Santo
do Dia (Sala dos Alardos da Rua Pará) – 16/8/1969 –
sábado [SD 283] (Roberto Guerreiro) – p.
Santo do Dia (Sala dos Alardos da Rua Pará) — 16/8/1969 — sábado [SD 283] (Roberto Guerreiro)
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Hoje é festa de São Joaquim, pai de Nossa Senhora e protetor da Ordem do Carmo. Começamos a novena da Imaculada Conceição de Nossa Senhora, do Imaculado Coração de Nossa Senhora.
É hoje festa também do Beato John Felton, mártir. Na “Vida dos Santos Militares”, do Abbé Profillet, há os seguintes dados biográficos referentes a ele:
Em 1579, Pio V redigiu uma Bula que condenava Elisabeth I da Inglaterra, acusando-a de ter tomado ilicitamente o título de Chefe da Igreja, ter deposto e aprisionado os bispos canônicos e colocado em seu lugar bispos cismáticos, ter rejeitado o antigo culto e favorecido o novo, recebendo os sacramentos à maneira herética, de escolher heréticos para formar seu conselho e imposto um juramento lesivo aos direitos da Santa Sé. Declarava-a culpada de heresia, despojando-a de todos os seus pretensos direitos à coroa inglesa e desobrigando seus súditos de obediência à soberana. Terminado o documento, foram tantas as objeções na corte papal contra ele, que Pio V, por uns momentos, hesitou em assiná-lo. Nesse ínterim, a insurreição católica no norte da Inglaterra teve início, mas fracassou e Elisabeth mandou ao carrasco pelo menos oitocentos elementos nela implicados. O Papa, então, ordenou a publicação da Bula, e no dia 15 de maio de 1571 apareceu, pela manhã, misteriosamente afixada na porta do palácio do bispo de Londres. O Conselho Real, irritadíssimo, ordenou uma severa pesquisa para descobrir o autor do crime, e um estudante acabou acusando John Felton. Felton era um gentilhomen de grande fortuna e não menor cultura, de caráter vivíssimo e cheio de entusiasmo pela Fé de seus pais. Ao ser preso, confessou orgulhosamente que afixara a Bula. Mesmo sob torturas, negou-se a confessar os nomes de seus auxiliares e enfrentou a morte dos traidores, mas gloriando-se de sua ação e declarando-se mártir da supremacia papal. Mas embora no cadafalso tivesse negado à rainha tudo aquilo que ela pretendia, para mostrar que não lhe tinha ódio, enviou-lhe, pelo cande de Sussex, um anel de diamantes que tirou do próprio dedo e de grande valor. Felton ainda respirava quando lhe cortaram os órgãos viris para lançá-los ao fogo e depois abriram-lhe o estômago para arrancar-lhe as entranhas e o coração. E depois de lhe ter cortado a cabeça, dividiram o seu corpo em quatro partes.
É uma ficha terrível, cheia de significados admiráveis. Talvez o caráter um pouco resumido da narração comportasse uma ampliação.
Como os senhores sabem, a Inglaterra fora, outrora, durante a Idade Média e durante o começo dos tempos modernos, uma nação católica. Uma nação até tão católica que durante algum tempo ela foi chamada a “Ilha dos Santos”, tal o número de santos que floresciam no seu território. Mas, em virtude de sucessivas decadências que vieram desde o tempo de São Tomás Becket, ainda na Idade Média, até os tempos modernos, aconteceu que a Inglaterra caíra numa tibieza religiosa extraordinária. E no tempo do rei Henrique VIII, no século XVI, por causa da apostasia do rei para poder contrair um pseudo-casamento, com … [faltam palavras] … um divórcio, quisera impor ao Papa a anulação; o Papa não aceitou; então o rei, por causa disso, apostatou. Por causa dessa apostaria do rei quase toda Inglaterra tornou-se herética. Foi uma coisa de assombrar, ver que quase todos os bispo ingleses, quase todos os religiosos, quase todas as religiosas, quase todo o clero secular, quase todo o povo, que até o momento em que o rei abandonasse a Fé, praticava a religião católica, com indiferença, com desinteresse aceitou uma fé nova, que eles não podiam deixar de saber que era falsa. E não podiam deixar de saber, porque o Espírito Santo nunca abandona ninguém. E não há perigo de que as forças do homem sejam menores do que a sua tentação. A graça sempre ajuda o homem e o eleva acima do nível da sua tentação. Alguém deixa a Fé Católica, portanto, comete o pecado mortal, o pecado contra o Espírito Santo. Não é possível a gente deixar a Fé Católica de boa fé, sinceramente. Quem deixa, sabe que deixa a verdade e abraça o erro por maldade. Pois quase toda [a] nação inglesa cometeu esse pecado.
Agora, acontece que depois do primeiro momento em que esses pecados se cometeram e em que alguns grandes mártires sobressaíram, — como o Cardeal João Fischer e São Tomás Morus — depois desse primeiro momento e do primeiro susto, no que poderíamos chamar os escaninhos da nação inglesa algumas reações começaram a se delinear, algumas almas começaram a se firmar a favor da Fé Católica, contra o protestantismo. E ocultamente trataram de derrubar a rainha da Inglaterra, que era protestante — era, então, a rainha Elisabeth I, filha do apóstata Henrique VIII — eles trataram de derrubá-la para impor um rei católico e assim continuar a estabelecer a ordem católica na Inglaterra. Antes de Elisabeth tinha, aliás, reinado uma rainha católica, que era a rainha Maria Tudor, filha do primeiro casamento do rei Henrique VIII. E ela tinha restabelecido a Fé Católica na Inglaterra. E os ingleses, com um cinismo bem próprio à Renascença em que esses pecados foram cometidos, passaram todos para a Fé Católica. Depois que morreu a rainha católica, eles passaram de novo para a fé protestante. Quer dizer, em si eles queriam a boa vida e não os incomodava religião nenhuma.
Mas depois disso e sob o reinado de Elisabeth, um certo número de católicos se aglutinou e constituiu-se, então, a grande esperança, que era que Felipe II, rei da Espanha, rei católico por excelência, invadisse a Inglaterra, derrubasse a rainha Elisabeth, estabelecesse a Fé Católica de novo na Inglaterra e por essa forma a heresia levasse um golpe profundo. Como os senhores sabem, isso não se deu porque o rei Felipe II preparou a chamada “Invencível Armada”, e os ventos dispersaram a Invencível Armada. Engraçado que os historiadores profanos costumam considerar a dispersão da Invencível Armada uma derrota de Felipe II. E isso é uma falta de visão extraordinária. Felipe II armou, com grande espírito de Fé essa esquadra, que era tão poderosa que, se não fosse essa tempestade, os próprios ingleses sabiam que ela desembarcaria e venceria. A esquadra não foi derrotada, foi dispersada por uma tempestade tremenda.
Agora, pergunta-se: quem perdeu? A Espanha perdeu uma esquadra. A Inglaterra perdeu a Fé Católica; qual foi a castigada? Foi a Espanha ou foi a Inglaterra? Vocês estão compreendendo? É um non sense imaginar que foi a Espanha que perdeu. A Inglaterra que perdeu, evidentemente.
Bem, seja como for, São Pio V, que nesse tempo governava em Roma, para apoiar a ação de Felipe II, imprimiu a Bula excomungando a rainha Isabel. A Bula era extremamente severa, extremamente justa, porque declarava a rainha Isabel herética, favorecedora de heresia e, como tal, declarava nulos os pretensos direitos dela ao trono da Inglaterra. Pretensos direitos porque ela era filha adulterina. O casamento do rei com a mãe dela não era casamento. Era exatamente o casamento que a Santa Sé não reconhecia como tal. De maneira que ela era filha adulterina, ela não podia subir ao trono.
Então, o Papa fez duas declarações: primeiro, que ela, como filha de adultério não podia ser rainha. Segundo lugar, que ainda que ela tivesse direitos a rainha, ao trono, ela perderia como herege, porque ninguém tem o direito de governar impondo heresia a uma nação. E quando impõe heresia, deve ser destituído.
Bem, acontece que uma certa parte de ingleses não sabia ainda bem ao claro se a rainha estava excomungada ou não. E a chegada da Bula deveria esclarecer esses ingleses e aumentar a revolta deles, que deveria ser apoiada por Felipe II. Essa Bula não chegou pelas vias da Invencível Armada, mas chegou na Inglaterra por outras vias. Então, esse fidalgo, John Felton, homem riquíssimo, homem que, portanto, tinha tudo para levar uma vida agradável — era nobre, era um homem rico — esse fidalgo, calcando os pés todas as vaidades da vida, resolver arriscar. Ele tomou a Bula e ele foi ao lugar onde a Bula podia ser mais provocadora: o palácio do bispo de Londres, o bispo herético de Londres; ele foi lá durante a noite e afixou a Bula na porta.
Os senhores precisam imaginar a Londres pequenininha daquele tempo — grande cidade na perspectiva daquele tempo; uma cidade do interior de São Paulo quanto ao número de habitantes, se fosse comparada pelos padrões de hoje; escura. Os senhores devem imaginar um fidalgo que caminha embuçado, com uma grande capa, com um chapéu baixo e que vai silencioso pelas ruas de Londres; que percebe que chega até o lugar com a Bula escondida. Se algum policial à noite o apreendesse, prendê-lo-ia com a Bula e a obra que ele queria fazer não se realizaria. Os senhores podem imaginar ele chegando, pé ante pé, subindo as escadas de pedra que davam na porta do palácio, afixando ali a Bula e saindo correndo nas trevas da noite. Estava liquidado o caso. De manhã, quando começaria o primeiro movimentos das pessoas importantes ainda dormindo, e o povinho comum passando, olhava para dentro da porta do bispo de Londres e via um papel pendurado. Naturalmente, iam ver o que é. E o falatório e o comentário. Numa cidadezinha pequena, onde tudo se espalha com muita facilidade. Daqui a pouco todas as comadres do mercado, todos os canoeiros do Tamisa, todos os lacaios de todas as casas importantes estavam levando por toda parte a novidade, porque cidadinha é isso, não é? Quer dizer, o Papa excomungou a rainha e declarou que a rainha não tem mais direito de governar.
Um estudante, um Judas, um Calabar, viu e denunciou o senhor Felton. Ele então foi preso. Ele foi preso e, dentro da perspectiva herética e falsa da rainha, ele era um réu de traição, porque sendo nobre, tinha atentado contra sua soberana, tinha querido colaborar para a deposição de sua soberana. Então, ele foi julgado como réu de alta traição e condenado … [faltam palavras] … pena. Antes mesmo de ser julgado, ele foi torturado, para ele contar quais eram os seus companheiros. As torturas, naquele tempo, eram tremendas. Os homens tinham uma resistência física muito maior do que os de hoje e tinham, sobretudo, uma resistência moral incomparavelmente maior que a dos homens de hoje. O começo de conversa das torturas era o cavalete. Era um banco, um tronco, suspenso por dois cavaletes no ar, colocava-se o réu ali, e pesados pesos armados aos pés, e sem tocar no chão. De maneira que enquanto ele depunha, aquilo ia puxando as pernas para o chão e deslocando os ossos. Bem, depois, se o indivíduo não confessava, ia para a sala de torturas. Na sala de torturas, a mais suave das torturas era abrirem a boca do homem e colocarem uma espécie de funil e odres, digamos, baldes com água até ele ficar estufado, imenso, de água e restituir toda água que tinha posto, uma vez, duas vezes, cinco vezes; no fim o indivíduo estava desesperado de náusea e de todas as formas de mal-estar que isso pode causar. Depois vinha a torção dos braços, torção das pernas, vinha a marcação com ferro quente, naturalmente sovas. O senhores podem imaginar.
Bem, ele resistiu a todas as torturas e não contou o nome de seus cúmplices. Bem, por fim, ele foi condenado à morte. Condenado à morte, ele foi executado de um modo tremendo. Os senhores viram qual foi e o que fizeram. Quando ele estava todo quebrado, mas ainda em vida, não estava ainda morto, quando ele estava todo quebrado lhe fizeram várias amputações, uma delas particularmente tremenda, os senhores viram isso e depois, então, ele foi morto.
Bem, antes de subir ao cadafalso, ele teve esse gesto de suprema elegância. Para mostra à rainha … [faltam palavras] … rainha, à pessoa que vocês chamam rainha, que minha oposição a ela não é por ordem pessoal, mas é por diferença doutrinária, mande a ela essa jóia. Isso é para mostrar que eu não lhe tenho ódio. Eu tenho ódio à heresia dela. E por isso morro achando que fiz bem em ter atentado contra o poder dela. Os senhores vejam … [faltam palavras] … Morreu e foi para o céu. No meio de tanta vergonha, é um esplendor a mais dentro da História da Igreja.
Tudo isso é tão trágico, tão grande, tão bonito, tão horroroso. Agora os senhores vão ver a baixa de nível. Depois de tudo isso eu vou falar das ações terroristas. É ou não é uma baixa de nível? É um pulo, não é verdade? Falar de terroristas da … [faltam palavras] … Mas é deles que é preciso falar.
Eu tenho ouvido dizer que se conta, à maneira de elogio, que os terroristas atuais, quando são presos, para não contarem os nomes de seus companheiros, se suicidam. Então, eu tenho ouvido dizer que eles se suicidam dos modos mais horrorosos. Alguns têm uma cápsula de cianureto na boca, que mastigam e morrem fulminados. Outros se jogam embaixo de ônibus, fazem de tudo. Um se jogou de um prédio, não é? Eu tenho ouvido gente — não dentro do Grupo, é claro — que sem fazer um elogio direto, acaba insinuando o seguinte: que eles são colossais (os senhores dão licença, eu tenho um recado aqui) …que eles são colossais porque, para não trair os seus cúmplices eles se matam. Isso não é a suprema forma de heroísmo. Isso é covardia. É não agüentar a tortura. Heroísmo é esse. Não se matar, viver todo tempo que Deus queira que ele viva, sofrer o que ele sofreu e não contar o segredo. Isso é verdadeiramente coragem. O suicídio é sempre uma covardia, é sempre uma vergonha. A verdadeira coragem é vive durante todo o tempo que Deus quer.
Aí os senhores estão vendo como esse santo é incomparavelmente superior em coragem — já não digo nos outros pontos de vista — aos miseráveis terroristas de nossos dias. Aí os senhores vêem o que é a verdadeira coragem católica.
Assim nós devemos nos recomendar a ele, pedindo, se chegar a nossa vez, quando chegar a nossa vez, ele nos obtenha a coragem dele, para que nossa alma seja um novo luzeiro no firmamento da Igreja.
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Sala dos Alardos da Rua Pará