Reunião Normal (Auditório da Santa Sabedoria) – 26/5/1969 – 2ª-feira – p. 6 de 6

Reunião Normal (Auditório da Santa Sabedoria) — 26/5/1969 — 2ª-feira

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REUNIÃO COM PROBLEMAS

[Sr. Hélio, Salve Maria!

Esta reunião, creio que está cortada e só aparece um trecho sobre a questão russa (guerra, armamentos, etc.), de rompante é cortada por outro assunto inteiramente distinto: Cursilhos em Campinas. Parece que também é outro trecho de conversa ou reunião e não está íntegro. Pelo diálogo, suponho que seja o conferencista, o Mutuca; toda a sua fala, tentei por em amarelo.

In Domina

Meira]

Assuntos russos — nova arma celeste

...feita uma análise muito detida da situação nacional na última reunião, e tínhamos várias coisas da situação internacional para comentar. Agora, eu tenho impressão de que os recortes que estão aqui são da semana passada e não os dessa semana. [falta palavra] Pode. É. Queria me chamar o... [falta palavra] ... Nós vamos tratar agora aqui dos assuntos russos. Eu vou tratar um pouco por alto. Eu creio que não é o caso de nós estarmos perdendo tempo com o negócio dos generais , não é? Dos generais russos que vem morrendo na epidemia. Pelo “Estado de São Paulo” de ontem, ou anteontem, não me lembro bem — hoje quanto é do mês? É, até o dia vinte e três nós tínhamos chegado ao décimo sétimo general. Estavam começando os literatos. Agora, o que dizer disso, eu creio que nem há comentário a fazer. Eu talvez faça um comentariosinho na “Folha”, pequeno, para suprir a parte do Ceará que eu escrevi e que eu vou mandar cortar, uma vez que o tal coronel, general não quer nossa intervenção, nós também não vamos nos deter naquele assunto. De maneira que eu vou aproveitar para isso.

Bem, eu creio que é interessante um comentário, dentro dos assuntos russos, publicado pelo “Estado de São Paulo”, com o título de: “Uma nova arma celeste”:

Os satélites artificiais soviéticos em órbita terrestre transmitem às unidades navais da Rússia dados sobre alvos localizados à distância de até 500 quilômetros dentro do raio de ação dos foguetes, dos foguetes balísticos, dos cruzadores, destróieres, submarinos russos. A informação que a marinha britânica se recusa a confirmar ou desmentir.

Portanto, é uma coisa que é provavelmente verdadeira, porque se se recusa a confirmar ou desmentir é porque é uma coisa que está sendo ocultada.

Consta de um artigo de Cah Chapman... [falta palavra] ..., observador militar do “Daily Express”.

Pincher diz que os dados transmitidos pelos satélites em órbita, localizando os objetivos militares ocidentais, são captados por aviões de reconhecimento, que transmitem às unidades navais armadas com foguetes balísticos. Depois o lançamento, sempre segundo Pincher, os aviões assumem o comando da operação ofensiva, orientando pelo rádio os foguetes até curta distância do objetivo. Na última fase o foguete é dirigido contra o alvo por seus próprios sistemas eletrônicos de orientação. Foguetes balísticos desse tipo já estão instalados nos destróieres da classe… [falta palavra] … e… [falta palavra] … Outros mais aperfeiçoados e de maior raio de ação estão sendo colocados a bordo de cruzadores.

Os senhores estão vendo, portanto, o crescimento acentuadíssimo do poderio russo etc. e tal.

Pincher diz ainda que o almirantado tinha conhecimento, há muitos meses, da técnica aperfeiçoada pelos soviéticos, mas mesmo assim as demonstrações práticas feitas durante suas recentes manobras navais causaram grande preocupação entre os especialistas da marinha britânica.

Pincher sustenta que para defender-se da nova arma é indispensável dispor de aparelhos rápidos de caça e interceptação, que atacariam os aviões de reconhecimento soviético encarregados de receber os dados de satélites e dirigir os foguetes aos seus objetivos. O perito nota, finalmente, que como a Grã-Bretanha pretende desfazer-se de todos os seus porta-aviões dentro de dois anos, ficará indefesa contra o novo sistema do ataque soviético.

Quer dizer, então enquanto os soviéticos estão montando um sistema ultra-refinado de detectação e de análise, em sentido contrário os ocidentais vão cogitando de aniquilar as suas defesas, de maneira tal que a Inglaterra fica praticamente aniquilada, inutilizada.

Bem, se os senhores tomam isso em consideração juntamente com a defecção do Canadá, os senhores compreendem qual é o isolamento dos Estados Unidos. Há um processo de desnudamento do poderio militar norte-americano que é uma coisa assombrosa. Caem muralhas inteiras da fortaleza internacional norte-americana. E isso produz comentariozinhos pequenos. Afinal de contas, aqui o que está dito com toda a naturalidade é que daqui a pouco a Inglaterra não é mais aliada dos Estados Unidos. Os senhores dirão: “Não, Dr. Plinio, o senhor está caminhando depressa. A Inglaterra será incapaz de lutar contra os russos, mas ela será sempre uma potência amiga dos americanos”.

Em primeiro lugar, de que serve essa amizade no caso de guerra? Se é uma amizade que não se traduz em termos militares, muito pouco ela pode.

Depois, em segundo lugar, que capacidade de resistência a uma pressão russa tem uma nação nessas condições? Quer dizer, isso cria a necessidade da Inglaterra de se enfeudar aos russos. Porque a situação canadense se repete. Dos americanos a Inglaterra não receia nada; receia dos russos. Entre duas ameaças, ela capitulará ante os russos. É evidente. Quer dizer, os senhores estão vendo o liquefazer-se rápido do poderio americano.

Bem:

Washington: dois Renomados cientistas norte-americanos defenderam opiniões divergentes quanto às possibilidades soviéticas de ataque e contra-ataque nuclear em relação aos Estados Unidos.

Edward Teller, o inventor da bomba “H” é de opinião que um ataque soviético, protegido pelos sistemas antibalísticos existentes na Rússia “poderia sobrepujar o contra-ataque a ponto dele se tornar perfeitamente suportável”.

Bem, quer dizer do contra-ataque se tornar suportável.

Gerald… [falta palavra] … que por sua vez acredita que uma boa quantidade de foguetes e aviões estratégicos norte-americanos “escaparia ilesa ao mais elaborado e concentrado ataque soviético, o que não permite aos russos atacar de surpresa”, é de opinião diferente.

Então nós temos que a própria segurança dos Estados Unidos é uma coisa duvidosa. Porque se dois renomados técnicos anunciam ao público, um que a resistência é eficiente e outro que a resistência é ineficiente não há um homem que não seja técnico que possa ter certeza da eficiência dessa resistência. É como um de nós estar dormindo, por exemplo, aqui debaixo do terraço de cima. Bem, está calmo, está assistindo a conferência aqui, está calmo e vem uma pessoa, um grande engenheiro e diz: “Olha aqui, esse terraço pode ruir sobre sua cabeça”. Vem um outro grande engenheiro analisa e diz: “Isso não é verdade. Esse terraço não vai ruir sobre sua cabeça”. Qual é a conclusão que o leigo tira? Eu vou dormir longe do terraço. Porque entre a opinião de dois grandes, é bem possível que o terraço não caia, mas é igualmente possível que o terraço caia. Se for possível que o terraço caia, não é melhor eu sair dessa situação? Então, numa folha essas duas notícias conjuntas induzem discretamente o leitor a se habituar a idéia de que o poderio norte-americano não senão um “blefe”; está se descompondo de todos os jeitos, sem que o diga qualquer manchete, sem que o diga qualquer título. De maneira tal que na aparência o colosso está todo de pé, mas a opinião-pública vai sendo habituada à idéia de um desmoronamento.

Bem, isso faz parte dos sistemas de guerra modernos. É exatamente uma ação de guerra psicológica desenvolvida contra a opinião pública do país que se quer atacar, de maneira a propiciar a rendição dessa opinião-pública. Não é nada mais nem menos do que isso.

Aqui os senhores estão vendo guerra psicológica lançada em grande [escala]. Não por mero embuste, não é isso. Mas é ás vezes por embustes e às vezes dando a conhecer fatos infelizmente muito reais. Está acabado. Agora eu pergunto aos senhores, que confiança nós mesmos podemos ter na durabilidade de uma resistência norte-americana? Nós que nos abrigamos contra a ameaça russa diante da idéia de que os Estados Unidos nos protegem, que confiança nós podemos ter nós mesmos? Não sei se os senhores vêem como é precária a ordem temporal na qual nós estamos baseados. Quanto à ruína da ordem temporal, espiritual, correlata com essa ordem temporal, isso eu não tenho nada que dizer.

Quer dizer na calma dessa reunião, eu não sei se consigo tornar claro aos senhores que se trata de notícias gravíssimas, mas gravíssimas.

Bem, um outro recorte de um… [falta palavra] …do “New York Times”:

Um dos temas clássicos das histórias de ficção científica é a necessidade de união de todos os seres humanos para enfrentar uma ameaça procedente do espaço. A natureza da ameaça varia de história para história. Em algumas delas são habitantes de Marte, ou de um planeta pertencente a um outro sistema solar, que chegam em cosmo-naves com intenção de conquistar a Terra. Outras vezes o perigo é representado por um tipo de bactéria ou vírus maligno procedente do espaço interestrelar, que provocam mortes em escala apenas comparável à da “peste negra” verificada na Idade Média. Nas histórias mais engenhosas a ameaça procedente do espaço não passa de um embuste preparado por uma conspiração internacional de cientistas com o objetivo de fazer com que os políticos voltem à razão.

De maneira que os senhores estão vendo a pontinha do mistério se revelar.

[Trecho desgravado] 1

[O assunto continua é diferente e a voz da pessoa não é a do (Sr.)Dr. Plinio.]2

(Sr. –: …e que no fundo é totalmente dominado pelos cursilistas, são os cursilistas que fazem e a formação que eles dão é essa, inteiramente marcusiana [?], para essa mocidade. Em Campinas consta que mais de três mil moços já fizeram esse curso.)

(Sr. –: Todos comungam?)

(Sr. –: Não sei, Celso. Mas eu também não tenho certeza, não tirei a limpo, mas parece que a confissão é moderna, é confissão coletiva; é, parece que é. Não seria de estranhar.

Assim que dessa forma todos devem comungar. Mas, já mais de três mil moços, em Campinas, fizeram o curso, e com uma característica: depois que eles saem do curso, eles, no que diz respeito à vida deles, não há nenhuma modificação. Eles continuam do jeito que eram antes. Continuam com as mesmas liberdades, com as mesmas festas, mas ficam freqüentando certos centros paroquiais que eles chamam de comunidade. E nessas comunidades eles criam, então, uma espécie de fanatismo com aquilo. Vivem em torno daquilo, vivem trazendo outras pessoas para freqüentar as tais comunidades. Eles não adquirem nenhum caráter católico de vida, nem poderiam, é evidente, mas ficam inteiramente obcecados por aquilo, obstinados por aquilo. E então começam a arregimentar uma quantidade enorme de moços para poderem aumentar o efetivo dessas comunidades. Assim, se três mil moços fizeram, hoje em dia em Campinas já deve ter muito mais gente cercando isso tudo.

E agora em julho eles vão fazer uma espécie de congresso de toda a América Latina… [falta palavra] …toda América Latina. Vão ser cinco congressos na América Latina. Um vai ser no México e América Central, em… [falta palavra] …Costa Rica. O outro vai ser na Venezuela, em Cali, não sei se e Venezuela ou Colômbia – Colômbia. E o outro vai ser um Campinas, e um em Córdoba. Vão ser cinco congressos na América, América Latina.)

(Sr. –: Esses congressos são dos Cursilhos ou desse movimento?)

(Sr. –: Não, é desse movimento, porque não aparece como “Cursilho”.)

(Sr. –: Isso deve ser uma espécie de pesqueira do Cursilho, não é?)

(Sr. –: Deve ser, porque quando eu perguntei ao diretor lá: “mas todos esses automóveis são de cursilistas, não é? Aquele moço que está fazendo conferência é cursilista? Isso daqui é cursilhos ou não é?” Ele disse: “Bem, não é, porque afinal de contas é só para treinamento da mocidade, de vigilância cristã, mas por coincidência muitos de nós somos cursilistas.

Quer dizer, era evidente. Então, esses congressos todos vão ter o mesmo enfoque, a mesma temática, respeitadas as peculiaridades de cada zona. E vão então reunir jovens, porque os jovens é que têm mais capacidade para compreender e acelerar o desenvolvimento. Isso dentro do tema de liderança cristã. Têm mais capacidade para compreender e acelerar esse desenvolvimento.)

Está vendo a ligação disso com o “Movimento Profético”, não é? A Igreja tem como finalidade de acelerar o progresso, o desenvolvimento. Então, exerce a liderança cristã que estimula o desenvolvimento. Não é que estimula a vida espiritual.3

[Continua o orador]4

(Sr. –: E é para moços de 18 a 25 anos, que tenham possibilidades e que se comprometem a desenvolver posteriormente programas vinculados a essa tarefa. E depois recursos têm bastante, porque as despesas de viagem correm por conta deles, hospedagem, etc., etc., tudo corre por conta deles. Eu tenho aqui alguns dos títulos de conferências que eles vão tratar, não sei se interessaria. Só os títulos: “A juventude e a problemática do desenvolvimento e integração da América Latina”, que vai ser feita por Juarez Rubens Brandão Lopes, de Campinas.)

(Sr. –: É irmão do Breno. Dr. Plinio.)

Ah, é?

(Sr. –: Casado… [falta palavra].)

Casado com quem?

(Sr. –: Com uma Toledo Piza que foi… [falta palavra].)

Os dois comunistas?

(Sr. –: Ele, inclusive no tempo do Jango tinha sido nomeado para, ou melhor, tinha sido nomeado para uma comissão qualquer. Aliás, o Breno é meio comunista também.)

(Sr. –: É,mas esse aí é o sensivelmente.)

Ah, o sensivelmente…

(Sr. –: Não comunista, mas jucelista avançado.

O que ele vai desenvolver nessa conferência é a situação econômico-social na América Latina, a juventude nessa realidade, modelos e processos do movimento-integração na América Latina, política de juventude e de governos, organizações voluntárias.

Depois, a outra vai ser feita por Carlos Medina, não sei se é conhecido. Vai falar sobre: “Processos e mudança social na América Latina”. Então, o fenômeno da mudança social, fatores estáticos e dinâmicos, a mudança sócio-econômica planejada, conflitos de valores e de poder, a juventude e as mudanças sociais. Estilos de comportamento social e individual.

Depois: “Desenvolvimento global e de comunidade”. Vai ser feita por: Mario Mendonça Laranjeira, Clovis Garcia e José de Paiva Salomão.)

Os dois primeiros são apóstatas. Mas olha, é capaz de ser o “Lema”, porque o “Zé Pedro” é todo dos Cursilhos. Mas não é provável.

(Sr. –: O Mario também está inteiramente nessas áreas.)

Ah, inteiramente.

(Sr. –: Dr. Plinio [?], há muitos anos atrás, um rapaz que agora é da… [falta palavra] … ele esteve no Cursilho. Era no começo dos Cursilhos aqui. E o Zé Pedro constava então como sendo um dos dirigentes.)

É, e ele é um dos dirigentes dos Cursilhos.

(Sr. –: Seria bom se esse rapaz pudesse dizer o que ele viu lá.)

É verdade, hein Fedeli.

(Sr. –: Eu o sondei mil vezes. É um japonês caladíssimo. Eu falo com ele novamente.)

(…)

(Sr. –: A outra conferência é sobre: “O serviço voluntário e ação juvenil”, feita por Luci Franco Montoro e Mario Espinosa.)

Mario o que?

(Sr. –: Espinosa.)

Espinosa é nome de judeu.

(Sr. –: Depois: “Técnicas de trabalho com indivíduos e grupos”, por Jorge Silveira Melo e Maria Espinosa de novo.

E depois tem um também sobre: “Justiça e paz”, que eles insistem muito. Serviço voluntário como instrumento de justiça e paz.

(…)

*_*_*_*_*

1 Nota que consta no microfilme.

Esta reunião foi anotada por: E. M. Franco Soares, em ??/12/69.

2 Idem.

3 Aparte do Sr. Dr. Plinio.

4 Idem a nota 1ª.

Auditório da Santa Sabedoria