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Reunião Normal – 21/11/1969- 6º feira

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A “sacralidade” no trato de superiores e inferiores – A Luz mental

Nós vamos passar então para outros assuntos. Eu vou só contar um “fait divers”, que é tão pitoresco que eu me esqueceria de contar amanhã no Santo do Dia. Eu hoje li no jornal, enquanto eu fazia a barba, eu estava lendo assim fatos diversos no jornal, um jornal ultra sem graça, e estava tão sem graça que eu cheguei a ler essa notícia, por aí os srs. podem imaginar o resto. Há uma mulher aí – o s Srs. podem imaginar que espécie de mulher – que é dona de uma loja ou de uma casa comercial, na Av. São João, que vende sopas; e ela mora lá pelos lados de um larguinho aqui de São Paulo, que se chama Largo dos Protestantes, para dar uma idéia vaga – o nome aliás é dos menos convidativos, não é? – para dar uma idéia vaga é lá pelos lados da Estação da Luz, do Jardim da Luz, para aquele lado.

Essa mulher saiu de casa, não tendo telefone, ela foi a um bar para dar um telefonema. E ela tinha na mão uma bolsa na qual ele tinha um dinheiro e um anel de brilhante. E ela deixou assim sobre o balcão do bar e começou a falar pelo telefone quando veio um sujeito e arrancou a bolsa e saiu correndo. Ela não teve dúvidas: desligou o telefone e saiu correndo atrás do sujeito, alcançou e pegou um golpe de karatê nele. Pegou, ele não sabia lutar Karatê, caiu no chão, enfim, saiu um rolo, como os srs. podem imaginar; e nisso ia passando uma Rádio-patrulha que tinha dentro um delegado, a rádio patrulha viu aquele rolo, prendeu todo mundo e levou para a polícia. E lá então, ela esclareceu a situação, e o sujeito acabou confessando também o roubo, etc. Então o delegado, com certeza divertido pelo episódio, perguntou a ela o seguinte: como é que ela tinha, sabia karatê e como é que tinha conseguido ir atrás do homem e jugular o homem. Então, ela deu esta informação que todas as funcionárias e funcionários da casa de vendas de sopas dela aprendem defesa pessoal pagos pela loja, para pegar em plena Av. São João o pessoal que toma sopa e sai correndo.

Depois da primeira risada – porque a coisa é evidentemente cômica – há alguns comentários que tem oportunidade, que tem cabimento. O primeiro comentário é o seguinte: os Srs. estão vendo até que ponto baixou a moralidade hoje em dia; porque isso não é fome; aquela malandrada que anda a pé pela rua de São João, que haja algum faminto pelo meio, concebo, mas para se tornar habitual isto seja fome, não é, porque aquela malandrada que há por lá os Srs. sabem o que é que é, quer dizer, é roubalheira no duro: procura roubar uma sopa, e o dinheiro vai gastar no cinema, vai gastar numa porcaria qualquer, quer dizer é uma corrupção moral tão grande que esta loja julga dever defender- se com seus próprio recursos, e aprender – vejam a vida dura – karatê até para as mulheres. Se eu dissesse o seguinte; antes de os Srs. saberem essa notícia: a moralidade hoje baixou tanto, que uma pessoa não pode ter, por exemplo, um restaurante na Av. São João sem saber karatê, porque de repente alguém rouba.

Os Srs. diriam: Dr. Plinio, o Senhor tenha paciência, mas passou da conta; sua tese será muito boa, mas que argumento é muito forçado.

Eu diria: Por quê? Ele diz: não, porque eu passo pela Av. São João e eu vejo como é que as coisas são. Seria resposta, é evidente. Eu vejo. Eu teria vontade de dizer: não me caro, o que você não faz é ver, é precisamente o que você não faz, você não vê, você pode dizer que você anda lá, está bom; você pode dizer que você enxerga, está bom, mas ver, não vê. Porque de fato aqui está. São aspectos do mundo contemporâneo que a gente não vê e que são tal entrecruzamento que eu falava há pouco. Também eu sustento que há de outro lado uma evolução presidida por Nossa Senhora, por onde pondo mesinhas para recolher assinaturas contra o divórcio e contra o comunismo, na Av. São João, dá assinaturas. A mesma pessoa diria: também não. E a mesma resposta seria, se eu perguntasse: mas como? Porque eu vejo. Então, é bom nós duvidarmos um pouco do que nós vemos, à luz da experiência, não é tão mal achado assim; não é talvez muito amável, não é? Mas eu estou dizendo uma coisa talvez não muito amável com toda a amabilidade de que eu seja capaz; é uma coisa que sempre vale a pena a gente ter em linha de conta, ter em vista, é que às vezes nós não vemos, não é verdade? O primeiro passo que a gente tem para ver, é ver que não vê, é o primeiro passo; porque enquanto a gente não vê que não vê, a gente nunca começa a ver. Então vamos tomar isso em linha de conta.

Agora, por outro lado os Srs. vêem como nós ficamos à vontade nos costumes da época para aprendermos nós defesa pessoal; a tal ponto que eu lamento não ter recortado a notícia da “Folha de São Paulo” de hoje, eu lamento não ter recortado, porque seria uma coisa para guardar no nosso arquivo para o “dossier” das nossas polêmicas; porque se uma loja precisa ter defesa pessoal, em plena São Paulo, quanto mais um grupo que difunde idéias. Ou será que a Tradição, Família e Propriedade não são tão impopulares como se costuma dizer? Quer dizer, a gente esmaga o adversário com um argumento…[faltam palavras] …e é sempre agradável, e útil mais do que agradável.

Nós tínhamos visto na última reunião a questão da “sacralidade” no trato com as pessoas, no trato entre superiores e inferiores. Eu não sei se os Srs. se lembram da matéria tratada na última reunião ou se queriam um rapidíssimo resumo da matéria hoje para nós continuarmos. Os que desejassem um resumo muito rápido tenham a bondade de levantar o braço para eu ter uma idéia. É um certo número, eu resumo muito rapidamente.

A questão de que se tratava era o problema das relações entre patrões e empregados. E por essas ou aquelas razões, a exposição dizia mais respeito ao trato co empregados domésticos do que com empregados manuais de outra natureza; e também dizia respeito ao gênero empregados manuais do que empregados mais categorizados, de escritório, etc. E eu então tive ocasião de externar a seguinte tese: que as relações entre patrão e empregado, sobre tudo entre patrão e empregado manual, e dentro do manual sobretudo patrão e empregado doméstico, que essas relações a pessoa não atina bem, não se situa bem no foco aonde essas relações podem ser vistas adequadamente se não tomar o pressuposto católico a respeito do assunto. Qual é o pressuposto católico a respeito do assunto? O pressuposto é esse: que a função da empregada, da empregada doméstica é uma função “sacral”, e que a patroa deve tomar em consideração essa função e que deve vê-la conjugada com sua própria função de patroa, que é uma função “sacral” também; e que as duas, vendo a “sacralidade” que ambas fazem, e vendo a “sacralidade” maior do que faz a patroa e a “sacralidade” menor daquilo que faz a empregada, elas se colocam no foco em que as relações facilmente se esclarecessem, e um problema que se perde em aspectos e sub-aspectos insolúveis, esse problema se resolve como que numa palavra só. É mais ou menos como alguns quadros.

Em Roma há um quadro pintado no teto de uma igreja, que é muito interessante; não tanto uma obra de arte quanto é uma coisa artesanal muito bem feita. A gente em qualquer ponto da igreja onde esteja, olha para o quadro e tem a impressão de um caos:figuras heterogêneas, etc. etc. Mas há um ponto da igreja no qual a gente se colocando, todas as figuras se compõem, e aquilo faz sentido, e é uma cena bíblica, eu não me lembro mais qual é, talvez do Juízo Final ou alguma coisa do Evangelho, qualquer coisa assim.

Bom, há muitos problemas, sobretudo problemas sociais, que são assim: eles são insolúveis enquanto a gente não se coloca no foco de onde eles devem ser vistos; colocado no foco, tudo em duas palavras se resume e se resolve. Bem, assim o problema patroa empregada. Eu deveria então mostrar em que sentido é que essas funções são “sacrais” e mostrar depois como é que a “sacralidade” das funções resolve o problema. Quer dizer, eu dei a tese, eu passo a dar a demonstração. A demonstração é, primeiro: de que a atividade humana, a capacidade de agir do homem, é um dom de Deus, é criado por Deus, que é o motor primeiro das coisas, é o motor primeiro não só dos seres inertes, como também dos seres vivos, e que, portanto, o nós movermos tem a sua origem em Deus. E que todas as meditações que nós podemos fazer, por exemplo, a respeito de uma bonita flor ou de um bonito quadro, considerando que aquilo reflete uma grandeza de Deus, que é seu Criador, aquilo também pode dizer do operar humano; o operar humano quando ele é reto, quando ele é de acordo com a ordem posta por Deus, o operar humano reflete uma grandeza de Deus; e por uma co-naturalidade fácil de compreender reflete uma grandeza mais especialmente no operar divino. Quer dizer, o operar de Deus é espelhado pelo operar do homem. Assim, todas as atividades humanas tem uma raiz “sacral”; elas são reflexos de algo de Divino e elas tem uma dignidade, elas tem uma beleza, elas tem uma lógica e uma coerência que tem sua raiz em Deus, que tem seu fundamento em Deus. E isto vai das mais altas atividades humanas – vamos dizer, por exemplo, a atividade de uma Papa, que é uma evidente imagem de Deus governador do universo; o Papa, governador de todas as almas do mundo, é uma imagem evidente de Deus, governador de todos os anjos, de todos os santos, de todo o universo – até, vamos dizer, a mais baixa das funções, que seria, por exemplo, a função de lixeiro.

Um lixeiro que varre a cidade, por exemplo, este é também, ele faz uma atividade que é de caráter natural e não sobrenatural, portanto, a esse título muitíssimo inferior a do Papa; depois na ordem natural é uma atividade manual e, portanto, muito inferior às próprias atividades intelectuais; depois na ordem do manual é uma atividade meramente executiva, e ele não faz senão obedecer ao que lhe mandam fazer, ele executa com as mãos o que lhe mandam fazer; e depois, pela natureza do trabalho, que é tratar com lixo, remover o lixo que os outros jogam na rua, é evidentemente um trabalho muitíssimo modesto. Pois bem, esse trabalho, se visto numa perspectiva filosófica e teológica adequada, este trabalho tem uma função “sacral”: ele é o inimigo da sujeira, ele é o inimigo da desordem, ele executa na mais modesta das linhas a imensa tarefa que Deus pôs na criação da luta contra tudo aquilo que pode representar sujeira, que pode representar desordem, que pode representar o contrário dos planos de Deus.

Uma pessoa me fez uma vez observar uma coisa que me chamou a atenção; é uma pessoa de espírito funcional. Ela dizia que tinha assistido uma aurora no Rio de Janeiro – que eu me lamentava que uma vez eu fiz um esforço hercúleo, me arranquei da cama e subi no alto do terraço de um hotel onde eu estava hospedado, no Flamengo, no Rio, para ver a aurora; e não vi aurora nenhuma; eu cheguei muito cedo, e aquilo foi nascendo, um sol que eu nem sei onde nasceu, quando estava…[faltam palavras] …já estava tudo claro, eu não vi nada. Essa pessoa disse: “Não é uma coisa completamente diferente; você devia ter pegado um dia em tal ocasião do ano” – mas uma pessoa toda funcional, não é? Eu disse: “o que é que você viu na aurora? O que é que aconteceu vendo a aurora?” Eu pensei – é dessas conversas um pouco de salão, em que a gente faz a outra parte conversar – eu pensei que ela fosse me dizer que há tons rosas, depois dourados, refletidos no mar, uma “lenga”, “lenga” que eu já estava imaginando com seria, porque ela pegou um a aurora bonita - quem conhece um crepúsculo, com um pouco de imaginação conhece uma aurora, não precisa ser um colosso para isso, nem de longe. Então, eu pensei que ela fosse sair com isso. Ela disse: “É uma coisa linda, você não imagina: vai amanhecendo, vai amanhecendo, quando acaba de amanhecer está tudo limpo; a natureza inteira, não se sabe como, durante a noite se limpou, e tudo está limpo, até os pássaros amanhecem limpos”.Não é inteiramente verdade, porque eles se limpam de manhã – mas é fato geral todo bicho é limpo; tirando o porco e outros que tem vocação de representar a sujeira, os bichos se limpam; quer dizer, na ordem natural posta por Deus, a própria natureza em alguma medida se limpa a si própria.

E os Srs. estão compreendendo quanto há de dignificante para o lixeiro ver que Deus pôs um movimento universal nas coisas, por onde as coisas se limpam, e que ele é o complementador deste movimento de Deus. Ele é a imagem na ordem material, daqueles que removem as “sordices” espirituais, daqueles que removem as desordens espirituais. Quer dizer, ele pode, com uma concepção elevada das coisas, dar um alto culto a Deus, varrendo sua rua; e isto no trabalho modesto do lixeiro. Eu não garanto que esta função seja muito fácil de fazer nesses carros de recolher lixo, de hoje, que são tremendos, mas o trabalho de lixeiro, de si, tem essa magnitude.

O trabalho de uma criada de casa, portanto, tem também esta função. Se nós tomarmos em consideração a criada de casa enquanto limpando o lar, enquanto ordenando o lar, enquanto servindo o lar, se nós tomarmos em consideração o que é que o lar reflete das grandezas de Deus, inclusive as relações internas da Santíssima Trindade, as relações de Jesus Cristo com a Igreja, que são comparados com as relações do esposo e da esposa, nós compreendemos com é servir o lar; e então nós compreendemos como a dona de casa que dirige o lar, faz uma coisa nobre também.

Aí eu mostrava que a criada deve ter um encanto inclusive por adornar a sua patroa; porque a gente deve ter um entusiasmo desinteressado, um entusiasmo que eu chamaria no bom sentido da palavra infantil, no sentido das crianças de quem é o reino do Céu, e um tanto no sentido da infância espiritual ou inteiramente no sentido da infância espiritual de Santa Teresinha, um entusiasmo desprendido por aqueles que são mais do que nós, que tem qualidades que nós não temos, e que com isto dão a Deus uma glória que nós ficamos alegres que dêem; então uma criada que adorna a sua patroa para que a sua patroa com sua dignidade, com sua distinção, com sua elegância represente um padrão mais alto do gênero humano, e com isso identifique o gênero humano inteiro, e com isso dignifique a Deus. Uma criada que aja assim, ela age “sacralmente”; e que ela nessa perspectiva possa ser criada, sobretudo se a patroa vê a sua posição de patroa assim, não considera a casa como uma “chancunière” ou como um lugar de puro gozo, mas considera a casa como um santuário no qual também tudo deve caminhar para Deus Nosso Senhor. Aí a união da criada com a patroa são completas.

Isto foi o que muito resumidamente, eu comentei na sexta-feira passada, ou isto foi o que eu exponho muito resumidamente. Na sexta feira passada não foi nada resumido, eu fui muito longo, mas este é o resumo do que eu disse na sexta-feira passada.

Estava por detrás desta concepção a idéia de que toda a vida humana deve ser vista assim “sacralmente”; e que é quando o homem tem concepção da dignidade de suas ações que ele tem também a concepção “sacral” da dignidade do carro em virtude do qual ele exerce as suas ações; e que ele então tem a concepção da dignidade que o cargo confere à sua pessoa. Porque se a criada sabe que servir é uma coisa “sacral”, ela saberá também que ser criada é uma função “sacral”, como toda função [lícita?], não pode ser vista laicamente, tem que ser vista “sacralmente”. Então, ser criada é uma função “sacral”. Ela saberá, portanto, que há uma dignidade de criada que ela junta à dignidade de ente humano e de filha de Deus, que é uma dignidade verdadeira e que ela carrega consigo, quer dizer, ela é isto. É assim que se deve ver, portanto, a vida.

Mas que isto é ainda maior com os que têm, – agora eu passo a outro ponto - com os que têm funções mais nobres, os que são por exemplo, professores, aqueles que são advogados, médicos, engenheiros, que dirigem empresa, que são diplomatas, que são militares, etc, etc., todas essas funções tem um suporte “sacral”, e é preciso vê-las sacramente ou a gente não entende nada. E uma sociedade verdadeiramente católica, por exemplo, no Reino de Maria, é uma sociedade na qual todo mundo que exerce suas funções, as exerce evidente com um desejo de lucro, porque sem lucro ninguém vive. Mas não com um desejo exclusivo de lucro, e eu acrescentaria mesmo, não um desejo preponderante de lucro, mas é pela alegria que sua alma encontra, em virtude de sua própria luz primordial, em fazer aquela função para qual é chamada. Então, o verdadeiro relojoeiro, por exemplo, o relojoeiro suíço, exímio, que monta um relógio de primeira categoria, este relojoeiro, ele gosta de fazer relógios, ele deve gostar de fazer relógio, ele deve gostar de fazer o relógio porque o fazer relógio, em si é uma coisa bela, e é bela porque ela participa em algum modo de Deus; a beleza que Ele sente tem uma explicação “sacral”, e por causa disto ele deve com espírito “sacral” ser relojoeiro, e ele não deve querer deixar de ser relojoeiro assim que lhe dê uma profissão que renda mais, uma vez que sua alma vá toda para fazer relógios. Por quê? Por que o profissional não é sobretudo aquele que quer ganhar dinheiro, mas é sobretudo aquele que concorre com o plano de Deus, de acordo com um apelo íntimo de sua alma, que é um sinal da Providência, para fazer alguma coisa em que ele adore e serve a Deus. Bom, este é o clima do Reino de Maria.

Agora, a partir disso, eu teria uma dupla exposição para fazer aos Srs. mas eu não vejo bem qual dos dois caminhos lhes interessa mais, se é que algum dos dois interessa. O primeiro caminho é: fazer o contraste disto com a atmosfera comunista, para sentirem bem qual é o choque, não ficar apenas intuitivo mas ficar inteiramente explicitado. Agora, de outro lado eu poderia fazer outra coisa, que era tomar várias profissões e mostrar como é que se pode ver a “sacralidade” dessas profissões. Eu pergunto qual dessas duas coisas os Srs. achariam útil para nós tratarmos na reunião de hoje. Alguns dos srs. quer fazer uma pergunta antes de optar?

(Dr. Celso: Não é possível o senhor expor o primeiro e depois dar alguns exemplos do segundo? Não há tempo para isso?)

Não é uma sugestão, eu poderia perfeitamente fazer. Se quiserem, pode ser. Então, há uma sugestão do Sr. Celso Vidigal que seria de expor o primeiro e dar os exemplos do segundo. Os Srs. tem, portanto, três opções . Vamos chamar opção A o expor hoje o comunismo; a opção B o expor hoje a “sacralidade”; a opção C, compor uma coisa com a outra e passar a outro tema na reunião que vem.

Os que preferirem a opção A queiram levantar o braço para eu ter uma idéia. Os que preferem a hipótese B, quer dizer, eu dar agora a “sacralidade” das profissões, levantem o braço. Os que preferem uma coisa composta, levantar o braço. É a grande maioria. Bem, então vamos tocar por aí.

Eu apenas acho melhor inverter a ordem porque eu ganho tempo com isso, e dar de umas duas profissões aquilo como é que deve ser visto “sacralmente”, e depois então passar para a questão do comunismo. Que espécie de profissões os Srs. preferem que eu cuide: uma profissão manual e uma intelectual, ou a profissão preponderante entre os Srs. e tomar rapidamente advogado, médico e engenheiro? Como é que preferem que eu faça? Ou preferem uma profissão, vamos dizer, rei, ou qualquer coisa assim? Os que querem advogado, médico, engenheiro levantem o braço. Os que ficam na dúvida, levantem o braço. Os que preferem uma profissão tipo rei ou qualquer coisa assim, levantem o braço. Certamente eu fico na dúvida. Então vamos fazer rapidamente advogado, médico, engenheiro e uma coisa humilde, e depois tratar de comunismo, a gente condensa tudo numa coisa só.

Eu vou começar por falar dos advogados, uma vez que eu fui advogado e que eu tenho diploma inútil em casa, não tão inútil porque a minha casa resulta do exercício do diploma – eu vou falar da advocacia.

Como é que um indivíduo vê a profissão de advogado? Não pensem que eu vou dar a coisa segundo o sistema comum, porque não me parece psicológico, eu gostaria de fazer de outra maneira. Quando o indivíduo tem verdadeira estrutura mental do advogado, ele tem antes de tudo um senso muito vivo da norma e da regra: existe tal regra, existe tal norma, e ele tem um gosto, um feitio de espírito por onde ele goste de ver as regras,as normas, os códigos, ele acha a ordenação uma das coisas bonita; e isto representa a lado rígido do espírito do advogado. É sobretudo um certo tipo de advogado, que não dá tanto para advogado como para [juriscosulte?] quer dizer, quando há uma dúvida na interpretação da lei, dá uma consulta luminosa; não advoga, não dirige causas, mas dá uma consulta luminosa, quando pedem a ele para tratar de um código, ele [ora?] um código ordenado, bem feito, etc., límpido; é um dos aspectos do espírito do advogado: é o gosto de ver a ordenação humana, e de trabalhar para ordenar o homem.

Agora, o espírito do advogado tem uma inclinação aposta a essa – que já terá ocorrido ao espírito do professor habitualmente muito preconcebido contra o advogado – e é a seguinte: é o gosto, pelo contrário, do argumento subtil., da maneira da maneira jeitosa que inverta a lei, e que sabe de dentro de um texto de lei encontrar a exceção, arranjar o argumento que [mova?] que a lei dispensa, mais baixo ainda, sabe e encontrar a… [ilegível] …que deixa o outro lado completamente assim e que triunfa [da?] lei. Quer dizer, há o advogado ordenador, lógico, … [ilegível] ….e há o … [ilegível] … advogado que tem a paixão de… [ilegível] …há o advogado [tapeador?]. Essas são as duas vertentes diversas do advogado. Não deixa de ser verdade que em … [ilegível] …alguma… [ilegível] … o faz…[ilegível] …profissão de advogado pode ser exercida sem roubo, e neste caso apresenta uma verdadeira beleza. Um advogado que examina uma lei e que no examinar a lei, aperta o texto e percebe que um certo caso não cabe dentro do texto, e que faz uma a argumentação brilhante mostrando que o caso não cabe dentro do texto pela sutileza dele, um advogado que toma um caso concreto, vira e revira o caso e encontra no caso a força de [argúcia?] e à força de saber escarafunchar, encontra no caso características pelas quais o caso não se encontra dentro da lei, um advogado que faça qualquer dessas duas coisas, este advogado revela uma espécie de flexibilidade de espírito, de elasticidade, uma forma de luz mental – e aqui que está a beleza do “metier” do advogado, está todo na luz mental - é uma forma de luz mental que é diferente da outra; assim como na ordem natural nós poderemos achar que um obelisco é uma beleza, um monólito: impávido no meio do deserto; os séculos mudem e aquilo não muda; uno, contínuo, etc.; mas nós podemos achar uma beleza, por exemplo, o vôo de um inseto, o vôo caprichoso de um inseto em torno do obelisco, um bailado nos ares completamente novo e inesperado; assim também nós podemos encontrar no estilo mental, no movimento mental, na habilidade mental – eu insisto na palavra – na luz mental de qualquer dessas duas formas de advogado uma beleza de feitio de alma, uma beleza de movimentação de espírito, uma diferente da outra, mas que nos dão idéias da lucidez infinita de Deus que é a própria inteligência, e em cujas obras, em cujo modo de governar o universo, nós vemos exatamente isto: de um lado Deus que, magnificamente ordena todo o universo, e depois Deus que cria uma porção de seres que representam [exceções?] dentro do universo, situações e casos, etc., em que Deus quase que brinca com as regras que Ele mesmo pôs, e por meio de uma série quase infinita de divinos caprichos faz exceções saltitantes que constitui um charme por… [ilegível] …da grande majestade das coisas que Ele pôs.

Os Srs. vejam, por exemplo, Deus que cria a ordem toda celeste,[mar?] ao meio .. [ilegível] …, uns … [ilegível] … umas coisas que cruzam assim, que ninguém imaginava, não é verdade? Esta coisa que cruza é cheia de subtilezas, e indica uma forma da luz de Deus que é diferente da luz de Deus ordenador das grandes coisas.

Aqui os Srs. têm o [que] constitui a essência do metier do advogado. É uma forma de luz mental que tende a exercer-se, que tende a aplicar-se; esta forma de luz mental pede o caso, pede a profissão, e o advogado que não encontra a profissão para desenvolver essa luz, passa a vida inteira um sujeito frustrado; há algo nele que devia florescer e que não floresceu, e que o amarra, e que o deprime e que o aborrece; ainda que ele tenha grandes possibilidades em outra carreira, ele fica a vida inteira como um indivíduo que passou, por exemplo, com um braço amarrado, louco para esticar o braço e que não pode; é essa mesma forma de mal estar, mas muito pior porque é dentro da alma e não é do corpo. Aqui está a beleza da profissão de advogado. Eu acho, portanto, que não é preciso insistir tanto na beleza funcional da profissão de advogado, porque também é bonita: a prova do direito, a prova da lei, a ordenação do universo, a defesa do inocente, etc. são coisas que entram pelos olhos e de uma grande beleza, também de uma grande “sacralidade”; mas o homem não sente tanto a “sacralidade” na função e ele faz, ele sente mais a “sacralidade” no tipo de luz mental que ele põe e ao fazer aquela função; é aí que ele sente propriamente a “sacralidade”. Eu não sei se essa tese está clara ou eu naturalmente está cheio de objetantes contra a classe dos advogados, basta eu ver aqui vários engenheiros para eu compreender isto, mas eu não peçam que concordem in totum comigo, eu peço apenas que compreendam a teoria da luz mental, porque é por detrás disso que está o melhor do conceito de “sacralidade” de uma profissão. Isso está claro ou queriam me perguntar algo?

Bem, uma vez que isto está claro é o caso de dar outros exemplos ou seria melhor passar para o comunismo? Os que quisessem outros exemplos, levantem o braço para eu ter uma idéia.

(Dr. Eduardo: Me parece que se o senhor desse do engenheiro e do médico, completaria muito, quer dizer, á algo tão fulgurante que o Senhor apresenta do advogado que… [faltam palavras] …certamente o médico tem outras fulgurancias também.)

Aqui a coisa não é fácil, porque são fulgurâncias que não fulguram na minha alma privada dessas luzes, e que eu contemplo, portanto, de forra para dentro. Eu poderei conjecturar, eu não sei se saberei acertar.

(Dr. Borelli: Eu acho melhor evitar o problema.)

Eu poderia talvez tentar um pouquinho, imaginando um arquiteto que constrói um castelo medieval, uma Catedral medieval. Seria mais adequado do que imaginando um arquiteto que constrói que - para prosperidade da TFP – constrói um prédio moderno. Mas não sei se eu posso penetrar nesse santuário da alma de um arquiteto, arquitetando.

Como é que eu imagino o arquiteto que arquitete? Eu imagino o seguinte: eu, por razões x,y, z, que não vem ao caso expor, eu acho que , eu tenho essa convicção de que a obra de arte mestra do homem não é a escultura, nem a pintura, nem a música, nem nada disso, mas é a arquitetura. A melhor expressão da sociedade humana não é um quadro, uma pintura, uma escultura ou uma música, nem uma jóia, nem uma cadeira, um móvel, mas é uma casa; na medida em que a gente entende a casa com tudo quanto ele tem. Então, por exemplo, na medida em que a gente entenda uma catedral com toda a sua estrutura de pedra, mas com todos os seus vitrais, com todas as suas imagens, com todos os seus bancos, com todas as suas estalas, com todos os seus altares, com o seu Sacrário e com o seu órgão tocando; quer dizer, eu acho que todas essas outras coisas que estão dentro da Catedral, mosaicos quadros, vitrais, e tapeçarias – que queiram, tudo isso são peças feitas para serem vistas num conjunto, e que o conjunto para o qual tudo isto é feito é o prédio; de maneira que o prédio dá a perspectiva total, de tudo; enquanto perspectiva total que ele dá ele vale mais do que as perspectivas parciais que entram dentro dele; porque aquele que arquiteta o todo, este age melhor do que aqueles que arquitetam as partes, ele tem uma atividade mais alta do que aqueles que concebem as partes; e assim como é intuitivo que é mais ser um arquiteto do que ser um “movelheiro” que faz uma cadeira, é intuitivo que é mais ser um arquiteto do que ser um pintor ou um escultor, desde que se compreenda que a pintura e a escultura só têm razão de ser dentro da casa.

É a razão pela qual, por exemplo; eu tenho um nó – que aliás eu tive muita alegria de saber que São Pio X tinha – com museu; porque o museu é a coisa arrancada de dentro de seu ambiente próprio e posta numa casa com que ele não tem nada que ver, e onde a coisa está expatriada, é um depósito de mortos da arte.

O Louvre tem o escriba… [faltam palavras] …, tem não sei mais o que; a gente abre outra sala tem Catarina de Médicis; abre outra sala tem Veneza. Essas coisas não foram feitas para estarem nos seus lugares? Não meio inumano, meio mal pensado isso? A meu ver é. Mas se isso é assim, então a casa é a obra de arte mestra que deve conter tudo. Que deve conter mais do que objetos que estão dentro, que deve conter o homem; a casa é a moldura do homem; e assim como a moldura tem um grande papel para dar realce ao quadro, assim também é o quadro do homem, é o quadro da família, é o quadro de uma Diocese, por exemplo, com seu bispo, seus cônegos, seus monsenhores, etc., onde todos estão rezando numa liturgia Constantiniana, com órgão, enfim, com todo aparato da Hierarquia e da liturgia reunidos. Quer dizer, este é o arquiteto.

Então, eu imagino um arquiteto, um indivíduo que tenha antes de tudo uma alta função, uma alta idéia da natureza da coisa para a qual ele constrói, e que sabe construir a coisa pegando a alma de um grupo humano em determinado momento e exprimindo nos seus aspectos mais nobres e mais favoráveis dentro das circunstancias que aquela obra de arquitetura deve representar.

Quer dizer, ele não é só um teólogo, um filósofo e até certo ponto um historiador que conhece a história da instituição para a qual ele constrói, mas ele é mais do que isto, um indivíduo que tem noção do modo pelo qual os homens do seu tempo, sentem a instituição ou coisa para a qual ele constrói; ao menos os homens bons de seu tempo, eu não digo a canalha do seu tempo, mas os ultramontanos de seu tempo sentem; e que constrói a coisa para aquilo. Bem, e que possui, por tanto, uma inter-relação grande da alma dele com uma série de valores e uma observação psicológica muito fina. Ele tem, portanto, um conjunto arquitetônico de conhecimentos que ele vai depois transferir para uma arquitetura de pedra; e é então um espírito possantemente simbólico que sabe tomar do nada uma série de concepções, reuni-las para fazer algo que exprime aquilo que ele quer; nisso ele põe sua alma e ele é um arquiteto com alma. Quer dizer, me parece um espírito altamente figurativo do Espírito de Deus, criando e ordenando todas as coisas.

Este seria a meu ver o espírito do arquiteto. Não é portanto o espírito politécnico que eu creio que muitas vezes, não sempre, - Saint Simon obriga sempre a fazer as ressalvas – muitas vezes, não sempre, é um espírito que mutila, que amputa, porque reduz a coisa a finalidades funcionais que evidentemente devem estar presentes e presentes com toda sua realidade, todas as suas exigências, mas são secundárias, depois, que reduz tudo a uma estandartização, uma uniformização, enfim, uma empresa econômica comum. Isto eu acho que é a coisa errada. Nesse sentido, por exemplo, eu tenho impressão de que a CAL em algumas das suas realizações, em múltiplas das suas realizações é [ladanda?] é digna de louvor.

A CAL constrói uns prédios modernos em que minha alma não encontra ressonância; mas ela constrói uns tantos prédios em estilo antigo que tem a meu ver o mérito, não só o mérito já mil vezes tratado por nós de representar uma expressão da tradição nas [coisas?] modernas, mas é uma coisa diferente: a CAL sabe apresentar o estilo antigo com certas características que correspondem aos lados bons das exigências do gosto moderno. Não sei se eu estou me exprimindo bem a esse respeito?

O espírito moderno tem algumas exigências boas; a CAL sabe introduzir isto nas suas realizações, e realmente por uma coisa que por causa disso cai no gosto do espírito moderno.

O Adolpho, por exemplo, para exemplificar com um dos da CAL, o Adolpho, a gente vê conversando com ele, etc., que ele é uma pessoa que observa e tem antenas para isso, ele observa com sagacidade os pontos que dão… [faltam palavras] …há uma expressão muito arcaica, que eu não sei se os Srs. sabem o que quer dizer, sobretudo os de língua castelhana, eu não sei se sabem o que quer dizer, mas que corresponde ao xodó de cada um, quer dizer, é o ponto fraco, é o ponto melado de cada um.

O Adolpho sabe, nas plantas dele, por alguma coisa disto do gosto do espírito contemporâneo e que muitas vezes é alguma causa laudanda, junto com a coisa antiga, e onde ele mostra um polarizador de psicologia e de sociologia, que é subconsciente, que eu tenho impressão que ele não sabe que ele faz; mas essas coisas às vezes exatamente são muito boas quando a pessoa não sabe que faz. O pai dele fez uma coisa que ele julgava uma crítica “acachapadora” aos prédios do Adolpho, e era até certo ponto uma crítica bem feita, e a crítica era a seguinte: ele dizia que o Adolpho não fazia prédios, fazia pedacinhos de palácio. Realmente é bem isso. Houve tempo que o Adolpho fazia pedacinhos – esses prédios que ele construía pelos Jardins América, Europa … [faltam palavras] …eram muitas vezes pedacinhos de palácios. A gente via, eram duas janelas muito trabalhadas, no centro uma porta e depois dentro uma escada, umas relambores desse gênero, mas que cabiam num palácio, mas que não podiam ficar num cotó. A crítica era bem feita.

Mas o que o Adolpho tinha pegado? O Adolpho tinha pegado uma sociedade burguesa com apetências tradicionais ainda para formas aristocráticas, algumas veleidades boas de aristocratiza-se, sem dinheiro para ter palácio, e cuja ascensão de alma só podia fazer-se construindo pedacinhos de palácio; para a fragmentação da sociedade contemporânea o pedaço de palácio era a solução. O Adolpho percorreu com a alma esses alambiques, creio eu que subconscientemente, mas de fato foi o que ele fez. Agora, o resultado: o sucesso do trabalho dele. Bom, mas eu não quero me deter no sucesso lucrativo para TFP. Eu quero me deter numa outra coisa, é na função, na forma de luz intelectual que esse trabalho supõe, que pode ser realizado, evidentemente, [na?] escala muito mais modesta até por um pobre mestre de obras que faz uma casa no interior.

No caminho de Amparo tem uma casa assim, que eu não tenho comentado porque eu fico às vezes envergonhado de acachapar meus amigos ao fluxo dos meus comentários. Mas é uma casa que fica quando se vai de Amparo para Campinas, há duas casas até, creio que em duas cidadezinhas diferentes: uma é uma casa fechada – eu não sei o que é que houve nessa casa, mas que é um mimo de casa, simplesmente – é uma casa fechada, é do lado esquerdo de quem vem de Amparo para São Paulo, é uma casa fechada que tem quatro, cinco ou seis portas-janela em cima com arcos e outro tanto em baixo. O encanto está na proporção. Deve ter sido algum modestíssimo leg-ler lá daquela região que fez isto; mas é uma tal gracinha, que se dentro se mandasse arranjar a casa, pôr uns terraços de ferro batidos bonitos, pôr uns abacaxis de cristal bonitos, umas lâmpadas do lado de fora, ficaria a prefeitura mais bonita do Estado de São Paulo.

(Dr Plinio Xavier: E isso marca tanto o lugar, que o lugar tinha tradicionalmente o nome de Coqueiros, mas que foi obrigado a mudar de nome porque havia um outro Coqueiros por esse Brasil afora, e o nome atual do lugar é Arcadas.)

Ah, é? Veja que coisa interessante, eu não sabia. Eu, não há vez que eu venha ou que eu vá para a fazenda, que eu não me nutra de ver aquela casa. É um modesto nutrimento, mas o pão também é um nutrimento modesto,e os felizardos que não tem regime para emagrecer, comem pão todo dia, é uma maravilha, não é verdade? Isto é o pão não é? É o esplendor da função do arquiteto, é uma forma de luz intelectual, porque isto modela a vida e alma dos que moram ali dentro e dos que passam ali perto. Os Srs. estão vendo uma casa fechada, um estado de tapera, e que dá o nome à cidade. Não preciso dizer mais nada.

Bem, eu não sei se eu me exprimi bem – eu sei que a engenharia comporta muitas outras funções, eu pego uma delas, que é a que está menos distante de minha delimitada circunscrição intelectual; haverá muitas outras coisas, hoje eu confesso que é mais difícil para eu perceber a coisa, mas enfim, todas tem. Não sei se eu fui claro, se eu foi obscuro.

Bem., eu creio que então eu posso passar por cima do metier de médico, do qual eu sou beneficiário… [faltam palavras] …ou, digamos, uma palavra para eu não ser descortez com os médicos.

Eu creio que o médico, se eu percebo bem, o médico, pelo menos enquanto clínico, o feitio de espírito do médico tem algo - mas naturalmente em ponto de maior categoria – a luz intelectual do médico tem algo do diplomata e algo do detetive. É uma subtileza de espírito por onde à vista dos sintomas se faz a combinação para justificar a hipótese, e onde se acompanha o processo de uma doença com senso do que é um processo da concatenação das causa e efeitos, da coordenação das circunstâncias com que o político faz política ou que um diplomata faz diplomacia. Eu tenho impressão de que se joga com o fígado ou com o pâncreas, se joga com ele com a habilidade com que se joga em política. Eu vi, por exemplo, uma coisa do Dr. Rodrigues nesse sentido.

Quando eu comecei a melhorar da dosagem do açúcar, ele de repente parou com o açúcar antes do açúcar estar normalisado. E eu disse: mas meu Deus, vai crescer tudo de novo. Diz ele: não, é preciso interromper o uso do açúcar para que o pâncreas que agora ficou fortificado comece a dar de si, porque do contrário ele fica preguiçoso e habituado ao remédio; mas é preciso um jeito, porque ele tem que dar de si, agora ele tem que andar por si. De fato, depois por aí ele começou a melhorar até chegar a esta relativa normalidade em que graças a Deus eu me encontro.

Bem, quantas coisas assim a medicina deve fazer! Eu tenho impressão que é [pão?] nosso de cada dia da medicina, em que faz [política?] com o órgão, trata [bem?] o pâncreas como quem trata uma criança, ou trata com o pâncreas com quem trata com soldados preguiçosos de um exército, ou com um povo que não tem vontade de trabalhar, que a gente deixa empobrecer um pouco para que ele trabalhe. Quer dizer, são mil jeitos, mil golpes, se querem, mil advocacias com a natureza, cuidadosamente estudadas e que fazem a glória e a forma de luz intelectual do clínico.

Bem, não sei se os meus médicos aqui concordam com esta percepção ou se acham que ela é pobre. Querem acrescentar algo talvez? Eu estou inteiramente à disposição, até teria vontade de saber se eu erro. Ao longo desse tempo de doença eu examinei muito isso e me pareceu confirmar-me isso. Dr Edwaldo e Dr. Haddad, o que é que pensam, com toda franqueza?

(Dr. Edwaldo: Me parece que está perfeito, Dr. Plinio, eu nunca explicitei estas coisas, eu estou vendo agora pela primeira vez.)

O Sr. não acha que em um a escola de medicina se lucraria em dizer isso?

(Dr. Edwaldo: Enormemente. É o que se deveria fazer propriamente.)

É assim que o médico se realiza, porque um homem que não se explicita é irrealizado; não é o homem que ganha dinheiro que é homem realizado, o homem que se realiza é o homem que se explicitou a si próprio, esse é o homem realizado. E o Dr. Haddad, com toda franqueza, Dr. Haddad, o que é que… [faltam palavras] …

(Dr. Haddad: Eu acredito que é isso mesmo.)

É isso mesmo?

(Dr. Haddad: É um verdadeiro jogo de xadrez, vamos dizer, em cada caso clínico, em que o raciocino tem que realmente ir acompanhando muito… [faltam palavras] …)

E é essa a beleza, é a forma de luz intelectual no caso, [mas?] é descobrir o diagnóstico, dar o golpe no pâncreas, é isso ou não?

Agora os Srs. vêem aí o seguinte:o gosto que o indivíduo tem na profissão, de um lado, mas de outro lado esse gosto que não é um gosto para ganhar dinheiro, embora ele tenha que viver da profissão, mas é um gosto de tirar de si uma porção de coisas que dormem dentro dele e que ele a todo custo deve tirar para exatamente ele se realizar, para ele se explicitar a si próprio. Bem, mas os Srs. vêem de outro lado que entra aqui um amor à beleza desta operação mental enquanto ela mesma; porque tudo se reduz à beleza de agir; e nas profissões intelectuais de um agir da mente. E é essa beleza do agir da mente que nos convoca para nós adoráramos a Deus enquanto sendo assim, procuramos ver todas as coisas assim que Deus pôs no universo, e compreendemos que Deus vai fazer coisas dessas conosco no Céu por toda eternidade, e que a nós Ele vai tocar assim, que isto é uma pré-figura do nosso céu.

Esta seria a profissão. Eu não posso me esquecer - isso não é coisa de profissão, mas é um fato dado aqui no grupo, dado com Dr. Arnaldo.

Nós estávamos uma vez em São Sebastião, e estávamos jogando um jogo – era feliz tempo em que o grupo jogava jogos – em que… [faltam palavras] …há um jogo, eu não sei como é que se chama, com uns bastõezinhos compridos, a gente joga assim e os bastõezinhos caem uns sobre os outros; e a gente tem que tirar sem violar certas regras do jogo, e eu estava adorando aquilo, um certo interesse isso me apresentava; mas um interesse relativo do homem que não é do metier; e portanto quando a coisa caia simples, eu ficava contente. De repente a coisa caiu bem complicada, o Arnaldo esfregou as mãos e disse: que delícia, está complicadíssimo. Bem, é um modo de luz intelectual que é… [faltam palavras] …, é um verdadeiro modo, uma aptidão de luz intelectual que é exatamente a virtuosita, para usar uma palavra italiana na muito boa, pela qual o indivíduo toma a complicação e à força de jeitos e trejeitos, cujo segredo dorme no fundo dele, ele resolve situações difíceis. É uma virtuositá, é um… [faltam palavras] …bom que dá, conforme o individuo para a habilidade política, para o jogo filosófico, para uma porção de outras coisas, mas é uma nova – que eu chamaria pessoal se a minha experiência não me levasse a chamar de familiar – é uma nota que está no espírito dele e que fá-lo achar deliciosa a complicação.

Ora, eu vejo que há muitos dos Srs. – eu pertenço a esta família que é incomparavelmente mais numerosa na humanidade – dos que não gostam da complicação: quando a coisa está complicada, acaba com isso, gosta da coisa simples. Eu compreendo e admiro que Deus tenha criado espíritos apaixonados pela complicação, pelo gosto de resolver. É uma coisa natural. Tratando já que o Dr. Fábio cai aqui debaixo dos meus olhos – tratando de questões da Comissão do Exterior com o Dr. Fábio. Certo gênero de complicações ele não aprecia muito: por exemplo malotes em que a matéria está posta em desordem, ele fazer o jogo de por em ordem, não é muito dele, mas rasteiras políticas, arranjos, golpes, karatê de relações pessoais eu vejo que ele tem uma volúpia quando aparece, por quê? Porque é essa mesma coisa posta num outro plano. Mas que é uma força, é uma luz intelectual que é um reflexo de algo que há em Deus e que se exercendo legitimamente nos faz amar a Deus, e nos faz nós nos compreendermos a nós mesmos.

Bem, com isso também nós estamos perto do fim da reunião. São meia noite e trinta e cinco e não deu tempo para o comunismo; Eu me deixei arrastar pelo vício da [descrição?] e fui mais longe do que eu quisera e não vai dar tempo para o comunismo. Mas eu pergunto os Srs. se – os Vidigais aqui presentes, se eu interpretasse a ilustre família - eu pergunto aqui aos Srs.. Se… [faltam palavras] …o Dr. Celso, por exemplo: Dr. Celso em argumentação, se ele pode arranjar um argumento oblíquo ele prefere ao argumento direto. A gente que você às vezes argumenta sorrindo de alegria de ter arranjado um jeito oblíquo de argumentar. Faz parte do mesmo estilo. Cada um tem seu estilo, cada um sabe e… [faltam palavras] …cada família, aliás tem assim tretas próprias [dificílimas?] para outras famílias. E uma família chega a se definir inteiramente quando ela definiu todos esses [traços?] comuns que há entre seus membros. Aí a família se definiu. Aí os Srs. tem até uma bonita conjunção que eu vou mostrar daqui a pouco.

Agora, a conseqüência para a vida espiritual. A conseqüência para a vida espiritual seríamos nós nos habituarmos, não olharmos diretamente para nós, aí já entra “megalice”, é perigoso, nós nos habituarmos a considerar assim os fundamentos “sacrais” de todas as atividades que exercemos ou que outros exercem em torno de nós; mas é na forma de luz intelectual que a atividade trás consigo. Eu compreendo que a atividade poderia ser vista por mil outros modos, mas é nesta forma de luz intelectual que afinal de contas nós podemos compreender melhor a Deus, e a “sacralidade” da profissão.

Eu termino com uma afirmação: é por causa disso que um povo que dá poucos sacerdotes ou poucos guerreiros, é um povo que está em estado de degenerescência. E, ou se trabalha para que ele volte a dar muitos sacerdotes e muitos guerreiros, ou a sua fibra está liquidada. Porque, das atividades humanas eu creio que nenhuma tem tanta nobreza e tanta analogia com as coisas de Deus do que o sacerdócio, é uma coisa evidente, com luz mental que há em Deus. Mas também uma sociedade que não produz guerreiros é uma sociedade que não odeia o contrário que ela ama, e portanto não ama nada e é uma sociedade que está em putrefação; o espírito sacerdotal e o espírito guerreiro são essenciais ao equilíbrio de toda sociedade.

Agora eu passo para uma outra consideração inteiramente diversa, mas que eu não posso deixar de dar aqui porque eu me sinto, por aquilo que eu pretensiosamente poderia chamar a minha luz mental, muito propenso a dá-la; mas são correlações que eu gosto de fazer.

Os Srs. estão vendo bem o que é que é uma família: uma família não é principalmente na realidade biológica, mas é com base na realidade biológica, uma realidade, uma realidade mental; é um conjunto de almas ligadas pela consangüinidade e que eu…[ilegível] …ao longo das gerações e explicitar inteiramente aquilo que elas… [ilegível] …. Isto é uma família. Naturalmente tudo isto existe e deve existir em graus mais modestos e menos modestos. Agora os Srs. vejam o que é a definição que os franceses davam de uma região: “a região é a área de influência de uma grande família”. Então os Srs. ligando uma coisa com outra, os Srs. compreendem o que é uma região: é um conjunto de famílias, fazendo esta explicitação sob a precedência de uma família que conduz as coisas de maneira que todas se explicitem; às vezes até brigando; e é este fundo da missão de uma dinastia ou de uma aristocracia local, etc, etc.. Os Srs. vejam como é bonito isto; o metier de estar à testa das sociedades humanas, exercido pelas famílias importantes, como é um lindo metier. Eu não sei se esse metier ficou entendido ou se queriam fazer alguma pergunta.

(Sr. Hélio Vianna: Dr. Plinio, o senhor poderia explicar melhor sobre essa luz mental de que o senhor falou?)

Luz mental do quê? De uma família ou a luz mental em si?

(Sr. Hélio Vianna: Os dois casos.)

Dante quando ele fala, - eu não me lembro bem se é da graça ou de Deus – ele dá essa definição: “luz intelectual cheia de amor, amor cheio de todo o bem”. Isso dito em italiano – eu não ouso dizer em italiano porque eu não sei a pronúncia – mas é muitíssimo mais bonito do que dito em português. Bem, é um cântico, não é? Este gosto que nossa alma tem de realizar certo tipo de operações, é resultante de uma luz que há em nós, uma particular lucidez para perceber certas coisas, e uma particular aptidão dos sentidos e da vontade para tratar daquilo; e é nisto que nossa alma e nosso ser mais se parece com Deus. Está claro isso ou não?

(Sr. Carlos Viana: Isso tem alguma relação com a luz primordial?)

É, a luz primordial é uma verdade em Deus que a alma tendo mais a considerar; esta [verdade se encontra?] habitualmente dentro do campo dessa luz mental.

(Sr. Carlos Vianno: Seria uma parte da luz mental?)

Seria uma parte da luz mental ou um tema, um objeto que a luz mental focaliza especialmente bem.

(Sr. Carlos Vianno: E o que seria o contrário da luz mental? Assim como a luz primordial tem o vício capital … [faltam palavras] …)

As opacidades, não é? Todas as nossas almas tem opacidades, e muitas vezes opacidades não culposas. Há almas que sem culpa nenhuma, toda alma, sem culpa nenhuma, é perfeitamente obtusa para algumas coisas. Eu para negócios, por exemplo. Eu não entendo. A operação do Sr. Plinio Xavier com Mons. Hiekelsboug, por exemplo, eu ainda não entendi, e acho que morrerei sem entender. O Mons. Vitor entende, portanto não deve ser difícil, mas eu não entendo; quer dizer, eu estou abaixo dele muito abaixo nisto, a fé a minha obtusidade; que eu devo tomar naturalmente, não devo esconder como todo mundo esconde suas obtusidades como se fossem chagas. Não, ponha assim. Para isso eu sou obtuso, conte para os outros, pronto.

(Sr. Carlos Vianno: Agora, porque a pessoa se define mais pela luz primordial do que pela luz intelectual? Porque não se diz: Você tem tal luz mental e menos tal luz primordial, por exemplo?)

É porque é muito mais individual, mais precisa; são círculos [concêntricos?] e a gente se define pelo mais característico, não pelo menos característico.

(Sr. Carlos Vianno: E a luz mental seria a característica da família ou de um país ou de um grupo de pessoas?)

De tudo, como aliás é a luz primordial, mas a questão é que a luz primordial é um tema dentro de um certo conjunto de temas vistos pela luz mental; é uma nota individual da luz mental. É uma nota individual da luz mental.

(Sr. Carlos Vianno: . … [faltam palavras] …. que havia várias pessoas que poderiam ter uma mesma luz mental?)

É isso. …[ilegível] …tem uma… [ilegível] …luz primordial que a outra, não é? Há mais alguma coisa, meus caros? Então eu creio que nós podemos encerrar.

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