Reunião Normal – 23/07/69 – 4ª feira . 11 de 11

Reunião Normal — 23/07/69 — 4ª feira

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A importância de termos a argumentação que prove que se deve admitir que venha a Bagarre e o Grand-Retour * Uma objeção: o fim da Revolução não traz necessariamente o Reino de Maria * Pela lei da justiça divina se torna necessário que a iniqüidade chegando ao seu cúmulo, haja uma punição antes de ela se destruir a si própria * Nosso Pai e Fundador acha muito frisante como expressão do Reino de Maria, as bodas de Caná * Sempre que se vê pessoas que na ordem da Providência devem participar de uma grande ação, a Providência espera muito e quase deixar passar o prazo para cumprir o que Ela prometeu * O que está acontecendo com a Bagarre? A Bagarre está tardando por culpa nossa ou por uma disposição da Providência para nos provar? * Nós devemos ter a convicção da inabitação da graça do profetismo em nós, e esse é o nosso mais valoroso meio de apostolado * O ódio que nossos adversários têm ao nosso Fundador é exatamente porque ele simboliza a vocação que tem, a vocação que é destinada a derrubar a Revolução * “É um dom de Nossa Senhora procurar muito a união comigo, e há nisso qualquer coisa de fundamental que é um toque, é a aurora do Reino de Maria”

* A importância de termos a argumentação que prove que se deve admitir que venha a Bagarre e que prove que se deve admitir que venha o Grand-Retour

A respeito das reflexões que eu tive oportunidade de fazer ontem à noite na Federação do Comércio, eu gostaria de dizer uma palavra que é no seguinte sentido:

Valeria a pena nós fazermos um esforço para que aqueles argumentos passassem para o conhecimento comum das pessoas do Grupo porque me parece muito importante nós termos argumentação que prove que se deve admitir que venha a Bagarre e que prove que se deve admitir que venha o Grand-Retour.

Um membro do Grupo que não admita a Bagarre e o Grand-Retour está em condições de não poder compreender nada do Grupo, e de nem sequer ter completamente o espírito do Grupo.

É natural, portanto, que nós procuremos inculcar essa convicção. Mas até aqui a nossa argumentação para efeito interno não apresentava ainda todo uma montagem metódica e nós éramos obrigados a apelar para a intuição das pessoas a quem nós nos dirigíamos. E naturalmente toda a argumentação que se baseie em vistas intuitivas é falha porque a pessoa pega ou não pega, e se não pega não tem remédio.

Agora, eu tentei dar exatamente ontem uma demonstração clara, em argumentos razoáveis de que nós devemos admitir esse fato: que vai haver uma Bagarre; e segundo fato que Nossa Senhora vai vencer e estabelecer o Reino d’Ela. Esses dois fatos eu tentei demonstrar.

E me parece portanto que para se conversar com os novatos, com as pessoas que se aproximam do Grupo, etc., essa argumentação é útil. De maneira que me pareceria interessante fazermos um esforço para colocar, não ficar numa conferência pairando no ar, mas colocar aqueles argumentos como moeda corrente dentro do Grupo, porque isto corresponde a uma necessidade comum do Grupo, da vida quotidiana do Grupo que é dar essa demonstração.

Por isto também eu pergunto se alguma coisa não terei deixado clara ontem, ou se algum dos senhores quer me fazer alguma pergunta sobre a matéria de ontem, porque então eu poderia terminar de elucidar nesses últimos minutos de reunião e assim o assunto ficar [por] assim dizer premeditado e julgado.

Algum dos senhores queria me fazer alguma pergunta sobre o que foi dito ontem, ou mesmo alguma objeção?

* Uma objeção: o fim da Revolução não traz necessariamente o Reino de Maria

(Sr. –: O senhor disse que o ciclo revolucionário, no seu mais profundo, é irreversível (…). Agora a finalidade era provar que a Contra-Revolução é irreversível. Agora, o que eu quereria objetar, o seguinte, o que se prova é que o ciclo revolucionário está chegando ao fim, mas não ficou claro como se prova a irreversibilidade da Contra-Revolução (…) viria o fim do mundo, é isto?)

Não, não. A argumentação propriamente é a seguinte:

A Revolução chegou ao seu fim, e é irreversível que ela chega ao seu fim, que outro ciclo se levante, não é verdade?

Quer dizer, o fim de um ciclo abre uma possibilidade, abre lugar normalmente para outro ciclo. Nós poderíamos dizer por exemplo o seguinte: enquanto o comunismo não foi gerado pela Revolução não é normal que apareça o Reino de Maria. O mal tem de chegar até o fim como o filho pródigo teve de chegar a comer as bolotas dos porcos. Então é a esse título que eu mencionei o fim da Revolução. Não sei se eu me exprimi bem?

(…)

O do ciclo que não pode acontecer a não ser por fruto, aliás o Evangelho diz, “a não ser que o grão caia na terra e apodreça, não nasce”, quer dizer é preciso então, segundo as regras comuns da Providência ─ não de acordo com o determinismo histórico, mas segundo as regras comum da Providência ─ é preciso que o fruto apodreça e morra para que a semente se liberte, não é verdade?

É preciso também que o ciclo revolucionário chegue ao seu fim e se destrua a si mesmo. Então prova-se que ele se destruirá porque a morte e a doença se destrói a si mesmo, é preciso então isso para que o outro ciclo, segundo as regras comuns da ordem do Universo e da Providência, possa nascer. Esta é a idéia.

(Sr. –: … )

É bem verdade. A questão é a seguinte. É que a Bagarre seria algo que sobreviria no momento em que Revolução estava chegando a seu termo para aniquilá-la e destruí-la mais depressa, não é verdade? Para liquidá-la e consumi-la, não é?

E ela entraria adequadamente nesse momento porque o ciclo estaria chegando a seu fim. Do contrário não haveria razão para a Bagarre intervir, porque a Bagarre deve respeitar a lei do ciclo.

* Pela lei da justiça divina se torna necessário que a iniqüidade chegando ao seu cúmulo, haja uma punição antes de ela se destruir a si própria

(Sr. –: Doutor Plinio, tem duas objeções que o professor Fedeli não tinha focalizado duas coisas. Uma é consonante que (…) que é necessária e outra coisa é o processo de iniqüidade desse processo. (…) Agora outra coisa que o professor Fedeli andou esquecendo (…) justiça divina.)

A justiça divina torna necessário que a iniqüidade chegando ao seu cúmulo, haja uma punição antes de ela se destruir a si própria, não é?

Quer dizer, ela não pode morrer, ela não pode morrer pela lei da justiça divina aplicada aos povos, ela não pode morrer como morre um incêndio consumindo-se a si próprio mas tem de morrer espancada, não é?

(Sr. –: …)

É, seria Deus quebrando esta coisa punitivamente, quebrando as nações revolucionárias punitivamente no fim de um ciclo e abrindo caminho para a instauração do Reino de Maria, não é?

Agora seria uma vitória porque durante a Bagarre as tropas do bem alcançariam uma vitória sobre as tropas do mal.

* Tudo quanto é humano é passageiro, o normal na ordem do universo é que tudo quanto é vida e movimento opere assim

(Sr. –: … da ordem natural das coisas este (…) de todo …)

Quer dizer, tudo quanto é movimento… O universo vive em movimento, não é?, não é um universo estático mas é um universo dinâmico. Nele você tem a vida e tem movimento, não é? A vida, aliás, é de algum modo movimento.

E tudo quanto é vida e tudo quanto é movimento segundo a ordem normal das coisas tem todas estas três etapas: nasce, chega a uma determinada plenitude e morre. Isto você encontra, está na ordem natural das coisas.

Você toma por exemplo uma moção, por exemplo, alguém que empurra por exemplo uma bola, não é verdade? ─ há o impulso, inicia-se um processo e esse processo chega até o momento em que a bola pára. Quer dizer, há um momento em que a bola recebe todo impulso. Depois há um certo momento que ela vai parando e acaba não se movimentando mais.

Você toma o quê?, o crescer de uma planta, a vida de um homem, de uma criança que se torna homem. O Evangelho, o Antigo Testamento, compara o homem com a flor do campo que de manhã floresce, e à tarde não existe mais, quer dizer, como um ciclo que se desenvolve muito rapidamente porque tudo quanto é humano é passageiro, mais tudo, o normal na ordem do universo é que tudo quanto é vida e movimento opere assim.

Escapa a esta regra precisamente ─ e este foi um ponto que eu não dei ontem por amor à brevidade ─ a Civilização Cristã. Por que a Civilização Cristã? Porque a Civilização Cristã baseada sobre a graça, Ela é tal que a menos que haja uma apostasia que é um fato sempre livre, Ela não está sujeita à lei da morte. Ela vai num crescendo que chegaria ao seu próprio auge, quando Deus quisesse encerrar o mundo, acabar com a história do mundo, fim do mundo, não é verdade?

Mas tirando a vida espiritual, a Civilização Cristã e as coisas da graça, tudo quanto vive e move na ordem da natureza e não da graça está sujeito a esta lei, habitualmente. Naturalmente a lei tem exceções.

Os homens muitas vezes começam a fazem um coisa e param, fazem outra. Depois o próprio Deus muitas vezes corta os ciclos, mas isso são exceções, a regra geral é que os ciclos se desenvolvam e cheguem ao seu termo.

Não sei se minha resposta responde a sua pergunta. Há mais alguma pergunta, senhor Aírton? Mário?

* O verdadeiro sentido de leis históricas é que há princípios da ordem natural das coisas que fazem que quando uma coisa corre de um certo modo produz necessariamente certos efeitos

(Sr. –: Doutor Plinio, então (…) o exemplo (…) não se aplicaria a Civilização Cristã, no sentido de que os fassures como “residuum” não puderam destruir esta sociedade sem a apostasia dos bons.)

Não. O residuum revertetum tem a seguinte aplicação: que fica sempre um resíduo, isso é possível. Porque a raça do demônio vai até o fim. E segundo é que embora não seja necessário que eles subam, a subirem eles voltam muito fortificados, muito fortalecidos.

(Sr. –: Doutor Plinio, isso é que é a lei histórica.)

Na medida que se pode falar em lei histórica, porque para quem não é determinista a expressão lei histórica só pode ser admitida com muito cuidado.

Porque uma lei biológica e sobretudo uma lei material, são leis no sentido próprio do termo, quer dizer, aquilo se aplica e se desenvolve nos animais e nas plantas. [Há] uma certa diversificação de movimentos mas se aplica cegamente. Nas coisas do homem, não.

O homem tem livre arbítrio e nós não podemos, portanto, dizer propriamente que as leis históricas no sentido de leis que obriguem a História a ser de um determinado modo. Mas há princípios da ordem natural das coisas que fazem que quando uma coisa corre de um certo modo produz necessariamente certos efeitos, não é isso?

Isso é que nós chamaríamos no sentido relativo, lei histórica. Por exemplo, o que eu acabo de dizer. Não há uma lei histórica dizendo que necessariamente os fassures levantam a cabeça depois. Mas há um princípio histórico, que está baseado na natureza das coisas que diz que quando eles levantam, levantam a cabeça com muito mais energia, isto é necessário, isso é livre.

Porque é claro que quem ficou comprimindo as suas potencialidade de ódio, e ficou resistindo contra graças enormes, evidentemente se tornou pior, e quem na sua maldade, depois de ficar pior ainda venceu os bons, cometeu um crime ainda maior. Está pior ainda.

De maneira que quando o mal que podia não se reerguer se reergue, ele necessariamente reergue mais forte. Você está vendo portanto a lei histórica como entra com matizes. Nem se pode propriamente chamar de lei histórica. São princípios da ordem natural das coisas que se refletem necessariamente na histórica. Não sei se eu responde bem. Frageli.

(Sr. Frageli: Doutor Plinio, essa argumentação para os demais, nós devemos dizer então que é uma lei da Providência…)

É uma lei na qual a Providência abre exceções. Mas que normalmente é uma lei da Providência.

(Sr. Frageli: A Bagarre será uma exceção).

Não, porque os ciclos terminam quando se trata de pecados de nações, os ciclos terminam na sova, porque como lembrava bem o Gomide, eu desenvolvi ontem, existe o castigo necessário para as nações na Terra.

De maneira que então o ciclo termina, mas em vez de terminar de sua morte natural, ele termina no espancamento. O Império Romano do Ocidente, depois do Oriente. Não sei se está claro, José Frageli. Tost.

(Sr. Tost: Doutor Plinio, de acordo (…) se chegar a um ponto extremo (…) em que uma vez completado (…) mundo.)

A perfeitamente. Podia ser.

* Como o anticristo vem no fim do mundo, então está profetizado que haverá uma decadência do Reino de Maria

(Sr. Tost: Agora é provável …)

A questão é a seguinte. Aqui depende da interpretação, não é? Para aqueles que acham como eu acho, que o anticristo vem por ocasião do fim do mundo, então está profetizado que haverá uma decadência depois do Reino de Maria, não é? Interpretação de profecia.

Para aqueles que acham que o anticristo não vem no fim do mundo, mas vem durante a Bagarre, pode-se admitir a hipótese de um auge do Reino de Maria, posterior a Bagarre e o anticristo, em que então o mundo termine numa espécie de apoteose. Mas isto mesmo só se poderia admitir em princípio, porque o Evangelho nos fala do fim do mundo, e fala como uma enorme punição. O Apocalipse.

De maneira que a gente vê que nem isso será verdade. Mas em princípio se poderia admitir. Daí o milenarismo, não é? Mas em princípio não seria absurdo que se desse.

Mais alguma pergunta, Díaz Vélez?

* Nosso Pai e Fundador acha muito frisante como expressão do Reino de Maria, as bodas de Caná ─ “Tu deixastes tuas melhores graças, teus melhores favores para o fim do mundo”

(Sr. Díaz Vélez: Isto que diz a Sagrada Escritura do período de vacas gordas e vacas magras, … se poderia aplicar a …?)

De algum modo sim porque todo ciclo é uma espécie de símbolo de todos os outros. E é uma espécie de símbolo da ordem cíclica do Universo. De maneira que de algum modo sim. O que eu acho que é muito frisante ao menos para mim, são as bodas de Caná como expressão do Reino de Maria, não é?

Ontem me esqueci, creio eu de dizer, eu estava muito cansado, e muito apressado, mas aquela expressão do [inaudível]: “Tu deixaste o melhor vinho para o fim”, aquilo em última analise quer dizer: “Tu deixaste as tuas melhores graças, tu deixaste os teus melhores favores para o fim da história do mundo”.

Eu disse isto? Aliás, sobre esta interpretação, eu perguntei a D. Mayer antes da reunião, e D. Mayer me disse que é uma interpretação legítima de caráter místico, mas legítima, que tem um valor hermenêutico: vem no fim do mundo.

Há mais alguma pergunta, pois não, Picanço.

* Sempre que se vê pessoas que na ordem da Providência devem participar de uma grande ação, a Providência espera muito e quase deixa passar o prazo para cumprir o que Ela prometeu

(Dr. Picanço: Que fatores (…) depende a proximidade da Bagarre? Fatores de todas as ordens, qual o mais importante, de que pode depender uma proximidade maior ou menor?)

Eu me perco nesse problema. Porque acontece o seguinte, que sempre que você vê pessoas que na ordem da Providência, que devem participar de uma grande ação ─ sempre não, muito freqüentemente, que devem participar de uma grande ação ─ você vê a Providência esperar muito e quase deixar passar o prazo para cumprir aquilo que Ela prometeu.

É uma regra freqüente. Você vê por exemplo, Abraão com Isaac, ele já estava tão velho que já não tinha eira nem beira ele ter filhos. Mas aí foi o milagre, um velho ter filho legítimo.

Ainda assim a Providência depois perguntou a ele, se ele estava disposto a matar o filho. O senhor está vendo o grau de confiança que é preciso ter.

Também São Joaquim e Santa Ana estavam velhos. E São Joaquim sentia uma certa vergonha, segundo conta Ana Catarina Emerich, de não ter filhos porque era um opróbrio entre os judeus. Dele nasceu Maria Santíssima. Assim a gente poderia encontrar na vida dos Santos, e em uma série de outras circunstâncias muitos exemplos dessa maneira.

* O Grupo não está maduro para a Bagarre. Porque? Porque levou um certo tempo para o Grupo ter a respeito do meu papel a visão que deveria ter e isso foi um retardamento

Então, o é que está acontecendo com a Bagarre? A Bagarre está tardando por culpa nossa? Nós ultramontanos? A Bagarre está tardando por uma disposição da Providência para nos provar? A Bagarre está tardando por alguma coisa que existe nos inimigos da Igreja? É muito misterioso o assunto. E eu quase não teria (…) resposta para dar.

Eu acho, entretanto, que o Grupo não está maduro para a Bagarre. Isso eu acho. E eu tenho tido ocasião de dizer a uns e outros que no momento, o fator mais dinâmico para o Grupo não estar maduro para a Bagarre é que eu noto da parte de Grupo uma espécie de atitude assim, para falar português bem claro: levou um certo tempo para o Grupo ter a respeito do meu papel a visão que deveria ter. O tempo que isto levou não deixou de ser um certo retardamento.

* Os membros do Grupo devem estar para mim como os pares de Carlos Magno estavam para Carlos Magno: participantes da glória de Carlos Magno, formando com Carlos Magno um todo só

Digamos que esta visão esteja um pouco mais ou menos esboçada, eu encontro, entretanto, uma outra dificuldade, que é a seguinte: os membros do Grupo, sobretudo os que são membros de cúpula do Grupo, eles devem estar para mim ─ e eu quando digo Grupo eu inclui Fidúcia e Cruzada ─ eles devem estar para mim pouco mais ou menos como os pares de Carlos Magno estavam para Carlos Magno. Quer dizer, participantes da glória de Carlos Magno, formando com Carlos Magno um todo só.

Eu não posso ser visto como naquelas montanhas do caminho de Teresópolis, que são montanhas assim: sai do chão sem ter nada em volta, perpendiculares ao chão, uma delas até chamam “Dedo de Deus”, porque dá a impressão de um dedo que sai perpendicularmente do chão.

Eu não posso ser visto assim: “Bem, está lá o Doutor Plinio, e depois em volta umas formiguinhas que se movem, e umas pessoinhas, e umas coisinhas”, isso não está de acordo com a realidade dentro da vida do Grupo.

Os membros do Grupo devem persuadir-se dessa participação. E sentir que eles foram tocados pela água do sobrenatural, que eles foram chamados para a vocação pessoal enorme, que certamente é participante da minha, não é uma vocação autônoma da minha, mas que participa.

E que lhes deveria dar uma compenetração de que vive neles uma espécie de santuário de Contra-Revolução o qual é uma espécie de prolongamento daquilo que há em mim, e que lhes deveria dar uma outra vivência, dia e noite, de que eles são heróis e os paladinos e os pares da Contra-Revolução.

Ora, isto não existe. Não sei se o…, se eu estiver errado, eu posso mandar vir um revólver, podem me dar tiros, eu os receberei com toda paciência e placidez, mas eu tenho a impressão de que nesse ponto nós estamos atrasados e carentes. E eu tenho a impressão de que isto atrase a maturação do Grupo.

Não sei se minha resposta responde a sua pergunta? Gonzalo.

* Nós devemos estar convencidos da dignidade de nossa missão e dessa participação, como um padre e um Bispo está convencido habitualmente, estavelmente, de que ele é um padre e um Bispo

(Sr. Gonzalo: Doutor Plinio, para ter esta compenetração, nós teríamos que ter confiança plena da participação, da compenetração com sua vocação, que deve fazer a pessoa do Grupo para…, o senhor pode dar umas normas gerais?)

A primeira coisa é rezar. E aumentar o quanto possível a devoção a Nossa Senhora. Porque Ela é Medianeira de todas a graças e isto tudo são graças que vem d’Ela, e sem pedir nós não obtemos.

Mas nós devemos nos convencer de que o que eu digo é tão claro e representa, sem ter nenhum conteúdo sacramental, nem de longe, porque o único sacramento que nós temos é o do Batismo, isto representa algo de tão consistente que nós devemos estar convencidos de nossa dignidade neste sentido, da dignidade dessa missão e dessa participação, como um padre e um Bispo está convencido habitualmente, estavelmente, de que ele é um padre e um Bispo.

De maneira que ele comunica uma dignidade episcopal, ou sacerdotal ─ ou pelo menos deveria comunicar, falando de um bom padre, de um bom Bispo ─ ele deve comunicar uma dignidade sacerdotal ou episcopal a todas as suas ações. Um Bispo quando toma banho, é Bispo.

Uma vez eu vi um Bispo apresentar-se a mim por um mau Bispo, simplesmente por esse fato. Ele me contou que pouco depois de ele se eleito Bispo, ser sagrado Bispo, ele começou a usar solidéu, naturalmente. E que ele se habitua então muito depressa ao uso do solidéu. Agora vem a narração: “Eu me habituei tão depressa, que eu já não sentia quando estava com solidéu na cabeça ou não, de tal maneira que pouco depois de sagrado Bispo, eu entrei no chuveiro e senti o solidéu cair no chão, quá, quá, quá, gargalhada”.

Esse homem não tem a noção de sua dignidade episcopal. Já está provado que não presta. Ele não devia ter sido sagrado Bispo. Por quê? Porque ele não tem… primeiro, um Bispo nunca conta que toma banho, não é verdade? Segundo lugar, ele nunca brinca com seu solidéu. Terceiro: ele não deve apresentar uma cena em que o seu interlocutor o imagine nu no banheiro com solidéu na cabeça, é uma coisa que um homem que se respeita, não faz. Um bom Bispo não faria nunca. É uma coisa evidente.

* Nós devemos ter a convicção da inabitação da graça do profetismo em nós, e esse é o nosso mais valoroso meio de apostolado

Bem, nós devemos ter a convicção dessa inabitação dessa graça em nós, nós devemos ter isto dia e noite. Como um padre e um Bispo tem da sua. A deles é um graça sacramental, de uma natureza inteiramente diferente da nossa, eu estou aplicando uma mera analogia, eu não estou identificando as duas situações, mas como analogia eu posso usar sem desrespeito para com o sacramento da Ordem.

Eu acho mais ainda. Eu acho o seguinte: que quando um membro do nosso Grupo ─ falemos dos três [Grupos] como se fossem um coisa só ─ quando um membro do nosso grupo está inteiramente compenetrado disto, algo há nele que irradia nos outros, nos de fora, e que causa nos de fora enorme atração ou enorme repulsa. Mas causa mesmo. E que é o nosso mais valoroso meio de apostolado.

* O ódio que nossos adversários têm ao Fundador é exatamente porque ele simboliza a vocação que tem, a vocação que é destinada a derrubar a Revolução

Na medida que eu possa, eu procuro quanto possível na minha pessoa, simbolizar isto. Eu procuro ter a consciência noite e dia da vocação que eu tenho.

E não tomar um copo de água, e não molhar uma vez um dedo numa esponja que não seja uma coisa movida pela idéia da dignidade que me compete. E eu tenho certeza que o ódio que os nossos adversários me têm, vem em grande parte disso. Porque através deste modo de ser, eles sentem algo que lhes causa horror, e que é exatamente o contato com a vocação destinada a derrubá-los.

* É uma manifestação de mau espírito dizer que a graça que temos é autônoma da graça de nosso Pai e Fundador

Ora, eu quisera, que a idêntica convicção dessa participação fosse viva nos elementos nossos. E há uma espécie de coisa assim: “Não, Doutor Plinio é tudo, faz tudo, mas nós não somos nada”, que é uma coisa errada.

São uma participação de mim mesmo, seria mau espírito dizer que a graça que algum dos senhores têm é autônoma da que eu tenho, é uma extensão daquela que eu tenho.

Mas essa extensão existe, e para ter noite e dia essa convicção, é uma coisa que multiplicaria o nosso Grupo por mil.

Bom, isto não quer dizer, que a gente deva imediatamente começar a fazer uma cara séria, fazer isso ou aquilo, e menos ainda me imitar. Essas coisas todas para serem autenticamente reproduzidas devem ser inspiradas e nunca imitadas porque essas coisas não têm cota de imitação, elas têm inspiração, mas à maneira ─ inspiração no sentido natural da palavra, não no sentido sobrenatural ─ bem, ela tem inspiração.

E eu digo mais, muito do meu modo de ser ainda é limitado, lixado, circunscrito pela necessidade de viver dentro do mundo de hoje. Porque meu modo de ser traduz uma série, traz uma série de velames, de véus para o mundo democrático de hoje não se assustar demais. Mas de fato, na ordem real das coisas, é assim que nós devemos ser.

Não sei se minha resposta responde a sua pergunta. Alguém mais quer me perguntar algo? Díaz Vélez.

* A atitude de espírito anti-igualitária traz consigo uma adesão filial e embevecida daquilo que é superior, uma aceitação fraterna daquilo que é igual, uma aceitação paterna daquilo que é inferior

(Sr. Díaz Vélez: Doutor Plinio, para o que devemos a graça de vir a São Paulo, e de compenetrarmos disso (…) pedir a graça dessa compenetração.)

Você sabe, acontece que as nossas doutrinas vão se explicitando ao longo do tempo, não é? Em grande parte na Comissão do MNF e em outra parte por elucubrações de caráter individual. Há aí uma coisa que eu não sei ainda explicitar, mas que é o seguinte:

Uma posição inteiramente anti-igualitária, uma atitude de espírito completamente anti-igualitária diante das coisas, traz consigo uma espécie de adesão filial e embevecida daquilo que é superior, uma aceitação fraterna daquilo que é igual, uma aceitação paterna daquilo que é inferior na ordem do lícito, e uma rejeição violenta, categórica, meticulosa, agressiva, daquilo que é ilícito.

Bem, há qualquer coisa no fundo deste estado de espírito que eu ainda não consigo explicitar bem, que ao mesmo tempo tem algo, é uma super-excelência da virtude da Fé, e ao mesmo tempo é uma super-excelência da virtude da Pureza.

E é esse algo difícil de definir, porque ainda não consegui explicitar, é este algo que é o toque de sino mais profundo dentro de nossa própria alma e que se tendo e se desenvolvendo, é como uma luz que vem de dentro para fora em nós e que nos dá toda atitude contra-revolucionária. Mas é uma coisa que eu ainda não sei exprimir bem o que é e como é que é. Isto é que se trata de pedir.

Quebrando restos de “democratice” ─ e eu falo da democracia não só como forma de governo ─ mas eu falo até sobretudo como complacência com as coisas vulgares e triviais, como os modos de ser banais, com o modo de ser ─ eu não sei se a palavra existe em castelhano, não sei como é que vocês traduziriam para o castelhano ─ chulo. Como é que se diria isto em castelhano? Existe? Chulo, é o vulgar, mas o vulgar mais degradado. Vulgar degradado, vulgar deteriorado. Que está tão freqüente em nossa democracia e que encarna e que penetra tudo.

* “É um dom de Nossa Senhora procurar muito a união comigo, e há nisso qualquer coisa de fundamental que é um toque, é a aurora do Reino de Maria”

Bom, há uma espécie de pureza a adquirir nesse ponto, que eu acho que é um dom de Nossa Senhora. Permitam-me dizer, mas num momento de expansão, é um dom também de se procurar muito a união comigo, e que aqui tem qualquer coisa de fundamental e que é o toque, é propriamente a aurora do Reino de Maria, é isto.

Mas infelizmente como vêm, eu não sei dizer e não sei se eu consigo exprimir a coisa. Vamos dizer, por exemplo, o seguinte.

O modo, a sem-cerimônia no trato de hoje em dia. O trato nosso aqui dentro do Grupo em comparação com o trato de hoje em dia, é um trato elevadíssimo.

Mas o nosso trato por mais elevado que seja, ainda não tem ─ é um trato correto ─ mas ainda não tem aquela positiva nobreza que o trato entre os cavaleiros católicos deveria ser. Não tem toda aquela plenitude de dignidade, aquela amplitude de fórmulas, aquela distinção de maneiras que deveria ter normalmente, e que não é uma distinção de salão, mundana.

É algo que o mundanismo copia, mas não é o mundanismo, mas é o sentir a sua própria nobreza, de filho de Deus, de batizado, de descendente dos cruzados, de continuadores na América de algo que é a nobreza histórica européia.

Nós temos até uma conferência sobre a nobreza na América. Eu dei esse o título de “Conferência à Nobreza Paulista”, porque naquele tempo o Grupo era constituído só de paulistas, por razões históricas de nascimento, paulista dentre os quais um paulista honorário, José de Azeredo Santos.

Bem, mas enfim, o fato concreto é que há qualquer coisa disso que mesmo entre nós deveria ser muito maior e não pode ser por causa desse sistema democrático de hoje que se nós formos nos tratar assim de repente quando a gente menos esperava dois alunos da Faculdade de Direito estavam fazendo tais mesuras um para o outro e era um estouro, não é possível, não é verdade?

Mas em espírito é preciso amar isto. Para usar a expressão de Nosso Senhor no Evangelho: “em espírito e em verdade” é preciso amar isso. Há qualquer coisa dentro disto que eu não consigo exprimir, mas que é a quintessência, é a aurora do Reino de Maria.

É uma dignidade cheia de força, uma força cheia de suavidade, uma suavidade por sua vez revertendo em fortaleza, uma distinção simplicíssima e distintíssima.

Mas que não é um simplicíssimo pobre, mas é o simplicíssimo das coisas que ainda tendo uma grande variedade tem uma porção de unidade, e aqui que está a verdadeira simplicidade.

É uma amenidade, uma calma, uma confiança na Providência, ao mesmo tempo uma previdência e uma força na ação, que tudo isso se reduz a um quid que eu ainda não sei dizer o que que é. Mas que evidentemente é algo ligado a virtude da Sabedoria.

E com isso eu respondendo a sua pergunta, como você vê, dessa vez de um modo muito pobre. Há mais alguma pergunta?

* Eu gostaria que os senhores vivessem na atmosfera que provém desta aceitação interior da excelsitude de nossa vocação

Bem, então vamos passar para as notícias do dia. Eu não sei se os senhores sentem, é tão, mas ao passar para as notícias do dia, cai qualquer coisa, como se fosse uma acha de lenha caísse no chão, não é? É porque nós mesmos sentimos que saímos de uma zona do pensamento que é iluminada por mil luzes e imponderáveis e que de repente entrando na gangrena, não é?

O que é que fez fulano? Tal fassur? O que fez? Por exemplo, os senhores ficam com vontade de dizer o que é que disse tal padre agora no momento, por exemplo, um caso do santificetus os senhores tem vontade de ouvir?

Não dá, quer dizer, é preciso, não é? Mas eu gostaria que os senhores vivessem na atmosfera em que estávamos a pouco, e que provém exatamente desta aceitação interior da excelsitude de nossa participação da vocação.

Isso é que eu gostaria que fosse o estado habitual. E que tivessem a coragem de descer como agora vamos descer (…) para as afirmações, as informações do que fazem os fassures, não é verdade?

Mas como as nossas reuniões seriam ideais, que pedaços de Céu seriam, se elas pudessem sempre desenvolver nesse nível que eu acabo de falar há pouco.

Que eu não fui capaz de explicitar, mas todos os senhores sentiram.

Isto é propriamente viver, o resto é arrastar-se, dentro de uma lama horrorosa, em que há uma luta, adquire méritos, mas se exaure até o último ponto.

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