Santo
do Dia – 12/9/1969 – p.
Santo do Dia — 12/9/1969 — 6ª-feira [SD 113]
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Erro psicológico de Anibal em Cápua; descanso excessivo amolece; o esforço na campanha nos adestra para coisas mais difíceis; a insaciabilidade da alma humana; quem adverte com energia ama.
* Perigos da distensão. Exemplo: Aníbal em Cápua * Vencedor de batalhas comete erro de psicologia * De tanto descansar, ficaram cansados * Quem descansa muito fica com aversão ao trabalho * Exemplo do Senhor Doutor Plinio * Princípio de não dar descanções ou descancinhos às tropas, também se aplica aos membros do Grupo * O melhor da campanha:adestramento para coisas mais duras * Paralelo de nosso esforço e o dos soldados de Napoleão * Pessoas sem programa, não aparecem às reuniões * Ilusão da vida de “confortinhos”. O ser humano é insaciável * Ênfase na advertência e crítica reflete amor
O período de distensão e Cápua
* Perigos da distensão. Exemplo: Aníbal em Cápua
…além disso, nós temos o coro e outras ocupações do mesmo gênero. E depois da volta da campanha, depois que as coisas tranqüilizaram um pouquinho, não foi possível ainda estabelecer um horário em que todas essas coisas se conjugassem.
Agora, acontece que nisso aparece uma das coisas que na psicologia humana é das mais freqüentes, e a respeito das quais eu quero falar aqui com os senhores, e que é o período de distensão. Enquanto não foi possível conjugar essas várias atividades, acontece que nós entramos em período de distensão. E eu reputo o período de distensão um dos mais delicados da vida de um homem. E isso pelo seguinte:
* Vencedor de batalhas comete erro de psicologia
Os senhores conhecem o famoso caso de Aníbal, general cartaginês, que invadiu o Império Romano. O Império Romano, que nunca tinha sido dominado por ninguém, foi levado de roldão por Aníbal, ele praticou verdadeiras proezas, até que suas tropas chegaram a Cápua, no norte da Itália. Ali ele resolveu passar o inverno — porque nessa época do ano, na Europa, nas condições de guerra daquele tempo, não se podia combater —, ele resolveu passar o inverno lá e ele cometeu um erro de psicologia. E esse erro de psicologia ocasionou a derrota dele. Depois disso o seu exército se aniquilou e ele, que estava às portas de Roma, por assim dizer, foi esmagado completamente. E não foi um erro de estrategia, foi um erro de psicologia.
Qual foi esse erro? Ele fez o seguinte raciocínio: “Meus soldados, meus caros soldados, meus valorosos soldados, meus queridos soldados, meus brilhantes soldados, meus incomparáveis soldados, agora vão poder descansar em Cápua. Então descansem mesmo, larguem o corpo, durmam, comam e bebam”. Como os senhores podem imaginar, facilitou-lhes até orgias de toda ordem, tudo quanto eles quisessem, para que eles depois, com redobrado vigor, tendo descansado esplendidamente, se jogassem sobre o adversário e fizessem recuar o Império Romano.
* De tanto descansar, ficaram cansados
O que aconteceu foi o seguinte: que eles, de tanto descansarem, começaram a se sentir cansados. Eles que percorreram a pé — olhem que a pé não é brincadeira –– todo o espaço que vai da África do Norte até, passando pela Espanha, França, transpondo os Pirineus entre a Espanha e a França, transpondo os Alpes –– eles que fizeram até elefantes transpor os Alpes –– os senhores podem imagina [o] que é empurrar um elefante por cima do gelo, que brincadeira… ainda podia quebrar a perna do elefante, porque o elefante é arma de guerra. Eles fizeram os elefantes, com cobertas nos elefantes, atravessar os Alpes. Porque o elefante podia morrer, é bicho de clima quente, os senhores podem imaginar os italianos e os elefantes nos Alpes, eles que fizeram tudo isso, quando eles chegaram em Cápua, eles viram Aníbal dizer isso para eles: “Vocês devem estar exaustos”. Eles: “Ah! é verdade! Nós estamos exaustos — pegou neles uma espécie de psicose de cansaço —, é verdade, nós estamos cansados, [vamos] descansar!”.
Então, se chafurdaram no descanso. Quando chegou a hora de ir, eles estavam tão atarantados com a idéia de descanso, e se deram conta de que descansar era tão gostoso, que na hora de sair de Cápua eles não tiveram mais coragem, e o exército cartaginês foi liquidado.
* Quem descansa muito fica com aversão ao trabalho
É por causa disso que na Literatura Clássica, quando se fala das delícias de Cápua, a gente fala exatamente desse período que vai entre dois trabalhos grandes. Entre um período de grande trabalho e outro, esse entretempo, esse intervalo. E se considera que é o maior dos erros de psicologia a gente dizer a uma pessoa: “Entre esses dois trabalhos, você descanse à vontade…”. Porque a pessoa, depois disso, fica com uma espécie de aversão a retomar completamente o trabalho.
* Exemplo do Senhor Doutor Plinio
Aqui tem a honra de falar aos senhores, como de costume, uma pessoa que passou por essa situação. Depois que eu adoeci, que eu descansei largamente e valentemente, eu confesso aos senhores que quando eu recomecei o trabalho eu tive que fazer força. Eu tive que fazer, de um lado, mais força, do que antes de eu adoecer. Porque depois de eu ter gozado a tranqüilidade e o repouso, e isso os senhores vêem a todas as horas, a todos os momentos, de todos os jeitos…
(…)
…não me pareceu nem agradável nem atraente. E o resultado é que eu pensei em Cápua, e eu fiz para mim essa meditação, e Nossa Senhora me ajudou, e os senhores vêem que em toda medida do possível eu trabalho para tocar a causa d’Ela para a frente.
* Princípio de não dar descanções ou descancinhos às tropas, também se aplica aos membros do Grupo
Os senhores não me levarão a mal, portanto, se eu achar que algo que se aplica à psicologia das tropas de Aníbal e à minha psicologia, tão separadas essas duas psicologias através dos séculos e…
(…)
…das circunstâncias, isso que se aplica à psicologia dessas tropas, dessas duas categorias de almas, mas os senhores vêem também confirmado depois por todos os grandes generais. Os senhores são moços, os senhores já leram muita coisa, alguns dos senhores já leram muita coisa de História, e eu digo aos senhores: os senhores já ouviram falar que Napoleão tenha dito à suas tropas: “Agora, vão para frente e descansem à vontade?”. Os senhores ouviram falar que o Kaiser tenha feito isso para suas tropas? Os senhores ouviram falar de Hitler, que ele tenha feito isso?
Então, esse princípio geral, que é respeitado a partir de Aníbal, por todos os grandes chefes de tropas; eles dão um descanso, mas eles não dão um descansão, e, sobretudo, não facilitam em nada a pessoa tomar o gosto do descansinho, caminha, confortinho, papinha, regalozinho, mil… [¼ de linha em branco] …que a gente tem a tendência a ter na vida quotidiana.
Bem, esse princípio, os senhores não vão levar a mal que eu diga, que se é um princípio aplicável a todas as criaturas humanas, o raciocínio se põe implacável: esse princípio é aplicável a todas as criaturas humanas; ora, os senhores são criaturas humanas, logo, o princípio é aplicável aos senhores. Isso é de uma lógica absolutamente impecável, estritamente impecável. Ninguém escapa dos… [falta uma palavra] …dessa lógica.
Bem, eu digo isso porque eu receio exatamente que agora que os senhores estejam de volta, os senhores comecem a se pôr essa idéia: “Como eu andei! Como eu rodei! Pobre de mim! Aquela poeira do Nordeste, aqueles frios do Rio Grande do Sul, aquelas estradas enormes e intérminas de São Paulo e de Minas Gerais, e daí para fora; Estado do Rio, Vitória, sei lá que coisa, eu aqui sentado na minha caminha fico até espantado de saber como eu rodei. Também agora deixa eu jogar o corpo”.
* O melhor da campanha:adestramento para coisas mais duras
O resultado é o seguinte:
Então, nós não vamos fazer uma outra campanha, então nos perdemos o melhor dessa campanha. O melhor dessa campanha foi um adestramento para coisas mais duras, pura e simplesmente, puríssima e simplicissimamente. Foi um adestramento para coisas mais duras. Está ou não está às nossas portas a “Bagarre”? Está, é uma coisa evidente. Na “Bagarre” nós vamos ter coisas menos duras ou mais duras? Agora, nós não seremos capazes de fazer pela Causa Católica o que fizeram os cruzados, indo a pé, em navios ultra mambembes, para Jerusalém? Nós não seremos capazes de fazer pela Causa Católica o que fizeram os primeiros missionários jesuítas que fundaram São Paulo? Os senhores imaginam o que era a Serra do Mar –– hoje, com a Via Anchieta está uma beleza ––, o que era para Anchieta subir essas serranias, o que era tudo isso com índios, e com tudo o que havia de ser!
Eles são da raça de gente que sabia não amolecer o corpo durante o repouso necessário; que repousava com apetência de maior trabalho; e repousava para trabalhar mais; e não repousava para fugir do trabalho e com apetência de não trabalhar.
Eu digo isso com essa ênfase porque eu receio que um tal ou qual estado de espírito assim possa insinuar-se em nós, esgueirar-se em nós, e esse pequeno tempo, entre outros trabalhos, se transformaria para nós em outras “Cápuas”.
* Paralelo de nosso esforço e o dos soldados de Napoleão
Nós… de fato os senhores foram beneméritos. Os senhores foram a pé, os senhores foram de Kombi até o Rio Grande do Sul e até o Nordeste. O que é isso em comparação com as tropas de Napoleão, que foram a pé de Portugal deslocadas para Rússia? A pé! A pé carregando mochila, fuzil e cantando. Filhos das trevas. Soldados da Revolução, na sua maioria, portanto, precitos. Eles fizeram isso. Os senhores já pensaram o que é atravessar toda a Europa a pé? Depois, com comida de soldado? E depois com risco de soldado, com perigo? E, no entanto isso quase não se menciona na História, de tal maneira outras formas de heroísmo marcaram aquelas guerras. Os senhores teriam coragem de chegar para um soldado do exército de Napoleão e dizer a ele: “Olhe, nós que fomos de Kombi até o Nordeste, até o Rio Grande do Sul!?”. Ele diria: “Ih! mas que… [falta uma palavra] …vocês fizeram esse passeio!? Mas que maravilha! Não diga!? Como é que posso fazer? Tenho medo de me … [falta uma palavra] … nesse descanso. Mas quem sabe se eu posso ir”. É isso que sairia.
* Pessoas sem programa, não aparecem às reuniões
Bem, então meus caros, o que eu queria recomendar muito é o seguinte: enquanto esse horário não se refaz — deve ser por esses dias, três, quatro dias, deve ser constituído esse horário —, eu recomendo muito aos senhores o seguinte: não dou aqui uma norma fixa para os senhores irem a esse ou aquele [lugar] quando houver… [faltam duas palavras] …de horário, mas eu dou uma norma muito categórica, para não fazer o seguinte raciocínio: “Agora há isso, aquilo e aquilo, então…”.
Porque um pouco disso está havendo. Eu me informo de comparecimentos aqui, lá e acolá, como o número dos que compareceram não dá o número total dos membros; quer dizer, algo disso está havendo. E isso não pode haver. Essa “capualização” nós temos que fugir dela como do Inferno.
Eu termino agora com essa consideração:
* Ilusão da vida de “confortinhos”. O ser humano é insaciável
Os senhores sabem que [é] que isso dá? Não há coisa que mais prepara o Inferno na vida do que levar uma vida de confortinho. É uma ilusão que uma vida de confortinho e de pequenas tranqüilidades, de pequenas… [falta uma palavra] …dê bem-estar para a alma. Pelo contrário, a alma fica sempre mais sedenta de alguma coisa, e sempre querendo mais alguma coisa. E a pessoa quer sempre algo mais.
Os senhores prestem atenção nos anúncios de colchão, por exemplo. São muito significativos. Um anúncio diz: “Pluma”. Outro anúncio diz: “A pluma é chumbo em comparação com o colchão não sei o quê!”. Outro anúncio diz: “Durmas nas molas tal, e terá um sono maravilhoso!”. E vem uma pessoa, às vezes do sexo feminino, refestelada num colchão. A outra [propaganda], [um] anúncio que passou mal à noite: o colchão em cima da pessoa… [¼ de linha em branco] …do colchão mais macio, do colchão mais mole. Enquanto não se arranjar um colchão aerodinâmico atômico, em que a pessoa sinta não sei o quê, ninguém se dá por contente. Quando arranjar isso, inventa-se uma coisa que não é colchão, e é o indivíduo ficar carregado no ar por pressões várias para poder com mais facilidade se estirar. Porque essas coisas são insaciáveis.
Comida: se eu hoje concebo, em matéria de comida, algo para mim, com esse espírito, amanhã eu quero outra coisa, depois de amanhã quero outra coisa, por fim eu acho que todos os restaurantes de São Paulo são uma porcaria e começo a ter nostalgia dos restaurantes da Europa. “Na Europa é que se vive! No Brasil, isso não é comida”. Mas eu sou brasileiro, porque não pode servir? “Para mim é comida assim. Não tem outra coisa”.
Bem, chega na Europa, qual é o primeiro restaurante? É o mais caro. Os senhores sabem qual é o resultado? Quando chega no restaurante mais caro acha que esse é o pior de todos. Porque a pessoa se tornou incontentável. Não há pior inferno do que a pessoa se tornar incontentável. Chega nos melhores restaurantes: um prato: “Não, isso não está bom, eu quero outro!”. Depois, afinal de contas, não quer também o outro e tem que ir para outro restaurante. Essas coisas tornam a pessoa cheia de apetências insaciáveis. Isso é o inferno na vida.
O único jeito que há da vida não se tornar insaciável, ou melhor, da vida não se tornar um inferno, é exatamente a gente saber se reprimir, se dominar, não querer o confortinho, não querer essas pequenas comodidades. Ser varão, penitente, homem! e, sobretudo, católico. É assim que nós devemos ser.
* Ênfase na advertência e crítica reflete amor
Eu estou falando com esse calor por quê? Não pensem os senhores que é porque eu não esteja contente com os senhores, mas é por uma outra razão. Eu tenho bem em mente tudo quanto os senhores fizeram na campanha, e alegro-me em lembrar. Mas os senhores imaginem uma pessoa que vê, não sei, vê por exemplo, uma escultura muito bonita, de madeira, dentro de um prédio; e de repente vê posar sobre a escultura uma mariposa qualquer que pode danificar a escultura, pode sujá-la. Quanto mais a gente gosta da escultura, tanto mais investe contra a mariposa. Se for uma escultura vagabunda de cera… [¾ de linha em branco].
Agora, se é uma escultura que a gente dá muito valor, não deixa a mariposa sujar a escultura. A gente vai em cima.
É porque eu estou muito contente com os senhores, é porque eu os comparo até com um exército terrível — meu Deus! ––, é que eu não quero para os senhores as delícias de Cápua. De maneira que eu estou certo que os senhores vão ficar muito contentes, vão levar muito a bem que durante esses dias eu vá fazer um controle das presenças, e vá me dirigir àqueles que estão se “capualizando” para estimular.
Isso seria o Santo do Dia de hoje. Que Nossa Senhora me ajude a fazer isso com a tática e o acerto que merecem aqueles que são, de modo tão especial, os filhos d’Ela.
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