Santo do Dia – 11/11/1969 – p. 2 de 2

Santo do Dia — 11/11/1969 — 3ª-feira

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Temos o "Santo do Dia" feito por Sua Excia de [ilegível] de maneira que vamos todos ouvi-la.

Dom Mayer …

Eu acho que essa é das tais fichas que estão por cima de qualquer comentário. Os senhores vêem que se trata [ilegível] de um episódio da luta entre os republicanos e os vandeanos, quer dizer entre os que queriam o Estado republicano e leigo e os que queriam a manutenção da religião católica e da ordem de coisas do "Ancién Régime".

E os senhores veem as ferocidades sem nome que os partidários da nova ordem de coisas praticavam. É quase impossível a gente se deter na análise dessas coisas por exemplo os padres dominicanos. O que é que a gente pode fazer, comentar a respeito dos padres dominicanos que trancam (?) a Deus, fecharam-se (?) a Marighella e trancam (?) Marighella. Quer dizer, é dentro da abjeção uma tal abjeção que a gente fica estupefato e não tem o que dizer. Em geral um comentário é para recolher alguma coisa que pode não ter ficado inteiramente clara. Mas quando os fatos são de uma clareza, foi brutal, nem sequer uma exclamação tem razão de ser. Ficou célebre na França no século passado o presidente de Made Man (Mac Mahon) porque ele foi visitar uma zona inundada e vinha aquele aguaceiro enorme; era uma inundação colossal. O pobre velho chegou lá já estava um pouco cansado chegou em frente à inundação e não teve o que dizer porque era um aguaceiro. Então os repórteres perguntaram para ele: “O que o senhor diz disso?” Mas já com malícia francesa. Ele disse: “Quanta água! Quanta água!” “Combien d’eau! Combien d’eau!” E ficou como uma espécie de estribilho dele, não é? E de lá para cá quando se refere ao Mac Mahon o comentário é clássico. “Combien d’eau! Combien d’eau!” Eu não posso diante de uma ficha dessa dizer qualquer … porque é o sumo da crueldade uma ficha extraordinariamente útil mas ela é tão útil que dispensa o comentário.

Talvez eu pudesse fazer um comentário sobre os comentários e aqui coubesse alguma coisa. Os senhores notem aqui que é uma série contínua de atrocidades, são atrocidades praticadas não contra combatentes mas contra contra combatentes. São praticadas com requintes, mutilações, aplicação de castigos atrozes, etc., etc. Este é um ponto dentro de todo o firmamento de atrocidades feitos durante a Revolução Francesa. Uma era louca, uma praia de areia de atrocidades.

Aqui o que é interessante é o modo pelo qual os historiadores focalizam os fatos. Se se trata de uma condenação feita pela Inquisição de um tipo qualquer que é condenado à fogueira. “Uhm! Uma coisa horrível! Pegaram o pobre protestante e levaram e depois queimaram e a queima começou pelo pé e atingiu os artelhos e dos artelhos passou para o peito do pé e nós [ilegível] a queima até o toco. Bem, pelo contrário se se trata de uma ferocidade praticada por católicos, por republicanos contra católicos: “Silencio!” Apenas uma frase geral: houve muitas violências de ambos os lados. As violências dos católicos em geral quais foram? Foram violências na batalha; entraram em guerra, tal será que fizessem violência para matar. As violências dos ateus, dos republicanos quais eram? Foram na batalha, o que era natural uma vez que estavam em guerra, mas não era legítima porque todo o indivíduo que faz guerra contra os que são partidários de Deus é um assassino. Os que defendem Deus não são assassinos e os que combatem Deus são assassinos. Era, portanto, uma [ilegível] na batalha e era depois da batalha uma série [ilegível] de [ilegível] . Isso fica encoberto numa coisa assim. Houve muitos [ilegível] de lado a lado. Quer dizer não foram tão [ilegível] quanto os outros e ficam tudo em [ilegível] , não tem [ilegível]. Isso faz parte dessa espécie de injustiça crônica da História de que não temos uma nota também no que diz respeito aos problemas de moralidade. Os senhores tomam os historiadores por exemplo se eles não comentam que Carlos V teve um filho ilegítimo; como comentam é uma nódoa na vida de Carlos V aquele filho ilegítimo. Na vida de Luiz XIV ter tido filhos ilegítimos uma nódoa, ter tido relações imorais uma nódoa. Se vão tomar a vida de Henrique IV que era protestante não; ele era homem galante, era um homem muito galante e por isso até mesmo na idade madura ele teve esse lado interessante que ele teve aventuras extra-conjugais é verdade mas era seu fogo de juventude que ele [ilegível] este [ilegível] e o adultério esta completamente inocentado e canonizado. Quer dizer como Carlos V [ilegível] embora combatia o protestantismo, como Luiz XIV combatia o protestantismo embora não tivesse combatido o jansenismo foram reis, são soberanos que infligiam algum dano à Revolução muito menos do que deveriam ter infligido e que representavam a instituição real. Então à vista disso todas as [ilegível] são poucas ou todas as acusações são poucas. Agora pelo contrário se se trata de um rei como Henrique IV que foi protestante até mesmo depois de se dizer convertido ao catolicismo. Então eles abominam não é Henrique IV protegeu o protestantismo durante toda a vida dele, Luiz XIV não pouco antes de renegar o decreto dado por Henrique IV em favor dos protestantes famoso edito de Nantes, pouco antes de revogar Luiz XIV recebeu uma comissão de protestantes e ele lhe dirigiu essa frase lapidar. “Quanto a vocês a minha atitude é a seguinte. Meu avô vos amou – era Henrique IV – meu pai vos temeu; – era Luiz XIII – eu nem vos quero, nem vos temo. Embora.” E acabou-se. Magnífico, não é? Bem, a meu ver isso não justifica os adultérios dele de nenhum modo, mas leva a considerar que no computo dele também esse dado entra, não é? Isto para a Revolução é pecado mortal [ilegível] assim nos protestantes contra Luiz XIV todos as críticas, todos os exageros, todos as neutralidades. Criticam que ele merece é bem verdade muitos delas pelo menos mas então fizessem contra outros. Isso absolutamente não! É a parcialidade perpétua da História. Essa parcialidade perpétua mostra tanto quanto a injustiça desses fatos aqui qual é o espírito da Revolução. Disposto a nunca reconhecer uma só qualidade ou um só valor naqueles que ele combate. Disposto a ver só qualidades nos mais indecentes dentro dos seus partidários. E com isso nós temos a Revolução e acabou-se.