Santo
do Dia (Auditório da Santa Sabedoria) – 12/6/1969 –
5ª-feira – p.
Santo do Dia (Auditório da Santa Sabedoria) — 12/6/1969 — 5ª-feira
Nome
anterior do arquivo:
Santo Antônio de Pádua: “Arca do Testamento” e “Martelo dos hereges”. Dois reis que se tornam monges e perecem em combate. O contexto histórico da vida desses reis. Comentários sobre os dois reis monges. Monge, combatente e rei: condições que se completam. O estado religioso sublima aquele que o abraça.
Reis monges, mortos em combate
Santo Antônio de Pádua: “Arca do Testamento” e “Martelo dos hereges” * Sigiberto, rei e monge * Rei dos bretões também se faz monge e perece no combate * O contexto histórico da vida desses reis * Comentários sobre os dois reis monges * Monge, combatente e rei: condições que se completam * O estado religioso sublima aquele que o abraça
* Santo Antônio de Pádua: “Arca do Testamento” e “Martelo dos hereges”
Amanhã, dia 13 de junho, é festa também de Santo Antonio de Pádua, Confessor e Doutor da Igreja. Ele foi chamado a “Arca do Testamento” e o “Martelo dos hereges”. Franciscano, século XIII.
“Arca do Testamento” porque o conhecimento que ele tinha do Antigo e do Novo Testamentos era uma coisa prodigiosa. Ele conhecia o texto inteiro do Livro Sagrado, por assim dizer, e fazia citações enormes, todas inteiramente acertadas. E [era] um grande comentarista. Ele é Doutor da Igreja, de tal maneira ele comentava bem o Antigo e o Novo Testamentos. Agora, por outro lado, documentava os comentários dele com milagres estupendos. De maneira que a figura dele produzia um efeito de afervoramento enorme sobre toda a Idade Média posterior a ele.
Bem, é também aniversário, amanhã, do Dr. Luiz Nazareno de Assumpção Filho.
* Sigiberto, rei e monge
Bem, nós temos uma ficha hoje, cujo título é muito sugestivo: “Reis monges, mortos em combate!”
Eu nunca na minha vida ouvi falar de reis monges, de maneira que deve conter algo de muito surpreendente; logo de uma vez vários reis monges, ou vários monges reis. Vamos ver como isso poderá ser…
É um trecho do livro de Montalembert: “Les Moines d’Occident”, os Monges do Ocidente. Bem:
Dia veio em que Sigiberto, Rei da Inglaterra, que era não só um grande cristão e um grande sábio de seu tempo, mas ainda um grande guerreiro, fatigado das lutas e desgostos do seu reino terrestre, declarou querer ocupar-se do Reino do Céu e combater unicamente para o Rei Eterno. Ele cortou os cabelos…
Cortar os cabelos, naquele tempo os homens usavam cabelo comprido, e cortar o cabelo era raspar [o cabelo] como fazem os frades, e era o símbolo de perder a liberdade e se constituir no estado de monge, sob a obediência de um superior.
Então:
…Ele cortou os cabelos e entrou como religioso no mosteiro que doara ao seu amigo celta, o irlandês… [faltam palavras]. Deu, assim, o primeiro exemplo entre os anglo-saxões, de um rei que abandonava a soberania e a vida secular para entrar no claustro e, como se verá, seu exemplo não foi estéril. Mas não lhe foi concedido, como ele esperava, morrer no claustro.
O terrível Penda, flagelo da confederação anglo-saxônica, chefe infatigável dos pagãos, cobiçava seus vizinhos cristãos de Leste e do Norte. À testa de seus numerosos soldados, reforçados pelos implacáveis bretões, invadiu e saqueou a Inglaterra, tão encarniçadamente e com tanto sucesso quanto fizera com a Nortúmbria. Os ingleses, abalados e muito inferiores em número, lembraram-se das proezas de seu antigo rei e foram tirar de sua cela Sigiberto, cuja coragem e experiência guerreira eram conhecidas dos soldados, e o colocaram à frente do exército.
Ele bem quis resistir, mas foi preciso ceder às instâncias de seus antigos súditos. Mas, para permanecer fiel à sua vocação, não quis armar-se com uma espada, mas com um bordão, e foi com essa nova arma na mão que o rei monge pereceu à testa dos seus, sob o ferro do inimigo.
* Rei dos bretões também se faz monge e perece no combate
Como esse [rei], os bretões também tiveram o seu rei, soldado [e] monge… [¼ de linha em branco] … valente soberano cambriano, fora invencível em todos os combates empreendidos durante o seu reinado. Depois abdicou [de] seu trono para se preparar para a morte pela penitência, e escondeu-se numa ilha do rio… [¼ de linha em branco]. Mas, no governo de seu filho, os saxões do Wessex, atravessaram a Saverne, região que lhes servia de limite, e avançaram até o… [¼ de linha em branco] .
Aos gritos de seu povo, o generoso velho deixou a solidão onde vivia há dez anos, e conduziu de novo os cristãos da Câmbria, em luta contra os pagãos saxões. Uma vitória estrondosa foi o preço de seu generoso devotamento. À vista do velho rei, coberto com sua armadura, montado em seu cavalo de guerra, o pânico apoderou-se dos saxões, há muito habituados a fugir dele. Mas, em meio à fuga, um bárbaro inimigo voltou-se bruscamente, e feriu o rei mortalmente. Assim, ele pereceu no meio da vitória.
* O contexto histórico da vida desses reis
São dois fatos muito bonitos, que convém localizar historicamente para poder serem entendidos completamente.
Esses são reis da mais alta Idade Média, no tempo em que o território inglês, como também o território alemão, germânico, estavam divididos numa porção de reinos, e de reinos que… nem todos tinham território inteiramente fixado. Alguns, sobretudo os pagãos, viviam, muitas vezes, num estado de transição entre o nomadismo e o estado sedentário. Quer dizer, não eram tanto nações, quanto eram mais hordas de bárbaros pagãos, que infestavam certas regiões, das quais se diziam proprietários. E infestavam, sobretudo, os limites dessas regiões. E havia, naturalmente, a guerra religiosa entre os pagãos e os cristãos. Essa guerra religiosa foi conduzida, muitas vezes, por reis santos.
Os senhores têm a Inglaterra, que era o território próprio dos anglos, [que] ocupava uma parte apenas do atual território inglês, que já é pequeno. Porque os senhores não devem confundi-lo com o território escocês. Os senhores se lembram da Ilha da Grã-Bretanha, que é dividida quase ao meio, podemos dizer, pelos montes — não sei como se chamam. Bem, a parte do Sul é a Inglaterra. Bem, nessa parte os anglos ocupavam, nesse tempo, uma parte; e havia bretões, que eram cristãos “ensabugados”, e pagãos, aliados contra os anglos, que eram católicos.
* Comentários sobre os dois reis monges
Então, os senhores vêem aqui essa figura de um grande rei, um rei que combatera a vida inteira, que exercera a profissão mais prestigiosa de seu tempo, que era a de ser combatente — o homem completo era considerado, antes de tudo, um combatente, e se um rei não fosse combatente, não teria prestigio para ser rei ––, que se assinalara, portanto, na guerra, que era a atividade mais produtora de prestígio e de glória naquele tempo, e que, ao cabo de seus dias resolveu consagrar-se exclusivamente à Igreja, e então se tornou monge.
Foi [monge, e quando] houve um ataque dos pagãos contra ele, e ele então foi procurado pelo povo para voltar a chefiar a luta — porque ninguém era um guerreiro coberto de glórias como ele —, então ele voltou, mas ele não quis conduzir uma espada; porque, como monge, ele considerava que não lhe era próprio estar derramando sangue alheio. O bastão era mais uma arma de defesa do que uma arma de ataque. Ele combateu valorosamente e morreu durante a luta; mas ele defendeu o seu povo, ameaçado de ruína.
De outro lado, os senhores têm esse outro rei, também santo, que se tornou também monge, um rei germânico, que se tornou também monge, e esse rei –– os saxões do Wessex… não é germânico, não, é também da Inglaterra; de outra parte da Inglaterra –– [e] esse rei teve um destino diferente. Ele também quis ser monge, foi procurado pelos seus para os defender, mas bastou ele aparecer todo revestido de sua armadura à frente dos combatentes, que os adversários já começaram a fugir. Ele obteve uma vitória estrondosa.
Os senhores vejam que bonita figura a desse monge armado dos pés à cabeça, brandindo sua espada e, na frente dos seus guerreiros, partindo para a carga de cavalaria; ele, o monge, [e?] [é] o terror de todo o mundo: “Oh! Voltou o Rei! O Rei fatal, o Rei invencível, o Rei coberto de glória surgiu!” [É] ele que ordena o ataque de cavalaria e dizima [a] todos. Ele morre como morreram tantos heróis medievais, num crepúsculo de vitória. Ele ganhou, mas, enquanto o adversário dava os últimos golpes para se defender, ele foi atingido. Ele morreu, e o sangue dele derramado no campo de batalha coroou bem a sua dupla carreira de rei e de monge.
* Monge, combatente e rei: condições que se completam
Os senhores estão vendo dois lindos exemplos, que mostram aos senhores um pouco o que é, [o] que [é] que deve ser um rei, o que deve ser um guerreiro, [o] que [é] que deve ser um monge. As coisas devem ser tais que o rei verdadeiro tenha muito de monge e de guerreiro na observância –– o rei perfeito, quero dizer; não o rei verdadeiro — na observância de sua condição de rei. Por outro lado, o monge deve ter algo de régio na sua alma e deve ter algo de combatente. O verdadeiro combatente lucra em ter algo de monge e algo de régio na sua alma. São condições que se completam, que se interpenetram.
Isso é tão diferente do monge sedentário, pacato, incapaz de luta, cuja figura, nos séculos de decadência, se fixou diante de nossos olhos.
Era preciso, e eu gostaria de ter aqui, uma fotografia de um monge, fotografia famosa, para mostrar e comentar com os senhores: o restaurador da Ordem Beneditina no século passado, Dom Guéranger, Abade de Solesmes. É um olhar de fogo, um porte de guerreiro, uma independência que é muito mais do que a de um particular; [é] uma independência de rei.
* O estado religioso sublima aquele que o abraça
Aí os senhores podem ter a idéia de como essas três coisas se interpenetram para constituir um só todo na alma de alguém que saiba ser isso até o fim. É, aliás, o segredo próprio do estado monacal, do estado religioso. É um estado tão alto, que todo mundo que se eleva muito alto, nas vias da espiritualidade católica, quando toca nesse alto, tende a ter algo de religioso. E é por isso, que os senhores vêem que [os] que não se fazem religiosos entram para as Ordens Terceiras, etc., que são uma participação do estado religioso. Mas é próprio também ao estado religioso — porque ele é muito alto —, que, quando alguém entra nele, se sublima a si próprio, em vez de perder as qualidades anteriores que tinha. Um artista que fica religioso, ou um pensador que fica religioso, um rei que fica religioso, um guerreiro que fica religioso, fica arquiartista, arquipensador, arquiguerreiro ou arqui-rei. A magnificência de tudo isso está no estado religioso.
*_*_*_*_*
Auditório da Santa Sabedoria