Santo
do Dia (Sala dos Alardos) – 9/8/1969 – 3ª-feira [SD
147] (HVicente) – p.
Santo do Dia (Sala dos Alardos) — 9/8/1969 — 3ª-feira [SD 147] (HVicente)
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São Lourenço
O Santo do Dia hoje é São Lourenço, mártir, festa no dia 10 de agosto. O comentário vai ser feito com base num texto do Rohrbacher, “A vida dos santos”.
A perseguição de Valeriano intensificou-se sobremaneira no ano de 258. O Papa São Sixto foi preso com alguns membros do seu clero, quando estava no cemitério de Calisto para celebrar os Santos Mistérios. Quando o levavam ao suplício, Lourenço, o primeiro dos diáconos da Igreja Romana, seguia-o chorando e dizendo: “Aonde ides, pais, sem vosso filho? Aonde vais, santo pontífice, sem vosso diácono? Não estais acostumado a oferecer o sacrifício sem ministro. No que vos desagradei? Experimentai se sou digno da escola que fizestes de mim para me confiar a dispensa do Sangue de Nosso Senhor.” Sixto respondeu-lhe: “Não sou eu que te deixo, meu filho, mas um combate maior te está reservado. Poupam-nos a nós, velhos, mas tu me seguirás dentro de três dias.”
Entretanto, o prefeito de Roma, julgando que os cristãos tinham grandes tesouros escondidos e querendo disso certificar-se, mandou chamar Lourenço, que eles era custódio como primeiro diácono da Igreja Romana. Pediu-lhe que lhe entregasse os tesouros dos cristãos e Lourenço respondeu-lhe que lhe entregaria após fazer o cômputo total do que possuíam. Reuniu todos os pobres e doentes de Roma, mostrando-os ao prefeito como únicos tesouros e os maiores da Igreja. Os pobres eram ouro, as virgens e viúvas, as pérolas e demais pedras preciosas. Furioso, o prefeito ordenou a morte do diácono, mas exigiu que fosse lenta e cruel. Despiram-no e deitaram-no sobre uma grelha, tendo em baixo brasas semi-acesas. Os que assistiam ao suplício viram o resto do mártir rodeado de esplendo extraordinário. Depois de muito temo disse o supliciado ao algoz: “Fazei-me virar. Já estou bastante assado desse lado.” Depois que o viraram, disse ainda: “Está assado. Podeis comer.” Olhando então ao céu, rogou a Deus pela conversão de Roma e expirou. Senadores convertidos pelo exemplo de sua constância carregaram-lhe o corpo nas costas e o enterraram no Campo Verano, perto de Tivoli, numa gruta.
Há um número enorme de dados que são preciosos nesse Santo do Dia. O primeiro deles é o diálogo de são Lourenço com o Papa São Sixto. Os senhores sabem que o sacrifício da cruz… o santo sacrifício da Missa, é a repetição incruenta do Santo Sacrifício da Cruz. De sorte que oferecer o Sacrifício da Cruz e oferecer o sacrifício da Missa são uma mesma coisa. O mártir, por outro lado, quando se oferece em holocausto, ele, de algum modo, oferece um sacrifício que é o dele, e sem renovar o sacrifício da cruz, entretanto, imita a Nosso Senhor Jesus Cristo, que se imolou a Si próprio. Há, portanto, um conjunto de correlações entre o sacrifício do Calvário, a Missa, e o martírio. E foi em torno dessas correlações que girou o diálogo, entre todos admirável, do Papa São Calixto1 com seu Diácono. O Papa foi preso, e foi levado para a morte. E o diácono dele, São Lourenço, lhe dizia: “Vós oferecestes tantas vezes o sacrifício comigo, diácono.” Porque era o papel do diácono ajudar o Papa na celebração da missa como coroinha. Não, aliás, como coroinha… como diácono, que tem papel próprio na participação da missa. Então, diz o diácono, diz São Lourenço para ele: “Vós tantas vezes oferecestes o sacrifício comigo. Agora, vós não o quereis oferecer? Vós me deixar a mim nessa Terra, no momento em que vosso sacrifício vai ser feito? É como que a vossa missa. Eu não sou vosso acólito? Levai-me convosco para eu ser morto junto convosco; uma vez que eu vos servi a vida inteira ao pé do altar, quero servir-vos também ao pé da morte.” E então, depois dessa maravilha de diálogo, São Calixto profetizou. Disse: “Eu vou ter uma morte suave em comparação com a sua. Os moços cão ser menos poupados do que nós, velhos. Daqui a três dias chegará a tua ocasião e será morto.”
Realmente, essa fidelidade de São Lourenço a São Calixto, traz consigo um primeiro lampejo de Idade Média. É uma fidelidade que gira em torno de relações de caráter eclesiástico, mas é uma fidelidade feudal. Essa união no serviço, por onde a pessoa que serve se une àquele a quem serve por um vínculo que é muito mais do que um contrato de locação de serviço, mas é um vínculo de amor e de dedicação da alma inteira, de consagração da vida inteira, de tal maneira que ele sente que ele não tem razão de existir a não ser em função daquele a quem ele serve, na força desse vínculo de fidelidade, nós vemos prenunciado o feudalismo, em que os vínculos de fidelidade, já então de ordem temporal, mas concebidos religiosamente, porque a fidelidade é uma virtude religiosa, ainda quando exercida ou praticada no âmbito temporal. Nesses vínculos que ligavam o diácono ao papa, nós vemos desabrochar a alma feudal, feita do senso do serviço, feita do senso da alienação, do senso de honra; em que aquele que serve põe a sua honra em servir de fato àquele a quem se vinculou. Nós vemos isso uma admirável alienação, e o contrário da desalienação miserável que a igreja progressista deseja. Nós vemos isso um ante-sabor da Idade Média, que constituiu uma sociedade temporal em que as articulações das pessoas que constituíam a sociedade eram todas na base de uma alienação, na base de uma entrega, na base de uma proteção. Todo o perfume da Idade Média que começa a evolar-se nessa lealdade, nessa dedicação, nesse senso de honra, nessa entrega, nessa alienação de São Lourenço com o Papa São Pascoal… São Calixto. Não…! de São Sixto.
De outro lado, nós temos o episódio admirável com os pobres. Os senhores viram a coisa: o imperador ouviu dizer que os cristãos eram riquíssimos. O tal “ouviu dizer” já é a tal “máfia”. Já naquele tempo, os cristãos eram “mafiados”. Corriam a respeito deles toda espécie de mentiras as mais malucas: que eles praticavam a homossexualidade, que eles devoravam criancinhas, e entre outras mentiras também se dizia que eles eram riquíssimos. Os senhores já devem ter ouvido falar coisas dessas de nós: que a TFP é riquíssima, que recebe dinheiro americano, que recebe dinheiro não sei de onde, etc., etc., não é? Sempre a mesma “máfia”, um pouco adaptada às circunstâncias da época, mas são as mesmas mentiras vindas do demônio.
Então, o imperador mandou chamar São Lourenço, ao qual, de acordo com a organização da Igreja naquele tempo, como diácono, cabia a guarda dos objetos que constituíam o tesouro da Igreja romana. Pobre tesouro primitivo: alguns objetos entregues pela nobreza romana, ou pelas pessoas ricas de Roma, para o culto. Mas uma coisa que não tinha comparação com nos tesouros hodiernos da Igreja. Mas o imperador queria esses tesouros, naturalmente avolumados por uma “máfia”. Então, mandou chamar São Calixto e exigiu que ele desse os tesouros. São Calixto disse: “Não tem dúvida. Eu vou trazer. É só eu ter tempo de reunir todos, juntar para ver quanto é, depois eu trago.” Ele disse: “Está bom. Então faça.”
No dia marcado aparece tudo quanto é pobre de Roma, viúva, estropiado, aos quais eles tinham um desprezo soberano. Por que o pouco caso do romano em relação ao pobre era uma coisa incomparável. Ele disse: “Aqui estão os tesouros da Igreja.” É uma admirável lição de espírito sobrenatural.
Por que é que o pobre é um tesouro? É um tesouro, antes de tudo, porque ele é homem, porque é cristão, batizado, católico, filho da Igreja Católica. E o que vale no homem não é o que ele tem, nem o que ele sabe, nem o que ele pode, nem o que ele faz. O que vale no homem antes de todas as coisas é que ele é uma criatura de Deus. Em segundo lugar, que ele fica remido pelo sangue infinitamente precioso de Nosso Senhor Jesus Cristo. Em terceiro lugar, que ele custou as lágrimas indizivelmente preciosas de Nossa Senhora. Esses títulos fazem de qualquer homem, ainda que seja um molambo, um verdadeiro tesouro, porque todo o Sangue de Cristo está ali. Nosso Senhor Jesus Cristo ter-se-ia encarnado e morrido na cruz ainda que fosse só por causa daquele.
Ora, duas quantidades iguais a uma terceira são iguais entre si. Se aquele homem vale o Sangue de Cristo, como o Sangue de Cristo tem um valor infinito, aquele homem tem de algum modo, um valor infinito. Então, por ser homem, por ser filho da Igreja, um pobre tem um valor incomensurável. Mas ele tem um valor ainda maior, não no fato simplesmente de ser homem, mas de ser pobre. Nós não tomamos isso no sentido revolucionário da palavra, de que só o pobre tem valor. Aos olhos de Deus, há uma porção de predicados humanos até opostos entre si, se bem que contraditórios, há uma porção de predicados humanos que tornam o homem digno de um amor especial de Deus, debaixo de certo título.
Por exemplo, os simples de espírito, no sentido corrente, atual da palavra — não no sentido antigo — querem dizer umas pessoas de inteligência apoucada, pouco inteligentes, Deus os ama de um modo especial; os ama na sua fragilidade, os ama exatamente porque eles são desnudados dos recursos necessários para viver, intelectualmente, e então a Providência Divina pousa sobre eles e os protege de forma especial. O que não quer dizer que Deus não ame o sábio. O fato de Deus amar com uma proteção especial aquele que é carente do ponto de vista intelectual, não exclue que Deus, por um outro título ame imensamente um São Tomás de Aquino, ou ame imensamente Nossa Senhora, cujo conhecimento de todas as coisas deixava o de São Tomás de Aquino mais longe do que Santo Tomás de Aquino deixa a nós.
Bem, o que tem que são títulos diversos, segundo os quais Deus ama a cada coisa. É um pouco como o homem com a flor. O homem não se encanta com a rosa porque ela abre lindíssima, se mostra no seu esplendor, a rainha das flores? Entretanto, o homem não se encanta com a violeta, pela razão oposta? Porque ela se esconde porque ela é apagada, porque ela é delicada, porque é ela pequenina? São títulos diversos, se bem que não contraditórios, de se gostarem das coisas. Deus dizer que Deus ama o pobre, não quer dizer que Deus não ama o rico; o que seria uma interpretação de último quilate, à la D. Hélder Câmara. O que quer dizer é que na pobreza há um título especial par Deus amar aquela pessoa. E qual é esse título?
Esse título é que Deus ama os que sofrem; bem entendido, os que sofrem com resignação, os que sofrem em união com ele; e é uma prova de predileção ele mandar um sofrimento. De maneira que quem vê um pobre porque sofre, vê no pobre um tesouro. O que significa que se eu devo amar a pobreza de um pobre, o pobre também deve amar sua pobreza. É evidente. Isso não quer dizer que o pobre não deva trabalhar para deixar de ser pobre. É diferente. Mas enquanto ele não consegue deixar a pobreza, ela deve, ao mesmo tempo, ver nela um sofrimento, mas deve carregá-la com resignação. Como nós, vendo que um pobre é pobre, devemos lamentar que ele seja pobre, na medida do nosso possível, do que tem a propósito, devemos ajudá-lo, mas nós devemos dar graças a Deus que não só criou os ricos, mas também criou os pobres. Porque há uma excelência especial da alma humana na aceitação da pobreza. É como, por exemplo, a doença. Os senhores podem imaginar a que grau de degradação teria descido o mundo se não houvesse doenças? Que cúmulo de imoralidades haveria na Terra, se não houvesse doenças? A Igreja é quem mais faz para acabar com as doenças na Terra, mas Ela dá graças a Deus por doenças invencíveis, porque é necessário para o homem que haja doenças. Assim é que com esse balancé de circunstâncias num equilíbrio muito grande das coisas, se pode dizer e se deve dizer que o pobre é um tesouro, ou a viúva é um tesouro, como um órfão é um tesouro, e que são verdadeiros tesouros reais dentro da Igreja Católica. São Lourenço deu uma admirável lição ao imperador.
A última lição, ele deu para todos os séculos. E foi o seu martírio. Não se pode compreender sem um milagre, mas um milagre de primeira classe, que um homem agüente o que ele agüentou. Os senhores entenderam bem a narração: ele foi colocado sobre uma grelha e, por debaixo dessa grelha, foram colocadas brasas. E ele foi assando aos poucos. Os senhores podem imaginar o que representa a dor de ser assado por essa forma? Os senhores imaginem um animal vivo que fosse colocado sobre uma grelha; como ele urraria, berraria, de sinais de tormentos horríveis, ele daria. Pois bem, esses tormentos são ainda muito maiores no homem, porque o animal não tem a consciência de sua dor, e o homem a tem, o que aumenta o seu sofrimento enormemente.
Agora, a placidez dele, a cara translúcida de alegria, quando ele percebeu que uma parte de seu corpo estava morta — e já é um milagre, um outro milagre ele não ter morrido inteiro com isso —, ele disse: “Eu já assei de um lado, podem assar do outro lado.” Ele foi virado e foi morto assim. Agora, na hora de expirar, ele pediu a conversão de Roma; e na hora de expirar, ele foi atendido. Vários senadores que assistiram o seu martírio, carregaram o seu corpo até a sepultura. Quer dizer, ele, um pobre, um mero diácono da Igreja, que vivia naqueles tempos como perseguido nas catacumbas, ele é carregado por componentes do mais alto órgão legislativo da Terra naquele tempo, que era o Senado Romano. Carregado aos ombros por aqueles que ele converteu com seu sofrimento. E foi levado e sepultado.
Agora, os senhores vejam o resultado dessa humildade. Está escrito no Magnificat, Nossa Senhora disse: “Deposuit potentes de sede, et exaltavit humiles” — “Deus destituiu de suas cátedras os poderosos e exaltou aqueles que são humildes.” Os senhores vejam o que aconteceu com São Lourenço. Quem é que hoje houve falar nesse imperador? Imperador Cláudio… que é isso? Imperador Cláudio. Está desfeito em poeira, está apontado ao horror de todos os séculos, quando não, no esquecimento. E se as orações de São Lourenço não o converteram, como parece que não, ele está no Inferno eternamente dialogando com uma porção de outros interlocutores que nós temos razão de suspeitar quais sejam.
Bem, uma dos mais célebres palácios do mundo comemora a glória de São Lourenço, o Escorial. Um palácio famoso, constituído por Felipe II. Era festa de São Lourenço e Felipe II ia ter contra os protestantes franceses uma batalha muito árdua. A batalha, travada em território francês, no local chamado Saint Quentin, São Quitino. Então, como era festa de São Lourenço, ele propôs a Deus isso: que ele faria construir uma basílica magnífica em louvor de São Lourenço, se ele ganhasse aquela batalha dos hereges. Ele desbaratou os hereges. E então, ele mandou construir [uma] grande obra de arte de seu reino de grande rei, que é o Escorial, que tem exatamente a forma de uma grelha, para celebrar o instrumento do martírio de São Lourenço. E todos os turistas do mundo inteiro, todos os peregrinos de todas as partes, que vão ao Escorial, ficam sabendo da glória de São Lourenço. Sem falar, naturalmente, no culto que lhe presta a Igreja Universal…
(…)
… os poderosos, mas que se orgulhavam do seu poder, que eram filhos da iniqüidade, foram julgados, ou melhor, foram jogados no chão. O mártir sacrossanto está no mais alto do céu, louvado por Nossa Senhora, pelos anjos, objeto de predileção de Deus durante… até o fim do mundo se louvará a memória dele, ele receberá culto e por toda a eternidade, os anjos vão contar a glória dele no Céu.
Cláudio, onde estará? Que Inferno, que tormentos, que desprezos, que gargalhadas! No momento mesmo que eu digo isso dele, os demônios — se ele está mesmo no Inferno — está repetindo tudo isso para ele e caçoando dele. Ele deve estar redargüindo com caçoadas horrorosas, num ambiente pavoroso. É o poderoso que foi precipitado e que está, provavelmente, no mais fundo dos Infernos. Aí está o desígnio de Deus, aí está a glória de Nossa Senhora.
1) Deve ser São Sixto.
Sala dos Alardos