Conferência
(Morro dos Pintos) – 14/6/1969 – sábado –
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Segunda reunião para o lançamento da campanha contra o IDOC e Grupos Proféticos (Morro dos Pintos) — 14/6/1969 — sábado
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Grupos proféticos II
Comunismo IDOC e “grupos proféticos”
Circunstâncias próprias à reunião de ontem me levaram a alterar um tanto o esquema de exposição; mas eu marquei com bastante clareza as várias partes do esquema, ao longo da reunião de ontem, de sorte que, os que se interessam, ouvindo novamente a reunião no gravador, vão notar bem a nervura da reunião, a arquitetura da reunião.
Eu ontem falei a respeito da campanha propriamente dita. Eu devo compor a reunião de hoje de duas partes distintas: numa delas eu vou preparar os senhores para a campanha, expondo-lhes com mais cuidado o que há a respeito dos grupos proféticos e do IDOC; que intenção eles têm, mais definida e mais estritamente, e que métodos eles usam para realizar essa intenção.
A razão de ser disso é, de um lado, para que os senhores compreendam melhor ainda quanto é péssimo o adversário que se trata de abater; e, de outro lado, para que os senhores estejam habilitados, durante uma discussão ou uma conversa, ou qualquer coisa – se bem que não se deva ter essa discussão nem essa conversa; deve-se evitar, porque é perda de tempo na rua estar discutindo – se os senhores forem tomados de improviso os senhores saberem o que responder; compreenderem que os senhores estão fazendo a campanha conscientemente e com toda a adesão de sua própria alma. Então, em razão disso, eu passo agora a expor a questão do IDOC e dos “grupos proféticos”.
Como o IDOC e os “grupos proféticos” visam utilizar a Igreja, transformar a Igreja, de obstáculo à expansão do comunismo em instrumento para a vitória do comunismo, todo estudo dos “grupos proféticos” e do IDOC deve ser precedido de uma pequena exposição a respeito da doutrina comunista. Tanto mais que sem essa exposição nós ficamos apenas nas idéias genéricas existentes a respeito do comunismo. E essas idéias genéricas, de acordo com o que se lê nos próprios livros de todos os autores comunistas, essas idéias genéricas são muito vagas e muito insuficientes. E se nós ficarmos apenas nessas idéias nós não compreenderemos adequadamente os “grupos proféticos” e os IDOC. Então vamos começar por alguma exposição do que é o comunismo.
Habitualmente se ouve falar de partido comunista. E o comunismo nos dá a impressão de um partido na clandestinidade ou não, mas que quer, como os outros partidos, ganhar as eleições, conquistar o governo e governar o país.
Esse quadro do comunismo é um quadro verdadeiro, mas é um quadro incompleto. Sem dúvida nenhuma, em todos os lugares onde o partido comunista existe, o objetivo dele é este. Nós poderíamos apenas esclarecer ainda que, dentro desse objetivo, existe também o de promover a guerra civil assim que eles possam, para apressar a conquista do poder. O comunismo então, considerado de um modo geral, ele é realmente uma organização política que visa a conquista do poder por meios legais e eleitorais ou por meios violentos, conforme as vantagens estratégicas que encontre à vista de uma determinada situação.
Mas o comunismo está longe de ser só isso. O comunismo nem sequer é principalmente isso. O comunismo é, antes de tudo, uma seita filosófica. D. Mayer pôs isso bem em relevo na Pastoral dele a respeito da seita comunista.
O que é uma seita filosófica? Uma seita filosófica é, antes e tudo, uma filosofia. Quer dizer, - o que é uma filosofia? – uma filosofia é, para simplificar muito as coisas, uma concepção do mundo, uma concepção do universo. O comunismo é, portanto, uma concepção do universo e do mundo. Seita filosófica é um conjunto de pessoas que se organizam para ensinar, para estudar, para aprofundar e para ensinar uma filosofia. Então uma seita filosófica é como que uma igreja. Mas uma igreja que não está constituída ao serviço de uma religião, mas está constituída ao serviço de uma filosofia. É, portanto, uma como que igreja onde não se cultua Deus, aonde não se cogita em revelação, aonde só se fala a respeito daquilo que a razão natural humana pode abranger, e está aparelhada para a conquista das almas como uma igreja está.
O principal objetivo do comunismo, como seita filosófica que é, não é a conquista do poder. O comunismo quer a conquista das almas. Quer dizer, ele quer persuadir a todas as almas de que ele está com a verdade. E ele quer o poder para, por esta forma, mais facilmente persuadir as almas. Quer dizer, o comunismo, portanto, não é um partido político, como a Arena e [Mdbe?] somente, que não tem filosofia nenhuma, que não visa conquistar a mentalidade de ninguém, que é uma máquina de servir interesses políticos – o comunismo é uma verdadeira seita, quer dizer, uma igreja sem Deus, para a propaganda de uma concepção determinada da vida.
Bem, essa seita filosófica, então, visa convencer todo mundo de sua doutrina. Essa seita tem um partido; esse partido é o partido comunista, mas esse partido está a serviço da seita, é um dos departamentos da seita; é o departamento político da seita; esse partido não se confunde com a seita. Ele é, por exemplo, como um braço pode estar para um corpo. É um instrumento do corpo para a ação, é uma parte integrante do corpo. Meu braço faz parte de mim, mas eu não sou meu braço. O partido comunista faz parte da seita comunista, mas a seita comunista é mais ampla, é maior do que o partido comunista, que é parte e instrumento desse todo chamado seita comunista.
Isso que eu estou dizendo aos senhores, como todas as noções – aliás, muito sumárias – que eu vou dar a respeito do comunismo, nesse ponto estão de acordo todos os comunistas. Em todos os livros – é uma coisa que não se discute – livros comunistas ou anticomunistas; é o B-A-BA nessa matéria.
Bem, agora, a seita comunista o que quer? Onde eles querem chegar? Qual é a concepção que eles têm do universo e como é que eles querem, depois, conquistar o universo?
A concepção que eles têm do universo é a seguinte. Os senhores terão ouvido muitas vezes falar por pessoas, ou terão ouvido essas pessoas falarem, pessoas que não acreditam em Deus; mas que quando falam a respeito do universo, empregam a palavra – para designar certa realidade existente no universo – empregam a palavra “a natureza”. Então eles dizem: a natureza é muito bem organizada; ela tem um equilíbrio extraordinário; a natureza faz coisas muito bonitas, etc. Elogio de toda espécie à natureza. Bem, essas pessoas, nós, na linguagem comum, chamamos de atéias. Por que nós as chamamos de atéias? Porque elas recusam, negam a existência de um Deus pessoal; de um Deus que não é nenhum de nós, que não está esparso entre nós, mas que existe para além de nós, numa esfera sobrenatural, aonde Ele é uma Pessoa infinitamente inteligente, dotada de uma vontade potentíssima, boníssima. Esse Ser que existe e que é imensamente superior a nós, essas pessoas negam. Bem, então, na linguagem corrente nós dizemos que este é um ateu. E a expressão ateu lhe cabe bem. Porque quem nega um Deus que seja uma Pessoa, é um ateu.
Mas na linguagem filosófica, na linguagem técnica dos filósofos comporta uma finura nesse ponto, em que a linguagem quotidiana não se pode dizer que seja errada, mas toma as coisas talvez um pouco sumariamente. Na linguagem filosófica, Deus não é necessariamente um Ser pessoal. Concebe-se, embora se saiba que não existe, uma Causa causarum, uma Causa de todas as coisas, uma força, uma energia, uma tendência, um ritmo que anima toda a natureza, e que os ateus chamam “a natureza”. Essa força, enquanto ela é uma causa de tudo, um governo de tudo, ela constitui uma espécie de Deus; mas que não é um Deus pessoal.
A natureza, conforme se costuma empregar a expressão correntemente por aí, a natureza não é inteligente, não é uma pessoa distinta de nós; ela é uma pessoa que se identifica com todas as coisas que existem. Se a gente vai dizer, por exemplo, se um ateu fala a respeito desse panorama, ele dirá: que lindo panorama” a natureza que fez, entende-se que essa natureza é uma forma ininteligente, é uma espécie de vida que está presente em tudo e que não existe separado de tudo, e que move todas as coisas. Se quiserem , será um fluido, se quiserem , será uma energia, será uma coisa assim.
Bem, esses que admitem essa natureza por essa forma, de fato, mais bem do que ateu, devem chamar-se panteístas. Por que panteístas? Porque eles admitem uma Causa causarum e neste sentido só da palavra, um deus – uma causa causarum, uma causa de todas as coisas, a qual existe dentro das coisas; está dentro das coisas como a seiva está nas árvores, como a seiva está em todas as plantas, o sangue está nos entes vivos; como o ar está na atmosfera. Não é? Esse ser é o que movimenta todas as coisas. E essa é a concepção comunista a respeito de Deus.
Bem, então o comunista pode, adequadamente ser chamado ateu. Porque afirmar a natureza assim, ou negar completamente a Deus, para efeito da religião, dá na mesma. Porque um deus assim não é nada. Ele se identifica com tudo.
Mas eu chamo mais uma vez a atenção dos senhores para a diferença que vai entre a concepção comunista, digo mal, entre a concepção panteísta, que é a dos comunistas, e a concepção católica.
Concepção panteísta: há uma causa causarum que está embricada em todas as coisas, que circula em todas as coisas, idêntica a todas as coisas.
Concepção católica: há uma Causa causarum, mas é um ser infinitamente superior a tudo quanto existe, existindo extrinsecamente a tudo quanto existe e fora tudo quanto existe, pessoal, ele é que é a Pessoa; nossas pessoinhas não são senão vaga-lumes em relação a esse Sol infinitamente inteligente, sábio, poderoso, santo, eterno, não foi criado por ninguém e não terá fim. Os senhores cantaram isso a pouco no Credo: Deum de Deo, Lúmen de Lumine, Deo vero, genitum, non factum, consubstantialem Patri¸ etc, etc,. É a eterna e insondável perfeição de Deus, fechado em Si mesmo, extrínseco aos homens que Ele criou e que Ele ajuda, que Ele ama, que… [faltam palavras] …
Bom, assim os senhores têm essa diferença radical e nós podemos passar a outra idéia dos comunistas.
Eles deduzem dessa primeira idéia, que é uma idéia, portanto, panteísta ou praticamente atéia, eles deduzem uma outra noção. E a noção é a seguinte: Para nós, católicos, nós sabemos que não só Deus é espírito e é Pessoa, mas nós somos alma e corpo e se nosso corpo é mortal, há em nós uma alma imortal que se separará de nosso corpo na hora da morte e que se reunirá por ocasião da ressurreição final, para participar da glória de Deus por todos os séculos.
Bem, agora, para os comunistas isso não é assim. Eles não admitindo um Deus espiritual, distinto da matéria – eles acham que tudo quanto nós vemos é matéria e que o tal deus do panteísmo é matéria também. É uma propriedade da matéria, é um estado da matéria, tudo quanto existe não é senão matéria. Agora, não sendo senão matéria tudo quanto existe, qual é o resultado? Os senhores tomem, nós aqui que estamos nessa sala. O que é que faz com que haja uma fronteira entre cada um dos senhores e eu? Entre cada um dos senhores? É a idéia de um espírito que nunca vai se apagar e que nunca se confundirá com o de ninguém, e fará com que nós sejamos nós por toda a eternidade. Eu vou ser eu por toda a eternidade, cada um dos senhores vai ser cada um dos senhores por toda a eternidade. Nunca um de nós vai ser o outro, por causa do ser espiritual.
Agora, os senhores tomem um comunista que não aceita isso. Ele acha que o homem morrendo, como o homem é só de matéria, se decompõe. Então o que acontece? É que nós, no fundo, não somos os seres fixos e indestrutíveis que parece, mas nós somos seres que não se diferenciam um do outro. Os senhores querem ver? Uma coisa que pode acontecer na ordem da matéria e que a ciência indica. Os senhores sabem que existe o fenômeno do turbilhão vital, e que nossas células vão continuamente se desgastando. E alguns cientistas calculam – pelo menos há anos atrás, quando eu li isso uma vez – calculavam que, exceto os casos que só apodrecem com a morte, o resto do homem se renova de 14 em 14 anos continuamente.
Agora, vamos dizer, eu estou aqui falando e estou movendo minhas mãos. Eu chego lá fora, vou andando pelo caminho, vou me movendo. Todos os senhores vão movendo, soltando parcelas de si. Porque todo homem está continuamente esguichando parcelas e recebendo parcelas pela respiração, pela alimentação, etc, etc. Bem essas parcelas se esparramam pelo chão. Passa um frango e come um tanto dessas parcelas. Um de nós que come o frango, não comeu o outro? O problema é cômico. Se os senhores quiserem, o problema é ridículo. Mas o problema, de dentro de olhos materialistas, existe. Ele é real. Esse, aliás, é um problema trágico. Mas ele é assim.
Agora, se eu comi o frango que estava cheio de parcelas de outros, no que é que eu não sou os outros? No que é que eu não sou o frango? É evidente. Os senhores tomem – eu vou dizer uma coisa baixa, mas para os senhores verem, exatamente, o baixo de tudo isso – os senhores tomem um homem; um homem produz adubo animal; um animal come aquele adubo, come uma planta nutrida com aquele adubo; ele comeu algo daquele homem. Outro homem come o animal, ele comeu o adubo que o outro homem produziu. Por via química de continuidade, é isso.
Os senhores estão compreendendo que, então, em nossa vida, há coisas que hoje são extrínsecas a mim e que amanhã vão ser eu. E há pedaços de carne que hoje são eu e amanhã não são mais eu. De mim, só há de fixo o meu esqueleto. Agora, ou eu concluo que meu esqueleto sou eu, ou eu devo concluir que eu sou um conjunto estável de coisas que mudam. Eu devo concluir de mim que a muralha que me separa dos outros não é uma muralha real;que eu sou, em relação ao oceano dos outros homens e dos outros seres que existem, como no mar, quando de repente bate um vagalhão e uma gotinha se desprende do mar; depois ela volta a ser mar de novo porque cai dentro do próprio mar. Quer dizer, eu não sou nada. Aquela gotinha o que é? Imagine se aquela gotinha fosse capaz de pensar e olhasse de cima o mar e dissesse: eu não sou o oceano Atlântico. Nós daríamos uma gargalhada: você é o Oceano Atlântico. Você saiu dele, você volta para ele, você é feita dele. Deixe de ser boba. Gota idiota.
Bem, cada homem enquanto tal, não é senão um corpúsculo, não é senão uma gotinha desse mar de matéria que está continuamente se agitando.
Os senhores dirão: Mas o esqueleto? Bem, o esqueleto é apenas um pouco mais fixo do que o resto. Quando chegar a hora da morte, acabou-se. Planta-se junto a uma sepultura uma trepadeira. Decompõe-se o esqueleto e a trepadeira chupa a parte do esqueleto, dá numa rosa. Como, viro uma rosa. Não é isso. E todos os senhores sabem que é isso. É apenas a falta de coragem de raciocinar a respeito do fato.
O comunista raciocina. Nós não temos a coragem de aprofundar essa humilhação que há e a salvação que é a idéia de que depois de uma vida de luta, depois de uma vida de virtude, de dedicação, de sabedoria, o cristão não vira rosa. Tanto mais que pode virar rosa, mas pode virar nabo, pode virar cenoura, ou pode virar tiririca; como pode virar porco. Porque pode ser que um corpo coma alguma coisa que sai de dentro de uma sepultura, então vira porco. Quer dizer, tudo é possível. É a idéia de uma alma mortal que faz de nós pessoas.
O que é a pessoa? A pessoa é um princípio espiritual, eterno, inconfundível com tantos outros, inconfundível com o próprio Deus, e que ficará eternamente; e que está ligada à matéria, no caso do homem, de maneira tal que a matéria forma um todo extra matéria com a pessoa. E na ocasião da ressurreição dos mortos, ressuscitará o corpo do homem, quer dizer, o seu princípio biológico, animado por seu princípio espiritual, com algo da matéria que fez parte dele, e que integrará o corpo dele, que vão ser o próprio corpo dele, portanto, por toda a eternidade. Isso é propriamente, o homem.
Bem, os senhores compreendem a conseqüência que vai dessa concepção filosófica a respeito do homem, para a concepção política, econômica e social. Porque se eu tomo em consideração que eu tenho uma alma imortal, eu posso falar de direitos meus. Porque existe uma coisa chamada eu, que não é uma ilusão. Sou eu. Eu Plinio Corrêa de Oliveira, imortal, espiritual, batizado, remido, amado e, pela misericórdia de Nossa Senhora, se Ela quiser, como eu creio que quererá, salvo.
Bem, isso sou eu. Agora, se o espírito não existe, não existe um eu. Como não existe aquela gotinha do Atlântico como uma coisa estável. Então, não existem direitos do indivíduo, mas existem direitos comuns, dos indivíduos. Direitos da natureza, direitos da humanidade, que é a ponta da natureza, a parte mais evoluída da natureza. A humanidade tem direito, porque ela é a fina flora da natureza. Mas o resto não tem direitos. E eu, em face da humanidade, não tenho direitos. É claro. Meu direito supõe a palavra eu, porque sem eu não há meu. E como sem espírito não há eu, só o Estado que representa a humanidade – tanto mais que eles querem um só Estado para o mundo inteiro, uma republica universal. Só o Estado é que representa, propriamente direitos, tem direitos. O resto, ninguém tem direitos. Então o direito de propriedade não deve existir; porque é um direito individual, que vincula uma coisa a mim. O direito à família não deve existir, porque é um direito individual que vincula a mulher ao homem e os pais aos filhos. A partir do momento em que nós negamos a existência do eu, o meu direito não existe, a propriedade não existe, a família não existe e nada existe. Quer dizer, então só o Estado tem direito, o Poder Público é que tem direito. Isso é a expressão imediata do comunismo.
Para a doutrina católica, ao contrário, eu tenho direitos até contra o Estado. Porque se o Estado não me criou, o Estado não me salvou, o Estado é uma associação útil para mim, que deve me ajudar como eu devo ajudar o Estado. Mas há direitos meus que o Estado não tem direito de violar. Por quê? Porque eu não me confundo com o Estado. Eu sou outra coisa que o Estado. No comunismo, pelo contrário, eu me confundo com o Estado, eu sou a mesma coisa que o Estado; eu sou um corpúsculo do Estado, eu sou um grão de areia dentro desse imenso mar, que é a sociedade humana, que é o Estado.
Daí os senhores compreenderem como o nosso lema, Família, Propriedade supõe uma filosofia e uma teologia oposta ao comunismo.
E a Tradição? Tradição também. Por quê? Porque o comunista nega a tradição. O que que é a tradição? Tradere, em latim, é transmitir; a tradição é algo que se transmite de uma geração para outra. Algo de fixo, de imutável, que todas as gerações transmitem de uma para outra, como um valor enorme de ordem terrena ou sobrenatural. Isso é tradição. Para os comunistas não existe tradição; existe a evolução. A evolução é uma perpétua modificação das cosias na natureza, por onde acham eles que a natureza está sempre destruindo o que ela construiu, e por onde ela está sempre construindo um futuro diferente em tudo do passado; e onde ela tende a construir de futuro algo que nós não podemos nem de longe imaginar.
Então, diferença entre nós e eles: nós afirmamos: de fato, há uma perpétua mudança na natureza, mas em torno de coisas fixas. Algo na natureza é fixo, é estável. Nas sociedades humanas há valores culturais, há princípios morais que são eternos, que são estáveis; e ao lado de muita coisa que muda, há o resíduo que não muda: é a tradição.
Para os comunistas, não. Tudo muda. Nada é eterno. Tudo é variável. O dia de hoje foi inimigo do de ontem, porque destruiu tudo do dia de ontem; o dia de amanhã é inimigo do dia de hoje porque tende a destruir tudo quanto há hoje. Quer dizer, há um completo conflito entre todas as coisas, dizem eles, e há um caos universal, uma luta universal. Nós dizemos: não. Há lutas e há conflitos. Mas por cima das lutas e dos conflitos, há uma ordem universal, há uma continuidade universal, há uma tradição universal.
Os senhores estão vendo, portanto. Tradição, Família, Propriedade como é completamente o contrário do que os comunistas querem.
Bem, agora nós vamos adiante e vamos estudar as conseqüências dessa impostação comunista para o que diz respeito à alma humana. A concepção comunista lisonjeia todas as paixões humanas, mas especialmente duas que são paixões das piores: o comunismo lisonjeia o orgulho e lisonjeia a sensualidade. Por que ele lisonjeia o orgulho? Porque ele é profundamente igualitário.
Quando nós vemos, por exemplo, um Einstein, um materialista célebre, que manda que o cérebro dele seja tirado da cabeça dele e seja analisado por um laboratório dos Estados Unidos que ele indicou – ele deixou isso em testamento – para ver que composição tinha esse cérebro para saber qual era o segredo da inteligência dele; então o homem mais inteligente, não é senão um homem que tem uma víscera, ou tem uma massa encefálica mais perfeita do que o outro.
Então há tanto mérito em ser mais inteligente , quanto em ter uma vista muito boa, por exemplo; ou quanto ter, por exemplo, braços possantes, ou ter um olfato muito fino; quer dizer, em ser um animal de categoria. Em última análise é isso. É um animal de categoria que pode, quem sabe, ser produzido num laboratório pela inseminação artificial; e em vidro até, por inseminação artificial; por cruzamentos etc, como se faz com gado. Quer dizer, todo o valor desaparece. De que importância tem, eu mandar em alguém? Por mais que eu mande em alguém, eu nunca serei senão algo de precário, de instável, que se dissolve e morre. Amanhã eu vou ser porco, eu vou ser cabo de enxada, eu viu ser galinha, eu vou ser qualquer outra coisa. Imaginem que eu fosse César. Como é que um materialista olha para César? Carregado no alto de um escudo, aclamado pelas multidões? Ele pensa o seguinte: Amanhã esse César cai assassinado, e ele vai para o cemitério. Ele vai servir de adubo para a terra. Então ele não é senão adubo no estado de equilíbrio precário.
Houve um francês que definiu a saúde do homem como um estado precário que termina mal. Ele tinha toda razão. Nós poderíamos dizer que um homem vivo não é um homem, não é senão matéria em estado precário, que vai terminar mal. Porque se alguém não o assassina, são as coronárias, ou é um câncer, ou são as coronárias, ou é um câncer, ou desastre de automóvel que assassina aquele homem. Está acabado. Quer dizer, ninguém é nada, a partir do momento em tudo é matéria.
E essa organização social que eles querem, inteiramente planificada, sem nenhuma elevação, sem nenhuma estrutura, sem nenhum cargo, nenhum poder, é bem exatamente a representação desse mundo amorfo, desse mundo feito só de matéria, desse mundo incompreensível, incognoscível no fundo, ao qual nós temos a desgraça – segundo a concepção comunista – de pertencer.
Então, o homem, profundamente orgulhoso – os senhores encontrarão a explicação disso na RCR: como é que um homem orgulhoso de tão orgulhoso, pode não querer nem mandar, para não ter quem possa vir a mandar nele algum dia; a existência do mando faz mal ao seu orgulho; eu não vou entrar nessa explicação porque está na RCR – então, o homem orgulhoso se deleita com a explicação comunista das coisas. O homem sensual também. Porque o pan-sexualismo é o corolário natural do comunismo. A moral do galinheiro é a moral dos comunistas. E é o que está escrito nos livros comunistas.
Ainda na última quarta-feira, na “Folha” eu transcrevi na revista comunista que diz exatamente isso: que o casamento não é nada. Que o homem deve coabitar com a mulher na medida em que os dois têm amor. Acabado o amor, acabou o casamento, acabou a união. Ora esse amor o que é que é? É a atração do homem pela mulher; em termos de materialismo, é a atração do macho pela fêmea; em termos concretos, é do galo pela galinha. Quer dizer, é a moral do galinheiro. Bom, essa concepção comunista deleita o tipo sexual, o tipo depravadamente sexual, que fica, naturalmente, hipnotizado com a idéia de poder satisfazer todas as suas aspirações sexuais.
Bom, agora dizem os comunistas o seguinte: que não e trata apenas de provar que Deus não existe. Eles nunca conseguiram provar que Deus não existe. Eles não só conseguiram provar que Deus não existe, mas eles não conseguiram provar que as provas de que Deus existe são falsas.
Bom, mas o comunista com essa mentalidade igualitária tem ódio da idéia de um Deus infinitamente superior a ele. Ele não quer que esse Deus exista; lhe causa mal, lhe causa irritação, ele se sente dominado por esse Deus. Ele então dirá que esse Deus não existe e, de acordo com o lema existente na Sorbonne durante as agitações de maio do ano passado, em Paris – os comunistas marcusianos sustentam esse lema – estava escrito o seguinte: - não era um lema, era um cartaz; uma espécie de um cartaz com um slogan – “Se Deus existisse, seria preciso eliminá-LO”. É o brado supremo do orgulho. Inquieta-me tanto, me causa tanto ódio que exista alguém tão infinitamente superior a mim, que se ele existisse era preciso eliminá-lo. O comunismo é uma revolta que visa, em última análise, eliminar o próprio Deus, se possível for.
Bem, a partir dessa idéia, os senhores têm então a concepção do igualitarismo, como a idéia básica do comunismo; a concepção do liberalismo como a idéia básica do comunismo. Cada um deve poder fazer o que quiser; cada um, de outro lado, deve não ter chefe nenhum, deve ser inteiramente independente; o mundo deve ser como um galinheiro sem galo.
Bem, por isso mesmo os comunistas sustentam o seguinte:que por enquanto tem o Estado, o poder público. Mas que virá um dia em que o poder público vai de deixar de existir. Em que a humanidade vai progredir tanto que não haverá mais governo. E os homens todos, uns em relação aos outros, vão viver como os bichos no campo; mas sem se combaterem, porque todas as lutas terão cessado. Eles vão viver como os bichos do campo, eles vão por causa disso, não ter governo, não ter autoridade.
Esse período de ditadura que está na Rússia, os autores comunistas chamam de período provisório da ditadura do proletariado. E a divisão que existe entre os comunistas marcusianos e os comunistas não marcusianos está nisso. É que os comunistas marcusianos acham que já chegou o momento de declarar extinta a ditadura do proletariado e de demolir o Estado; enquanto os comunistas russos querem ainda por algum tempo conservar o Estado.
Mas a anarquia completa é para eles o ideal. An - árquico, quer dizer, sem árquia, sem autoridade, sem poder. Bem, isso é para eles o ideal para o qual devem caminhar. E eles dizem que a evolução é tal que haverá um momento e que os homens poderão viver assim, sem autoridade. Não vai ser a desordem, segundo eles; não vai ser o pandemônio. Vai ser uma liberdade completa.
Agora, dizem eles, então que é preciso eliminar a idéia de Deus e que essa idéia que é preciso eliminar é preciso eliminá-la na sua fonte. Então dizem eles o seguinte: não basta falar a favor do ateísmo. Mas dizem eles: enquanto houver – e essa observação deles, por paradoxal que seja, é estritamente tomista, está estritamente de acordo com S. Tomás de Aquino, nos termos que eu vou dizer daqui a pouco; eu vou dar a formulação comunista, depois eu vou dar a formulação de S. Tomás de Aquino – bem, enquanto houver um homem mandando no outro – seja a que título for: como papa, como padre, como bispo, como gerente de fábrica, como policial, como pai, o que for – enquanto houver um homem mandando no outro, haverá uma superioridade que faz pensar em Deus. Porque quem obedece a alguém, é levado a perguntar: depois desse, o que é que tem? E projetar, a partir dele, a idéia de Deus. Então, dizem eles, para que a idéia de Deus nem possa nascer na cabeça do homem, é preciso fazer a igualdade completa; a igualdade completa é substancialmente atéia.
Então, os senhores passam dessa concepção para a tomista. São Tomás de Aquino disse: Deus criou o mundo com seres desiguais, e fez com que os seres que exercem autoridade sobre outros sejam as imagens de Deus para os outros, e ajudem os outros a elevarem o espírito até Deus. Então, São Tomás e Marx coincidem na idéia de que a desigualdade sugere o conceito de Deus. Apenas São Tomás aceita a desigualdade por isso; os comunistas a querem eliminar por isso. Mas eles coincidem nessa mesma idéia. Quer dizer, a hierarquia, a autoridade, a desigualdade, o mal.
Para nós darmos mais um passo na compreensão da doutrina comunista, nós precisamos considerar o seguinte: porque os comunistas têm essa mentalidade e porque eles querem acabar com todas as desigualdades, eles querem acabar com tudo aquilo que é “sacral”, tudo aquilo que indica uma idéia de religião e indica uma ordem sobrenatural acima da natural. Então, tudo quanto é culto, tudo quanto é hierarquia eclesiástica, quanto é sacramento por onde uma coisa sobrenatural se difunde dentro dessa ordem natural em que nós estamos, tudo isso eles odeiam, tudo isso os irrita porque é superior a, porque é desigual a, porque indica coisa extrínseca em relação à matéria, não material; o espírito enquanto superior à matéria, eles odeiam, não existe; o espírito não é senão um estágio da matéria. Então, toda “sacralidade” é odiada por eles, toda hierarquia odiada, toda sacralidade é odiada.
Bem, por outro lado eles consideram que todas as histórias – a História Sagrada, como as narrações das outras religiões – contando que Deus apareceu, que Deus falou, que Deus fez milagres, etc, não são senão mitos; e as histórias dos santos que fizeram milagres não são senão mitos também. Quer dizer, mitos como os da mitologia grega e romana: Zeus, Júpiter, Apolo e outros facínoras do gênero, tudo isso é invenção dos homens. Eles dizem: é verdade. Mas também Jesus Cristo, e o Deus do Antigo Testamento, e os milagres praticados pelos santos, tudo isso, podem ter existido esses homens; eles inventaram que existia esse Deus, eles inventaram esses milagres, eles me enganaram na interpretação dos fenômenos da natureza. Mas a verdade verdadeira é que são mitos, e que não existe senão o material, “dessacralizado”, naturalizado, desmistificado… [faltam palavras] …Essa é a concepção deles.
Agora os senhores estão vendo a extraordinária dificuldade do trabalho que eles querem fazer: eles querem fazer com que essa mentalidade, que é o oposto da doutrina católica, entre dentro dos meios católicos e convença os católicos. E mais: eles querem fazer isso tão escondido quanto puderem, quanto o puderem; porque se forem fazer às escâncaras, um católico rejeita.
No tempo do Getúlio, em relação ao qual havia o mito de que ele era extremamente hábil, se disse uma vez que ele era tão, tão hábil, que ele sabia tirar a meia sem tirar o sapato. Realmente, é o sumo da habilidade! A gente compreende que em condições ultra pré-fabricadas: um sapato enorme, uma meia fina, um pé pequeno e um homem extraordinariamente hábil, seja possível tirar a meia sem tirar o sapato. Mas é só assim. Essa manobra que eles querem fazer, de entornar dentro da Igreja Católica, esguichar para fora a doutrina católica e entornar dentro dela o contrário, é uma coisa mais difícil ainda do que tirar a meia sem tirar o sapato. Eles precisam, portanto, adotar um processo – e esse processo eu vou explicar aos senhores agora – um processo para chegar a realização de seus fins.
Bem, então eu faço o resumo da conferência até agora: eu falei até agora a respeito do comunismo; tive ocasião de mostrar aos senhores o que é que o comunismo quer; tive ocasião de mostrar o que o comunismo quer como filosofia, depois como programa social e político, depois mostrar aos senhores como esse programa social e político fica indispensável para a vitória da filosofia deles, porque se houver desigualdade, a filosofia deles não vence.
Agora,então vou mostrar como é que eles estão entrando, e passo de ladrão, dentro da Igreja Católica. Depois eu vou falar do IDOC e dos “grupos proféticos” e o panorama fica claro.
Para um comunista, ele não compreende bem que ele não pode de uma vez só transformar os católicos em não católicos e que ele tem, portanto, que ir delicadamente, fazendo um trabalho de limar as arestas dentro dos meios católicos. Vamos dizer, por exemplo, um comunista que se faz de católico e que se põe nos meios católicos, ele nunca dirá aos católicos: Deus não existe. Mas quando os católicos começarem a falar em Deus infinitamente poderoso, santo, etc, etc, etc, ele não dirá, não; mas ele faz uma pequena transição. Ele dirá: é verdade! A obra prima que é a natureza, feita por Deus. Porque eles não e incomodam para mentir. A obra prima da natureza feita por Deus. O católico, inocentemente, diz: é verdade. Eles vão e dão uma porção de dados sobre a natureza de tal jeito que a natureza faz tudo. Diz ele: veja a força da natureza como se metamorfoseia; tal bicho tem tal cor assim nos Alpes; depois que ele vai morar na Austrália, tal sábio assim mostrou que a pata dele fica menor e acontece não sei o que. E começa: a força da natureza, a beleza da natureza, natureza, natureza, daqui a pouco o homem não está mais pensando em Deus, está pensando na natureza. Ele ainda reza. Mas o comunista diminuiu a faixa de atenção que dentro daquela mentalidade se deve a Deus e aumentou a faixa de atenção que se deve à natureza. Ele não fez um ateu, mas ele preparou remotamente aquele espírito para se “ateizar”.
Segundo passo, numa conversa: ele diz: é elogiam muito milagres, etc – eu não quero dizer que não existam milagres, eu respeito muito a crença de todo mundo – os senhores estão vendo a coisa dissolver-se: se todas as crenças são verdadeiras, todas são falsas – eu respeito muito as crenças de todo mundo; acho que nós, católicos, precisamos respeitar muito as crenças de todo mundo. E o pobre… [faltam palavras] …concordando. eu acho entretanto, que a natureza é uma coisa tão admirável, que muitas coisas atribuídas a Deus por meio de milagres, de fato, ele fez por meio da natureza. Olhe Moisés batendo com o pau em cima da pedra e saindo água, existe uma varinha no deserto que chupa água – e ele inventa , porque inventam contos de carochinha e todo mundo acredita – e atribui à ciência; o maná – ah, um livro chamado a “Bíblia tem razão” está cheio de explicações assim: a natureza fez tudo.
Já o homem no subconsciente começa a dizer: Bem, então nessa pilha de milagres, uma parte é engano. Se uma parte é engano, eu não tenho certeza do todo. Se eu não tenho certeza do todo, existe milagre? Os senhores estão vendo que ele já desmoralizou, ele já conquistou mais um passo.
Bem, num outro passo ele dirá: bom, nós queremos espíritos esclarecidos, superiores, nunca vamos dizer isso – você e eu – os senhores compreendem a consolação para o que está ouvindo – você e eu, que somos espíritos superiores – este percebeu quem eu sou, os outros não perceberam; este aqui percebeu quem eu sou. É bem a definição, é meu nome. Espírito esclarecido e superior. Como ele é bom! É meu amigo. Eu encontrei o homem que me guiará na vida.
Bem, então, nós que somos espíritos esclarecidos e superiores vamos dizer: a Igreja não é propriamente infalível em reconhecer milagres. De fato é para muitos e não há para outros; é toda um questão complexa. Não haverá santos que a Igreja canonizou com base e milagres que não houve? Há teólogos que discutem, qual é verdadeiramente o poder da Igreja na canonização. Depois, não haverá muitos santos que não existiram e que têm esse nome. Santos duvidosos? Não valerá a pena cassar uma boa metade deles? Cassados uns, o que fica dos outros? Não sei se os senhores compreendem como por essa forma, gradualmente, um espírito por uma longa evolução, pode ser levado ai ateísmo.
Também igualdade completa. A gente chega e diz para alguém: Como Jesus Cristo era bom…Olhe como Ele nos amou. Ele amou os pecadores. Ele declarou que Ele veio salvar os pecadores e não os justos. Ele, de fato, não faz diferença entre o pecador e o homem bom. Isso é falso, porque nada disso tem esse sentido. Mas, superficialmente, pode se apresentar assim. Bem afinal de contas, toda essa história de moral para Deus que é infinitamente sábio, será, tão severa quanto é para nós homens e nossos pequenos julgamentos humanos? Será que o inferno não está vazio?
O grande Cardeal Billot afirmou que nunca um homem foi para o inferno. Então nunca irá. Será que Deus faz tanta questão do bem e do mal? Da verdade e do erro. Ele não é todo amor, Ele não é todo misericórdia? Essas autoridades severas que há aqui não deveriam ser rebaixadas, aplainadas, tudo isso não é orgulho humano? A autoridade, em si, não é uma coisa que induz ao orgulho? Como seria lindo um dia – eu sei que não haverá – em que os homens poderão viver sem autoridade, na fraternidade da liberdade e da igualdade; como será lindo esse dia! Você não acha que será lindo? O bobo suspira. Seria lindo, mas a questão é que isso não existirá. Ele diz: não, mas não vamos cogitar disso. Vamos imaginar como seria bonito. Quando ele injetou bem isso no bobo – Será que não existirá mesmo? Ah, quem sabe… Está preparado o anarquista. Por ditos, por modos indiretos, há meios de levar uma porção de bobos, por deformações da doutrina católica, para se fazerem anarquistas, igualitários completos, etc, etc.
Bem, isso tomou, esse programa supõe o IDOC e os “grupos proféticos”. Uma máquina – “os grupos proféticos” – que prepara secretamente as pessoas imbuídas dessa doutrina, e que ensina a elas uma técnica por onde aos poucos elas vão passando as pessoas para o pólo oposto; uma técnica para se infiltrarem nos meios, uma técnica para tomarem a direção dos meios onde se infiltraram e uma técnica para mudar a mentalidade da direção cujos meios eles conquistaram. São três técnicas consecutivas. E os “grupos proféticos” fazem isso.
Eu freqüentei sem saber, “grupos proféticos” e contarei isso aos senhores daqui a pouco – eu quando moço. Eu, aliás, fui excomungado logo, logo, logo, na primeira reunião fui desclassificado. Eu não sabia. Eu agi na inocência da minha alma. Mas fui logo apresentado como o “filho das trevas”, “o péssimo” que era preciso afastar do caminho. Eu ainda me lembro da cena como hoje. Eu posso até dizer aos senhores qual foi o primeiro lugar em que eu tive contato com os “grupos proféticos”. Foi numa casa da esquina do largo Santa Cecília com a rua Frederico Abranches; uma casa térrea, que eu creio que foi demolida nesses últimos dias. Foi ali que funcionava uma espécie de Instituto de Serviço Social – não me lembro bem – em que eu tive a primeira reunião profética da minha vida.
Mas enfim, deixemos isso por hora de lado. Os “grupos proféticos”, o artigo de “Eclesia” descreve isso soberanamente bem. Eles entram dentro de um meio e começam com temas neutros. Por exemplo, falar sobre a paz. Temas leigos. Sobre, não sei, sobre a fome, sobre o desenvolvimento, temas assim. E vão, lentamente, fazendo comunistas, socialistas. E vão depois transformando esses comunistas e socialistas em ateus. Eles não começam pelo ateísmo, como foi o caso que eu figurei aqui, mas eles começam pelo socialismo, pelo comunismo, pelas idéias políticas e sociais, para depois transformar o indivíduo, que social e politicamente odeia toda autoridade, transformar esse indivíduo num indivíduo ateu.
O modo pelo qual eles procedem é muito interessante. Eles adotam o princípio de que não deve haver professor, de que não deve haver mestre, mas que todas as verdades devem nascer de umas rodinhas de conversa chamadas “círculos de estudo”.
Por exemplo, essa reunião como nós estamos fazendo aqui, eles achariam uma abominação. Porque é uma reunião em que um homem ensina os outros. Eles dizem que sempre que há um homem que ensina ou manda e outros que são ensinados ou mandados, há uma exploração. O explorador sou eu, porque estou sentado aqui numa mesa de veludo, bonita, numa poltrona, e os senhores estão mais ou menos aí, a cavalo, em cadeirinhas;porque os senhores são a multidão que se perde um pouco diante de meus olhos; eu sou um ponto visível diante do olhar dos senhores. Então eu sou de momento, superior aos senhores. Estou mandando nos senhores, eu estou explorando os senhores; estou arrancando dos senhores um ato de homenagem que os senhores não devem, não me devem, e que é uma exploração.
É o que eles chamam uma alienação. Alienus quer dizer alheio, que pertence a outrem. Os senhores provisoriamente se transformam-se em propriedade minha. A atenuação dos senhores, dela fico dono eu durante essa reunião, exceto se os senhores se distraírem e pensarem em outra coisa – o que talvez não seja tão impossível. Mas enquanto isso não acontecer, eu sou, de algum modo, dono dos senhores. Isso é uma coisa errada. Toda autoridade é uma exploração e uma alienação. É preciso fazer uma revolução desalienante, que acabe com as alienações, com a hierarquia, com o poder, com o direito, com o “sacral”. Então também no ensino é preciso desalienar.
Então a roda era assim. Estávamos alguns – não me lembro se o Dr. Paulo estava lá - estava? – eu ainda não era um solteirão – elas já eram, porque elas eram mais velhas do que eu, porque mulher fica solteirona mais cedo do que o homem. Estava na roda lá, elas. Foi a primeira coisa que me estranhou na casa – todas com o mesmo modo de cumprimentar: como vão? Como vai? Eu não sei porque essa alegria. Eu não estou nem triste nem alegre. Eu estou num ponto neutro, como está uma pessoa que chegou a um lugar. Eu vou ver se é o caso de eu ficar triste ou alegre. Por essa simples razão de que eu não sou um bobo alegre. Se pelo menos sou bobo, alegre não sou. Depende do que me ponham adiante. Eu vou analisar. Não chego alegre. Eu já senti qualquer coisa, não que me hipnotizasse, mas que começava a me hipnotizar naquilo: como vai? Como vai?
Eu, como os senhores sabem bem, de natureza sou cerimonioso. Eu sou, talvez, o homem mais cerimonioso que conheço. De maneira que eu cumprimentei com gravidade. No fundo, contra – revolucionariamente. Como vai senhora? Eu vi que elas gostariam de dizer você. Elas começaram a me tratar de senhor, perceberam que se dariam mal começando a me tratar de você. Então, senhor, senhora, nos sentamos. Estava uma roda.
Eu pensei: que raro isso! que… [faltam palavras] …Diz uma delas – e elas todas têm o jeito de arranjar o cabelo assim. Pareciam o padre… [faltam palavras] … – e a lábia feminina é muito mais jeitosa para isso do que a lógica e a brutalidade masculina.
Uma delas: nós hoje vamos tratar de tal ponto. Eu digo: Bom, então ela é a conferencista. Eu ouvi dizer que havia debates. E eu pensei: Bem, alguém expõe, eu ouço, eventualmente aprendo, depois debatemos. Ela volta-se para outra: Fulana, que que você acha de tal coisa? Diz a outra: eu acho tal coisa. Um toquinho de idéia assim. A outra: Fulana, você está de acordo, ou melhor, você pensa como Sicrana? Diz a outra: Mais ou menos. Eu estou de acordo com ela, só que num pontinho porque tudo é feito assim – um pontinho que eu gostaria de dizer uma palavra sobre isso. Ela podia ter dito assim, assim, assado.
Bom, no meio desse lero-lero, de repente, saiu uma coisa contra a doutrina católica. E eu percebi que não se perguntava muito a mim. Eu digo: Bom, elas são moças, são senhoras, eu devo a elas todo respeito; eu vou ficar quieto também enquanto não se falarem. Mas quando entrou na doutrina católica, interrompi. Não, não, perdão; aqui há um equívoco. A doutrina católica diz isso, isso e, sem querer, falei uns dez ou quinze minutos, uma conferenciazinha. Mas eu posso assegurar aos senhores que sem megalice, pensando, na minha boa fé, que eu estava ajudando a andar as coisas. Eu notei uma espécie de consternação e uma quis se opor, mas já meio zangada. Era um ponto, discutimos, elas conheciam a matéria muito superficialmente – não quero dizer que eu conhecesse profundamente – mas um pouco melhor do que elas eu conhecia – terminou o círculo de estudos.
Nas saída: Você sabe,você não serve para aqueles círculos de estudos. Eu: Está bem, eu não vou mais, no que eu teria andado mal? O que há? Ele disse dando risada: não, foi julgado que para aquele processo você tem muita argumentação demais, tem muita personalidade demais. Isso é para as pessoas de uma personalidade moderada que a sua, menos saliente, não é para pessoas de muita personalidade.
Eu escutei aquilo… [falta uma palavra] …, porque eu tinha ouvido dizer, até aquele momento, que uma pessoa que conhecesse a matéria e que expunha com uma relativa clareza, ajudava o estudo. Era a primeira vez que eu estava ouvindo, que não, que atrapalhava o estudo. Eu ri. Confessou que isso me passou. Mas depois eu percebi o seguinte: que a pessoa quis dizer que o método próprio de ensino na Ação Católica,que estava despontando, era esse. E então eu fiz essa objeção que os deixou desolados: mas que Ação Católica de vocês é essa? Então o sujeito precisa ter pequena personalidade para entrar dentro? E passa a vida inteira com pequena personalidade? Nessa máquina de nulidades? Não forma ninguém? Não dá convicções a ninguém? Não aprofunda as idéias de ninguém?
Resposta: olhe, não é tão fácil responder, porque você tem o espírito formado de um modo especial. Eu tive a sensação de que tinha uma orelha na testa, um olho no queixo, qualquer coisa assim que eu não sabia bem.
O meu espírito… [faltam palavras] …o espírito humano, o espírito de todo mundo. Tinha me formado, tinha estudado, nunca ninguém pensou que meu espírito era assim venusiano, disco voador, nada disso.
Bem, disse: seu espírito é formado em torno da idéia da verdade e do erro, do bem e do mal, do sim e do não, da lógica. E isso não é bem para os espíritos do mundo que vem, que são mais da impressão, que são mais da sensação, e que compreendem que não se trata de… [faltam palavras] …a verdade do erro, mas de escolher uma terceira verdade que está além da verdade e do erro.
Eu digo: Ah, bom. Eu não disse, mas pensei. Eu estou aqui em face de uma infiltração anticatólica. Bem, a ação católica foi montada nessa base e os erros eram os erros que os senhores vêem hoje aqui.
Primeiro erro: A Igreja não se deve ser hierárquica. Padre, bispo, papa, não manda. Chegou a hora dos leigos.
Segundo - o culto de Nossa Senhora foi exageradíssimo e o dos santos também. É um culto perigoso. Não deve haver esse culto porque ele desvia de Cristo, como Cristo desvia de Deus.
Terceiro - nós devemos combater o excesso do culto das imagens. As imagens constituem um perigo. É até melhor não ter, porque o homem começa a adorar imagem em vez de adorar a Deus.
Quarto - não precisa haver confissão. Durante a missa, aquela absolvição que o padre dá vale por confissão.
Quinto - A comunhão é um Sacramento que une todos os homens, e no qual todas as forças da natureza circulam e dominam o homem. A gente deve comungar de mãos dadas, fazendo roda, para o fluido eucarístico passar de um para outro. Tudo isso está no meu livro. Bom, e daí para fora.
Bem, eu acabei percebendo que era uma religião falsa que veladamente entrava na doutrina católica; e que estava sendo preparada essa máquina, que era uma máquina que faz o que faz o “progressismo” hoje. Quer dizer, como disse aos senhores ontem à noite, combate o culto às imagens, combate o culto à Nossa Senhora, combate a oração individual supõe o indivíduo;como todos nós somos um , devemos rezar a mesma oração alto. Rezar baixo o Rosário é individualizante. Rezarem todos alto, juntos, é coletivizante, é socializante, é uma coisa boa, é uma única forma de oração, etc, etc,etc.
Com isso os senhores vêem essa onda de progressismo, que dá exatamente nesse ponto. Os senhores formulam hoje muito mais claramente, do que a vinte anos atrás, o que eles queriam. O que é que eles querem? Formar um parlamento mundial em que os leigos elegem os seus representantes e esses representantes são os representantes que vão dirigir a Igreja. O papa e os bispos – se continuar a haver papa e bispos – devem exclusivamente obedecer o que esse parlamento mandar. Quer dizer, acabam sendo como uma espécie de rainha da Inglaterra. O vigário também. É o mandatário, é o executor de ordens dos leigos da paróquia. Acaba com a hierarquia, vira de cabeça para baixo. Bem, o culto dos santos desaparece; o culto de Deus é um culto naturalista para a natureza e não mais o sobrenatural. A religião se transforma, para resumir tudo muito, numa religião atéia.
Qual é a função, então, da religião? Eles dizem: a religião deve ser uma religião desalienada, sem autoridades. Eu acabo de dar isso. Todas as autoridades humanas, eclesiásticas ou divinas, devem desaparecer. O próprio Deus é uma espécie de arquimonarca que deve desaparecer também. Deve ser uma religião, dizem eles, “desacralizada”. Nada de ambiente religioso diferente do ambiente civil. O padre deve ter uma profissão como de qualquer um, porque ele não é votado só ao sagrado. A freira também. De onde esses frades e freiras, divertidos, sem batina, sem traje nenhum, vivendo a vida de qualquer um, a vida completamente “desacralizada” de que há fotografias nesse número de “Catolicismo”.
Bem, não deve mais haver igrejas. As missas devem ser nas casas de família, porque a igreja é um ambiente sagrado e todo o sagrado deve desaparecer. Nós temos que ter casas de família, ou outros lugares, oficinas, cinemas, aonde se faça o culto. Culto à natureza, bem entendido, e mais nada do que culto à natureza. Se houver igrejas, nessas igrejas é preciso que se façam coisas que não são sagradas também. Quer dizer, tudo “desacralizado”. Baile na igreja. O sentido do ié-ié-ié é esse. É trazer coisas não sagradas para dentro da igreja. “Desacralizar” a igreja. Aquele ié-ié-ié abominável que houve no Rio, em que as moças subiam sobre os altares, uma abraçou santo Antônio, etc, etc, uma espécie de orgia dentro da igreja, corresponde ao objetivo de “desacralizar” a igreja.
Bem, por outro lado dizem eles, religião desmitificada. Quer dizer, nada de mitos. Agora, como é que é o negócio do mito? Evangelho: mito; todas as religiões: mitos. É uma igreja desmitificada, que não acredita em nada disso.
O que faz a igreja? Promove o culto à natureza pelo progresso e pelo desenvolvimento. A igreja deve cuidar das questões sociais. Ela deve eliminar a miséria, deve cuidar de economia, deve cuidar de doença; ela existe para a melhoria da natureza, uma vez que o deus é a natureza; não há outro. Então, é uma igreja desenvolvimentista, econômica e social, e não é outra coisa senão isso. Isso, os senhores estão vendo, que tudo o que se passa dentro da Igreja hoje em dia, ou é isso, ou caminha para isso. É uma modificação que vai para isso.
Bem, agora eu concluo com mais uma coisa sobre os “grupos proféticos” e depois o IDOC. Talvez até seja melhor falar do IDOC agora.
Os senhores tomem a máquina feita da seguinte maneira. Um seminário. No seminário entram rapazinhos novinhos e muitas vezes de famílias muito modestas, para as quais é uma verdadeira promoção o filho ser padre. Quer dizer, mandam meninos que não têm nenhuma vocação, ou que têm pouca vocação, para serem padres, porque é uma honra para a família, que é uma família proletária que lucra que o filho vá ser padre. Bom, vai o menino para esse seminário com um fervor assim. O seminário não forma para fervor nenhum. De repente começam a aparecer as celebridades. O grande professor do seminário é o padre Tal. O padre tal tem essas idéias; os alunos mais inteligentes do padre tal têm essas idéias. Os alunos, portanto, que querem aparecer, procuram seguir as idéias do padre tal. Existe uma maquinazinha secreta entre alunos que aplaude quem tem essas idéias e debica de quem não tem essas idéias. Resultado: um ou outro que não tenha essas idéias é perseguido dura e rigimente: caçoada: velho, estúpido, anacrônico, não entende as aulas do padre tal, espírito oposicionista, precisa ser excluído.
Os senhores estão compreendendo como fica dentro desse seminário uma espécie de moda, aonde todos vão ser comunistas, socialistas, panteístas, etc,etc, por uma máquina interna de pressão, que é o “grupo profético”. Eu daqui a pouco vou dizer aos senhores por que chama profético. O que faz aí a palavra “profético”.
Bem, essa máquina interna de pressão é apoiada pelo IDOC; ou seja, todas as revistas, todos os livros que chegam ao seminário sustentam essa doutrina. Os grandes homens que aparecem são esses, nos jornais, nos livros, nas revistas; são os que sustentam essa doutrina. Resultado é que a doutrina nossa, tradicional, verdadeira, parece velha como Matusalém, abandonada por todo mundo que quer fazer carreira e quer fazer futuro. Quer dizer, todos os oportunistas correm para o outro lado, todos os burros correm para o outro lado – porque não entenderam nada e têm mal espírito.
Bem, o resultado como diz a Escritura que o número dos estultos é infinito, os senhores estão vendo bem como a massa vai. Quer dizer, á a conjugação do trabalho do IDOC dos “grupos proféticos” juntos aos Seminários. E muda um seminário. Assim como muda um seminário, muda uma Universidade Católica, muda um colégio. Porque já no segundo ciclo, às vezes, no fim do 1º ciclo, talvez antes, pode se fazer uma máquina dessa natureza. Muda todos os grupos sociais onde isso penetra. E penetra secreto. Ninguém percebe. Todo mundo pensa que foi uma coisa espontânea. Os senhores estão vendo como a conjugação dessas coisas estão levando o mundo de roldão. Os senhores estão vendo o que nós vamos denunciar.
Resta-me apenas, e esta é… [faltam palavras] …parte da conferência, a outra é muito curta – tratar de mais um assunto. E é o seguinte: por que “proféticos”? eles dizem que profeta é aquele que prevê o futuro e guia os homens rumo ao futuro. Agora dizem eles, profeta não é, de nenhum modo, aquele indivíduo que recebe uma revelação de Deus. Não existe Deus, não pode haver revelação. Não é o indivíduo ajudado pelo Espírito Santo, uma vez que não existe Espírito Santo. Profeta é o homem que tem em si as forças da natureza num estado mais agudo: uma percepção mais aguda das coisas, porque condensa melhor, as forças da natureza. E esse profeta que percebe por onde a natureza vai andar, percebe os sinais de cada tempo, por onde naquele tempo se vê por onde a natureza se encaminhará.
Então, são os sinais dos tempos, os sintomas dos tempos que os profetas percebem. Então, aplicando o caso, D. Helder Câmara seria um profeta. Ele percebe que o mundo vai ficar comunista – eu estou dando a opinião comunista, é claro – ele percebe que o mundo vai ficar comunista, e ele então, já empurra o mundo para onde o mundo deve ir, porque ele facilita a evolução; ele percebeu os sinais dos tempos por onde o mundo deve ficar comunista; ele é profeta porque guia o mundo para a linha onde deve ir. Então esses grupos são proféticos porque percebem o sinal dos tempos: são grupos que levam o mundo para a ordem do sinal dos tempos.
Aí está o caráter, a palavra “profeta” … [faltam palavras] …diferente do sentido ortodoxo, tradicional da palavra profeta, que designa o indivíduo que, por uma graça de ordem sobrenatural, percebe, não as vias do mundo, mas as vias de Deus; não para se deixar levar pelo mundo, mas para forçar o mundo a fazer o que Deus quer. O profeta verdadeiro está, habitualmente, numa época de decadência, lutando contra o mundo. O profeta de Satanás está numa época de decadência, pactuando com o mundo e ajudando o mundo a ser mais ele próprio, quer dizer, a ser pior. Aí os senhores têm a diferença.
Bem, determinado isso eu agora me ponho diante do seguinte panorama: nós já sabíamos que era assim; nós, os mais velhos, nós, os mais experientes do grupo já sabíamos que isso é assim. Nós tínhamos em vista estar lutando contra isso, contra essa articulação. Mas nós não tínhamos provas, e por isso não podíamos falar alto. Porque se nos impusessem provas, seria uma trabalhadeira dar essas provas. Algumas provas que existem, seria prematura dá-las por razões estratégicas que escapam a essa conferência.
Nós estávamos, portanto, no silêncio. Aparece uma oportunidade da gente, em um mundo de ambientes, revelar que existe essa conspiração. Qual é o efeito de um jornal, de um “Catolicismo” que entra num seminário? Que entra numa universidade? Que entra numa escola? E que se difunde? Muita gente começa a desconfiar: isso aqui tem coisa. Olha lá aquilo que eles diziam está se realizando. A conspiração que eles previam está sendo feita. Logo, deve existir a máquina conspiratória que eles diziam, que eles estavam denunciando. Recua, cristaliza. Cristalizando, isola a eles. Isolando a eles, aniquila a ação deles. A ação deles vive do segredo; a ação deles vive de bobear bobos. A partir do momento em que a gente abre os olhos dos bobos, eles não podem mais bobear. Vamos dizer que eles são como falsários que espalham as notas falsas da religião falsa, no ambiente onde circula o dinheiro bom da religião verdadeira e eterna. Bem, se alguém levanta e diz: cuidado, aqui há falsários, todo mundo começa a examinar as notas. E pior serviço não pode haver para um falsário. Ainda mais quando vem meio entendido quem são os falsários. É claro.
Os senhores estão compreendendo que essa nossa propaganda pode parar, na América o Sul, essa marcha. Parando na América do Sul, encrenca no mundo inteiro. Porque as nações do mundo são como uma imensa série de parelhas de boi. Se um boi deita na estrada, pára tudo. E a América do Sul já tem o tamanho de um boi. Com a repercussão internacional que isso pode ter, os senhores podem imaginar como vai acentuar no exterior essa impressão. Então os senhores têm a possibilidade de daqui por diante parar esse processo imenso.
Então, do ponto de vista sobrenatural há isso: há um movimento existente nos nossos países, compostos de pouca gente, que pode parar uma máquina imensa. Bem, a pergunta é: os senhores querem parar essa máquina? A resposta é clara: queremos. Eu digo: Está bem, mas os senhores podem ter, o demônio pode pôr no interior dos senhores fatores de desânimo. Um dos fatores é: nós somos tão poucos…Minha resposta é: trabalhem muito.
Uma vez o marechal Liautey, que era governador do Marrocos, governador francês do Marrocos – quando o Marrocos pertencia à França, era protetorado francês – mandou plantar uma série de árvores lá para reflorestamento do lugar. Algum tempo depois ele chegou e perguntou ao diretor do posto: Já começaram o reflorestamento? O homem disse: não, nem tinha urgência. Essa árvore leva cem anos para se desenvolver. Ele disse: então devia ter começado mais cedo.
É claro. Quer dizer: quando uma coisa é muito difícil para conseguir, a gente faz mais força. Quando é lenta, a gente começa mais cedo. Se nós somos poucos, gritemos mais alto. Vamos à rua com mais fogo, com mais entusiasmo, com mais calor, com mais coragem; e os senhores compreenderão bem que nós vararemos a onda. Com essas capas , com esses livros, com esse slogan, os senhores já pensaram? Calculem: essa sala aqui está com perto de 300 pessoas – 300 pessoas berrando de capa vermelha no centro da cidade? O que são 300 pessoas numa cidade como São Paulo? Não é nada. São Paulo tem 6 milhões de habitantes. Mas 300 pessoas que berram, que vão para o centro onde toda a cidade aflui, que usam essas capas e que berram o que os senhores vão berrar, se berrarem bem e puserem toda a sua confiança em Nossa Senhora, essas 300 pessoas varam. É o poder do fermento dentro da massa, da minoria dentro da maioria. Os senhores não pensem que a história foi feita por maioria. A história sempre foi dirigida por minoria. Nosso Senhor falando do clero que deveria dirigir o mundo, comparou-o com um pouco de fermento dentro da massa. Mas fermento é fermento, massa é massa. Eu venho dizer aos senhores que devem ser fermento.
Eu acho que em véspera de campanha pode haver ação preternatural, pode haver ação diabólica. E essa ação preternatural e diabólica pode ser meio difusa: um certo desânimo: quantas horas de trabalho! Um certo medo: Se de repente me pegam! Um certo pânico: olhe eu com essa capa vermelha! Bom, é preciso vencer tudo isso. É claro que a capa vermelha não vai ser usada nas cidades onde o grupo é pequeno. Vai ser usada nas cidades onde o grupo é grande. Mas, em todo caso, é preciso fazer todo o possível, em todas as cidades, para que realmente… [falta palavra] …isso se faça. Quer dizer, depende dos senhores fazer isso. Eu volto a dizer: nunca terão devido tanto a tão poucos.
Os senhores todos já meditaram aquele episódio do Evangelho em que Nosso Senhor, indo pela Via Sacra – esta parte sobrenatural os senhores podem tomar nota – indo pela Via Sacra, pela Via Dolorosa, encontrou uma mulher que teve pena dEle e que aproximou dEle, de Sua Face divina,e lavou o rosto cheio de escarros, cheio de sujeira, de poeira, de feridas, de sangue, etc. ela verificou depois com pasmo, que a sagrada Efígie dele estava naquele véu. Foi por isso que ela ficou na história com o nome de Verônica: vera ícone, verdadeira imagem; a mulher que teve a verdadeira imagem.
Ora, acontece que toda a rua moderna é uma Via Sacra por onde Nosso Senhor passa esbofeteado, injuriado e ultrajado. Proclamar o Reino de Maria, proclamar a religião verdadeira, proclamar a luta contra o comunismo nessas ruas, é como enxugar a Face de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Agora, qual é o prêmio que a gente recebe? Os senhores sabem qual é? É mais precioso que o da Verônica. É na nossa alma [que] se imprime a Sagrada Face de Nosso Senhor Jesus Cristo. Nós temos o prêmio infinitamente precioso do senso católico; nós compreendemos o que é a religião católica com esse sacrifício. Então, quem quer ter senso católico, por amor a Nossa Senhora e a Nosso Senhor, faça isso, porque obterá esse prêmio.
Uma outra consideração que tem todo cabimento é aquela frase que está no Antigo Testamento: o irmão que salva seu irmão, salvará sua própria alma e brilhará no céu, como um sol, por toda a eternidade. O irmão, evidentemente, é qualquer outro homem. Nós somos irmãos por que somos filhos de Deus. Bem, o irmão que salva o irmão salva sua própria alma. Pode haver um prêmio mais magnífico do que esse? Os senhores vão salvar uma alma? Ainda que fosse para salvar uma alma valia a pena. Os senhores vão salvar nações. Os senhores vão - se o trabalho for inteiramente abençoado por Nossa Senhora – salvar o mundo. Qual é o prêmio que os senhores vão receber? Com que sóis os senhores vão brilhar por toda eternidade? Meus caros, se os senhores recusarem isso, qual é o castigo? Qual é a vergonha, qual é a tristeza?
São Pedro dizia: eu tenho medo de Jesus que passa perto de mim e não volta mais. Esta é uma hora em que Jesus passa perto de nós. Voltará? Nós podemos dizer que as cinzas do Tsuneo ainda estão quentes. Qual é a história dele? É de um menino perto do qual Nosso Senhor passou. E a certa altura disse a ele: você quer me seguir? Entra para a TFP. Ele disse: Sim. Entrou. Entrou e foi até o caminho dele. O amarguíssimo fim do curtíssimo caminho dele. Aceitou. Se ele tivesse dito não, como é que ele teria morrido? Teria morrido? Como é que ele teria vivido? E depois da morte dele, como é que ele estaria por toda a eternidade? Foi numa hora em que alguém o convidou para a TFP e que ele disse sim, em vez de dizer não, que ele deu um passo tão decisivo na vida dele.
Aqui está Nossa Senhora que lhes fala dizendo isso: quereis ajudar-me? Quereis lutar pelo meu Reino? Quereis salvar meus filhos? Ou quereis ficar em casa, com preguiça, com medo? Compreendam a vergonha, a tristeza daquele que não tenha ido. Os senhores devem compreender que há ir e ir.
Eu compreendo que uma pessoa, por razão justa, possa não ir. E às vezes, há mais sacrifício e muito mais sacrifício em, por uma razão justa, não ir, do que ir. Quem não deve ir, de vê resignar-se e deve ficar. As coroas do céu o esperam. Quem deve ir, deve ir e não deve ficar, porque é na rua que as coroas inúmeras, com que Nossa Senhora a todos nós, uns e outros, quer coroar, os esperam.
Por outro lado, eu lembro aos senhores o seguinte: o efeito expiatório. Como é bom para nós, para pagar os nossos pecados, esse serviço. Se a penitência apaga os pecados, não é um modo de fazermos penitência? Nós não temos ingratidões? Nós não temos coisas que fizemos que não deveríamos ter feito? Nós não temos coisas que não fizemos e que deveríamos ter feito? Não é uma ótima ocasião?
Por fim eu lembro a relação disso com a graça de Itaquera. Tudo quanto em Itaquera se tem feito é uma preparação para isso. As aulas de música são uma preparação para isso. Os senhores tomam toda Itaquera; o que é? Todo aquele espírito, toda aquela decisão ruma nesse sentido. É uma graça enorme que nos preparou para isso. É a ocasião de nós dizermos sim para essa graça e de atuarmos nessa direção.
Por fim é preciso lembrar que nós devemos ver na atitude de Nossa Senhora para conosco nesse passo, uma prova de amor. É uma honra, Ela querer servir-se de nós. E por isso nós não devemos aceitar essa campanha resignadamente. Devemos aceitá-la com alegria; devemos aceitá-la com espírito de triunfo.
Por quê? Porque de qualquer maneira será um triunfo. Ainda que sejamos esmagados, nós fomos os bravos que levantamos o estandarte da verdade, o estandarte da Igreja, o estandarte de Nossa Senhora no meio de cidades paganizadas e infiéis. Isso é sempre vencer.
Meus olhos caem aqui sobre vários que são de origem japonesa. Eu me lembro dos mártires da Fortaleza de Shinabara no Japão. Foram todos eles mortos. Foi uma das maiores mortandades que houve na história. Aparentemente uma derrota. Uma das maiores vitórias da Igreja. Porque a Igreja, mesmo quando derrotada, vence. Para nós, só há uma forma de derrota: é não cumprir o dever. e só há uma forma de vitória, que é cumprir o dever. O resto, as vitórias fora do dever, são catástrofes. As vitórias dentro do dever são glórias. As derrotas dentro do dever são glória, as derrotas fora do dever são catástrofes. A questão é fazer a vontade de Nossa Senhora.
Por isso nós devemos ir à batalha confiantes, alegres e fazermos jaculatórias freqüentes. Nós devemos ter muito espírito de disciplina em relação aos chefes de banca e aos controladores. Por causa disso, nós não devemos sair do trabalho sem pedir uma dispensa. Não devemos sobretudo sair da campanha. Não devemos entrar na campanha atrasados, sem pedir desculpas, sem apresentar uma justificação. Nós devemos tomar muito cuidado com os “ondeiros”. Há certa gente que é “ondeira” que tem facilidade de fazer “onda”. Quando geme, todo mundo se deita, descansar. Quando boceja, todo mundo desmaia de sono, e quando resmunga, todo mundo se revolta. Há um gênero de gente que é feita assim. É “ondeira”. Bem, os “ondeiros” procurem fazer onda a favor do bem. E quando a gente percebe um “ondeiro” que tem o gemido contagioso, o bocejo atraente, a indignação formando cócegas, a gente se isole dele e diga: Cuidado! Esse aqui sem saber está fazendo o jogo do IDOC, dos grupos proféticos. Ele está fazendo onda má dentro. Vamos nos isolar dele.
É por causa disso também que nós devemos nos recomendar muito - durante a campanha - não só a Nossa Senhora, aos santos nossos protetores, mas a várias almas que expiraram tendo como intuito morrer por nós, ou que ao menos ofereceram por nós os seus últimos padecimentos. Nós temos na 1ª fila o nosso Tsuneo, que morreu há tão pouco tempo,e que morreu intencionalmente para a salvação dos senhores e a minha, e para que nós pratiquemos o nosso dever até o fim. Mas há outras almas que morreram nessa intenção.
D. Maria Flora Assunção, por exemplo, que não pertenceu ao grupo, que não teve conosco a ligação que teve o Tsuneo, entretanto, teve essa intenção no fim da vida dela. E morreu com a mesma doença do Tsuneo – é irmã do Dr. Luizinho – com essa intenção. O Dr. Ablas não enunciou essa intenção, mas eu tenho certeza que ele morreu nesse espírito, nessa intenção. E foi uma alma excepcionalmente pura, excepcionalmente reta, que morreu, a última coisa dele para mim foi, quando eu fui cumprimentá-lo, ele tomou minha mão e afagou assim muitas vezes como se poderia acariciar a mão de alguém, porque ele não podia mais falar, para me indicar a gratidão dele pelo fato de eu ter ajudado a ele a conhecer e seguir o caminho que ele seguiu. E depois ele fazia assim, e fazia a idéia de nós dois. Que nós dois haveríamos de nos encontrar no céu. Mas ele transbordava de adesão ao grupo e de gratidão… [faltam palavras] …
Houve uma pessoa que morreu nas adjacências do grupo, ou quase na periferia do grupo: Da. Angélica Ruiz; uma pessoa que tinha uma vida espiritual muito boa, muito fervorosa, uma excelente filha de Maria. Eu tenho certeza que ela ofereceu as orações dela pelo grupo. Os senhores compreendem que são almas que nós não podemos perder de vista, que nós devemos pedir que nos ajudem.
São Miguel Arcanjo, nossos anjos da guarda sobretudo, mas sobretudo e acima de tudo, Aquela que é tanto e é tal que quando Ela pede, e ninguém pede, Ela obtém tudo; e se todos pedissem e não pedissem por meio dEla, não obteriam nada. Basta pronunciar essas palavras – Nossa Senhora – para estar dito tudo quanto a mente humana pode conceber, de afeto, de veneração, de amor, de respeito, de dedicação, de alienação, no sentido mais forte da palavra. Peçamos por Ela, que Ela nos ajudará.
O que mais me resta dizer depois disso? Resta apenas dizer que Nossa Senhora nos ajude, nos abençoe e os transforme em leões na praça pública, diante dos inimigos dela.
Há uma oração em latim, e essa oração é uma jaculatória lindíssima que de vez em quando se rezará no grupo. E é a seguinte: Dignare me laudare te, Virgo Sacrata; da mihi virtutem contra hostes tuos: Dignai-vos de me dar a graça que eu vos louve, ó Virgem Sagrada; e a outra pessoa que responde isso, diz: Da mihi virtutem contra hostes tuos: Dai-me força para combater os teus adversários.
Nós terminamos com essa oração. Não temos outra coisa a dizer. Todos os dias, quando os grupos partirem de suas sedes para a ação, a última coisa que recitarão em comum – e as instruções da Comissão do Movimento serão nesse sentido – é essa aí. E quando voltarem vai ser essa também.
Morro dos Pintos