Santo do Dia ─ Sede da Rua Pará ─ 27/8/69 ─ TC . 3 de 3

Santo do Dia ─ Sede da Rua Pará ─ 27/8/69 ─ TC

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Palavras de Santo Agostinho: “exalastes perfume, respirei suspirando por Vós; saboreei-Vos e agora tenho a sede e a fome de Vós; tocastes-me e ardi no desejo de Vossa paz” * Uma forma de perfeição que reúne dons antitéticos que o espírito humano não sabe reunir. * Deus nos dá aquilo que nos ordena: antes de nos ordenar a castidade, Ele nos dá a graça de praticá-la

Hoje, dia 27 de agosto, não há santo em nosso calendário. Nós vamos comentar a ficha de Santo Agostinho, cuja festa é amanhã.

Vamos ler uma ficha de Santo Agostinho:

* Exalastes perfume, respirei suspirando por Vós. Saboreei-Vos e agora tenho a sede e a fome de Vós. Tocastes-me e ardi no desejo de Vossa paz

Tarde vos amei, ó beleza tão antiga e sempre nova. Tarde vos amei. Eis que habitáveis dentro de mim e eu, lá fora, a procurar-vos. Disforme, lançava-me sobre essas formosuras que criastes. Estáveis comigo e eu não estava convosco. Retinha-me longe de Vós aquilo que não existiria se não existisse em Vós.

Porém chamaste com uma voz tão forte que rompestes a minha cegueira. Exalastes perfume, respirei o suspirando por Vós. Saboreei-Vos e agora tenho a sede e a fome de Vós. Tocastes-me e ardi no desejo de Vossa paz. Só na grandeza de Vossa misericórdia coloco toda a minha esperança. Dai-me o que me ordenais e ordenai-me o que quiserdes. Ordenai-me a continência.

Ora, afirmou um sábio, ao conhecer que ninguém pode ser casto sem (…) de Deus, e já um efeito de sabedoria o saber de que provém esse dom. Pela continência reunimo-nos e nos reduzimos à unidade, da qual nos afastamos ao nos derramarmos por inumeráveis criaturas. Pouco Vos ama aquele que ama, ao mesmo tempo, outra criatura sem ser por Vossa causa. O amor que sempre ardeis e nunca Vos extinguis! O caridade, ó meu Deus, inflamai-me, ordenai-me a continência. Dai-me o que ordenais e ordenai o que quiserdes”.

É tão elevado, tão nobre, talvez de uma intelecção, à primeira vista, um bocadinho árdua, que eu não sei quase como comentar isso, uma vez que o santo do dia tem que ser muito rápido, para os exercícios que os Srs. vão fazer. Numa palavra, eu devo dizer que Santo Agostinho, ele faz aqui uns joga de palavras que os antigos apreciavam muito, e que eu acho lindíssimo. Eu não sei bem como é que eles soam, ou que sabor ele tem no paladar espiritual das gerações que me sucederam. Mas são, ao meu ver, de toda beleza possível.

Santo Agostinho, como os Srs. sabem, converte-se tarde e depois de uma vida toda de pecados. Então, ele se dirige a Deus dizendo o seguinte:”Tarde vos amei”- primeiro jogo de palavras- “ó beleza tão antiga e sempre nova”. Deus é antigo, uma vez que Ele é eterno e existiu antes de todos os séculos. Mas é uma beleza sempre nova, porque Deus, como Ele é infinito, há sempre algo de novo a considerar.

* Uma forma de perfeição que reúne dons antitéticos que o espírito humano não sabe reunir

E, portanto, Ele é sempre novíssimo para nossos olhos, apesar de ser tão antigo. E então o homem, de que um lado gosta do que é antigo mas do outro lado gosta do que é novo, o homem encontra em Deus uma plenitude, porque o novo Dele é perpétuo e antigo, o antigo Dele é sempre novo. então, daí vem o jogo de palavras que exprime isto: uma forma de perfeição que reúne dons antitéticos que o espírito humano não sabe reunir. Aí está a beleza do jogo de palavras. Também não sei se desdourei o jogo de palavras traduzindo-o para nossa língua.

Bem “eis que habitáveis dentro de mim e eu, lá fora, a procurar-vos”. Ele era batizado. E pela ação da graça que deus tem junto a cada homem, a cada batizado, ainda que seja um pecador em pecado mortal, Deus está continuamente procurando, continuamente procurando; por essa ação, Deus estava nele. E ele, como um louco, procurando Deus fora, nas coisas. Como é que ele procurava? Procurando uma felicidade que as coisas não dão, quando a felicidade verdadeira está dentro de nós. Então, é mais um jogo de palavras: dentro e fora. No mais fundo de mim eu tenho aquilo que eu tenho a loucura de procurar fora.

Bem, depois ele continua: “Disforme, lançava-me sobre essas formosas que criastes. Estáveis comigo e eu não estava convosco”. Quer dizer, Deus está sempre dentro de mim, mas eu não estava com Deus. Que é uma antítese, sem ser uma contradição. E lá vai a fora, sem que eu saiba bem para a minha caríssima geração nova que significado e que sabor tudo isso tem.

* Deus nos dá aquilo que nos ordena: antes de nos ordenar a castidade, Ele nos dá a graça de praticá-la

À horas tantas, ele diz uma coisa linda: que Deus nos dá aquilo que nos ordena. O que quer dizer isso? Que quando Deus nos manda fazer uma coisa, Ele antes nos dá a possibilidade de fazer essa coisa. De maneira que antes de nos ordenar a castidade, Ele nos dá a graça da castidade. De maneira que Ele é um Pai bom, que quando no manda algo, no dá aquilo porque nos manda. Quer dizer, é um pensamento lindo, e é diferente do modo pelo qual os homens governam. Os homens quando ordenam alguma coisa, não dão nada. Em geral, dão chibatada; ou então, dão suborno. Mesmo porque se não for chibatada ou suborno, não se faz andar os homens, a não ser pela graça de Deus.

Pois bem, Deus não, Deus é um pai cheio de misericórdia; e quando Ele nos manda alguma coisa, Ele antes nos dá. E então, vem essa justificação da castidade. E é uma lindíssima justificação, que eu não tinha visto ainda. O bem de todo ser é a unidade, como o bem da ordem do universo é a unidade também. O homem puro é aquele que só ama a deus, e não ama nenhuma outra coisa a não ser por amor a Deus.

De maneira tal que ele ama Deus em tudo. Esse é um homem casto em que se volta inteiramente para Deus. Pelo contrário, o homem impuro sai correndo atrás de mil criaturas; e nessa espécie de pluralidade, ele se afasta da unidade originária, primitiva, que é seu fim também. E se afasta, por aí, da ordem do universo.

É uma espécie de repulsa da poligamia e repulsa do divórcio verdadeiramente maravilhosa, e que, a meu ver, vale muito mais do que qualquer repulsa sociológica, embora contra o divórcio se possa fazer refutações sociológicas tão boas. Mas é que aquilo que é metafísica convém muito mais para convencer o espírito humano do aquilo que é técnico, ainda que seja de uma ordem mais psicológica, como é dentro da ordem sociológica. esse argumento da unidade, para mim, é um argumento que em qualquer época da vida me arrastaria mais do que todos os outros.

Assim, fica uma rápida palavra sobre isso.

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