Santo
do Dia – 30/5/1969 – p.
Santo do Dia — 30/5/1969 — 6ª-feira [SD 278]
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A Revolução e a terceira força
…consultas de membros do Grupo de fora para fazer, que eu quero analisar aqui no Santo do Dia, porque são de um interesse geral. E eu aproveito exatamente a presença de vários membros dos grupos de fora aqui para responder as consultas.
A primeira das consultas é a seguinte:
(Sr. –: O senhor nos tem dito que a Revolução se utiliza dos grupos radicais para puxar a opinião pública e a terceira força e os moderados que encampam a opinião pública. Agora, para a Contra-Revolução conduzir a opinião pública ela só precisa se utilizar do radicalismo ou ela comportaria a existência de um grupo moderado? A formulação “grupo moderado” propugna. Mas seria possível no Reino de Maria, por exemplo, haver ao lado da Contra-Revolução algo paralelo à terceira força revolucionária? Seria lícito? Seria político?)
A pergunta, não sei se está clara para os senhores, ou se alguém quer que eu repita a pergunta, porque eu leio mal as coisas: eu talvez fale razoavelmente, mas eu leio mal. Se alguém quiser eu repito a pergunta, é só levantar o braço.
Bem, em duas palavras a pergunta é a seguinte:
A Revolução se utiliza da terceira força como meio para vencer. Eu tenho descrito insistentemente aqui o sistema pelo qual a Revolução atua. Ela suscita um grupo de… enérgico, categórico, revolucionário carregado, que formula exigências, mas esse grupo trabalha de encontro a um outro grupo de cúpulas de terceira força que paralisa os esforços da reação e que produz a capitulação. Então, esse membro do Grupo aqui me pergunta se — mais ou menos a pergunta é essa — se a Revolução tira tanta vantagem com isto, seria político a Contra-Revolução tirar a mesma vantagem com isto? O princípio de que a Contra-Revolução deve aliar-se a uma força maior do que ela mesma para vencer ou de que a Contra-Revolução deve fazer, sendo uma minoria como extremo da Revolução, deve arranjar um jeito de encampar a maioria; esta teoria é uma teoria verdadeira? Neste caso seria político e seria lícito fundar uma terceira força?
Esta é a pergunta. E eu responderia da maneira seguinte.
Há qualquer coisa na Contra-Revolução, na posição contra-revolucionária — e seria muito longo eu justificar isto, mas eu creio que é mais ou menos intuitivo —, há qualquer coisa na posição Contra-Revolucionária por onde ela é como uma malha, um pulôver: nós cortamos num pulôver alguma coisa, aquilo se desfaz até o fim. Bem, assim também é a posição contra-revolucionária; se nós dela tiramos alguma coisa, em qualquer campo que seja, aquilo se desfaz e dá em Revolução. De maneira que nós termos uma terceira força não revolucionária é impossível. A partir do momento em que algo se caracteriza como terceira força, já deixou algo da posição contra-revolucionária, e se deixou algo, deixou tudo, porque a posição contra-revolucionária é monolítica, e a gente tirando dela alguma coisa, dá em Revolução.
É mais ou menos como com veneno. Se eu puser uma gota de veneno num copo d’água, envenena o copo d’água inteiro. Eu tenho uma gota de… um copo de água envenenado. Mas se eu puser uma gota de água num copo com veneno eu não remedeio. Eu tenho um copo de veneno do mesmo modo. Assim também, se eu pego um contra-revolucionário com uma gota de espírito liberal, ele vira liberal. Se eu pego um revolucionário com um princípio contra-revolucionário, ele nem por isso vira contra-revolucionário. Isso equivale a dizer, em outros termos, o que São Tomás de Aquino diz em posição mais filosófica: “Bonum ex integra causa; malum ex quocunque defectu”.
Quer dizer: O bem provém de uma causa íntegra, o mal provém de qualquer defeito. Quer dizer, qualquer defeito que haja, transforma a coisa em má; só é boa a coisa que provém de uma causa íntegra, de uma causa totalmente boa.
De maneira que então eu respondo a um dos elementos da pergunta dizendo: Uma terceira força que sirva à Contra-Revolução, não é possível. Bem… uma terceira força que, continuando contra-revolucionária, sirva à Contra-Revolução, não é possível. A terceira força da Revolução é revolucionária, a terceira força da Contra-Revolução não seria contra-revolucionária.
Resultado, é que esta posição da fundação de uma terceira força, não seria lícita, porque a gente não pode incumbir a ninguém de fazer o papel de apóstata. Ela não seria também uma posição política, porque a pessoa que a gente mandasse fazer esse papel, ao fazer o papel perdia completamente a sua fidelidade à ortodoxia. E com isso a coisa desaparecia.
Bem, agora, daí não se segue que a Contra-Revolução não procure fazer um jogo, arrastando do seu lado muitos que são terceira força, porque isto é uma coisa completamente diferente. Não é nós constituirmos a terceira força, mas é nós procurarmos trazer elementos da terceira força para nosso lado.
Eu talvez fazendo um esquema, possa mostrar isso aos senhores melhor. Eu não sei se o quadro-negro tem visibilidade aí para os senhores, pela inclinação que está, tem visibilidade para os senhores que estão ali. Eu creio que sim. Para os senhores… se alguém quiser entrar aqui, é à vontade. Mas eu não sei se dá, até que ponto dá para ver.
Bom, mas os senhores imaginem aqui uma sociedade que tem um centro, uma parte intermédia, digamos assim, uma parte terceira força [o Senhor Doutor Plinio vai escrevendo no quadro-negro] grande, é a maioria dessa sociedade. Bem, agora, aqui do lado, nós temos uma coisa pequena, que seria a esquerda e aqui uma outra coisa pequena, que seria a direita. Bom, o que é que se dá na luta, o que é que faz a terceira força, o que é que é o jogo da esquerda?
A esquerda possui, com uma densidade absoluta, o alto da cúpula. Depois ela possui, com uma densidade menor, uma zona intermediária, em que o poder dela é grande, mas não é um poder maciço, compacto, total. Bem, depois, aqui, à medida que se vai descendo, o poder dela vai ficando menor.
Bem, agora, aqui, a esquerda o que é que procura? Ela é absolutamente aliada com a cúpula da terceira força. A cúpula da terceira força, embora não o diga, serve-a com toda dedicação possível. Bem, atraiçoando os interesses de toda essa área que está aqui — os interesses, a doutrina, a formação mental — de tudo quanto está aqui.
Bom, agora, como é que a terceira força consegue levar todo esse bloco para cá? Ela consegue levar pelo processo que eu descrevi aqui, que seria o adormecendo pela sensação de segurança; depois, desarticulando, impedindo qualquer articulação verdadeira e depois dividindo. Essa gente fica completamente dividida. Bom, desarticulando e dividindo.
Agora, por outro lado, ocultando o princípio de que quem faz uma concessão à Revolução entra numa rampa que não tem fim, vai até em baixo, não pára. Esse princípio eles ocultam. Bom, resultado, dá-se o jogo que eu já falei: a terceira força… a esquerda berra, a terceira força fica desarticulada, desorientada, etc., etc. e cede.
Agora, qual é nosso jogo cada vez? Cada vez que a esquerda dá um puxão, nós do lado de cá, também damos um puxão, mas o nosso puxão é aqui.
Nós não tratamos de atuar sobre essa cúpula, porque é completamente ganha, nós atuamos sobre essa base e damos um berro. Qual é o berro? “Cuidado, estão fazendo assim!” Que leva-os, tira a sensação de segurança, articula-os, convida-os a se unirem e patenteia a eles o que estava oculto: que a Revolução vai… quer chegar até ao fim.
Todos os nossos livros são assim. Resultado, é que a influência disto sobre isso, e sobre isso, se abala. Então isso é obrigado a parar; corta provisoriamente os liames e a Torre de Pisa fica mais inclinada ou menos, mas [mais não dá juros?]. Quer dizer, acaba não caindo.
Bom, como os senhores estão vendo bem, é uma outra minoria que age sobre a maioria e que forma uma coligação com a maioria, convida para formar uma coligação com a maioria, neutralizando a ação da outra minoria.
Desde o nosso primeiro livro que foi o “Em Defesa da Ação Católica”, a tática é essa:
— Cuidado, olhe o que eles estão querendo!
Esse pessoal diz:
— Caluniador, você não tem provas!
Mas no primeiro puxãozinho que leva do outro lado, diz:
— Hum, esquisito! E eu fico aqui, eu não me movo com aqueles.
Resultado, parou no caminho.
Os senhores dirão: “Mas não parou, tanto é que afinal de contas a esquerda está campeando na Igreja.”
Não, o que campeou, foi para frente, foi isso. Exatamente a tragédia do progressismo é que isto ficou parado. O clero foi muito mais para a frente do que a massa.
Bem, o RA-QC, RA-QC foi exatamente isso, não percebiam a reforma agrária, não atuavam… ân ân ân. Veio a RA-QC, veio a RA-QC e deu um certo susto aqui, mas muito susto aqui. Ora, esta parte eu descrevi como maior do [que] essa, e essa maior do que essa, porque numericamente é assim. Resultado, para. Os senhores estão vendo, eles têm tudo na mão para aplicar a reforma agrária. Eles gotejam de vez em quando alguma coisa sobre a reforma agrária, mas em grande não começou. Esse é o fato, em grande não começou. Porque que é? Não é falta de vontade. Então algo há, não é? O que é que há? Há um livro chamado RA-QC. Mas é então essa a tática. Quer dizer, nós portanto exploramos também a terceira força, mas exploramos em bem dela, abrindo os olhos, etc., etc., mas não perdendo o nosso tempo com essas cúpulas, nós vamos direto ao fato. A cúpula se quiser perder as bases, que perca, é um suicídio.
Bem, aqui está portanto a resposta a uma pergunta. Uma outra pergunta era…
(Sr. –: Dr. Plínio para um burguês influenciado…)
SDP: Eu não estou vendo [que?] [quem] é que está falando, de tal maneira atrás de filas…, Sr. Querello, sei.
(Sr. –: Para um burguês influenciado por esse preconceito de que nós somos extremistas, a apresentação bem aguada dessa questão de que nós pretendemos neutralizar a minoria de lá é válida, é interessante?)
SDP: Não, a gente deve fazer de um outro modo, a gente deve dizer o seguinte:
- Dizem ao senhor que nós somos extremistas, o senhor não perca seu tempo conosco, mas preste atenção nos da esquerda, porque a direita não tem nenhuma possibilidade de tomar conta de nada e a esquerda tem. O senhor deve procurar ver se o que nós dizemos da esquerda é verdade. Não perca seu tempo conosco, [o] que nós vamos fazer?
O senhor receia uma vitória direitista no Brasil? Isso é possível hoje? O senhor sonha com isso? Nós estamos ajudando o senhor a manter isto, porque puxar os senhores para a direita, não puxa mesmo, de maneira que não perca seu tempo [nos?] discutindo. Agora, se o senhor quiser discutir, está bom, nos… [ilegível] …e mostre em nossos livros o que é que tem de extremista. Uma folha, uma página, uma linha, uma palavra, um pensamento, que possa ser reputada extremista. Acabada a discussão. Mas mostre bem para ele onde é que fica o problema, está certo.
Bem, o senhor dirá:
- Mas então se a esquerda tem isto, porque é que nós também não fazemos isto?
Era a pergunta que se poderia fazer, quer dizer, uma bossa do lado esquerdo, não é? Mas é que a luz por princípio e por estratégia política não tem o mesmo jogo que as trevas. Se nós puséssemos alguém aqui para fazer o nosso jogo, esse alguém ficava aqui para a vida inteira, o que não acontece com os de cá, quer dizer, portanto não é hábil fazer. Bem, a outra pergunta era a seguinte:
- Se uma posição filial perante Nossa Senhora está bem contida na palavra “filho” de Nossa Senhora, se ela também está bem contida na palavra “escravo” de Nossa Senhora e se para alguém se dizer escravo de Nossa Senhora, deve ter mais maturidade de alma do que uma pessoa que se diz simplesmente filho de Nossa Senhora?
É uma pergunta que eu vou responder um pouco rapidamente para não alongar demais o Santo do Dia.
Eu respondo a coisa da maneira seguinte: não se pode ser escravo de Nossa Senhora sem ser ao mesmo tempo filho. Seria um absurdo interpretar a escravidão a Nossa Senhora como sendo algo que fizesse cessar a maternidade que Deus concedeu a Ela sobre todos os homens e que mudasse o regime de relações dEla conosco, de um regime de relações materno para um regime de relações de chibata. Isto seria uma coisa absurda. Nossa Senhora…, a maternidade de Nossa Senhora sobre todos os homens é uma conseqüência do fato de Ela ser Mãe de Deus e é um dos mais preciosos tesouros que o homem tem, é exatamente ser filho de Nossa Senhora. Deus instituiu e nenhum homem poderia fazer cessar isto. Ainda mesmo pelos maiores pecados e pelas maiores blasfêmias um homem não conseguiria fazer cessar isto. Ele só faz cessar isto pela impenitência final, quando ele resiste às últimas graças e cai no inferno. O que é que se deve achar da situação do filho de Nossa Senhora que se faz escravo dEla. È a situação de um filho maior de idade que chega para o pai e diz:
- Meu pai, eu vos amo tanto que quero depender de vós de todo o jeito e por isto tendo-me tornado maior de idade quero ficar vosso escravo para depender de vós de todos os modos.
É claro que o pai ama mais esse filho do que um que é só filho, porque correspondeu a isso uma entrega maior, uma imolação maior, um sacrifício maior. Corresponde a isto da parte do pai um amor maior, evidente e portanto, maior bondade, maior indulgência, maior misericórdia e não o contrário, quer dizer, a escravidão a Nossa Senhora não é a entrada do reino da chibata, mas é pelo contrário o começo da maior das misericórdias dEla, que é o segredo de Maria, que é exatamente a maior das misericórdias dEla, a maior das graças, a mais doce, a mais afável, a mais bondosa, é precisamente essa. Bem, e por isso não é verdade dizer que é só um filho com muita maturidade de espírito que deve fazer-se escravo de Nossa Senhora, isso não é verdade. Bom, outra coisa, seria a seguinte afirmação; é preciso uma certa maturidade de espírito para uma pessoa fazer a consagração de São Luís Grignion de Montfort como escravo de Nossa Senhora, isso é bem verdade. Toda consagração exige maturidade de espírito, mas aí a maturidade de espírito se entende para compreender melhor toda a misericórdia de que é objeto e não para diminuir o regime de misericórdia com Nossa Senhora; então nós estávamos perdidos, porque se a misericórdia de Nossa Senhora para conosco diminui, nós estamos completamente perdidos. É claro que nós com Nossa Senhora só podemos andar na linha da misericórdia. Essas seriam duas perguntas que eu gostaria de deixar comentadas a propósito ou por ocasião do Santo do Dia. Com isso nós vamos encerrar.
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