Santo
do Dia (Sala dos Alardos [Auditório da Santa Sabedoria?] ) –
3/4/1969 – 5ª-feira – p.
Santo do Dia (Sala dos Alardos [Auditório da Santa Sabedoria?] ) — 3/4/1969 — 5ª-feira
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[Adotamos os seguintes critérios:
os trechos entre colchetes e com “?”: são do original datilografado, muitas vezes rasurados ou sem sentido;
os trechos apenas entre colchetes: são sugestões do corretor, e algumas do cotejador.
As muitas correções manuscritas neste microfilme não permitem distinguir se são “burilações”, penteados, meras adaptações, ou de que forma foram proferidos pelo Senhor Doutor Plinio.]
Três elementos essenciais na narração da Última Ceia. O valor da Missa. Alegria e tristeza no banquete eucarístico. O Sagrado Coração de Jesus: santidade inesgotável, bondade, sabedoria e equilíbrio. Ter a alma nas próprias mãos. Deformações revolucionárias do amor e verdadeiro amor ao próximo. Imitar a Deus no amor e no ódio às criaturas.
Evangelho da Paixão – V. A Santa Ceia
A leitura do Evangelho * Os três elementos essenciais deste trecho do Evangelho * O valor do Santo Sacrifício da Missa * Misto de alegria e tristeza no banquete eucarístico * O Sagrado Coração de Jesus, símbolo de santidade inesgotável, cheio de bondade, sabedoria e equilíbrio * Ter a alma nas próprias mãos, fazendo o que Deus quiser * Deformações revolucionárias do amor e verdadeiro amor ao próximo * Amar ou odiar as criaturas como Deus as ama ou odeia
“Quinta-Feira Santa, instituição da Santíssima Eucaristia”, é tirado da “Concordância dos Santos Evangelhos” de D. Duarte Leopoldo e Silva.
* A leitura do Evangelho
Durante a ceia tomou Jesus o pão e, depois de ter rendido graças, benzeu, partiu e deu aos seus discípulos dizendo: “Tomai e comei, [porque?] isto é o Meu Corpo que é dado por vós; fazei isto em memória de Mim”.
Depois da ceia, do mesmo modo, tomou o cálice, rendeu graças e o deu a seus discípulos, dizendo: “Bebei todos Este, porque isto é meu sangue, o sangue da nova aliança que será derramado por vós e por muitos na remissão dos pecados. Ora, [Eu] vos digo que d’ora em diante não mais beberei do fruto da vinha, até o dia em que o beberei de novo, e convosco reinarei no reino de meu Pai”.
Entretanto, disse Jesus: “Eis aí, a mão daquele que me há de entregar, está comigo à mesa”. E começaram os discípulos a perguntar uns aos outros qual deles seria que tal [coisa] houvesse de fazer.
Ora, estava reclinado sobre o peito de Jesus, um de seus discípulos a quem Ele amava, e este, pois, acenou. Simão Pedro lhe disse: “De quem fala Ele?” Reclinando-se, então, [este] discípulo sobre o peito de Jesus, perguntou:
–- Senhor, quem é?
–- É aquele — respondeu Jesus — a quem [lhe?] [Eu] apresentar o pão molhado.
Tendo molhado o pão, o deu a Judas Iscariotes, filho de Simão e depois daquele bocado entrou nele Satanás. Então lhe disse Jesus: “O que tu fazes, faze-o depressa”.
Mas nenhum dos que estavam à mesa compreendeu porque lhe dizia isto. Como era Judas quem tinha a bolsa, pensavam alguns que Jesus lhe tinha dito: ”Compre o que é necessário para a festa”, ou “Dê alguma coisa aos pobres”.
Judas, porém, tomando o bocado saiu imediatamente, já de noite. E assim que ele saiu, disse Jesus: “Agora foi glorificado o Filho do Homem e Deus foi glorificado n’Ele. Se Deus [o tem?] [foi n’Ele] glorificado, também Deus há de glorificá-Lo em Si mesmo e há de glorificá-Lo brevemente”.
“Meus filhinhos, por pouco tempo ainda estarei convosco; haveis de procurar-Me, mas como disse aos judeus, aonde Eu vou, vós outros não podeis vir, o mesmo vos digo agora”.
“Eu vos dou um mandamento novo: é que ameis uns aos outros, de sorte que vos ameis mutuamente, assim como Eu vos amei. Nisso conhecerão todos que sois meus discípulos, se vos amardes mutuamente”.
Perguntou-lhe Simão Pedro:
–- Senhor, para onde ides?
–- Para onde [Eu] vou — respondeu Jesus — tu não podes seguir-Me agora; seguir-Me-ás, porém, mais tarde.
–- Por que — replicou Pedro — não posso seguir[-Vos] agora? Eu darei por Vós a minha vida.
Respondeu-lhe Jesus:
–- Darás a tua vida por Mim? Em verdade te digo: não cantará o galo sem que Me tenhas negado três vezes.
* Os três elementos essenciais deste trecho do Evangelho
Este Evangelho é tão cheio de ensinamentos e é tão augusto, que quase não se sabe o que dizer a respeito dele. Ele contém três elementos essenciais, além de uma multidão de lições, e o primeiro elemento é a instituição da Santa Eucaristia e a celebração da primeira Missa.
O segundo elemento é o mandamento novo de amor recíproco aos homens, e o terceiro elemento que está menos frisado no Evangelho, mas que depois foi mais acentuado pela Teologia, pelos místicos, etc., é a devoção ao Sagrado Coração de Jesus, representada pelo gesto de São João Evangelista, quando ele reclinou a cabeça sobre o peito de Nosso Senhor e falou com Nosso Senhor, e ouviu naturalmente o pulsar do Coração Divino. Com certeza, entendem os místicos, ele teve nesse momento uma revelação da devoção ao Sagrado Coração de Jesus. E esses são os três elementos principais além de outros elementos que há para considerar.
* O valor do Santo Sacrifício da Missa
Eu não sei [se o] pintor –– vamos falar primeiro da instituição da Sagrada Eucaristia –– eu não sei que pintor fez uma vez um quadro [em] que ele representava o fim do mundo. E o fim do mundo era visto por ele da seguinte maneira: Deus com tudo preparado para exterminar a humanidade, descontente com a humanidade, mas a cólera divina suspensa; e todas as coisas que estavam preparadas para o último extermínio, suspensas também porque no ponto central do quadro um sacerdote dizia a última Missa. Enquanto a Missa fosse celebrada, Deus interromperia até o efeito de sua cólera e não permitiria que o mundo acabasse; terminada a última Missa, o mundo acabaria.
Essa visão, que me parece, por mais trágica que [ela] seja, um pouco otimista em relação ao fim do mundo, porque supõe no fim do mundo, [necessariamente] um sacerdote digno para celebrar a Missa; essa visão que com gemidos nós achamos bem otimista essa visão contém, entretanto, uma grande verdade e que é que aquilo que fundamentalmente suspende [a?] [os efeitos da] cólera de Deus sobre o mundo, em qualquer época da História, fundamentalmente é o Santo Sacrifício da Missa.
É porque Nosso Senhor Jesus Cristo se imolou na Cruz e nos resgatou, é por causa disto que se tornou possível para nós o Céu, que se tornou [aberto para nós?] [para nós aberto] o Céu. Nós não aplacaríamos a ira de Deus, quer pelo pecado original, quer pelos [nossos] pecados subseqüentes, nós não aplacaríamos a ira de Deus só por nós, mas em união [com] Nosso Senhor Jesus Cristo e com o sacrifício d’Ele, infinitamente valioso. Então, [efetivamente?] [realmente] é-nos possível entrar no Céu, é possível obter o perdão de Deus, é possível obter a graça de Deus, e por esta forma o caminho do Céu [nos] foi aberto pelo sacrifício da Cruz.
Ora, acontece que a Missa não é senão uma renovação incruenta do Santo Sacrifício da Cruz, e cada vez que se celebra a Missa –– que Nosso Senhor mandou aqui — cada vez que se celebra a Missa, renova-se de modo incruento o [Santo?] Sacrifício da Cruz. De maneira que por essa seqüência de renovações que se faz mais ou menos [por] toda a face da Terra, por essa seqüência de renovações, acontece que Deus atendendo às preces infinitamente valiosas de Cristo, atendendo ao Sacrifício d’Ele que [tem também?] [também tem] valor infinito, está a todo momento perdoando os homens, está a todo momento novamente concedendo graças ao homens e, fundamentalmente, as graças todas que nós recebemos, [nos] vêm da Redenção de Nosso Senhor Jesus Cristo, portanto do Santo Sacrifício da Missa, do Santo Sacrifício da Missa e da Sagrada Eucaristia.
Como [nós] todos [nós?] bem sabemos, a Sagrada Eucaristia, resultado da consagração feita na Missa, é guardada entre uma Missa e outra, e é Nosso Senhor [presente] realmente [presente?] entre os homens, de maneira tal que, entre uma Missa e outra, a presença real de Cristo na Terra não cessa, os homens podem continuar a adorá-Lo, e [ademais?] [há mais] ainda, [com a?] [na] comunhão essa presença se torna [mais?] efetiva dentro de nós e, nós recebemos Nosso Senhor Jesus Cristo dentro de nós. É por essa [ação multiforme?] [multiforme ação] de Cristo que a história do mundo se desenvolve, é por essa [ação multiforme?] [multiforme ação] de Cristo que a virtude cresce, que a Igreja cresce, que a Igreja se expande, e que Ela cresce até quando [a Igreja?] [Ela] parece minguar; que Ela cresce até quando [Ela] parece diminuir; [por]que a Igreja tem isso de próprio: que quando Ela é atacada pelos piores ataques e parece sofrer as piores derrotas, nesse momento Nosso Senhor Jesus Cristo dá a Ela forças renovadas, maiores do que o ataque que Ela teve, e Ela volta à carga mais forte do que nunca.
Nós mesmos representamos algo disso. Nós representamos a Contra-Reforma dessa monstruosa [pseudo-]reforma que é a igreja atéia, progressista, que tantos estão querendo instalar em nossos dias. Está bem, nós recebemos graças especiais para isso, graças mais preciosas talvez do que muitos que nos antecederam e que representam o redobrar de energias da Igreja contra os adversários redobrados que contra Ela se erguem. Tudo isso nós recebemos por causa do Sacrifício da Cruz, por causa da Missa, por causa da presença de Nosso Senhor Jesus Cristo na Sagrada Eucaristia, por causa da presença d’Ele em nós.
* Misto de alegria e tristeza no banquete eucarístico
É um dia, [portanto], que a Igreja celebra com certo caráter de festa, porque é um dia [especialmente?] [inapreciavelmente] importante para a vida d’Ela, mas é um caráter de festa que vem acompanhado de tristeza, porque, se bem que a Eucaristia seja um Sacramento de si alegre, é um banquete festivo, é um júbilo para o católico poder comungar, poder receber Nosso Senhor, etc., há uma série de nuvens que pesam sobre essa festa e já são as nuvens do dia de amanhã.
Os senhores vêem neste banquete aqui, que deveria ser um banquete alegre, Nosso Senhor [está entretanto?] [entretanto está] triste. Há um misto de alegria e de tristeza neste banquete, como há um misto de censura e de afeto aos Apóstolos, há um misto de esperança e de apreensão. Tudo se mescla neste banquete, que é de uma grandeza tal que o homem se sente pequeno diante da vacilação de perspectivas que lhe causa. Não pode haver coisa mais jubilosa para a Terra do que a notícia da sua Redenção, não [pode] haver coisa mais triste do que a notícia de que o Homem-Deus vai ser traído, vai ser morto.
Não pode haver coisa mais alegre para a Terra do que a idéia de que [Nossa Senhora daqui a pouco?] [daqui a pouco Nossa Senhora] vai receber a Sagrada Eucaristia, que segundo parece foi levada a Ela pelo ministério dos Anjos, e Ela comungou antes mesmo dos Apóstolos terem comungado. Feita a Consagração, imediatamente a hóstia foi levada para Ela e Ela teria sido a primeira pessoa do mundo a receber a Sagrada Eucaristia. Não há coisa mais bela do que nós imaginarmos essa glória que Nosso Senhor recebeu d’Ela, os senhores podem imaginar o que foi a primeira comunhão de Nossa Senhora, o êxtase, o enlevo, [o ardor, o enlevo?] [o enlevo, o ardor], a alegria, enfim, tudo quanto isto significou, mas depois não há coisa mais triste do que a afirmação de que um discípulo vai trair.
Mas depois, de outro lado, vem uma coisa jubilosa. Nós vemos os Apóstolos inquietos com a notícia de que entre eles havia um traidor e os senhores vêem uma certa amizade [entre eles?] [neles] nascer. E os senhores vêem aquele convívio de Nosso Senhor com São João Evangelista, tão afetuoso que convida todos os homens, em toda a história do mundo [ao?] [se] tratarem com o mesmo afeto, com a mesma intimidade, a reclinarem a fronte sobre o peito d’Ele, pensarem no Coração d’Ele, adorarem o Coração d’Ele, quando estiverem com vontade de um verdadeiro afeto, de uma verdadeira intimidade sobrenatural.
Bem, ao mesmo tempo os senhores vêem esta alegria e os senhores vêem São Pedro afirmar que ele vai ser fiel com Nosso Senhor até o fim, mas os senhores vêem, por outro lado, intercorrer outra noção. Nosso Senhor diz a ele, entretanto: “Tu és que hás de Me trair”. Quer dizer, no meio de tanto afeto, a gente vê algo de bichado nesse afeto, algo de carunchado dentro desse afeto, e depois de ter sido dito que um dos Apóstolos O trairia, foi dito que o Chefe dos Apóstolos ia renegá-Lo. Os senhores estão vendo como essas coisas se misturam.
Há depois, também uma despedida. Nosso Senhor diz que [Ele] vai para onde não podem O acompanhar, mas depois há a alegria de um encontro marcado para depois. Os senhores compreendem quanto essas coisas nos fazem compreender, ou pelo menos entrever de longe, a multidão de disposições santíssimas que entravam no Sagrado Coração de Jesus e [no?] [do] Imaculado Coração de Maria nesse momento. Quer dizer, quantas alternativas de alegria e de tristeza, quantas alternativas de esperança e de angústia e de agonia, como tudo isso se cruzava nesta cerimônia grandíssima e como a Igreja procura bem representar nisso, sobretudo na Liturgia até há pouco, com as alegrias tristonhas da Quinta-feira Santa. Exatamente essa mescla dessas coisas.
* O Sagrado Coração de Jesus, símbolo de santidade inesgotável, cheio de bondade, sabedoria e equilíbrio
[Bem], o que é que tudo isso é indicativo para nós? A menção à devoção ao Sagrado Coração de Jesus, o que é que indica para nós? O Coração de Jesus é que é objeto de nossa [devoção?] [adoração], é o Coração de carne de [Nosso Senhor?] Jesus Cristo, hipostaticamente unido –– [a?] [como] todo [o] seu Corpo sagrado, [com?] [como] toda [a] sua natureza humana –– unido à Segunda Pessoa da Santíssima Trindade. Mas o Coração de Jesus é um símbolo. [Ele é] o símbolo da vontade d’Ele, dos desígnios d’Ele, daquilo que nós poderíamos chamar a mentalidade d’Ele, [é] o símbolo, portanto, da santidade inesgotável d’Ele.
O Coração de Jesus deu nessa ocasião uma glória inenarrável ao Padre Eterno, em cada passo dessa cena, sofrendo todas as angústias, todas as tristezas e tendo todas as alegrias que as circunstâncias comandavam, de maneira tal que aonde segundo os desígnios de Deus, Ele deveria estar alegre, Ele teve toda a alegria que a Providência queria naquela ocasião para aquela circunstância, onde Ele devia estar triste, Ele teve toda a tristeza que a Providência pedia para Ele naquela[s] circunstância[s]. Ele deu com isso para nós uma prova de um equilíbrio, de uma totalidade, de uma possibilidade de sustentar as situações morais mais diversas, ao mesmo tempo com uma serenidade de, com uma superioridade, com uma bondade, com uma afabilidade, uma coisa extraordinária.
Os senhores [O] vêem proceder [em relação aos que estavam] em torno d’Ele, com um tacto que surpreende. Ao mesmo tempo [em] que Ele prevê a traição de Judas e a negação de São Pedro, ao mesmo tempo [em] que Ele, portanto, diz da sua mágoa àquela gente, Ele os trata com uma bondade extraordinária, com uma gentileza, com uma afabilidade, Ele lhes dá o dom superabundante do seu próprio Corpo para eles comerem. Ele celebra, portanto, com eles uma união extraordinária e que é a união eucarística, mas os senhores vêem de outro lado, no fundo, e ao mesmo tempo em que Ele se dá inteiro, uma certa reserva, uma certa tristeza, uma certa acusação que paira pelo ar, uma queixa, mas ligada por meio de um prodígio de sabedoria e de equilíbrio, a um amor tão grande que a gente fica verdadeiramente confundido.
* Ter a alma nas próprias mãos, fazendo o que Deus quiser
Aqui está a posição do católico diante da bondade de Deus. Completamente submisso, completamente capaz, pela ação da graça, naturalmente, porque por nós mesmos não somos capazes disso, de nas várias circunstâncias experimentarmos tudo o que a circunstância pede de nós, na serenidade e na paz, não nos deixando arrastar pelas unilateralidades, não nos deixando arrastar nem pelas agonias, de maneira a fechar os olhos para as alegrias, nem nos deixando arrastar pelas alegrias, de maneira a fechar os olhos para as agonias. Mas, por assim dizer, segurando as nossas almas com nossas próprias mãos e fazendo que elas tomem a posição que elas [verdadeiramente] devem [efetivamente?] tomar.
Na Igreja da Luz, onde vou freqüentemente, há um epitáfio a um padre franciscano, morto em odor de santidade 1. Então diz aí que: “..animam suam in manus suam semper tenens, efflavit spiritum no dia tanto de tanto” 2; “[Tendo] dentro de suas mãos a sua alma sempre, ele evolou seu espírito no dia tanto de tanto”. O ter a alma nas mãos, mover a alma com a possibilidade com que movemos a mão, não com uma atonia, com uma indiferença glacial diante das coisas, que seria o pseudo-equilíbrio do mundo, não também com tragédias, com manifestações de alegria, falsas também, mas com esta espécie de nuancé, esta capacidade de dar matizes a tudo, aonde a alma toma uma atitude perfeita, dentro de toda a complexidade das circunstâncias, aí há para nós, [tão?] desejos[os] de distâncias psíquicas, tão desejosos de equilíbrio, talvez carentes disso, existe uma ocasião para uma meditação magnífica. Mas não é só uma meditação, é muito mais do que uma meditação, é uma participação.
Todos os fatos da vida de Nosso Senhor nos fazem, uma vez que os meditemos, e sobretudo durante a festa litúrgica a isso consagrada, todos os fatos nos comunicam graças que nos permitem participar dessas virtudes de Nosso Senhor. E, por essa forma, fala-se tanto entre nós de preparação da “Bagarre”, de uma coisa ou outra, diante da “Bagarre”, diante dos sofrimentos e das alegrias que nós devemos ter, não conheço preparação melhor do que pedir esse divino equilíbrio, essa divina flexibilidade de alma, por onde nós sejamos como uma cítara, onde Deus toca em nós as cordas que quer, e que nós demos exatamente o som que Ele quer de nós, plangente ou alegre, conforme as circunstâncias que Ele nos der. Aí os senhores têm a imagem do Sagrado Coração de Jesus, a devoção ao Sagrado Coração de Jesus.
* O verdadeiro amor ao próximo e as deformações revolucionárias do amor
Além desses dois princípios, há o princípio de amor recíproco. A palavra “amor” tem sido tantas vezes empregada mal pela Revolução, que eu tenho uma espécie de hesitação em empregá-la no final de um Santo do Dia que está demorando demais. O que dizer propriamente do amor? Eu já não falo da deformação sentimental do amor, eu falo da devoção irenística, superpacifística, eu falo da deformação do amor humanitário, naturalista, melada.
O amor não é sobretudo um sentimento, ele é sobretudo um conjunto de coisas em que entra o sentimento, em que o sentimento tem um papel, mas que não é o papel principal. O amor ao próximo é o conhecimento das razões naturais e sobretudo sobrenaturais que nós temos para amar o próximo, apesar das mil razões que temos para não o amar. Porque o duro está aí, Homo homini lupus, disse um poeta pagão3. Quantas razões nós temos para não amar o próximo! Entretanto, nós devemos ter este amor para com o próximo, por razões superiores, por razões transcendentes, mas que são razões tiradas da reflexão e, da reflexão que se aplica à natureza, mas que sobretudo se aplica aos dados da Fé.
Qual a principal razão pela qual nós devemos amar ao próximo? É que o próximo, sobretudo o próximo batizado, se ele é fiel à graça, ele é a imagem de Nosso Senhor Jesus Cristo. Eu tenho a impressão de que na nossa formação espiritual nós não soubemos ainda dar todo valor a uma alma. Nós pensamos o que representa uma alma em estado de graça, é uma verdadeira maravilha, [mesmo?] [ainda] que seja a última das almas, a menos importante do ponto de vista intelectual, do ponto de vista artístico, do ponto de vista cultural, isto bem pouco importa; a alma em estado de graça é uma maravilha tal que, do Céu, Deus, do seio de suas próprias maravilhas insondáveis, se compraz em considerar esta alma. E a pureza desta alma, a retidão desta alma, constituem objeto de alegria para todos os Anjos, para todos os Santos. Se nós compreendêssemos isto, nós compreenderíamos como nós devemos amar as almas que vão bem, e como nós nos devemos sentir intensa e profundamente irmãos de todos aqueles que são segundo Deus, que são segundo a Igreja Católica, que têm o verdadeiro espírito católico.
Nós deveríamos ter um amor superlativo, um amor que foi expresso naquele episódio de Nosso Senhor quando uma mulher disse a Ele aquelas palavras tão bonitas: “Bem-aventurado o seio que Te [gerou?] e bem-aventurado os peitos que te amamentaram”. Ele deu uma resposta cujos termos textuais eu não me lembro, mas cujo sentido era este: “Mais aventurados ainda aqueles que conhecem a vontade de Deus e a cumprem”. Quer dizer, o próprio fato de ser Mãe de Deus, segundo a natureza, era menos importante do que estar em estado de graça e cumprir a vontade de Deus.
* Amar ou odiar as criaturas como Deus as ama ou odeia
Os senhores estão vendo por aí, como Deus ama acima de tudo, na ordem das criaturas, a criatura reta que está em estado de graça. Como é que nós podemos amar uma criatura que está em estado de graça? Ainda que seja um estado de graça que coincida com o pecado venial, ainda que seja o estado de graça de alguém que nos faça muitas coisas, pela miséria humana, erradas e que não deveriam ser, para nós deve ser indiferente, se ele ama Deus. É meu irmão, pode fazer contra mim o que quiser, não tem importância. Que importância tenho eu? Eu não tenho importância! O que é importante é que sirva a Deus. Se ele serve a Deus, se serve a Nossa Senhora, o que é que eu sou? Sou menos do que um lacaio de Deus. Que importância tem que pisem em mim? Deixe pisar. Nosso Senhor não se deixou pisar por mim? E de que modo? Quem sou eu para não querer que se pise em mim? Que direito eu tenho? Que [direito?] [atrevimento é] esse de minha parte? Pelo contrário, pouco importa como me tratam. Se ele ama a Deus, se ele ama a Igreja Católica, ele é meu pai, ele é meu filho, ele é meu irmão, ele é carne da minha carne, ele é sangue do meu sangue.
Os senhores dirão: “Ah! Doutor Plínio, que palavras terrivelmente verdadeiras, mas que vales estabelece entre os homens! O senhor coloca de um lado os que são segundo Deus e depois a multidão dos que não são, e esses parecem estar fora do seu amor. Eu pergunto se não estão fora do amor de Deus”. A resposta é: inteiramente não, porque enquanto o homem está vivo, Deus tem em relação a ele, ainda quando ele é pecador, um amor de esperança, um desejo que ele se converta, e a graça chama isso para todo indivíduo. Mas eu não tenho para com ele o mesmo amor do que para com aquele que está em estado de graça.
Então, resultado: amo como Deus ama. Amo com amor de esperança que pode chegar –– ao menos deveria chegar –– até à imolação da minha vida por ele. Mas não é o amor de unidade completa daquele que está em estado de graça, porque este, eu devo amar completamente; o outro nós amamos com amor de esperança.
Os senhores dirão: “Mas, Doutor Plínio, e os réprobos?” [Eu digo] a estes: por este mesmo princípio eu preciso odiar. É preciso odiar, porque Deus odeia aquele que Ele condenou, Deus odeia a quem está no Inferno e, este preceito do amor é o meu próximo, não é próximo de mim [quem?] [desde que] Deus afastou de Si. Porque se é próximo de mim, quem Deus afastou de Si, eu não sou próximo de Deus.
Resultado, aí o corte é completo, e há verdadeiramente o ódio. Ao demônio, [aos precitos, o verdadeiro] [deve haver o?] ódio. Mesmo nesta vida, [dependendo] do amor, deve ser entendido como habitualmente não se entende. Eu, algum tempo atrás, li nas cartas de Maria de Ágreda –– como os senhores sabem, é uma freira espanhola que morreu em odor de santidade –– eu li numa carta dela a Felipe IV o seguinte. Felipe IV [o Rei da Espanha], escreveu uma carta a ela, dizendo que tinha morrido Cromwell, inimigo acérrimo, aliás infame, da monarquia espanhola; então ela respondeu: “Senhor –– eu tenho essa carta na coleção –– muito me alegra a notícia que me dá Vossa Majestade, de que morreu Cromwell, aliás já tinha conhecido o fato por outras vias. Alegra-me porque desde que [eu] soube que ele assinou um papel dizendo que ele era o inimigo principal de todos os “hereges” da Europa, eu comecei a rezar para que ele morresse”.
E então os senhores estão vendo que é presumível que a oração da freira espanhola contemplativa, no fundo de seu convento, tenha morto o tirano inglês, que, por alguns aspectos, pode ser chamado de heresiarca. Porque dirão: “Ela não teve amor a Cromwell”. Ela não pediu a perdição de Cromwell, ela com certeza desejava a salvação de Cromwell, mas para ela não era mais importante que Cromwell se salvasse ou se perdesse: é que não se perdessem os homens a quem Cromwell queria perder, que se salvassem os homens que Cromwell não queria que se salvassem pela ação nefanda dele como protetor da heresia na Europa.
Então, os senhores estão vendo o equilíbrio deste amor. Amar o próximo como a mim mesmo, não é amar o herege [de] tal maneira que pode fazer o mal que ele quiser: “Eu não quero que aconteça nada a ele, ele pode devastar as ovelhas, pode devastar o rebanho, quero dizer, pode devorar as ovelhas, que não tem importância nenhuma”. Não, não é isto. Se eu amo a ordem hierárquica de valores, eu amarei a ele também, mas amo de preferência os outros, de maneira que se não houver remédio, para o bem dos outros que são inocentes e que ele está tentando, senão uma punição sobre ele, eu peço essa punição.
Daí os senhores vêem uma freira mística, de virtudes [alcandoradas], fazer uma coisa que a muita gente pareceria pecado. Eu creio que noventa e nove por cento dos católicos de hoje, se se perguntar, se é pecado rezar pela morte de alguém, diria: é. Entretanto não é, e é certo que não é.
Aí os senhores têm o mandamento do amor entendido como ele deve ser, ultramontanamente entendido. Com essas considerações, nós nos devemos preparar para o dia ainda mais augusto da Semana Santa –– debaixo de um certo ponto de vista –– o mais augusto do ano, que é o dia de amanhã. Hoje nós devemos dar graças nestas horas que nos restam, ao menos por alguma jaculatória interior, pela instituição da Eucaristia.
Amanhã nós devemos agradecer uma coisa que é uma espécie de corolário da instituição da Eucaristia, que é a morte de Nosso Senhor na Cruz. Trataremos disso amanhã, se Deus quiser.
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1 Hoje Santo Antônio de Sant’Ana Galvão.
2 ...qui animam suam in manibus suis semper tenens, placide obdormivit in Domino die 23 decembris anno 1822 (...que tendo sempre sua alma em suas mãos, placidamente dormiu no Senhor no dia 23 de dezembro do ano de 1822.)
3 Homo homini lupus, femina feminae lupior, sacerdos sacerdoti lupissimus. O homem é um lobo para outro homem, a mulher é mais lobo ainda para outra mulher, mas o sacerdote é o maior lobo para outro sacerdote. [Erasmo, Adagia 1.1.70]
Sala dos Alardos [Auditório da Santa Sabedoria?]