Santo do Dia (Auditório da Santa Sabedoria – Rua Pará) – 10/10/1969 – 6ª-feira – p. 8 de 8

Santo do Dia (Auditório da Santa Sabedoria – Rua Pará) — 10/10/1969 — 6ª-feira

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Nós devemos passar agora ao Santo do Dia.

O Santo do dia hoje é São Francisco de Borja, Confessor, Duque de Gândia e Geral da Companhia de Jesus, no século XVI. Nós estamos na novena de Nossa Senhora Aparecida e hoje é aniversário do Sr. Giocondo Mario Vita.

A respeito de São Francisco de Borja, há alguns comentários de D. Gueranger de que nós podemos tirar proveito. É na sua famosa [obra] L’Anné Liturgique. Ele diz o seguinte:

No dia 30 de setembro de 1572 São Francisco de Borja, terceiro Geral da Companhia de Jesus, entregava sua alma a Deus com a serenidade confiante do homem que sempre cumpriu seu dever.

Esse dever tinha sido muito variado na sua existência movimentada. Neto do Papa Alexandre VI...

Alexandre VI teve filhos antes de ser Papa, pelo menos. Depois de ser Papa, não é muito clara a coisa, mas antes de ser Papa ele teve filhos. E São Francisco de Borja descende dele antes de ser clérigo, antes de ser Papa e antes de ser clérigo. Bem. Então:

...neto de Alexandre VI, ele foi numa primeira fase um elegante e hábil cavalheiro, confidente do Imperador Carlos V, que o nomeou Vice-Rei da Catalunha. Depois ele se tornou jesuíta, Vigário-Geral da Companhia para a Espanha...

Quer dizer, que ele atendia todos assuntos da Companhia de Jesus na Espanha.

...depois sucessor de Santo Inácio e enfim, legado da Santa Sé.

São Francisco de Borja esteve sempre atento de pertencer antes ao Rei do Céu e de militar sob seu estandarte, de preferência a se comprometer com os poderes da terra.

Francisco nasceu no dia 28 de outubro de 1510. Sua infância e sua juventude passaram-se numa piedade e numa inocência que foram uma lição para seus pais e seus amigos, mas o exemplo foi maior ainda pela vida cristã e austeridade que ele soube ter na corte do Imperador Carlos V e depois como Vice-Rei da Catalunha.

Em termos lhanos e diretos e mais ao nosso gosto, isso tudo quer dizer que ele foi uma criança exemplar, mas que, quando ele se tornou moço e depois homem maduro e ocupou altos cargos públicos, a sua piedade ainda chamava mais a atenção.

A morte da Imperatriz e depois a de sua própria esposa, lhe mostraram o vazio de todas as coisas da terra.

Ele resolveu, então, abandonar o mundo e entrar na Companhia de Jesus em 1551 em que ele foi ordenado padre.

Esse é um dos episódios célebres da vida de São Francisco de Borja. Ele era cortesão e os senhores viram que ele era muito chegado a Carlos V, Imperador do Sacro Império Romano Alemão e Rei de Espanha. Nós temos várias vezes falado de Carlos V aqui por causa do grande papel que ele ocupa na história do Ocidente. Os senhores estarão lembrados de que ele era o famoso monarca em cujos reinos jamais o sol se punha. Ele era tão poderoso que o sol jamais se deitava em seu império. As suas terras iam desde os confins da Rússia até a América do Sul e a parte do México até o Oceano Pacífico, abrangendo uma parte do território atual dos Estados Unidos que foi tirado, foi roubado pelos ingleses aos espanhóis. Bem.

Os senhores compreendem que era, portanto, um Império imenso que compreendia não só a Espanha e suas possessões na América, mas também possessões que a Coroa da Espanha tinha na Itália; então possessões de uma grande importância no mundo.

O sul da Itália pertencia a Carlos V, por outro lado na Lombardia, que tem como capital, Milão, Carlos V tinha domínios também.

São Francisco de Borja sendo íntimo do Imperador, tinha conhecido muito bem a Imperatriz e ele teve ocasião de ver o corpo da Imperatriz estendido no caixão e ao ver aniquilada para as coisas da terra essa dama cuja imensa majestade ele tinha conhecido também, que essa sim era a primeira dama da Cristandade no seu tempo, bom… ao vê-la assim aniquilada pela morte, ele recebeu uma graça.

O próprio de certas graças é de darem uma vida extraordinária, às verdades que para nós são correntes, são comuns, que nós até sabemos o que querem dizer, mas que impressionam pouco o nosso espírito. Assim a graça da visão da morte. Uma pessoa pode saber o que é a morte — quem não sabe o que é a morte? qualquer um sabe o que é a morte. Nós podemos até passar uma noite inteira numa capela junto a um cadáver, velando o cadáver e isso pode não nos tocar muito especialmente, mas, de repente, por uma graça de Deus, pode ser que tudo quanto a aniquilação da morte signifique, suba ao espírito de um homem e que aquilo que ele sabe, lhe fale na alma com uma força particular, especialmente à sabedoria. E foi o que se deu com São Francisco de Borja. Ele, ao ver ali, morta a Imperatriz, ele viu bem o vácuo de certas grandezas, porque essas grandezas passam: a grandeza da Imperatriz, a grandeza do Império, a grandeza dele, que não era senão um adorno do Império; ele, então, se colocou diante da idéia de renunciar a todas suas grandezas e de ficar jesuíta.

Para que nós compreendamos bem, é preciso notar que ele, além de ser Vice-rei da Catalunha, o título de Duque de Gândia compreendia… — não sei como em castelhano se deve pronunciar? Gândia ou Gandía.

(Sr. –: Gândia)

Gândia… bem. Então estou pronunciando certo.

O título de Duque de Gândia lhe dava sobre uma certa parte do território espanhol uma jurisdição feudal, à maneira de um pequeno rei e essa nem dependia do Imperador, essa ele tinha por direito próprio. Tudo isso ele abandonou para entrar na Companhia de Jesus. Companhia de Jesus, que era naquele tempo uma ordem religiosa novinha, que não tinha nem um pouco a força, nem um pouco a tradição, nem um pouco a base que as outras grandes Ordens religiosas tinham, ou aquela pobreza ilustre da Ordem de São Francisco. Quer dizer, de fato ele entrava para uma obra nova, e que, debaixo de certo ponto de vista, lhe poderia ser uma aventura. Ali ele foi encerrar-se até o fim de seus dias para procurar os bens do céu, muito certo da vacuidade das coisas da terra. Bem.

Ele ali se ordenou padre e Santo Inácio de Loiola, percebendo as virtudes dele, deu-lhe a direção da Companhia de Jesus na Espanha. É preciso compreender também o que é que significa isso da parte de Santo Inácio.

A Espanha, como os senhores viram, era naquele tempo uma potência imensa. Dentro dos estados de Carlos V, a Espanha e a Áustria eram os dois mais importantes, mas para a religião a Espanha tinha mais importância do que a Áustria. Porque embora a Áustria sendo muito católica, a Espanha o era ainda mais do que a Áustria: era a nação mais católica da terra. E era da Espanha que sopravam os ventos da Contra-Reforma, da luta contra o protestantismo, de maneira que agir na Espanha era atiçar as melhores brasas contra o Protestantismo. Era movimentar as melhores forças da Igreja contra a Reforma, contra o Humanismo, contra a Renascença. Os senhores compreenderão sem esforço a importância que tinha o cargo de chefe dos jesuítas da Espanha. Quer dizer, chefe da Ordem religiosa suscitada especialmente por Nossa Senhora para lutar contra o Protestantismo, no país suscitado para lutar contra o Protestantismo. Quer dizer, lhe foi dada a alavanca fundamental da luta contra o Protestantismo que era a direção da influência jesuítica na Espanha naquele tempo.

Quando Santo Inácio de Loiola morreu, ele, então, se tornou Geral da Companhia de Jesus. Ele foi o terceiro Geral da Companhia de Jesus.

Ele aumentou muito o número de missionários da Companhia de Jesus, tendo enviado missionários à Polônia, ao México, ao Peru — do qual ele foi grande benfeitor — e à Índia.

Suas ocupações numerosas não o impediam de consagrar longas horas à oração. Sua caridade o adaptava a todas as almas. Sua humildade fazia com que ele procurasse os ofícios mais insignificantes e recusasse as honras que lhe quisessem prestar.

Essas palavras parecem bonitas, mas parecem uns enfeites a quem a gente está habituado. Elas comportam entretanto uma especificação.

Em primeiro lugar, os senhores vejam que coisa curiosa, hein. Ele é Geral da Companhia de Jesus, é aquilo que se poderia chamar pejorativamente o “Papa negro”; quer dizer, o Papa vestido de preto, que manda por trás do Papa vestido de branco que é o Papa, o sucessor de São Pedro.

Tal foi o poder da Companhia de Jesus no passado, que o Geral dos jesuítas se chamava “O Papa negro”. Os senhores que até pouco tempo, pelo menos, o Geral dos jesuítas tinha um livre acesso junto ao Papa que nenhum dos Cardeais tinha, mas, com a recomendação de os jornais não noticiarem nada. Quando um Cardeal tinha — nos velhos tempos constantinianos — o Cardeal tinha audiência com o Papa, qualquer coisa, no dia seguinte vinha no “Osservatore Romano”: “Sua Santidade o Papa Fulano de Tal se dignou receber”… então, frase mais constantiniana ainda, e mais [anelante?] ainda: “A Santidade de Nosso Senhor dignou-se receber em privada audiência Sua Eminência Reverendíssima o Sr. Cardeal Tal, Bispo sub-urbicário de tal e tal lugar, etc…” Bem.

Quando era a Companhia de Jesus, não: audiência à tarde, entrava aquele padrezinho vestido de preto, pela porta do fundo, grande conversa com o Papa e saia. Quer dizer, é o estilo da Companhia de Jesus. É aliás a grande classe da Companhia de Jesus.

Aqui os senhores vêem como é dessas coisas bonitas da Igreja, é que é ter classe, até naquilo que parece não ter classe. A classe bonita é um Cardeal, que chega trajado com seus grandes trajes, com um pequeno séquito, com gente carregando pastas e que vai visitar o Papa, não é verdade? Ele chega com um automóvel que entra pelo portono de Santa Marta, entra por detrás do Vaticano, entra no Pátio de São Damaso, os Guardas suíços prestam continência, vêm pessoas de encontro ao Cardeal, levam-no até a sala do Papa; é a grande categoria de um Cardeal. Isso não é categoria? É. Agora outro estilo completamente diferente de categoria: homem importantíssimo, vestido de uma roupinha preta, saído de um automovelzinho qualquer, com um chapeleco qualquer, mas que tem uma audiência direta com o Papa, pelo elevador privado e que nenhum jornal noticia. E que tem essa audiência várias vezes por semana, e que ninguém sabe quantas. Até seria o caso de perguntar quem é que os senhores acham que tem mais classe.

[Risos]

Ahhh…

Vamos fazer um pouquinho um plebiscito entre os mais jovens, portanto entre os que estão lá no fundo e aqui. O que é que é mais categoria: ter uma coisa e outra… — eu vou fazer a pergunta um pouco maliciosamente, mas é assim — no que é que faltaria mais à Igreja? ter uma coisa ou outra? Os que acham que é a categoria — a pergunta é feita com certa malícia, intencionalmente — os que acham que é a categoria Cardeal, que é a maior, levantem o braço.

Sedeas Sr. Eduardo Brotero.

Os que acham que é a categoria geral da Companhia de Jesus levantem o braço.

Os que ficam indecisos levantem o braço.

[Risos]

Pois não.

O que é que eu acho?

Eu acho o seguinte: que é preciso distinguir o que tem mais classe e o que é que faz mais falta à Igreja. é claro que do ponto de vista decorativo, o qual tem uma importância suprema para a própria vida concreta, do ponto de vista decorativo os Cardeais fazem mais falta do que o Geral da Companhia de Jesus. É claro que, entretanto, o Geral da Companhia de Jesus tem uma importância pessoal muito maior que de um ou de todos os Cardeais, mas que no fundo, do fundo, do fundo, ainda categoria por categoria, a do Cardeal é maior. Por que? Porque há certas coisas que não se separam da sua aparência, e que, de tal maneira não se separam de sua aparência, que quando se separa ela mingüa. Assim é, por exemplo, a importância: a importância não se separa tanto assim da aparência de importância, a tal ponto que a pessoa perde completamente a aparência da importância e perde a importância. É aí, toda uma longa filosofia que não seria o caso de tratar agora.

Há dois erros: um, gostar das aparências de tal maneira de tal maneira, que o indivíduo prefere a aparência à realidade. É o que os franceses chamam de modo debicativo aqueles que gostam do veludo do trono mais do que do mando. Bem. Há um outro erro que é desprezar de tal maneira a aparência, que se contenta apenas com a realidade do mando. Aquilo quem contém a realidade e a aparência é no fundo melhor do que o que contém só a realidade ou a aparência. Melhor do que tudo, é pensar só em Deus Nosso Senhor e Nossa Senhora e mandar quando Deus quer e obedecer quando Deus quer. Isso é o verdadeiro. Isso é que é classe verdadeira.

Bem. Eu estava dizendo que

Procurava os empregos mais humildes. A alma dele se afazia a todos.

Se adaptava a todos.

Eu não sei se os senhores se dão bem conta do que é que é alma se adaptar a todos.

No tempo da Igreja constantiniana havia uma cançãozinha de que o Dr. Paulo, Dr Azeredo, Dr. José Fernando e outros devem lembrar que era mais ou menos assim — canção popular — que se cantava na igreja com muita… com muita compostura, quando acabavam os ofícios litúrgicos e o povo ia saindo, etc., “Saudemos a Jesus, saudemos a Maria, a Fé se reanima, nobilita e dá energia”. Bom. E a horas tantas, o pessoal cantava o seguinte a Nossa Senhora: “Vem sorrir com quem ri, chorar com quem chora; sê amparo e sê força, sê guia e sê luz”. Sempre me impressionou muito isso em Nossa Senhora: sorrir com quem ri e chorar com quem chora; Nossa Senhora se afaz a todos estados de espírito do homem. Ela é a quietude dos que descansam, Ela é a exaltação dos que lutam, Ela é o sorriso dos que estão distendidos, Ela chora com os que choram, e daí para a frente. Bem. Há uma qualidade excelente da alma, por onde um Santo pode adquirir esta flexibilidade em que ele sabe, com cada um, estar no estado de alma daquele. Mas que elasticidade provavelmente isso significa, que força de adaptação provavelmente isso deve levar, porque ninguém quer estar no estado de espírito do outro, a gente quer estar no estado de espírito próprio e quer que o outro se adapte à gente. A gente entra numa sala alegre a gente quer que todo mundo faça cara alegre: com quem está a razão? Ele está alegre! E quando a gente está triste, a gente tem raiva dos outros que estão alegres. A gente está triste, como que esse palhaço está dando risada? É ou não é verdade que a gente é o centro do mundo, não é verdade? Não sei se os senhores compreendem, toda destreza que está representada nessa virtude de saber afazer-se à alma dos outros. Bem.

Em 30 de setembro de 1572 ele morreu.

Antes de ser morto, alguém o proclamou santo, e esse alguém tinha uma autoridade… não uma autoridade jurídica, mas uma autoridade implícita para representar todos os santos da Igreja naquele tempo, era Santa Teresa de Jesus.

Ele foi conselheiro de Santa Teresa de Jesus… os senhores imaginem uma sala de um dos conventos e Santa Teresa conversando com São Francisco de Borja. A altitude… Nós não seríamos dignos de olhar pelo buraco da fechadura. Não seríamos dignos; seria um favor do qual nós não somos dignos: olhar pelo buraco da fechadura. Bem. E Santa Teresa conheceu de perto as grandes virtudes dele e dizia que ele era um verdadeiro santo. Bem.

Numerosos milagres assinalaram o quanto ele era grato a Deus. Clemente X o canonizou em 1670, ao mesmo tempo que os Santos Caetano de Thiene, Felipe Benite, Luiz Bertrand e Santa Rosa de Lima.

Aqui os senhores têm a vida dele.

Vamos aplicar o nosso método de meditação. Quando os senhores estiverem por demais fartos do método, podem me dizer que eu mudo. Eu procurarei de longe imitar São Francisco de Borja que se afazia aos outros. Mas por enquanto vamos seguir o método.

Então, nós vamos nos por no seguinte ponto: eu tomo naturalmente um ponto só de toda essa biografia, porque haveria um pequeno retiro a pregar com base nas várias noções que borbulham de dentro da vida de um santo.

Mas eu pego um ponto só. Eu pego o seguinte ponto: imaginar Santa Teresa de Jesus conversando com São Francisco de Borja.

Bem. Eu posso imaginar vários modos de pintar esse quadro: um convento espanhol, as janelas altas — porque, os senhores sabem que nos conventos das contemplativas, quando há janela, a janela é muito alta, para elas não olharem para fora — algumas grossas grades, um dia chuvoso, para estarmos no clima de hoje, parede de reboco, caiada, uma mesa de madeira simples; sentado a um dos lados da mesa numa poltrona majestosa e pobre, como são as melhores coisas espanholas, uma poltrona alta, espetada, um pouco incômoda, muito digna e pobre, sentado São Francisco de Borja. Diante dele numa cadeira sem braço, Santa Teresa de Jesus. Era a veneração da simples freira pelo sacerdote, da dirigida pelo diretor espiritual.

Agora, eu posso imaginar essa cena de dois modos: uma luz sobrenatural presente na sala, os dois conversando num momento de consolação única e, ou ele está deslindando um estado de vida mística de Santa Teresa, ou estão os dois falando a respeito das misérias da Igreja, do Protestantismo, das blasfêmias, das hóstias calcadas aos pés, das imagens de Nossa Senhora quebradas, da autoridade do Papa que se nega, etc., etc., e estão se aquecendo para a luta. Se os senhores quiserem podem imaginar do lado de fora uma grande tempestade. Bem…

Se os senhores quiserem os senhores podem imaginar isso de outra maneira: os dois estão na aridez, não tem nenhuma luz sobrenatural, os dois estão numa conversa difícil, não porque estejam encrencados um com o outro, mas é porque os dois estão fazendo luta para conversar; ninguém tem vontade de tocar aquilo para a frente, ele está com o… [inaudível] …23’dele indisposto e ela está com suma dificuldade de abrir a alma para ele. Do lado de fora uma gotinha manhosa, uma chuva que deita umas gotinhas manhosas, pam-pam, uma dessas chuvas que não molha, uma coisa que também não desata. Mas a conversa correndo perfeitamente bem, em toda fidelidade dos dois. Ele vence a indisposição e dá inteira a direção espiritual, ela abre sua alma completamente. Bem.

Do lado de fora, olhando por um grande buraco da fechadura, como eram as portas daquele tempo estou eu — eu, quer dizer cada um dos senhores.

Agora, eu olho a primeira cena: a consolação extraordinária, a presença sensível do Espírito Santo, as inflexões de voz, os tons, os gestos santos, perfume de santidade em tudo aquilo.

Primeira pergunta — eu estou do lado de fora e estou vendo a cena — Primeira pergunta: eu percebo bem o valor daquilo que eu estou vendo? Quer dizer, eu estou compreendendo essa presença invisível mas sensível de Deus ali? Estou compreendendo o valor incomparável dessa santidade? Estou com uma afinidade de alma com aquilo, de tal maneira que nada do mundo eu trocaria por ver aquilo? Nada, nem na linha da megalice, nem na linha da microlice? Nem um trono nem uma cama eu trocaria por aquilo? Eu teria enlevo suficiente para passar horas e anos ajoelhado, olhando aquilo?

Isto é admirar. É ver a coisa na sua excelsitude, compreender o que ela tem de magnífico. Corolário: sentir, sentir-me pequeno Agora notem o celeste da coisa: pequeno, sim; ínfimo até, porém não sem proporção com aquilo. Quer dizer, por mais alto que aquilo seja e por mais baixo que eu seja, o olhar aquilo e o admirar aquilo, mostra que aquilo tem uma proporção comigo. Algo daquilo pode entrar em mim. Algo daquilo eu posso ser. Quer dizer, ou eu estou diante daquilo como uma formiga, por exemplo, diante de um dragão, que repele a formiga, que amedronta a formiga. Aquilo é uma festa espiritualidade, da qual, eu, do lado de fora e pelo buraco de fechadura pode entrar naquela festa a minha alma inteira. E não só dizer que minha alma pode entrar lá, mas é que aquilo pode entrar em mim. Se eu, devotamente, reverentemente, por compreender o que eu não sou, e por compreender o que é aquilo, eu admiro, aquilo entra em mim.

Então a gente compreende que um verdadeiro pintor gostaria de pintar a cena com três personagens: gostaria de pintar os dois conversando, e no outro lado, ajoelhado na porta, o pobre coitado de mãos postas, e de ar enlevado, intimidado, haurindo aquilo. Era ou não era um lindíssimo complemento da cena? Era, do lado de fora da porta, apenas pelo buraco da fechadura, mas vendo mais do que se visse o céu inteiro — o céu material.

Os senhores compreendem o que que é admirar e como essa posição de admiração não nos humilia: ela é um convite para nós subirmos. Não para nos igualarmos, mas para participar. Quem sabe alguma alma, tocada pela graça, até para se igualar e até para ser mais. Mas há uma participação ainda para aquele que não se iguala.

Outro aspecto: do lado de fora… A conversa está árida, vamos supor que não verse sobre o segredo de alma de Santa Teresa de Jesus, porque senão quem está do lado de fora é um sacrílego, mas vamos dizer que verse sobre um assunto que um terceiro possa ouvir. Ele está acompanhando a luta daquelas duas almas e está percebendo como elas estão sofrendo e cumprindo o dever. Ele assiste aquilo lance por lance, como quem assiste um torneio, em que cada um não tem como adversário o outro mais a si próprio, e vai vendo a vitória de cada um sobre si mesmo. Então, do lado de fora, ajoelhado, reverente, compungido, sentindo que a gente consigo não é assim, e rezando a Nossa Senhora para eles cumprirem o dever deles e para nós cumprirmos o nosso.

Bom, agora a comparação, quer dizer a aplicação para nós.

Eu me olho assim de frente, como eu estou olhando aquele lustre da sala de reuniões. Me olho de frente e pergunto: “eu sou bem assim com as coisas que Deus me pôs nessa terra para admirar? Quer dizer, a minha alma é propensa a essa admiração? Propensa de tal maneira que eu me interesso mais por aquilo que eu admiro do que por mim mesmo? Ou pelo contrário minha alma vive preocupada comigo mesmo? E logo que eu vejo aquela superioridade eu me sinto humilhado? E fico invejoso e me sinto expulso? [defeito na gravação]31’20” me sinto humilhado, invejoso e expulso, excluído.

Outro dirá isso em termos mais brandos: eu me sinto um tanto alheio; olho um pouco por curiosidade, daqui a pouco eu estou sentindo sede, vou lá para dentro beber água, depois fico conversando com um frade velho do convento, ou com uma freira velha. Por que? Porque de passagem a freira me disse uma amabilidade:

Oh, como o senhor é simpático. Como o senhor se chama?

Ah, eu me chamo Plinio Corrêa de Oliveira,nasci em São Paulo em 1908, não sabia? Nheem…

Começa a dar o jornal falado. Por que? Porque está falando de mim. Então como é que é isso? Diante das coisas que nós devemos admirar…

Eu falei por exemplo de um Cardeal — e com isso eu termino o Santo do dia que esta durando demais — eu falei de um Cardeal. Os senhores quase não pegaram a Igreja constantiniana, mas os senhores têm uma idéia do que era um Cardeal na sua grande pompa. Um Cardeal chegando, por exemplo, numa igreja, na Sexta-feira Santa para a adoração da Cruz; com uma capa toda de púrpura, com alguns metros de tamanho, carregada por caudatários, e ainda com uma espécie de pequeno capuz como se fosse de um Doge de Veneza. Chegando para adorar a Cruz. Não quero saber qual é o Cardeal que está dentro da capa, eu quero saber a instituição Cardeal, o cargo Cardeal, a função Cardeal, a nobreza Cardeal, o esplendor Cardeal; eu sou capaz de admirar aquilo, sabendo que eu não fui feito para ser Cardeal, que aquilo nunca vai ser para mim? que aquilo é para um outro, mas que aquilo é um adorno da Igreja de Deus?

E assim, quanta outra coisa há pelo mundo para nós admirarmos. Onde é que está a nossa admiração?

Ora, diante das coisas admiráveis, bonitas; ora diante das coisas admiráveis que não são bonitas para nossos sentidos, só para a nossa inteligência. O esforço cumprido, por exemplo. A dedicação sem graça — quantas vezes a dedicação é sem graça. É muito bonito a gente [ver] dedicar [-se] um outro, não é? Que lindo, a dedicação! Mas quando a gente vai dedicar-se a um outro, certos de que no ato de dedicação a gente vai levar uma paulada na cabeça, não é bonito. Sobretudo, quando ninguém entende aquela dedicação, nem o beneficiário. E a gente se dedica apenas porque esta é a ordem querida por Deus e a gente quer a Deus.

Então, aqui fica um conjunto de elementos para nossa consideração espiritual. Nós nos vermos de frente!

Bem. E procurarmos admirar quem? Não é admirar só Santa Teresa de Jesus e São Francisco de Borja. Não é isso, não. É admirar a alma que é capaz de ser admirativa. Admirar a admiração.

Aqui está o centro do Santo do Dia. E com isso está terminado.

Existem ocorrências hoje, para anunciar?

Então vamos encerrar.

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Auditório da Santa Sabedoria – Rua Pará