Santo
do Dia (Auditório da Santa Sabedoria) – 1/4/1969 –
3ª-feira – p.
Santo do Dia (Auditório da Santa Sabedoria) — 1/4/1969 — 3ª-feira
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A pretensão dos Apóstolos e a lição de Nosso Senhor. Nosso Senhor se colocou como servidor e deve ser imitado. O valor do cargo é superior ao do indivíduo. Legitimidade da desigualdade e despretensão. Exemplos de Papas, santos e monarcas. Combate ao apego e à pretensão. A pretensão torna estéril o apostolado.
O Evangelho da Paixão – III
A lição de Nosso Senhor sobre a despretensão de quem tem autoridade
A pretensão dos Apóstolos e a lição de Nosso Senhor * A legitimidade da desigualdade e a despretensão no ensinamento de Nosso Senhor *A autoridade servidora de Nosso Senhor deve ser imitada * O cargo vale muito; o indivíduo vale muito pouco * Os exemplos de Jorge V e da Rainha Mary * Exemplos de outros monarcas europeus * Despretensão de Nosso Senhor é imitada pelos Papas * São Vicente Ferrer em meio às honras combateu a vaidade * Cuidado ao apetecer situações de destaque: evitar o apego e combater a pretensão * A pretensão torna estéril o apostlado
(D. Mayer:
Levantou-se então entre os discípulos uma discussão sobre qual deles seria maior. Mas Jesus lhes disse: “Os reis das nações as dominam com império, e os que exercem poder sobre elas são chamados benfeitores. Quanto a vós, porém, não seja assim. Pelo contrário, o que é maior dentre vós, torne-se como menor. E o que tenha a precedência, seja como o que serve. Pois qual é o maior: o que está à mesa ou aquele que serve? Não é o que se acha à mesa? Ora, Eu estou no meio de vós como aquele que serve. Para vós que Me permanecestes fiéis nas minhas tentações, Eu vos preparo um Reino como meu Pai preparou para Mim, a fim de que chegueis a comer e beber à minha mesa no meu Reino, que vos senteis sobre tronos para julgar as doze tribos de Israel”.
* A pretensão dos Apóstolos e a lição de Nosso Senhor
Essa discussão entre os Apóstolos foi durante a Ceia. É uma coisa curiosa que primeiro eles tinham [Ele tinha] lavado os pés, instituído a Confissão, depois a Eucaristia, tudo o mais. Chega nesse momento, levanta-se entre eles uma discussão de quem era o maior. Nós chamaríamos isso de pretensão, e tenho a impressão de que estaria perfeitamente bem chamado. Na hora mais augusta, no momento mais sagrado, quando eles deviam se preparar para os maiores sacrifícios, a preocupação deles era de quem seria o maior. Quer dizer, uma coisa completamente extrapolada, colocada fora da linha [em] que deveria estar.
Também Nosso Senhor dá uma lição. Mas ao dar uma lição, Ele dá incidentalmente uma porção de coisas que eu acho que valeria a pena comentar. Uma das coisas é a seguinte; Ele diz o seguinte:
Qual é o maior: o que está à mesa ou aquele que serve? Não é o que se acha à mesa? Ora, Eu estou no meio de vós como aquele que serve.
Nós vemos aqui uma afirmação muito interessante da desigualdade das classes sociais e da legitimidade da desigualdade das classes sociais, feita por Ele, que é apresentado blasfemamente como o “divino socialista”, como aquele que vem instituir uma igualdade xaroposa, adocicada, entre todos os homens. Ele toma aqui a coisa, tomando da natureza das coisas, pela natureza das coisas e, o que é mais, é ser servido ou servir. Ele diz: ser servido é mais do que servir; o servidor é menos do que aquele a quem ele serve.
* A legitimidade da desigualdade e a despretensão no ensinamento de Nosso Senhor
Quer dizer, há uma desigualdade que vem da natureza das coisas: uns servem os outros e os que servem são menos do que aqueles que são servidos. E essa desigualdade é um fato legítimo, que Ele toma como ponto de partida para exprimir depois a posição d’Ele. E a posição d’Ele, como é que Ele põe? Ele põe como aquele que veio servir. Ele diz que está no meio dos discípulos como aquele que veio servir. E aqui está a enorme lição de despretensão. É como quem diz: “Vós esperais ser os primeiros. Se Eu — diz Ele — Me coloco como servidor, como vós vos quereis colocar uns como primeiros em relação aos outros?” Aqui está a coisa exatamente acachapante. É o contrário do espírito d’Ele. É contrário a toda lição da vida d’Ele, é contrário à doutrina que Ele veio ensinar, a preocupação de se fazer valer, de montar em cima dos outros, de ser mais do que os outros, porque, pelo contrário, diz Ele, aqueles que devem mandar devem ser como os que servem.
* A autoridade servidora de Nosso Senhor deve ser imitada
Qual é, agora, o sentido que isso tem? No caso d’Ele, o sentido é evidente: Ele veio para remir os homens, Ele veio para salvar os homens, Ele estava ali como pastor que serve às suas ovelhas, que salva suas ovelhas. Ele estava ali, portanto, para o bem deles. É a autoridade constituída para o bem daqueles sobre os quais deve mandar. E aí vem a idéia de que a autoridade tem um fim dentro de uma ordem posta por Deus, e que a autoridade deve ser servidora desse fim. E que é por isso que a autoridade, embora se cerque de esplendor, de grandeza, de pompa, como deve cercar-se [, deve servir].
Os senhores viram nós comentarmos, no sábado, aquele episódio em que Ele louvava a mulher que derramava aquele ungüento precioso sobre a cabeça d’Ele. Embora deva cercar-se de pompa, a finalidade dela não é de mostrar alguém, de exibir alguém, de dar pretexto de alguém ser mais do que os outros, para se envaidecer pessoalmente. Esse que manda existe para o bem daqueles sobre quem ele manda. E assim, aqueles que obedecem, devem compreender esse sentido da autoridade, e devem amar a autoridade, devem amar o princípio da autoridade como sendo um princípio altamente benéfico. Então, Ele diz:
Os reis das nações as dominam com império e os que exercem poder sobre elas, são chamados benfeitores. Quanto a vós, porém, não seja assim. Pelo contrário, o que é maior entre vós, se torne como o menor, e o que tem a precedência, seja como o que serve.
* O cargo vale muito; o indivíduo vale muito pouco
A “megalice” dos reis no tempo anterior a Nosso Senhor era uma coisa incrível. Aqueles reis assírios, por exemplo, mandavam esculpir nas pedras dos rochedos os feitos deles. E para que não se apagassem, mandavam pôr uma espécie de porcelana dentro e vidrarem em cima, de maneira que eles tinham a esperança de que durante os séculos ainda se lesse isso. E em muitos lugares ainda se lê. Eles contam coisas que são evidentemente falsas. Eles mandavam escrever na pedra para constar que tinham feito tais coisas. Um deles, que eu li a inscrição, contava que numa caçada tinha domado um leão, pegando o leão pelas orelhas. Ou era um leão velho, que tinha sido embebedado previamente pelos cortesãos, ou era simplesmente uma “megalice” sem nome.
Aqueles imperadores romanos… “megalice” sem conta. A veneração que faziam lhes prestar, o modo pelo qual dominavam os outros, oprimiram, tocavam tudo à força, era uma coisa sem conta. Eu já tive ocasião de comentar com os senhores, várias vezes, o respeito que se tributava aos faraós. Li aqui uma vez uma carta de um agente consular de um faraó, na Assíria, escrevendo para o faraó e dizendo: “Eu, que sou indigno de beijar os vossos pés, indigno de beijar as patas de vossos cavalos, beijo o pó onde as patas de vossos cavalos se puseram”. Esse é o clima de “megalice” que os soberanos daquele tempo criavam.
Nosso Senhor mostra que quem é católico, que vem para servir, deve criar outra coisa — embora a autoridade dele seja muito grande e transpareça muito —, ele, como pessoa, como indivíduo, deve desaparecer por detrás de sua própria autoridade, ele deve eclipsar-se. O princípio vale muito, o cargo vale muito, a missão vale muito, o poder vale muito, o indivíduo vale muito pouco.
* Os exemplos de Jorge V e da Rainha Mary
Eu tive ocasião de contar aos senhores, depois de séculos de tradição cristã, aquele fato que li numa revista de História a respeito de Jorge V, avô da atual Rainha Elisabeth, e da esposa dele, a Rainha Mary. Todas as noites em que eles não tinham visitas no palácio, eles ficavam ouvindo vitrola, enquanto um secretário ia trocando [tocando?] os discos, porque ainda não tinha long play moderno, o sistema de troca-discos [toca-discos?] moderno. Quando chegavam as dez em ponto, o Rei se levantava e a Rainha também, e o secretário colocava “God save the king”, e o Rei tomava atitude de continência, diante do hino tocado ao rei, e a Rainha tomava uma atitude de oração. Ouviam o hino, que é: “Deus salve o rei”. Ouviam nessa atitude. Terminando, eles iam dormir.
E o Rudyard Kipling1 comentou que isso era a verdadeira humildade. Era o detentor da autoridade que compreendia que ele, como pessoa, era muito pouco; que o cargo era grande, a dignidade era grande, a pessoa era nada. E por isso tomava uma atitude de respeito diante de seu próprio cargo. Ali era o rei prestando continência à realeza; e a rainha rezando, como uma fiel qualquer, por aquela que era rainha da Inglaterra. Os senhores estão vendo aí o eclipsar-se da pessoa e o engrandecimento do cargo.
* Exemplos de outros monarcas europeus
Nos tempos de monarquia cristã também. Quando os reis de França eram coroados e depois saíam da Catedral de Reims, o povo acreditava — e parece que algum fundamento havia nisso — que eles tinham o poder de curar a escrofulose. Então, eles tocavam em filas de escrofulosos repugnantes — é uma moléstia da pele, coisa esquisitíssima2 —, que estavam à espera deles na saída da catedral. Eles tocavam cada doente com a mão e diziam: “Le roi te touche, Dieu te guérisse”, “O rei te toca, Deus te cure”. E diziam os cronistas do tempo que muita gente curava. Quer dizer, depois daquele esplendor máximo da realeza — a coroação de um rei de França era uma cerimônia fabulosa, em que aparecia o cargo e não o homem —, o homem condescendia em tocar os doentes mais doentes do seu reino, com suas mãos régias, para curá-los, usando de um carisma que ele reconhecia que não procedia dele. Ele dizia: “O rei te toca, Deus te cure”. Como quem diz: “O rei sabe que o rei não cura nada, que quem cura é Deus. O rei é um mero instrumento para que a ação de Deus se exerça”.
O exemplo de Nosso Senhor foi imitado nos tempos em que a Igreja era unida ao Estado, foi imitado em todas as monarquias européias. Ainda antes da guerra de 1914-18, em que quase toda a Europa era monárquica, no dia do lava-pés, os reis iam lavar os pés dos pobres. Francisco José, por exemplo, Imperador da Áustria-Hungria, ia lavar os pés dos pobres na Catedral de Viena. Qual era o significado disso? Um dos significados que o ato tinha era esse: ele, enquanto indivíduo, entendia que devia estar sujeito a todas as humilhações. Que uma é a dignidade do imperador e outra é a situação do indivíduo, e que o indivíduo, enquanto homem, esse deve desaparecer, por mais que o cargo seja excelente.
* Despretensão de Nosso Senhor é imitada pelos Papas
Os próprios Papas também fazendo o lava-pés. Ora o que quer dizer isso? De um lado é que o Papa imita Nosso Senhor Jesus Cristo — a dignidade pontifical, como a dignidade régia deve tocar os pobres —, mas, de outro lado, é a humilhação do homem, essa humilhação do homem que indica o desaparecimento da pessoa, mesmo no esplendor do cargo e da função.
Aí os senhores têm, pela aplicação da tradição cristã, a aplicação do ensinamento de Nosso Senhor. Os Papas se chamando, por exemplo, “Servidor dos servidores de Deus”, exatamente é uma reminiscência do que Nosso Senhor disse aqui. Então, nós para praticarmos adequadamente a despretensão, nós devemos compreender que toda grandeza terrena deve existir — porque Deus quis que houvesse grandes na ordem espiritual, como na ordem temporal —, toda grandeza terrena deve cercar-se do esplendor que lhe é próprio, mas que o homem que está colocado nesse lugar de grandeza, deve saber apagar-se. Mas quer dizer também, que aqueles que estão longe da grandeza, que não possuem o lugar, que não possuem o cargo, não o devem invejar. Por que do que adianta um cargo para quem não pode se gabar dele? Do que adianta um cargo para quem não pode servir-se daquilo como título para vaidade? Nenhum cargo, nenhuma situação pessoal na qual o indivíduo não possa consentir no envaidecimento, adianta de nada.
* São Vicente Ferrer em meio às honras combateu a vaidade
Eu me lembro que li numa vida de São Vicente Ferrer, um fato muito curioso. São Vicente Ferrer entrava em Barcelona — ele era grande missionário —, então preparou para ele uma recepção apoteótica. Quando estava o povo todo, e aquelas janelas com aqueles tapetes preciosos pendurados, ele entrando debaixo do pálio, com os nobres da cidade que iam carregando o pálio para ele, e a municipalidade, e o cortejo, etc., alguém perguntou para ele: “Irmão Vicente — alguma alma desconfiada — não estás vaidoso?” E ele respondeu isso, que quer dizer muito: “A vaidade esvoaça em torno de mim, mas não entra”.
Vamos agora tomar a medida disso: Do que adianta para um homem receber todas essas homenagens, se ele é obrigado a resistir à tentação de se envaidecer? O resto fica um “abacaxi”, não adianta nada. Porque se é para envaidecer, há um prazer terreno: envaideça-se. Mas se é para não envaidecer, passar por aquela caceteação toda, andar devagar, com aquela gente toda, e o pessoal aplaudir, e ele resistindo contra a tentação, quando ele chega: “Uf! acaba a tentação; ao menos estou trancado na minha cela, sozinho”. É claro. Esse é o verdadeiro dinamismo das coisas.
* Cuidado ao apetecer situações de destaque: evitar o apego e combater a pretensão
Daí, então, o que decorre? É que nós devemos tomar muito cuidado. Sempre que nós estamos apetecendo uma situação de mando, uma situação de destaque, uma situação de influência, nós devemos tomar cuidado. Nós nos apegamos àquilo só para nos mostramos. E acontece que se consentirmos de nos mostrarmos, nós não estamos imitando o exemplo de Nosso Senhor, que exatamente indicou que entre os católicos, aquele que manda deve ser como quem serve, e deve ser o menor. Deve ser apagado, deve ser sacrificado, deve-se imolar.
Os senhores dirão: “Mas, Doutor Plinio, o senhor diz isso para nós com uma ênfase, como se estivéssemos na iminência de sermos eleitos Presidentes da República! Ora, acontece que nós, como ultramontanos que somos, não estamos em via de ser eleitos nada. Porque o ultramontano não tem, ao menos no momento, um eleitorado muito grande. Então, por que o senhor nos diz isso?” Eu digo porque não se trata apenas de cargo, trata-se de situações, situações de ocupar alguma influência numa roda onde a gente vive: ser o primeiro numa conversa, numa mesa de jantar, numa mesa de almoço; ser o primeiro que conta a piada mais engraçada numa roda; ser o primeiro que tem a última novidade para contar, que tem o comentário mais recente, que sabe das novidades internas do Grupo e conta para o pobre do basbaque que ainda não sabe; estar ao par das coisas mais importantes; ser o primeiro a dizer a coisa mais audaciosa em matéria de doutrina. Tudo isso são coisas que significam preeminência e que dão apego. E é dessas coisas que devemos mostrar-nos desapegados, lembrando o exemplo e esse ensinamento de Nosso Senhor.
* A pretensão torna estéril o apostolado
Quanto maior é a pretensão, mais estéril é o apostolado, porque tem apostolado fecundo quem está unido a Nosso Senhor. Quem não está unido a Nosso Senhor, é como a vinha que está destacada do sarmento. Como podemos estar unidos a Ele, se temos pretensão? Eu não quero dizer que nós sejamos todos uns poços de pretensão. Mas eu quero dizer que todo homem, na melhor das hipóteses, é como São Vicente Ferrer: está sempre com a pretensão esvoaçando em torno dele. Isso é evidente. Então, cuidado! Ainda que recebamos manifestações tão mais modestas do que [a?] [as] que São Vicente Ferrer recebeu, lutar contra a pretensão, de todos os modos e com todo o empenho. Isso seria a conseqüência dessas palavras.
1 Joseph Rudyard Kipling , 1865-1936 – Escritor inglês, romancista místico-imperialista-inglês.
2 Escrófula: infecção tuberculosa em gânglios linfáticos do pescoço.
Auditório da Santa Sabedoria