre pedra, sobre madeira, duas figuras de pedra, não sei porquê enfim, eles puseram ai.

Aí os senhores estão vendo o colóquio dos dois, mas prestem atenção na casa, o jardim fica todo para trás, e é para trás para a família poder exatamente passear, e não é um jardim devassável. Está muito cuidado e é toda a impressão que eu tive, é que o jardim nas suas linhas gerais, era como era no tempo de Santa Teresinha.

Agora os senhores vejam como a casa, ela é feita: é irregular, atrás ela vai se tornando cada vez mais fina atrás a tal ponto de apresentar aqui atrás uma fachada bem menor do que na frente. O que dá exatamente a oportunidade muito apreciada do homem do século XIX, pelos arquitetos do século XIX, de recantos, de recantos com janelinhas e que se prestem especialmente para intimidades. Então a gente olha aqui e tem a impressão de que deve ser delicioso dormir no semi-isolamento e na semi-união desse quarto.

Onde cada um se sente ele próprio, mas conjugado dentro da família, como essa espécie ou então aqui onde é provavelmente um quarto ainda menor, mas onde a pessoa está isolada de algum modo e de algum modo reunida no corpo.

Os senhores vejam as duas mansardas aqui, na Europa as mansardas são muito aconchegadas e muito agradáveis, os senhores vejam quão enfeitadas em tudo. Como a casa é pequena, mas é toda enfeitadinha os senhores estão vendo, é o que se chamaria: uma casa “coquete” no bom sentido da palavra.

Os senhores têm aqui outro aspecto ainda mais acentuado, talvez, desta vida de família íntima, para a qual essas casas eram construídas. Os senhores comparem como os fundos dos prédios de apartamento, os senhores têm um pouco a idéia do contraste terrível.

Queria passar outra fotografia.

(Dr.Caio: Aquela mansarda da direita, Dr. Plinio, é [aquela] que ela teve aquela visão profética do pai: que viu passar recurvado.)

Ah! Foi aí? Éh… coisa trágica, é.

Aqui os senhores têm um pormenor dentro do pormenor, linda vegetação, à entrada posterior da casa não teria nada de acrescentar.

Não sei se Dr. Caio teria algo a acrescentar aqui?

Eu diria sempre o mesmo: vegetação, sempre o mesmo: como só ia ser na Europa, com aquela doçura francesa que Deus deu aos franceses e deu a França e deu em alto grau a Santa Teresinha.

Os senhores querem ter a idéia completa desse jardim, do como é que esse jardim pode servir de moldura para virtude? Os senhores imaginem saltitando por esta porta, Santa Teresinha na roupa que ela está naquela fotografia famosa, de menina, e que Dr. Caio mandou tirar aquela fotografia grande. Ela não estaria perfeita aí na sua inocência, na sua leveza, brincando com uma bola ou com arco correndo por aí inteiramente a la livre inteiramente em contato com a natureza, inteiramente dentro de casa, inteiramente na intimidade, nas vistas dos pais e fora de vistas profanas?

É um jardim recolhido para uma menina santa, mas era um tipo de habitação freqüentíssima naquele tempo, de tal maneira ainda havia na civilização, sulcos culturais, que facilitavam a obra santificadora da Igreja.

Os senhores estão vendo aqui o banco e podem, por aí, compor uma só visão do jardim.

Aqui, os senhores têm um outro aspecto, mas é a parte detrás do jardim. É o grupo Santa Teresinha e o pai, está de frente. Então os senhores têm a parte detrás do jardim, os senhores percebem o recolhimento do jardim, porque ele é todo emoldurado por árvores bem altas. De maneira tal que não havendo do lado, construções altas, quem está aqui é visto só por Deus ou então por quem mora na casa, mas do outro lado não é a clausura de um alto muro, não é uma coisa, vamos dizer que a idéia de confinamento desaparece e se tem a impressão de todos os lados, que começa uma imensa floresta. O que eu não consigo recompor é isto, para onde dá acesso, eu não me lembro disso. Ah! Lavanderia. Ah! Isso… eu não me lembro dessa lavanderia.

Os senhores vêem o espaço desta propriedade de pequenos burgueses abastados à imensidade. Os senhores estão vendo uma casinha que é a expressão mais pobre da outra, mas que fica tão bem no mato, e que deveria ser um passeio para uma criança, ir passear até a lavanderia, e um terreno que a gente vê que vai aí para o fundo. Infelizmente eu não vi nada disso. Só vi a outra parte, já examinada. Mas também, sempre isolamento completo.

Aí o interior da casa. Os senhores estão vendo aqui este tipo de moveis. Os senhores não pensem que é móvel de palácio, isto e móvel feito em série. Fabricaram-se móveis desse tipo para a pequena burguesia, para a burguesia média, em grande quantidade.

A Belle Époque que Santa Teresinha viveu, era uma época de fartura na Europa, extraordinária fartura até. Os senhores estão vendo que a casa é pequena, mas que tem lambri até o teto, tem uma lareira com candelabros, talvez de prata, um relógio que deve ser um bom objeto, porque os senhores notam que está debaixo de uma campânula de cristal e duas cadeira com tapeçarias. Mas eu lhes garanto que a tapeçaria poderia ser feita por Madame Martin e pelas filhas com alguma colaboração talvez de Santa Teresinha, mas não é tapeçaria preciosa, e o banquinho. Como são móveis altos, a pessoa pode descansar apoiando o pé sobre esse tipo de banquinho.

Os senhores estão vendo a preocupação de aconchego e de conforto próprio ao ambiente burguês, mas também a distinção do ambiente. Nada daqui é luxuoso, mas tudo é composto, digno e é muito sério.

Eu insisto muito na seriedade, porque é uma das notas fundamentais da vida de família.

Os senhores vejam aqui o armário, uma espécie de buffet com a louça melhor da casa exibida para os visitantes verem, é como se fazia naquele tempo. Mas deveria haver muita inocência nisto, eu acho que a louça de Monsieur Martin valia muito menos incomparavelmente do que a alma dele.

Bem, e aqui eu exprimo melhor o meu pensamento: qualquer louça valia menos do que a alma dele; e a louça dele valia menos como louça, como a alma dele como alma.

E aqui os senhores estão vendo a mesa com uma sedazinha, aqui é um tipo de mesa que podia alargar com tábuas que se traziam de suplemento. Aí os senhores têm o ambiente recolhido da casa. Ambiente, entretanto tão propício a que nele penetrasse a sacralidade.

Daqui a pouco vamos ver a fotografia de Monsieur Martin [e] Madame Martin.

Imaginem Santa Teresinha nisso, e as irmãs, e os senhores compreendem o que era o ambiente disso que tem aliás algo de sala de estar e algo de sala de jantar.

(Dr.Caio: Aí se passou o último jantar dela antes de ir para o Carmelo.)

Era só ela e o pai? Não me lembro dessa narração.

(Dr.Caio: Era a família toda.)

A família toda é? E ela tristíssima naturalmente, e o pai também.

(Dr.Caio: Todos choravam, menos ela.)

Faça o favor, vamos mudar.

Aqui deve ser uma sala de estar. A fotografia não é bastante ampla para dar uma idéia. Os senhores notam ao menos [o] que aparece dela, é menos suntuoso — “suntuoso”, a palavra não [e] [está] bem —, mas é menos adornada do que a sala de jantar.

Os senhores notam aqui a lareira que vai até o teto, teto com essas traves, aqui provavelmente uma lâmpada elétrica que tiveram o mau gosto de por depois, e dois quadros que eu acho que não são do tempo de nenhum modo, embora, um pareça representar a Sagrada Família. E aqui é Santa Teresinha com a mãe e Monsieur Martin. Mas ele não teriam posto isto assim, é evidente que foi posto depois. São quadros de outras peças, porque isto aqui, inclusive, eu não acho muito bom gosto. Nem aqui, nem se adapta bem ao lugar. Aqui é uma cadeira, eu tenho mais dificuldade em deslindar o que vem a ser isto. Porque é uma cadeira aí posta atrás de uma mesa, mas eu não sei bem o que será isto aqui.

Os senhores estão vendo aqui também, mais uma vez, tudo proporcionado, tudo correto, tudo com uma certa distinção, tudo sério. Não tem nada de extravagância, nada de pagodeira, tudo é composto. É de gente que quer tomar a vida a sério e por isso é sacral. Neste ponto a nossa Sede da Rua Maranhão — vai primeiro espantar os senhores, mas depois de os senhores terem habituado a ela, ela vai alegrar os senhores, porque ela é muito séria e ela se presta muito mais a sacralidade do que a nossa Sede aqui. Ela é menos mundana, menos bonitinha, não tem os mármores que tem esta aqui, muito menos. O lindo lambri da Sala da Tradição, tem um lambri que mais parece o lambri da sala de jantar de Santa Teresinha.

(Dr.Caio: Aqui é a cama que ela nasceu. Vejam.)

Vejam. Curiosa. A cama para muito dos senhores deve parecer raríssima. Deve parecer mais uma caixa. É uma cama do tempo de Napoleão, é uma cama “império”. Talvez algum móvel velho porque é bem mais recente do que a casa de Monsieur Martin. Talvez algum móvel velho que a família tenha trazido de anteriores habitações. As camas, do tempo de Napoleão, a gente tem a impressão que pondo uma caixa que fecha. Os senhores notam aí o enorme colchão e de outro lado o aconchego e a estabilidade que essa cama dá.

Os senhores notam aqui um dossel, que não é bem do estilo da cama, e que eu tenho a impressão que foi posto para abrigar a magnífica imagem de Nossa Senhora do Sorriso, que foi a imagem que se movimentou e sorriu para Santa Teresinha, por ocasião da cura daquela moléstia dela. Aqui é uma coisa posta certamente depois dessa grade, porque me parece ver aqui o genuflexório de uma capela, e isto deve ser coisa posta depois, não dão muito bem a idéia autêntica, histórica. Não sei se sobre isto Dr. Caio, tem algum fato interessante para narrar.

Quem é esse?

(Dr.Caio: É a mãe de Santa Teresinha e encima é Monsieur Guerrim, moço.)

Ah! É Monsieur Guerrim, moço?

(Dr.Caio: E [Te..]… [ palavra incompleta] …aquela irmã dela que era vicentina.)

Irmã de Santa Teresinha, essa.

(Dr.Caio: Tia de Santa Teresinha.)

Irmã da Madame Martin. Mas veja uma coisa, este aqui é muito mais moço do que a Madame Martin.

(Dr.Caio: É bem mais moço.)

E veio [a] casar-se com… [falta palavra] …Quer dizer, a Madame Guerrim é que era tia de Santa Teresinha? Era tia mesmo ou era prima?

(Dr.Caio: A Madame Guerrim era casada com esse daí, que [era] tio de Santa Teresinha por afinidade.)

Mas este, que relação tinha?

(Sr. –: …)

Ah, era… [falta palavra] …Então era irmão dessas duas.

(Dr.Caio: Os três eram irmãos.)

Ah, bom! Então se compreende perfeitamente.

Um comentário sobre as pessoas. Os senhores notem o penteado muito em uso naquele tempo. A gente — quase [seria] uma irreverência — mas é assim simplíssimo. Cabelo divido ao meio, bem liso dos dois lado e as duas penteadas exatamente do mesmo jeito e muito parecidas. E os vestidos muito parecidos também. Pela idéia de que as irmãs deveriam pentear-se e vestir-se do mesmo modo, tão semelhante quanto possível, era reputado muito interessante.

Agora os senhores notam como é poderosa, a moda, muito mais do que no século anterior. Os senhores vêem, não há decote, há apenas um pouquinho do pescoço, da raiz do pescoço que aparece em ambas. Depois o vestido não é desses vestidos feitos para despertar a sensualidade, nem de longe, não há nada de sensual nessas duas figuras.

Os senhores vêem que não há creme4, na fotografia se percebe que elas estão sem pó de arroz, é uma coisa incrível, mas na fotografia se percebe que elas estão sem creme, sem pomada, nem nada. E o rosto lavado sem cuidados, ao natural. Elas não estão com [a] preocupação de aparecerem bonitas, nem serem bonitas, aliás nem o são. Madame Martin ao meu ver é um pouco mais, não digo bonita, mas enfim, mas bem configurada do que a irmã. Mas nenhuma das duas é bonita ao contrário de Santa Teresinha, que foi muito bonita.

Bem, os senhores vêem nelas que elas estão bem vestidas, quer dizer decentemente vestidas. Senhoras da pequena burguesia, pelo gosto para respeito por, consigo mesmo e para com o próximo, mas nem de longe passa uma idéia sensual pelo espírito.

Os senhores notam o olhar: é um olhar sério, natural, de quem vê o que tem que ver e que forma um juízo a respeito das coisas que vê. São olhares que analisam, sobretudo o olhar da Madame Martin. É um olhar que analisa e um olhar firme que analisa e de pessoa decidida. Agora há um imponderável que eu sinto nelas, não sei se os senhores sentem; mulheres habituadas a estarem em casa e que vão pouco a rua. Oh! Qualidade inapreciável! Ó qualidade tornada rara. Os senhores estão compreendendo bem como essas almas podem evoluir para a sacralidade.

Uma palavra sobre o irmão. Os senhores estão vendo a inocência, os senhores estão vendo a preservação. Que esplêndido ultramontanável! Como estaria bem para nosso “congressinho”.

Podem mudar.

Isso aí já dá algo de sacralidade da vida de família. Aqui é uma composição, porque Santa Teresinha parece pintura, não é Dr. Caio?

(Dr.Caio: Evidentemente é baseado na pintura.)

É exatamente, agora engraçado que ela é fotografia, não é? Ao menos tudo indica. É baseado numa fotografia.

Bom, os senhores estão vendo bem, o pintor o que é que quis exprimir: a relação de mãe e filha. Os senhores estão vendo o jeito dela, como protege a filha, como ela olha com ar decidido para um longínquo remoto e como ela tem, ao contrário da fotografia de há pouco, uma atitude de acolhida e de proteção. E como Santa Teresinha, que o pintor quis exprimi-la numa atitude que seria certamente de Santa Teresinha quanto ao seguinte ponto: inteira despreocupação, inteiro recolhimento junto ao peito materno, num inteiro abandono. É uma confiança como a que ela teve depois na Providência Divina. Outra coisa: o pintor quis exprimir e teve razão em querer desejar, foi: Santa Teresinha ao mesmo tempo junto a mãe, mas com os olhos postos em algo imensamente maior, dir-se-ia que o amor materno lhe fornecia condições para em êxtase que ela de fato não teve, mas para uma meditação altíssima, de caráter sobrenatural e que ela teve muitas vezes. E nesse ponto o pintor que não é grande pintor, teve uma intenção acertada. Ele compreendeu bem a psicologia das coisas.

(Dr.Caio: É [o] irmão de Santa Teresinha.]

Ah, é! Exprime muito da vida de família, como eu acabo de dizer, naquele [daquele] tempo; da boa vida sacral, as vidas daquele tempo, da família.

Pode mudar.

Esse quem é?

(Dr.Caio: É Madame Martin.)

Ah! Eu gosto muito mais dessa [fotografia] do que a anterior. Porque nesta aqui, eu ao menos sinto muito mais a piedade, nas outras sentia as qualidades de uma boa senhora, mãe de família, piedosa como todo o mundo. Aqui há um sopro, que faz prenunciar Santa Teresinha. Os senhores notam exatamente no olhar, que não é o olhar da Princesa Savóia, porque é outra pessoa, com outras psicologias, em outras condições, mas é um olhar igualmente elevado, e que se perde no vago. Até… ela parece aqui, pelo… [falta palavra] …ser um pouquinho estrábica. Não sei se os senhores notam. O olho de cá, está um pouco mais próximo daqui, do que conviria bem. Mas isso é uma coisa que não tem importância nenhuma. Há uma pureza, há algo de diáfano no rosto dela, e há algo de decidido, e também, aquele ligeiro véu de tristeza — menos acentuado, muito menos do que na Princesa —, um ligeiro véu de tristeza, de quem nada espera das coisas deste mundo. E que já sabe que nesta terra de exílio, tudo é embuste, tapeação e precariedade.

Mas, uma pessoa que tem ânimo, notem a posição do pescoço e da cabeça, tem qualquer coisa de decidido, de pessoa de princípios, com quem não se brinca. Ao mesmo tempo uma pessoa afetuosa, uma verdadeira mãe de família.

Queira mudar.

Aqui está, Monsieur Martin, mas Mons. Martin bem antes das últimas fotografias dele. Não é Dr. Caio, bem mais moço? Ou o senhor não concorda?

(Dr.Caio: Não, ele era moço aí.)

Os senhores não se espantem muito, mas eu acho que os mais moços dentre os senhores devem estar pensando que esse é um homem de uns… não sei, de uns cinqüenta e tantos para sessenta anos. Não! De nenhum modo. Naquele tempo isto podia [se] dar. [É] um homem de quarenta e dois quarenta e três anos. Perfeitamente.

(Dr.Caio: Era isso. Um pouco menos até.)

Um pouco menos até. Quer dizer, para não ser, para não dar, para dar um ponto de referência, um homem que teria talvez uns cinco anos ou talvez um pouco mais do que os mais velhos da “Martim”. Um homem que deveria regular com Dr. Castilho, Dr. Adolfo.

Bem, mas os senhores vêem a calvície, a barba e qualquer coisa do homem: — no bom sentido da palavra — o homem vivido. Completamente amadurecido. Não quero dizer que o Dr. Adolfo e o Dr. Castilho e os da “Martim” não reúnam todos esses predicados, eu até afirmo que: reúnem todos os predicados imagináveis. Eu não estou mais fazendo comparações, eu estou apenas falando assim tão… do Sr. Martin.

Bem, agora a atitude: muito varonil, muito séria, embora numa posição de tranqüilidade. Os senhores notam que ele está completamente distendido, mas é um chefe; capaz de lutar a qualquer momento, ao mesmo tempo, entretanto, o olhar é magnífico e se me fosse possível dizer: eu o vejo mais próximo, o olhar de Santa Teresinha mais próximo do dele do que da mãe.

Os senhores façam abstração do resto do rosto e vejam só isto: os senhores vejam que elevação, que pureza, que limpidez existe nesse olhar. Que serenidade, que paz, que penetração e que meditação contínua. Eu acho um olhar estupendo. Quer dizer me parece que o prognóstico de Santa Teresinha está mais feito nele do que na mãe, ainda, embora da mãe também tenha [tido] muito boa impressão.

A roupa dele talvez mereça uma explicação: é uma roupa de interior de casa. É uma espécie de pijamão, de paletó de flanela, muito grossa com que se ia as vezes ao mato ou ao bosque, nos bonitos dias. Quer dizer, é uma roupa assim, que deve permitir movimentos mais elásticos, mas a vontade; uma roupa de conforto. O que está em coerência com a atitude distendida dele.

O que eu acho muito bonito aí é o seguinte: os senhores prestam a atenção, os senhores vêem um homem de trato afável e cortes de um homem afável, gentil, piedoso, mas varonil e que nada tem de “heresia-branca” ou de sacristão, mas absolutamente nada! É um homem, se a gente entrasse na igreja e [o] visse assistindo a Missa, a gente teria uma surpresa agradável e teria uma exclamação interior: “Que edificante! Que beleza!”

Faça o favor de virar.

Os senhores devem então imaginar aquela sala — sobretudo a sala de jantar que eu acho mais característica — devem imaginar aquela sala, com essas pessoas presentes.

E aqui os senhores têm o Sr. Martin já mais velho e com Santa Teresinha mocinha. Os senhores estão vendo — ao menos no meu modo de entender, como não sou técnico nessas coisas —, aqui parece mais próximo da fotografia do que aqui. Ele lucrou muito espiritualmente, ele aproveitou bem os anos que separam uma coisa da outra. Não por “cerimônia”, eu digo porque se eu quisesse — sem nenhum desrespeito — dizer eu não vejo que ele tivesse defeitos a perder, mas a gente vê que ele ganhou em qualidades.

Os senhores notam que apesar de ele continuar a ter a expressão de um burguês, ele não tem nada do burguês, no sentido pejorativo da palavra. Ele dá a impressão, pura e simplesmente, de um patriarca venerável e até majestoso. Aí a gente compreende bem a dignidade da velhice. Os senhores compreendem também como esses olhos estão prontos para ver a Deus com a alma que anima esses olhos, estão prontos para ver a Deu. Os senhores vêem que [o] olhar lucrou em vida, lucrou em intensidade, lucrou em luz; é uma coisa incrível, mas até o olhar “remoçou”.

Mas como este olhar fala e diz coisas indizíveis, a serenidade do rosto, a tranqüilidade é uma coisa estupenda! A inteira ausência de medo de morrer, ele nem pensa na morte, ele sabe que a morte é um salto e de outro lado está a outra vida.

Os senhores imaginam este homem numa daquelas poltronas grandes, junto àquela lareira, o fogo crepitando, as filhas conversando, umas já estão no Carmelo, Santa Teresinha cada vez mais elevada e sublime, se prepara para o sacrifício final. Os senhores podem imaginar então a sacralidade desta vida de família. Santa Teresinha está aí bem, mas há qualquer coisa de pintado, que eu não acho tão bem como na figura dele.

O senhor queria ir adiante.

Não sei se os senhores vêem que a tristeza aumentou. Eu não sei se é verdade, mas dir-se-ia que [é] nesta altura que já sabe que ela vai para o convento ou ela já foi. E ele está aqui com véu de tristeza; a cruz lhe pesa mais forte sobre os ombros.

Naquela outra fotografia ele era alegre, nessa está mais triste, explica-se: pela vida espiritual dele. Ele contou que ele tinha tantas, tantas consolações, que ele disse a Nosso Senhor o seguinte: “Meu Deus, assim as coisas não podem continuar. É preciso afinal que eu sofra”. E ele foi fartamente atendido. Porque depois ele teve uma doença mental na qual ele sofreu muito, ele ficou com a cabeça desequilibrada e fugia [de casa].

Aconteceu de tudo até um pouco, ao menos para quem não seja “teresiólogo” especialista, como infelizmente eu não sou, é um pouco misterioso o que houve com ele. Não sei se o Dr. Caio poderia dar pormenores.

(Dr.Caio:… [faltam palavras] …ele desaparecia de casa, fugido, depois, há vários dias, encontravam ele [e] traziam[-no] de novo. Foi para uma casa de saúde e ficou um ou dois anos.)

[faltam palavras] …com certeza, não é?

(Dr.Caio: Eu não sei se era uma coisa de derrame, não era… [faltam palavras] …era coisa mais séria.)

Enfim, alguma forma de arteriosclerose, provavelmente, não é?

Os senhores estão vendo entretanto aqui, que começou a cruz, começou a tristeza. Há qualquer coisa de penalizado aqui, aquele aspecto alegre desapareceu e as consolações se retiraram, mas no momento em que a projeção apareceu por uma associação de imagens, eu não sei porque, me lembrei do pano de Turim. De tal maneira “Christianus alter Christus”. Agora não há nem desespero, nem abatimento, não é? Há algo que diz: “Esse ciambulaverunt enumbra mortis non tinebo mala5, ainda que eu ande nas sombras da morte, eu não temerei os males.

Pode continuar.

É o fim do calvário dele. Os senhores estão vendo num carrinho de roda. Ele está paralítico e o todo já dá a impressão de uma pessoa [semil?] mas que sofre nas condições em que está, mas ainda com um certo porte. Agora quem são essas moças, Dr. Caio?

(Dr.Caio: Essa que está junto a ele é a Celina, irmã de Santa Teresinha, mas essa foi a última a entrar no convento.)

Entrou depois de ele morrer, antes, não é?

(Dr.Caio: Logo depois de ele morrer.)

Logo depois de ele morrer, a “máfia” trabalhou duro, dizendo que a entrada das filhas para o convento o tinham posto louco de dor.

Bem está é a Celina, essa aqui quem é?

(Dr.Caio: Seria Leonia que foi vicentina.)

Ah, sei. Que entrou antes ou depois de ele morrer?

(Dr.Caio: Depois, em 1900.)

E essa?

(Dr.Caio: E essa é a prima de Santa Teresinha, que entrou no Carmelo logo depois. E morreu em 1905.)

Essa aqui deve ser uma empregada, uma enfermeira. E aqui esses dois: esse é o Guerrim com certeza. O Sr. Guerrim, era uma coisa muito engraçada. O Monsieur Guerrim era um homem que de repente, não me lembro bem pelo que… [falta palavra] …herdou um castelo e herdou uma fortuninha razoável e ficou assim um homem da alta sociedade de Lisieux e montou um jornal. E começou a se meter em jornalismo católico e apostolado católico, etc., e ele escrevia e se dava muito bem com Santa Teresinha. Escrevia a Santa Teresinha e tinham correspondência, e Santa Teresinha achava os artigos dele muito bonitos e elogiava, escrevia carta[s], e a gente via que: sinceramente ela achava muito bonito esses artigos dele.

Eu teria dificuldade nesse ponto — posto de joelhos de tanto respeito — em compartir dessa afirmação, mas efêmera: o grande homem da família! Não é? Os senhores vêem com que respeito ele está em atitude em face do Sr. Guerrim e ali atrás para empurrar o carro, etc., como numa espécie de segundo plano.

Agora dizia-se que Santa Teresinha tinha um porte de rainha, ele chamava Santa Teresinha: “Ma petite reine”. Monsieur Guerrim ou Monsieur Martin e ouvi falar que o jardineiro do convento, depois não sei se o Dr. Caio confirma, talvez tenha sido Dr. Caio que me deu esta informação. Depois no processo de canonização que ele distinguia Santa Teresinha de outras freiras — apesar das analogias de hábito, de volume —, de costas e de longe, pelo porte digno que ela tinha. Algo disso se pode conceber pelo porte desta [fotografia]. Os senhores estão vendo que é uma pessoa modesta. Digna a roupa, a roupa é uma roupa de andar no jardim, [é um] avental que se punha na Belle Époque para ir no jardim. Porque podiam cair flores, ramos, folhagens, estragavam o vestido. Também para cozinhar bolos, etc. É um avental de intimidade. Os senhores estão vendo o grande pudor de tudo: a manga como vem até aqui e depois o pescoço como está, todo coberto, não é?

Bom, os senhores notam entretanto, o porte não propriamente aristocrático, mas digno e varonil, forte sem ter nada de másculo, que tinha a Leonia. Que era, parece, a menos extraordinária de todas.

Bem. Aí seria uma família. Os senhores estão vendo: distraindo-se no jardim ao mesmo tempo [em] que faz uma obra de caridade e com todo o respeito faz passear um pobre velho. Os senhores estão vendo aquela cadeira de rodas e aqui na direção da cadeira, é uma haste que está nas mãos dessa sobrinha, enquanto a propulsão vem dos que estão atrás. Com certeza esses dois homens se revezam na propulsam. Os senhores vêem essa inocência e os senhores vêem todos reunidos em torno desse modelo de sacralidade que [é]: Monsieur Martin. Aí os senhores têm uma certa idéia de uma família sacral.

Temos mais slides? Dr. Caio o que é que há?

(Dr.Caio: Aquela cadeira de rodas, foi a que Santa Teresinha usou quando ficou tuberculosa.)

Ah! Foi essa é? Que maravilha! Onde estará esta cadeira?

(Dr.Caio: Deve estar no Carmelo.)

Que maravilha! Mas é verdade que a cadeira tem um pouco [o] aspecto dos automóveis que pouco depois vinham [a] aparecer.

Tem mais alguma foto aí?

Bem, meus caros, vamos encerrar.

*_*_*_*_*

1 Parece querer dizer: “É uma imagem da constante abnegação, que é o próprio da vida de família.

Que a piedosa alma dela, ao menos, reze por nós.”


2 Refere-se ao estilo de comentário criado pelo Sr. Dr. Plinio: “ACC”; Ambientes Costumes e Civilizações.

3 Mansarda: (do fr. mansarde, de Marsart, arquiteto francês) Cômodo de uma edificação, situado numa abertura do telhado, com parede inclinada e teto baixo; água-furtada; sótão. [Conf. Larrousse, Vol. 16]

4 Rouge, maquiagem, maquilagem.

5 (Sl. 22,4)

Auditório da Santa Sabedoria