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Santo do Dia 28/05/1969 Quarta-feira -- [SD 278]
[Auditório Santa Sabedoria]
Título: Santo Agostinho da Cantuária
Hoje, dia vinte e oito de maio, é festa de Santo Agostinho de Cantuária, bispo e confessor, cristianizador da Inglaterra, no século VI. Nós estamos na Novena de Nossa Senhora Rainha. A ficha que me deram aqui para comentar são elementos sobre a biografia de Santo Agostinho de Cantuária, tirados de um livro “Les Moines d” Occident”, famosíssimo, de Montalembert. Os monges do ocidente de Montalambert.
Santo Agostinho foi o chefe dos monges enviados por São Leão Magno para converter a Inglaterra. Ele e seus discípulos viveram épicos lances e marcaram com sua influência, profundamente, o futuro do povo inglês. Um dos seus sucessores, São Cutiberto, viveu uma história extraordinária, sendo considerado um dos heróis da Grã Bretanha. Durante muito tempo era invocado pelos ingleses contra os escoceses. Possuía o santo um estandarte que sempre o acompanhava e que, quando empunhado, levou muitos combatentes à vitória. A última vez que essa bandeira apareceu nos campos de batalha foi nas mãos dos nobres da família Neville e Percy, na revolta dos católicos contra Henrique VIII. Mas esse tirano, à custa do massacre da população rural e do assassinato dos principais fidalgos e abades da região sublevada, logrou vitória. Henrique VIII apoderou-se do santo troféu legado por São Cutiberto e o arrancou da caixa onde era venerado há séculos…
Deveria ser um escrínio, naturalmente.
…juntamente com os ossos de São Beda…
Estavam então, o estandarte de São Cutiberto e os ossos de São Beda no mesmo relicário e Henrique VIII mandou arrancar de lá.
…e a mulher de um padre apóstata lançou a bandeira ao fogo.
Tinha que ser, não é?
É notável observar como esses monges, apóstolos dos primeiros tempos da Inglaterra, foram notáveis marinheiros. Nisso, como em tudo o mais, os religiosos nos aparecem como os iniciadores da raça anglo-saxônia. É interessante vê-los preludiar, por sua coragem, as explorações do povo mais marítimo do mundo. As crônicas daquela época nos relatam as terríveis tempestades da costa oriental inglesa.
Até hoje é assim. Os senhores sabem que o litoral inglês é todo muito batido por marés e por maremotos, etc. O canal da Mancha, por exemplo, é uma coisa terrível. Para fazer a travessia da Mancha, as pessoas, muitas vezes, têm que se segurar nos bancos e nos vapores, de tal maneira joga o mar nesse local.
Mas nenhum perigo detinha esses filhos de navegantes. Sob o capuz e o escapulário, os monges anglo-saxões não cediam em rigor e atividade a nenhum de seus antecessores. Pareciam, e eram mesmo comparados a pássaros marinhos, quando vistos de costas a lutar contra as tempestades. Foi essa a impressão que deram a São Cutiberto, jovem ainda, e antes de ser religioso, quando assistiu da praia, em meio a uma multidão hostil e trocista aos esforços infrutíferos dos monges de [faltam palavras] para aportar contra o vento e a maré, alguns barcos carregados de madeira, que transportavam para o seu mosteiro. A oração de São Cutiberto salvou-os entretanto e eles desembarcaram são e salvos.
Agora vem uma oração de Santo Alfredo, o Grande, rei da Inglaterra, do século X:
Eu Vos procuro, ó meu Deus. Abri meu coração e dizei-me como aproximar-me de Vós. Eu só Vos posso oferecer minha boa vontade, porque nada mais posso fazer por mim mesmo. Mas nada conheço de mais excelente do que Vos amar sobre todas as coisas, Vós o único sábio, o único puro, o único eterno.
Pode-se dizer que os dados dessa ficha são uma pequena antologia sobre a Inglaterra. Bem entendido, não a Inglaterra de hoje, a Inglaterra nascida de Henrique VIII, mas a Inglaterra de outrora, nascida de Santo Agostinho de Cantuária e nascida, em última análise, do batismo e da Igreja Católica. Nós podemos dividir aqui as noções, para fazer o comentário adequado: em primeiro lugar, no que diz respeito a esse discípulo de Santo Agostinho, que foi São Cutiberto. Os senhores vejam que significado profundo tem o fato desse estandarte. Esse santo tinha um estandarte e esse estandarte era levado pelos ingleses, habitualmente, na luta, sobretudo contra os escoceses, que nesses primeiros tempos eram pagãos e que lutavam contra os ingleses. Nessa luta, o estandarte do santo portador, naturalmente, das bênçãos do santo e que levava consigo a memória do santo, era uma garantia da proteção divina, razão pela qual, quando eles combatiam com esse estandarte, eles ganhavam nas suas guerras. Bem, o estandarte foi longamente conservado e, séculos depois, no século XVI, esse estandarte ainda era tão respeitado que estava num escrínio, num relicário junto com os ossos de um grande santo muito venerado pelos ingleses, que era São Beda. Aparece Henrique VIII, toma esse estandarte e joga-o fora; manda queimá-lo e manda queimá-lo junto com os ossos de São Beda, numa fogueira, pelas mãos de um padre apóstata. Agora, qual tinha sido antes a história do estandarte? O estandarte, antes de ter sido recolhido mais recentemente lá pelos católicos, fora o estandarte de luta dos católicos contra Henrique VIII. Nós vemos, por essa ficha, que houve uma província da Inglaterra, em que nobres e plebeus se revoltaram contra o rei, que passou para o anglicanismo, que fundou a igreja anglicana. E o rei exigia de todo o mundo um ato de fidelidade à igreja nova que ele tinha fundado. Foi por isso que São Tomás Morus, São João Fischer e outros foram decapitados. Nestas províncias, os católicos se levantaram e fizeram uma cruzada. E conduziram o estandarte de São Cutiberto. Mas depois eles foram derrotados, com certeza guardaram de novo o estandarte e ali Henrique VIII o pegou. Os senhores vejam a tristeza, o que é o fim religioso de uma nação. Uma nação católica durante séculos, protegida por esse estandarte durante séculos, vêem os últimos católicos e lutam. Eles perdem até o estandarte. O estandarte não lhes é de utilidade nenhuma. E eles são derrotados e esmagados, e o protestantismo fica dominando a Inglaterra. Agora, o que é isso? É que Deus abandonou esses católicos? Nada leva a crer. Deus não abandona os que Lhe são fiéis. Mas, é uma coisa diferente. É que a Inglaterra com certeza cometeu um supremo pecado não se deixando arrastar por essa rebelião, recusando mais essa graça dessa rebelião. E o resultado é que o próprio estandarte de São Cutiberto não lhes valeu de mais nada. Deus retirou suas graças, e a Inglaterra caiu completamente na heresia. E este [é] o destino das nações que apostatam, como a Inglaterra apostatou. Quando Henrique VIII passou para o protestantismo, o número de mártires que a Inglaterra teve não foi pequeno. Mas o número de apostasias foi colossal, foi achatador. A nação inteira apostatou. E apostatou não por convicção, mas por oportunismo por não querer ter amolação com o rei. Apostatou de maldade. Quer dizer, passou da Igreja verdadeira para a igreja falsa e isto conventos inteiros, ordens religiosas inteiras, dioceses inteiras, com o bispo à frente, passaram da religião verdadeira para a religião falsa, por comodismo. Alguns heróis se levantaram. Não foram seguidos. Deus recompensou no Céu a alma deles pelo que fizeram. Mas a terra teve o castigo do repudio deles. Depois veio mais tarde mais uma graça para a Inglaterra e Deus não permitiu que essa graça fosse útil para a Inglaterra. É o episódio da invencível armada. Os senhores sabem bem que Felipe II constituiu a invencível armada, que ia levando nos porões uma grande quantidade de exemplares da Bula de São Pio V, excomungando a rainha. Essa invencível armada foi dispersada nos mares que vão da Espanha até a Inglaterra. E todo mundo comenta isso como tendo sido um castigo para a Espanha e como tendo sido um sinal de que Deus abandonava Felipe II. Eu não conheço comentário mais estúpido nem mais superficial. Porque a verdadeira castigada foi a Inglaterra. Para quem dá valor antes de tudo a fé católica e a salvação da alma, os senhores já calcularam o que a Inglaterra perdeu com a invencível armada sendo dissipada? A Espanha perdeu algo: perdeu o prestígio político, perdeu bens terrenos, perdeu uma armada que valia muito, perdeu filhos mortos naquela dispersão que, afinal de contas, ganharam o Céu com isso. A Inglaterra o [que] é que ela perdeu? A última oportunidade de se transformar num país católico. Porque com o desembarque dos espanhóis, estava tramada uma revolução dos católicos que ainda havia lá e a tomada do poder pelos católicos. Mas a Inglaterra estava podre, completamente podre do ponto de vista moral. Resultado: é que nada adiantou e a Inglaterra acabou se perdendo. Aí os senhores vêem como as nações caem. Por que eu digo isto? Para explicar um pouco aos senhores qual é o significado, significado da ação desses punhados de pessoas denodadas, que lutam hoje contra a enorme heresia dos grupos proféticos, do IDO-C, de outras barbaridades dessas, que estão penetrando pela Igreja. Essa heresia vai tomando tudo como o anglicanismo tomou a Inglaterra. Alguém dirá:
- Nós somos um punhado resistindo. Ninguém vai nos acompanhar.
Eu digo:
- Não é verdade, porque muita gente nos tem acompanhado. Ainda que fosse, nós deveríamos cumprir nosso dever como os católicos ingleses. Deveríamos lutar. Se não nos acompanharam, não somos nós que perdemos, são eles. Porque nossas almas vão para o Céu e vão ser coroadas pelo benefício que fizeram, pela conformidade que tiveram com o desígnio da Providência e pela fidelidade que tiveram `a Fé católica. Nunca a pessoa é derrotada quando luta por Nossa Senhora, porque Nossa Senhora recompensa sempre. O derrotado é aquele a quem foi permitido fazer o crime de nos derrotar, os derrotados são aqueles que nos rejeitaram, os derrotados são aqueles que nos rejeitaram, os derrotados são aqueles que não nos acompanharam. Esses são os derrotados. Se nós tivermos a graça, o favor de Nossa Senhora de cumprir nosso dever até o fim, nós somos os vitoriosos. Não tem por onde escapar. Ou a Fé católica não é verdadeira. E isso é uma coisa que nós devemos ter sempre em mente. A maior vitória de nossas campanhas, não é que elas tenham vencido aos olhos dos homens; a maior vitória das nossas campanhas consistiu em que pelo favor de Nossa Senhora nós fizemos a vontade d’ Ela. Qualquer que seja o resultado. Depois vem a vitória, muito apreciável, o fato , por exemplo, de termos conseguido, com o favor de Nossa Senhora, evitar o divórcio; adiar, pelo menos, de não evitar, a reforma agrária, o Manifesto, a mensagem ao Santo Padre etc., etc., foram vitórias. Mas ainda que não tivéssemos obtido nada, nós teríamos vencido, porque Nossa Senhora nos abençoaria pelo trabalho que tivemos. Isso é preciso ter bem em mente.
Agora vem outra coisa muito bonita que é a figura desses monges navegantes. Nós temos presente aqui um teólogo, nessa sala, um sacerdote. E se eu estiver errado no que disser, ele me corrigirá. Mas eu tenho impressão de que na vida da Igreja, há fases e fases, todo mundo sabe, diversas. E que há fases em que a graça sopra com tanta intensidade e as pessoas correspondem tão bem à graça que tudo quanto nasce das mãos da Igreja, nasce com uma plenitude extraordinária, admirável até nos seus aspectos temporais. E assim, quando a Igreja empreende qualquer coisa de espiritual, o corolário de obras temporais que nascem daí, é uma coisa assombrosa. Assim, por exemplo, os monges beneditinos que desbastaram os sertões europeus no tempo em que a Gália, a Germânia, a Europa Central, a Panônia, os lugares onde são Suécia, Noruega, Dinamarca, Polônia, eram lugares bárbaros. Eles se instalavam lá, secavam pântanos, eles derrubavam e replantavam florestas, eles abriam estradas, eles faziam pontes. Quer dizer, rezando e se preocupando só em rezar, eles, entretanto, eram tais que de sua oração tudo brotava. Os frutos temporais eram superabundantes. Porque como eles procuravam o amor de Deus e sua justiça acima de todas as coisas, era natural que todas as coisas lhe fossem dadas de acréscimo. Aqui os senhores vêem também esses monges ingleses. Que linda figura, um monge, que não se julgava obrigado a pôr “clergyman” por causa disso e menos ainda se vestir de malandro, colocado num barquinho nos mares bravios do norte, nas brumas daqueles mares, nos rochedos daqueles litorais, sozinho , de pé num barco pequeno e rezando ou trabalhando contra a tempestade. De tal maneira, que é até chamado uma ave marítima, pelas populações que vão ali à orla do mar, ver aquela luta. E que lindo pensamento do Montalembert, dizer que eles preludiaram a toda epopéia marítima dos ingleses. O que os ingleses fizeram por rapina, espalhando a roubalheira do protestantismo no mundo, foi o abuso de um dom temporal que começou com esses monges navegadores. Os senhores vejam que coisa estupenda isto. Os senhores vêem aqui o último episódio contado, de um grupo de monges que está fazendo um carregamento de madeira para a terra e que não consegue. As pessoas, na praia, estão dando risada. São Cutiberto, o do estandarte invencível, reza. O homem do estandarte invencível tem oração invencível. As madeiras chegam e a fé do povo aumenta. Os senhores vejam como isso é belo. Como isso é diferente, se padre Fischer permite dizer, de tanta coisa que a gente conhece. Já não digo as abominações de hoje, mas um certo raquitismo das obras católicas nas décadas que precederam o Concílio. Que coisa suada tirar um jornal católico! Que coisa difícil montar uma rádio católica! E quando saía uma rádio católica, o que saía? E quantas vezes, do jornal católico, que monstruosidade saía. Que coisa do outro mundo fundar um colégio católico. Quando fundava, era uma máquina de fazer tudo, menos católicos. Uma máquina de birbantes. Os senhores estão vendo um raquitismo por onde os frutos espirituais eram pecos e os frutos temporais eram “pocas”. Por que? Porque os homens já não eram homens de Deus como deveriam ser. Moral do caso: pertençamos a Nossa Senhora inteiramente e todo o resto nos será dado de acréscimo. Não sei se a observação é audaciosa ou falsa; mas eu creio que o senhor também observou a mesma coisa . Aí os senhores vêem: é um teólogo que confirma.