Reunião
Normal – 5/9/69 – 6ª feira .
Reunião Normal — 5/9/69 — 6ª feira
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Comentando a RCR o Senhor Doutor Plinio demonstra que a Revolução é intrinsecamente um processo * A força propulsora da Revolução são as tendências desordenadas e não os movimentos doutrinários * Relação entre retidão dos instintos e do entendimento e espírito contra-revolucionário * Em última análise, por quê um homem é revolucionário? * O ponto capital de uma pregação contra-revolucionária * A Revolução é tão contrária à ordem natural das coisas que um homem não poderia aderir a ela sem estar necessariamente movido por alguma deterioração moral anterior à razão * O pensamento de São Tomas de Aquino corrobora as teses do Senhor Doutor Plinio na RCR * Distinguindo a importância dos símbolos e do pensamento na luta contra-revolucionária * Ao descreverem sua obra, os próprios revolucionários tomam como termo de comparação a natureza nos seus aspectos desordenados * Conaturalidade entre as paixões desordenadas e as desordens da natureza * Os paroxismos da Revolução estão inteiros nos germens desta * Cometido o pecado, tem-se um convite para o paroxismo de si mesmo; exemplos * A noção do pecado original deve estar no alicerce da pedagogia * O homem visto do seu pecado original é um bárbaro e é preciso dominar essa barbárie * Aplicação dos princípios da RCR ao vício capital * As tendências desordenadas se desenvolvem como os pruridos e os vícios, isto é, à medida mesmo que se satisfazem, crescem em intensidade * “Judas deve ter começado como um homem que tinha no seu interior ao mesmo tempo uma sublimíssima vocação e impulsos de alma péssimos”
* Comentando a RCR o Senhor Doutor Plinio demonstra que a Revolução é intrinsecamente um processo
(…) nas falsas direitas, e com muita razão, porque ela é a parte mais profundamente religiosa da R-CR.
Eu leio o sentido da coisa, e é o seguinte:
As considerações anteriores já nos forneceram alguns dados sobre a marcha da Revolução.
Quer dizer, eu vou tratar agora de como a Revolução se desenvolve, como é que o processo revolucionário, que é por si, por sua natureza, intrinsecamente uma caminhada. É o capítulo VI, como é que o processo revolucionário que intrinsecamente é uma caminhada, como é que ele se desenvolve, como é que ele procede.
Então, eu digo o seguinte:
Eu já tratei do caráter processivo da Revolução…
Esta é a introdução.
… as metamorfoses pelas quais ela passa, a irrupção da Revolução no mais profundo do homem e sua exteriorização em atos.
Agora, depois de ter dado essas coisas, que são como que uma introdução para se compreender a marcha da Revolução, nós vamos estudar a marcha em si mesma. Então, primeiro princípio é o seguinte: A força propulsora da Revolução.
* A força propulsora da Revolução são as tendências desordenadas e não os movimentos doutrinários
A tese que eu sustento é a seguinte: é que a força propulsora da Revolução fundamentalmente são as tendências desordenadas. Quer dizer, se nós admitíssemos um milagre de um povo que estivesse em franco processo revolucionário, vamos dizer, por exemplo, uma coluna de comunistas, de terroristas atuais marchando para incendiar a Sede da Rua Pará.
E se, de repente aparecesse um anjo no céu e comunicasse a essas pessoas que estão no momento de cometer o pior crime revolucionário, comunicasse a essas pessoas uma graça por onde as más tendências, especialmente a do orgulho e a da sensualidade, cessasse, não é só verdade que essas pessoas não marchariam aqui para nos assassinar, e não queimar o prédio, porque isso é evidente, mas elas deixariam de ser revolucionárias.
A minha tese é: sem nenhum argumento novo, sem nenhuma consideração de ordem lógica, simplesmente porque as más paixões cessaram de soprar, as pessoas veriam que a Revolução é má e começariam a ver que a Contra-Revolução é boa, e já teriam apetência para o auge da Contra-Revolução.
Quer dizer, no seu fundo elas estariam convertidas, era questão apenas de ensiná-las. Essa é a tese. Agora, qual é a antítese disso, qual é a tese oposta a isso? É a tese de quase todo mundo que escreve e que lê hoje em dia: o indivíduo é comunista porque ele leu Marx; ou então porque ele está tocado com a misérias das massas; ou então porque ele teve pequenos casos pessoais que o revoltaram; ou porque ele, em arte, começou a gostar de Picasso, de Neruda e através disso foi conduzido a posições revolucionárias.
Mas, eles procuram fazer do processo intelectivo a grande força propulsora da Revolução. Agora, eu sustento o contrário: eu sustento que é evidente que a Revolução é má e é evidente que a Contra-Revolução é boa.
* Relação entre retidão dos instintos e do entendimento e espírito contra-revolucionário
De maneira que quando a pessoa tem o mínimo de retidão natural, a retidão pela qual, por exemplo, a retidão de entendimento pela qual a pessoa passando por debaixo deste arco não esbarra no canto, porque entende que quando tem um arco deve andar pelo meio do arco, porque o arco é feito para isto, essa retidão que distingue o cretino de hospital do que não é.
Quando a pessoa tem esta retidão de entendimento e os instintos em ordem, ela é contra-revolucionária. Ela é contra-revolucionária pelo menos em gérmen, pelo menos em raiz, porque é de maluco ser revolucionário. Esta é a tese que eu sustento.
E que, portanto, as digressões intelectuais, etc., podem fornecer chicanas para a razão, para a razão seguir o que a paixão quer, mas de fato no fundo a pessoa é revolucionária porque é má e porque quer.
Esta é a tese que eu sustento. Esta tese se baseia num princípio dado por São Tomás e que é o seguinte: que em rigor, no rigor dos rigores, quando o homem pensa e erra, ele — pelo menos considerada a coisa de um modo genérico, em princípio — ele erra por um defeito moral.
Se ele erra por um defeito moral, então os defeitos morais mais freqüentes nos homens devem ser responsáveis pela maior parte dos erros. Mais ainda, quando se trata de assunto em que este defeito moral está em causa, é claro que quando o homem erra naquilo ele erra por causa desse defeito moral.
Ora, a Revolução põe em foco uma temática em que o orgulho e a sensualidade estão eminentemente em foco; logo, quando o homem erra em matéria revolucionária, erra — pode ser também por outros instintos — mas fundamentalmente por orgulho e por sensualidade.
Não sei se a concatenação do raciocínio está clara, porque o que eu estou dizendo tem qualquer coisa de brutal, mas é o fundo de minha convicção, e por isto eu estou disposto a dar as explicações que queiram.
Sobretudo aos que estão vindo a São Paulo pela primeira vez e que não ouviram ainda esta explicação, se querem alguma explicação a esse respeito, com todo gosto eu dou.
Eu estou dando a tese na sua brutalidade, e depois eu estou dando alguma coisa, o essencial da argumentação. Se alguém quisesse que eu repetisse simplesmente, eu de bom gosto repetiria.
(Sr. Gustavo Cuartas: …)
* Em última análise, por quê um homem é revolucionário?
Eu vou dar primeiro o problema então. O problema é o seguinte: porque é que uma pessoa é revolucionária? Tome, por exemplo, um terrorista. Ele é revolucionário. Por quê ele é revolucionário? Eu mostro que há uma tese — eu vou dar de outra maneira então — uma tese errada e depois uma tese certa.
A tese errada é: ele é um homem que estudou livros, olhou jornais e revistas ou teve conversas ao longo das quais lhe deram argumentos que ele admitiu como verdadeiros e que justificavam a Revolução. E então ele ficou revolucionário. Então, de acordo com esta tese, o homem fica revolucionário pela razão, é a razão iludida porque a é inteligência humana falível que leva o homem a ser revolucionário.
Agora, a conseqüência prática desta tese é que para a gente fazer Contra-Revolução a principal coisa que a gente tem que fazer é espalhar boas idéias, enunciar a verdade, porque enunciando a verdade a gente corrige os que estão errados, e por esta forma a gente os convence, e por esta forma a gente as arranca das garras do erro.
Agora, qual é a tese que eu sustento? Eu sustento a tese seguinte: que não é fundamentalmente por um erro da inteligência que o indivíduo fica revolucionário. Ele fica revolucionário pelo impulso de tendências desordenadas, das quais o orgulho e a sensualidade são de longe as mais importantes. Que essas tendências desvirtuam o raciocínio, mas desvirtuam culposamente e levam o homem a aceitar sistemas ideológicos, enfim, outras coisas que o convencem daquilo que ele quereria estar convencido por causa dos defeitos morais aos quais ele resolveu abrir-se.
* O ponto capital de uma pregação contra-revolucionária
Então, a conseqüência desta tese é que o principal de uma pregação contra-revolucionária é mostrar ao homem que ele está vítima de suas próprias tendências e ajudá-lo a corrigir suas tendências, não ficar apenas na exposição ideológica. Eu não nego, portanto, que a exposição ideológica tenha um papel e até um papel indispensável, mas indispensável é uma coisa, capital é outra.
Vamos dizer, por exemplo, para um aluno ser aluno de uma faculdade é indispensável que ele tenha sapatos, não pode ir descalço na Faculdade. Quer dizer, há muita diferença entre o principal e o indispensável.
Eu sustento que a pregação ideológica é indispensável, eu nego que ela seja a principal. A não ser quando ela é instrumento para corrigir os defeitos morais, porque muitas vezes pela formação ideológica a gente pode corrigir os defeitos morais. Agora, depois de ter posto então as duas teses contrárias e as suas aplicações práticas respectivas, eu vou tratar agora de justificar a tese que eu dei.
Vamos dizer que a tese que eu combato que justificação tem, vamos primeiro por aí, primeiro dar a justificação da tese que eu combato. É uma justificação que parece de senso comum: os homens, se pensam errado, devem ser corrigido com idéias certas. É uma justificação de senso comum primeira.
* A Revolução é tão contrária à ordem natural das coisas que um homem não poderia aderir a ela sem estar necessariamente movido por alguma deterioração moral anterior à razão
A outra justificação, a justificação da tese que eu dou, é a seguinte: primeiro ponto, a Revolução é tão evidentemente contrária à ordem natural das coisas e ao senso, ao bom senso do homem, que o homem não poderia aderir a ela simplesmente pela razão, seria preciso uma deterioração anterior à razão para que ele aderisse.
Eu dou um exemplo palpável, arquetípico: mas como é que pode alguém estar seriamente convicto de que convém abolir a família, de que convém subtrair as crianças da educação dos pais, suprimir o casamento, estabelecer o amor livre entre os homens, como pode uma pessoa estar convicta disso, se ela não passou antes por uma deterioração mental?
Porque o contrário é tão evidente, está de tal maneira de acordo com todos os instintos, com todos os movimentos primeiros da natureza humana, que é preciso que tenha havido uma deterioração anterior ao pensamento para que essa pessoa chegue a pensar isso.
(Gustavo Cuartas: …)
É isso, foi isso.
Bem, por exemplo, para ir ao mais fundamental das coisas, como é que pode uma pessoa que tenha entranhas humanas, achar razoável que depois de uma mulher ter gerado um filho e o ter dado à luz, se arranque esse filho a essa mulher? Quer dizer, é uma tal perversão pensar isto, é tão contrário à primeira evidência da ordem natural das coisas, que não se concebe.
O amor livre. Como é que se pode achar que se dois seres geraram um terceiro, esses dois seres depois se podem abandonar e irem depois gerar outros seres por aí como cachorros?
Que isto caiba com a natureza humana, a natureza intelectual do homem, volitiva do homem, como é que se pode achar isto? Para que uma pessoa se convença dos argumentos que se dão para isto é preciso que a pessoa tenha perdido antes uma retidão natural primeira que é dada a todo homem. Vamos dizer outra coisa: o senso da propriedade.
O senso da propriedade é uma coisa natural; a noção que o homem tem de que ele é dono de si mesmo, é uma noção primeira, é como abrir os olhos, é como respirar. A noção primeira, e, portanto, que ele pode economizar o produto do seu trabalho, formando para si um patrimônio, são noções primeiras; a pessoa precisa estar corrompida até o fim para aceitar os argumentos que se dão contra isto; porque há algumas coisas que são tão evidentes, que o último carvoeiro, o último analfabeto rechaça, se não rechaça é porque está deteriorado.
Então, conclusão: o papel dos argumentos para convencer o revolucionário da Revolução, é um papel secundário. O primeiro foi a deterioração moral. Isto é o primeiro argumento que eu dou.
* O pensamento de São Tomas de Aquino corrobora as teses do Senhor Doutor Plinio na RCR
O segundo argumento que eu dou está baseado — é mais uma espécie de argumento de autoridade que confirma — em São Tomás de Aquino; o que São Tomás de Aquino diz a respeito da capacidade de errar do homem. Em princípio, considerada a coisa genericamente, o homem quando erra, não erra sem uma participação de um defeito moral.
Agora, eu vou fazer um comentário a esse princípio. Se isto é verdade, então as paixões humanas mais freqüentes no homem, ou que mais freqüentemente se desordenam no homem, essas paixões são as responsáveis pela maior parte dos erros do homem. Ora, as paixões humanas que mais se desordenam em cada um de nós são o orgulho e a sensualidade.
Logo, a maior parte dos erros humanos tem relação com o orgulho e com a sensualidade, uma relação vária, a títulos diversos, de vários modos, mas vária. Mas os erros referentes aos assuntos em que o orgulho e a sensualidade são diretamente engajados, esses erros são capitalmente causados por essas duas paixões. Eu sei que nós temos um psicólogo aqui na nossa sala; eu não sei se isso concorda com a psicologia dele, mas enfim,… essa é a tese da R-CR.
Então, a conseqüência é — eu exprimo a conseqüência imaginando um caso, para entenderem bem que força eu quero dar ao meu pensamento — então, eu digo o seguinte: imaginem uma coluna de incendiários marchando aqui para destruir a nossa Sede, de gente consciente do que nós somos e que nos odeia por causa daquilo que nós somos; e aparece um anjo no céu, e por uma ação sobrenatural, uma graça fulminante transmuda esses homens simplesmente extinguindo as suas paixões, sem nenhum argumento, extinguindo as paixões desordenadas, ordenando as paixões.
Se aparecer esse anjo nessa coluna de homens na rua e produzir sobre eles este efeito, imediatamente acontecerá que eles param de marchar, que eles param de nos odiar, e que com facilidade depois se pode ensinar a eles a Contra-Revolução. E eles aceitam.
É indispensável ensinar, mas é uma tarefa fácil, o importante é estancar as paixões desordenadas que os levavam a isso. Aqui é um exemplo imaginário ou imaginado que pode dar a idéia da força que eu quero comunicar a esse pensamento, da força de conclusões, quer dizer, até que ponto eu entendo ao pé 2Dda 2Dletra o que eu estou dizendo.
(Sr. José Antonio Tost: Dr. Plinio, é por isso que os símbolos pegam mais as pessoas do que as leituras?)
* Distinguindo a importância dos símbolos e do pensamento na luta contra-revolucionária
Não tem dúvida nenhuma de que os símbolos podem falar mais profundamente ao homem em determinadas ocasiões do que o pensamento, mas o que eu quero dizer aqui é uma coisa um pouco especial, é que o pensamento que se quer dar ao homem… porque eu não justificaria a seguinte tese: então, vamos usar só símbolos e colocar o pensamento de lado. Eu não quero dizer isso; os símbolos são muito úteis, mas nesta tarefa de luta contra as paixões, o pensamento também é muito necessário.
Qual é o pensamento? É mostrar ao homem que ele é vítima da paixão dele; o que de si é um pensamento, é o que está aqui. Quer dizer, se eu vou discutir com um comunista, não perder muito tempo discutindo com ele problema da ….., mas abordando diretamente essa questão assim, digamos, não é? É esse o alcance do que eu digo. Está claro?
Então, vamos para a frente. Eu digo então o seguinte:
A possante força da Revolução está nas tendências desordenadas, e por isto a Revolução tem sido comparada a um tufão, a um terremoto, a um ciclone. É que as forças naturais desencadeadas são imagens materiais das paixões desenfreadas do homem.
* Ao descreverem sua obra, os próprios revolucionários tomam como termo de comparação a natureza nos seus aspectos desordenados
O alcance desse argumento é o seguinte: sempre que os senhores vêem um historiador ou um literato falar de uma revolução, os senhores verão que ele emprega metáforas… mesmo que ele elogie a revolução, para elogiar a revolução ele emprega metáforas tiradas da natureza, falando de terremoto, falando de vulcão, falando de ciclone, falando de maremoto e de outras coisas assim.
Um marxista falando da vitória do comunismo na Rússia, ele dirá: “veio afinal o grande terremoto marxista, derrubou a estrutura do antigo império e implantou-se sobre as suas ruínas”. Ou ele dirá: “como um vulcão, o comunismo arrebentou em São Petersburgo, em Petrogrado, e depois difundiu de lá a sua lava para toda a Rússia”. Ou ele dirá: “como um maremoto as águas vermelhas do comunismo cobriram toda a Rússia”.
Agora, ele não dirá as mesma coisas para falar do triunfo do Cristianismo no Império Romano, ninguém vai dizer: “Jesus Cristo, esse vulcão da História”, é blasfemo, ninguém vai dizer: “como um terremoto os Apóstolos derrubaram o Império Romano”; ninguém vai dizer: “como um ciclone, um tufão arrasador e terrível ergueu-se sobre tal país a doutrina católica que o liquidou”.
Dir-se-á normalmente que não, que foi uma ação de outra natureza; comparar-se-á com o orvalho, comparar-se-á com uma chuva vivificadora, comparar-se-á com uma tranqüilidade repentina, qualquer outra coisa assim. Às vezes empregam-se expressões como tufão, como coisas assim, para indicar a violência da ação do Espírito Santo, mas sempre com um corretivo que indica que é apenas um modo de dizer, uma metáfora um tanto forçada.
Assim, por exemplo, a ação do Espírito Santo enche completamente o homem — eu creio aliás que isto tem uma certa relação com o Segredo de Maria — o Espírito Santo de algum modo embriaga o homem; então há uma certa literatura que fala — católica, boa, de boa lei — da embriagues do Espírito Santo. Mas como é que diz? “Da casta embriagues do Espírito Santo, da sóbria embriagues”, já ao falar da embriagues, nota que não é desordenada, põe um adjetivo que corrige, não é verdade?
Às vezes poderá dizer: “os Apóstolos derrubaram o Império Romano”, mas vem logo, “derrubaram uma coisa que era um não, e o não desses não é o sim; então derrubaram a masmorra, derrubaram a abominação”, qualquer coisa assim. É por uma espécie de força de analogia. Os próprios revolucionários quando eles descrevem portanto a sua obra, eles tomam como termo de comparação a natureza nos seus aspectos desencadeados, nas suas desordens.
* Conaturalidade entre as paixões desordenadas e as desordens da natureza
Por quê? É porque as desordens da natureza são símbolos materiais das desordens do espírito humano, e aí eles percebem essa conaturalidade; as desordens das paixões humanas são simbolizadas pelas desordens da natureza.
Então, a literatura deles involuntariamente mostra que eles sentem isso como eu estou dizendo. Eu não desenvolvi todo o argumento aqui porque seria não acabar mais, a R-CR não visa ser uma enciclopédia nem pode ser, mas o pensamento que está contido aqui é este.
Por exemplo, pouco antes da queda de Carlos X na França, em 1830 — que houve uma série de revoluções na Europa republicana ou constitucionalistas — a Rainha de Nápoles perguntou a um diplomata — eu não me lembro qual:
— O que é que o senhor pensa de nossa situação?
Era um baile perto do Vesúvio, ele se inclinou diante da Rainha e disse:
— Madame, eu penso que nós dançamos sobre um vulcão.
Realmente estavam dançando às encostas de um vulcão; a Revolução e o vulcão são coisas parecidas. Ninguém diria, por exemplo, passando diante de um Convento de Carmelitas:
— O que é que pensa daquilo que está lá?
— Um vulcão… um vulcão de piedade.
É forçado, normalmente… poder-se-ia até dizer, mas forçando, precisaria explicar a imagem; quando é da Revolução, não: todas as desordens da natureza são imagens adequadas porque são símbolos das desordens das paixões humanas. Essa é a idéia fundamental que está posta nisto. Não sei se querem me perguntar algo a respeito disto:
* Os paroxismos da Revolução estão inteiros nos germens desta
B: Os paroxismos da Revolução estão inteiros nos germens desta.
É preciso aqui também uma explicação, dar um pressuposto. Os senhores sabem o que é que é o paroxismo, não é? O paroxismo é um auge. Vamos dizer, o paroxismo de um terremoto é o momento em que o terremoto se tornou tão intenso que toda a sua capacidade dinâmica como que se esgota e se cansa; o paroxismo da febre, o paroxismo… enfim, todas essas desordens tem seus paroxismos.
A Revolução então… eu tratava aqui dos paroxismos da Revolução; eu mostro que os paroxismos da Revolução — portanto, os piores crimes, esse crime a respeito do qual lemos hoje à noite, e que é esse culto a esse infame Charlier, e culto realizado por meio de infâmias —, que esses paroxismos têm raiz nos germens pequenos da Revolução, quando ela está em ovo, mais ainda, do que em ovo, em gérmen; que ela está contida com toda a sua maldade nos seus primeiros instantes de existência; isto é o que está enunciado aqui.
(Sr. Gustavo Cuartas: No deicídio já estava contido tudo o que ia acontecer?)
Quer dizer, no deicídio havia todos os germens de todas as infâmias que aconteceram depois, embora se possa dizer que o deicídio não tenha sido a causa histórica das Revoluções que houve depois; porque houve um período de ruptura entre o pecado do povo judeu e o começo dos pecados da Idade Média, de maneira que é difícil apontar no plano histórico uma relação de causa e efeito, de um para outro, de um para outro; mas como o deicídio foi o supremo pecado, ele tinha em si todas as infâmias.
Agora, o que está afirmado aqui é que o primeiro pecado de Revolução na Idade Média, esse pecado já tinha em si o comunismo contido. Nós podemos dizer que na medida em que os judeus foram os impulsionadores do pecado primeiro da Idade Média, os inspiradores, nesta medida o deicídio atuou sobre a Idade Média.
Então, eu digo aqui:
Como os cataclismos, as más paixões tem uma força imensa, mas para destruir.
Quer dizer, com o orgulho, por exemplo, não se constrói nada; com a sensualidade não se constrói nada, só se destrói. Eles não tem força própria para construir, eles tem só força para destruir.
Esta força já tem potencialmente no primeiro instante de suas grandes explosões toda virulência que se patenteará mais tarde nos seus piores excessos.
* Cometido o pecado, tem-se um convite para o paroxismo de si mesmo; exemplos
Eu uso exatamente de uma metáfora cômoda, que é a explosão. A explosão no seu primeiro comecinho já tem todo o dinamismo que ela vai ter no seu auge; e eu chamo o pecado um ato de conteúdo explosivo, que pede, que convida ao paroxismo de si mesmo, e qualquer pecado convida — eu não quero dizer que não se possa cortar o passo a ele, isso é outra coisa — mas feito o pecado, tem-se um convite para o paroxismo de si mesmo.
Nas primeira negações do protestantismo, por exemplo, já estavam implícitas os anelos anarquistas do comunismo.
Quer dizer, quando os alemães gritavam: los von Rome, “separemo-nos de Roma”, o sentido literal da palavra é: separemo-nos de Roma, e esse brado foi repetido por príncipes, por homens de igreja, por nobres, por pessoas que não eram comunistas; mas o que eu quero dizer é que a tendência de alma que estava nisso já era a comunista, isso é que eu afirmo.
Se do ponto de vista da formulação explícita, Lutero não era senão Lutero, todas as tendências, todo estado de alma, todos os imponderáveis da explosão luterana já traziam consigo de modo autêntico e pleno, embora implícito, o espírito de Voltaire e de Robespierre, de Marx e de Lenine.
E eu dou aqui algumas Encíclicas que confirmam esse pensamento.
Qual é a tese oposta a isto contra a qual nós devemos lutar? A tese é a seguinte: Lutero era apenas um teólogo; ele se preocupou apenas com assuntos religiosos; a sua revolução só teve causas e efeitos religiosos, portanto. É, portanto, estúpido dizer que ele tivesse tendências anarquistas, quando os motivos que o levaram a separar-se de Roma não foram motivos de caráter sociológicos, mas foram motivos que ele alegou, motivos religiosos.
Esta seria a objeção mais comum. Eu, portanto, estaria dizendo uma coisa estúpida. A resposta que eu faço a esta objeção é a seguinte: isso não é verdade. Lutero ao se separar de Roma — e mais adiante eu explico isso melhor, na conferência das três Revoluções também explico — Lutero ao se separar de Roma, era movido por um grande orgulho, um orgulho que tinha como tema assuntos religiosos, mas era o orgulho.
A partir do momento em que um homem pecou de orgulho em matéria religiosa, o orgulho o domina em todas as outras matérias, e os discípulos dele vão ser revolucionários gradualmente em todos os outros aspectos. Por quê? Porque estão dominados pelo orgulho dele. Esta é a idéia fundamental.
Essa idéia tem uma porção de aplicações em política, ela tem uma porção de aplicações também em pedagogia, uma porção de aplicações em vida espiritual.
Aplicações em política: Felipe II. Qual foi a meu ver o grande mérito de Felipe II? É que ele compreendeu isso. Ele tratou de estancar a Revolução nas suas primeiras pequenas manifestações na Espanha com uma energia extraordinária.
* A noção do pecado original deve estar no alicerce da pedagogia
Bom, mais adiante, pedagogia: pais que educam crianças, vê a criancinha: “ah que bonitinho, como ele é engraçadinho; olha ele tem o nariz da avó, o nariz do tio, a mão de não sei o quê, ele tem todos os traços de nossa família, já tem a dignidade e a nobreza de nossa família, olha como ele chupa a chupeta dele como se bebesse champagne”. Nada disso tem importância. É preciso descobrir na criança o que ela tem de tendência primeira ao orgulho, que uma criança ao segurar uma bola já manifesta uma tendência para o orgulho.
Quando o problema sexual começa a se pôr, é preciso ver a sensualidade por onde entra. Por quê? Porque é assim que a gente educa uma criança. Falar em criança inocentinha, coitadinha que nasceu inocentinha, vai em termos; inocentinha é verdade, é bem verdade, enquanto ela não tem uso da razão é inocentinha.
Quando é que começa o uso da razão? Em idade muito desigual, às vezes muito precocemente. De outro lado, acontece o seguinte: que a criança é inocentinha, mas é um pequeno pote de defeitos. Toda criança; porque nasce com o pecado original. Ou então a doutrina do pecado original não é verdadeira.
* O homem visto do seu pecado original é um bárbaro e é preciso dominar essa barbárie
Houve um escritor francês, não me lembro qual, que exprimiu isso de um modo muito incisivo, muito interessante.
Diz ele que cada geração que nasce — eu ia dizer geração nova, mas eu cortei a palavra — cada geração que nasce — a de 1908, por exemplo — quando nasce é uma invasão de bárbaros que o mundo sofre. É naturalmente um pouco de paradoxo francês, mas é muito verdade no fundo, é uma invasão de bárbaros, quer dizer, o homem visto do seu pecado original é um bárbaro, e é preciso dominar essa barbárie. Essa é a tese.
E daí mil coisas educativas. Por exemplo, criança impertinente. Isso eu tenho visto, eu conheço um caso assim: criancinha impertinente com os pais; chegava, por exemplo, para o pai, atrás da porta e gritava para o pai… o pai, “bobão” olhava para a criança; a criança punha a língua para o pai; o pai dizia: “este menino é levado, é de uma inteligência…!”. Deu no flagelo da família, inclusive gastou todo o dinheiro da família.
Por quê? Porque ensinaram ele a pôr a língua quando era pequeno, e que isto era o ser impertinente, deu a ele falta de vontade de estudar, porque….. impertinente o orgulho; por orgulho ele não queria se sujeitar a professores; não queria se sujeitar a professores, deu um sujeito errado; errado, também não queria trabalhar, porque não queria ter patrão; resultado, ele gastou… o pai deu uma procuração para ele e foi para a Europa; ele… o problema: quando o pai voltou, estava a pé. Por quê? Porque aprendeu… com o pai “engraçadinho, inocentinho!”. Uma pestinha! porque todos nós, de nossa natureza, em virtude do pecado original somos pestes; ou temos muita vigilância, muita oração ou auxílio da graça, ou naufragamos por causa de nossa má natureza, esta é a verdade.
Então, esta verdade está no alicerce da pedagogia, está no alicerce da sociologia, está no alicerce da filosofia e da teologia da história, está no alicerce da Religião Católica; não há um santo que não tenha dito isto, nenhum. E aqui está. Não sei, meus caros, se eu estou claro.
(Dr. Luizinho: … aplicação política, pedagogia…)
… filosofia da história, teologia da história, etc.
Por quê? Porque está na base da teologia, e depois da experiência dos fatos. Eu já tenho visto — eu não sei se ainda hoje se faz isto — mas no tempo em que nasciam crianças na minha família e em que eu via as crianças, havia o hábito de pendurar no berço, no último arco do berço de vez em quando uma bola. Eu olhava para a criança, e nas horas que a criança se tomava de assanhamento — porque há horas em que a criança baba, naturalmente — mas de vez em quando a criança percebia que estava a bola lá; quando a criança era um pouco mais desenvolvida, ela queria pegar a bola; no modo da criança pegar a bola, eu estava vendo o defeito da família, do ramo da família respectivo: criança mole, que pega a bola assim, a gente dizia: “eu já estou vendo o apático e preguiçoso; e depois criança frenética, de repente…” e já faço a genealogia daquele defeito, porque conheço a família toda: é minha família.
E depois as famílias com as quais a minha se casou, enfim, é muito fácil; a gente tem muita facilidade em descobrir os defeitos dos contraparentes do que dos parentes; a relação humana onde mais facilmente a gente descobre os defeitos é dos contraparentes.
Bem, eu olhava para aquela criança, eu via isso e via os dois enlevados…., eu ficava quieto…. um pestinha, ou você domina esta criança ou a criança te devora, esta é a realidade; confie na graça, seja muito carinhoso, seja forte também, é claro.
(Prof. Fedeli: Dr. Plinio, o senhor disse que daria uma aplicação para a vida espiritual.)
* Aplicação dos princípios da RCR ao vício capital
A vida espiritual é o seguinte: no que diz respeito a meu pecado capital, aos meus defeitos capitais, com meus sessenta anos, qualquer concessão, por pequena que seja, pode trazer uma ruína; eu não me envergonho de dizer isto, porque eu sou homem, e todo homem é assim, não tem nenhum, exceto Aquela com A maiúsculo, concebida sem pecado original, aí é diferente.
Ou um ou outro santo que tenha sido curado do seu pecado original depois de concebido, isso é diferente. Eu não estou nesse caso, e provavelmente ninguém nesta sala está nesse caso.
(Sr. Gustavo Cuartas: [inaudível].)
A menor concessão ao pecado de Revolução abre um mar dentro da alma de um homem. Uma pessoa que nunca tenha nenhuma concessão com o pecado de Revolução, tem mais facilidade para lutar contra todos os pecados. O que é que eu posso fazer? Eu quisera que não fosse assim ou eu quisera que nunca nenhum de nós tivesse tido concessões ao pecado de Revolução, mas eu não posso dizer que historicamente isto seja verdade.
Então, há alguns pontos onde a gente não pode ceder nunca, se a gente ceder nesse ponto, rapidamente se deteriora. Vamos dizer, por exemplo: toda pessoa tem sua forma de vaidade; assim como cada louco tem sua mania, cada indivíduo tem sua forma de vaidade.
Se a pessoa consente naquela forma de vaidade, daqui a pouco está com a alma cheia das fumaças da vaidade e está dominada pela vaidade. Resultado: se o indivíduo cede na vaidade da qual ele é maníaco, ninguém sabe onde isso vai ter. Exemplificando: imaginem um indivíduo que tem uma enorme vaidade de ser pintor. Se ele consente nessa vaidade ao comentar apenas o olhar de uma figura pintada por ele, daqui a pouco ele está cheio de vaidade.
* Há verdades que são ultra-sabidas e ultra-esquecidas por isso mesmo precisam ser ultra-lembradas
Alguém dirá: “Dr. Plinio, não pode ser; o senhor imagine um homem que tenha passado sessenta anos reprimindo a vaidade; cai tudo de uma vez só?” Cai. O perigo é esse. Principiis obsta, oponha-se ao mal nos seus princípios, seja sério, veja as coisas como são. Os senhores me dirão: “mas Dr. Plinio, isso é ultra-sabido”, porque essas coisas ao mesmo tempo são inteiramente ignoradas e ultra-sabidas, não é? Eu digo: “é verdade, é ultra-sabido e ultra-esquecido, e por isso precisa ser ultra-lembrado”.
Os senhores querem ver a prova? Quem é o político que os senhores conhecem hoje em dia que vai atribuir aos defeitos morais os fenômenos que hoje se passam, como causa principal, determinante? Pouquíssimos. E sempre com igual ou maior fervor. Uma pessoa uma vez me disse: “o senhor escreve um livro, vinte anos depois o senhor comenta o livro como se o senhor tivesse acabado de publicá-lo”.
Eu digo: é verdade, espero morrer com o mesmo entusiasmo pelas verdades que eu escrevi, não tem dúvida, até eu ficarei muito desapontado se o entusiasmo for o mesmo, se não crescer, tem que ser com entusiasmo cada vez maior; assim é a coisa, se não for assim, não tem nada feito.
* As tendências desordenadas se desenvolvem como os pruridos e os vícios, isto é, à medida mesmo que se satisfazem, crescem em intensidade
A Revolução exaspera suas próprias causas.
Vem agora uma outra verdade que me é muito cara.
Essas tendências desordenadas se desenvolvem como os pruridos e os vícios, isto é, à medida mesmo que se satisfazem, crescem em intensidade.
Há um ditado português que diz que “comer e coçar está só em começar”. Realmente, há umas certas cócegas que a pessoa tem que quando coça, piora a cócega; a cócega causa a vontade de coçar, e a pessoa segue a vontade de coçar, aumenta o efeito. Quer dizer, a causa se alimenta, aumenta a causa. A causa se nutre do seu próprio efeito. Assim também são os defeitos.
As tendências produzem crises morais, produzem doutrinas errôneas e depois Revoluções. Umas e outras por sua vez exasperam as tendências. Estas últimas devem seguir, e por um movimento análogo, a novas crises, novos erros, novas Revoluções. É o que explica que nós nos encontremos hoje em tal paroxismo de impiedade e de imoralidade, bem como um tal abismo de desordens e de discórdias.
Outro dia me contaram este fato — é preciso dizer, eu estou falando numa casa que é de Nossa Senhora, eu estou falando aos pés deste estandarte, que se não fosse de Nossa Senhora não valia nada, mas é preciso dizer — eu não li a notícia, mas me mandaram, me disseram que “O Estado de São Paulo” publicou que numa cena teatral dos Beatles, de coisas dessas agora em Londres, um casal subiu ao palco e praticou o ato sexual no palco. Todo mundo se despindo, etc., etc., nus, portanto, a certa altura, o indivíduo praticou o ato sexual no palco.
É possível que uma pessoa esteja tão deteriorada que não chegue a se perguntar a si própria como é que isto aconteceu? Não sinta uma surpresa e não se pergunte como é que isto aconteceu? Quer dizer, há certas coisas que parecem superar a maldade humana, infâmia humana, a baixeza humana; há coisas que parecem superar isto. Nós podemos nos perguntar como é que elas….
Assim, como quando nós vemos um vulcão que explode, os cientistas se perguntarão durante muito tempo como é que explodiu, assim como nós vemos uma infâmia que explode, é razoável que nós nos perguntemos como é que isso explode, é até forçoso.
* Exemplos de efeitos que se nutrem da própria causa no campo do orgulho e da sensualidade
Então, a explicação está aqui. Um indivíduo, por exemplo, lança uma moda imoral, num lugar se lança uma moda imoral. Essa moda imoral é fruto de uma apetência de imoralidade, em quem ideou a moda, em quem a difundiu, em quem a aceitou. Mas essa moda imoral, fruto da imoralidade, por sua vez aumenta a imoralidade, e produzindo um redobrar de sensualidade, produz outra moda ainda mais imoral, e assim de causa em efeito e de efeito em causa, como essa é uma ordem de fenômenos em que o efeito nutre a causa, ao longo do processo a energia revolucionária não se gasta, ela fica cada vez mais intensa, e isso explica o paroxismo da Revolução.
Assim também o orgulho. Imaginem que eu, por exemplo, ceda a um movimento de orgulho: a uma pessoa superior a mim eu trate como não devo tratar. Este ato que eu fiz foi fruto de uma má tendência em mim; mas esse ato alimenta a minha tendência, e o próximo ato de humildade que eu tenho que fazer, vai ser-me mais difícil do que seria no momento atual.
Se eu uma segunda vez pecar de orgulho, o meu orgulho se nutriu com o segundo pecado e me pede um pecado mais forte. O que explica que de impulso em pecado e de pecado em impulso, os homens, em matéria de orgulho, tenham começado por negar a hierarquia eclesiástica, depois engaram a hierarquia política e acabam negando a hierarquia econômica e social. E assim se vai do protestantismo até o comunismo.
* “Judas deve ter começado como um homem que tinha no seu interior ao mesmo tempo uma sublimíssima vocação e impulsos de alma péssimos”
Quer dizer, são efeitos que se nutrem de sua própria causa, são coisas monstruosas e quanto mais concessões se fazem, mais longe se vai.
Judas — para falar dele — Judas em última análise deve ter começado como um homem que tinha no interior de sua alma quando ele se aproximou de Nosso Senhor, ao mesmo tempo uma verdadeira vocação e sublimíssima vocação para Apóstolo, e impulsos de alma péssimos para a ganância e para uma porção de outras coisas.
É claro que Nosso Senhor lhe dá o benefício, ele recusa; ele recusa, a má tendência dele aumenta; ele vai e pratica outro pecado pior. Quer dizer, de cada benefício recusado, brota na sua alma um novo impulso para o mal; ele acaba sendo ladrão. São João conta explicitamente que Judas roubava dinheiro que era destinado aos pobres. É invejoso, avarento: ele lamenta o perfume que aquela mulher despeja aos pés de Nosso Senhor; é até censurado por Nosso Senhor por causa disso. Resultado: depois disso e alma dele está pronta para a traição, está pronta para a venda.
Isto que se dá com um homem, dá-se com um povo. Os pais cometem pecado igual a dois; os filhos igual a cinco; os netos igual a dez; os bisnetos são uns duzentos. É claro. Tanto mais que a progressão não é dois, cinco, dez, mas é: dois, quatro, dezesseis, e lá vai daí para a frente. A progressão do pecado é essa.
Então nós compreendemos como revoluções violentíssimas podem ir sendo acalentadas ao longo dos séculos e de vez em quando há explosões enormes. Essa é a história da degringolada da Cristandade. Isto é o que eu tinha que dizer para hoje.
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