Santo
do Dia (Auditório da Santa Sabedoria) – 10/6/1969 –
3ª feira [SD - 259] – p.
Santo do Dia (Auditório da Santa Sabedoria) — 10/6/1969 — 3ª feira [SD - 259]
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Europeização: Versailles
* Analisando uma fotografia do Castelo de Versailles — Beleza de seus jardins
(Sr.–: Pode-se abrir aqui em cima?)
O que é?
(Sr.–: Pode-se abrir em cima?)
Pode abrir.
Eu devo fazer hoje a exposição sobre a Europeização, mas eu confesso que sinto um certo embaraço em fazê-lo, porque é tão sóbrio o castelo de Versailles, sobretudo no ângulo em que ele está visto aqui, que não há... não há quase o que comentar a respeito dele. Há talvez um pouquinho o que descrever.
Os senhores estão vendo aqui apenas uma parte do Castelo de Versailles. Para os senhores terem idéia completa da fachada do castelo, a fachada que dá para os jardins, porque há uma outra fachada, oposta a essa, que dá para o pátio, os senhores deveriam imaginar isto aqui que é uma ala do castelo, depois uma ala central ainda muito maior, que no outro extremo tem uma outra ala igual a essa, de maneira que o castelo é muito simétrico. Eu naturalmente estou resumindo muito a descrição do castelo, mas é um castelo muito simétrico. Os senhores têm aqui apenas uma parte do castelo.
No quadro que os senhores têm diante de si, os senhores têm quatro elementos para distinguir. Os senhores têm em primeiro lugar o próprio castelo; depois os senhores têm o lago ou o tanque; depois os senhores têm os jardins, e depois os senhores têm o céu com as nuvens.
Cada uma dessas coisas dentro da perspectiva francesa merece ser mencionada.
A primeira coisa que é interessante notar é como tudo isto para olhar de um relance só é simples e é completo. Porque a gente olha esse panorama e gosta diretamente, gosta dele perpendicularmente, assim: Tam! É bonito, é agradável e está acabado, e não oferece mistérios. O próprio da arte desse tempo, e aliás é de algum lado o “poca” e de outro lado o grande da arte deste tempo, mas em que o “poca” é enormemente maior do que o grande, é que a arte desse tempo não tem mistérios, é uma arte sem mistérios, em que tudo está explicado.
Os senhores notam aqui, nos jardins, uma riqueza de colorido extraordinária e uma riqueza de formas e de contornos também. Eu não sei se todos percebem à distância, mas por exemplo, aqui, os senhores têm uma volta, uma linha sinuosa, aqui outra linha que tende a se arredondar mais para lá, aqui os senhores percebem no chão, feito já não mais com folhagens, mas com grama, um outro desenho, sobre uma parte que é diretamente pedregulho. Bom, aqui em ponto maior, a mesma coisa se repete. Os senhores estão vendo aqui uns tentáculos de grama, mas em que o arredondado prepondera, e os senhores estão vendo aqui as formas sinuosas de flores e muito carregadas de flores, com algum tanto de grama que se multiplicam quase até o infinito. Os senhores têm disso aqui, os senhores têm aqui, os senhores têm aqui, os senhores têm a perder de vista. Este lago aqui, com um bordo de mármore, habitualmente não é assim. Há no centro dele, talvez os senhores percebam aqui, um chafariz, uma boca para chafariz e nos ângulos há também pequenas bocas para chafariz, de maneira que quando soltam as águas, isto forma uma espécie de imensa catedral aquática; arcos, volutas e depois a água jorra de um lado, mas depois tem pequenos esguichos de outro lado, repetindo essa espécie de fantasia de movimentos, todos muito harmoniosos, todos eles sóbrios dentro da sua pluralidade e que constituem uma espécie de castelo de água em frente ao castelo de pedra. Eles até não puderam soltar as águas aqui, porque as águas são tão altas e tão grandes que tolheriam a perspectiva do castelo.
Bom, agora, aqui os senhores têm o próprio castelo. Bom, contrastando com esta… o que isto poderia ter de muito raso e de muito chato os senhores notam aqui umas pontas em cipreste; é o cipreste rigorosamente talhado; e essas pontas de cipreste se multiplicam mais ou menos por toda a parte.
* Nota harmônica que se dá entre o contraste da sinuosidade dos jardins com as linhas retas do castelo
Bem, agora vem o castelo propriamente dito. Eu chamo a atenção antes de tudo, para os senhores… dos senhores para a cor do castelo. Qual é essa cor? É uma cor meio indefinível; é um pouco parecida com âmbar; é um material um pouco dado a creme, um pouco dado a nougat, uma coisa assim, mas é uma cor tão discreta que a gente acha bonito, mas não pensa diretamente na cor do castelo, a idéia da cor passa.
Bem, o castelo apresenta em relação ao jardim um contraste flagrante; porque, enquanto o jardim é todo feito de sinuosidades e policromias, o castelo é todo feito de ângulos; e os senhores notam nele uma coisa reta, quase um pouco dura. Aqui há quase o excesso do duro, enquanto aqui os senhores têm quase o excesso do sinuoso. E exatamente esses quase excessos que se tocam, descansam a vista e dão uma espécie de harmonia. Os senhores querem ver? Imaginem esse canteiro feito reticulado, com quadradinhos. O panorama não perdia completamente? Agora, os senhores imaginem o contrário. Que o castelo aqui em cima, em vez de ter esse mundo de estátuas, que repetem aqui a linha perpendicular nessas pontas, em vez de ter esse mundo de estátuas, tivesse tudo redondinho, uns arquinhos aqui parecidos com isso aqui embaixo. Não estava a coisa escangalhada?
Quer dizer, há um contraste muito inteligente, muito bem pensado em que os senhores têm aqui o retilíneo, imponente, majestoso, sério, forte, coerente, de uma coerência cartesiana e quase hirta, e depois aqui os senhores têm o oposto: risonho, amável, afável, aprazível convidando a ficar à vontade, junto a tanta grandeza. Aqui os senhores têm a grandeza e aqui os senhores têm o sorriso que convida para a grandeza.
* As águas dos jardins conferem ao castelo uma nota poética e as nuvens que estão encima uma nota trágica, heróica e misteriosa
Bem, na água os senhores têm uma espécie de variedade agradável, não é tudo flor, há água também. Os senhores imaginem que isso fosse um aguaceiro. Que melancolia! Esse castelo todo hirto refletindo sua hirteza dentro da água. Agora, os senhores imaginem que aqui não tivesse a água e tivesse ficado só flores: ficava um pouco monótono. A água dá uma nota nova diante de tanta variedade e confere ao todo uma poesia que é tão natural que a gente tem a impressão de que isso não foi pensado. E para o gosto do tempo, o summum era fazer um artificial tão natural que desse a impressão de que era natural. Então era a elegância tão natural que se tinha a impressão que era a natureza do homem; a graça tão natural que se tinha a impressão que ele era assim sem estudo nenhum; quer dizer, uma apresentação das coisas tal que a maior elaboração e mais quintessenciada não parecia senão uma decorrência suave e natural de todas as coisas.
Bem, os senhores têm por cima disso o céu. E o fotógrafo que apanhou as nuvens num momento muito feliz. Essas nuvens evidentemente não foram postas aí por Luís XIV.
[Risos]
Mas eu creio que ou houve uma grande coincidência, ou houve um fotógrafo muito inteligente que soube que nuvens apanhar; porque elas são nuvens que estão no ponto exato, com a configuração exata para adornar a fotografia. Os senhores querem ver como é cabeça de francês? Os senhores imaginem isso sem essas nuvens. Azul… azul… Um suíço fotografaria assim: quanto mais azul, mais bonito. Se houver algum dos senhores aqui meio suíço, eu sei que há, me perdoe, mas eu me exprimo com muita franqueza a respeito de todas as pátrias. Por isso, azul… ficava uma coisa que a gente olhava e dizia: “Que azul, hein?” Bem, aqui não.
[Risos]
Aqui os senhores estão vendo que essas nuvens compensam o que há de falta de mistério nisso. Eu vou lhes mostrar. Elas se perdem, elas são muito brancas aqui e até luminosas, mas com uma massa um pouco grande. A gente vê que são nuvens que estão em movimento e aqui vão se escurecendo. Elas vão se diluindo e escurecendo. A gente tem impressão que é algo que sobe e que vai se avolumando por cima do castelo e construindo o começo de um drama em cima do castelo risonho e do céu azul. Quase que se diria os primeiros sinais da Revolução Francesa misturados com as últimas glórias da monarquia, de tal maneira essas nuvens estão aí. Na quantidade exata, no ponto exato, no tamanho exato para adornar o quadro. Quer dizer, é um castelo… tudo quanto é grande ou tem alguma coisa de heróico e de um pouco trágico ou perde a sua grandeza. Ao Castelo de Versailles em alguns dias falta esta nota trágica, esta nota heróica, esta nota misteriosa; as nuvens compõem isto perfeitamente. E os senhores têm aí uma fotografia que parece tão simples, que a gente diria que uma criança riscou esta fachada, que outra plantou este jardim e que tudo ficou muito bonito por coincidência.
* Confronto que se pode fazer entre a mentalidade norte-americana e a francesa: ver o papel que têm a costura na moda de ambas nações
Para os senhores compreenderem bem o que é isto, o que é a diferença de uma civilização para outra e saberem fazer o confronto entre essa mentalidade e a norte-americana, os senhores tomem o papel da costura na moda francesa e da costura na moda norte-americana. Na moda francesa, quanto menos a costura aparecer, mais bonito é. Porque as coisas devem dar a impressão de inteiras e não modeladas, espontâneas.
Então, por exemplo, numa roupa a costura deve aparecer o menos possível; e quando não há remédio senão aparecer a costura, na moda desses tempos, se punham em cima da costura alamares de ouro e de prata, para dar a entender que aquele terno não tinha sido costurado, que era um pedaço homogêneo da fazenda, no qual com toda a naturalidade o marquês tinha entrado. Tudo se passava com toda a naturalidade. O sapato, por exemplo, era sapato de verniz, quando o homem era nobre era com salto alto e vermelho, com fivelas de ouro, ou fivelas de prata; o verdadeiro era dar a idéia que o sapato não tinha costura, de maneira tal que a única costura que aparecia era atrás, porque é inevitável, e a menor possível, de maneira que uma pessoa com olho agudo percebesse. O americano transformou a costura, não digo num adorno, mas numa pretensão a adorno, não é? Então sapatos, essas chancas, em que a costura é feita no peito do pé e ainda faz um babado e costura por cima para ficar uma costura hiante. O bolso é postiço por fora, para dar uma impressão de uma coisa em que a costura aparece, e em que exatamente o que outrora se escondia, hoje é transformada numa tentativa inábil de adorno.
Aqui os senhores têm dois mundos, duas épocas, duas coisas. Esta é a época da naturalidade diáfana, leve, risonha, ultrapensada, ultra-sabida, e que depois de chegar à sua obra-prima de si mesma, se põe com naturalidade e diz: “Eu sou assim”. Isto é, vamos dizer, a última expressão da elegância dentro da concepção francesa. Ninguém poderá me dizer que é uma concepção “poca”. Poderão dizer dela tudo quanto queiram, “poca” ela não é. Ela é, propriamente extraordinária.
Com isto está encerrada a conferência sobre a europeização.
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Auditório da Santa Sabedoria