Santo do Dia (Auditório da Santa Sabedoria) – 23/5/1969 – 6ª-feira [SD 256] – p. 3 de 3

Santo do Dia (Auditório da Santa Sabedoria) — 23/5/1969 — 6ª-feira [SD 256]

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[Este microfilme apresenta muitas correções manuscritas do mesmo datilografo; por isso adotamos os seguintes critérios:

os trechos entre colchetes e com “?”: são do original datilografado, muitas vezes riscados ou sem sentido;

os trechos apenas entre colchetes: são sugestões do cotejador;

as alterações manuscritas seguem-se sem qualquer sinal.]


Falsa reação contra a Renascença. Semelhante alternativa no mundo de hoje: prazer versus sinarquia. Alguns exemplos concretos.

Savonarola e a alternativa “prazer ou sinarquia”

Falsa reação contra a Renascença * Semelhante alternativa no mundo de hoje: prazer versus sinarquia * Alguns exemplos concretos

* Falsa reação contra a Renascença

tomar em consideração a época em que ele vivia. Era uma época em que na Itália do tempo dele, o luxo estava atingindo um alto grau de requinte. Mas era um requinte de abundância de dinheiro, de regalo da vida, mas era também um requinte de bom gosto, um requinte de beleza. Era uma beleza pagã, não era mais a beleza cristã da Idade Média, era, portanto, uma beleza certamente menos bela do que a beleza da Idade Média. Mas é uma coisa à qual, feitos esses descontos, não se podia recusar o qualificativo de beleza.

Bem, Savonarola apresentou-se como reagindo, em nome da Igreja, contra esse luxo, e reagindo contra essa imoralidade, e pregando, então, o extremo oposto: uma vida na qual toda forma de prazer, toda forma de alegria, toda forma de beleza estivesse completamente eliminada, completamente varrida; e que o objetivo era passar a Itália, daquele foco de grandeza e de elegância intelectual, para uma vida quotidiana apagada, sinárquica, cheia apenas de trabalho, de oração — mas não uma oração da Igreja Católica —, mas uma oração emburrada, aborrecida, irritada, mal-humorada, uma religião do mau humor, uma religião ácida, e uma efetiva pureza de costumes.

Os senhores estão vendo que se trata de um falso dilema. Savonarola [criticava?] [mitificava], na Renascença, algo de tão ruim, que foi por isso que o mundo se apodreceu. Mas ele, por outro lado, queria outra coisa muito ruim também.

* Semelhante alternativa no mundo de hoje: prazer versus sinarquia

Nós encontramos algo dessa alternativa no mundo contemporâneo? De que utilidade é essa comparação? Não sei se a pergunta está clara.

A alternativa que encontramos hoje é o conflito entre o gozo da vida, de um lado — aqueles que querem gozar a vida, luxo, dinheiro, prazeres, sensualidade, etc., etc., de um lado — e, de outro lado, aqueles que querem levar uma vida puramente sinárquica, socialista, trabalhista. A vida é só feita para o trabalho; trabalho o tempo inteiro, desde a manhã até à noite; nenhuma alegria, nenhum prazer, nenhuma beleza, nada que signifique uma distensão, mas apenas aquele trabalhar, trabalhar, trabalhar.

(Sr. –: …) [Pergunta assim indicada no microfilme: “vide verso”, em manuscrito. Mas não consta este verso no microfilme.]

É uma forma de capitalismo, já pré-socialista, e o socialismo. Os senhores vêem os ricaços com fortunas novas feitas hoje: eles já não têm a mentalidade de fazer grandes palácios, levar uma vida agradável, uma vida bela. Eles têm a mentalidade de reinvestir, aplicar, aplicar, aplicar, de maneira que o sujeito fica com uma fábrica, fica com duas fábricas, fica com duzentas fábricas, exagerando, ficaria com duas mil fábricas, levando o mesmo padrão de vida. Existe muito disso em ponto grande e pequeno.

* Alguns exemplos concretos

Toma por exemplo: eu via um sujeito no prédio de apartamento na Avenida Vieira de Carvalho; o prédio, em determinado momento, foi todo ele habitado por doutores, senhores de estudo, e de uma certa categoria, entre os quais estava minha família. Bom, e havia um vendeiro no andar térreo. Certamente, quem ganhava mais dinheiro que todos do prédio, era o vendeiro. Isso é uma coisa que eu dou por líquido. Mas, quando eu ia, uma vez ou outra, fazer adoração em Santa Ifigênia, eu voltava às cinco da manhã; ele estava limpando — ele, com uma saúde possante, uma coisa fabulosa — estava limpando, ele, uns estrados de madeira que [se] enchiam de graxas e de cera durante o dia, com água quente, que parecia vinda do inferno de tão quente, e com cáusticos, que eu não sei onde ele arranjava. Ele limpava com furor! Quando eu me levantava, ele já estava no balcão. Eu acho que enquanto eu dormia, ele não dormia, porque era para ganhar, para aplicar, para ganhar, para aplicar.

Depois, eu perguntei como é que vivia esse homem. Disseram-me:

Não, o senhor não sabe como é que esse homem vive? É muito simples: ele está muito rico, mas ele faz um negócio que é extraordinário.

Eu pensei comigo: “Eu, se fosse muito rico… quem sabe se aprendo a fazer esse negócio extraordinário!” Seria uma fórmula para alguns problemas. Já é [alguma?] uma vantagem a gente jogar alguns problemas à beira da estrada, não é verdade? Bem, então eu perguntei qual era a fórmula. [É o seguinte: ?]

Ele é especialista no seguinte: ele monta um botequim, e depois que o botequim está completamente montado, ele vende — expressão textual — “para algum moleirão que queira explorar”. E vai noutro bairro e abre outro botequim.

Os senhores estão vendo que vida isso representa, não é? E que riscos, e que conhecimento do métier, não é verdade? Bem, e diz que, ao cabo de algum tempo, ele tinha depósitos em bancos, tinha uma porção de coisas, não é? Estava rico, não é? Mas estava rico com esse trabalho. Fazer logo um botequim, encontrar logo um moleirão — é um homem de capacidade de trabalho comum, que em comparação [com ele?] e com os iguais dele, era uma lesma — e depois fazer outro botequim. Isso os senhores encontram em todas as escalas.

Uma vez eu vi uma pessoa da minha família, casada com um homem muito rico, uma discussão entre os dois; e a pessoa de minha família sustentava:

Dinheiro é bom a gente ter para ir à Europa, para comprar jóias, para luxar, para trazer tapetes persas e bibelots, etc., etc.

O outro disse:

Não, dinheiro é bom ter para reinvestir. A gente, em vez de ir à Europa, economiza e arranja dinheiro para uma operação de crédito, com base na qual se faz outra fábrica.

Essa pessoa perguntava:

Mas [de] é que adianta ter a fábrica, se não é para gozar a vida?

Ele não era muito explícito nas concepções, de maneira que não respondeu nada. Ele simplesmente assoou o nariz. É uma forma de responder.

Bem, mas os senhores estão vendo que eram duas concepções que se chocavam: a de minha parente era renascentista, e a dele era savanarolista, não é verdade? Os renascentistas queimaram Savonarola. Hoje os Savonarolas estão liquidando a Renascença. E aí os senhores têm um pequeno paralelo de coisas, circunstâncias e situações.

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Auditório da Santa Sabedoria