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Reunião para os participantes da Caravana para o Nordeste — 5/9/1969 — 4ª feira
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O desejo do maravilhoso e o desinteresse: alma do brasileiro
… [faltam palavras] …compreender bem essa acolhida. Tomam bem em consideração alguns aspectos da alma do brasileiro, mas do verdadeiro brasileiro, especialmente aquele cujo sangue, no seu grosso é de português, índio ou negro, ou as três coisas misturadas. De contribuição, a não ser longínqua, de holandês, mais ou menos esparso lá do norte, e, portanto, brasileiro mesmo. Não é o filho da imigração, o brasileiro… [ilegível] …mas é o brasileiro, brasileiro autêntico, genuíno. Bem, em relação a esse, eu devo dizer o seguinte: que há o brasileiro revolucionário e o brasileiro contra-revolucionário, dentro dessa espécie de… [ilegível] … a qual eu pertenço, porque minha ascendência é inteiramente brasileira.
A gente passando por essas cidadinhas do interior — isso é por todo o Brasil — aonde só tem brasileiro brasileiro, a gente tem impressão , muitas vezes, de uma baixa de nível, de um desânimo, de um desacoroçôo, de um sono, de um desamparo, um prosaísmo, uma coisa a toda prova. E a gente olha para aquilo e se diz o seguinte: essa gente aqui, algum dia, entusiasmar-se por nossos ideais? Essa gente algum dia pegar fogo pela doutrina ultramontana? Nunca. Olha como eles são. Eles não gostam nada de elevado, nada de extraordinário, nada de nobre. Agente fala para um deles, olha para a gente, diz, o que é? Sim senhor. É ali. A gente pergunta qualquer coisa: Pois não. Pronto, está acabado. A gente diz: com isso nunca dá. Esse gênero de gente nunca dá. É o contrário.
Acontece que esse torpor brasileiro, esse desânimo brasileiro, esse desalento brasileiro, não vem, ao contrário do que diz D. Helder, não vem absolutamente de subalimentação. Subalimentação é uma coisa corolária. Uma coisa secundária. Essa gente, em última análise, não come porque não tem muita vontade de comer. Se tivesse uma furiosa vontade de comer, ou trabalharia mais, ou ia para lugares onde se come mais e onde o trabalho rende mais, que eles não querem. E do que eles são subdesenvolvidos é do seguinte: é gente que vive… [ilegível] …torpor do mundo moderno. E não acha muita graça no mundo moderno. E vive com uma ânsia subjacente, que não chega a perceber bem, subconsciente de ideal, uma ânsia de maravilhoso, e ninguém lhes dá esse maravilhoso. Mas quando passa diante deles algo que é maravilhoso… [ilegível] …os senhores devem ter sentido em muitos lugares um… [ilegível] …eles tivessem… [ilegível] …não sei quantos… [ilegível] … de vitamina, quando eles viram os senhores passar. E… [ilegível] …das capas, e não era comida. Se D. Helder fosse lá oferecer para eles jabá, eles não se entusiasmavam, porque não é isso que eles querem. Eles para terem vontade de trabalhar e de produzir, eles querem um ideal; e eles querem uma coisa maravilhosa, uma coisa admirável. Uma coisa que tenha qualquer coisa de heróico, de fantástico, isso é o veio contra-revolucionário do brasileiro, que boceja, dorme e se estila por nossos sertões intermináveis, de todos os estados.
É bem diferente o brasileiro picado pela revolução. E existe misturado com esses. Este realmente é sabugo, realmente tem birra de tudo quanto é maravilhoso, tem birra de tudo quanto é extraordinário, tem uma tendência para debicar disso. Portanto, se transforma num inimigo de toda simbologia da TFP, que manifestam nossos ideais, nosso espírito e são um convite para o maravilhoso, para o maravilhoso, para o sobrenatural, para o divino. Exatamente isso, essa gente é fechada.
O que é curioso é que a religião representa dentro disso um papel um pouco desconcertante. Por causa do fato do clero, de nenhum modo - ao menos em via de regra - dar ao povo algo que sacia essa vontade de maravilhoso, entre os católicos, os senhores encontram - entre os que freqüentam a igreja - esses dois veios misturados. Alguns freqüentam os sacramentos, freqüentam a religião porque tem ali uma vaga escapatória para sua sede do metafísico, do místico, do divino. E vão se dessedentar na única água pura e verdadeira que é a doutrina católica, a única Igreja verdadeira instituída por Jesus Cristo. Bem, outros, pelo contrário, levam a religião de um jeito que eles a… [ilegível] … a altura deles. Então é uma religião festeira, pipoqueira… [ilegível] …com essas coisas que é o contrário da religião como eu falava a pouco, que tende para o maravilhoso. Passam os senhores por esse ambiente é como um rastilho de pólvora. Os senhores vão atravessar um barco, o prefeito com todo mundo que está no lugar, vai esperar os senhores do outro lado e eles sentem que qualquer coisa , nas harmonias da história, vem anunciar na pessoa dos senhores, que essa sede do maravilhoso que eles tinham,afinal vai se realizar.
Bem, é engraçado que quanto mais culta a classe, tanto menos isso existe. Porque a gente que assumiu a cultura universitária, - e cultura universitária é especialista para matar o maravilhoso e o senso do sobrenatural e do divino; de maneira que nas classes, quanto mais cultas e mais altas - tanto mais elas têm a mentalidade das grandes cidades, essa mentalidade cosmopolita, moderna do asfalto, e não querem saber disso. Mas quanto mais os senhores se aprofundam naquilo que nós poderíamos chamar a carne viva da nacionalidade, tanto mais os senhores tem aí essa sede de maravilhoso em muitas almas, não em todas.
A própria popularidade do cangaço, em certa medida vêm disso. O entusiasmo, por exemplo, pelo padre Cícero, pelas proezas do Juazeiro, em outros lugares, a figura muito mais… [ilegível] …do Antonio Conselheiro, que também fazia a sua “jangunçada”. Portanto, é um pouco o entusiasmo por gente que quebra a monotonia da vida e que faz um pouco de proeza. É um desvio do senso do maravilhoso mas que indica que esse senso existe. Porque ninguém desvia que não existe.
Bem, eu quis com isso fazer compreender aos senhores que… [ilegível] …do êxito das suas caravanas, não é uma sensação que deva corresponder assim a idéia de algo de efêmero. Mas é algo de profundo na mentalidade de nosso país, algo de profundo que a gente nota que está à espera de um toque de trombeta, de uma convocação angélica que os leve para uma coisa diferente.
Uma vez eu comecei a dizer isso no Ceará, em Fortaleza, mas num ambiente tão universitário, que eu percebi que não havia nenhum clima para isso. De maneira que eu não fui para frente. Eu fui fazer uma série de conferências na universidade de Fortaleza e comecei dizendo que eu achava notável no Ceará uma característica de todos os panoramas brasileiros mais bonitos. Em quaisquer lugares onde esses panoramas estejam; é que eu tinha a impressão que havia no Brasil montes, serranias, vastidões, lagos, rios, penhascos, quedas d’água, feitos para serem o teatro de uma grande história que ainda não existe. E que o povo brasileiro me dava, debaixo desse ponto de vista, a impressão de um povo que está na sua pré-história. Que a história da alma do povo brasileiro virá em função de acontecimentos futuros, de idéias futuras e de problemas futuros… [ilegível] …naquele tempo, a uns dez ou quinze anos atrás.
… [ilegível] …dessa sede de maravilhoso, mas olhe e… [ilegível] …de mim… [ilegível] …tanto professor universitário, tanto aluno universitário. … [ilegível] …pelo que a cultura universitária, … [ilegível] …de [pobre?], de quadrado, que eu acho que eles não compreendem… [ilegível] …mas eu… [ilegível] …para os senhores… [ilegível] … de que os senhores [encontrarem?] … [ilegível] …interior à procura de petróleo que deve jorrar do fundo da terra. Nós vamos à procura de almas que devem jorrar do fundo da poeira, e do fundo da poeira jorram essas almas com uma sede extraordinária. Sede do que? Sede de Deus. Mas sede expressa de que maneira? Almas que não se conformam coma vida trivial, a vida terra-terra, só de interesses materiais e feita de preocupações pelo dia de amanhã. Querem algo que lhes fale de desinteresse, querem algo que lhes fale de risco, de heroísmo, querem algo que lhes fale de arte, de cultura, de beleza, de coisas que são bens da alma e não são bens do corpo. De coisas que só tem um sentido se nós acreditarmos numa alma que é distinta e superior ao corpo e que não morra com o corpo, mas que, em última análise, convidam para a idéia de valores eternos, permanentes, superiores à natureza humana, que convidam à idéia de um Deus pessoal, de uma vida além do túmulo, e de um Deus pessoal. Aonde todos esses valores se justificam.
Os senhores querem ver o senso do heroísmo. Se existe uma vida depois dessa, haverá coisa mais razoável e mais bela do que o heroísmo? Se não existe uma vida depois dessa, haverá uma coisa mais besta do que o heroísmo? Só há uma coisa mais besta do que a coragem de sacrificar a vida se não existe uma vida depois dessa, é a coragem de viver. Se não há Deus, nem alma que vá viver depois dessa vida… [ilegível] …não sabe o que á pior, se é morrer ou viver. … [ilegível] … a alma que… [ilegível] …é a alma que tem o senso religioso. E essas coisas todas são no fundo o senso religioso. E esse senso religioso que o povo tem e que no nordeste é… [ilegível] …Bem, é esse senso que nós devemos desenvolver, e que nossa presença exatamente faz … [ilegível] …que Nossa Senhora os ajude… [ilegível] … idéia que tiveram . eu já lhes disse, e pretendo cumprir a minha promessa. Todos os dias no Ângelus, rezar, em união com os senhores para que Nossa Senhora conceda essa graça. Vamos rezar juntos nosso primeiro Ângelus. Agora. Pois não.
(Sr. –: Dr. Plinio, eu trago aqui um símbolo. E é um símbolo que adquiriu, ao longo da vida dele, uma dupla, um duplo valor como símbolo, uma dupla simbologia. Esse símbolo nos foi entregue pelo senhor no morro dos [Pintos?] - não sei se o senhor está recordado.)
Perfeitamente.
(Sr. –: E nós agora o trazemos para… [faltam palavras] …Não queremos, eu quero dizer de início, entregá-lo ao senhor. Mas o trazemos para apresentar ao senhor, apresentá-lo glorioso, mais glorioso do que quando ele foi recebido das suas mãos. Ele já era glorioso desde o tempo que foi concebido como Nossa Senhora, porque ele representa Nossa Senhora. Mas ele foi mais glorioso. Ele adquiriu mais glória durante o tempo em que ele, enfim, ele, enfim protegeu. Durante o tempo em que ele passou pelo nordeste. Ele veio marcado pelo sol do nordeste, pelo calor do nordeste, ele vem marcado pelas lutas do nordeste. Daí porque ele vem mais glorioso, porque ele vem vitorioso. Ele vem glorioso e triunfante como Nosso Senhor Jesus Cristo após a ressurreição. Apesar de que a Igreja viva um momento cruciante. Mas ele vem também glorioso e triunfante como a Santa Igreja Católica, Apostólica e Romana. Nós então queremos apresentar do senhor, o estandarte que o senhor nos deu esse estandarte era chamado, é ainda chamado de estandarte de Dr. Plinio… [ilegível] … nós queremos então nesta ocasião… [ilegível] …apresentando ao senhor este estandarte que nos… [ilegível] …esse estandarte que nos dava sempre a lembrança do senhor, a lembrança da causa contra-revolucionária, nós queremos nessa ocasião fazer dois pedidos ao senhor: 1º para que esse estandarte que o senhor nos deu, que nós chamamos estandarte do Dr. Plinio, seja mais caracteristicamente o estandarte do senhor, que o senhor ponha sua assinatura nesse estandarte. E o 2º pedido é um pedido que, como eu disse no começo, nós não queremos entregar o estandarte ao senhor, nós queremos, mesmo que o estandarte seja do senhor, porque é o estandarte de Nossa Senhora, e Ela lhe deu… [ilegível] …ainda por cima porque nós defendemos a propriedade, ele deveria ficar com o senhor, nós queremos que o senhor faça um sacrifício pelo nordeste, e nos conceda levar esse estandarte, que será um símbolo, único no gênero ei-lo glorioso. Ei-lo então, o estandarte da causa contra-revolucionária que nós… [ilegível] …osculemos todas as vezes que sairmos para a rua… [ilegível] …Ei-lo que nós o apresentamos ao senhor e queremos levá-lo de volta.)
… [ilegível] …é que eu devo assinar? Vamos… [ilegível] …não é? Esse já tem história. … [ilegível] …há uma esferográfica…. mole…precisa esticar bem… [ilegível] …um pouquinho. Eu escrevi… [ilegível] … Dignare me laudare te Virgo Sacrata - Da mihi virtutem contra hostes tuos.
[Início do Ângelus.]
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