Auditório Santa Sabedoria – p. 8 de 8

Santo do Dia — 29/3/1969 — sábado

Nome anterior do arquivo: 690329--Santo_do_Dia_Sabado.doc

Evangelho da Paixão – I

Como o encarregado das fichas do Santo do Dia não esta presente, eu vou lê: para os senhores e fazer o comentário do Evangelho do Domingo de Ramos. Evangelho do domingo de Ramos, segundo São Mateus, contem a narração completada Paixão. Aos senhores já vão ouvir essa narração nas igrejas amanhã. De maneira que vou escolher apenas um dos textos para fazer o comentário. Talvez o texto inicial, em que Nosso Senhor está como os apóstolos no Horto das Oliveiras e depois o julgamento dele. A crucifixão e morte eu deixaria para uma outra ocasião. O texto é o seguinte:

Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus: “Naquele tempo disse Jesus a seus discípulos: Sabeis que daqui a dois dias será celebrada a Páscoa e o Filho do Homem será entregue para ser crucificado”. Então se reunira os sacerdotes e anciãos do povo no palácio do príncipe dos sacerdotes, que se chamava Caifás e deliberaram sobre o

Medo de prender secretamente a Jesus e de o matar. Desciam, porém, “não seja no dia da festa, para não haja motim entre o povo”. Estando Jesus em Betânia, em casa de Simão o leproso, chegou-se a Ele uma mulher com um vaso de alabastro cheio de ungüento precioso e derramou-o sobre sua cabeça, estando Ele á mesa. Vendo isso os discípulos indignaram-se, dizendo: Para que esse desperdício? Podia esse ungüento vender-se por bom preço e dar o dinheiro aos pobres. Compreendendo, Jesus disse: Por que molestar essa mulher? Ela fez uma boa obra, porque pobres sempre os tereis convosco. Forem a mim nem sempre me tereis. E ela derramando esse ungüento sobre meu corpo preparou o para a sepultura. Em verdade vos digo: onde esse evangelho for pregado em todo mundo, também o que ela fez será dito para sua memória. Então, um dos doze, chamado Judas Iscariote, foi ter com os príncipes dos sacerdotes e lhes disse: Que me quereis dar para que vos entregue Jesus? . Eles combinaram dar-lhe trinta moedas de prata, e ele, desde então, buscava oportunidade para o entregar. No primeiro dia dos ázimos, chegaram-se os discípulos a Jesus dizendo: Onde quereis que preparemos para comer a Páscoa? Respondeu Jesus: Ide a cidade e a um certo homem dizei-lhe: O mestre diz: Meu tempo esta próximo e em tua casa, com meus discípulos, celebrarei a Páscoa. E os discípulos fizeram com Jesus lhes mandou e prepararam a Páscoa. Chegada a tarde, posse a mesa com seus doze discípulos e enquanto comiam, disse: Em verdade vos digo que um de vos me há de trair. Entristecidos sobre modo, começaram um após outro a perguntar: Acaso sou eu, Senhor? Respondeu Ele dizendo: O que mete comigo a mão no prato, esse me entregara. O Filho do Homem vai como assim está escrito dEle, mas ai daquele por quem o Filho do Homem será entregue. “Bem lhe fora que não houvera nascido” Tomando a palavra, Judas, que o trairá, disse acaso sou eu, Mestre? Respondeu-lhe Jesus: Tu o disseste”.

Essa parte inicial da narração do Evangelho é uma parte pungente, porque mostra as dores que Nosso Senhor Jesus Cristo sofreu no Horto das Oliveiras, dores que, a meu ver, som ao mais dilacerantes de toda a sua Paixão, porque foram as dores mais morais, tão mais cruéis do que as dores do corpo, a gente vê as dores que Nosso Senhor Jesus Cristo sofreu durante a Paixão, se aproximarem dEle e Ele também vir de encontro a dor. Nos vemos Nosso Senhor Jesus Cristo, Homem-Deus, que se apresenta aqui com quem já sabia o que ia acontecer e quem esta na tristeza profunda dos acontecimentos que se dariam, prevê os acontecimentos e o evangelista São Mateus vai notando todos os fatos que explicam aquilo que se deu. Tudo dentro da narração dEle é sintomático do que depois se daria. Quer dizer, Nosso Senhor, antes de se entregar nas mãos dos verdugos, Ele se entregou voluntariamente às mãos daqueles que precederam os verdugos de sua alma. Ele passou por um verdadeiro martírio pela tibieza dos apóstolos – de que aqui há um sintoma verdadeiramente alarmante – depois, pela ingratidão e maldade de Judas, e Ele foi profetizando tudo quanto aconteceria. Depois, no fim, a profecia caiu, e como um raio despencou sobre ele a punção de Deus. Já que Ele era o Cordeiro sem mancha que deveria ser destruído, para sacrificar-se para resgatar os homens.

Os senhores vejam como a narração que é feita é sintomática. Começa assim:

Naquele tempo disse Jesus a seus discípulos: “ Sabei que daqui a dois dias será levada a Páscoa e o Filho do Homem será entregue para ser crucificado.”

Os senhores estão vendo, portanto, que Ele profetiza tudo aquilo que lhe haveria de acontecer. Coisa interessante: nós não notamos, da parte dos discípulos, nessa narração, a reação que deveríamos esperar. Se eles criam Jesus Cristo como Deus, se eles sabiam que Deus não pode se enganar e não pode enganar ao outros, eles não poderiam ter a menor duvida de que essa crucifixão ocorreria. Eles deveriam já estar com favas contadas, como fato consumado, que Nosso Senhor, de fato, seria crucificado. Agora os senhores vão ver a atitude deles.

Então reuniram-se ao príncipes dos sacerdotes e anciãos do povo no palácio do príncipe dos sacerdotes que se chamava Caifás, e deliberaram sobre o modo de prender concretamente a Jesus e de o matar”.

Os senhores estão vendo que Ele primeiro profetizou para depois haver a conspiração. Quer dizer, Ele não profetizou depois da conspiração, de maneira que Ele pudesse ter sabido dessa conspiração por algum canal que lhe tenha dado a informação. A narração do Evangelho é clara: primeiro Ele profetizou, depois dEle ter profetizado os fatos que Ele profetizou começaram a se desenrolar. Então houve a conspiração dos que odiavam. Então, os senhores estão vendo aqueles que o odiavam, cheios de indignação, tramando, se encontrando e querendo levar o ódio ás ultimas conseqüências e matá-lo. Em face desse ódio do adversário, qual é a atitude dos que seguiam a Nosso Senhor Jesus Cristo? Diz o seguinte: eles comentaram que não queriam que fosse em dia de festa, para que não houvesse motim entre o povo.

Estando Jesus em Betãnia, em casa de Simão, o leproso, chegou-se a Ele uma mulher…”

Portanto, essa profecia de Nosso Senhor deve ter sido feita fora de Jerusalém, provavelmente em casa de Simão, o leproso ou ao menos em alguma casa, em Betânia.

“… chegou-se a Ele uma mulher com um vaso de alabastro cheio de ungüento precioso e derramou-o sobre sua cabeça, estando Ele a mesa. Vendo isso, os discípulos indignaram-se, dizendo: Para que esse desperdício?”

Quer dizer, enquanto uns estavam tramando contra Ele, os discípulos consideravam um desperdício o ungüento precioso derramado sobre a frente sagrada dEle. Os senhores estão vendo a diferença… [falta palavras] …

E os senhores estão vendo o pior: Ele estava consentindo nisso. Quando isso foi feito, Ele provavelmente tomou uma expressão de agrado, porque o resto da atitude dEle significa isso. Quer dizer, temo o valor de uma objeção contra Ele. Não só contras o gesto dela, mas contra Ele que consentia nisso. Quer dizer, Ele estava aceitando ser ungido com um perfume precioso, quando Ele deveria ter zelo pelos pobres e interromper aquele gesto. Quem sabe se aquele perfume ainda podia ser aproveitado por algum pobre? A resposta dEle é uma resposta tristíssima. Compreendendo, Jesus disse: Parece-me que eles falaram entre si e Nosso Senhor intuiu o que eles disseram, porque diz: Compreendendo e não ouvindo.

Compreendendo, Jesus disse: Por que molestais essa mulher? “

Com certeza eles estavam falando com a mulher e não com Nosso Senhor, e Nosso Senhor então interrompeu:

Por que molestais essa mulher? Ela me faz uma obra boa. Quer dizer, deve-se fazer esse serviço e vocês não têm doutrina, vocês não sabem as coisas como são. Vocês não têm espírito, vocês não estão valendo nada. Vocês objetam contra mim, eu vou lhes dizer: não é. Isso é bom.

Agora isso era no fim da pregação dEle, depois dEle ter dado toda a doutrina a esses homens que dar Ele pudesse, esses homens fazem um erro de escarrapachar. O erro é muito grave, porque é não compreender tudo quando ele merecia. É, portanto, um erro muito grave. Ele depois da a explicação. Engraçado que ele podia dar a seguinte resposta: Eu sou Deus, eu mereço. Ele da uma explicação diferente:

Porque pobres sempre os tendes convosco, porém a mim nem sempre me tereis.

Quer dizer, Ele da uma espécie de corretivo nisso que se poderia chamar uma… [falta palavra] … Coitado do pobre, pobre pobre: Nosso Senhor mostra que nem tudo deve ir para o pobre. Ele que tinha sido o exemplo e o pai da caridade, Ele mostrava, pela atitude dEle, quem nem tudo é feito para o pobre. Que o pobre é um valor, mas não é um valor supremo. E Ele se coloca em contraposição ao pobre. É o amor do pobre e o amor de Deus que estão na posição. Como os senhores verãos daqui a pouco, se me lembrarem, é a igreja constantiniana e oposição com a nova igreja dos pobres. Então, Nosso Senhor dá a razão:

Os pobres vós os tereis sempre.

Como quem diz: o problema da pobreza é irremediável; Procurai remediá-lo, não procureis eliminá-lo, porque Ele não é eliminável. Agora, eu vou morrer. Como quem diz:

Vós não vos lembrais de que eu vou morrer? Vós não vos lembrais da profecia que eu fiz, nem na hora em que meus verdugos caminham para mim para me matar? Vós tendes para o comigo a atitude de afeto, a atitude de adoração, que é a única que diante dEle se poderia ter? Pergunta Ele, e continua, dá uma explicação que vai mais ao vivo:

Ela, derramando esse ungüento sobre meu corpo, prepara-o para a sepultura”

Estavam numa reunião e numa reunião com certo caráter festivo. Ele ali fala da sepultura dEle, Ora, quem deveria preparar o corpo dEle para a sepultura? Os corpos eram ungidos para a sepultura e Ele estava sendo ungido. O gesto dessa mulher tinha algo de profético. A quem incumbia preparar o corpo dEle para a sepultura? Aos discípulos dEle, aos apóstolos dEle. Era natural, era deles essa missão. Pois bem, nem só eles nem pensaram nisso, apesar de terem recebido a confidencia de que Ele seria morto, mas a coisa foi mais longe. Quando outra fez o que eles não fizeram, eles atrapalharam quem fez. Não esta distante da figura de “sabugo”, que não só não faz o que deve, mas depois atrapalha aqueles que deves fazer, de fazer o que devem. Agora, a atitude deles: eles deveriam cair em si, eles deveriam ficar desolados, eles deveriam ter um choque. Nada, a Tibieza… [falta palavra]…

Em verdade eu vos digo, onde esse Evangelho for pregado em todo mundo, também o que ela fez será dito para sua memória ”

È uma parte da verdade que ele disse. Se Ele não estivesse infinitamente acima de qualquer comparação – nada nem ninguém se pode comparar a Nosso Senhor de nenhum ponto de vista – nos diríamos que Ele foi Saint Simoniano. Porque de fato o que aconteceu foi mais do que isso. E Ele poderia ter dito o que aconteceu: É verdade que por toda parte onde esse evangelho for pregado, vai a ser lembrado o que fez essa mulher. Mas há mais: por toda parte onde esse evangelho for pregado, será noticiado o mal que eles fizeram. E ele poderia ter dito: ate a consumação dos séculos, a vergonha desse gesto ficara patente. Esta aqui. A igreja canta isso. Cantava isso no domingo de Ramos. Agora, isso já não figura no Evangelho, pelo menos no Evangelho que eu ouvi hoje. Mas a Igreja cantava isso no domingo de Ramos, a infâmia deles, a tibieza deles, por toda parte onde esse Evangelho for pregado, a não sei o que deles foi ensinada. E Nosso Senhor sabia que era. Agora vejam a delicadeza dEle. Em vez de dizer a coisa de face e estourar com Ele – que é o que meu coração pediria, é o que eu desejaria. Eu gostaria de vê-los explodirem de vergonha no chão. Eu, Plinio, é o que eu queria. Mais ainda: a julgar pelos meus impulsos, eu gostaria de estar lá e de acrescentar: dizer: vilões: Nosso Senhor não disse a vocês, mas eu digo Ele me contou que por toda parte vai se contar que vocês, nessa ocasião da vida de vocês, não prestavam nada. Eram uns pulhas e pior do que uns pulhas. Como eu gostaria de dizer isso. Nosso Senhor não disse. Vejam a delicadeza dEle. E não que dizer que faça mal em querer dizer. Vou dizer mais: meu desejo de dizer isso tam o valor de uma reparação. E Ele, quando isso se-deu, Ele viu meu desejo. E meu desejo deve ter consolado. Mas quer dizer que Ele não fez. Não quer dizer que não se deve fazer sempre, mas quer dizer que na superior sabedoria dEle, Ele tinha razões para não fazer. E Ele nos deu ai, não uma lição de serenidade divina que Ele poderia ter dado, mas uma lição de delicadeza quintaessenciada. Na hora de receber a bofetada, o ultraje dos que lhe eram mais próximos, Ele elogiou a mulher, Ele defendeu a mulher, mas Ele não acusou, embora tudo isso seja um libelo contra eles. Mas Ele não acusou. Mais ainda: toda a impressão que a narração da é de que eles não perceberam. Porque sabugo é isso. Estão contentes. Com certeza vão comer. Vejam vocês as coisas: onze ficaram na tibieza, um ficou cheio de ódio. E foi Judas. Esse não foi sabugo, mas foi traidor. E aqui esta:

Então, umo dos doze, chamado Judas Iscariotes, foi ter com os príncipes dos sacerdotes e lhes disse: o que me dareis para que eu vos entregue Jesus?”

É engraçado que Ele já parecia saber que os príncipes dos sacerdotes tinham se reunido para matar Jesus. Quer dizer, Jesus disse que seria crucificado. Não disse quem é. E Ele já soube. E já mordeu direto: o que me dareis?

Eles combinaram dar-lhes trinta moedas de prata e ele então buscava oportunidade para o entregar.”

Qual era essa oportunidade? Aqui esta dito: se Ele fosse preso no meio de povinho, podia haver revolta e aí a gente vê as bases sempre menos ruins do que as cúpulas. Era preciso pegar Nosso Senhor numa hora em que Ele estivesse isolado. Então Ele espreitou a hora em que Nosso Senhor foi para o Horto das Oliveiras entregar a Nosso Senhor, porque ali não tinha senão os apóstolos. Quer dizer, ele sabia que Nosso Senhor estava em má companhia, sabia por que conhecia por dentro. Agora vejam o papel de Nosso Senhor: conhecendo tudo isso, vai para o lugar onde Ele não tinha defesa. E se põe na mão dos sabugos, implorando a noite inteira que tivessem pena dEle, para depois ser preso pelos inimigos, pelos dele sem pena dEle, para depois ser preso pelos inimigos, pelos celerados. Por que? Porque Ele sabia que essa a vontade do Padre Eterno e Ele obedecia ate a morte e morte de cruz. Quer dizer, é uma obediência absoluta aos desígnios da Providencia, vendo embora o que deveria acontecer. Vejam que exemplo para nós.

Entristecidos sobremodo…

Aí eles ficaram muito entristecidos!

Começaram uns após outros a perguntar: Acaso serei eu, Senhor? Respondeu Ele dizendo: O que mete comigo a mão no prato, esse me entregara. O Filho do Homem vai assim, como esta escrito dEle, mais aí daquele por quem o Filho do Homem será entregue. Bom lhe fora, a tal homem, se não tivesse nascido.”

Aí Ele lança a maldição contra Judas Isacariotes. Ele que fora tão delicado para com os discípulos, contra Judas Ele deita a maldição. Ele diz a pior das coisas. Ele profetiza a perdição eterna de Judas. E Ele diz de Judas a pior das coisas que se pode dizer. Porque era melhor para ele não ter nascido, então é o inferno que tinha ele diante de si. A acusação é o inferno. Diz-se hoje que a Igreja não pronuncia excomunhões. E diz-se que isso se faz em exemplo mansuetude de Nosso Senhor Jesus Cristo, á mansidão de Nosso Senhor Jesus Cristo. Aqui não é uma coisa muito pior do que uma excomunhão? Porque a excomunhão não é a condenação de alguém ao inferno. Aqui é a condenação ao inferno. É taxativo, é absoluto: Um de vós me há de trair. Claro que Ele sabia quem era. Ele ate disse: Aquele que meter a mão comigo no prato etc.

Tomando a palavra Judas, que o trairá, disse: Acaso sou eu, Mestre? Respondeu-lhe Jesus: Tu o disseste.

Ainda aqui entra uma coisa que é um misto de delicadeza e de [acapachamento?]. Porque em vez dEle dizer a Judas: é assim, ou qualquer coisa, Ele lança a palavra a Judas, como quem diz: eu te julgo das palavras de tua boca. Você é um traídor que pergunta da traição? Esta bom. O traidor é você. Quer dizer, com Judas as coisas estão seladas, a profecia esta feita e se cumprira.

Aqui esta algumas meditações, algumas reflexões. Os senhores vêem através disso como uma alma pode ser dura, como uma alma pode ser fria. Depois de não só ver as maravilhas que os apóstolos viram, ouvir as maravilhas que eles ouviram; mas aquilo que eu tenho a impressão de que deve ter sido uma maravilha maior do que todas, que era Ele, ter visto a Ele, Nosso Senhor Jesus Cristo. Basta olhar para o sudário de Turin que a gente compreende que, ou um homem tem o coração de pedra, ou, vendo-o, a vai atrás dEle e não pensa em mais nada. Pois bem: apesar de tudo isso, apesar de mais: eles fizeram milagres em nome de Nosso Senhor. Quer dizer, não só eles viram, mas fizeram esses milagres: expulsaram os demônios, quando Nosso Senhor os mandou pregar, creio, se não me engano, que fizeram curas, mas certamente ouvimos falar de expulsão de demônios –eles cooperaram nesses milagres, eles tinha tudo; mas o que levava então esses homens a duvidar? Qual era a razão desse estado de espírito deles? Era uma duvida, porque os senhores estão vendo: se não era uma duvida duvida, era uma fé mortiça, uma crença indiferente, uma frieza a respeito disso tudo, uma coisa inexplicável segundo as regras da lógica humana. Essa coisa inexplicável que se afirma adiante é o seguinte: a tibieza deles durante a Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, a agonia dEle no Horto das Oliveiras. Depois, durante a Paixão, quando eles fogem. Como é que se explica tudo isso? É… [falta palavra]… intelectual, é uma recusa? O que havia em Nosso Senhor que pudesse causar uma recusa? Nele não havia nada que pudesse causar uma recusa. Ele era todo inteiro adorável, todo inteiro perfeito; neles não havia nada que não pudesse, superlativamente atrair a todos os momentos e debaixo de todos os modos. O que havia então? Os senhores vêem que essa recusa tem todas as notas do desanimo. É um abatimento – inclusive o sono no Horto - tudo tem todas as notas de desanimo, todas as notas da entrega. A seu ver a coisa esta nisso. Eu precisaria comenta, ou melhor, precisaria consultar um comentarista para ver se é verdade. Eu não tenho certeza. Mas quando Nosso Senhor deu-lhes o poder de praticar milagres, eles não se lembravam que praticavam aquilo em nome dEle. E, para usar a linguagem cara aos senhores, megalizaram; começaram a achar que eram uns colossos e que estavam praticando aquilo por força própria. E ficaram muito grandiosos, e achando que o dia do triunfo terreno de Nosso Senhor não estava longe. Por causa disso, quando eles viram se aproximar os fatos, e quando eles perceberam que depois daquele triunfo de Jerusalém, em que eles talvez tivessem achando que estavam próximos de ser ministros de Estado – tudo estava mudado e que a causa de Nosso Senhor estava pior do que nunca, e que eles em vez de seres ministros do rei, filho de David, eles não eram senão os oprimidos, perseguidos, como “criminoso” Filho de David, quando isso se deu, eu tenho a impressão de que eles caíram no abatimento. Eles queriam a vitória próxima, uma vitória imediata; em vez da vitória, vinha o isolamento, vinha o abandono, vinha censura geral, vinha o desprezo, e eles então caíram nisso. Nosso Rei não nos deu o triunfo que pensávamos. Não fez nos os grandes homens, não nós deu a carreira que nós esperávamos para Ele e para nós. Nós esperávamos ser homens ao cotado em Jerusalém, essa Jerusalém centro do mundo porque nela nós nascemos. Não esperávamos ser grandes homens lá. Nós nos vemos desprezados em Jerusalém. Não temos mais coragem de viver. Não temos mais coragem de acompanhar esse homem. Não sabemos mais viver sem Ele, não sabemos mais viver com Ele. Vamos nos prostrar dentro do sono. Nossas famílias não estão achando que nós somos grandes homens. Nossas famílias estão achando que estamos seguindo um fracassado. Nossas famílias estão achando que nossa carreira rateou. Estão olhando para nós e dando risinhos. São Pedro deve ter pensado: E meu primo, que hoje tem duas barcas no lago de Tiberídes, enquanto eu não tenho nenhuma …[falta palavras]… Oh vergonha não ter duas barcas no lago de Tiberíades …[falta palavras]… Essa barca mística de que ele falou, isso não vem nunca [falta palabras]… Ao menos há tanta espera e tanto sofrimento…[falta palavras]…Eu quero ser igual ao meu primo, ou superior. Eu quisera ter três barcas…[falta palavras]…Se eu fosse importante em São Paulo, se eu fosse importante no Rio, se eu fosse importante em Bello Horizonte, em Buenos Aires, em Santiago de Chile, em não sei que outras cidades…[falta palavras]… Por essa América do Sul, como eu ficaria consolado… Mas no meu caminho da importância os meus próximos se riem de mim, os homens que eu admiro têm pouco caso por mim, nem falam da TFP. Como eu estou exausto, como eu estou fatigado…[falta palavras]…Que sono…[falta palavras]… Esse santo do dia não acaba mais. Doutrina enorme…[falta palavras]… Que caudais de doutrina! Não agüento isso. Estou cansado de tomar notas e se não tomo nota durmo. Ai as demoras da Providência Divina…[falta palavras]… Os prêmios admiráveis, mas que tardam…[falta palavras]… Que só são dados aqueles que sabem esperar. Agora vamos fazer um salto por cima da Paixão essa gente não valia nada. Era uma sabugada horrorosa. Merecia os piores pavores. Reúnem-se aos pés de Nossa Senhora e começam a rezar; desce sobre eles o Espírito Santo. É o que acontece para quem se reúne num junto a Nossa Senhora. Nossa Senhora traz o Espírito Santo. São Luís Grignion de Monfort disse isso de modo admirável. Ela é a esposa do Espírito Santo e onde esta a esposa lá vai o esposo. E forma Jesus nas almas. Desce o Espírito Santo sobre ele sobre a forma de língua de fogo e eles mudam completamente. E eles espalham pela terra um Evangelho cheio da narração das infâmias deles, da glória de Jesus e da glória do Espírito Santo que os converteu. Eu quisera ouvir São Pedro, os outros apóstolos, São João, contando o mal que fizeram. Eu quisera ouvir o amor com que contavam isso. Eu quisera ter um pouco da contrição contagiosa com que eles contavam tudo isso. Eu quisera pedir perdão como eles souberam pedir perdão. O enlevo com que eles contaram: eu pequei, eu fui infiel, eu… [falta palavras]…, Eu não fiz, mas o sol da virtude, que é Nosso Senhor Jesus Cristo, Ele tinha todas as razoes do lado dEle. Ele fez assim, Ele me superou de tal modo, Ele me esmagou de tal modo e aindam me ressucitou de tal modo; e aqui estou eu para cantar as grandezas e a gloria, a misericórdia e as bondades divinas. Quão tudo isso deve ter sido tocante, e como a gente compreende que ao ouvir isso aqueles homens péssimos do paganismo começassem a se sensibilizar, começassem a mudar de atitude, começassem a chorar os seus próprios pecados, começassem a chorar com aquele prato de paz – e não de pânico – com aquele prato, quase eu diria, de consolação, que é o pranto da verdade contrição. Como isso seria uma coisa admirável: essas chamas de sabedoria, de contrição e de amor de Deus pagando fogo no mundo inteiro.

Então, nos devemos nos preparar para a Semana Santa, já que estamos numa conferência introdutória dela – com essas considerações. Devemos nos lembrar do que é que nós temos sido para o grupo, que é para nos a Igreja Católica na célula da Igreja que nós devemos estar. Devemos nos perguntar com temos sido com a Igreja. Nessa Paixão da Igreja, nós temos sido com ela como os apóstolos deviam ter sido com Nosso Senhor? Ou nós temos sido também frios, indiferentes, tíbios… [falta palavras]… Nessas provações e nesses vendavais do mundo, como é que temos sido? Nós devemos ter contrição. Compreender o mal que fizemos. Pedir, pelo menos, essa contrição. A contrição não é tanto uma água, que a gente faz força numa bomba e tira debaixo do solo, mas é uma chuva que a gente obtém do céu a força de pedir. É preciso pedir essa contrição. Mas uma contrição que vare a alma de lado a lado, de maneira tal que quando chegar a festa da Ressurreição de Nosso Senhor, nós estejamos renovados, nós também estejamos ressuscitados dos escombros da vida espiritual, ou pelo menos dos nossos defeitos, de nossas infidelidades etc. Quando vier o dia de Pentecostes, possamos receber o Espírito Santo. E, de fato, cheios do Espírito Santo, possamos enfrentar a “bagar” de lança em riste, com a verdadeira lança, a lança verdadeira é o guerreiro, é o escravo de Nossa Senhora posto em face do adversário. Ereto, pontudo, brilhante, limpo como uma lança: bem entendido, para feri-lo, para prostrá-lo, para proclamar o Reino de Maria. Fiquem esses os nossos propósitos de entrada da Semana.

Auditório Santa Sabedoria