Santo do Dia (Sala dos Alardos) – 15/8/1969 – 6ª-feira – p. 4 de 4

Santo do Dia (Sala dos Alardos) — 15/8/1969 — 6ª-feira

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São Cizy, mártir.



Não houve uma ficha especial sobre a lindíssima festa de Nossa Senhora da Assunção, razão pela qual eu devo fazer um comentário aos senhores da festa de amanhã, de São Cizy, mártir. É um santo militar e os dados biográficos que eu vou dar dele são tirados de trabalho “Les Sainte Militaires”, do Abbé Profillet.



Nessa época, quer dizer em 778, os sarracenos tendo se apoderado da Espanha, atravessaram os Pirineus em número de quarenta mil e se precipitaram sobre a Gália – que é a atual França. Após terem invadido grande parte da Septimânia – região no sul da França –, ocuparam os arredores de Toulouse e construíram um grande número de mesquitas ao longo do Garonne. Entre os guerreiros cheios de fé que se uniram para expulsar da Gasgonha esses inimigos de Cristo,... em primeiro lugar, Cizy de Besençon, descendente dos antigos duques de Borgonha, e não menos famoso por sua piedade que pelo seu valor de notável guerreiro. As atas mais antigas de seu martírio atestam que sob o traje de soldado ele conservava costumes austeros e que era cheio de gravidade e de modéstia”.

Modéstia os senhores precisam sempre entender bem o que é. Na antiga linguagem da Igreja que os hagiógrafos conservaram, modéstia não é sujeito apagado, que é o último dos homens, não é isso. É o homem que tem bons modos, que tem maneiras cristãs; quer dizer, que tem a dignidade cristã, que tem a caridade cristã, que tem a humildade cristã, a força cristã, enfim, ele tem esse esplendor de trato próprio ao cristão.

A palavra modéstia aqui quer dizer a posse dos modos, de boas maneiras. Não só de boas maneiras de polidez, mas é que trata os outros de modo elevado, de modo digno, de bom procedimento em relação aos outros.



Diziam que cumprindo todos os deveres que uma fé sólida impõe, ele havia convertido numerosos infiéis à fé cristã. Conta-se que nos julgamentos promovidos por Carlos Magno e aos quais ele assistia, Cizy desenrolava processos com uma sagacidade maravilhosa; impondo silêncio aos advogados pela aplicação segura das leis, ele fazia a casa um a justiça que lhe era devida, com grande espanto dos assistentes”.



É preciso notar que não havia faculdades de Direito naquele tempo e que os homens que eram capazes de desenvolver argumentação jurídica, o faziam com base no senso moral. Nem havia leis inteiramente definidas naquele tempo. Era a aceitação da moral cristã como fundamento, como regra de todo o proceder entre os homens, que servia de lei viva.

Então, tratava-se de deduzir dos princípios católicos tal ou tal aplicação para esse ou aquele fato em muitos casos. Nosso São Cizy revelava, portanto, uma grande capacidade de argumentação, um espírito de advogado quanto à capacidade de defesa, mas sobretudo um alto senso moral no modo de desenvolver a aplicação dos princípios aos fatos que emergiam.

Nos combates, com freqüência, socorrendo os companheiros feridos, curava milagrosamente suas chagas. Este soldado de Cristo recebeu de Carlos Magno o comando de um terço de cavaleiros que deveriam atacar as planícies de Garonne. Ele tumultua as defesas do inimigo que se reúne e avança ao seu encontro com um grande exército. Logo que o percebe, Cizy se prepara para o combate percorre as linhas das tropas inflamando-as com as palavras: ‘Companheiros, lutais corajosamente e ganhareis a coroa celeste, nossos inimigos combatem pelas coisas da terra e nós por uma glória eterna. Que seu número não nos impressione. Lembrai-vos dos prodígios que o Senhor tantas vezes tem [exporado?] contra os infiéis’. Ele avança sobre o inimigo e levado por seu ardor, penetra no meio das espessas colunas dos sarracenos. Envolvido de todos os lados, é feito prisioneiro. Logo lhe oferecem a vida em troca de seu consentimento em abraçar a religião de Maomé. Mas ele rejeita com desprezo essa proposta e adorando em seu coração a Jesus Crucificado, ele pede o martírio. Seus desejos são realizados. Os infiéis descarregam sua raiva contra o soldado e o esmagam com seus martelos de guerra. Mas o exército cristão, tornado mais terrível pela morte seu chefe, não demorou em se vingar. Os sarracenos, cortados em mil pedaços, cobriram a planície com seus corpos. Carlos Magno fez erguer, no próprio local do combate, e que conserva ainda o nome de Cizy, um túmulo de mármore, no qual foi colocado o corpo do santo mártir. Depois, com os despojos obtidos do inimigo, ergueu uma capela onde, pela graça de Deus, muitos milagres foram operados pela intercessão do santo guerreiro”.

O que eu acho especialmente bonito na vida desse São Cizy é o seguinte: o equilíbrio entre aspectos aparentemente contraditórios na sua personalidade. O soldado, naquele tempo ainda muito mais do que hoje, era por excelência o homem rude; e, infelizmente, muitas vezes não era um homem casto.

Os senhores estão vendo esse homem como soldado, mas ao mesmo tempo um homem muito puro e um homem muito piedoso e um homem de maneiras excelentes. Grande soldado, grande guerreiro. Carlos Magno nunca lhe teria confiado um exército se ele não tivesse dado provas do seu valor militar. Ele tinha, entretanto, ao mesmo tempo, as virtudes que pareciam difíceis de praticar dentro do estado em que ele estava.

Por outro lado, o espírito militar é muito propenso a simplificar as questões, resolvendo pela força aquilo que longas argumentações poderiam decidir. Os senhores vêem, ao contrário, ele esse grande guerreiro que é um grande argumentador, e que não gosta de simplificar pela força aquilo que a boa razão e o talento devem por em evidência.

Os senhores vêem, de outro lado, esse homem que advoga as causas de muitas pessoas que estão em apuros diante do tribunal santamente severo de Carlos Magno, os senhores vêem esse homem que é também cheio de compaixão e de misericórdia e que até cuida dos doentes e opera curas para, em favor dos feridos. Mas na hora de ele fazer o ferimento, ele lutando tremendamente no campo de batalha. E os senhores o vêem, então, um abridor exímio de feridas.

Ele que é o cura-feridas é o causa férias. O que pode desnortear um pouco um espírito não muito afeito à policromia da mentalidade católica, mas no que entra exatamente o esplendor e a harmonia do espírito da Igreja.

Bem, esse mesmo homem depois entra em luta e se engaja no meio dos maometanos e é cercado e morre defendendo a fé. Ele morre matando. Mas o mais bonito talvez não seja que ele tenha morrido, mas é o contrário: que o espírito dele, logo que se desprende do corpo e comparece à glória celeste, a gente vê que pede a favor dos guerreiros dele, de tal maneira que um fervor novo invade os guerreiros dele, de um modo que parece sumamente plausível, pelas preces dele e ele vinga a própria morte presente nos próprios guerreiros.

Também depois de tantos feitos vem o beneplácito do grande imperador, do grande patriarca de toda a civilização do ocidente, do homem cujo nome ninguém consegue pronunciar, até hoje, sem respeito. Carlos Magno manda construir um túmulo de mármore, e que quer dizer muito porque naquelas paragens o mármore não era freqüente, e depois, por sobre o mármore, uma capela feita com os despojos dos inimigos. Os senhores vejam que beleza, que linda morte para um guerreiro cristão.

Morrer na admiração e no beneplácito do seu senhor, o grande rei, o grande imperador do ocidente, morrer com o corpo cheiro das chagas que lhe fizeram de depois com a glória dos inimigos que ele derrubou. É a morte do guerreiro cristão. Guerreiro argumentador, advogado, homem de caridade, homem de trato delicioso, batalhador fiel de Nosso Senhor Jesus Cristo.

É nessa policromia, nessa variedade de aspectos, nisso de ser extremamente de coisas opostas, mas harmônicas, que entra uma espécie de nota de perfeição e de totalidade que encanta. E aí que nós vemos até que ponto a Igreja é profundamente santa. É no conseguir que as almas sejam eximias, extremamente eximias se o português comportasse essa sobrecarga, extremamente eximias em virtudes aparentemente opostas sem serem contraditórias, indicando o borbulhar da causa comum a essas virtudes, que leva a tal extremo. É o amor a Deus.

É um grande amor de Deus que pode levar a pessoa a ser tão magnífica em todos os extremos de sua personalidade. Aí está a vida de São Cisy.

Eu não posso me impedir – tanto mais que chove e eu creio que os senhores não estão tão apressados em sair – eu não posso me impedir de fazer mais um comentário. É o seguinte: os senhores perceberam que antes de haver essa cassação de santos por Paulo VI, houve uma espécie de arquivamento de santos feito pela heresia branca?

Quem é que ouviu falar de São Cizy? Quem é que ouviu gabar, quem é que ouviu proclamar as glórias de São Cizy? De um santo qualquer que tenha curado, tenha só curado os doentes, os senhores devem ter falado muitas vezes. Deus seja glorificado neles e eu os admiro muito e me considero indigno de desatar as sandálias dos sapatos, dos pés deles. Não tem dúvida.

Mas por que silenciar esses? Por que não mencionar uns e outros? É exatamente para que todo aspecto combativo da Igreja seja posto entre parênteses, para preparar remotamente para a mentalidade progressista e ecumênica. Para os senhores verem de quão longe datam essas coisas, e quão sutis são infiltrações do erro e do mal na geração da heresia de hoje nos séculos de civilização cristã.

Os senhores dirão: mas Dr. Plínio, por que é que o senhor insiste nisso?

Insisto e hei de morrer insistindo, se Deus quiser. E hei de morrer insistindo porque eu tenho medo do Reino de Maria. Eu tenho medo – não me queiram mal, um pouco pelo que eu vejo – que no Reino de Maria o otimismo nos invada e que a gente cesse de ser vigilante como deve ser. Ora, nós não só devemos ser vigilantes, mas vigilantíssimos; e no Reino de Maria devemos ser mais vigilantes ainda do que hoje, porque o inimicus homo estará entre nós. E vai querer deitar apenas uma sementizinha.

Nessa sementizinha vem a catástrofe inteira. E por isso eu costumo dizer que quando acabar a bagarre e começar o Reino de Maria os senhores não pensem que minha primeira reação vai ser cantar um Gloria in excelsis Deo, não. Vai ser olhar onde está o resto do inimigo para cair em cima dele. Deixe os outros que cantem. Tem muita gente para cantar, mas há pouca gente para lutar com essa tenacidade, essa vontade de extermínio meticuloso, radical e completa.

E é essa que nós precisamos ter, de maneira que nossa função é cair em cima. E isso eu já disse: eu espero da bondade de Nossa Senhora que eu vá para o céu. Eu, do céu, eu vou continuamente rezar para dar vigilância e para combater. Até que não só o número dos eleitos esteja completo, mas esteja no inferno quem tem que ir e que tenha passado aqui na terra valentemente.

Combater até que cesse a história. Isso é que nós devemos querer. Com isso está feito o santo do dia.

Sala dos Alardos