Santo do Dia (Auditório da Santa Sabedoria) – 28/4/1969 – 4ª-feira – p. 9 de 9

Santo do Dia (Auditório da Santa Sabedoria) — 28/4/1969 — 4ª-feira

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O ilogismo de não considerar a “Bagarre” e de não ver a morte de frente. Reflexão do Senhor Doutor Plinio diante de cadáver. A meditação dos Novíssimos. O Sr. Tsuneo ofereceu a vida pelo Grupo. Resolução, serenidade, tranqüilidade e distensão em seu semblante. Holocausto aceito por Nossa Senhora. Quantos estão dispostos a sofrer? Graças a pedir ao Sr. Tsuneo.

A morte do Sr. Fernando Tsuneo

O ilogismo de não considerar a “Bagarre” neste mundo que rui * Atitude ilógica em não ver de frente a nossa “Bagarre” individual, que é a morte * Reflexão que o Senhor Doutor Plinio sempre faz diante de um cadáver * Devemos meditar nos Novíssimos * Ao saber que estava fadado à morte, o Sr. Tsuneo ofereceu a vida pelo Grupo * Serenidade, tranqüilidade, distensão completa; ele prelibava o Céu * Rezou especialmente pelos trabalhos do Senhor Doutor Plinio em Serra Negra * Seu holocausto foi aceito por Nossa Senhora * Nosso Senhor quis que os nossos sofrimentos, orações e lutas se associassem aos d’Ele * Quantos são os que estão dispostos a sofrer? * Deus não quis o holocausto de Nossa Senhora como vítima expiatória, mas aceitou o de várias outras almas * Rezar pelo Tsuneo e pedir a intercessão dele * O que pedir a ele: devoção a Nossa Senhora, senso dos imponderáveis, sentir a “Bagarre” perto de si * Sua face indica resolução

motivo, o tema do Santo do Dia de hoje é imposto pela natureza das circunstâncias e não pode deixar de ser a respeito do falecimento do Tsuneo.

* O ilogismo de não considerar a “Bagarre” neste mundo que rui

Antes de tudo, eu queria dizer o seguinte: que nós, muitas vezes, tomamos uma atitude de espanto quando nós vemos as pessoas que não querem ver a “Bagarre” que se aproxima. Nós não compreendemos como é que em rigor de lógica as pessoas podem não querer ver de frente que a punição da Providência está chegando, que a hora da Providência está batendo à porta, e que, de um momento para outro, tudo isso pelo que essas pessoas têm esse apego delirante, a ponto de lhes fazer não verem a verdade evidente, que tudo isso, afinal de contas, é precário e pode ruir.

Ainda hoje estive conversando com uma pessoa agarrada a mais não poder à ordem atual das coisas e às vantagens que a atual ordem de coisas proporciona. E a pessoa depois, assim, num rápido comentário de uma ou outra notícia internacional, me disse: “É, realmente, isso aqui não dura”. Eu, para ver o que [é] que ela dizia, eu disse: “Seria um otimismo maluco dizer que essa coisa dura dez anos”. Diz a pessoa: “Não, muito menos do que dez anos. Daqui a pouco isso cai”. Logo depois, tomou o fio, retomou o fio da conversa. E o fio da conversa era o desinteresse a respeito de hoje em dia: o que fazer, como se defender, imposto de renda, isso e aquilo. A preocupação contínua é essa.

Quer dizer, sabe-se que essa ordem de coisas está ultra-abalada, mas no próprio momento em que o navio está afundando, as pessoas estão tratando de abrir as latas de conserva, de comer, de beber champagne, de perguntar no dia seguinte como é que elas vão se vestir para o baile do navio. É essa a mentalidade. E essa mentalidade nos parece de um ilogismo tremendo.

* Atitude ilógica em não ver de frente a nossa “Bagarre” individual, que é a morte

Ora, a mesma atitude que o homem de hoje toma em face da “Bagarre”, que nos parece tão ilógica, tão ilógica a ponto de as raízes psicológicas desse ilogismo nós custamos até a realizar quais possam ser, essa atitude nós temos diante de nós. E é a respeito daquilo que é a nossa “Bagarre” individual, que é a morte.

Nós custamos, em todas as idades da vida, inclusive entre os velhos, nós custamos a nos compenetrar, quando nós vemos um morto, de que nós morreremos, de que o nosso destino é aquele. Mais ainda: de que em nossa vida tudo é incerto, menos uma coisa — essa é certa: é que um dia nós vamos estar deitados num caixão daquele gênero e vamos para o cemitério. Se nós não morrermos num campo de batalha, durante uma guerra, num bombardeio durante uma guerra, de uma epidemia que uma guerra pode trazer, etc., etc., etc…. mas aquele é nosso futuro certíssimo. Todas as outras coisas são incertas. Aquilo é o que há de certo. A gente vai a um funeral, a gente pensa na família, a gente pensa na herança, a gente pensa no modo pelo qual vai dar as condolências, pensa na visita [Missa?] de sétimo dia, pensa em tudo, inclusive; não pensa no funeral. Não nós, naturalmente, mas nesses funerais por aí, quando há velório de um morto, todo o mundo em volta está conversando de negócio, está conversando de política, às vezes a gente percebe nos lábios desse ou daquele alguma risotinha: é um caso engraçado que sai, esporte e outras coisas no gênero.

Bem, o fato dominante que deveria impressionar todo o mundo é aquele: todos nós havemos de passar por aquilo, aquilo é o destino indiscutível que nos aguarda. Isso nós não queremos ver de frente. Quer dizer, nós sabemos, mas nós fazemos “ouvidos moucos”. O Pe. Antonio Vieira dizia muito bem o seguinte: “Do que adianta nós estarmos fazendo muitas investigações a respeito do fim do mundo, se nós não nos prepararmos para nosso fim de mundo individual?” E ele dizia muito bem; diz ele: “Para mim –– Pe. Antonio Vieira –– o fim do mundo é o dia [em] que [eu] morrer”. Porque no dia em que eu morrer, o mundo para mim morre. E a morte foi estabelecida por Deus de tal maneira que ela tem o caráter de uma catástrofe individual. A morte é uma catástrofe. O homem é composto de alma e corpo, e a alma se separa do corpo e o corpo apodrece. É uma catástrofe e, na ordem dos acontecimentos, é a maior catástrofe que pode acontecer.

Ali está um homem, ali está um moço, Tsuneo, um mocinho, estendido junto a nós. Por quê? Porque uma doença sorrateira, percebida a tempo, tratada com todo o desvelo, mas inexorável, levou-o à sepultura. Nós temos a certeza de que neste momento, esse processo não está se desenvolvendo em algum dos nossos? Nós temos certeza se, daqui a pouco, esse processo começa? Algum dos senhores dirá: “Mas, Doutor Plinio, eu sou tão moço!” Eu digo: “Que idade tinha Tsuneo?” Poucos aqui são tão moços quanto o Tsuneo. Disseram-me que ele tinha dezessete anos. Poucos aqui têm dezessete anos. Todos já passaram. Eu, quanto além dos dezessete anos estou…

Pois bem, a verdade é que isso pode nos atingir de um momento para outro e que Deus quis essa certeza da morte e essa incerteza sobre o momento da morte para nós vivermos bem, nós organizarmos nossa vida em função disso. Os senhores me dirão: “Doutor Plinio, isso é banal”. Eu direi aos senhores: “Não só isso é banal, mas isso é escandalosamente banal”. É escandaloso que se tenha que falar de tudo isso. Mas é tal a nossa fragilidade de homem que, se a gente não repete essas coisas em momentos oportunos, o homem se esquece disso.

Havia, na Europa, uma congregação religiosa, especializada em pregar retiros de Santo Inácio de Loyola. Alguns dos senhores fizeram um retiro, ou dois até, com padres dessa congregação, que passaram pelo Brasil. Eu fiz um retiro com alguns dos que estão aqui presentes. Eu fiz um retiro com eles na França, também. E os pregadores que eles tinham na França eram bem melhores dos que os que eles mandaram para cá. Um pregador exímio, que pregava a respeito da morte, o Pe. Romagnan — Romagnhan? —, alguma coisa assim. É Romagnan, creio eu. Bem, ele dizia durante a pregação o seguinte: “Eu estou dizendo aos senhores que os senhores vão morrer. Os senhores vão dizer que os senhores não vieram de tão longe para ouvir essa banalidade. Mas eu digo aos senhores o seguinte: é indispensável. Porque nós, padres, que pregamos sobre a morte, que fazemos habitualmente as nossas conferências sobre a morte, nós quando nos reunimos para analisar os frutos dos nossos sermões, nós chegamos à seguinte conclusão: o pregador fica com a ilusão de que diante dele passa um rio de mortais, aos quais ele ensina que vão morrer, e o pregador fica com a sensação de que não vai morrer”.

Esse era um homem que já tinha feito sessenta anos. De tal maneira o homem foge da morte e não quer se colocar diante dessa realidade de que vai morrer e, mais ainda, de que ele pode morrer de um momento para outro; os cemitérios estão cheios de pessoas das idades dos senhores. Da minha idade, então, nem se fala!

* Reflexão que o Senhor Doutor Plinio sempre faz diante de um cadáver

Bem, então de tal maneira o homem tem horror a isso que, se os senhores querem aproveitar a graça que a morte do Tsuneo representa para nós, a primeira coisa que os senhores devem fazer quando estiverem presentes lá, diante do cadáver, é pensar nisso: eu já me imaginei deitado, eu, aqui, com a idade que eu tenho agora? Eu já imaginei isso? Como é que será quando chegar a minha vez de exalar o meu espírito? E de dar contas? Quer dizer, essa é a reflexão que eu nunca deixo de fazer quando vejo um cadáver. Já fiz hoje em presença do Tsuneo, me preparo para fazer de novo, porque a natureza humana foge dessa reflexão.

Ora, essa reflexão é abençoadíssima. Nosso Senhor Jesus Cristo disse o seguinte: "Medita nos teus novíssimos e não pecarás eternamente"1. Quer dizer, quais são os Novíssimos do homem? Exatamente: morte, juízo, Céu, e Inferno. São os quatro Novíssimos do homem. Quer dizer, novíssimo, novus, em latim, quer dizer “último”. Novíssimos são as quatro ultimíssimas coisas que vão suceder ao homem. São essas quatro.

* Devemos meditar nos Novíssimos

Nós devemos meditar sobre essas coisas, ter os olhos postos nessas coisas. A vida humana toma outra beleza quando iluminada pela morte. A morte não é um horror. A morte é uma verdadeira beleza. Qual é a noção que a morte nos dá? Os senhores já imaginaram que baixa de nível seria a vida humana se o homem devesse viver a vida inteira nesta Terra? Se a nossa finalidade não fosse outra, senão essa vida terrena? Como seria uma coisa horrorosa, insuportável?

Quem é dos senhores que gostaria de agora comparecer perante Deus e dizer: “Eu aceito, de maneira irrefragável, viver quinhentos anos. Dai-me quinhentos anos de vida”. Os senhores ousariam? Ainda que fossem quinhentos anos com a idade que os senhores têm agora! Os senhores imaginam, durante quinhentos anos ficar numa universidade, estudando? Ou então, formado: advogar durante quinhentos anos, clinicar durante quinhentos anos, fazer negócios durante quinhentos anos! Quem é que queria uma coisa dessas?

Agora, imaginem para toda a eternidade. Nunca morrer. Ficar a vida inteira fazendo negócios. Quem é que queria uma coisa dessas? Quem não vê que exatamente uma das belezas sinistras e sublimes da vida é essa catástrofe tão grande, que tudo quebra, tudo desaparece, tudo fica pequeno.

E por detrás se levanta uma outra escala de valores. E a escala de valores é esta: há em nós, homens, uma apetência de felicidade absoluta. Nós desejamos isso com o fundo de nossas almas, e só consideramos verdadeira a felicidade que seja absoluta. Entre as condições para uma felicidade ser absoluta, é preciso que ela seja eterna. Porque se a gente tem a idéia [de] que ao cabo de quinhentos anos pode nos acontecer uma coisa desagradável, de vez em quando vem aquela idéia nos toldar essa visão. Os senhores querem ver a prova? Os senhores imaginem que todos os homens vivessem mil anos, mas que só um dos senhores tivesse que viver quinhentos anos, depois morreria. Diria: “Oh, pobre de mim, ceifado no meio dos meus dias!” A morte daqui a quinhentos anos, o apavoraria, não é verdade?

Bom, então o que nós concluímos daí? A felicidade, nossa alma deseja que seja eterna para ser perfeita. E se nós –– isso é o argumento, um dos argumentos que a Igreja dá para justificar a existência do Céu ––, se nossa alma deseja isso, se ela é feita para desejar isso, na natureza todas as coisas alcançam o fim para que são feitas. Nós não vemos uma coisa na natureza que não alcance o fim para o qual é feita. Se as nossas almas foram feitas para desejar essa felicidade eterna, é absurdo que essa felicidade não exista. Agora, não pode ser nesta vida, uma vez que tem que ser eterna. Tem que ser eterna para ser completa. Logo, tem que ser na outra vida. Os senhores estão vendo, por detrás desse estralhaçamento da morte, por detrás dessa quebra que a morte representa… [1 linha em branco] …então, nós compreendemos que a morte é um pórtico negro, mas que do outro lado está o Céu. O Céu, se nós nos pendurarmos na oração, se nós nos colocarmos aos pés de Nossa Senhora, se nós rezarmos, aí o Céu nos aguarda.

E a força de enfrentar a morte é uma coisa muito rara. Há pessoas que só da idéia de morrer, estremecem. Eu tive um parente que — aliás, morreu de repente — que dizia o seguinte: “Eu tenho tanto medo de morrer, que eu não sei como é que eu não morro de medo de morrer. Eu não posso nem pensar em morrer, que eu já me sinto mal”.

* Ao saber que estava fadado à morte, o Sr. Tsuneo ofereceu a vida pelo Grupo

O nosso Tsuneo, pelo contrário, teve essa circunstância na sua vida: uma vida extraordinariamente breve, vida breve, presença no Grupo relativamente breve; ele foi colhido pelo convite da morte. Em determinado momento, ele soube que ele estava doente, irremediavelmente fadado à morte. E ele foi convidado a oferecer a morte pelo Grupo. Ele levou, Dr. Haddad hoje me disse pelo telefone, um ano e três meses — se não me engano, não é? — um ano e três meses para morrer. Os senhores estão vendo que durante grande parte desse tempo ele teve… [Há] Quanto tempo foi informado a ele que a doença dele era incurável? Em dezembro, em fins de dezembro. Os senhores estão vendo, portanto, que janeiro, fevereiro, março, quase todo o mês de abril, ele teve com a morte diante de si.

* Serenidade, tranqüilidade, distensão completa; ele prelibava o Céu

Quase todos os senhores que estão aqui estiveram no quarto dele e puderam apreciar a serenidade, a tranqüilidade que reinava naquele quarto, a distensão completa. O que me chamou muito a atenção nele é a distensão completa dele. Ele estava no quarto: as vezes que eu fui visitá-lo, não tinha no rosto — e percebia-se, através da coberta, que ele não tinha no corpo — um músculo que estivesse crispado, que estivesse contraído, nada que representasse angústia. A gente tinha impressão de que os Anjos já velavam sobre ele e que tinham feito uma cortina em torno dele. Ele já falava da vida como [algo] de longínquo, algo de distante, algo que não deveria mais, não era mais para ele. A gente via que ele prelibava o Céu.

* Rezou especialmente pelos trabalhos do Senhor Doutor Plinio em Serra Negra

Umas duas ou três vezes durante esse tempo, a gente vê que passou pelo espírito dele uma efêmera idéia de que ele pudesse sarar. Mas passou mais ou menos como uma nuvem ligeira passa, tocada, pelo céu; tocada, ou melhor, mais ou menos como uma nuvem ligeira passa pelo céu tocada pelo vento. Aquilo passou, ele sempre com aquela determinação de oferecer a vida dele pelo Grupo. Na última, na penúltima comunicação que eu tive com ele foi um bilhete que ele me escreveu, em que ele perguntava como é que tinham ido os dias de Serra Negra, porque ele tinha rezado muito para que esses dias fossem bons.

Várias vezes, em Serra Negra, eu vendo como os estudos que fazíamos lá corriam bem, me lembrei disso: existe uma alma que está se oferecendo isso; existe uma alma que está se imolando por isso, que está num leito de sofrimento, encarando de frente a morte.

* Seu holocausto foi aceito por Nossa Senhora

Alguém dirá: “Um leito de sofrimento em termos, porque ele sofreu pouco, relativamente. Exatamente, a assistência que ele teve, a proteção de Nossa Senhora levaram-no a não ter muito as dores características do câncer de que ele morreu.” É bem verdade. Mas o sofrimento moral? O que representa? Pois bem, agora, como uma vítima agradável a Nossa Senhora, o Tsuneo morreu. Ele foi levado por Nossa Senhora. Ela aceitou o holocausto. O que representa isso?

* Nosso Senhor quis que os nossos sofrimentos, orações e lutas se associassem aos d’Ele

Nosso Senhor Jesus Cristo quis sofrer e morrer por nós. Ele rezou por nós, Ele trabalhou por nós em sua vida terrena. Mas Ele quis que sua obra, que seria superabundantemente suficiente para tudo — uma gota por Ele derramada na circuncisão, teria o valor suficiente para redimir todo o mundo, todo o gênero humano —, Ele quis que essa Redenção custasse muito mais do que isso. E Ele quis que os homens todos fossem resgatados não só pelo sofrimento d’Ele, mas pelo sofrimento dos outros homens, e que uns fossem salvos pelo sofrimento dos outros. Ele também rezou por nós, mas Ele quis que as nossas orações se associassem às d’Ele. Ele lutou por nós, mas Ele quis que nossa luta se associasse à d’Ele.

* Quantos são os que estão dispostos a sofrer?

Bem, na prece, na luta, Nosso Senhor [as] quer na dor. Há muita gente que está disposta a agir. Por esse mundo afora, muita gente fala em apostolado. Há muita gente que fala em oração. Meus caros, quantos são os que estão dispostos a sofrer? Quantos são os que estão dispostos a dizer: “Eu me ofereço, eu me imolo, aqui estou eu. Minha vida, Nossa Senhora a tome. Meus bens, Nossa Senhora os leve. Minha saúde, Nossa Senhora disponha dela como quiser. Minha honra, minha consideração social, a situação que eu ocupo junto aos outros, tudo Nossa Senhora leve, eu ofereço pela Santa Igreja Católica, eu ofereço por esse interesse da Santa Igreja Católica, que é o Grupo”.

Nosso Senhor se queixou, no Horto das Oliveiras, da solidão d’Ele. Até o alto da Cruz, Ele estava só. Essa solidão se prolongou. Poucas almas quiseram morrer com Ele, poucas almas quiseram sofrer junto com Ele para a Redenção dos homens, para a salvação dos homens… [¾ de linha em branco] …para a salvação dos homens.

Bem, a gente compreende que de vez em quando Nossa Senhora peça a alguém esse sacrifício. A algum é o sacrifício de uma imolação contínua ao longo da vida; [a]os outros é o sacrifício da própria vida. Deus tem seus desígnios sobre cada um.

* Deus não quis o holocausto de Nossa Senhora como vítima expiatória, mas aceitou o de várias outras almas

Nossa Senhora ofereceu-se para… Conta Maria de Ágreda que Nossa Senhora ofereceu-se como vítima expiatória, para Deus levar a vida d’Ela, quando Ela viu a Igreja começar e começar a acontecer coisas na Igreja que não deviam acontecer. Mas Ela foi arrebatada num êxtase até o mais alto dos Céus, e no êxtase foi dito a Ela que os desígnios da Santíssima Trindade não eram esses e que Ela devia ficar na Terra, e que Ela… [¼ de linha em branco] …Rainha dos Mártires, não seria mártir. São os desígnios de Deus.

Mas a outras almas Deus pede: “Dá-me a tua vida, ó meu filho”. Pediu ao Tsuneo. O Tsuneo deu. Nós temos um exemplo de transcendental importância nesse ponto, que foi Santa Teresinha do Menino Jesus. Santa Teresinha não foi a vítima do Amor Misericordioso, pedida para o bem de todas as almas? Com que largueza ela deu sua vida e depois suscitou uma série de outras almas que também se imolaram com ela para o bem da Igreja Católica!

* Resar pelo Tsuneo e pedir a intercessão dele

O Tsuneo morreu pelo Grupo. O que foi pedido a ele foi que ele expiasse pelo Grupo e que no Céu ele fosse protetor do Grupo. E ele aceitou isso. De maneira tal que nós temos todas as razões agora para confiar em que ele seja para nós um intercessor. Nós, olhando para ele, devemos olhar como para aquele que está ali por nós. Como se ele tivesse recebido no peito dele um tiro que era para nosso peito. Nós devemos agradecer a ele. Nós devemos com isso dar glória a Nossa Senhora que suscitou essa vocação.

Nós devemos fazer mais: nós devemos rezar por ele. Porque por mais bela que tenha sido a morte dele, até os santos canonizados podem passar pelo Purgatório. Nós devemos pedir para ele sair logo do Purgatório… [¼ de linha em branco] …as intenções desta noite, dos que estarão lá, dos que estarão em outros lugares… [¼ de linha em branco] …por todos os lugares, que o Tsuneo faleceu, para rezarem por ele.

Mas nós já podemos rezar para ele. Em que sentido da palavra? Não é preciso ser um santo de altar para a gente conseguir a intercessão de alguém. Basta que a gente saiba, tenha razões ponderáveis para achar que essa alma esteja no Céu, ou no Purgatório –– mas uma alma salva. Se nós tivemos com ela um vínculo qualquer, podemos rezar por ela. O Tsuneo deve estar no Céu. Se não estiver no Céu, está no Purgatório. Feliz dele que já não tem o risco de cair no Inferno!

* O que pedir a ele: devoção a Nossa Senhora, senso dos imponderáveis, sentir a “Bagarre” perto de si

Devem rezar para ele. Rezar para quê? Que intenções? A primeira das intenções para cada um de nós deve ser, evidentemente, a própria santificação, quer dizer, unirmo-nos cada vez mais a Nossa Senhora, unirmo-nos cada vez mais aos patronos do Grupo, entre os quais São Luís Grignion de Montfort, em cuja festa o Tsuneo faleceu, Santa Teresinha do Menino Jesus, os Santos Anjos. Nós devemos pedir ao Tsuneo pelo Grupo.

Agora, o que nós devemos pedir pelo Grupo? Nós devemos pedir especialmente o seguinte: há umas tantas reflexões que elevam nossas almas para o Céu, que nos tornam… [¼ de linha em branco] …

São reflexões que Nossa Senhora indica que Lhe são agradáveis e que, por isso, nós devemos ter a alma voltada para elas. A primeira das coisas que nós devemos pedir, e que eu acho que é a coisa mais abençoada que há, é pedir ao Tsuneo que nos obtenha de Nossa Senhora, pedir a São Luiz Grignion de Montfort, cuja festa é hoje, pedir a Santa Teresinha do Menino Jesus, que é nossa padroeira constante, pedir que coisa? Pedir a graça de nós termos esse senso dos imponderáveis, senso do sobrenatural dos imponderáveis por onde a pessoa como que, sente a “Bagarre” perto de si. É preciso isso. Isso é uma coisa que não se faz apenas com sacrifícios, com demonstrações. Eu já fiz uma longa conferência… [¼ de linha em branco] …que tudo indica que a “Bagarre” esteja próxima. As demonstrações não bastam. Há um senso por onde a gente pressente a “Bagarre”. E é uma das graças de Itaquera, exatamente, esse pressentimento da “Bagarre”… [¼ de linha em branco] …pelo ar esse pressentimento da “Bagarre”.

A segunda idéia é de que a “Bagarre” não tardará. Não é num futuro tão remoto, que é como se ela nunca devesse vir. … [2 linhas em branco] …

Bem, sempre que as almas se afervoram nessas idéias, eu as vejo aumentar no amor de Deus, o amor a Nossa Senhora, vencerem as tentações, progredir na vida espiritual. Sempre que as almas decaem dessa posição, essa convicção vai se tornando longínqua e pardacenta, sempre que isso acontece as almas vão caindo. É irremediável. O que mostra que Nossa Senhora quer de nós uma convicção viva disso. Se Ela quer, vamos pedir a Ela. E o modo de pedir a Ela é pedir por meio de um intercessor que Ela hoje nos deu… [¼ de linha em branco] …

Os senhores dirão: “Mas, Doutor Plinio, o senhor não pede outra coisa: pureza… [½ linha em branco] …”

Eu digo: “Como não! De toda a alma, tudo”. Dr. Caio citou, outro dia, uma frase de Santa Teresinha, que eu achei muito bonita. Dizia: “Je choisis tout”, “eu escolhi tudo”. Perguntando provavelmente que graça ela escolhia, essa, aquela, ou aquela outra, ela disse: “Eu escolhi tudo”. Também para mim, para os senhores, eu escolho tudo, é evidente. Mas vamos concentrar a nossa atenção na graça-chave. Antes de tudo, é claro, a devoção a Nossa Senhora. Mas logo depois, é esta: ter isso bem vivo diante dos olhos. Isso nos traz as outras graças. O membro do Grupo que tem isso vivo, ele progride. Quando ele começa a decair, isso se torna pardacento nele. Então, isso é que nós temos que pedir.

Não tenho mais nada que acrescentar, senão que nossas orações de hoje são feitas pelo Tsuneo e que são feitas para o Tsuneo, para que Nossa Senhora faça com que ele, quanto antes, tenha a visão de Deus face-a-face, se é que já não a tem, e que ele, ali, seja o nosso intercessor. Essas são as palavras de hoje.

* Sua face indica resolução

Os senhores vejam que lindo fato. Creio que todos da sala ouviram isso, não é? Que o João Paulo Matos disse que o Tsuneo há muito tempo não sorria, mas que quando se falou em Itaquera, ele, que há muito tempo não sorria, sorriu de satisfação. [O] Tsuneo não está, entretanto, sorrindo. A face dele não indica o sorriso tranqüilo que ele tinha em vida. A face dele, segundo eu interpreto, indica resolução. O que aquela face ali diz é o seguinte: “Eu quis até o fim, até o último momento, aquilo que eu tinha”. É isso que a face dele indica. Eu acho que não há [algo] mais bonito do que isso.

(Sr. –: [inaudível])

Eu disse isso: nós devemos pedir a devoção a Nossa Senhora, a união com o Grupo, depois nós devemos pedir as graças referentes a “Bagarre”, que eu enumerei aqui.

(Sr. –: [inaudível; fala a respeito de algo sobre a morte de que Doutor Plinio falara.])

Ah! bem no começo. Eu disse isso: que nós devemos [nos] compenetrar de que a morte pode nos colher a qualquer momento. E isso é um dos Novíssimos, e que Nosso Senhor prometeu que quem meditasse nos Novíssimos não pecaria eternamente. Não se pode conceber uma bênção mais nobre do que essa, não é verdade? Então, eu recomendei que se meditasse nisso junto ao cadáver dele.

Bem, vamos encerrar isso.

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1 Palavras do Livro do Eclesiástico, 7,40.

Auditório da Santa Sabedoria