Santo
do Dia (Auditório Santa Sabedoria) – 31/3/1969 –
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Santo do Dia (Auditório Santa Sabedoria) — 31/3/1969 — 2ª-feira
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Evangelho da Paixão - II
A conjuração – De ida ensinava Jesus no Templo e, à noite, saía e ficava na montanha chamada das Oliveiras. E todo o povo madrugava para ouvi-lo no Templo. Mas esse dia, Jesus não apareceu. A festa dos ázimos, que se chama Páscoa, estava próxima e devia celebrar-se daí a dois dias. E aconteceu que tendo Jesus concluído esses discursos, disse aos seus discípulos: “Sabeis que a Páscoa se há de celebrar daqui a dois dias e que o Filho do Homem será entregue para ser crucificado”. Os príncipes dos sacerdotes e os escribas procuravam meios de o prender a traição, para matá-lo. Mas temiam o povo. Então reuniram-se os príncipes dos sacerdotes e os anciãos do povo no átrio do Sumo Pontífice, que se chamava Caifás e deliberaram prender a Jesus astuciosamente e entregá-lo à morte. Mas, diziam eles, não seja no dia da festa para que não haja tumulto na multidão. Ora, entrou satanás em Judas, chamado Iscariotes, um dos doze, que foi conferenciar com os príncipes dos sacerdotes e magistrados, que lhes poderia entregar. E lhes disse: “Que me quereis dar, e eu vo-lo entregarei?” Ouvindo eles essas palavras, encheram-se de alegria e prometeram-lhe dar-lhe dinheiro,...[faltam palavras]...trinta moedas de prata. Obrigou-se Judas e daí por diante procurava ocasião oportuna de entregá-lo sem tumulto.
A dificuldade em fazer o comentário desse trecho é que mais ou menos o mesmo comentamos no sábado à noite. Fizeram aqui uma marcação errada, de maneira que eu teria dificuldade em acrescentar algo ao que foi comentado sábado à noite. Se me permitir D. Mayer, eu leio um trecho da Ceia e comento.
Chegou finalmente o dia dos ázimos em que se devia imolar o Cordeiro Pascal. Aproximaram-se os discípulos de Jesus e lhe perguntaram: Onde quereis que vamos preparar a refeição da Páscoa? Enviou Jesus a dois de seus discípulos, Pedro e João, dizendo: Ide e preparai tudo para comermos a Páscoa. Mas eles replicaram: Onde quereis que a preparemos? Respondeu-lhes Jesus: Eis que ao entrar na cidade, ir-vos-á ao encontro um homem que leva uma bilha de água. Segui-o até a casa onde ele entrar e direis ao pai de família da casa: O mestre te manda dizer: Meu tempo está próximo e em tua casa devo fazer a Páscoa com meus discípulos. Onde é o aposento onde poderei comer com eles o Cordeiro Pascal? E ele vos mostrará uma grande sala mobiliada. Fazei aí os preparativos.
É interessante que nós vamos ver os apóstolos – e isso aparece sobretudo na atitude de São Pedro durante a Paixão – tremendamente esquecidos das palavras de Nosso Senhor. Os senhores vão ver Nosso Senhor dizer a São Pedro que ele o trairia três vezes antes que o galo cantasse e, apesar disso, São Pedro só se lembrou disso quando ouviu o galo cantar. Quer dizer, uma espécie de [blasesaísmo?] dos apóstolos em relação a Ele, por onde podia ele fazer as maravilhas que fizesse, ou podia dizer o que dissesse, não se incomodavam, porque não lhes penetrava na alma. Os senhores estão vendo em inúmeros dessas passagens, Nosso Senhor afirmar seu poder Divino, e sua Ciência Divina. Aqui, por exemplo, vê-se que não é apenas uma combinação, mas que Ele já sabia das disposições desse homem, já conhecia, não já entendia como seria e mandava; quer dizer, havia depois uma espécie de milagre na confirmação: eles encontravam o homem, o homem estava disposto, e a coisa também, como Nosso Senhor tinha dito. Apesar disso, essas coisas não impressionavam os apóstolos. Eles, na fase final, se não houvesse uma contradição na expressão, pareciam estar numa espécie de delírio de tibieza. Tibieza posta em delírio. Quer dizer, eles caminham de maravilha a maravilha, vêem coisas cada vez mais esplêndidas mas, apesar disso, eles não se movem com a coisa, eles não se incomodam com a coisa e continuam tíbios até o fim. Eles estão numa rampa de tibieza que vai até a catástrofe final, a que eles chegam com a atitude miserável que tomaram durante a Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo. Aqui eles perguntam a Nosso Senhor e Ele prevê tudo como se passará. Eles vão e as coisas se passam como Nosso Senhor previu. Mas eles estão num desses estados de modorra em que eram homens de olhar para Nosso Senhor e dizer: Isso ele faz, ele faz profecias, também milagres, Ele faz curas, Ele gosta de fazer coisinhas dessas. É mania dEle. A mania dEle é fazer coisas dessas. Milagres, Ele faz extraordinários. Até ressuscitou gente. Ele deu para isso… Ele faz maravilhas. Ele é um fazedor de maravilhas. Um bocejo e está acabado. É esse o estado de espírito. E vamos ver que não se desmente até o fim.
Partiram os discípulos e chegando à cidade encontraram tudo como lhe fora dito e prepararam a Páscoa.
Encontraram tudo o que lhe fora dito…
À tarde veio Jesus em companhia dos doze e, chegada a hora, pôs-se à mesa com eles. E lhes disse: Desejei ardentemente comer essa Páscoa convosco antes de sofrer. Porque eu vos digo que não mais a comerei d’hora em diante até que ela se cumpra no Reino de Deus. E tomando o cálice, disse: Tomai-o e distribuí entre vós, porque eu vos digo que não tornarei a beber do fruto da vinha até que venha o Reino de Deus.
Eu não sou…, falo ao lado de um mestre em Israel e eu nunca tive tempo de ler comentários do Evangelho, mas a tomar as coisas como parecem assim aos olhos de um leigo, isso é uma coisa que me espanta: porque quando Nosso Senhor disse aos apóstolos: Um de vós me trairá, os apóstolos todos perguntaram: Serei eu? Serei eu? Porque tocava na pessoazinha deles. Mas quando Nosso Senhor fazia, a respeito de Si mesmo, as mais lúgubres profecias, não há manifestação de que eles tenham intervindo. Nosso Senhor diz algo que significa “Eu morrerei”; Nosso Senhor diz uma coisa carinhosíssima “Eu desejei ardentemente comer essa Páscoa convosco”. Era normal que eles dissessem alguma coisa: Nosso ardor também é muito grande, que bondade vossa desejar comer essa Páscoa conosco, alguma coisa que transparecesse o amor deles. Mas há constantemente um silêncio sepulcral, que acompanha ao longo dessas cenas agir figura deles, como uma sombra. Nosso Senhor dá essa manifestação de afeto, Nosso Senhor acentua aí a importância do ato que Ele ia realizar. Depois Ele diz que ia morrer – pois “não vou provar mais do fruto da vinha a não ser no céu” – etc, isso tudo quer dizer, eu vou morrer. Eles, o silêncio. A gente tem exatamente a impressão de um silêncio aparvalhado, de um silêncio cansado de um silêncio estonteado e sonolento. Enquanto não tocou neles, eles não se incomodaram. As duas reações que aparecem neles nesse período todo são: Nesse momento – digamos três reações: Durante a Ceia essas atitudes deles, que não se desmentem; depois, no Horto das Oliveiras a soneira; terceira atitude: a fuga. São as três coisas: os silêncios, o sono e a fuga; e são tão coerentes uma coisa com a outra que a gente é levado a supor um estado de espírito que se desenrola coerente consigo mesmo através das várias cenas. E aí vamos compreendendo então o isolamento e a grandeza de Nosso Senhor e a razão da tristeza dele. Ele desejava ardentemente comer a Ceia com aqueles. Aqueles comem a Ceia com Nosso Senhor e pouco se incomodavam. Uma efusão enorme do amor dEle, mas esse amor caía no chão, não tinha quem o recolhesse. A gente lembra aí a idéia de Santa Teresinha de se oferecer como vítima ao amor misericordioso. Exatamente é o amor que ama, que solicita, que quer os homens, amas que os homens rejeitam. Então é preciso que alguém receba esse amor em si; alguém dê essa correspondência ao amor que ninguém dá. Então recebe em si esse amor até, por assim dizer, estalar ou morrer de amor. Nós compreendemos diante de cenas dessas, os apóstolos assim.
Não é muito parecido com a posição do povo fiel, hoje em dia, durante a Semana Santa? E subam um pouco, também não é muito parecido? Essa soneira da Semana Santa… A Semana Santa passou a ser uma série de três dias de modorra. Quando não são três dias de imoralidade, em que as pessoas vão para o interior, para piscinas, para as praias, etc., etc, são três dias de modorra na cidade. E quando a gente entra nas igrejas a atmosfera que a gente encontra é uma atmosfera de modorra, habitualmente. Modorra que, por vezes, se D. Mayer permitir que se levante os olhos com atrevimento para o presbitério, modorra que, às vezes, atinge o próprio celebrante. É Nosso Senhor amando intensamente os homens, mas os homens tomando essa atitude de indiferença, essa coisa que vemos aqui nessa cena.
Continua a narração. Ele diz:
Tomai e distribui entre vós, porque eu vos digo que não tornarei a beber do fruto da vinha até que venha o Reino de Deus.
Não dava para fazer uma pergunta: quando vem o Reino de Deus? Vem logo? Vai tardar mais? Como é que é? Pode ser que eles tenham perguntado e que o evangelista não tenha registrado. Mas não parece. Todo o conjunto da cena dá a impressão de que não havia bem curiosidade de conhecer a Doutrina. Ele costuma doutrinar, é das coisas que Ele faz. Às vezes são Doutrinas meio misteriosas, a gente não entende bem, já estamos cansados de tudo isso. A cidade de Jerusalém, que interessante, lá fora; todas essas festas que vão se dar. Enfim, mil mundanismos e indiferença em relação a Nosso Senhor. Depois, continua:
Antes do dia da festa da Páscoa, sabendo Jesus que era chegada sua hora de passar desse mundo a seu Pai, como tinha amado os seus que estavam no mundo a, amou-os até o fim.
Mais uma afirmação, diante dessa frieza, do amor de Nosso Senhor. Apesar deles serem tão frios, Nosso Senhor os amou até o fim. A expressão é muito bonita: “Como amasse aos seus, amou-os até o fim”; quer dizer, amou-os até o sacrifício da cruz, até todos os sofrimentos, até todas as formas de misericórdia, até todas as formas de perdão, um amor que é coerente consigo mesmo e que vai até onde deve ir. Essa surpresa lógica no amor, é a ela que Nosso Senhor nos convida. Ele nos convida exatamente a sermos também assim: dizermos a Ele: como nós vos amamos, até o fim vos amaremos. Então estamos dispostos a vos entregar tudo, estamos dispostos a renunciar a tudo por vós, estamos dispostos a todos os sacrifícios, a todas as imolações, porque nós queremos retribuir. Mas essa retribuição, nós vamos ver que não se nota ao longo da narração, da parte dos apóstolos.
Depois da Ceia, tendo já o demônio posto no coração de Judas Iscariotes, filho de Simão, o desígnio de traí-lo, como soubesse Jesus que o Pai lhe entregara nas mãos todas as coisas, que saíra de Deus e ia a Deus tornar, levantou-se da mesa, depôs as vestes e, tomando uma toalha cingiu-se com ela. Depois, deitando água numa bacia, começou a lavar os pés dos discípulos e enxugá-los com a toalha que estava cingido”.
Os senhores estão vendo aqui a primeira manifestação do amor. Nosso Senhor tinha recebido todos os poderes. E como Ele tinha recebido todos os poderes, Ele ia começar exatamente lavando os pés e perdoando os pecados dessa gente. E os senhores estão vendo, ao mesmo tempo, a afirmação do trabalho do demônio. Judas, um apóstolo, abriu sua alma ao demônio. E o demônio entrou na alma dele. E daí o negrume daquela intenção pavorosa de trair Nosso Senhor. Quer dizer, ele quis ser possuído pelo demônio, ele abriu sua alma, o demônio entrou nele e ele fez a obra do demônio. E Nosso Senhor entretanto, até o fim, tentou comover Judas, tentou fazer cessar a ação diabólica em Judas, por um ato de generosidade que Judas, com certeza não quis por. Então vemos essa coisa comovedora. Nosso Senhor no último lance, para enternecer a Judas, ajoelha-se diante dele, lava os pés dele, segundo conta Catarina Emmerich, no momento de lavar os pés ainda abraçou as pernas dele, carinhosamente, com uma manifestação de afeto especial. E ele recusou. Ele recusou e os fatos seguem. E temos então a Ceia, que veremos amanhã.
Com isso fica terminado o comentário do Evangelho hoje e eu pediria a D. Mayer o favor de encerrar as orações e começar a outra parte da reunião.
Auditório Santa Sabedoria