Santo
do Dia – 14/11/69 – 6ª feira .
Santo do Dia — 14/11/69 — 6ª feira
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O Profeta Elias faz cair fogo do céu * O castigo faz parte do caráter verdadeiramente profético e pode ser indispensável para o reconhecimento desta missão, independente dos esganares da heresia-branca * A Revolução odeia profundamente o princípio de autoridade, a virtude da severidade e a justaposição entre a justiça e a misericórdia * Amar a severidade e a repreensão é manifestação inequívoca de humildade e sinal de que tem abertas diante de si as portas do Céu * Refutando as distorções da heresia-branca a propósito da espiritualidade de Santa Terezinha do Menino Jesus
* O Profeta Elias faz cair fogo do céu
Hoje, quatorze de novembro, é festa de todos os santos da Ordem do Carmo. Nós temos aqui uma ficha relativa aos Santos da Ordem do Carmo. São os trechos extraídos de várias obras.
Então, a respeito de Santo Elias: o rei Ocozias mandou um capitão da guarda com trinta homens em busca do Profeta Elias. Disse-lhe então o capitão: oh! tu que te tens por homem de Deus, o rei mandou que venhas. Respondeu Elias: se eu sou homem de Deus, desça fogo do Céu e te devore e acabe teu cinqüenta homens. E assim se fez.
Santa Tereza de Jesus. O espírito do homem se assemelha, se a terra que embora fútil só produz raízes e espinhos enquanto não é cultivada. Lembrai-vos que se tens uma alma que se morreu uma vez que só vendo uma (ilegível) que é certo. E que só há uma glória que é eterna.
Este pensamento se desprenderá de muitas coisas (ilegível) de Santa Tereza de Jesus: Que vosso desejo seja de ver a Deus, com temor de perdê-lo, vossa dor de não possui-lo ainda, e vossa alegria vendo aquilo que possa levar-vos a Ele, e vivereis numa grande tranqüilidade.
São João da Cruz. São santos portanto da ordem carmelita, todos eles. Para saber tudo, desejei nada saber para possuir tudo — aqui a saída, — possuir, para ser tudo tendo a bondade de não ser nada em todas as coisas.
Bem, são vários pensamentos. Eu acho que vale a pena meditar nesses. Em primeiro lugar esse episódio de Santo Elias. Os senhores estão vendo que o rei mandou prendê-lo e que ele então disse o chefe militar que foi prendê-lo disse a ele. O rei mandou chamar, venha.
Ele disse então: está bom, eu agora vou fazer descer fogo do céu sobre ti e teus homens. Caiu fogo do céu e liquidou com todos. Quer dizer o esforço do rei para prendê-lo ficou completamente baldado.
* O castigo faz parte do caráter verdadeiramente profético e pode ser indispensável para o reconhecimento desta missão, independente dos esganares da heresia-branca
É claro que a primeira reação que isto poderia produzir em um heresia branca e, portanto, em ninguém aqui dentro desse auditório, seria o seguinte: coitados, afinal de contas, que culpa eles tinham para morrerem dessa maneira?
Não precisava ter culpa, porque que diferença fazia Deus matar esses homens vindo fogo do Céu ou matar por meio de uma pneumonia ou uma epidemia qualquer? Deus não é senhor de todas as vidas? Se houvesse um terremoto e esses cinqüenta homens caíssem num buraco, a gente achava uma injustiça de Deus?
Não achavam porque Deus é dono de tudo e portanto Deus poderia matar esses homens simplesmente para que o profeta d’Ele desse testemunho do seu caráter verdadeiramente profético. Na realidade, entretanto, esse fato tem um aspecto de um castigo, e para que esse castigo se explique, nós devemos tomar em linha de conta que os profetas davam provas de sua missão profética.
E aqueles que não queriam reconhecer essa missão profética, incorriam então no castigo de Deus. Esses homens se tinham aceito a missão do rei de mandar prender o profeta é porque eles não reconheciam o profeta. Que, se reconheciam eles temiam mais o rei do que o profeta.
Era natural que nessas condições eles fossem duramente castigados. Agora, qual é o sentido desse castigo? É que Deus nos mostra todas as suas perfeições, e Ele nos mostrando todas as suas perfeições deve nos mostrar entre outros a sua justiça infinita e sua severidade infinita. É claro que Deus não é só justo nem é só severo.
Deus é também infinitamente misericordioso. Mas Ele não seria Deus se Ele não fosse justo. Ele não seria Deus se Ele não fosse misericordioso. Nós temos que amá-Lo em todas as suas manifestações e de vez em quando temos que amá-Lo na manifestação de sua justiça.
Então, nós não devemos pensar que Deus quando nos mostra a sua justiça mostra só para nos atemorizar. É claro que o temor é um dos frutos da manifestação da justiça de Deus, mas não é o único fruto. Há um fruto que é o amor, Deus quer ser amado na sua justiça. Ele quer ser amado na sua severidade. A severidade para com o mal deve despertar o amor e esta é a lição que nós devemos trazer nas nossas tomadas de atitude (ilegível).
* A Revolução odeia profundamente o princípio de autoridade, a virtude da severidade e a justaposição entre a justiça e a misericórdia — A prancha de Victor Hugo através do romantismo
Quem são as coisas que a Revolução nega nesse sentido? Os senhores prestando a atenção, os senhores verão que a Revolução vai cada vez mais dando a idéia de que o homem que detém autoridade, é perfeitamente digno de amor quando ele nunca é severo.
Isso em todas as escalas da autoridade. O pai que jamais é severo, é o pai bom e digno de amor. A autoridade policial que tem pena do gatuno e deixa o gatuno escapar, essa é a tal autoridade policial que é boa e que é digna de amor.
O Vitor Hugo, um romancista velho deu ao amor mais sujo de um amor [frase sem sentido] mas cujo espírito ainda se encontra espelhado com o liberalismo dentro do espírito contemporâneo. Tem um pequeno conto em que ele narra a casa de um bispo que tinha no seu palácio uns candelabros muito finos de ouro e de prata.
E que em certo momento ouviu um barulho, foi espreitar o que que havia e viu que era um ladrão que estava roubando esses candelabros. Ele olhou o ladrão e viu que era um homem tão pobre que ele disse: homem, pobre coitado deixe-o ir, deixe-o roubar e voltou calmamente para cama e dormiu.
Então, Vitor Hugo termina dizendo que este era um santo verdadeiro, etc., etc. Os senhores estão vendo a idéia de que é preciso não ser severo com o roubo. Que o bispo, por exemplo, chamasse esse homem, retirasse os candelabros, passasse um pito e desse uma esmola, ele teria agido de modo muito correto, porque se o homem estiver necessitado devia dar-lhe um socorro, mas que o bispo mais ainda, devia indagar se esse homem estava roubando por necessidade ou se estava roubando por vício.
Porque se era por vício, o bispo não podia deixar de mandar o homem para a cadeia. Agora, se o homem estava roubando por uma extrema necessidade, o bispo deveria passar um pito, deveria dizer a ele: não, eu lhe dou, quando você tiver outra necessidade volte aqui. Você não vai para a cadeia, mas não vai roubar o candelabro porque não é seu, é claro.
E se a necessidade dele fosse do valor do candelabro, o bispo lhe deveria dar em dinheiro o valor do candelabro. Não deveria por na mão dele, aquilo que ele tinha cobiçado de roubar, não é verdade?
* Amar a severidade e a repreensão é manifestação inequívoca de humildade e sinal de que tem abertas diante de si as portas do Céu
Mas é sempre essa idéia que a autoridade que não pune, a autoridade que não castiga, não faz sofrer. E aquele que não faz sofrer é bom. Então esse é objeto de simpatias. Assim também os senhores prestem a atenção nos reis de hoje.
Nem um rei aparece nas fotografias com cara severa. O velho clichê é o da Rainha da Inglaterra que é uma cara perpetuamente contente. A coitada fez uma cara de quem está continuamente tirando o primeiro premio da loteria. É, mas faz parte do ofício dela, mas com um ar, com um jeito de quem, em todo caso não quer familiaridade e intimidades.
Pega a Rainha Juliana, a Rainha Fabiola e todas quantas… todas com uma cara de sorriso, etc., etc. Exatamente pela idéia de que a severidade afugenta o amor. Ora, essa é uma idéia falsa. Para um homem de coração reto, a severidade atrai o amor, e até um [ilegível] para nós nos examinarmos a nós mesmos, é perguntarmos se nós nos sentimos enlevados com a severidade.
E inclusive com a severidade relativo aos nossos próprios defeitos. Quer dizer, se alguém nos chamasse e com severidade, — severidade não é brutalidade, severidade não é vulgaridade, — mas uma pessoa que com severidade, quer dizer, com respeito mas com o rigor da lógica e a força dos [ilegível] nos [ilegível] nós fossemos agradecidos.
[Neste ?] caso sim, isto é um sinal que nós somos humildes e é um sinal que as portas do céu estão abertas para nós. Caso não, não é o sinal que nós somos humildes, nem de que as portas do céu estão abertas para nós.
Quer dizer, nós devemos amar em Deus também a sua severidade. Assim nós compreenderemos que nos períodos anteriores, nas épocas antigas, o pai por exemplo, dentro de casa, se apresentava sempre um tanto destoante do filho, e um tanto enigmático para o filho e majestoso em relação ao filho.
Aí o filho amava o pai. Não há pai menos digno de amor do que o pai que usa essa formula: “eu sou o melhor amigo do meu filho. Nós não temos relações de pai e filho, eu sou o melhor amigo do meu filho”. Isso é um pai que profana a sua própria autoridade, porque ele é muito mais que amigo. Ele é o pai, com tudo o que essa palavra significa ou deveria significar.
Bem, então os senhores compreendem porque é que Deus, de vez em quando, manifesta a sua severidade e a manifesta de modo terrível. E só isso.
* Refutando as distorções da heresia-branca a propósito da espiritualidade de Santa Terezinha do Menino Jesus
Houve um bispo antigo de São Paulo que escreveu uma frase numa pastoral que é a seguinte: “a misericórdia de Deus tem mandado mais gente ao inferno que sua justiça”. A frase é meio enigmática, é um pouco desconcertante, mas ele com isso queria dizer o seguinte: as pessoas que vão ao inferno por terem abusado da misericórdia de Deus são mais numerosas do que as pessoas que vão para o inferno por terem temido demais a justiça de Deus.
Quer dizer, os abusos da misericórdia são mais freqüentes do que os defeitos morais ocasionados por um temor excessivo da justiça. Eu creio que para certas épocas históricas e certas situações históricas, é perfeitamente verdadeiro.
Alguém me dirá então: “mas Dr. Plinio, e a pequena via? E a bondade onde é que o senhor coloca?” É uma pergunta que se poderia fazer. A minha resposta é simples: se os senhores lerem Santa Teresinha do Menino Jesus, os senhores notam que ela tinha uma noção tão profunda da justiça de Deus que até estremecia ao ouvir falar dessa justiça. E que ela sabia que essa justiça é adorável. Tal era o senso que ela tinha dessa justiça que ela fazia como os anjos no Céu, velava a face diante dessa justiça.
Por assim dizer ele desviava os olhos dessa justiça cuja grandeza tremenda a enchia mais ao mesmo tempo a enchia tanto que ela estava como que boquiaberta diante disso. Não é o relaxado que despreza a justiça de Deus, que não teme a justiça de Deus que por causa disso peca que tem o hábito de pecar, e que zomba da justiça de Deus. É o extremo oposto de Santa Teresinha.
Quer dizer, para o relaxado a meditação sobre a justiça tem um efeito que não tem para almas [ilegível] sensível e delicada de Santa Teresinha do Menino Jesus. É toda uma configuração, uma situação espiritual diferente.
E se nós temos motivos de achar que nós não [somos] tão sensíveis quanto Santa Teresinha para a justiça de Deus e nem tão inocentes quanto Santa Teresinha, eu acho que nós fazemos muito bem em meditar sobre o inferno.
* Desmascarando as manhas das almas complicadas que inventam singularidades espirituais e as escondem com sofismas
Alguém por fim poderia me dizer: “mas Dr. Plinio, eu sou de uma [ilegível] espiritual especial e eu lucro mais meditando sobre a bondade de Deus, arrependo-me mais meditando sobre a bondade de Deus do que meditando sobre o inferno”.
Eu digo: meu caro, se é verdade, é uma via espiritual legítima e que eu respeito interiormente, mas tantas vezes o homem é levado a pôr-se um sofisma assim diante dos olhos para evitar de olhar a justiça de Deus que eu lhe aconselho de examinar [ilegível] antes de chegar a essa conclusão.
E esta seria a última consideração a respeito desse episódio de Santo Elias. Com isto, já se tornou um pouco longo o Santo do Dia e nós temos um jornal falado para…
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