Santo do Dia ─ 21/6/69 ─ Sábado . 6 de 6

Santo do Dia ─ 21/6/69 ─ Sábado

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Jornal falado sobre a intervenção da polícia em uma campanha diante da Igreja Santa Teresinha

* Jornal falado sobre a intervenção da polícia em uma campanha diante da Igreja Santa Teresinha

(Dr. P. Xavier: Doutor Plinio, o senhor quereria que se desse o jornal falado de Santa Teresinha?)

Ah, é verdade. O Sr. Muratori está aí para dar o jornal falado sobre a Santa Teresinha?

(Sr. Muratori: O Sr. Leo estava presente desde o início…)

Então, queira descer também, Sr. Leo.

(Sr. Muratori: Eu creio que o Sr. Leo poderia dar o começo da história.)

Então, como é que foi o começo da história?

(Sr. Leo Daniele: Mesmo antes da banca se instalar já começou a haver reação, ao contrário de todas as outras campanhas lá, já começaram a ouvir alguns gritos etc.

Apenas foi dado o brado, daquele prédio que estava atrás do local onde se tinha colocado o estandarte, numa das janelas saíram pessoas e começaram a gritar: “Fora, vocês não são católicos” ─ fazendo um berreiro muito grande.)

Isso é combinado pelos padres, evidentemente, isso é evidente, evidente.

(Sr. Leo Daniele: Ao mesmo tempo do outro lado, na frente da igreja os coroinhas todos em coro gritavam: “É mentira, é mentira!”)

Quer dizer que já sabiam que era esse o local que ia ser posto. Para já estarem adestrados e dizer que é mentira.

(Sr. Leo Daniele: Também no prédio nunca houve uma coisa assim tão [mal preparada?]. Logo os nossos slogans suplantaram os gritos deles e eles pararam de gritar. Mas eles atiraram bombinhas perto do estandarte e chegaram a atirar uma garrafa, embora fosse a uma distância de uns trinta metros de algum militante nosso.

Daí a pouco veio o Frei Tomás e disse que os slogans estavam prejudicando etc., para moderar, para não gritar slogans. Então, foi dito que ia se moderar os slogans durante a Missa… [inaudível] …ele disse: “É, é a única igreja em que nós permitimos que vocês façam campanha. Se os senhores não seguirem o que nós pedimos nós chamamos a polícia etc.” Aí foi respondido que não era verdade etc., e então foi embora.

Estava nisso quando chegou o carro da rádio-patrulha ─ isso foi mais ou menos uma meia hora depois do começo da campanha ─ e parou logo onde estava o Frei Tomás e começou a conversar com o Frei Tomás e depois eles vieram me procurar.

Então o sujeito disse: “O que está havendo?” Eu expliquei um pouco e ele falou pelo rádio com a central e eu procurei conversar um pouquinho com ele para ganhar tempo, porque era uma Missa só e já estava no fim da Missa. Então, procurei ganhar tempo o mais possível com ele para depois nos retirarmos e irmos para outra igreja e assim a coisa não teria efeito nenhum. E foi o que aconteceu, só que na hora em que terminou o trabalho, eu disse para ele: “Está na hora do pessoal ir jantar etc., nós vamos desmontar a banca.”

Ele disse: “Não, os senhores não podem desmontar, os senhores precisam esperar que eu vou dar comunicação à central”. E, então, ele falou pelo rádio com a central, a central mandou esperar um momento e depois disse o seguinte: que nós não podíamos sair e que ia passar por lá uma ronda, que ia logo para investigar o que era, etc.)

(Sr. Francisco Muratori: Dr. Plinio, aqui tem um detalhe que é o seguinte: nós estávamos falando com os dois guardas da rádio-patrulha e eles estavam, em nossa presença, se comunicando lá com o delegado de plantão e falava e insistia que a coisa estava solucionada, que estava presente a pessoa que estava dirigindo a movimentação e que estava tudo resolvido, etc., e o sujeito do outro lado insistindo em, não sei, querer detalhes ou coisa do gênero, entende?

Às tantas, o sujeito do lado de lá manda ele afastar a viatura a quinze metros, ou seja, afastar de nós, que ia dar instruções. Então, ele se afastou, ficou a uma certa distância e conversaram entre eles lá. Aí saiu o guarda que tinha ficado nos atendendo, que era simpático a nós, tinha apoiado a campanha, que nos conhecia e tinha sido simpático a nós, e disse o seguinte: Que era preciso esperar a tal ronda que viria. Aí o senhor disse que se podia, então, ele ficar e dispensar os outros para irem jantar, com o intuito de que o pessoal fosse para Fátima, onde estava programado.

Aí ele pegou e disse: “Não, não é possível, os senhores esperem um pouquinho só, um pouco de tempo.”

Nós insistimos um pouco mais na coisa, ele acabou dizendo o seguinte: “Bom, a questão é que eles deram ordem para deter a todos. Os senhores estão aqui, o senhor é um cidadão que estamos vendo que é muito cordato, vai cumprir inteiramente o seu dever, esperem só mais um pouco, eles aparecem aí, se resolve tudo. Depois, eles vindo, aí vão ver quem são os senhores, só a bandeira o pessoal do DOPS vai conhecer, e vai logo liberar, não tem problema, etc., etc.”)

(Sr. Leo Daniele: Esse mesmo policial dizia o seguinte: “Está havendo alguma coisa de esquisito, eu acho que estão querendo jogar a Força Pública contra os senhores, que alguém está querendo jogar a Força Pública contra os senhores”.)

(Sr. Muratori: Aí chegou mais uma rádio-patrulha depois chegou mais outra rádio-patrulha, chegaram três rádio-patrulhas.)

Esse delegado é o tal que falou depois com o Dr. José Fernando? Quem é que era? Essa pessoa nós devemos saber quem é. Quem é que era?

(Sr. Muratori: Deve ser do setor de controle das rádio-patrulhas, Dr. Plinio.)

Isso nós precisamos tirar a limpo depois.

(Dr. P. Xavier: Foi do mesmo lugar de onde partiu a [volta?] de interdição ontem da Martim, o setor da rádio-patrulha que mandou uma rádio-patrulha lá alegando que a Terceira Circunscrição, o Delegado da Terceira Circunscrição não tinha liberado, o senhor se lembra?)

Ah, sei, é verdade, é verdade.

(Sr. Muratori: Foram eles também, dessa central, que pediram que o DOPS fosse lá, segundo me informou o guarda. O guarda disse: “É, inclusive eles pediram que o DOPS viesse aqui”.)

Isso cai debaixo da jurisdição da Guarda Civil, é?

(Dr. P. Xavier: O controle…)

(Dr. Camargo: É a Segurança Pública, Dr. Plinio, o delegado auxiliar, imediatamente depende do Secretário da Segurança Pública.)

(Sr. Muratori: Eles estavam com a intenção de nos amarrar. Os guardas estavam meio sem jeito de fazer isto, porque viam que não tinha razão nenhuma para nos deterem ali. A gente via que eles tinham ordem por ter tido comunicação com os outros lá para nos segurarem o mais possível, talvez com o intuito de dificultar a campanha, não sei se era isso ou não.)

(Sr. Leo Daniele: O guarda repetia muito o seguinte: “Pois é, o denunciante não apareceu, inclusive o frei disse que não foi ele.” Ele repetia muito: “Se o denunciante não apareceu, por que deter essa gente aqui?”)

(Sr. Muratori: Aí chegaram as outras rádio-patrulhas. No final não sei se apareceu a tal de ronda.)

(Sr. Leo Daniele: Aí apareceu o DOPS.)

(Sr. Muratori: Apareceu mais duas rádio-patrulhas e chegou logo em seguida o DOPS.

Eu vi, não posso dizer com inteira segurança, que não só estava aquele carro do DOPS branco e preto, mas tinha uma outra perua que eu vi descer um deles, peruas que eles usam sem marca da polícia, disfarçadas, teriam talvez vindo nesse carro mas eu não posso garantir inteiramente.

Bom, chegou, desceram uns com aqueles cintos, com aquelas espingardas, e dois que vieram conversar conosco mais ou menos amigavelmente, queriam saber o que é que é etc. Verificaram, viram que não tínhamos autorização, não podia funcionar, que o melhor era recolher e que o Sr. Leo fosse até ao DOPS prestar declarações e tal.

E aí falamos que seria possível telefonar, que nós tínhamos conhecimento lá, o Dr. Alcides, Dr. Ferrinho, e que o Dr. Camargo é muito conhecido lá e tal, e eles estavam propensos, esses dois, a concordar em telefonar e assim resolver a coisa por aí, quando apareceu um sujeito que estava com uma malha azul, o senhor…)

Vi. Horroroso.

(Sr. Muratori: Esse sujeito veio furioso, com o rifle na mão etc.: “Não, vai todo mundo para o DOPS, não pode, eles não têm autorização, não têm nada por escrito, imagine!”

Mas, escuta, não há razão nenhuma para o senhor estar dizendo isto, nós estamos fazendo esta campanha, esse tipo de campanha…)

E ninguém precisa de ordem escrita para fazer uma coisa dentro da lei.

(Sr. Muratori: “Esse tipo de campanha nós estamos fazendo a vários meses, nunca aconteceu nada, o senhor pode ver.” E eles dando a idéia de uma ignorância completa, querendo dar idéia, a respeito da TFP, entende?

Um deles, às tantas, falou: “Ah, é aquela campanha contra o comunismo que os senhores pegaram assinatura?”

Eu disse que não era, que era uma outra etc., mas eles procurando ao máximo dar a idéia de que era uma coisa desconhecida, que eles não sabiam.)

Nunca tinham visto falar, ignorada na cidade.

(Sr. Muratori: Então, o sujeito disse: “Mas é impossível, nós recebemos comunicação de que havia aqui de frente a Igreja de Santa Teresinha uma multidão com vinte bandeiras…” Vinte?)

(Sr. Leo Daniele: Com uma bandeira.)



(Sr. Muratori: Não, ele falou várias, falou um número grande de bandeiras.

Com bandeiras vermelhas ─ não sei o que ─ por isso que nós viemos e tem que resolver.

O senhor está vendo que não tem desordem, não tem nada.

Não, mas é possível…

E ele se referiu, eu não me lembro o termo, talvez o Sr. Leo se lembre, um termo bastante pesado, apesar de não ser uma palavra de baixo galão, aos que estavam fazendo a campanha, aos que estavam vendendo o jornal. Até o Sr. Querelo estava perto, não sei se ele se lembra do termo.)

(Sr. Querelo: A pessoa de fato usou um termo maio pesado, e depois quando me viu disse: “Oh, desculpe, chefe, desculpe chefe”.)

(Sr. Muratori: Ele usou um termo desagradável, eu não me lembro agora o que tenha sido. A coisa estava assim, eles queriam… nesse meio tempo o Sr. Leo pediu ao Sr. Curi que viesse avisar o Dr. José Fernando para ele aparecer lá para poder ir ao DOPS, enfim, resolver a coisa.

E foi quando estava nessa discussão, nós procuramos ganhar um pouco de tempo, mas ele sempre insistindo muito, que essa história da bandeira vermelha, não sei o quê, é muito esquisito, e dando a entender que não conheciam nada, não sabiam quem nós éramos, o que é que estávamos fazendo, etc., etc.

(Sr. Rubens Ragazzo: Esse fulano que chegou com o fuzil na mão, perguntou: “Por que é que vocês não arrumam outra cor para a bandeira, fica essa cor vermelha?”

Eu falei: “O Coração de Jesus é vermelho, não é?”)

Respondeu bem.

(Sr. Rubens Ragazzo: [Inaudível] …não há motivo de… [inaudível] …aliás os senhores já conhecem a campanha, não é?)

Bem. E a tal senhora, quem é?

(Sr. Muratori: Pela lista, Dr. Plinio, no quarto andar daquele prédio mora uma tal Marli Meier.)

Bem, tem mais alguma coisa que acrescentar ou não?

(Sr. Muratori: O resto o senhor…)

É. Pois não. Talvez fosse interessante depois da reunião conversarmos sobre a possibilidade de amanhã irmos a este homem da rádio-patrulha conversar. Dizer que não tinha razão de ser…

(Dr. Eduardo: O senhor poderia contar a continuação?)

A continuação foi ao mesmo tempo confusa e complexa. Nós fomos com o Capitão Jarbas que foi logo falando com muita violência, que uma delegacia que se prezava deveria saber por que é que estava querendo prender, que não tinha propósito, não sei mais o quê, e eu acrescentei ─ como sendo capitão, naturalmente produz incertezas, não é? Depois eu disse que eu era o Presidente da Sociedade, e que eu protestava contra isso, que nossa atividade é uma atividade legal.

Aí aquele homem disse: “Não, mas afinal de contas os senhores não têm licença”.

Eu disse: “Não tenho e não quero ter, é uma coisa legal e eu não preciso absolutamente de ter licença para andar dentro da lei. Amanhã vão querer que eu peça uma licença escrita para andar de bengala, não peço, ainda que eu tenha que falar com o Presidente Costa e Silva em Brasília, eu protesto contra isso, não me sujeito, eu não estou de acordo.”

Agora, o Dr. José Fernando começou a falar que se dava com o Ferrinho, que se dava com outro delegado, que ia telefonar para o delegado, tudo isso o homem foi amolecendo, e fomos todos juntos para a sacristia, onde estavam sendo feitos casamentos civis numa sacristia católica. Bem, e tinha juiz de paz etc., fazendo o casamento civil lá, com uma cara de tenebrarum filiorum, podem imaginar. [Risos.]

Bem, e Dr. José Fernando… [inaudível] …lá. O conhecido do Dr. José Fernando acabou dizendo que não queria ter encrenca conosco, não foi Dr. José Fernando?

(Dr. Camargo: Ele disse: Não, não queria ter nada conosco e mandou aquele investigador, chamado Dirceu, que pedisse que nos dispersássemos, que ele mandaria de volta todas as quatro viaturas que estavam lá.)

Ah, então foi sob a condição de que nós nos dispersássemos, é?

(Dr. Camargo: Foi.)

Então, não foi uma vitória.

(Dr. Camargo: Não, foi uma… [inaudível].)

[Inaudível] … é que ele levou a melhor.

(Dr. Camargo: Não, mas esse delegado de plantão não é dos conhecidos, é delegado exclusivo do tal Dr. Quarts que estava de plantão.)

Sei. Ah, eu entendi que ele tinha dado licença para nós…

(Dr. Camargo: Ele não me disse que era para nos dispersarmos, o Dirceu… [inaudível] “…eu vou passar o telefone ao seu investigador que está aqui, porque nós estamos fazendo uma campanha, e fazemos sempre, e não há nenhum tumulto aqui na porta da igreja. Se você quiser eu vou aí conversar”.

Daí ele passou. E o Dirceu é que depois da saída, me disse: “Olhe, ele tirou o corpo e não quer nada com os senhores, mas os senhores vão dispersar que eu vou recolher o policiamento”.

Não sei se foi coisa dele ou se foi do delegado.)

É, o homem disse uma porção de coisas embrulhadas onde se via que a polícia não tinha nenhuma razão definida. Entre outras coisas ele disse que já era noite. Eu disse: “O que é que tem noite com isso? A liberdade à noite, liberdade religiosa, é qualquer hora do dia ou da noite, não é?”

Mas eu prevejo dificuldades. Bem.

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