Reunião Normal – 3/10/69 – 6ª feira . 18 de 18

Reunião Normal — 3/10/69 — 6ª feira

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Para conhecer a Revolução não se pode ficar apenas em conceitos mas tem-se de olhá-la como ela é em torno de nós. O fato contemporâneo tem certos sucos vitais que a mera história não dá * O ver a Revolução em torno de mim mesmo é indispensável não só para compreender o fenômeno, mas até para eu não me tornar um revolucionário pois tudo que admiramos penetra em nós * O hábito existe também para as coisas espirituais e no momento em que uma idéia maluca já não surpreende mais perde-se a capacidade de classificá-la de maluca * A família tem o dom de insensivelmente preparar os hábitos e idéias dos seus membros e torná-los conaturais com isso, recebendo como deliciosa a Revolução dosada pela família * A partir da análise da família explora-se a tensão existente entre o mais e o menos revolucionário e apóia-se a este — Sem o estudo da família ninguém se imuniza contra ela * Quando se adquire o hábito de se analisar a própria família nos tornamos aptos a levar a crítica RCR a todos os outros ambientes * O Sr. Dr. Plinio dita um exame de consciência para saber se estão fazendo bem a análise R-CR dos ambientes * Quando se ataca a verdade diante de mim e eu não a defendo, o meu amor por ela diminui; devo-lhe recusar adesão mesmo através de sorriso ou silêncio * Há uma tese de filosofia que não funciona em matéria de família: tudo que eu toco me toca também, mas a família pode nos influenciar sem que a estejamos “tocando”, isto é, vivendo nela

* Para conhecer a Revolução não se pode ficar apenas em conceitos mas tem-se de olhá-la como ela é em torno de nós. O fato contemporâneo tem certos sucos vitais que a mera história não dá

Para dar mais vida ao comentário da R-CR, talvez fosse interessante nós abrirmos um parêntesis e nós tratarmos um pouquinho de como ver a Revolução em torno de nós, mas, então, de um modo inteiramente experimental.

Eu entendo que não conhece verdadeiramente o que é a Revolução e não sabe verdadeiramente fazer a Contra-Revolução quem se cifra apenas a conceitos históricos. Porque a história está no passado e a parte da história que não foi vivida por nós… e eu tenho gente mocíssima neste auditório, que não teve tempo, portanto, de viver a história.

Então, o auditório muito moço, aqui tem muitos que não viveram nada da história, mesmo para os que já viveram alguma coisa do passado a gente pode dizer a mesma coisa. A história escrita, que o indivíduo não viveu, tem qualquer coisa de irremediavelmente morto. Ainda que ele procure recompor, que ele tenha uma muito boa erudição histórica, que ele tenha o senso da reconstituição do passado — que é um verdadeiro dom — ainda que ele tenha tudo isto, ele poderá reconhecer que na história do passado, há muito mais ensinamentos para o homem do que os há hoje em dia, na vida quotidiana, isto eu concordo.

Mas, ele não poderá dizer que ele está conhecendo aquilo como se ele vivesse aquilo, como se ele fosse contemporâneo daquilo. Porque no contato com o fato contemporâneo há certos sucos vitais, há certas expressões fisionômicas, há certas situações temperamentais, há certas interações de indivíduo a indivíduo que o historiador não consegue captar todas. De maneira que há qualquer coisa de vazio de vida na história, ainda que a vida quotidiana sem história também seja vazia, mas acaba sendo que a vida quotidiana oferece, portanto, algo de insubstituível que a história não dá.

Os senhores não devem imaginar portanto que uma posição completamente R-CR do espírito leve a gente apenas a fazer grandes reconstituições históricas. É preciso, para que nós compreendamos a Revolução e a Contra-Revolução, que nós a compreendamos na vida atual, contemporânea. Mas para que nós a compreendamos bem, não basta que nós a compreendamos nas dimensões do Estado, ou da política nacional ou da política internacional, não basta isto. Porque também as dimensões do Estado não são dimensões próprias à estatura mental de qualquer homem.

* A necessidade do estudo R-CR do ambiente em que cada um está é tão importante que o intelectual mais exímio e lúcido que não tiver essa perspectiva não terá conhecido de fato a R-CR

A maior parte dos homens não tem estatura mental para tratar com inteira familiaridade das questões políticas. Para a estatura mental da maior parte dos homens o que está na proporção deles é o ambiente concreto em que eles vivem. São as pessoas com quem eles tratam, que eles conhecem, com quem eles lidam. E se as pessoas não se habituam a ver a Revolução e a Contra-Revolução no seu próprio ambiente, elas poderão estudar muito, mas elas sempre terão a sensação de que a R-CR é algo de um tanto aéreo.

Então, eu levo a tese da necessidade do estudo do ambiente em que cada um de nós está, o estudo deste ambiente do ponto de vista R-CR, eu levo esta tese a tal ponto, que eu digo o seguinte: o filósofo mais exímio, o teólogo mais lúcido e com mais espírito de fé, que ao mesmo tempo fosse o historiador mais erudito, e fosse o sociólogo e o pensador mais profundo das coisas contemporâneas de ordem política, cultural e geral, se ele não soubesse ver a R-CR no ambiente com que ele toca pessoalmente, ele não teria visto a R-CR inteira.

Não sei se a tese está inteiramente clara ou se alguém gostaria que eu repetisse. Sobretudo os que não são de fala portuguesa, talvez gostariam que eu repetisse alguma coisa, é isso? O que é que eu deveria repetir? Para os meus peruanos, sobretudo, o que que é?

(Sr. –: […inaudível].)

* É tão necessário estudarmos a R-CR na vida concreta de cada um de nós que, sem isso, mesmo a um arqui-São Tomás de Aquino algo faltaria irremediavelmente

A última tese? Eu disse o seguinte: que é tão importante a gente conhecer a Revolução e a Contra-Revolução como elas são no ambiente de cada um de nós e, portanto, eu no meu ambiente e cada um dos senhores no seu ambiente, por exemplo, é tão importante, que ainda que nós imaginássemos um homem que tivesse uma genialidade do porte de São Tomás de Aquino, e até mais do que São Tomás de Aquino foi, quer dizer, um filósofo incomparável, teólogo incomparável, imagine que ele tivesse sido além disso um historiador extraordinário, conhecendo toda a história muito bem — o que ele não foi — imagine que além de historiador, ele fosse um grande sociólogo e economista do tempo dele — o que também não foi — quer dizer, um homem muito maior do que São Tomás de Aquino.

Mas que este homem não soubesse — que conhecesse, portanto, a Revolução e a Contra-Revolução de um modo maravilhoso — se ele não soubesse ver a Revolução e a Contra-Revolução concretamente, no ambiente onde ele se movia, quer dizer, na rua onde estava o convento dele, nos irmãos de hábito dele, nas pessoas com quem ele tinha que tratar algum assunto, se ele não soubesse ver isto, algo lhe faltaria irremediavelmente, porque ele não teria visto a coisa viva próxima, como o contato direto com a vida dá.

Então, é tão necessário nós estudarmos a Revolução e a Contra-Revolução na vida de cada um de nós, que até a um super-São Tomás de Aquino isto faria falta. Quanto mais a nós… Eu digo isto para provar a necessidade de nós estudarmos em torno de nós a Revolução e a Contra-Revolução. Está claro ou está um português um pouco depressa?

* Aquele indivíduo que para saber algo começa por abrir um livro é um mau intelectual. A vida concreta é um ensinamento bruto e fecundo insubstituível para o homem

Então, vamos para a frente. Esta é a tese. Agora, eu acabei de dar não só a tese, mas a justificação da tese, que é exatamente de que a vida nós só a sentimos em torno de nós no contato e na experiência direta. A vida se entende muito menos nos livros, do que diretamente na vida e nos homens. Esta é a tese.

Quer dizer, esta é a prova. Eu não sou muito a favor daqueles que para ver qualquer coisa precisam começar por ler; eu sou a favor daqueles que para ler precisam começar por ver. Aquele indivíduo que para qualquer coisa começa por abrir um livro para saber como é, me parece um mau intelectual. A vida concreta é o ensinamento bruto, direto, imediato, fecundo, e mais na proporção do espírito de todo homem; em todo caso insubstituível para todo homem.

Então, para isso, para nós conhecermos bem a R-CR, temos que saber aplicá-la, em escala individual, em torno de nossa vida. Este é o primeiro ponto.

* O ver a Revolução em torno de mim mesmo é indispensável não só para compreender o fenômeno, mas até para eu não me tornar um revolucionário pois tudo que admiramos penetra em nós

Bem, agora eu passo a uma outra afirmação, uma afirmação de outra natureza, que é a seguinte: o ver a Revolução e a Contra-Revolução em torno de mim é indispensável, já não [só] para compreender o fenômeno, mas para eu não ser um revolucionário. Eu vou demonstrar, portanto, outro ponto.

Então, é indispensável para eu não ser um revolucionário, para eu ser um contra-revolucionário. Bem, e por quê isto? Eu tenho dito aqui muitas vezes, e não vou dar agora a demonstração, que tudo aquilo que nós admiramos, de algum modo entra em nós. Não é possível o homem admirar uma coisa sem que aquilo entre nele. Por quê? Porque o conhecimento que ele toma daquilo, e a admiração que ele toma por aquilo, mudam algo na sua alma. Há uma assimilação necessária.

Eu dou o mais banal dos exemplos: tomem, por exemplo, uma pessoa que sai à rua e vê o sol num dia lindo. Se a pessoa sente uma admiração pela beleza do sol naquele dia, não é verdade que algo daquela beleza fica fazendo parte de sua alma? É natural. Tome uma pessoa que encontra uma criança dirigida por uma velha num carrinho. Olha para aquela criança e tem um sentimento de proteção, de ternura para com aquela criança. Não é verdade que a inocência, e a delicadeza daquela criança, de algum modo penetraram na alma da pessoa que admirou aquilo? É natural. Quer dizer, tudo aquilo que nós admiramos penetra de algum modo em nós.

* Tudo o que se passa em torno de nós e a que nós nos habituamos cria um hábito que nos transforma. Exemplo do Sr. Dr. Plinio com a “Serenata de Tozelli”

Agora, há, [como] corolário disto, um outro princípio: tudo aquilo que se passa perto de nós e em relação a nós, a que nós nos mantemos indiferentes, tudo isto, cria em nós um hábito, repetindo-se cria em nós um hábito. E o hábito também em algo nos transforma.

Eu vou dar a explicação. Os senhores imaginem que um de nós está habituado — a mim me aconteceu isto, mas de um modo imensamente menos poético do que eu vou dizer agora.

Num quarto de hotel em que eu estava, no Rio de Janeiro, quando eu era deputado, havia uma pessoa que tocava violino todas as manhãs, no hotel, no outro lado. Eu não sei como a direção do hotel não impedia e eu — como deputado, era obrigado a cultivar a minha popularidade, portanto não podia brigar dentro do hotel —, então, deixava o indivíduo tocar violino. Todas as manhãs, todas as manhãs, o indivíduo tocava um negócio chamado Serenata de Tozelli. Bem, ele tocava aquilo todas as manhãs. Aquilo no começo, vamos dizer, durante seis meses, oito meses em que eu morei no hotel, em que eu ouvi este homem tocar isto de manhã, na mesma hora… este homem ou esta mulher, também não sei, era tão pesado que mais provavelmente seria um homem.

Bem, quando eu via este homem tocar este negócio, eu — eu não sou muito musical, mas eu tenho uma memória auditiva muito boa, a única forma de memória boa que eu tenho é auditiva — eu já via o resto chegar, porque eu já sabia a música dele de cor. Eu me surpreendi, mais de uma vez, com um movimento interior seguinte: “este homem não toca o violino dele hoje?” Eu vou despoetizar o fato e dizer como se deu.

Ele tocava mal, mas não tão mal que o melódico do negócio não se pudesse compreender e entender. O resultado é que eu estava habituado àquela dose de açúcar sonoro, todos os dias, àquela hora. Quando faltava, eu reagia como o bicho que não se dá açúcar no dia certo. Para dar a coisa do lado prosaico. Eu não achava bonito, eu não admirava, mas eu tinha adquirido o hábito. E esse hábito não ia sem um certo gostinho, de maneira tal que eu tive que fazer um esforço; quando vinha a serenata do Tozelli — se não me engano — eu me endurecia para não gostar daquilo, fazia um esforço interno para não gostar daquilo. Porque do contrário o pendor seria: voltar para São Paulo, acabar comprando uma vitrola e tocando na hora certa o disco do Tozelli, outros músicos da época do Tozelli, e romantismo. Está acabado.

* O hábito penetra em nós por osmose e cria conaturalidade — Exemplo do Sr. Dr. Plinio com a arte moderna, quando passeia no Pacaembú

Quer dizer, aquilo que eu começaria ouvindo com indiferença, pela força da repetição se transformava num hábito. E o hábito nos penetra por osmose, não tem por onde escapar. Bem, isto que acontece mais ou menos com tudo, por exemplo, uma coisa que se dá comigo, eu às vezes… os senhores compreendem, eu falo de mim porque eu não sei o que é que se dá com os senhores, não é que eu me repute um tema interessante, sei que não sou; mas eu tenho que recorrer ao que se dá comigo. De maneira que é por isto que eu falo de mim.

Bem, o único lugar onde, em São Paulo, uma alma desejosa de rezar em silêncio pode mandar correr o seu automóvel, é no pacaembuzinho; ao menos para quem mora por aqui nesta zona é o pacaembuzinho. De maneira que quando eu tenho algum tempo disponível, desde o tempo que eu estava com a perna estendida, e que eu saía com dez mil bengalas e muletas, etc., eu mandava o automóvel tocar para o pacaembuzinho, porque são ruas em zig-zag indolente — aliás construtivo — e habitualmente vazias e asfaltadas.

Bem, eu toco aí minhas excursões no pacaembuzinho, rezando. Mas a gente está rezando, naturalmente olha para uma coisa e para outra, não se vai de olhos fechados; o que é que eu me surpreendi mais de uma vez? Começando a achar bonitos alguns efeitos decorativos, aliás comuns, da arte moderna. Por quê? Porque a arte moderna não é tão horripilante que ela tenha conseguido excluir de si toda beleza.

Então, de vez em quando, por exemplo, uma parede toda de vidro, atrás da qual o indivíduo pôs um pano que não é precisamente horrendo e atrás do pano uma luz, de repente dá uma filtração bonita… “é, que bonito!” Daqui a pouco uma tendência de alma: “não, na arte moderna alguma coisa tem que se salvar”. A questão é que isto não é o moderno da arte moderna, é uma coisa diferente, e a gente tem que entender isto.

Bem, então, eu iria se eu não tomasse cuidado com a minha própria alma, passando por uma mudança insensível, pelo hábito, para a arte moderna. Quer dizer, então, os hábitos também exercem uma grande influência sobre nós. Não é só admiração, mas é o hábito.

O hábito cria uma coisa que se chama a conaturalidade. Quer dizer, uma afinidade da natureza com a natureza. Adapta a nossa natureza à coisa e de algum modo adapta a coisa à nossa natureza. Cria uma conaturalidade. Isto é o papel do hábito.

* O hábito existe também para as coisas espirituais e no momento em que uma idéia maluca já não surpreende mais perde-se a capacidade de classificá-la de maluca

Agora, acontece — eu estou sempre no segundo ponto — que o indivíduo não se habitua apenas a coisas sensíveis, mas ele se habitua também ao convívio com outras almas, que não é apenas uma coisa sensível, mas uma coisa espiritual. Quer dizer, eu posso me habituar a estados temperamentais, certas formas temperamentais que no início me causam muita estranheza, podem acabar por se tornar habituais a mim.

Quer dizer, o hábito também penetra em nós. Isto, aliás, é evidente. Bom, isto que se diz no convívio com os temperamentos e com os feitos pessoais, se diz também no convívio com as idéias. As idéias, as doutrinas as mais malucas, nos surpreendem no primeiro momento, mas quando nós nos habituamos a elas, nós as ouvimos muito, nós começamos a nos habituar a elas. A partir do momento em que algo se nos torna habitual, nós perdemos a energia de alma para qualificar isto de absurdo.

E a partir do momento em que nossa alma já não é capaz de qualificar de absurdo o que de fato é absurdo, nossa mente perdeu uma de suas possibilidades de compreensão. Querem que eu repita de novo ou está claro?

* Exemplo do efeito anestesiante do hábito no campo das idéias: as polêmicas do Sr. Dr. Plinio com o comunista Pachá

Então, isto que é evidente, nós poderíamos dar disto um exemplo no convívio com o comunismo. O comunismo é pura e simplesmente facinoroso; é a teoria do crime, é o crime feito filosofia. Pois bem, a gente, ao cabo de viver com comunistas, a gente pode achar o comunismo natural.

Eu me lembro que quando eu era estudante da Faculdade de Direito, eu tinha um colega comunista chamado Pachá. E eu achava prático para a propaganda católica fazer num café próximo à Faculdade grandes discussões contra o comunista, porque isto atraía o público e eu tinha oportunidade de fazer apostolado católico junto aos estudantes.

Muitos já iam para o café para ver a discussão do católico com o comunista. Era uma novidade. Bom, o resultado era o seguinte: o comunista era um comunista muito calmo, muito bem humorado, o que não costuma ser com os comunistas, e me respondia as minhas diatribes furiosas, ele respondia com uma certa bonomia, com uma certa displicência — é um homem profundamente caboclo, profundamente nacional — e com aquela non chalance nacional, com aquela coisa assim brasileira.

E eu espumando em cima dele, e ele respondendo assim… e depois, dizendo naquele tom calmo dele as maiores enormidades. Eu em certo momento suspendi as discussões, porque eu verifiquei que os meus ouvintes começavam a achar duas coisas naturais: primeiro, achavam natural eu me zangar furiosamente sem que nunca isto tivesse conseqüências; depois, começavam achar natural ser-se comunista. Um homem tão bondoso ser comunista, o comunismo não pode ser tão absurdo na cabeça de um homem tão bondoso. Resultado, eu fechei as discussões. Por quê? Porque com uma idéia a gente pode acabar por se habituar também.

* As diferentes formas de habituar-se estão continuamente acontecendo com nossas almas e nos transformando

Agora, a palavra habituar, como os senhores estão vendo, tem três aplicações distintas. Numa aplicação nós nos habituamos e acabamos gostando um pouco. Noutra aplicação nós nos habituamos e já não estranhamos. Noutra aplicação nós nos habituamos e estranhamos, mas menos do que deveríamos. Nossa estranheza não desaparece, mas ela se atenua, ela se arredonda, ela perde seu ângulo. O habituar-se é isto.

(Dr. Luizinho: O senhor poderia repetir as três aplicações?)

Então, são três formas de a pessoa se habituar. Numa a pessoa se habitua, acaba gostando um pouco de uma coisa para a qual, de si, ela é indiferente ou é alérgica. Numa segunda aplicação da expressão habituar-se, a pessoa fica apenas indiferente para algo que ela não devia ser indiferente. Na terceira aplicação ela continua contrária à coisa, mas pelo hábito, menos contrária do que deveria ser. Por exemplo, uma coisa absurda ela achará simplesmente errada, e daí para a frente.

Agora, todas estas coisas estão continuamente acontecendo com nossas almas. Nós estamos continuamente tomando admirações que nos transformam, estamos continuamente adquirindo hábitos que nos transformam; terceiro lugar, que vale a pena falar apenas de passagem, formando ojerizas, fobias, antipatias que também nos transformam. Porque às vezes o hábito, a insistência da coisa desagradável, não cria propriamente um hábito, mas uma ojeriza sistemática, temperamental, é evidente, qualquer um sabe disso.

* Na Idade Média todo o mecanismo de admiração e de hábitos levava o indivíduo para a virtude. Hoje tudo está preso a uma concepção de vida anti-católica e gnóstica que nos habitua ao mal

Agora, os senhores vejam bem a diferença enorme entre as condições de vida espiritual dos senhores e das épocas anteriores. Para tornar o contraste mais flagrante, do tempo de São Tomás de Aquino, é o contraste mais tremendo. Quando São Luís governava a França, São Fernando governada a Espanha, e daí para a frente.

Bem, os senhores tinham naquele tempo, segundo disse Leão XIII — não é um depoimento histórico meu, é dele — segundo Leão XIII, os senhores tinham naquele tempo uma época em que tudo quanto era idéia admitida por todos, hábito admitido por todos, sistema artístico apreciado por todos, instituição aceita por todos como válida, tudo estava numa inteira coerência com o Evangelho. Isto é a afirmação de Leão XIII numa Encíclica a respeito disso.

Os senhores estão compreendendo que por este mecanismo de admirações e de hábitos, tudo levava o indivíduo para a virtude. É natural. Ou esse mecanismo de admirações e de hábitos não existe ou se deve concluir que tudo levava o indivíduo para a virtude.

Agora, em nossa época nós estamos no oposto. Há aquilo que se chama moderno, e isto sempre por um fio mais visível ou menos, mais forte ou menos, está preso a uma concepção da vida que é anticatólica, é materialista, é atéia, é imoral, é gnóstica, de um modo ou de outro. Os senhores não podem me apresentar uma coisa que se chame moderna e que, ao menos acidentalmente senão essencialmente, [não esteja] revestida disso.

Ainda hoje nós vínhamos de Campinas, vínhamos da fazenda, e encontramos à beira da estrada um trator; e um trator todo pintado de amarelo, mas um amarelo… o que se pode chamar mesmo o “amarelo espanta-gato”. E alguém então comentava no automóvel isto: “o quê é que o trator tinha de revolucionário? o quê é que aquele amarelo tinha de revolucionário?” É que aquele amarelo é — não que a cor amarela em si seja revolucionária, porque esta cor não pode ser revolucionária, ela é criada por Deus e tem seu emprego dentro de um sistema artístico —, mas o quê é que tinha de revolucionário aquele trator amarelo.



Bem, e forma uma mentalidade a respeito do trabalho que no fundo é uma mentalidade revolucionária; porque nega o pecado original, nega a pena, nega o castigo, é uma mentalidade sem seriedade. Então, naquele trator aquela cor moderna dava um caráter revolucionário. Tudo aquilo que é moderno, que se chama moderno, a gente sabendo bem olhar como, a gente percebe que aquilo é revolucionário; está preso à Revolução de algum lado.

Então, nós temos o seguinte: homens como nós imersos num ambiente que a todo momento nos convida para admirarmos coisas que de algum modo participam do mal. Ou então… é melhor sair do grupo porque o grupo está todo errado. A todo momento há coisas que nos pedem admiração e que, entretanto, participam do mal. Há coisas com as quais nós nos habituamos, nas três gamas do hábito, e que, entretanto, participam do mal.

* Nós estamos numa alternativa de ou dilatarmos nosso discernimento da Revolução que nos cerca ou deixarmos o que nos cerca nos penetrar. Se isso não for verdade é melhor jogar fora a R-CR

O resultado… e não são só coisas, são idéias, são doutrinas, são vícios que nos mentem e que nos habituam ao mal; vício do outro penetra em nós por essa osmose do convívio. Bem, nós então ficamos numa alternativa: ou nós vamos aos poucos dilatando nosso discernimento para perceber a Revolução em tudo, ou se nós não dilatamos, a conseqüência é inevitável, nós vamos ficando revolucionários. Queria que eu repetisse, Morazzani?

(Sr. Morazzani: Esta última frase.)

Ou nós vamos aos poucos dilatando, quer dizer, aumentando, fazendo crescer a nossa percepção do que há de revolucionário em tudo, ou nós cada vez vamos ficando mais revolucionários. Isto não tem por onde escapar. Quer dizer, se este livro aqui vale de alguma coisa, é a R-CR — aliás muito bem encadernada — se este livro vale de alguma coisa, então o que eu estou dizendo é verdade. Se o que eu estou dizendo é mentira, peguem este livro e joguem fora.

Bom, isto está bem claro ou algum dos senhores quer me perguntar alguma coisa a este respeito?

* O Sr. Dr. Plinio sugere um curso de análise da Revolução nas coisas, pois a preocupação mais imediata do Grupo é de perceber a R-CR no que nos cerca

Até já me passou pela cabeça de fazer um curso de análise, com slides, das coisas concretas atuais, revolucionárias, para as pessoas aprenderem a discernir a Revolução nas coisas.

Mas então não tomar as coisas muito hipertrofiadamente revolucionárias, que entram pelos olhos que são revolucionárias, mas tomar as coisas que não parecem revolucionárias, com as quais nós estamos inteiramente adaptados, e fazer um curso a esse respeito: me passou pela cabeça. Mas esse curso deveria ter uma larguíssima cooperação dos senhores.

Quer dizer, os senhores me trazerem o que quereriam que eu interpretasse, e eu, então, projetasse sob forma de slide e dar a interpretação. Porque do contrário não vai; com uma figurinha assim deste tamanho, que só um viu, eu dialogar com aquele um e os outros não acompanham, não se pode fazer um curso. Mas enfim, é uma coisa que em rigor se poderia fazer.

Agora, se isto que eu disse é verdade, então acontece o seguinte: que a preocupação, não a mais alta, mas a mais imediata do contra-revolucionário, é de perceber a Revolução e a Contra-Revolução nas coisas, e nas pessoas que o cercam. Porque é ali que estão suas admirações, suas influências na sua alma, etc.

* A nossa família não escapa à regra de que todo mundo hoje em dia paga tributo à Revolução

Agora, vamos passar às famílias. Qual é o papel que tem dentro disto as famílias. Eu estou vendo um ou outro aqui que possa estar meio rabugento, meio […inaudível], dizendo o seguinte: “a minha família não é revolucionária, pode ser a do senhor, mas a minha não. Prova: é que ela tem muitos atritos com revolucionários; logo, ela não é revolucionária”.

Eu digo: isto é o argumento mais furado que possa haver. Porque isto prova que sua família é semi-contra-revolucionária. E na R-CR está escrito que o semi-contra-revolucionário é um revolucionário, apenas mais retardado do que o outro, evidentemente. Na verdade, eu devo dizer com toda franqueza, pela vastidão da terra, eu tenho já andado à procura de contra-revolucionários perfeitos e inteiramente autênticos; se existem fora do grupo, a gente conta com os dedos da mão. Todos acabam, de um modo ou de outro, pagando um tributo à Revolução.

E é porque não são formados segundo o que eu estou dizendo aqui. E o resultado é que quem não tem esta formação acaba pagando um tributo à Revolução, não tem por onde escapar. E acontece que em nossas famílias, como em todos ambientes, há portanto na mentalidade da família, há algo ou algos, várias coisas, que tem reflexos revolucionários. Sobretudo se a gente toma a palavra família no seu senso largo, que não é apenas pai, mãe, filhos, mas são tios, os primos, os avós, certos indivíduos que são amigos da família e que de algum modo se incrustam na família, e até os próprios empregados.

É evidente que se nós tomarmos neste sentido largo, é claro que entram influências revolucionárias. Agora, o quê é que acontece?

* A família tem o dom de insensivelmente preparar os hábitos e idéias dos seus membros e torná-los conaturais com isso, recebendo como deliciosa a Revolução dosada pela família

É que a família é uma instituição simplesmente maravilhosa. Das instituições meramente humanas é indiscutivelmente a mais bela, a mais fecunda, a mais capaz, a mais poderosa também. Ela tem o dom incomum de insensivelmente preparar as idéias e os hábitos do ambiente e adaptar ao temperamento biológico da família.

De tal forma que as pessoas daquela família tomam uma espécie de conaturalidade com todas as idéias, com todos modos de ser, aquilo lhes entra como uma parte deles mesmos, e isto é legítimo.

Eu hoje fui comungar numa igreja de um padre fassur — quase que o Cap. Poli pondo a metralhadora para sair a comunhão — e ele me recomendou na entrada que tirasse o distintivo para não implicar mais ainda o padre. De maneira que por isto eu vim sem distintivo e estou pondo só agora.

Então acontece que todo mundo tem uma tendência a receber como deliciosa a Revolução enquanto dosada pela família. A família é que prepara a dosagem de Revolução que é de acordo com o temperamento e estilo dos seus membros. Quer dizer, a dosagem é feita para aquele temperamento. Assim será com as famílias dos senhores — se os senhores me permitem essa generalização — em doses maiores ou menores, ou diferentes, etc., será.

* Cada família cria o mito de que ela é importante e uma escola de viver — Exemplos de vários mitos de famílias: o colosso, o intelectual, o músico, o homem de prestígio

Sobretudo acontece o seguinte: que cada família cria o mito de que ela é importante: a mais modesta das famílias cria o mito de que ela é importante, e precisa arranjar uma filosofia mais ou menos revolucionária da vida onde habitualmente o chefe de família é um colosso; a chefa uma colossa; e os filhos, se forem dóceis, são colossinhos que ainda vão exceder os pais.

Eu tenho visto coisas dessas, mas de todo estilo, de todo tamanho, de todas as formas. Por exemplo, família de gente inteligente, culta, e com pouco dinheiro. Eles preestabelecem o princípio seguinte: o homem lido é o homem por excelência — porque o papai lê muito — ou então o homem lido é o homem por excelência, e as pessoas valem na medida que lêem; então, naquela família todo mundo devora livros e só dá importância a quem lê.

Resultado: forma um modo incompleto de ver a realidade, porque é claro que isto não é inteiramente errado, mas é incompleto — bem, que cria uma escola de viver; e lá vai.

Bem, e outra família é musical. Então, decreta-se: o temperamento musical capta coisas da realidade que não se exprimem a não ser em termos musicais. De maneira que uma pessoa musical tem uma superioridade sobre a não musical mais ou menos como por exemplo um indivíduo que tem bons ouvidos é superior em relação ao surdo, que não capta toda uma ordem de realidades sonoras.

Então, na medida que é músico é um grande homem; o papai é um grande músico ou é um grande crítico de música; a prova é que uma vez ele conversou com tal músico que esteve aqui, e o músico, de passagem, disse a ele o seguinte: “meu caro, poucos eu tenho encontrado que entendam tão bem de música”. Isto entra para a mitologia da família.

Então, o papai entende muito bem de música; a mãe datilografa piano e, portanto, também é um colosso, os filhinhos são musiquinhos. Cada um faz uma coisa assim.

Há outras famílias nas quais, por exemplo, o supremo dom é o prestígio. É uma presença prestigiosa por onde a pessoa se enuncia e faz um vazio pomposo em torno de si. Então, o papai e a mamãe quando saem juntos, tem um prestígio, e coisinhas assim se contam em casa assim dessa maneira. E as criancinhas ouvem assim de admiração. Já pequenas, no jardim da infância, elas estão fazendo prestiginho.

Porque… adoração do dinheiro, a adoração da esperteza, toda forma de adoração entram dentro disto.

* Toda família é um pequeno mundo que possui sua própria weltanschauung que é um resíduo de idéias aceitas por todos no qual não são aceitas idéias contrárias

Bem, isto entra mesclado com coisas revolucionárias. Então, o resultado é que, como toda família é um pequeno mundo, que a gente prestando bem atenção tem uma pequena filosofia, uma pequena teologia, uma pequena escola espiritual, uma pequena escola artística, e um pequeno estilo de viver — toda família tem.

Então, se eu quero escapar, se eu quero isto, o seguinte, propriamente: se eu em face de minha família quero ser um autêntico e bom membro de minha família, quer dizer, captando e aproveitando tudo quanto ela de bom pôs dentro de mim, então eu devo fazer um trabalho no qual eu vejo o seguinte: que em todo o grupo humano — numa família, como em qualquer outro grupo; na família mais do que em outros grupos, porque é o grupo mais nobre, mais vivo e que, portanto, nele tudo se diz por excelência — bem, numa família há um conjunto de idéias que são admitidas por todos, um substractum, um resíduo de idéias que são admitidas por todos.

Depois há uma periferia maior de idéias que são toleradas por todos, ou ao menos por quase todos. E depois tem as idéias excomungadas; toda família tem algumas idéias que excomunga; tem algumas excomunhões na mentalidade de toda família. Por exemplo: há famílias pocas que excomungam o não poca. E por aí os senhores já vêem que a família poca tem mentalidade.

* Devemos montar uma lista dos pontos da filosofia da nossa família, procurar a coerência profunda deles e fazer a crítica conforme a R-CR para ficarmos com uma vacina para nos defender

Bem, isto nós deveríamos, à força de observação, poder montar como quem monta um sistema. Quer dizer, nós deveríamos procurar ver quais são essas idéias admitidas como certas.

O quê é que eu chamo idéia? Toda espécie de idéias; por exemplo, de como deve ser um homem, de como deve ser uma mulher, do que é que é o divertimento, de como é que a gente se diverte, de como é a atitude perante a morte, qual é a atitude perante o casamento, como é a atitude perante o dinheiro, como é a atitude perante a religião, como é a atitude perante a pátria, qual é a atitude perante si mesmo, perante as outras famílias, perante o ensino, perante a cultura, perante o esporte, em tudo isto cada família tem um conjunto de modos de pensar com uma porção de matizes.

A gente deve, se for preciso até, os que não tem boa memória, façam por escrito. Mas tranquem bem na gaveta, porque uma característica das famílias assim é de não gostarem de se ver retratadas por escrito. Zangam-se imediatamente, mesmo a família poca, se a gente disser: papai é poca, mamãe é poca. Papai poca pega e faz uma encrenca… começa por perguntar o que é poca e depois faz uma encrenca do outro mundo.

Bem, quando a gente tiver, através de todas as opiniões, feito a lista, a gente deve procurar a coerência profunda que liga essas coisas. E não é um trabalho tão difícil, é ver só no que estas coisas são harmônicas umas com as outras. Então, nós temos esta mescla de erros e de verdades, que caracterizam o semi-contra-revolucionário. E nós podemos, então, fazer um julgamento desta doutrina à luz a doutrina católica.

O quê é que ali é Revolução, e o que é que é Contra-Revolução; fazer a crítica da ortodoxia daquilo, no que é que isto é conforme a doutrina católica. Aí é que nós ficamos com uma espécie de vacina, que se nós usarmos pode nos dar bom resultado. Porquê aí tudo quanto aparece a gente sabe se defender, porque a gente está percebendo a que pontos chega.

* A partir da análise da família explora-se a tensão existente entre o mais e o menos revolucionário e apóia-se a este — Sem o estudo da família ninguém se imuniza contra ela

Então a gente se isola e se defende. A gente vai notar uma coisa muito curiosa, que é a seguinte: que dentro da família existem os mais e os menos revolucionários, até numa família comunista isto existe. E que sem que eles percebam existe uma tensão de idéias e de influências entre eles — às vezes eles percebem, às vezes não percebem — há uma tensão de idéias e de influências entre eles; puxa para cá, puxa para lá. E que há uma terra de ninguém que os dois extremos disputam sem que se perceba.

E a gente aí aprende a fazer a Contra-Revolução dentro da família. Por quê? Porque trata-se de colocar nas conversas da família os pontos em que essa tensão existe para a gente apoiar o menos revolucionário contra o mais revolucionário; ou lançar claramente a posição contra-revolucionária, mostrando que eles estão divididos. É uma questão de jogo, dentro do delicadíssimo organismo familiar.

Mas, voltando ao caso, eu não acredito que uma pessoa possa se imunizar inteiramente contra o espírito da família, a não ser fazendo toda esta montagem, por causa de todas as razões anteriores que eu disse e por causa da especial emprise, do especial alcance, da educação da família sobre o indivíduo, da forma, do temperamento, etc.

* Quando se adquire o hábito de se analisar a própria família nos tornamos aptos a levar a crítica RCR a todos os outros ambientes

Agora, bonito é que quando a pessoa adquiriu o hábito de fazer isto em casa, insensivelmente se adestra para fazer isto na sua faculdade, para fazer isto na rua, para fazer um pouco por toda parte. É insensível, e aí nós temos, ao menos debaixo deste ponto de vista, o contra-revolucionário completo. Quer dizer, não adianta apenas ler o livro, ou estudar história, é preciso fazer a Contra-Revolução dos seus.

Eu pergunto se em tese eu me tornei claro, e se seria uma coisa praticável, ou desejável, a gente, sem estar intervindo — este é o lado delicado — na vida de família deste ou daquele ou daquele outro, porque ninguém pode trazer para ser debatido aqui a sua própria família, o próprio respeito merecido à família não comporta isto.

Bem, se os senhores sentem como eu que seria um bom meio de então dar vida à R-CR a gente fazer um tirocínio de coisas dessas; se isto lhes agradaria, o quê é que pensam, o quê é que acham, ou se acham, talvez muito violento. Porque para mim a grande dificuldade é que eu não vejo como fazer, concretamente.

(CBV: O senhor poderia dar a definição de tirocínio?)

Prática, experiência.

Então, pergunto se querem me dizer alguma coisa. Sumariamente falando o meu ponto está terminado, eu tenho aqui uns pontos de exame de consciência que eu fiz para os membros do grupo, para eles saberem se estão fazendo isto bem. Querendo, eu posso deixar isto aqui. Só que eu não calculei na escala da família, eu calculei numa escala mais geral. Seria preciso falar em família ou não, posso deixar aqui e podem copiar depois, não era razão para estar…

(Dr. Eduardo: [pergunta se não é mais fácil Dr. Plinio ditar])

Está bem, eu posso ditar.

* O Sr. Dr. Plinio dita um exame de consciência para saber se estão fazendo bem a análise R-CR dos ambientes

O primeiro ponto é o seguinte, a primeira pergunta é a única longa, as outras são muito mais rápidas.

Durante o dia todo eu tive sempre em mente que a opinião dominante em meu meio ou em minha família — conforme for o que se queira fazer — sobre as pessoas, os costumes, e os fatos da vida cotidiana é um tecido de verdades e erros, em que o mais das vezes os erros tem mais dinamismo e influência do que as verdades?

Segundo ponto: tive sempre em mente que, ou pela via da admiração ou pela do hábito, esses erros me modelarão se eu não reagir contra eles?

Terceiro ponto: Fiz uma crítica séria — eu daqui a pouco vou dizer o que é uma crítica séria — de cada um dos conceitos emitidos hoje em minha presença nesse ambiente?

* Uma crítica séria de nossa FMR acaba sendo uma oração pois é considerar as coisas em função de Deus

O quê é que é uma crítica séria? É um confronto com a doutrina católica, no que ele é católico, no que que não é. Não é um confronto, mas é estabelecer as relações: isto que relação tem com tal opinião. Os senhores sabem essa crítica como é que se chama? Chama-se oração. Segundo todos os teólogos, isso é uma das modalidades da oração: é considerar as coisas em função de Deus, quer dizer, em função da doutrina da Igreja Católica, porque Deus se exprime a nós, é atingível por nós, em função da doutrina católica.

Então, isto é uma oração. Fazer esta censura é uma oração. É claro que a crítica não é apenas um inventário do que há de mal, é também fazer do que há de bom. É crítica no sentido científico da palavra, quer dizer, uma análise, não é apenas a perpétua [acentuação?] posta sobre o que há de mal.

(Dr. Luizinho: Não é só confronto, mas estabelecer as relações…)

Não é só o confronto com a doutrina católica, mas estabelecer as relações de afinidade ou de divergência destas opiniões com outras ouvidas no mesmo meio, enquanto dominantes.

Então, quais são estas relações? Estas relações são as relações de afinidade ou de divergência destas opiniões com outras tidas como dominantes no mesmo meio; ou, então, com outras do mesmo indivíduo.

* Quando se ataca a verdade diante de mim e eu não a defendo, o meu amor por ela diminui; devo-lhe recusar adesão mesmo através de sorriso ou silêncio

Quarto ponto: firmei-me bem na verdade? Quer dizer, eu trabalhei o assunto perguntando a outro que sabe mais; deixando para pensar mais tarde, mas mais tarde pensando, procurando elaborar? Eu me firmei bem na verdade? Eu cheguei a adquirir a certeza do que é a doutrina católica? Do que de fato a Igreja diz? E de qual é a relação disto com a Igreja?

Quinto ponto: Sustentei a verdade sempre que razoavelmente possível? Não é fazer o papel de D. Quixote, portanto, mas sempre que razoavelmente possível se eu a sustentei. É uma obrigação. A verdade que é atacada diante de mim e que eu não defendo, diminui na minha alma, esta é outra regra da qual não se escapa.

Se duzentas vezes se ataca a verdade diante de mim, e eu não a defendo, o meu amor por ela diminui e depois a certeza cambaleia. A menos que eu tenha uma razão especial e uma graça especial para não discutir. Mas eu digo em condições normais.

Sexto ponto: Ou pelo menos recusei minha adesão, mesmo que esta adesão consistisse…

(Sr. –: […inaudível])

Aunque esta adesión fuera una sonrisa o un silencio; um sorriso ou um silêncio.

* Devemos nos abster de procurar a simpatia do erro dominante ou tentar fazer-nos perdoar de sermos ultramontanos

Sétimo ponto: Eu me abstive de procurar atrair simpatias, parecendo estar de acordo com o erro dominante? Por exemplo, num ambiente onde haja verdadeiro fanatismo por coisas mecânicas, por exemplo. Eu não digo que este fanatismo seja bom, mas eu começo a ler secção automobilística de jornal para me informar um pouquinho e poder dar impressão de que eu também estou de acordo com aquela mentalidade. É disto que eu falo.

(Sr. –: […inaudível])

É para mim, parecendo, querendo dar a ilusão de que eu estou de acordo com o figurino dominante? Então estas coisas colaterais, entendido em certas coisas… desse gênero…

Oitavo ponto: Procurei fazer-me “perdoar” de ser ultramontano — perdoar deve ir entre parênteses, naturalmente — tomando diante dos outros uma posição tímida, indecisa ou servil?

* Devemos ter firmeza e bom senso e defender a posição boa em nossos círculos sociais — Exemplo da pessoa que defendia o Grupo com galhardia

Nono ponto: Procurei com firmeza e bom senso — firmeza sem bom senso é um desastre; pior do que firmeza sem bom senso só há uma coisa: é o bom senso sem firmeza — bem, então eu procurei com firmeza e bom senso pôr numa situação de honra a posição boa?

No Evangelho, Nosso Senhor diz isto. “aquele que se envergonhar de Mim diante dos homens, Eu me envergonharei dele diante dos Anjos de Deus”. Quer dizer, eu procurei, eu soube tomar uma atitude onde, queiram ou não queiram, acabam reconhecendo que a posição da Igreja é a verdadeira e a respeitável? Às vezes sem querer, hein!

Me veio uma vez uma notícia do comentário de um membro de uma família do grupo, que atacava muito esse membro. A família, a respeito dele, dizia o seguinte: “o fulano não percebe a situação dele na nossa família, porque nós não estamos de acordo com o grupo, e atacamos de rijo o grupo, ele defende e fica indignado e não percebe que no fundo ele é a pessoa que mais nos influencia em toda a família”. Esse cumpriu o dever dele. Há uma respeitabilidade inerente ao bem que às vezes um olhar exprime.

* Nosso Senhor na Paixão teve os olhos vendados para que seus carrascos tivessem coragem de esbofeteá-lo sem enfrentar seu olhar

É um imponderável qualquer, é uma graça, às vezes é uma força, qualquer coisa exprime. Ana Catarina Emmerick diz uma coisa que nesse sentido eu acho de uma sublimidade sem limites: que quando aqueles miseráveis lá esbofeteavam Nosso Senhor, flagelavam, etc., mas sobretudo esbofeteavam, eles vendavam os olhos de Nosso Senhor, não era para fazer aquela brincadeira que eles fizeram: “diz-me agora, quem bateu?”, mas era outra coisa: é que não agüentavam o olhar d’Ele!

Se fossem esbofeteá-Lo com o olhar d’Ele à vista, nunca ousariam fazer isto. Então, acabaram amarrando o olhar d’Ele, para conseguir esbofeteá-Lo. Eu acho isto de uma sublimidade sem nome. É tão bonito, que é quase impossível não ser verdadeiro.

Bem, isto o que é? É a infinita… de Deus não se pode falar respeitabilidade, porque todos os adjetivos quando se fala d’Ele estalam; mas digamos, a infinita venerabilidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, mesmo junto aos que O perseguiam e esbofeteavam, fingindo em relação a Ele o maior desprezo.

* Ser verdadeiramente respeitado é ter a própria posição reconhecida como verdadeira pelos adversários, contra a vontade deles

Então, ser respeitado não é receber provas de respeito, não é necessariamente isto, mas ser respeitado é exercer esta ação sobre os outros, por onde os outros, mesmo quando nos injuriam, no fundo reconhecem que a nossa posição é a verdadeira. Ainda que não queiram. Como Judas, a gente vê em Judas, um péssimo respeito a Nosso Senhor [que] ele não conseguia deixar de ter. Inclusive quando ele se suicidou, ele disse: “eu derramei o sangue do Justo”, é evidente que ele compreendeu — compreendeu… — ele ficou mais aberto para ver, mas o demônio entrou nele, o horror que ele tinha feito, a Quem é que tinha vendido, quer dizer, inimaginável.

* Esse é um exame de consciência sumamente útil para a formação contra-revolucionária

Bom, eu não garanto que este exame de consciência seja muito agradável de fazer, também eu não lhes prometi isto no começo da conferência. Eu digo é que ele é sumamente útil para a formação do bom contra-revolucionário. Eu não o recomendo desde logo, e assim, para as pessoas muito novas no grupo. Isto é para o indivíduo que tenha já um certo tirocínio, pelo menos um ano, depois de grupo, antes disso só mesmo tendo um fervor excepcional é que isto é recomendável. Mas tantos de nós estamos no grupo há tanto mais do que isto, que não seria mal tomar isto como um exame de consciência. Eu acho que seria altamente recomendável.

Eu pergunto aos senhores se este exame de consciência está claro, se não está, se querem me perguntar qualquer coisa.

(Dr. Luizinho: Ali, aonde o senhor falou em estabelecer relações entre as afinidades e as divergências, podia dar um exemplo de como se faz isto?)

* No exame de consciência a pessoa deve estabelecer as afinidades e contradições entre todos os princípios vigentes na família, mas primeiro compará-los com a doutrina católica

Pois não. Eu vejo, por exemplo… eu pertenço à família X e vejo na família X afirmarem um princípio. Se eu fizer a comparação com outros princípios, eu vou ver que aquilo está em contradição com outros princípios, eu vou ver que aquilo está em contradição com alguns princípios ou está numa aberta afinidade com outros princípios.

Eu vou estabelecendo aqui as afinidades e contradições daquele modo de pensar. Um caso, por exemplo, característico: em quase todas as famílias, quando se cuida da educação do homem, quando o homem é menino se exige pureza. Mas de repente, quando ele vai ficando mais velhinho, os pais mesmo, a mãe através do pai — ao menos aqui no Brasil é freqüentissimamente assim — vai soprando a impureza.

Bom, o senhor vê aí uma contradição, porque o menino é educado para ser puro a vida inteira, e depois é empurrado para a impureza. Então é preciso tomar, vamos dizer, um menino que receba da parte da família uma solicitação para a impureza, um estímulo para a impureza, ele deve comparar isto com a atitude anterior da família.

Ele primeiro deve comparar aquele convite com a doutrina católica, depois ele [deve] comparar com a atitude anterior da família, [dos] que estão em desacordo com isto, mas também com algumas liberdades que a família concede à filha, por exemplo, que então são de acordo com isso, e montar o quadro do que há de congruente e de incongruente com a doutrina católica. E depois, entre si, nas várias tomadas de atitude da família perante a pureza. Não sei se está claro isto?

* Há uma tese de filosofia que não funciona em matéria de família: tudo que eu toco me toca também, mas a família pode nos influenciar sem que a estejamos “tocando”, isto é, vivendo nela

Resta apenas saber se alguém tiver alguma sugestão quanto ao modo prático de reduzir isto a slides, e fazer um curso ultra-prático, me encaminhe que eu atenderei com muito gosto. Eu não sei se alguém aqui de momento tem alguma sugestão sobre isto.

(Dr. Marcos: Outra objeção que pode estar pairando no ar é a seguinte: eu estou no grupo há muito tempo, já vivo longe da família há muito tempo…)

É, eu até ia responder isso e me passou.

(Dr. Marcos: … ela já não exerce tanta influência assim, eu já estou com outros padrões, etc., como, digamos, nos livrar desses tentáculos assim mais longínquos?)

Há uma tese em matéria de filosofia que desconcerta um pouco e que é a seguinte: se eu toco, por exemplo, aqui na mesa, ao mesmo tempo a mesa me toca. Há uma reciprocidade, não é verdade? Também em matéria de distância; a distância, é evidente, que vai entre mim e aquele arco é a mesmíssima que vai daquele arco até mim.

Existe então uma reciprocidade, que negada, parece que conduz ao reino da loucura, mas há uma tese em filosofia que diz que no que se trata das relações de Deus com as criaturas, não é assim, e que Deus toca sem ser tocado. Quer dizer, Deus pode tocar, nós nunca tocamos em Deus. Bem, um pouco para dar esta tese no seu aspecto mais acessível, nós podemos dizer o seguinte: Deus pode nos castigar ou nos censurar, a censura nos toca de cheio; se nós blasfemamos, aquela blasfêmia não atinge a glória de Deus.

Isto seria o aspecto mais acessível desta verdade que parece um paradoxo. Bem, assim se dá também com a influência da família. Eu posso estar longe da família, é muito diferente da família estar longe de mim. Ela vive no meu subconsciente, ela vive em mil modos de ser meus, em muitas coisas que eu nem percebo e que eu só perceberei fazendo esta análise.

Depois, se houver algum tão feliz que possa me dizer: “mas minha família, Dr. Plinio, é mais ultramontana do que o Grupo”. Eu digo: “então faça assim com o grupo; comece a se defender do grupo”. Bem, e se houver um que diga: “na minha família tem exatamente o grau de ultramontanicidade do grupo”. Eu digo: “feliz de você. Vá fazer isto com sua faculdade, com o escritório onde você trabalha, com a roda que você vive, mas em alguma coisa é preciso fazer”. Não sei se eu respondi bem a sua pergunta? Há mais alguma pergunta a fazer?

(CBV: Geralmente o membro da família tem dificuldade e é, digamos, a ótica para ver a sua própria família está deformada, em conseqüência, a análise que faz da própria família sempre tem uma espécie de cegueira para ver as coisas mais [evidentes?]. Agora, como se pode fazer, se o senhor não tem tempo para ver todas as fotografias, para se suprimir esta cegueira, porque senão […inaudível])

* Esse exame de consciência deve ser feito sem nenhuma acepção de pessoas, com toda a honestidade de alma

Isso é fora de dúvida. É preciso aí rezar muito para ter aquilo que Nosso Senhor chama: não ter a acepção de pessoas. Quer dizer, não julgar deformado pelas estimas pessoais, e pelas fobias, também, mas segundo toda a verdade, toda a objetividade, segundo a doutrina católica.

Nosso Senhor fez a São Bartolomeu esse elogio magnífico: “aquele é um verdadeiro israelita no qual não há fraude” Sejamos nós verdadeiros católicos nos quais não existem estas fraudes. Aí já é um outro mundo.

(Sr. Fernando Telles: Não se poderia responder a este exame de consciência e encaminhar ao senhor, e escrever o nome para que o senhor pudesse analisar?)

Sabe o que é? É que seria uma tal massa que, infelizmente eu não tenho tempo para isso. Daria até um inquérito sociológico muito interessante. Mas eu não quereria jamais organizar uma espécie de introspecção nas famílias, ainda que não assinado, o senhor compreende com que facilidade se perceberia muitas vezes. E eu não quereria organizar uma guerra do Grupo contra as famílias.

Eu creio que nós podemos encerrar então.

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