Santo do Dia – 13/5/69 – 3ª feira . 5 de 5

Santo do Dia — 13/5/69 — 3ª feira

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A Bagarre é o grande acontecimento que nós esperamos, cuja esperança é para nós o grande alento, e serve para nós de melhor fundamento para nossos atos e gestos de generosidade * A essência das revelações de Fátima é a essência de várias profecias do Antigo Testamento * No segredo de Fátima Nossa Senhora deve ter dito coisas muito duras à respeito do futuro da Igreja, e deve ter dito coisas muito duras a respeito do clero * Tudo leva a crer que o castigo da Igreja seja um dos elementos da profecia de Fátima * Quando a Igreja está insalubre, o mundo se torna insalubre. Uma insalubridade a tal ponto e tão suprema, tem de trazer uma convulsão suprema para o mundo * Há uma graça da Bagarre, por onde a Bagarre não atormenta, não apavora, nem sequer é recebida com uma fria indiferença, mas enche de alegria

* Leitura da ficha do dia

Hoje é a festa de Nossa Senhora do Rosário de Fátima. Festa também de São Roberto Belarmino, Confessor e Doutor da Igreja, jesuíta e cardeal chamado pelo Papa Bento XIV de “martelo dos hereges”. Confessor de São Luís Gonzaga, grande controversista. Feriu com golpe de morte a heresia dos inovadores e levou por toda a parte com o seu catecismo o conhecimento da Fé cristã, diz dele o martirológio romano.

* A Bagarre é o grande acontecimento que nós esperamos, cuja esperança é para nós o grande alento, e serve para nós de melhor fundamento para nossos atos e gestos de generosidade

Nós devemos fazer um comentário sobretudo a respeito de Nossa Senhora de Fátima. É um tema tantas e tantas vezes tratado entre nós, e entretanto deve ser comemorado sempre por nós com uma especial solenidade.

Dos múltiplos aspectos que o acontecimento de Fátima desperta, eu creio que há um que vem mais a propósito comentar ou assinalar no comentário desse ano. E o aspecto é o seguinte:

Os senhores têm muitas revelações de Nossa Senhora feitas ao longo dos tempos. Essas revelações, dir-se-ia à primeira vista que não falam da Bagarre, e que portanto o grande acontecimento que nós esperamos, cuja esperança é para nós o grande alento, e serve para nós de melhor fundamento para nossos atos e gestos de generosidade. Esse grande acontecimento nós não podemos confirmar nas revelações de Nossa Senhora; isto poderia parecer para nós um desapontamento.

* A essência das revelações de Fátima é a essência de várias profecias do Antigo Testamento

Assim, nós devemos antes de tudo ter em mira o acontecimento de Fátima, que é para nós um acontecimento de caráter profético, que mais do que tudo, como traço saliente no meio de todos os aspectos, tem este: Nossa Senhora prometendo ao mundo misericórdia caso o mundo se emende e faça a consagração que Ela pediu, e ao mesmo tempo ameaçando com castigos caso o mundo não se emende e não faça a consagração que Ela pediu. Esse esquema que é a essência das revelações de Fátima, esse esquema é a essência de várias profecias do Antigo Testamento.

Em relação aos judeus, em relação aos inimigos dos judeus, vários profetas se levantaram tendo exatamente a mesma linguagem. Quer dizer: “Aqui está tal cidade, tal país. Está tal homem que floresce, que se desenvolve, que está numa situação muito boa. Bem, mas ele pecou, e portanto a Justiça Divina se apresenta a ele e o coloca numa alternativa: bênção e louvores se se emendar, castigo se não se emendar”.

Bem, já a ameaça é um ato de misericórdia, porque Nossa Senhora ameaça por bondade, ameaça para não castigar, e como uma mãe que não querendo castigar o filho, diz: “Não faça tal coisa, porque se fizer, eu serei obrigada a punir”.

Quer dizer então, eu não quero punir, eu ameaço não é porque eu esteja com vontade de punir, mas é porque eu prefiro não punir, mas seu pecado é tal, sua situação é tal, que a perseverar, apesar dessa misericórdia, eu serei obrigada a punir.

Várias profecias são assim e Nossa Senhora fez tipicamente em Fátima uma profecia, no esquema dessas profecias.

Ora, os senhores vêem bem: passaram-se de 1917 para cá, cinqüenta e dois anos: ao longo desses cinqüenta e dois anos as coisas que Nossa Senhora se queixou em Fátima, que afligiram a Ela, no procedimento do mundo contemporâneo, essas coisas não só não melhoraram, mas pioraram todas, e não só pioraram mas pioraram espetacularmente.

E quando nós temos em vista que nós estamos, portanto, na pista do castigo, nós não podemos deixar de entender que essa fabulosa crise que se desenrola na Igreja está na linha do castigo. Porque, quando nós tomamos uma entidade como a Igreja, que está sendo castigada — porque isso que ocorre com a Igreja é segundo toda evidência um castigo — quando nós tomamos uma entidade que está sendo castigada, e nós vemos que Nossa Senhora prometeu ao mundo no qual essa entidade é o eixo, um castigo. A gente entende que o castigo que atinge o eixo, atinge toda a circunferência, e que, portanto, essa crise que lavra dentro da Igreja, é uma crise que está compreendida implícita ou explicitamente nos castigos de Fátima, e é exatamente a Bagarre dentro da Igreja, precursora e condição de todas as outras Bagarres.

* No segredo de Fátima Nossa Senhora deve ter dito coisas muito duras à respeito do futuro da Igreja, e deve ter dito coisas muito duras a respeito do clero

Agora, nós poderíamos nos perguntar: está bem, esta Bagarre dentro da Igreja não foi realmente contada em Fátima?

Existe o problema do segredo de Fátima. O que é que esse segredo contém? Não se sabe o que ele contém. Em primeiro lugar, não se sabe se ele contém uma só coisa, porque ele contém várias…, ou são vários os fatos previstos nesse segredo, ou se é um só, não se sabe. O segredo é um, mas pode conter muitos elementos.

Se Nossa Senhora tivesse prenunciado em Fátima o castigo da Igreja, é certo que isso teria sido mantido em secreto. Isso é certo. Ora, há um segredo que está mantido, tudo leva a crer que isso é um dos elementos do segredo. Nossa Senhora deve, no segredo, ter dito coisas muito duras à respeito do futuro da Igreja, e deve ter dito coisas muito duras a respeito do clero. E porque não se deu importância a isso, naturalmente caiu o que Ela prometeu.

Bem, então em vista disso, nós não podemos considerar que os castigos de Nossa Senhora em Fátima, prenunciados por Nossa Senhora em Fátima, são castigos que estão para acontecer, mas nós devemos considerar que são castigos que já começaram a acontecer. Quer dizer, é um sistema de castigos, é um processo punitivo que já se desencadeou. E se esse processo se desencadeou, é muito mais provável admitir que ele chegue até o fim do que admitir que ele pare. Eu daqui a pouco vou provar porquê.

O castigo: a Igreja é o centro do gênero humano, é uma sociedade sobrenatural, e é o que foi de mais elevado entre os homens, e toda história gira em torno da Igreja. A Igreja é o que Nossa Senhora mais ama na Terra: a salubridade da Igreja, é a condição para a salubridade, para todas as coisas morais e espirituais nesta Terra.

* Tudo leva a crer que o castigo da Igreja seja um dos elementos da profecia de Fátima

Bom, então eu destaco dois traços: o que Nossa Senhora mais ama na Terra é a Igreja, primeiro traço. Segundo traço: a salubridade da Igreja é condição para salubridade de todas as coisas da Terra. Ora, se eu considero o primeiro traço e eu vejo que Nossa Senhora castigou aquilo que Ela mais ama, será que Ela poupará aquilo que Ela poupa menos e que não está se emendando?

Os senhores compreendem que é muito duvidoso, tudo o que Ela [inaudível], não?

Vamos dizer, por exemplo, uma mãe que está educando um filho e vinte primos longe, todos cometem juntos o mesmo pecado. A mãe castiga esse filho duramente. A gente dirá que ela não vai castigar os parentes longe que ela está educando? Eu não quero dizer com isso que nós somos parentes longe de Deus, mas eu quero dizer que a proporção do afeto de algum modo pode se espelhar nessa comparação. E se o castigo começou na parte mais nobre, na parte que menos devia recear, que é a Igreja, não deve temer esse castigo a parte mais vil? E se persevera no mal, não tem todas as razões para recear?

Então, o castigo da Igreja nos faz ver que o normal — e seria muito de espantar se não vem o castigo para o mundo.

Segunda condição, segundo aspecto da questão é a salubridade da Igreja, é condição de tudo. Ora, a Igreja está insalubre como nunca na História. É possível que o mundo não seja contaminado com essa insalubridade? São dois argumentos.

Então, nós devemos ver já em curso toda a Bagarre. Isso deve nos levar a preparar as nossas almas para a Bagarre a crer na mensagem de Fátima.

Eu repito, portanto, esquematicamente o raciocínio.

Primeiro ponto: a mensagem de Fátima é uma profecia. Não é uma profecia oficial, como foi dos profetas do Antigo Testamento, do Apocalipse, mas é uma profecia autêntica, que tem todas as características de uma profecia: a denúncia de um estado altamente censurável, o convite a abandonar este estado, um convite amoroso a abandonar este estado, uma ameaça, a previsão de um castigo, e mais do que uma ameaça, a profecia de um castigo caso esse estado de coisas não seja abandonado. Esse é o primeiro dado.

Segundo ponto: esta profecia, no que ela tem de público, não fala de um castigo à Igreja, ou pelo menos não fala de um modo frisante, de um modo saliente, de um castigo à Igreja, mas fala de um castigo para o gênero humano. Fala a certa altura que o Papa vai ter muito de sofrer, mas não diz diretamente que os sofrimentos do Papa são por causa dos pecados da Igreja.

Mas a profecia tem um aspecto secreto, tem um segredo. Ora, nós vemos que a Igreja foi duramente castigada, está sendo duramente castigada. Nossa Senhora não terá falado desse castigo da Igreja? Naturalmente sim. Pois quem fala de castigo para o mundo é normal que fale do pior desse castigo que é o castigo para a Igreja, e é de pensar que isso esteja contido na parte secreta, tanto mais que se Ela falou, teriam mantido em segredo.

Logo é sumamente provável, tudo leva a crer que o castigo da Igreja seja um dos elementos da profecia de Fátima.

Se isto é verdade, a profecia de Fátima não é uma profecia que está para se cumprir, mas é uma profecia que já começou a se cumprir. Se é uma profecia que começou a se cumprir, nós devemos nos perguntar se há razões para esperar que este processo punitivo se detenha.

* Quando a Igreja está insalubre, o mundo se torna insalubre. Uma insalubridade a tal ponto e tão suprema, tem de trazer uma convulsão suprema para o mundo

Então, a resposta é: se este processo está chegando, quase se diria a seu termo, ao seu paroxismo em relação à parte mais amada e mais nobre, porque não chegará também ao seu paroxismo em relação à parte menos nobre e menos amada que é a sociedade civil? Enormemente amada, mas menos. Tanto mais que a sociedade civil não se emendou. Se ela tivesse se emendado… [inaudível], mas não se emendou. Ela persevera no pecado.

Depois, quando a Igreja está insalubre, o mundo se torna insalubre. E esta insalubridade do mundo, traz revoltas, traz exatamente a Bagarre. Uma insalubridade a tal ponto e tão suprema, tem de trazer uma convulsão suprema para o mundo. Portanto, nós devemos dizer que começou já na Igreja — e que começando na Igreja estão postas as causas por onde é inevitável que atinja a sociedade civil. Então, não é só dizer que o castigo já começou, mas começou na sua raiz. E quem golpeia esta raiz, golpeia a árvore toda. É assim que nós devemos ver a profecia de Fátima.

* Há uma graça da Bagarre, por onde a Bagarre não atormenta, não apavora, nem sequer é recebida com uma fria indiferença, mas enche de alegria

Alguns dos senhores poderá me dizer: “Dr. Plinio, o que eu não compreendo é o seguinte. Dia de Nossa Senhora de Fátima é dia de nossa Mãe, é dia da ternura, é dia do afeto; o senhor em vez de tratar da ternura e do afeto de Nossa Senhora, o senhor nos mostra Nossa Senhora numa análise seca, da profecia d’Ela, para tirar algo que nos atormenta, que nos estremece. É esta a festa de uma Mãe?”

Eu digo o seguinte: qual é o modo de festejar um profeta a não ser por um ato de fé na profecia? Ela foi por amor que revelou tudo isto. Ela nos dá a possibilidade de contemplar os altos desígnios de Deus, de contemplar a Deus enquanto Regedor de toda a História, como Autor de todos os movimentos que se fazem na História, inclusive enquanto Ele permite o mal, para daí tirar para si, sua maior glória. Há, portanto, mil razões que não cabem num Santo do Dia, para nós nos enlevarmos com isto e para nós adorarmos a Deus.



Mas, uma vez que Nossa Senhora falou, não há melhor ato de reconhecimento às palavras amorosas dela do que procurarmos entender as suas palavras e tomar a sério. E por isso, uma comemoração séria do dia de Fátima é uma análise séria e talvez esquelética da profecia.

Oxalá, Nossa Senhora, na alma de cada um de nós, dê as graças por onde isso frutifique naquela espécie de alegria, de entusiasmo, de desprendimento que a certeza da Bagarre dá. Porque há uma graça da Bagarre, por onde a Bagarre não atormenta, não apavora, nem sequer é recebida com uma fria indiferença, mas enche de alegria. É uma forma de zelo pela lei de Deus e pela glória de Deus, por onde a gente tem um alívio de ver que, afinal de contas, o Deus das vinganças está se aproximando e vai vencer, e que o Reino de Maria vai chegar. É a única forma de alegria que enche a alma do ultramontano que abnegou-se completamente de si mesmo.

É essa alegria que eu desejo ao senhores nessa noite que passou. Nós vamos rezar a ladainha do Imaculado Coração de Maria, uma vez que Nossa Senhora, numa de suas aparições, apareceu com o Coração à mostra, circundado de espinhos.

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